20 de abril de 2017

3. A primeira ymbryne


Nota do editor:
Embora possamos afirmar com segurança que muitos dos personagens dos Contos realmente viveram e caminharam sobre a terra, é difícil confirmar a veracidade de qualquer outro elemento destas narrativas. Antes de serem registradas por escrito, nossas histórias foram transmitidas oralmente por muitos séculos, sendo, portanto, altamente suscetíveis a alterações, cada contador embelezando sua narrativa como considerasse melhor. O resultado é que hoje elas são quase lendas, e têm um caráter — além de seu valor literário — essencialmente moral. A história da primeira ymbryne da Grã-Bretanha é uma exceção notável. É uma das poucas cuja autenticidade histórica pode ser detalhadamente comprovada. Os eventos descritos foram confirmados não apenas por muitas fontes contemporâneas, mas também pela própria ymbryne citada (em seu famoso livro de encíclicas, Uma coletânea de caudas emplumadas). É por isso que o considero o mais significativo de todos os contos, sendo ao mesmo tempo uma parábola moral, uma narrativa cativante e uma crônica de valor inegável na história dos peculiares.
— MN

A PRIMEIRA YMBRYNE não era uma mulher que podia se transformar em ave, mas uma ave que podia se transformar em mulher. Ela nasceu em uma família de milhafres, caçadores ferozes que não gostavam do hábito da irmã de se tornar uma criatura corpulenta e terrestre em momentos inesperados, pois suas mudanças repentinas de tamanho os derrubavam do ninho e sua fala estranha e balbuciante atrapalhava as caçadas.
O pai deu a ela o nome de Ymeene, que na língua trinada dos milhafres significa “estranha”, e ela sentia o fardo solitário dessa solidão desde que completou idade suficiente para erguer a cabeça.
Os milhafres são territoriais e orgulhosos, e não há nada de que gostem mais do que uma boa luta sangrenta. Com Ymeene não era diferente. Quando eclodiu uma guerra territorial entre sua família e um bando de tartaranhões, ela lutou com bravura, determinada a provar que era tão milhafre quanto os irmãos. As outras aves, além de maiores e mais fortes, estavam em maior número, mas o pai de Ymeene se recusou a admitir a derrota, mesmo quando os filhos começaram a morrer nos embates. No fim, eles expulsaram os tartaranhões, mas Ymeene ficou ferida e todos os seus irmãos foram mortos, com exceção de um. Sem compreender para que tudo aquilo tinha servido, ela perguntou ao pai por que não tinham simplesmente fugido e encontrado outro ninho onde viver.
— Precisávamos defender a honra da família — explicou ele.
— Mas agora nossa família está morta. Que honra há nisso? — questionou Ymeene.
— Imagino que uma criatura como você não consiga entender.
E, após dizer essas palavras, ele aprumou as penas, saltou no ar e saiu voando para caçar.
Ymeene não o seguiu. Ela tinha perdido o gosto pela caça, por sangue e por luta também, o que para um milhafre era ainda mais estranho do que se transformar em humano de vez em quando. Talvez ela não devesse ter nascido um gavião, pensou enquanto descia voando para o solo da floresta e aterrissava com pernas humanas. Talvez tivesse nascido no corpo errado.
Ymeene ficou perambulando por muito tempo. Ela se mantinha perto de povoamentos humanos, observando-os da segurança das árvores. Como havia parado de caçar, foi a fome que finalmente a fez ter coragem de entrar em uma aldeia, para roubar um pouco de comida (milho torrado que havia sido jogado para as galinhas, tortas deixadas no batente de janelas para esfriar, panelas de sopa não vigiadas). E descobriu que gostava do lugar. Ela aprendeu um pouco de língua humana, para poder conversar com os habitantes, e descobriu que gostava da companhia deles ainda mais que da comida. Gostava de ouvi-los rir e cantar e demonstrar amor uns pelos outros. Assim, ela escolheu uma aldeia qualquer para morar.
Um senhor bondoso deixou que ela se instalasse em seu celeiro, e a esposa desse senhor a ensinou a costurar, para que ela tivesse um ofício. Tudo estava correndo tranquilamente, até que, alguns dias depois, o padeiro da aldeia a viu se transformar em ave. Ymeene ainda não tinha se acostumado a dormir na forma humana, então toda noite voltava a ser milhafre, voava para o alto das árvores e dormia com a cabeça embaixo da asa. Os aldeões, chocados ao saber disso pelo padeiro, a acusaram de feitiçaria e a perseguiram com tochas, expulsando-a da aldeia.
