20 de abril de 2017

5. Cocobolo


QUANDO CRIANÇA, ZHENG idolatrava o pai, Liu Zhi. Isso foi durante o reino de Kublai Khan na China Antiga, muito antes de a Europa dominar os mares, e o pai dele era um famoso explorador marítimo. As pessoas diziam que no sangue de Liu Zhi corria água dos oceanos. Aos quarenta anos, ele havia realizado mais do que qualquer marujo que o precedera: tinha mapeado toda a costa leste da África, feito contato com tribos desconhecidas no interior da Nova Guiné e de Bornéu e tomado posse de novos territórios para o império. Nesse périplo, enfrentara piratas e bandidos, sufocara um motim e sobrevivera a dois naufrágios. Na baía de Tianjin havia uma grande estátua de ferro dele, olhando nostálgico para o mar. A estátua era tudo o que Zheng tinha do pai, que desaparecera quando o filho tinha apenas dez anos.
A última expedição de Liu Zhi visava encontrar a ilha de Cocobolo, por muito tempo considerada lendária, onde, dizia-se, rubis cresciam em árvores e ouro líquido se acumulava em grandes lagos. Antes de partir, Liu Zhi disse a Zheng:
— Se eu não retornar, prometa que vai procurar por mim um dia. Mas não espere até que a grama cresça sob seus pés!
Zheng concordou sem hesitar, certo de que nem os bravios oceanos derrotariam um homem como seu pai. Mas Liu Zhi nunca voltou para casa. Depois de um ano sem notícias, o imperador realizou um funeral opulento em sua homenagem. Zheng ficou inconsolável, e por dias chorou aos pés da estátua do pai. À medida que crescia, o menino foi descobrindo coisas sobre Liu Zhi que sua pouca idade não lhe permitira compreender quando o pai estava vivo, de modo que aos poucos sua opinião mudou.
Liu Zhi fora um homem estranho, e ficara ainda mais ao se aproximar do fim da vida. Corriam rumores de que havia enlouquecido.
— Ele nadava no mar todo dia, por horas, mesmo no inverno. Mal aguentava ficar em terra — comentou o irmão mais velho de Zheng.
— Ele dizia que conversava com as baleias. Uma vez o ouvi tentando falar a língua delas — contou Ai, tio de Zheng, rindo.
— Ele queria que fôssemos todos viver em uma ilha no meio do nada — disse a mãe de Zheng. — E eu falei: “No palácio temos banquetes! Recebemos duques e viscondes! Por que abrir mão dessa vida para morar como selvagens em uma caixa de areia?” Ele quase não se dirigiu a mim depois disso.
Liu Zhi realizara grandes feitos no início da vida, diziam as pessoas, até decidir partir no encalço de lendas. Comandara uma viagem para descobrir uma terra de cães falantes, um lugar no extremo norte do Império Romano, dizia ele, onde havia mulheres metamorfas capazes de fazer parar o tempo.1 Passou a ser evitado nos círculos sociais mais refinados e, por fim, os nobres pararam de financiar suas expedições. Então ele mesmo começou a financiá-las. Depois de exaurir sua fortuna pessoal, deixando a esposa e os filhos à beira da falência, ele sonhou com uma missão para encontrar a ilha de Cocobolo e colher suas riquezas.
Zheng entendeu como as excentricidades do pai o haviam levado à ruína e, ao entrar na vida adulta, tomou cuidado para não repetir os mesmos erros. Zheng também tinha água dos oceanos correndo nas veias e se tornou marinheiro, assim como o pai, mas de um tipo bem diferente. Ele não comandava expedições de desbravamento ou viagens pioneiras para reclamar novas terras para o império. Era um homem extremamente prático, um comerciante, e administrava uma frota de navios mercantes. Não se arriscava, por isso não navegava pelas rotas favoritas dos piratas e nunca se afastava de águas familiares. E era muito bem-sucedido em seu ofício.
A vida que Zheng levava em terra era igualmente convencional. Frequentava banquetes no palácio e era amigo de todas as pessoas certas. Nunca pronunciou uma única palavra chocante ou emitiu opinião controversa. Foi recompensado com uma alta posição social e um casamento vantajoso com a mimada sobrinha-neta do imperador, o que o colocou a um passo da nobreza.
Para proteger tudo o que acumulara, ele se esforçava em manter sua imagem desassociada da do pai. Nunca o mencionava e chegou a trocar de sobrenome para omitir a relação de parentesco, mas quanto mais velho Zheng ficava, mais difícil era afastar as lembranças do pai. Familiares idosos comentavam como os trejeitos dele eram parecidos com os de Liu Zhi.
