20 de abril de 2017

7. A menina que domava pesadelos


ERA UMA VEZ uma menina chamada Lavinia, cujo único desejo era ser médica, como o pai. Lavinia tinha uma mente aguçada e um coração bondoso, sentia prazer em ajudar as pessoas. Teria sido uma excelente médica, mas o pai não aceitava isso. Ele também tinha um coração bondoso e queria apenas poupar a filha de decepções: naquela época, não havia nenhuma médica mulher nos Estados Unidos, e parecia inconcebível que ela fosse aceita em uma escola de medicina. Por isso, ele a encorajava a ter ambições mais realistas.
— Há outras maneiras de ajudar as pessoas. Você pode ser professora — sugeria o pai.
Mas Lavinia odiava suas professoras. Na escola, enquanto os meninos aprendiam ciências, Lavinia e as outras meninas eram ensinadas a tricotar e cozinhar. Mas ela não desistia: roubava os livros de ciências dos garotos e os memorizava; espiava pelo buraco da fechadura do consultório do pai para vê-lo examinar pacientes; atormentava-o com perguntas sem fim sobre o trabalho; dissecava sapos que encontrava no jardim para examinar as entranhas. Ela jurou para si mesma que, um dia, descobriria a cura para alguma doença. Um dia seria famosa.
Lavinia nunca poderia imaginar que esse dia chegaria tão rápido, tampouco a maneira como isso aconteceria. Seu irmão mais novo, Douglas, sempre tivera pesadelos, e nos últimos tempos vinham ficando piores. Muitas vezes ele acordava gritando, convencido de que monstros estavam indo devorá-lo.
— Monstros não existem — disse Lavinia certa noite, enquanto o confortava. — Tente pensar em filhotinhos quando estiver adormecendo, ou no Gorducho correndo pelo campo.
Ela deu um tapinha em seu velho cão de caça, que estava deitado ao pé da cama. Na noite seguinte, Douglas começou a pensar em Gorducho e em pintinhos quando foi dormir, mas em seus sonhos o cachorro se transformava em um monstro que arrancava a cabeça dos pintinhos a dentadas, e ele acordou gritando mais uma vez.
Preocupado com a saúde de Douglas, seu pai observou os olhos do menino, a garganta e os ouvidos e examinou o corpo todo à procura de eczemas, mas não conseguiu encontrar nenhum problema físico. Então os terrores noturnos pioraram tanto que Lavinia resolveu, ela mesma, examinar Douglas, só para o caso de o pai ter deixado passar algo.
— Mas você não é médica. Você é apenas minha irmã — protestou o menino.
— Cale a boca e fique parado. Agora diga AHHH.
Após examinar o interior da garganta e o nariz, foi a vez dos ouvidos, e bem no fundo deles, com a ajuda de uma luz, ela viu uma massa estranha de material negro.
Lavinia enfiou o dedo no ouvido do irmão e o agitou, e quando o removeu, um fio fuliginoso de alguma substância se enroscava na ponta. Ao retirar a mão, um metro daquela substância saiu do ouvido de Douglas.
— Ei, isso faz cócegas! — disse ele, rindo.
Ela embolou o fio na mão. A coisa se remexia de leve, como se estivesse viva.
Lavinia mostrou aquilo ao pai.
— Que estranho — observou ele, erguendo o fio à luz.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Não sei — respondeu ele, franzindo o cenho.
O fio se retorcia vagarosamente na direção de Lavinia.
— Acho que ele gostou de você — comentou o pai.
— Talvez seja uma descoberta! — falou a menina.
— Não acredito que seja. De qualquer modo, não precisa se preocupar com isso.
Ele lhe deu um tapinha na cabeça, pôs o fio em uma gaveta e a trancou.
— Eu gostaria de examinar essa coisa também — insistiu ela.
— É hora do almoço — respondeu ele, enxotando-a.
Lavinia foi para o quarto pisando duro, irritada. Aquilo poderia ter sido o fim da história, não fosse por um detalhe: Douglas não teve pesadelos naquela noite, tampouco na noite depois daquela. Ele creditava sua recuperação inteiramente à irmã.