Triste porém determinada, Ymeene saiu sem rumo de novo e encontrou outro vilarejo. Dessa vez, ela tomou cuidado para não deixar que ninguém a visse se transformar em ave, mas mesmo assim os aldeões pareciam desconfiar dela. Para a maioria das pessoas, Ymeene tinha alguma coisa estranha (havia sido criada por gaviões, afinal de contas), e não demorou muito para que também fosse expulsa daquela nova aldeia. Novamente triste, ela se perguntou se haveria algum lugar no mundo ao qual pertencesse.
Certa manhã, à beira do desespero, Ymeene se deitou e observou o sol nascer em uma clareira na floresta. Foi um espetáculo de tamanha beleza que a fez esquecer os problemas por um momento, e, quando terminou, ela desejou desesperadamente ver aquilo mais uma vez. Em um instante o céu escureceu e o amanhecer voltou a surgir, e ela se deu conta de que tinha outro talento além da habilidade de mudar de forma: podia fazer pequenos momentos se repetirem. Passou dias se divertindo com esse truque, repetindo o salto gracioso de um veado ou um raio oblíquo do sol da tarde só para poder apreciar melhor a beleza daqueles instantes, o que a animava imensamente. Estava repetindo a primeira queda de neve imaculada quando uma voz a assustou.
— Com licença, mas é você que está fazendo isso acontecer?
Ela se virou e viu um jovem de túnica verde curta e sapatos de pele de peixe. Era um traje estranho, mas ainda mais estranho era o fato de ele carregar a cabeça embaixo do braço, totalmente desconectada do pescoço.
— Ora, e essa sua cabeça, o que aconteceu com ela?
— Mil desculpas! — disse o jovem, como se tivesse acabado de perceber que estava com a braguilha aberta, e, com grande embaraço, botou a cabeça de volta no pescoço. — Isso foi muito rude de minha parte.
O rapaz se apresentou como Englebert. Como Ymeene não tinha para onde ir, ele a convidou para voltar com ele. Era um povoado simples, com tendas como moradias e fogueiras para cozinhar, e as poucas pessoas que ali viviam eram tão estranhas quanto Englebert. Na verdade, eram tão estranhas que a maioria delas, assim como Ymeene, tinha sido expulsa de sua terra natal. Elas a receberam bem, mesmo depois de vê-la se transformar em gavião, e lhe mostraram alguns dos talentos especiais que possuíam.
Ymeene viu que, afinal de contas, não estava sozinha. Talvez houvesse, sim, um lugar para ela no mundo.
Aquelas pessoas eram, é claro, antigos peculiares da Grã-Bretanha, e o que Ymeene não sabia era que os havia encontrado durante um dos períodos mais sombrios da história do mundo peculiar. Houve uma época em que os peculiares eram não apenas aceitos, mas até mesmo reverenciados pelas pessoas comuns, com quem conviviam sem problemas, mas nos últimos tempos eles vinham enfrentando a ignorância, e as pessoas comuns andavam desconfiadas deles. Sempre que acontecia uma tragédia impossível de ser explicada pela rudimentar ciência da época, os peculiares eram feitos de bode expiatório. Quando, certa manhã, a aldeia de Pequeno Desencanto acordou e descobriu todos os seus carneiros carbonizados, teriam os aldeões concluído que os animais haviam sido fulminados por uma tempestade de raios? Não: eles culparam o peculiar que morava ali e o expulsaram para viver na floresta. Quando as tecelãs de Remendo passaram uma semana sem conseguir parar de rir, teriam os aldeões culpado a lã infestada de ácaros contaminados pela Febre do Riso? Claro que não: eles atribuíram isso a duas irmãs peculiares e as enforcaram.
Tais ultrajes se repetiram por todo o país, com os peculiares sendo expulsos da sociedade para viverem em bandos como aquele ao qual Ymeene se juntara. Não era uma utopia: eles viviam juntos porque não podiam confiar em mais ninguém. O líder daquela aldeia se chamava Tombs, um gigante de barba ruiva amaldiçoado com a voz aguda de um pardal. Por conta disso, era difícil que o levassem a sério, mas ele se levava muito a sério, e nunca deixava que esquecessem o fato de ele ser membro do Conselho de Peculiares Notáveis.1
Ymeene evitava Tombs, pois havia desenvolvido certa repulsa a homens orgulhosos. Ela passava os dias com Englebert, seu amigo engraçado e às vezes meio desmiolado. Ela o acompanhava até a horta do acampamento e o ajudava a recolher lenha para as fogueiras, e ele, por sua vez, a ajudava a conhecer os outros peculiares da aldeia. Todos se afeiçoaram rapidamente a Ymeene, que começou a considerar o acampamento como seu lar adotivo, e os peculiares como sua segunda família. Ela contava a eles sobre sua antiga vida como gavião e os divertia repetindo momentos (uma vez, repetiu várias vezes o incidente em que Tombs tropeçou em um cachorro adormecido até toda a aldeia estar morrendo de rir), e eles a presenteavam com contos da rica história do mundo peculiar.