— Seu jeito de andar, sua postura — apontou uma tia, Xi Pen. — Até as palavras que você escolhe... é como se fosse ele próprio aqui na minha frente!
Então Zheng tentou mudar a si mesmo. Copiou o modo de andar mais elegante do irmão mais velho, Deng, que nunca era comparado ao pai; antes de falar, reordenava as palavras mentalmente e escolhia outras que mantivessem o significado. Zheng, no entanto, não tinha como mudar a fisionomia, e, sempre que ele passava pela baía, a estátua gigante do pai o fazia lembrar de como se pareciam. Por isso, certa noite ele foi sorrateiramente até a baía com uma corda e um guincho e, com grande esforço, derrubou o monumento.
Em seu aniversário de trinta anos, os sonhos começaram. Durante o sono, era atormentado por pesadelos com o pai: faminto e com a pele curtida, barba branca até os joelhos, sem se parecer mais em nada com o filho, acenando desesperadamente da costa deserta de alguma ilha calcinada pelo sol. Zheng acordava assustado no meio da madrugada, o suor brotando na testa, tomado pela culpa. Afinal, ele havia feito uma promessa ao pai, a qual, na verdade, nunca tentara cumprir.
Vá procurar por mim.
O herborista de Zheng passou a lhe preparar uma forte dose de elixir medicinal, que ele tomava toda noite antes de se deitar e o mantinha em sono profundo, sem sonhos, até o amanhecer.
Expulso de seus sonhos, o pai de Zheng encontrou outras maneiras de assombrá-lo.
Certo dia, Zheng se pegou se demorando perto das docas, acalentando um impulso misterioso de mergulhar no oceano para nadar, no meio do inverno. Ele conteve o impulso, mas durante as semanas seguintes não se permitiu sequer olhar para o mar.
Pouco tempo depois, ele estava comandando uma viagem a Xangai quando, na coberta do navio, ouviu o canto de uma baleia. Zheng encostou o ouvido no casco e prestou atenção. Por um instante, pensou entender o que a baleia dizia, em etéreas vogais alongadas.
Co... co... bo... lo!
Zheng encheu os ouvidos de algodão, subiu correndo para o convés e se recusou a descer outra vez. A partir de então, teve medo de estar enlouquecendo, assim como acontecera com o pai.
Já de volta para casa, Zheng teve um novo sonho estranho que nem o elixir conseguiu suprimir. Sonhou que abria caminho com um facão através da mata fechada de uma ilha tropical enquanto rubis choviam suavemente das árvores. O ar úmido e quente parecia sussurrar seu nome: Zheng, Zheng... Embora sentisse a presença do pai por toda a volta, não via ninguém. Exausto, ele se deitava em uma faixa de grama, e era então que, de repente, a grama crescia ao seu redor, soltando-se da terra para envolvê-lo em um abraço sufocante.
Zheng acordou assustado, com uma coceira absurda nos pés. Ele jogou as cobertas para trás e entrou em pânico ao vê-los cobertos de grama. Tentou limpá-los, mas a grama estava grudada na pele, brotando da sola de seus pés.
Temendo que a esposa visse aquilo, Zheng pulou da cama, correu para o banheiro e raspou a grama.
Mas o que é que está acontecendo comigo?, pensou ele. A resposta lhe parecia bem clara: estava enlouquecendo, assim como acontecera com o pai.
Pela manhã, ao acordar, ele descobriu que não só havia brotado grama em seus pés outra vez, mas que grandes ramos de alga marinha nasciam em suas axilas. Zheng correu para o banheiro, arrancou as algas — em um processo muito doloroso — e raspou o pé pela segunda vez.
No dia seguinte, além da já conhecida vegetação nos pés e nas axilas, um novo problema apareceu: os lençóis da cama estavam cheios de areia. Ele tinha exsudado aquilo pelos poros, durante a noite.
Zheng foi até o banheiro, arrancou a alga e raspou os pés, ainda convencido de que aquela cena nada mais era que loucura, mas, quando voltou ao quarto, a areia ainda cobria a cama, inclusive o cabelo e o corpo de sua esposa. Ela havia acordado e, muito irritada, se sacudia tentando se limpar.
Se ela conseguia ver aquilo, percebeu Zheng, então era real. A areia, a grama, tudo. O que significava que, no fim das contas, ele não estava louco. Alguma coisa estava acontecendo com ele.
Zheng foi ver o herborista, que lhe deu um cataplasma malcheiroso para esfregar por todo o corpo. Como isso não funcionou, ele foi a um cirurgião, que alegou não haver nada a fazer além de amputar os pés e fechar os poros com cola, o que, obviamente, não era uma possibilidade aceitável. Zheng, então, procurou um monge, mas pegou no sono durante as orações e, quando acordou, descobriu que havia coberto de areia o mosteiro.