O pai deles tinha suas dúvidas. Pouco tempo depois, porém, um paciente dele reclamou de insônia devido a pesadelos, e, tendo as recomendações do médico falhado em ajudá-lo, o pai pediu a Lavinia, ainda que relutante, para dar uma olhada no ouvido do paciente. Com apenas onze anos e pequena para a idade, ela teve que subir em uma cadeira para olhar. O ouvido do homem estava claramente obstruído por uma massa de substância negra e filamentosa, que o pai da menina não conseguira ver. Ela enfiou o mindinho no canal auditivo do paciente, remexeu-o e puxou um fio dali de dentro. Era tão comprido e estava preso com tamanha firmeza no interior da cabeça que, para soltá-lo, ela teve que descer do banco, firmar os calcanhares no chão e puxar com as duas mãos. Quando a coisa finalmente se soltou da cabeça do paciente, Lavinia caiu de costas no chão e o homem tombou da maca.
O pai da menina recolheu o fio negro e o guardou na gaveta, junto com o outro.
— Mas é meu — protestou Lavinia.
— Na verdade, é dele — retrucou o pai, ajudando o homem a se levantar do chão. — Agora vá brincar com seu irmão.
O homem voltou três dias depois. Ele não tivera um único pesadelo desde que Lavinia removera o fio de seu ouvido.
— Sua filha faz milagres! — declarou ele, falando com o pai de Lavinia, mas sorrindo para ela.
A informação sobre o talento da menina começou a se espalhar, e a casa deles passou a receber um fluxo constante de visitantes, todos pedindo que Lavinia removesse seus pesadelos. Ela ficou empolgada; talvez fosse daquela maneira que ela ajudaria as pessoas.1
Mas o pai de Lavinia mandou todos embora. E quando ela exigiu uma explicação, ele apenas respondeu:
— Não é nada adequado para uma dama enfiar o dedo no ouvido de estranhos.
Mas Lavinia desconfiava que havia outra razão: as pessoas estavam se consultando mais com ela do que com o pai. Ele estava com inveja.
Amargurada e frustrada, Lavinia aguardou pacientemente. Por sorte, algumas semanas depois o médico foi chamado a outra cidade para resolver assuntos urgentes.
Como foi uma viagem inesperada, ele não teve tempo de arranjar alguém para cuidar das crianças.
— Prometa que não vai... — começou ele, apontando para o ouvido (ele não sabia como chamar aquilo que ela fazia e não gostava de falar no assunto).
— Prometo — disse Lavinia, com os dedos cruzados às costas.
O pai deu um beijo nos filhos, pegou a bagagem e partiu. Ele estava ausente havia apenas algumas horas quando alguém bateu na porta. Ao abrir, Lavinia se viu diante de uma jovem triste e pálida como a morte, os olhos de aspecto sombrio marcados por olheiras.
— É você a menina que afasta os pesadelos? — perguntou ela, com a voz doce.
Lavinia a convidou a entrar. O consultório do pai estava trancado, por isso ela a conduziu à sala de estar, pediu que se deitasse no sofá e começou a retirar uma grande quantidade de fio negro de seu ouvido. Quando Lavinia terminou, a moça chorou de gratidão. Lavinia ofereceu um lenço, recusou qualquer pagamento e a acompanhou até a porta.
Depois que a jovem foi embora, Lavinia se virou e viu o irmão observando do corredor.
— Papai proibiu você de fazer isso — disse ele, com ar sério.
— Isso é problema meu, não seu — ralhou Lavinia. — Você não vai contar para ele, vai?
— Talvez. Ainda não decidi.
— Se você contar, vou botar isso de volta onde encontrei! — ameaçou a menina, estendendo o bolo de fio de pesadelo e fingindo enfiá-lo no ouvido de Douglas.
O menino saiu correndo da sala. Enquanto Lavinia estava ali parada, sentindo-se um pouco mal por tê-lo assustado, o fio que ela segurava se ergueu em sua mão como se fosse uma serpente encantada e apontou para o corredor.
— O que foi? Nós vamos a algum lugar? — disse ela.
Ela seguiu na direção indicada. No fim do corredor, o fio se virou e se balançou para a esquerda, na direção do consultório do pai da menina. A porta estava trancada, mas o fiozinho se dirigiu ao buraco da fechadura, e instantes depois a porta se abriu com um estalido.
— Puxa, até que você é um pesadelo bem esperto, hein?
Ela entrou. O fio saiu da fechadura, caiu na mão da menina e apontou para o outro lado da sala, na direção da gaveta onde o pai havia guardado os outros fios. Ele queria reencontrar os amigos!
Por um instante ela se sentiu culpada por entrar ali sem a permissão do pai, mas espantou aquele sentimento: na verdade, estavam apenas exigindo o que lhes pertencia.