Na memória de Ymeene, aquela foi a época mais feliz de sua vida.
Durante alguns dias, a bolha de tranquilidade da aldeia era perfurada eventualmente por movimentos tristes do mundo exterior. Peculiares desesperados chegavam em um fluxo constante, fugindo do terror e da perseguição que sofriam. Todos relatavam histórias parecidas: tinham vivido normalmente até serem acusados de algum crime absurdo e expulsos, ao menos escapando com vida. (Tal como as pobres irmãs de Remendo, nem todos tiveram a mesma sorte.) Os peculiares deram as boas-vindas aos recém-chegados da mesma forma que tinham feito com Ymeene, mas, depois de quase um mês de afluência, o vilarejo tinha passado de apenas quinze para cinquenta peculiares.
Não havia espaço nem alimento suficiente para que as coisas continuassem daquele jeito indefinidamente, e um mau presságio começou a pesar sobre eles.
Certo dia, um outro representante do Conselho de Peculiares Notáveis chegou ao vilarejo. Ele tinha uma expressão amarga e ficou horas na tenda de Tombs, e quando os dois finalmente emergiram de lá, reuniram todos para dar notícias preocupantes.
Peculiares já haviam sido expulsos de muitas de suas cidades e aldeias, e agora estavam sendo banidos de Oddfordshire. Haviam reunido um contingente de lutadores armados que logo alcançaria os peculiares. A questão, agora, era se os peculiares deveriam lutar ou fugir.
É desnecessário dizer que os peculiares ficaram assustados e bastante hesitantes.
— Não vale a pena morrer por esses morros e essas tendas frágeis — pronunciou-se uma jovem, olhando ao redor. — Por que não recolhemos nossas coisas e vamos viver na floresta?
— Não sei quanto a vocês, mas eu estou cansado de fugir. Voto por ficarmos e lutarmos. Precisamos resgatar nossa dignidade! — bradou Tombs.
— Essa também é a recomendação oficial do Conselho — acrescentou o conselheiro, com expressão amarga.
— Mas não somos soldados. Não temos treinamento de guerra — argumentou Englebert.
— Eles são uma força pequena e não têm armamento pesado — explicou Tombs. — Acham que somos covardes, prontos para fugir à primeira ameaça, mas estão nos subestimando.
— Mas não vamos precisar de armas? Espadas, clavas e coisas assim? — perguntou outro homem.
— Estou surpreso, Eustace — interpelou Tombs. — Não é você que consegue virar o rosto de um homem do avesso, só puxando o nariz?
— Bem... sim — concordou o homem, com timidez.
— E você, Millicent Neary, já a vi acender fogueiras apenas com um sopro. Imagine como vão ficar aterrorizados quando você queimar as roupas deles!
— Isso é um cenário e tanto! Sim, seria incrível enxotá-los, só para variar — disse Millicent.
Um burburinho começou entre o grupo.
— Sim, seria incrível.
— Eles estão merecendo isso há muito tempo.
— Vocês souberam o que aconteceu com Titus Smith? Fizeram picadinho dele e o deram para os próprios porcos comerem!
— Se não resistirmos agora, eles não vão parar nunca.
— Justiça para Titus! Justiça para todos nós!
Com pouco esforço, os conselheiros haviam incitado fervor entre os peculiares. Até Engelbert, de modos suaves, estava ávido por luta. Ymeene, que sentira o estômago se revirar à primeira menção de uma batalha, não conseguiu mais ouvir. Ela escapou da aldeia e saiu para uma longa caminhada na floresta. Quando voltou, à noite, encontrou Englebert perto da fogueira onde cozinhava. Seu ânimo arrefecera, mas não a decisão de lutar.
— Vamos embora — sugeriu Ymeene. — Podemos recomeçar em outro lugar.
— Para onde iríamos? Eles querem nos expulsar de Oddfordshire.
— Wontshire. Therefordshire. Peacewickshire. Você prefere morrer em Oddfordshire a viver em qualquer outro lugar?
— É apenas uma dúzia de homens. Como ficaria nossa imagem se fugíssemos de uma ameaça tão insignificante?
Mesmo com a vitória praticamente garantida, Ymeene não queria tomar parte naquilo.
— Não vale a pena sacrificar um fio de cabelo sequer por nossa imagem, muito menos uma vida — argumentou ela.
— Então você não vai lutar?
— Eu já perdi uma família para a guerra. Não vou ficar para ver outra se lançar ao fogo por vontade própria.
— Se você for embora, vão pensar que é uma traidora. Você nunca vai conseguir voltar.