O monge o expulsou dali, enraivecido.
Parecia não haver cura para o mal que lhe afligia, e os sintomas só pioravam. A grama em seus pés agora crescia o tempo todo, não apenas à noite, e as algas o impregnavam com um cheiro de praia na maré-baixa. A esposa de Zheng passou a dormir em outro quarto, e ele temia que seus parceiros de negócios o evitassem se soubessem de sua condição. Temia cair em ruína. Desesperado, começou a considerar a tal ideia de amputar os pés e fechar os poros com cola, mas, em um lampejo de memória repentino, as últimas palavras do pai lhe soaram claras nos ouvidos.
Não espere até que a grama cresça sob seus pés.
Aquele sentimento misterioso que o intrigara por muitos anos agora fazia todo sentido. Era uma mensagem: uma mensagem em código. O pai sabia o que aconteceria com Zheng. Sabia porque aquilo tinha acontecido com ele próprio! Os dois tinham em comum não apenas os traços, o andar e o jeito de falar — eles tinham aquela mesma doença estranha.
Vá procurar por mim, dissera Liu Zhi. E não espere até que a grama cresça sob seus pés.
Liu Zhi não tinha partido à procura de uma fortuna lendária. Tinha partido em busca de uma cura. E a esperança de Zheng de algum dia viver uma vida normal, sem aquela peculiaridade, dependia de cumprir a promessa feita ao pai.
Naquela noite, durante o jantar, ele anunciou suas intenções para a família.
— Estou me preparando para uma viagem à procura de nosso pai.
Todos ficaram incrédulos. Outros já haviam tentado o mesmo e falhado, lembraram a Zheng. O imperador tinha financiado diversas buscas, mas jamais fora encontrada pista alguma do homem nem de sua expedição. Por que Zheng, um mercador que jamais se afastara da segurança de suas rotas, esperava ter mais sorte na empreitada?
— Eu vou conseguir, vocês vão ver — disse Zheng. — Só preciso encontrar a ilha.
— Você nunca a encontraria, nem se fosse o melhor navegador de todo o mundo. Como poderia encontrar um lugar que não existe? — disse tia Xi.
Zheng saiu determinado a provar que a família estava enganada. A ilha existia, sim, e ele sabia exatamente como encontrá-la: parando de tomar o elixir medicinal antes de dormir e deixando que os sonhos o guiassem. Se aquilo não funcionasse, ele escutaria as baleias!
Seu imediato também tentou desencorajá-lo. Mesmo que a ilha de fato existisse, argumentou, todo marinheiro que afirmava tê-la visto jurava que não era possível chegar até lá. Segundo eles, a ilha se movia à noite.
— Como vai desembarcar em uma ilha que foge de você? — perguntou o imediato.
— Encomendando o navio mais rápido já construído — respondeu Zheng.
Zheng gastou grande parte de sua fortuna construindo esse navio, que ele batizou de Improvável. O homem quase foi à falência. Precisou assinar notas promissórias para contratar a tripulação.
Sua esposa ficou lívida ao saber disso.
— Desse jeito vamos parar no abrigo de indigentes! — exclamou ela. — Vou ter que lavar roupa para fora se não quiser passar fome!
— Vou encher meus bolsos de rubis quando encontrar Cocobolo. Quando eu voltar, serei mais rico que nunca. Você vai ver!
O Improvável içou as velas. Os rumores diziam que Cocobolo ficava a sudoeste do Ceilão, no oceano Índico, mas a ilha nunca fora avistada duas vezes no mesmo lugar.
Zheng parou de tomar o elixir e aguardou sonhos proféticos. Enquanto isso, seguia no Improvável para o Ceilão.
Ao longo da expedição, a tripulação entrou em contato com outras embarcações, em busca de informações sobre Cocobolo.
— Avistei a ilha a leste, três semanas atrás. Na direção do mar Arábico — disse um pescador, apontando para o azul do horizonte.
O sono de Zheng foi decepcionantemente sem sonhos, por isso eles navegaram para o leste. No mar Arábico, encontraram o capitão de um navio que alegou ter avistado duas vezes a ilha.
— No oeste, perto de Sumatra.
A essa altura, Zheng tinha voltado a sonhar, mas eram sonhos sem qualquer significado, por isso navegaram para o oeste. Em Sumatra, um homem gritou do alto de um penhasco marinho que Cocobolo acabara de ser vista a sudeste, perto de Thinadhoo.
— Você acabou de perdê-la — disse o homem.
E assim a viagem prosseguiu por meses. A tripulação ficou inquieta, e houve ameaças veladas de motim. O imediato insistiu com Zheng para que ele desistisse.