Ela foi até a escrivaninha, e o fio repetiu o truque no cadeado. A gaveta se abriu. Ao se verem, o fio novo e os velhos se retesaram e recuaram. Eles circundaram uns aos outros sobre a mesa, hesitantes, cheirando-se como cachorros. Então pareceram concluir que não havia perigo e rapidamente se misturaram, formando uma bola do tamanho de um punho.
Lavinia riu e bateu palmas. Que fascinante! Que incrível!
Durante todo o dia apareceram pessoas na porta de Lavinia em busca de ajuda: uma mãe atormentada por sonhos com um filho perdido; crianças pequenas levadas por pais ansiosos; um senhor de idade que toda noite revivia cenas de uma guerra sangrenta travada meio século antes. Ela removeu dezenas de pesadelos e os acrescentou à bola de fios. Depois de três dias, a bola estava do tamanho de uma melancia; depois de seis dias, quase do tamanho de seu cachorro, que exibia os dentes e rosnava sempre que via aquilo. (Quando a bola rosnou em resposta, Gorducho pulou por uma janela aberta e não voltou.)
À noite, Lavinia ficava acordada até tarde analisando a bola. Fazia testes, investigava, examinava fragmentos ao microscópio. Ela estudou os livros de medicina do pai à procura de qualquer menção a um fio que vivia no interior do canal auditivo, mas não encontrou nada. Isso significava que tinha feito uma descoberta científica — e que talvez ela própria fosse uma descoberta!
Extremamente empolgada, a menina sonhava abrir uma clínica onde usaria seu talento para ajudar as pessoas. Todo tipo de gente a visitaria, de mendigos a presidentes, e um dia, talvez, os pesadelos se tornassem coisa do passado! A ideia a deixou tão feliz que ela passou dias andando nas nuvens.
Enquanto isso, Douglas passava a maior parte do tempo evitando a irmã. A bola o deixava extremamente desconfortável: sempre se contorcendo, mesmo quando parada; exalando um cheiro sutil porém penetrante de ovos podres; fazendo um zumbido baixo porém constante, impossível de ignorar à noite, quando não havia qualquer outro ruído na casa; seguindo Lavinia por toda parte, grudada em seus calcanhares como um bicho de estimação devotado, fosse pela escada, à cama, à mesa de jantar (onde aguardava pacientemente por restos de comida) e mesmo ao banheiro, se jogando contra a porta até que ela saísse.2
— Você precisa se livrar dessa coisa. É só lixo da cabeça das pessoas — disse Douglas.
— Eu gosto de ter Baxter por perto.
— Você deu um nome a esse troço?
— Ele é fofo — respondeu Lavinia, dando de ombros.
Mas a verdade é que ela não sabia como se livrar daquilo. Tinha tentado trancar Baxter em um baú, para poder sair pela cidade sem que ele a seguisse, mas ele arrombara a tampa. Tinha gritado com ele, brigado, mas Baxter tinha ficado quicando no lugar, empolgado em receber tanta atenção. Tinha até tentado amarrá-lo em um saco, levá-lo para longe e jogá-lo em um rio, mas de algum modo Baxter tinha se libertado e voltado naquela mesma noite (espremendo-se pela fresta da caixa de correspondência, rolando escada acima e pulando no peito dela, uma mixórdia imunda e enlameada). No fim, dar um nome à bola consciente de pesadelos tornou um pouco menos perturbadora sua presença constante.
Lavinia não estava indo à escola, mas, depois de uma semana, não podia continuar assim. Ela sabia que Baxter a seguiria, porém, em vez de tentar explicar o fio de pesadelos para os professores e colegas de turma, jogou-o em uma bolsa, colocou-a sobre o ombro e o levou junto. Desde que não se afastasse da bolsa, Baxter ficaria quieto e não causaria problemas.
Mas Baxter não era seu único infortúnio. Notícias do dom de Lavinia tinham circulado entre os outros alunos, e quando o professor não estava olhando, um garoto grosseiro de rosto gordo, chamado Glen Farcus, botou na cabeça de Lavinia um chapéu de bruxa feito de papel.
— Acho que isso é seu! — disse ele, enquanto todos os outros garotos riam.
Ela arrancou o chapéu e o jogou no chão.
— Eu não sou bruxa, sou médica.
— Ah, é? Então é por isso que você aprende tricô enquanto todos os garotos estudam ciências?