Ela olhou bem nos olhos de Englebert ao perguntar:
— E o que você vai pensar?
Englebert olhou fixamente para o fogo, tentando encontrar as palavras. Encarando o silêncio entre eles como resposta suficiente, Ymeene saiu dali para sua tenda. Quando se deitava para dormir, foi tomada por uma grande tristeza. Tinha certeza de que seria sua última noite como humana.
Ymeene partiu aos primeiros sinais do amanhecer, antes que qualquer um tivesse acordado. Não aguentava despedidas. Ela saiu do acampamento, transformou-se em gavião e, quando alçou voo, se perguntou se algum dia encontraria outro grupo que a aceitasse, fossem humanos ou aves.
Ymeene estava voando havia apenas alguns minutos quando avistou, lá no chão, a força de combate das pessoas comuns reunida. Mas não era um grupo improvisado, com algumas dúzias de homens: era um exército de centenas, com armaduras reluzentes encobrindo os morros.
Os peculiares seriam massacrados! Na mesma hora ela voltou para alertá-los. Encontrou Tombs na tenda em que morava e contou a ele o que tinha visto.
Ele não pareceu surpreso.
Ele sabia.
— Por que não contou aos outros que eram tantos soldados? Você mentiu! — acusou ela.
— Eles teriam ficado aterrorizados. Não teriam se comportado com dignidade.
— É claro que ficariam aterrorizados! A essa altura, já deviam ter fugido!
— Isso não valeria de nada. O rei deles ordenou o expurgo de peculiares na Grã-Bretanha, das montanhas ao mar. Acabariam nos encontrando de qualquer jeito.
— Não se deixarmos a Grã-Bretanha — disse Ymeene.
— Deixar a Grã-Bretanha! — exclamou ele, chocado. — Mas estamos aqui há séculos!
— Morrer é para sempre — retrucou Ymeene.
— É questão de honra. Imagino que uma ave não compreenda.
— Eu compreendo bem até demais — respondeu ela, e foi alertar os outros.
Mas era tarde: o exército já havia chegado, um enxame de soldados fortemente armados. Pior ainda: agora os peculiares não podiam nem fugir, pois estavam cercados.
Os peculiares se agruparam, aterrorizados. A morte parecia inevitável. Ymeene poderia ter mudado de forma e voado para longe dali, e os próprios peculiares insistiram para que ela fizesse isso, mas ela não conseguiu abandoná-los. Eles tinham sido enganados, e o sacrifício que estavam prestes a fazer não era mais voluntário. Agora, se ela partisse, não seria por princípio, mas por descaso e deslealdade. Ymeene cruzou o acampamento abraçando cada um de seus amigos. Englebert foi quem a abraçou com mais força e, mesmo depois de soltá-la, ficou olhando fixamente para ela.
— O que foi? — perguntou Ymeene.
— Estou memorizando o rosto de minha amiga. Para me lembrar de você mesmo na morte.
O silêncio caiu sobre o acampamento, e por algum tempo os únicos sons eram o ribombar e o clangor do exército que se aproximava. Então o sol saiu de trás de uma nuvem escura, banhando a terra em luz cintilante, e Ymeene achou aquela visão tão linda que desejou poder vê-la mais uma vez antes de morrer. Então ela a repetiu, e os peculiares ficaram tão hipnotizados que Ymeene a repetiu uma segunda vez. Só então eles perceberam que, nos minutos que passaram observando o sol, o exército não tinha se aproximado nem um pouco. A cada repetição os inimigos reapareciam mais longe, a muitas centenas de metros.
Foi assim que Ymeene entendeu a utilidade que tinha seu dom de voltar o tempo, algo que ela nunca havia percebido. Esse poder viria a mudar o mundo peculiar para sempre, embora ela não soubesse disso naquele momento. Ymeene tinha criado um lugar seguro para eles, uma bolha de tempo imobilizado, e os peculiares observavam, fascinados, o exército normal avançando em sua direção para em seguida desaparecer, repetidas vezes, os mesmos três minutos.
— Por quanto tempo você acha que consegue fazer isso? — perguntou Englebert a ela.
— Não sei. Só repeti poucas vezes um único momento. Mas acho que posso continuar por um bom tempo.
Tombs surgiu de sua tenda, intrigado e enfurecido.
— O que está fazendo? Pare já com isso! — gritou ele com Ymeene.
— Por quê? Estou salvando a vida de todos nós!
— Você está apenas adiando o inevitável. Pela autoridade do Conselho, eu ordeno que desista imediatamente!
— Seu Conselho me enoja! Vocês não passam de mentirosos! — acusou Millicent Neary.
