20 de abril de 2017

6. As pombas (da Catedral) de St. Paul


Nota do editor:
Uma das mais antigas histórias do folclore peculiar, este conto assumiu formas muito diferentes ao longo dos séculos. Enquanto as versões mais comuns retratam as pombas como construtoras, considero bem mais interessante quando são colocadas no papel de destruidoras, como vemos nesta versão.
— MN

MUITO TEMPO ATRÁS, bem antes de haver torres, campanários e qualquer outro tipo de construção alta na cidade de Londres, todas as pombas viviam no topo das árvores, onde se mantinham longe da agitação e do rebuliço da sociedade humana. As pombas não se importavam com o cheiro dos humanos, os ruídos estranhos que saíam de suas bocas ou com a sujeira feita por eles, mas apreciavam as coisas perfeitamente comestíveis que aquelas estranhas criaturas derrubavam nas ruas e jogavam em pilhas de lixo. Por tudo isso, as pombas gostavam de ficar perto dos humanos, mas não perto demais. Uns cinco a quinze metros acima da cabeça deles era o ideal.
Só que Londres começou a crescer — não apenas para os lados, mas para cima —, e os humanos passaram a erguer torres de vigia e igrejas com campanários e outras construções que invadiam o que as pombas consideravam seu domínio particular. As pombas convocaram uma reunião. Milhares delas se reuniram em uma ilha não habitada no meio do rio Tâmisa1 para decidir o que fazer em relação aos humanos e seus prédios cada vez mais altos. Como as pombas são criaturas democráticas, discursos foram proclamados e a questão foi a votação. Um contingente pequeno votou por aguentar os humanos e compartilhar com eles o ar. Uma fração ainda menor defendeu deixarem Londres e encontrarem algum lugar menos povoado para viver. Mas a ampla maioria votou por declarar guerra.
Claro, as pombas sabiam que não podiam vencer uma guerra contra os humanos, e nem queriam isso (quem deixaria cair restos para eles comerem se os humanos fossem mortos?). Mas pombas são especialistas na arte da sabotagem e, com uma engenhosa combinação de desordem e vandalismo, deram início a uma luta de séculos para manter os humanos no nível do chão, que era o lugar deles. No início foi fácil, porque os humanos construíam tudo com madeira e palha. Depositar algumas brasas acesas em um telhado de palha era o suficiente para reduzir a cinzas um prédio irritantemente alto. Mas tentar desencorajar os humanos era decepcionante: a tarefa chegava às raias do impossível, pois eles sempre reconstruíam tudo. De qualquer modo, as pombas continuaram a incendiar quaisquer estruturas com mais de dois andares, no mesmo ritmo que os humanos as erguiam.
Com o tempo, os humanos ficaram mais sábios e começaram a construir suas torres e campanários com pedra, o que os tornava muito mais difíceis de queimar. As pombas, portanto, resolveram atrapalhar as construções. Bicavam a cabeça dos operários, derrubavam andaimes e defecavam nos projetos arquitetônicos. Isso reduzia um pouco o progresso dos humanos, mas não o impedia, de modo que, após alguns anos, uma grande catedral de pedra foi erguida, mais alta do que qualquer árvore de Londres. As pombas a consideraram uma coisa horrenda e uma afronta a seu domínio do céu. Aquilo provocou uma irritação tremenda nelas.
Felizmente, os vikings logo atacaram e destruíram a maior parte da cidade, inclusive a torre. As pombas amavam os vikings, pois eram um povo que não ligava para prédios altos e que deixava lixo saboroso por toda parte. Mas eles partiram depois de alguns anos, permitindo que os construtores de torres retomassem as atividades. Escolheram uma colina alta que dava para o rio e ergueram ali uma catedral enorme, que fazia todas as construções anteriores parecerem pequenas. Eles a chamaram de Catedral de St. Paul.
As pombas tentaram incendiá-la inúmeras vezes, mas os humanos haviam dedicado um pequeno exército de bombeiros à proteção da catedral, o que prejudicou os esforços das aves.
Frustradas e irritadas, as pombas começaram a atear fogo em áreas próximas durante noites com vento particularmente forte, em locais que permitissem ao vento carregar as chamas até a catedral, na esperança de que um eventual incêndio se espalhasse. Na manhã de 2 de setembro de 1666, seus esforços foram desastrosamente bem-sucedidos. Uma pomba chamada Nesmith incendiou uma padaria a menos de um quilômetro da Catedral de St. Paul. Enquanto a padaria era consumida pelo fogo, um vento feroz empurrou as chamas direto morro acima. A catedral foi consumida por completo: naves, campanários, tudo. Em quatro dias, o mesmo havia acontecido com oitenta e sete outras igrejas e mais de dez mil casas. A cidade era uma ruína fumegante.2
As pombas se sentiram mal por tudo aquilo, pois não tinham previsto tamanha destruição. Emocionalmente, era bem diferente dos ataques vikings; embora o dano fosse comparável, a culpa pelo incêndio fora exclusiva das pombas. Elas então convocaram uma reunião para discutir se deveriam ou não deixar Londres de uma vez por todas.
Talvez, argumentaram algumas, não merecessem mais viver ali. A votação resultou em empate, e elas decidiram retornar no dia seguinte para debater o assunto mais a fundo.