— Se a ilha fosse real, a essa altura já a teríamos encontrado — disse o imediato.
Zheng suplicou por mais tempo. Ele passou aquela noite rezando por sonhos proféticos e, no dia seguinte, se dirigiu à coberta e encostou a orelha na parede do casco, tentando ouvir o canto de baleias. Sem ouvir cantos ou ter sonhos, Zheng começou a entrar em desespero. Se voltasse para casa de mãos vazias, sem dinheiro e sem uma cura, certamente a esposa o deixaria, a família o evitaria e os investidores se recusariam a financiá-lo, levando-o ao fracasso completo.
Zheng parou na proa do navio, desanimado, e ficou contemplando a turbulenta água verde. Sentiu uma vontade repentina de nadar. E, dessa vez, não a reprimiu.
Ele atingiu a água com uma força incrível. A corrente forte e absurdamente gelada o puxava para baixo.
Zheng não lutou contra a força da água. Então percebeu que estava se afogando.
Da escuridão emergiu um olho gigante suspenso em uma parede de carne cinza. Era uma baleia, indo rapidamente na direção de Zheng. Quando ia colidir com ele, a baleia mergulhou e desapareceu de vista. Na mesma hora os pés de Zheng atingiram algo sólido — era a baleia o empurrando por baixo, impulsionando-o para cima.
Eles romperam a superfície juntos, com Zheng tossindo água dos pulmões. Alguém do navio jogou uma corda para ele, que a amarrou na cintura, mas, quando estava sendo puxado, ouviu a baleia cantar.
Seu canto dizia: Siga-me.
Quando estava sendo erguido para o convés, Zheng viu que a baleia saíra nadando. Estava tremendo de frio e sem fôlego, mas encontrou energia para gritar:
— Sigam aquela baleia!
O Improvável desfraldou as velas e partiu em perseguição. Eles a seguiram por todo aquele dia e também durante a noite, marcando a posição da baleia pela névoa de seu respiradouro. Quando o sol nasceu, avistaram uma ilha no horizonte — uma ilha que não aparecia no mapa.
Só podia ser Cocobolo.
Eles navegaram naquela direção o mais rápido que o vento permitia, e o que havia sido um mero ponto no horizonte foi crescendo com o passar do dia. Mas a noite caiu antes que conseguissem alcançá-la, e quando o sol tornou a nascer, a ilha não passava de um ponto distante.
— É exatamente como disseram: ela se move — maravilhou-se Zheng.
Foram três dias perseguindo a ilha. A cada dia eles chegavam a uma proximidade tentadora, só para vê-la escapar toda noite. Então um vento forte os empurrou, deixando o Improvável mais veloz que nunca, e finalmente conseguiram chegar até ela. Ancoraram em uma enseada arenosa bem quando o sol se punha no horizonte.
Fazia meses que Zheng sonhava com a ilha Cocobolo, e deixara que seus sonhos corressem soltos, mas a realidade não era parecida com nada do que ele imaginara: não havia cachoeiras de ouro se derramando no mar, nenhuma encosta reluzindo com árvores carregadas de rubis. Era uma coleção irregular de colinas desinteressantes cobertas de vegetação densa, similar às milhares de ilhas pelas quais ele havia passado em suas viagens. O mais decepcionante foi não haver sinal da expedição de seu pai. Zheng havia imaginado encontrar o navio de Liu Zhi semiafundado em alguma enseada, e o próprio homem, isolado em uma ilha deserta por vinte anos, esperando pelo filho em uma praia, com a cura nas mãos. Mas só havia uma meia-lua de areia branca e um muro de palmeiras ondeando ao vento.
Depois de lançarem âncora, Zheng foi andando pela água até terra firme com seu imediato e um destacamento de tripulantes armados. Disse a si mesmo que era cedo demais para se desapontar, mas, depois de várias horas de buscas, não encontraram Liu Zhi ou qualquer sinal de povoamento humano. Zheng ficou mais decepcionado que nunca.
A noite começava a cair. Eles estavam prestes a montar acampamento quando ouviram um farfalhar nas árvores. Dois jaguares saíram de repente da vegetação rasteira, soltando um rugido apavorante.
Os homens saíram correndo. Lançaram flechas nos jaguares, mas isso só os enfureceu ainda mais. Um dos animais saltou sobre Zheng, que fugiu pela floresta até sentir os pulmões ardendo e suas roupas serem despedaçadas pela vegetação rasteira.
Quando sua respiração se acalmou, ele tentou ouvir seus homens, mas não escutou nada. Estava sozinho e perdido, e a escuridão agora era quase completa.