Quando Tombs começou a enumerar as punições que aguardavam quem desafiasse as ordens do Conselho, Eustace Corncrake marchou até ele e puxou seu nariz, virando do avesso o rosto do sujeito. Tombs saiu correndo, ganindo ameaças, com a cabeça toda rosa.
Ymeene continuou a voltar o tempo. Os peculiares se reuniram em torno dela, animando-a, mas, no fundo, temendo que ela não conseguisse prolongar aquilo para sempre. E Ymeene tinha a mesma preocupação: precisava repetir o processo a cada três minutos, então não poderia dormir, mas em algum momento seu corpo a forçaria ao sono, e o exército que assomava perpetuamente ao longe se aproximaria e, finalmente, os esmagaria.
Depois de dois dias e uma noite, Ymeene não podia mais confiar em sua força de vontade para permanecer acordada, por isso Englebert se ofereceu para se sentar ao lado dela e cutucá-la toda vez que seus olhos se fechassem. Mais um dia e uma noite se passaram, e o próprio Englebert começou a pegar no sono. Eustace Corncrake se ofereceu para se sentar ao lado de Englebert e cutucá-lo para que Englebert a cutucasse, e quando Eustace começou a perder a batalha contra o sono, Millicent Neary se ofereceu para se sentar ao lado dele e jogar água em seu rosto sempre que seus olhos se fechassem. Assim, todo o acampamento de peculiares se sentou em uma longa fileira, todos ajudando Englebert a ajudar Ymeene a permanecer acordada.
Passados quatro dias e três noites, Ymeene ainda não tinha deixado de reiniciar o processo nenhuma vez. No entanto, estava começando a ter alucinações, em consequência da exaustão. Ela achou ter visto seus irmãos mortos chegando para visitá-la, cinco milhafres voando em círculos acima do acampamento. Eles gritavam palavras que não faziam sentido:
Outra vez!
Outra!
De novo! De novo!
Volte a volta de volta!
Ela fechou os olhos e balançou a cabeça, então bebeu um pouco da água que Millicent Neary estava jogando em Eustace Corncrake. Quando tornou a erguer os olhos, seus irmãos fantasmagóricos tinham desaparecido, mas as palavras permaneciam. Ymeene se perguntou se os irmãos estavam tentando transmitir alguma mensagem útil ou, talvez, de alguma forma, o próprio instinto.
De novo! De novo!
A resposta surgiu no quinto dia. Ou melhor, uma resposta: ela não sabia se era a certa, mas estava totalmente segura de que daquele jeito não duraria nem mais um dia. Dali a pouco, nenhuma quantidade de cutucões impediria que ela dormisse.
Ela voltou o tempo mais uma vez. (Já tinha perdido a conta de quantas vezes fizera aquele sol surgir por trás da nuvem, mas devia ter sido milhares.) Então, apenas alguns segundos depois de voltar o tempo, voltou de novo: uma volta no interior da primeira volta.
Os resultados foram instantâneos e bizarros. Houve uma espécie de duplicação de tudo em torno deles (o sol, a nuvem, o exército), como se a visão de todos tivesse se turvado. O mundo levou um tempo para voltar ao foco, e, quando voltou, tudo estava um pouco mais velho do que antes. O sol estava mais atrás da nuvem. O exército estava mais distante. E dessa vez levou seis minutos, não três, para que o sol saísse de trás da nuvem.
Aí ela voltou o tempo uma segunda vez dentro da primeira volta, e assim o tempo voltou doze minutos, e uma terceira vez, e o tempo voltou vinte e quatro minutos.
Quando conseguiu voltar uma hora no tempo, ela tirou um cochilo. E, ao acordar, fez mais uma volta no tempo: era como se estivesse enchendo um recipiente de ar ou água; ela podia sentir a pele do momento original se expandir para abarcar todas aquelas horas até ficar cheia ao limite, retesada como um balão.
A fenda temporal criada por Ymeene tinha vinte e quatro horas de duração e começava na manhã do dia anterior, muito antes de haver um exército no horizonte. Os outros peculiares ficaram tão impressionados e agradecidos que tentaram chamá-la de rainha Ymeene e sua majestade, mas ela não aceitou nada disso. Ela era apenas Ymeene, e ter criado um lugar seguro, um ninho, para seus amigos era a maior alegria que já sentira.
Agora, embora estivessem a salvo, os problemas dos peculiares daquela aldeia estavam longe de ter um fim. O exército dos comuns continuou a aterrorizar peculiares pelo país, e, conforme se espalhava a informação de que havia uma fenda temporal em Oddfordshire, sobreviventes e refugiados chegavam com frequência cada vez maior.2
Em algumas semanas o número de habitantes dobrou, indo de cinquenta para cem. Havia vários membros do Conselho de Peculiares Notáveis (entre eles, Tombs, cujo rosto já tinha se desvirado). Embora não parecessem mais interessados em reverter a fenda, os conselheiros tentaram manter sua autoridade insistindo em não aceitar mais nenhum recém-chegado. Mas todos se submetiam a Ymeene — era a fenda dela, afinal de contas —, e ela nem queria ouvir falar em recusar pessoas, mesmo com o acampamento chegando ao limite máximo.