Os garotos riram tanto que o professor perdeu a paciência e mandou todo mundo copiar o dicionário. Enquanto estavam cumprindo o castigo, em silêncio, Lavinia enfiou a mão na bolsa, puxou um único fio de Baxter e sussurrou uma ordem a ele. O fio desceu rastejando pelo pé da cadeira, seguiu pelo chão, subiu a cadeira de Glen Farcus e entrou no ouvido do menino.
Ele não percebeu. Ninguém percebeu. Mas, no dia seguinte, Glen chegou à escola com uma expressão abalada, o rosto pálido.
— Qual o problema, Glen? Dormiu mal essa noite? — perguntou Lavinia.
O garoto arregalou os olhos. Ele pediu licença para deixar a sala e nunca mais voltou.
Naquela noite, Lavinia e Douglas receberam a notícia de que o pai voltaria no dia seguinte. Ela precisava encontrar um jeito de esconder Baxter, pelo menos por um tempo. Usando o que aprendera na odiada aula de economia do lar, ela desfiou Baxter, tricotou-o em um par de meias e as vestiu. Embora as meias pinicassem terrivelmente, era improvável que o pai percebesse.
Ele voltou no dia seguinte à tarde, cansado da viagem. Depois de abraçar os filhos, mandou que Douglas se retirasse para poder conversar a sós com Lavinia.
— Você se comportou bem? — perguntou o pai.
De repente, Lavinia começou a sentir uma coceira absurda nos pés e nas pernas.
— Sim — respondeu a menina, coçando um pé com o outro.
— Estou orgulhoso de você, minha filha. Principalmente porque, antes de partir, eu não lhe dei uma explicação muito boa para minha resistência a que você usasse seu dom. Mas acho que agora posso me explicar melhor.
— Hum? — disse Lavinia.
Ela estava distraída, pois era necessária toda a sua força de vontade para não se abaixar e coçar as pernas.
— Pesadelos não são como tumores e membros gangrenados. São desagradáveis, é verdade, mas às vezes coisas desagradáveis podem ter um propósito. Talvez eles não devessem ter sido removidos.
— Você acha que pesadelos podem ser bons? — perguntou Lavinia, que encontrara um pouco de alívio esfregando um dos pés em uma das cadeiras.
— Não exatamente bons, mas acho que algumas pessoas merecem ter pesadelos, enquanto outras não. E como você vai saber quem é quem?
— Eu simplesmente sei.
— E se você se enganar? Sei que você é inteligente, querida, mas ninguém é tão inteligente o tempo todo.
— Então posso botá-los de volta.
O pai dela pareceu surpreso.
— Você consegue botar os pesadelos de volta?
— Sim, eu... — Ela quase contou sobre Glen Farcus, mas se conteve. — Eu acho que sim.
Ele respirou fundo.
— É muita responsabilidade para alguém da sua idade. Prometa que só vai tentar fazer algumas dessas coisas outra vez quando for mais velha. Bem mais velha.
Ela estava tão atormentada pela coceira que só conseguiu se concentrar em metade do que foi dito.
— Prometo! — respondeu, e subiu correndo para tirar as meias.
Lavinia se trancou no quarto, tirou o vestido e começou a arrancar as meias, mas elas não saíam. Baxter tinha gostado de ficar ligado à pele dela. Por mais que a menina puxasse, não adiantava. Ela tentou até usar um abridor de cartas, mas a ponta de metal se dobrou para trás, sem conseguir separar Baxter nem um pouquinho da pele dela.
Por fim, Lavinia acendeu um fósforo e o aproximou do pé. Baxter gemeu e se contorceu.
— Não me obrigue a fazer isso! — ameaçou ela, e aproximou a chama de Baxter.
Com relutância, Baxter a soltou e reassumiu a forma esférica.
— Baxter mau! Isso foi feio!
Ele se achatou um pouco, encolhendo-se de vergonha.
Lavinia despencou na cama, exausta, e se viu pensando em algo que o pai dissera: que tirar os pesadelos das pessoas era uma grande responsabilidade. Sem dúvida ele estava certo quanto a isso. Baxter já era um problema daquele tamanho, e quanto mais pesadelos ela removesse das pessoas, maior ele ficaria. O que fazer?
Lavinia se sentou rapidamente ao ter uma ideia. Algumas pessoas mereciam ter pesadelos, dissera o pai, o que a fez pensar: não era só porque ela os retirava que precisava guardá-los. Ela podia ser o Robin Hood dos sonhos, livrando pessoas boas de seus pesadelos e dando-os às pessoas más. Como bônus, não teria uma bola de fio de pesadelos seguindo-a por toda parte.