Ele procurou abrigo. Depois de um tempo, encontrou um aglomerado de cavernas, das quais um vento quente e úmido entrava e saía a intervalos regulares. Ele achou que era o lugar perfeito para passar a noite e se instalou ali dentro.
Zheng cavou um buraco pequeno e acendeu uma fogueira. Assim que as chamas se elevaram, o chão entrou em convulsões e um grito ensurdecedor ecoou das profundezas da caverna.
— Apague! Apague o fogo! — trovejou a voz que gritara.
Aterrorizado, Zheng chutou terra sobre as chamas. O chão parou de tremer.
— Por que está me machucando? O que eu fiz para você? — perguntou a voz retumbante.
Zheng não sabia com quem estava conversando, mas considerou prudente responder.
— Eu não queria machucar ninguém! Só estava tentando preparar um pouco de comida.
— Ora, e o que você acharia se eu cavasse um buraco na sua pele e acendesse uma fogueira?
O olhar de Zheng se dirigiu ao buraco da fogueira apagada. Só então ele percebeu que o buraco estava rapidamente se enchendo de ouro líquido.
— Quem é você? — perguntou a voz.
— Meu nome é Zheng. Venho da cidade portuária de Tianjin.
Fez-se um longo silêncio. Em seguida, uma rajada de um riso vigoroso surgiu dos fundos da caverna.
— Você veio, finalmente! Não consigo expressar como estou feliz por vê-lo, querido! — exclamou a voz.
— Não estou entendendo. Quem é você?
— Ora, não reconhece a voz de seu pai?
— Meu pai! Onde? — gritou Zheng, virando-se para trás.
Houve outra explosão de riso, e então um monte de terra se ergueu atrás dele e o envolveu em um abraço arenoso.
— Senti tanta saudade, Zheng!
Com um choque, Zheng percebeu que não estava falando com algum gigante escondido no interior da caverna, mas com a própria caverna.
— Você não é meu pai! — gritou ele, soltando-se. — Meu pai é um homem... um ser humano!
— Eu era humano. Estou um pouco mudado, como pode ver, mas sempre serei seu pai.
— Você está tentando me enganar. Seu nome é Cocobolo, você se move à noite, e os buracos na sua terra se enchem de ouro líquido. É o que diz a lenda.
— Esta é a verdade para qualquer homem que se transforma em uma ilha.
— Existem outros como você?
— Aqui e ali...2 Cocobolo não é apenas uma ilha, sabe? Todos somos Cocobolo. Mas eu sou seu pai.
— Só acredito se me provar. Quais foram as últimas palavras que você me disse?
— Vá procurar por mim — respondeu a voz. — E não espere até que a grama cresça sob seus pés.
Zheng caiu de joelhos e chorou. Era verdade: seu pai era a ilha, e a ilha era seu pai. As cavernas eram o nariz e a boca; a terra era a pele; a grama, o cabelo. O ouro que enchera o buraco da fogueira era seu sangue. Se Liu Zhi tinha ido até ali em busca da cura, ele fracassara, assim como o filho. Zheng ficou angustiado, sem esperanças. Estava condenado a se tornar aquilo?
— Ah, pai, é horrível, é horrível!
— Não é horrível — respondeu o pai, soando um pouco ofendido. — Eu gosto de ser uma ilha.
— Gosta?
— Demorei um tempo para me acostumar, é claro, mas é infinitamente melhor que a alternativa.
— E o que há de tão ruim em ser humano? — perguntou Zheng, agora se sentindo insultado.
— Nada, se você foi feito para ser humano. Eu não fui feito para ser humano para sempre, embora por anos não aceitasse isso. Lutei muito contra as mudanças que estavam tomando conta de mim, e que agora estão tomando conta de você também. Pedi a ajuda de médicos e, quando eles se revelaram inúteis, procurei culturas distantes e consultei feiticeiros e curandeiros, mas ninguém conseguiu fazer com que parasse. Eu estava completamente infeliz. Por fim, não aguentei mais e fui embora, encontrei uma faixa distante de oceano onde viver e permiti que minha areia se espalhasse, que minha grama crescesse. E, meu Deus, foi um alívio enorme.
— E você é realmente feliz assim? Uma mancha de floresta infestada de jaguares no meio do mar?
— Sou. Embora, admito, seja solitário viver como ilha. A única outra Cocobolo nesta parte do mundo é um velho excêntrico e chato, e os únicos humanos que me visitam querem extrair meu sangue. Mas se meu filho estivesse aqui, junto comigo, ah, eu não ia querer mais nada!
— Desculpe, mas não foi por isso que eu vim. Não quero ser uma ilha. Eu quero ser normal!
— Mas você não é normal.
— Você desistiu cedo demais, só isso. Deve haver uma cura!