Os conselheiros, com raiva, ameaçaram todos de punição. Em contrapartida, foram acusados de mentir para os habitantes da aldeia e manipulá-los para provocar uma guerra. E, embora obviamente não fosse verdade, os conselheiros colocaram a culpa em Tombs, alegando que ele tinha agido sozinho. Também apontaram o dedo para Ymeene e a acusaram de usurpar a autoridade legítima dos conselheiros, uma transgressão pela qual ela deveria ser banida para o Deserto Impiedoso. Nesse momento, as pessoas se ergueram em defesa dela, jogaram lama nos conselheiros (talvez até um pouco de excremento) e os expulsaram do acampamento.3
Ao longo das semanas seguintes, os peculiares continuaram procurando Ymeene para obter liderança e orientação. Além de garantir que a fenda continuasse ativa, ela era convocada para solucionar conflitos pessoais, para dar o voto final sobre quais regras do Conselho manter, para punir aqueles que desobedecessem as regras mantidas, e assim por diante. Ela se adaptou rapidamente ao novo papel, mas também ficou intrigada. De todos os peculiares da fenda, ela era a mais nova e menos experiente. Aliás, fazia apenas seis meses que era humana em tempo integral! Mas os peculiares viam sua inexperiência como vantagem: ela tinha frescor e era imparcial, era neutra e justa, e tinha uma aura de digna sabedoria que lembrava mais o universo das aves que o humano.
O problema era que, mesmo com toda a sua sabedoria, Ymeene não conseguia solucionar o maior problema deles: mais de cem peculiares viverem em um espaço que tinha apenas cem metros de um lado a outro. Depois de criada, uma fenda poderia ser ampliada para durar mais tempo, mas não era possível aumentar o espaço, e Ymeene só havia incluído na fenda as poucas barracas de seu pequeno acampamento. Eles não tinham muita comida, e, embora seus estoques reaparecessem todo dia quando a fenda reiniciava, nunca era suficiente para alimentar a todos. (Fora da fenda havia caído um inverno forte, então havia pouco para caçar ou colher; era mais fácil encontrarem um bando itinerante de comuns que uma refeição, pois os comuns tinham se tornado obcecados em encontrar os peculiares que haviam desaparecido bem diante de seus olhos.)
Certa noite, Ymeene estava discutindo sobre isso com Englebert em torno de uma fogueira, enquanto várias pessoas cozinhavam por ali.
— O que vamos fazer? Se ficarmos aqui, morreremos de fome. Se fugirmos, seremos caçados — ponderava ela.
Englebert havia removido a cabeça e a pousado no colo, de modo que podia coçar o cabelo com as duas mãos, algo que fazia quando estava mergulhado em pensamentos.
— Você conseguiria fazer uma fenda maior, em algum lugar com bastante comida? — perguntou ele. — Se tomarmos cuidado para não sermos vistos, poderemos nos mudar para essa outra fenda.
— Quando o inverno passar, talvez. Provavelmente morreríamos congelados em qualquer fenda nova que eu criasse agora.
— Então vamos esperar. Vamos passar um pouco de fome, até o tempo melhorar.
— E depois o quê? Mais peculiares necessitados virão, e em pouco tempo não vamos caber nessa nova fenda. Tem um limite. Não consigo lidar com tanta responsabilidade.
Englebert deu um suspiro e coçou a cabeça.
— Se ao menos você pudesse fazer uma cópia de si mesma...
Uma expressão estranha surgiu no rosto de Ymeene.
— O que você disse?
— Se você pudesse criar uma cópia de si mesma — repetiu Englebert. — Aí poderíamos criar várias fendas e nos espalhar um pouco. Facções vão nos dividir, e lutas vão eclodir. E se, que os céus nos protejam, algo trágico acontecesse com esta fenda, a população de peculiares da Grã-Bretanha seria reduzida à metade de um só golpe.
Ymeene estava encarando Englebert, mas seus olhos encaravam um ponto dele.
— Talvez — respondeu ela. — Talvez.
Pela manhã, Ymeene reuniu os peculiares da aldeia para informar a eles que se ausentaria por um tempo. Ondas de pânico se espalharam pela multidão, embora ela garantisse que voltaria a tempo para reiniciar a fenda. Eles imploraram a ela que não fosse, mas ela insistiu, afirmando que o que precisava fazer era crucial para a sobrevivência de todos.