Descobrir quem eram as pessoas boas era bem fácil, mas ela precisaria tomar cuidado na identificação das más; odiaria dar pesadelos às pessoas erradas. Por isso, Lavinia fez uma lista das piores pessoas da cidade. No topo estava a sra. Hennepin, diretora do orfanato local, conhecida por bater em seus protegidos com um chicote de montaria. Em segundo lugar estava o sr. Beatty, o açougueiro, que todos diziam ter matado a própria esposa e escapado impunemente. Em seguida vinha Jimmy, motorista de carruagem que se embriagara e atropelara o cão-guia do sr. Ferguson. Havia também pessoas que eram simplesmente rudes ou desagradáveis (uma lista longa) e aquelas de quem Lavinia simplesmente não gostava (uma lista ainda mais longa).
— Baxter, venha cá!
Baxter rolou até a menina.
— O que acha de me ajudar com um projeto importante?
Baxter se retorceu com avidez.
Eles começaram na mesma noite. Toda vestida de preto, Lavinia pôs Baxter na bolsa e o pendurou nas costas. Quando o relógio bateu meia-noite, eles saíram às escondidas e circularam por toda a cidade dando pesadelos às pessoas da lista, os piores para os que estavam no topo, os pequeninos para aqueles mais abaixo. Lavinia puxava fios de Baxter e os mandava subir rastejando por calhas e por janelas abertas na direção de seus alvos.
Ao fim da noite, eles tinham visitado dezenas de casas, e Baxter encolhera ao tamanho de uma maçã. Agora ele cabia no bolso de Lavinia. Exausta, ela voltou para casa e caiu em um sono profundo no momento em que pousou a cabeça no travesseiro.
Depois de alguns dias, ficou claro que haveria consequências. Ao descer para o café da manhã, Lavinia encontrou o pai sentado à mesa olhando com uma expressão de reprovação para o jornal que tinha diante de si. Jimmy, o motorista de ônibus, tinha se envolvido em um acidente terrível, de tão exausto que estava pela falta de sono. No dia seguinte, Lavinia soube que a sra. Hennepin, agitada por alguma enfermidade desconhecida, espancara vários dos órfãos de quem cuidava, deixando-os em coma. Um dia depois do dia seguinte, foi a vez do sr. Beatty, o açougueiro que diziam ter matado a esposa: ele se jogou de uma ponte.
Tomada pela culpa, Lavinia jurou não usar seu talento até que ficasse mais velha e pudesse confiar no próprio julgamento. As pessoas continuavam a aparecer em sua porta, mas ela as mandava embora, mesmo as que apelavam a seus sentimentos com histórias tristes.
— Não vou receber mais nenhum paciente. Sinto muito — dizia-lhes.
Mas as pessoas não paravam de chegar, e Lavinia começou a perder a paciência.
— Não me importa. Vá embora! — gritava, batendo a porta na cara das pessoas.
A verdade era que ela se importava, sim, mas esse pequeno ato de crueldade era sua armadura contra a dor contagiante dos outros. Precisava isolar o coração para não causar mais danos.
Depois de algumas semanas, Lavinia tinha aprendido a controlar os sentimentos. Até que certa vez, tarde da noite, bateram na janela de seu quarto. Ela abriu a cortina e viu um rapaz no gramado ao luar. Ela o havia mandado embora naquele mesmo dia.
— Eu não mandei você ir embora? — disse ela pela janela entreaberta.
— Desculpe, mas é que estou desesperado. Você não pode me ajudar, mas por acaso não conhece alguém que consiga remover meus pesadelos? Tenho medo de enlouquecer.
Lavinia mal havia olhado para o rapaz mais cedo, mas, naquele momento, algo na expressão dele fez com que o olhar dela se demorasse. Ele tinha um rosto gentil e olhos suaves e simpáticos, mas usava roupas sujas e o cabelo estava todo desgrenhado, como se tivesse sobrevivido por pouco a algum evento traumático. Embora a noite estivesse quente e seca, ele tremia.
A menina tinha consciência de que deveria fechar a cortina e mandá-lo embora outra vez, mas escutou o rapaz. Ele detalhou os terrores que atormentavam seu sono: demônios e monstros, súcubos e íncubos, cenas conjuradas no inferno. Só de ouvir aquilo Lavinia teve calafrios, e ela não era de ter calafrios por qualquer motivo. Ainda assim, ela não se sentiu tentada a ajudá-lo. Não queria mais aqueles fios de pesadelos problemáticos, por isso disse que, por mais que sentisse muito, não podia ajudá-lo.