— Não, filho — disse a ilha, dando um suspiro com tanta força que soprou o cabelo de Zheng para trás. — Não há cura. Esta é nossa forma natural.
Para Zheng, aquela notícia foi pior que uma sentença de morte. Tomado de desesperança e raiva, ele se enfureceu e chorou. O pai tentou consolá-lo erguendo uma cama de grama macia para que o filho se deitasse e, quando começou a chover, vergou as palmeiras para que o protegessem. Depois que Zheng adormeceu de exaustão, o pai manteve afastados os felinos da selva, emitindo estrondos assustadores.
Pela manhã, ao acordar, Zheng tinha superado o estágio de desesperança. Em seu interior havia uma força de vontade imbatível que se recusava a aceitar a  perda de sua humanidade. Ele ia lutar por ela, houvesse cura ou não. Lutaria até a morte, se necessário fosse. Quanto ao pai, pensar nele provocava uma tristeza insuportável, por isso Zheng decidiu esquecê-lo por completo.
Zheng se levantou e saiu dali.
— Espere! — pediu o pai. — Por favor, fique comigo. Seremos ilhas juntos, você e eu, um pequeno arquipélago! E sempre teremos a companhia um do outro. É o destino, filho!
— Não é o destino. Você fez uma escolha — disse Zheng, com amargura, e penetrou na floresta a passos resolutos.
O pai não tentou detê-lo, embora pudesse tê-lo feito com facilidade. Um gemido triste saiu da boca da caverna, junto com ondas de hálito quente que varreram a ilha. Enquanto o pai chorava, os ramos das árvores tremiam e balançavam, lançando dos galhos uma chuva de rubis. Parando aqui e ali para recolhê-los, Zheng encheu os bolsos, de modo que, quando chegou à enseada e tornou a se juntar ao navio, tinha recolhido tantas lágrimas do pai que daria para pagar o salário de todos os seus homens e tornar a encher os cofres em casa.
Os homens da tripulação vibraram quando o viram, pois já o davam por morto. À ordem dele, içaram a âncora e zarparam de volta para Tianjin.
— E seu pai? — perguntou o imediato, puxando Zheng de lado para falar em particular.
— Fico feliz por ele estar morto — respondeu Zheng laconicamente.
O imediato assentiu e não voltou a tocar no assunto.
Mesmo enquanto a ilha se afastava às costas deles, Zheng podia ouvir o choro do pai.
Lutando contra uma poderosa onda de arrependimento, ele parou de pé na proa e se recusou a olhar para trás.
Por um dia e uma noite inteiros, um grupo de baleias seguiu na esteira do Improvável, cantando para ele:
Não vá.
Não vá.
Você é filho de Cocobolo.
Ele tapou os ouvidos e fez o possível para ignorá-las.
Durante a longa viagem para casa, Zheng tentava obsessivamente ocultar a transformação que estava acontecendo em seu corpo. Raspava os pés e aparava a alga marinha das axilas. Sua pele ficava quase o tempo todo polvilhada com a areia fina que seus poros exsudavam, então ele começou a usar camisas de gola alta e manga comprida, além de se banhar no mar toda manhã.
No dia em que chegou a Tiajin, Zheng foi logo consultar um cirurgião, antes mesmo de ir ver a esposa, e o instruiu a fazer o que fosse necessário para deter sua transformação. O cirurgião deu a Zheng um remédio poderoso para deixá-lo inconsciente, e, quando acordou, ele descobriu que suas axilas tinham sido preenchidas com alcatrão pegajoso, a pele coberta de cola para bloquear seus poros e seus pés foram amputados e substituídos por outros, de madeira. Zheng se olhou no espelho e se encheu de repulsa. Estava com uma aparência bizarra. Contudo, estava amargamente otimista de que o sacrifício feito salvaria sua humanidade, portanto pagou ao médico e foi claudicante para casa em seus novos pés de madeira.
A esposa quase desmaiou quando o viu.
— O que você fez consigo mesmo? — indagou ela.
Zheng inventou que havia se ferido ao salvar um homem no mar, e, para explicar a pele pegajosa, alegou ter tido uma reação ao sol tropical. Repetiu as mesmas mentiras para a família e os parceiros de negócios, além de dizer que encontrara o corpo do pai em Cocobolo.3 Liu Zhi, contou ele a todos, havia morrido. Eles estavam mais interessados nos rubis que Zheng trouxera da ilha.
Por um tempo, a vida foi boa. O estranho crescimento de vegetação corporal havia estagnado. Ele passara a mancar com os pés de madeira, ou seja, trocara uma aflição anormal por outra relativamente comum, com a qual podia conviver. Os rubis lhe proporcionaram fama não apenas como homem rico, mas também como explorador: afinal, tinha descoberto Cocobolo e voltado para contar a história. Foram promovidos banquetes e festas em sua homenagem.