Ymeene deixou Englebert no comando, assumiu a forma de ave e saiu voando da fenda pela primeira vez desde que a criara. Sobrevoando as florestas congeladas de Oddfordshire, ela fez a mesma pergunta a todas as aves que encontrou pelo caminho:
— Você conhece alguma ave que se transforma em humano?
Ela procurou durante um dia e uma noite, mas em toda parte a resposta era negativa.
Ymeene voltou para a fenda temporal bem tarde naquela noite, cansada e desanimada, mas ainda não derrotada. Ela reiniciou a fenda, evitou as perguntas de Englebert e saiu voando outra vez, sem pausa para descanso.
Ymeene procurou insistentemente até ficar com as asas e os olhos doendo. “Será que não há no mundo inteiro uma outra criatura como eu?”, perguntava-se.
Depois de mais um dia de buscas infrutíferas, Ymeene estava quase convencida de que era mesmo a única. Esse pensamento a deixou desesperada. E desesperadamente solitária.
Então, quando o sol estava se pondo e ela já se preparava para voltar, Ymeene sobrevoou uma clareira na floresta e viu lá embaixo um bando de francelhos, e entre eles uma mulher jovem. Tudo aconteceu em um átimo. Os francelhos a viram e levantaram voo, espalhando-se na mata. No tumulto, a jovem mulher desapareceu. Mas para onde ela poderia ter ido tão rápido?
Seria possível que ela tivesse se transformado em francelho e saído voando com os outros?
Ymeene mergulhou no ar e foi atrás deles, e por uma hora tentou encontrar os francelhos, mas francelhos são presa natural de milhafres, e eles estavam morrendo de medo de Ymeene. Ela teria que tentar outra abordagem.
Estava escuro. Ymeene voltou para a fenda temporal, reiniciou-a, devorou cinco espigas de milho assado e duas tigelas de sopa de alho-poró (voar o dia inteiro dava muita fome) e voltou à floresta dos francelhos na manhã seguinte; dessa vez, ela se aproximou da clareira não pelo ar, como milhafre, mas a pé, como humana. Quando os francelhos a viram, voaram para as árvores e ficaram parados, observando-a, cautelosos, mas sem medo. Ymeene parou no meio da clareira e se dirigiu a eles não em língua humana nem em milha-língua (a fala dos milhafres), mas usando as poucas palavras entrecortadas em francelho que ela conhecia, o melhor que sua garganta humana era capaz de reproduzir.
— Um de vocês não é como os outros — disse ela. — E é a esta jovem que estou me dirigindo. Você é ao mesmo tempo ave e humana. Eu fui abençoada e amaldiçoada com essa mesma habilidade e gostaria muito de conversar com você.
O espetáculo de uma humana falando francelhês provocou um alvoroço de pios nas árvores, e em seguida Ymeene ouviu um bater de asas. Depois de alguns instantes, uma jovem surgiu de trás de um tronco de árvore. Tinha pele morena e lisa e vestia peles e couros para se proteger do frio.
— Você entende o que eu digo? — perguntou Ymeene a ela.
A jovem mulher balançou a cabeça com hesitação. Um pouco, pareceu dizer.
— Sabe falar a língua humana? — perguntou Ymeene.
— Sí, un poco — respondeu a mulher.
Ymeene reconheceu a língua como humana, mas não conseguiu entender as palavras. Talvez a mulher fosse de um clã migratório e as tivesse aprendido em outro lugar.
— Meu nome é Ymeene — disse ela, apontando para si mesma. — Qual o seu?
A jovem limpou a garganta e emitiu um grito longo em francelhês.
— Talvez possamos chamá-la de srta. Francelho, por enquanto. Srta. Francelho, tenho uma pergunta importante para lhe fazer. Você alguma vez já fez alguma coisa acontecer... mais de uma vez?
Ela desenhou um círculo grande no ar com o dedo, na esperança de que a mulher entendesse a ideia de repetição.
A srta. Francelho se adiantou alguns passos, arregalando os olhos. Nesse instante, um monte de neve caiu de um galho de árvore, e, com um floreio dos braços, ela o fez desaparecer do chão e cair da árvore uma segunda vez.
— Sim! Você também consegue! — exclamou Ymeene.
Então ela acenou com a mão e também repetiu a queda da neve, e a srta. Francelho ficou boquiaberta.
Elas correram na direção uma da outra, rindo, e apertaram as mãos, gritaram e, em seguida, se abraçaram, cada uma falando empolgada em uma língua que a outra mal entendia. Os francelhos nas árvores também estavam em júbilo, e, sentindo que Ymeene era amiga, desceram voando dos galhos e esvoaçaram em torno das duas mulheres, piando de animação.