— Vá para casa. Está tarde. Seus pais vão ficar preocupados.
O rapaz começou a chorar.
— Não vão, não — disse ele, entre lágrimas.
— Por que não? — perguntou ela, embora tivesse o pressentimento de que não deveria entrar naquele assunto. — Eles são cruéis com você? Eles o maltratam?
— Não. Eles estão mortos.
— Mortos!
A mãe de Lavinia também morrera, de escarlatina, quando a filha ainda era pequena. Se ter perdido a mãe já era muito difícil para ela, imagine perder os dois pais! A menina sentiu uma fresta se abrindo em sua armadura.
— Talvez fosse mais fácil de suportar se tivesse sido uma morte tranquila, mas não. Eles foram assassinados, bem diante dos meus olhos. É daí que vêm os meus pesadelos.
Ao ouvir isso, Lavinia soube que iria ajudá-lo. Se aquele talento lhe tivesse sido dado para que ela pudesse libertar apenas uma pessoa, pensou, seria aquele rapaz. E se curá-lo deixasse Baxter tão grande que não daria mais para escondê-lo, bem, ela simplesmente teria que mostrá-lo ao pai e confessar tudo o que tinha feito. Ele entenderia quando ouvisse a história daquele rapaz, pensou ela.
Lavinia o convidou a entrar, deitou-o na cama e desenrolou enormes extensões de fio negro de dentro de seu ouvido. Os pesadelos que obstruíam o cérebro daquele menino eram em quantidade maior do que os de qualquer outra pessoa que ela havia tratado.
Quando Lavinia terminou, o fio cobria o chão em um grande tapete que se retorcia. O rapaz agradeceu, deu um sorriso estranho e saiu pela janela tão rápido que rasgou a camisa no batente.
Uma hora depois, Lavinia ainda estava intrigada com aquele sorriso quando começou a amanhecer. O novo fio ainda não tinha terminado de se aglutinar em forma de bola, e Baxter, que parecia com medo dele, encolheu-se no bolso da menina.
O pai de Lavinia chamou os filhos para o café da manhã, e ela se deu conta de que não estava pronta para contar o que fizera. Tinha sido uma noite longa, e ela precisava comer alguma coisa primeiro, então varreu o fio para debaixo da cama, trancou a porta do quarto ao sair e desceu.
O pai estava sentado à mesa, absorto na leitura das notícias.
— Terrível — murmurou ele, balançando a cabeça.
— O que foi? — perguntou Lavinia.
Ele baixou o jornal.
— É tão chocante que hesito até em lhe contar. Mas aconteceu perto daqui, e imagino que você vai saber tudo de um jeito ou de outro. Há algumas semanas, um homem e sua esposa foram assassinados a sangue-frio.
Então o rapaz estava falando a verdade.
— É, eu ouvi dizer — comentou Lavinia.
— Bom, essa não é a pior parte. A polícia finalmente identificou o principal suspeito: o filho adotivo do casal. Ele está sendo procurado.
Lavinia sentiu a cabeça girar.
— O que você disse?
— Veja.
O pai empurrou o jornal sobre a mesa na direção de Lavinia. Acima da dobra havia a imagem granulada do rapaz que estivera em seu quarto poucas horas antes. A menina caiu pesadamente na cadeira e se agarrou à borda da mesa, enquanto a sala começava a girar.
— Está se sentindo bem, filha?
Antes que pudesse responder, ela ouviu uma pancada alta que parecia vir de seu quarto. A nova bola de pesadelo tinha terminado de se formar e agora queria ficar perto dela.
Tum. Tum.
— Douglas, está aprontando alguma coisa? — chamou o pai.
— Estou aqui — disse o menino, surgindo da cozinha de pijama. — De onde vem esse barulho?
Lavinia correu até o quarto e abriu a porta. De fato, o fio havia se transformado em esfera, um novo Baxter. Era enorme, quase a metade da altura dela e da largura da porta, e era mau. Ele rolou em volta de Lavinia em um círculo apertado, rosnando e fungando, como se estivesse decidindo se valia ou não a pena comê-la. Quando o pai chegou, apressado, o novo Baxter saltou sobre ele. Lavinia estendeu a mão e conseguiu pegar um dos fios e, usando toda a sua força, deteve a criatura.