Zheng tentou se convencer de que estava feliz. Com a esperança de dar um fim à vozinha de arrependimento que choramingava em seu interior de vez em quando, tentou se convencer de que o pai havia mesmo morrido. Isso é invenção da sua cabeça, dizia a si mesmo. Não era possível que aquela ilha fosse seu pai.
Mas vez ou outra, quando seus negócios o levavam até a baía, ele tinha a impressão de ainda ouvir o canto das baleias chamando-o de volta a Cocobolo. Às vezes, ao contemplar o oceano por uma luneta, jurava ver no horizonte uma mancha familiar que não era um navio e onde não havia uma ilha mapeada. Aos poucos, com o passar das semanas, começou a sentir dentro de si uma pressão estranha se formando. A intensidade ficava maior quando ele estava perto da água, como se o mar estivesse tentando fazer o corpo de Zheng se lembrar do que desejava se tornar. Se parasse na beira de um cais e enchesse seu olhar com o oceano, sentia a grama, a areia e as algas que trancara dentro de si lutando para serem libertas.
Zheng passou a evitar a água. Jurou nunca mais pisar em um navio. Comprou uma casa bem no interior, onde jamais teria que olhar para o oceano. Mas nada disso foi suficiente: ele sentia a pressão sempre que tomava banho, lavava o rosto ou quando pegava chuva. Zheng parou de tomar banho e de lavar o rosto e nunca saía se houvesse uma nuvem escura sequer no céu. Não bebia água em copos, com medo de que isso despertasse desejos incontroláveis. Quando a sede era muita, chupava um pano molhado.
— Nem uma gota. Não vou permitir nem uma gota nesta casa — disse ele à esposa.
E assim ele seguiu a vida. Muitos anos se passaram sem que Zheng tivesse contato com água. Velho e ressecado como poeira, ele começou a parecer uma uva-passa gigante, mas nem as plantas nem os desejos retornaram. Ele e a esposa nunca tiveram filhos, em parte porque Zheng tinha sido selado com cola de cima a baixo, mas também porque ele temia passar aquele problema para a próxima geração.
Certo dia, Zheng estava examinando os pertences pessoais para escrever seu testamento quando, no fundo de uma gaveta, encontrou um saquinho de seda. Ele o virou de cabeça para baixo, e um rubi caiu na palma de sua mão. Tinha vendido o restante havia muito tempo e achava que aquele tinha se perdido, mas ali estava ele, frio e pesado em sua mão. Naquele momento, Zheng percebeu que passara metade da vida sem pensar no pai.
Suas mãos começaram a tremer. Ele escondeu o rubi de vista e se voltou para outros assuntos, mas não conseguiu controlar o que brotava de seu interior. Não conseguia imaginar de onde a umidade estava vindo. Ele sequer tinha chupado um trapo em três dias, mas sua visão começou a turvar e seus olhos lacrimejavam, como se alguma reserva secreta tivesse se aberto em seu corpo.
— Não! Não, não, não! — gritou ele, esmurrando a mesa.
Desesperado, Zheng olhou em volta à procura de algo para distrair a mente. Contou até vinte de trás para a frente, cantou uma música sem sentido. Mas não conseguiu fazer aquilo parar.
Quando finalmente aconteceu, o evento foi tão anticlimático que ele se perguntou se não tinha exagerado. Uma lágrima desceu pelo rosto, escorreu do queixo e caiu no chão.
Ele ficou parado, imóvel, olhando fixamente para a mancha escura que a gota deixou na madeira.
Por um longo momento, tudo ficou imóvel e silencioso. Então, a coisa que Zheng mais temia aconteceu. Começou com aquela antiga pressão terrível, que em questão de instantes se tornou insuportável. Parecia que seu corpo estava sofrendo um terremoto.
A cola que cobria seu corpo rachou e caiu. Uma inundação de areia tomou  conta de sua pele. O alcatrão que tapava suas axilas se desintegrou, e ramos de algas brotaram a uma velocidade incrível. Em menos de um minuto o cômodo estava quase inteiramente preenchido por aquilo, e ele soube que precisava sair da casa para não destruí-la. Zheng saiu correndo para um temporal violento.
Ele caiu na rua, a areia e as algas ainda brotando. As pessoas que passavam por ele saíam correndo aos gritos. Os pés de madeira se soltaram, e dos cotos surgiram extensões infinitas de grama. O corpo de Zheng começou a crescer, a chuva e a grama se misturando à areia para formar terra, camadas e camadas que o envolviam como pele sobre pele. Logo Zheng estava tão largo quanto a rua e alto como a própria casa.