O alívio de Ymeene foi indescritível. Embora fosse peculiar mesmo entre os peculiares, agora ela sabia que não estava sozinha. Havia outras como ela, o que significava que talvez a sociedade peculiar pudesse se tornar um lugar mais seguro, não mais controlada pelos caprichos tacanhos de homens orgulhosos. Ela tinha apenas uma ideia da forma que essa sociedade poderia assumir, mas sabia que encontrar a srta. Francelho havia sido uma descoberta importante. Elas conversaram, daquele seu jeito entrecortado, por quase uma hora, e, ao final, a srta. Francelho tinha concordado em seguir Ymeene de volta à fenda.
O resto, como se diz, é história. A srta. Francelho foi viver com os peculiares. Ymeene ensinou a ela tudo o que sabia sobre fendas, e logo a srta. Francelho tinha habilidade suficiente para manter a fenda em funcionamento sozinha. Isso permitiu que Ymeene embarcasse em expedições de longa distância para encontrar mais mulheres-aves capazes de alterar o tempo, assim como ela (o que ela fez, aumentando seu número para cinco), e quando as recém-chegadas tinham sido treinadas e o inverno frio e frugal deu lugar à primavera, elas dividiram os peculiares entre si e partiram pelo país para estabelecer cinco novas fendas permanentes.
As fendas foram vistas como refúgios seguros de sanidade e ordem, e a informação se espalhou rápido. Peculiares que tinham sobrevivido aos expurgos atravessavam a Grã-Bretanha para buscar refúgio, embora, para serem admitidos, eles tivessem que aceitar viver sob as regras das mulheres-ave. Elas se tornaram conhecidas como Ymeenes, em homenagem à primeira de sua espécie (embora com a passagem do tempo e a mudança gradual de línguas na Grã-Bretanha a palavra tenha se transformado em ymbrynes).
As ymbrynes se reuniam duas vezes por ano, para trocar informações e cooperar umas com as outras. Por muitos anos, a própria Ymeene supervisionou os procedimentos, observando com orgulho sua rede de ymbrynes e fendas crescer e o número de peculiares que elas conseguiam proteger chegar a muitas centenas. Ela viveu até a idade avançada e feliz de cento e cinquenta e sete anos. Durante todo esse tempo, ela e Englebert viveram na mesma casa, mas nunca no mesmo quarto, pois se amavam com companheirismo. Foi a Peste Negra, em um de seus surtos impiedosos pela Europa, que finalmente a levou.
Após a morte de Ymeene, os peculiares salvos por ela que ainda estavam vivos, junto aos filhos e netos deles, arriscaram a própria vida para atravessar um território hostil carregando-a em uma grande procissão. Seguiram rumo à floresta e, até onde sabia Englebert, à árvore onde Ymeene nascera, e a enterraram ali, entre suas raízes.4

1 O Conselho de Peculiares Notáveis, formado só por homens, precedeu o Conselho das Ymbrynes em muitos anos. Eram doze conselheiros muito amigáveis que se reuniam duas vezes ao ano para redigir e aperfeiçoar as leis sob as quais viviam os peculiares. Tais leis cuidavam principalmente da solução de conflitos (duelos eram permitidos), das circunstâncias sob as quais os peculiares podiam usar suas habilidades perto dos normais (sempre que era de seu interesse) e da miríade de penalidades por quebrar as regras (que iam de simples reprimendas ao banimento).
2 Apesar de este conto não as mencionar, provavelmente porque são numerosas demais, muitas descobertas notáveis em relação ao comportamento e à função das fendas foram feitas nessa época. Incluem-se aí o conceito de envelhecimento retardado, os limites de acesso a não peculiares, as saídas duplas de uma fenda para o passado e o presente e, talvez, até os rudimentos da teoria do fluxo do tempo e os problemas de fluxos paralelos. Tudo isso faz de Ymeene não apenas a primeira ymbryne da Grã-Bretanha, mas uma verdadeira pioneira em fendologia. As contribuições de seu amigo Englebert também não devem ser subestimadas: sua cabeça removível abrigava uma mente científica aguçada, e, não fossem suas anotações detalhadas, muitas das descobertas de Ymeene teriam se perdido.
3 Essa pequena revolta popular marcou o início da liderança matriarcal das ymbrynes, mas não foi uma ruptura simples. O Conselho e seus parceiros não abriram mão do poder com tanta facilidade e, nos anos seguintes, tramaram uma série de golpes malsucedidos. Mas isso é história para outra ocasião.
4 A árvore de Ymeene foi, por anos e anos, destino de peregrinos, mas a localização se perdeu há muito tempo. Uma das penas marrons e negras de sua cauda, entretanto, foi salva, uma relíquia que ainda pode ser vista no Panteão de Notáveis, protegida atrás de um vidro.

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Boa leitura :)