Ela puxou o novo Baxter para o interior do quarto e fechou a porta. Seu coração batia forte enquanto o observava devorar a cadeira da escrivaninha, descarregando às suas costas uma pilha de lascas de madeira em uma trilha de excremento.
Ah, aquilo era ruim. Era terrível.
Não só o Novo Baxter era um cão raivoso quando comparado ao Velho Baxter (pois não era feito dos pesadelos de crianças inocentes, e sim dos pesadelos de um assassino de alma pútrida), mas agora havia um criminoso à solta, e graças a Lavinia ele estava livre de medos e inibições. Se matasse outra vez, seria, em parte, por culpa dela. Ela não podia simplesmente jogar o novo Baxter no fogo e se livrar dele, tinha que botá-lo de volta no lugar: no interior da cabeça do rapaz.
A ideia a assustou. Como ela o encontraria? E quando o encontrasse, o que o impediria de matá-la também? Ela não tinha ideia, mas sabia que precisava tentar.
Lavinia pegou o Novo Baxter, puxou um punhado farto de fios e os enrolou no braço como se fosse uma coleira. Então o puxou pelo quarto e pela janela aberta. No chão lá fora havia um pedaço rasgado da camisa do rapaz. Ela o apanhou e o entregou ao Novo Baxter, pedindo que ele farejasse.
— Jantar — disse ela.
O resultado foi instantâneo: o Novo Baxter quase arrancou o braço de Lavinia ao puxá-la pelo jardim e, depois, pela rua. Ele perseguiu o rastro deixado pelo cheiro do rapaz durante todo o dia, conduzindo-a em círculos pela cidade e depois saindo pela outra extremidade. Seguiram por uma estrada rural até o meio do nada. Por fim, quando o sol já estava se pondo, chegaram a um prédio grande em uma área isolada: o orfanato da sra. Hennepin.
Saía fumaça das janelas dos andares inferiores. A casa estava pegando fogo.
Lavinia ouviu gritos vindos de trás do prédio. Ela deu a volta correndo, puxando o Novo Baxter atrás de si.
Havia cinco órfãos na janela de um dos andares superiores, respirando com dificuldade, e a fumaça não parava de subir. Ali fora estava o rapaz, rindo.
— O que você fez?! — gritou Lavinia.
— Foi nesta casa de horrores que passei minha infância. Agora estou livrando o mundo de pesadelos, assim como você.
O Novo Baxter se esticava na direção do rapaz.
— Vá pegá-lo! — disse Lavinia, e largou a coleira.
O Novo Baxter foi girando até o rapaz, mas, em vez de devorá-lo, saltou para o colo dele e lambeu seu rosto.
— Oi, velho amigo! — disse o rapaz, rindo. — Não tenho tempo para brincar agora, mas, aqui, vá buscar!
Ele pegou um graveto do chão e o arremessou. O Novo Baxter o perseguiu direto para o interior do prédio em chamas. Momentos depois, veio um grito inumano quando o Novo Baxter foi consumido pelas chamas. Agora indefesa, Lavinia tentou fugir, mas o rapaz a pegou, derrubou-a no chão e começou a apertar seu pescoço.
— Você vai morrer! Eu devo muito a você por me livrar daqueles pesadelos horríveis, mas não posso permitir que tente me matar — disse ele calmamente.
Lavinia tentava respirar. Sentia a consciência se esvaindo.
Foi quando alguma coisa se remexeu dentro de seu bolso.
O Velho Baxter.
Ela o sacou e o enfiou na orelha do rapaz, que tirou as mãos da garganta de Lavinia e começou a mexer no ouvido. Mas era tarde demais: o Velho Baxter já tinha se esgueirado para dentro de sua cabeça.
O rapaz olhou para um ponto distante, como se lesse algo que apenas ele pudesse ver.
Lavinia se contorcia, mas ainda não conseguia se soltar.
O rapaz olhou para ela e sorriu.
— Um palhaço, algumas aranhas gigantes e um bicho-papão embaixo da cama. — Ele riu. — Sonhos de criança. Que fofo, vou gostar deles! — E voltou a sufocá-la.
Lavinia deu uma joelhada na barriga do rapaz, que a soltou por um instante. Então, ele cerrou a mão, mas, antes que pudesse atingi-la, ela disse:
— Baxter, aqui!