Uma multidão se formou e o atacou. Zheng lutou para permanecer sobre seus cotos gramados e, depois, tentou correr. Ele caiu, esmagando uma casa com seu peso. Tornou a se levantar e seguiu desastradamente adiante, subindo um morro com dificuldade, os pés abrindo buracos na rua.
A multidão o perseguiu, e chegaram soldados, que disparavam flechas nas costas dele. De suas feridas jorrava ouro líquido, o que apenas encorajou mais gente a se juntar ao ataque. Durante todo esse tempo Zheng crescia, e logo estava com o dobro de largura da rua e três vezes maior que sua casa. Sua forma estava rapidamente deixando de ser humana, os braços e pernas desaparecendo no interior da bola gigante de terra que era seu tronco.
Ele chegou ao alto da rua caminhando sobre pequeninos cotos bamboleantes, que no momento seguinte foram engolidos pelo próprio corpo. Sem ter como se equilibrar, Zheng saiu rolando pelo outro lado, uma forma redonda, no início vagarosamente mas ganhando cada vez mais velocidade. Era impossível detê-lo. Ele foi esmagando casas, carroças e pessoas pelo caminho, o tempo todo crescendo mais e mais.
Zheng adernou para o interior da baía, correu por um cais de madeira e mergulhou no mar, provocando uma onda tão grande que todos os barcos ao redor foram inundados. Ao voltar à superfície e ser levado pela corrente, ele começou a crescer mais rápido que nunca, a grama, a terra, a areia e as algas se estendendo pela água até formar uma ilhota. A transformação o consumiu de forma tão completa que ele não percebeu a aproximação de vários navios de guerra do imperador, mas sentiu quando começaram a disparar os canhões em sua direção.
A dor era inacreditável. O sangue dourado de Zheng fez o mar brilhar ao sol. Ele achou que era o fim de sua vida, até que ouviu uma voz familiar.
Era o pai de Zheng, chamando seu nome.
A Cocobolo se colocou entre o filho e os navios com um grande estrondo. A onda gerada nesse momento emborcou os navios de guerra do imperador como se fossem brinquedos. Zheng sentiu algo se ligar a ele dentro da água — era seu pai o puxando para o mar. Quando já estavam longe do perigo e tudo havia se acalmado, Liu Zhi dobrou alguns coqueiros para servirem como catapultas, lançando terra para os buracos que tinham sido abertos em Zheng pelos tiros de canhão.
— Obrigado — disse Zheng. Sua voz era um ronco alto que saía de algum ponto desconhecido. — Eu não mereço sua bondade.
— Claro que merece — respondeu Liu Zhi.
— Você estava de vigia.
— Estava — confirmou o pai.
— Por todos esses anos?
— Sim. Eu tinha a sensação de que um dia você precisaria da minha ajuda.
— Mas eu fui muito cruel com você.
Liu Zhi ficou em silêncio por um momento.
— Você é meu filho.
Zheng tinha parado de sangrar, mas agora sentia uma dor ainda pior: uma vergonha terrível. Zheng conhecia muito bem a vergonha, mas aquela era de um tipo diferente. Ele estava envergonhado diante da bondade com que havia sido tratado; envergonhado pela maneira como tratara o pobre pai; e, acima de tudo, envergonhado de si mesmo, por deixar que a vergonha o consumisse.
— Sinto muito, pai — disse Zheng, chorando. — Sinto muito mesmo.
Enquanto chorava, Zheng sentia que estava crescendo: areia, grama e terra despontando para o exterior, as algas se adensando em uma floresta submarina. O recife de coral que circundava o pai se ligou ao que começava a se formar em torno de Zheng, e, com um leve puxão, a Cocobolo mais velha conduziu a jovem ilha mar adentro.
— Tem um ponto maravilhoso perto de Madagascar onde podemos relaxar em segurança — disse o pai. — Acho que você precisa de um bom e demorado cochilo.
Zheng se deixou arrastar e, com o passar dos dias, começou a sentir algo incrivelmente novo, algo maravilhoso.
Finalmente se sentia ele mesmo.

1 Ao que parece, a informação da existência das ymbrynes na Grã-Bretanha se propagou por grandes distâncias, transformando-se em material de lendas mesmo entre não peculiares.
2 Ilhas vivas são praticamente desconhecidas no mundo peculiar atual. Se ainda existem algumas, permanecem muito bem escondidas. Ninguém pode culpá-las por serem tímidas: no passado, mineradores exploravam essas ilhas, extraindo o sangue delas por métodos grotescos e extremamente dolorosos.
3 Tecnicamente, não era mentira, já que o corpo do pai era Cocobolo.

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