Naquela noite, começaram os ataques de vingança. Havia um grupo de humanos que, parecendo entender que a culpa dos incêndios era das pombas, decidira expulsá-las. Eles molharam migalhas de pão em arsênico e tentaram envenenar as pombas; derrubaram as árvores preferidas das aves, aquelas em que se empoleiravam para pernoitar, e destruíram os ninhos; perseguiam pombas com vassouras e porretes e atiravam nelas com mosquetes. Depois dessa onda de vingança, não restou uma única pomba disposta a deixar a cidade; elas eram orgulhosas demais. Em vez disso, decidiram revidar novamente.
As pombas bicavam, defecavam e espalhavam doenças, faziam de tudo para deixar os humanos infelizes. Por sua vez, os humanos intensificaram a violência contra as aves. Na verdade, não havia muito mais que as pombas pudessem fazer além de irritar os humanos, mas quando os humanos começaram a reconstruir a catedral, símbolo de sua arrogância, as pombas declararam guerra. Milhares delas desceram sobre o local da construção, arriscando a vida e as asas para expulsar os operários. Dia após dia, batalhas campais eram disputadas entre humanos e aves, e por mais pombas que os humanos matassem, mais pombas surgiam. Eles chegaram a um impasse. A construção foi interrompida. Parecia que nunca haveria outra catedral no lugar da St. Paul, e que as pombas de Londres seriam atacadas e mortas para sempre.
Um ano se passou. As pombas continuaram a lutar, seus números, a diminuir, e, embora os humanos estivessem reconstruindo gradualmente as outras regiões de Londres, pareciam ter abandonado os planos para a catedral. No entanto, a violência continuou, porque o ódio entre humanos e pombas tinha se tornado arraigado.
Certo dia, as pombas estavam se reunindo naquela mesma ilha quando chegou um barco a remo, conduzido por um único humano. Alarmadas, as pombas estavam prestes a atacar quando ele ergueu os braços e gritou:
— Venho em paz!
As pombas logo descobriram que ele não era como a maioria dos outros humanos; a duras penas, o homem falava a língua nativa das pombas, de trinados e arrulhos. Ele explicou que sabia muito sobre aves, e sabia também sobre aves peculiares, porque sua mãe havia sido uma. Além do mais, ele simpatizava com a causa das pombas e queria negociar uma trégua.
As pombas ficaram surpresas. Em votação, decidiram não arrancar os olhos do homem a bicadas — pelo menos não de imediato. Elas o interrogaram. Seu nome era Wren, um arquiteto. Seus semelhantes humanos o haviam encarregado de tentar reconstruir, uma vez mais, a catedral na colina.
— Você está perdendo seu tempo. Muitos de nós morreram para impedir isso — disse Nesmith, líder das pombas, que fora responsável por iniciar o incêndio.
— Claro, nada pode ser construído sem paz. E não se pode alcançar paz sem um acordo. Venho propor um novo acordo entre minha espécie e a sua. Primeiro: reconhecemos que o ar é território de vocês e não construiremos nada nele sem sua permissão — propôs Wren.
— E por que daríamos permissão?
— Porque essa nova construção será diferente de todas as anteriores. Não será para uso exclusivo de humanos. Será de vocês também.
Nesmith riu.
— E por que você acha que nos interessaríamos por essa construção?
— Ora, Nesmith — disse outra pomba —, se tivéssemos um prédio, poderíamos nos abrigar do frio e da chuva quando necessário. Poderíamos pernoitar e botar ovos ali, e nos aquecer.
— Não com humanos ao redor para nos perturbar! Precisamos de um espaço só nosso — retrucou Nesmith.
— E se eu lhes prometesse fazer a catedral tão alta que os humanos não terão interesse em usar a metade de cima? — sugeriu Wren.
Wren fez mais que apenas promessas. Voltou dia após dia para discutir seus planos e até fez alterações para satisfazer os caprichos das pombas, que exigiram todo tipo de esconderijos, campanários e arcos — coisas praticamente inúteis para nós, humanos, porém mais aconchegantes para as pombas que um sofá nos seria, por exemplo. Wren até prometeu às pombas uma entrada exclusiva para elas, bem acima do chão e inacessível àqueles sem asa. Em troca, as aves prometeram não atrapalhar a construção e, quando concluída, a não fazer muito barulho durante as cerimônias nem defecar nos fiéis.
E assim foi forjado um acordo histórico. As pombas e os humanos cessaram a guerra e voltaram a apenas irritar uns aos outros. Wren construiu sua catedral (ou melhor, a catedral das pombas), um lugar elevado e altivo, e as aves nunca mais tentaram destruí-la. Na verdade, sentiram tanto orgulho da Catedral de St. Paul que juraram protegê-la, e assim o fazem até hoje. Quando incêndios começam, elas saem voando e apagam as chamas com o bater das asas; expulsam vândalos e ladrões; durante a Primeira Grande Guerra, esquadrões de pombas desviavam bombas em pleno ar. Não seria exagero afirmar que a Catedral de St. Paul não estaria de pé hoje se não fosse por seus guardiões alados.
Wren e as pombas permaneceram amigos por toda a vida. Até seu falecimento, o arquiteto mais estimado da Inglaterra nunca foi a lugar algum sem uma pomba à mão para aconselhá-lo. Mesmo após sua morte, as aves iam visitá-lo de vez em quando, no solo. Até hoje, a catedral que eles construíram se destaca sobre Londres, com as pombas peculiares de vigia.

1 Conhecida hoje como ilha Eel Pie, o local tem sido um ponto de encontro de peculiares. Era um dos lugares favoritos do rei Henrique VIII, e, no século XX, hippies, anarquistas e músicos de rock afluíam para lá.
2 Em alguns relatos do incêndio, as pombas abanam as chamas com as asas. Realmente, um momento vergonhoso na história peculiar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)