E Baxter, o velho e fiel Baxter, se lançou da cabeça do rapaz de forma repentina e violenta: saiu voando dos ouvidos, dos olhos e da boca do rapaz junto com um denso jorro vermelho de sangue. O garoto caiu para trás, gorgolejando.
As crianças gritavam por ajuda.
Tomando coragem, Lavinia se levantou e entrou correndo na casa. A fumaça densa a fez engasgar. A sra. Hennepin jazia morta no chão da sala, com uma tesoura cravada no globo ocular.
A porta que dava para a escada estava bloqueada por um armário que sem dúvida havia sido colocado ali pelo rapaz.
— Baxter, me ajude! Empurre!
Com a ajuda de Baxter, Lavinia conseguiu derrubar o armário e abrir a porta. Ela subiu a escada correndo, escapando da área em que o fogo e a fumaça estavam mais fortes. Uma a uma, ela tirou as crianças da casa, cobrindo os olhos delas ao passar pela sra. Hennepin. Quando todos finalmente estavam a salvo, Lavinia desabou no jardim, inconsciente devido a tantas queimaduras e à quantidade de fumaça inalada.
A menina acordou dias depois, em um hospital. Diante dela estavam o pai e o irmão.
— Estamos tão orgulhosos de você! — disse o pai. — Você é uma heroína, querida.
Eles tinham mil perguntas a fazer, isso era evidente na expressão de ambos, mas por ora iam poupá-la.
— Você estava se debatendo e gemendo enquanto dormia. Acho que estava tendo um pesadelo — disse Douglas.
Estava mesmo, e os pesadelos continuaram por anos. Ela poderia ter levado a mão à própria cabeça para removê-los, mas não o fez. Em vez disso, dedicou-se ao estudo da mente humana e, contra todas as probabilidades, se tornou uma das primeiras doutoras em psicologia dos Estados Unidos. Lavinia abriu um consultório que foi muito bem-sucedido, ajudou muita gente e, embora sempre suspeitasse de que houvesse fios de pesadelo escondidos nos ouvidos de seus pacientes, nunca usou seu talento para domá-los.
Ela passara a acreditar que existiam maneiras melhores de se fazer isso.

1 Há muitos manipuladores de sonhos na história peculiar, mas apenas um que compartilhava do talento de Lavinia para tornar real a substância imaterial dos sonhos. O nome dele era Cyrus, e ele era um ladrão de sonhos agradáveis: precisava deles para sobreviver e se tornou infame por roubar a felicidade de cidades inteiras, uma noite e uma casa por vez.
2 Muito foi dito sobre esta passagem, que alguns interpretam como prova de que a bola de pesadelos de Lavinia tem origem demoníaca e de que a própria Lavinia é uma espécie de exorcista de sonhos. Pessoalmente, considero tolice tal visão, uma prova de que certos ditos acadêmicos assistem a filmes de terror demais. A bola tem alguns hábitos desagradáveis, só isso.

Nota do editor:
Esta história é incomum por diversas razões, a mais explícita delas sendo o desfecho. O ritmo e as imagens do último ato têm um clima notadamente moderno, o que, desconfio, se deve ao fato de ter sido recontada de maneira diferente em um passado não muito distante. Tive acesso a um final alternativo, bem mais antigo, em que o fio de pesadelo removido do rapaz se ergue e a consome, como uma versão de corpo inteiro das meias que Lavinia tricota no início do conto. Sem conseguir se livrar de sua segunda pele, que não parava de se mexer, ela foge para se manter longe dos olhos da sociedade, pois se torna ela mesma um pesadelo. É um desfecho trágico e injusto, e compreendo por que algum contador de histórias optou por alterá-lo para algo mais positivo.
Seja qual for o desfecho que os leitores prefiram, a moral, também incomum, permanece mais ou menos inalterada. É um alerta às crianças peculiares de que determinados dons são simplesmente tão complexos e perigosos que não devem ser usados, e é melhor deixá-los em paz. Em outras palavras: não é porque nascemos com determinada habilidade que somos obrigados a usá-la. Considerando todos os elementos, esta é uma lição muito desalentadora — qual criança peculiar, tendo sofrido os desafios resultantes de sua natureza, quer ouvir que sua habilidade é mais uma maldição do que uma bênção?
Tenho certeza de que isso explica por que minha diretora lia esta história apenas para as crianças mais velhas e por que este permanece um dos contos mais obscuros, ainda que fascinantes, do folclore peculiar.
— MN

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Boa leitura :)