20 de abril de 2017

2. A princesa da língua bifurcada


NO ANTIGO REINO de Frankenburgo havia uma princesa que escondia um segredo peculiar: em sua boca havia uma comprida língua bifurcada e, em suas costas, escamas cintilantes em formato de losangos. Como ela tinha desenvolvido essas características serpentinas durante a adolescência e raramente abria a boca, por medo de ser descoberta, a princesa conseguira mantê-las em segredo de todos, menos de sua criada pessoal. Nem seu pai, o rei, sabia.
A princesa levava uma vida solitária, pois raramente falava com alguém, por medo de que os outros vissem sua língua bifurcada. Mas seu verdadeiro problema era outro: ela ia se casar com um príncipe da Galácia.1 Os dois nunca tinham se visto, mas a beleza da princesa era tão famosa que o rapaz concordara com o casamento mesmo assim. Eles se conheceriam no dia do casamento, que se aproximava rapidamente. A união fortaleceria as relações entre Frankenburgo e a Galácia, asseguraria prosperidade para as duas regiões e permitiria a criação de um pacto de defesa contra o odiado inimigo comum, o belicoso principado da Frísia. A princesa sabia que o casamento era necessário para a política, mas estava aterrorizada, temendo que o príncipe a rejeitasse assim que descobrisse seu segredo.
— Não se preocupe — disse a criada. — Ele vai ver seu rosto lindo, conhecer seu coração lindo e perdoar o resto.
— E se ele não perdoar? Nossa melhor esperança de paz estará arruinada, e vou passar o resto da vida como uma solteirona!
O reino se preparou para o casamento da realeza. O palácio foi enfeitado com sedas douradas, e chefs de todo o país chegaram para preparar um opulento banquete. Por fim, chegou o príncipe, com seu séquito. Ele saiu da carruagem e saudou calorosamente o rei.
— E minha noiva, onde está? — perguntou ele.
O príncipe foi levado a um salão, onde a princesa o aguardava.
— Princesa! — exclamou o príncipe. — A senhorita é ainda mais bonita do que sua reputação me levou a acreditar.
A princesa sorriu e fez uma reverência, mas não abriu a boca para falar.
— Qual o problema? Eu a deixei sem fala com minha beleza?
A princesa corou e balançou a cabeça.
— Ah, então você não me acha bonito, é isso? — disse ele.
Alarmada, a princesa tornou a balançar a cabeça (não era isso o que ela quisera dizer!), mas notou que só estava piorando as coisas.
— Diga alguma coisa, filha, isto não é hora de ficar com a língua presa! — reclamou o rei.
— Perdoe-me, senhor, mas talvez a princesa ficasse mais à vontade se conversasse com o príncipe em particular — disse a criada.
O príncipe assentiu, agradecido.
— Não é apropriado — resmungou o rei. — Mas acho que nas atuais circunstâncias...
Os guardas conduziram o príncipe e a princesa a uma sala onde poderiam ficar a sós.
— E então, o que acha de mim? — perguntou o príncipe depois que os guardas foram embora.
— Você é muito bonito — respondeu a princesa, cobrindo a boca com a mão.
— Por que você esconde a boca quando fala? — perguntou o príncipe.
— É meu hábito. Desculpe se você acha estranho.
— Você é estranha. Mas eu posso aprender a viver com isso, considerando sua beleza!
O coração da princesa se elevou, mas despencou outra vez na terra com a mesma rapidez. Seria apenas questão de tempo até que o príncipe descobrisse seu segredo.
Embora pudesse esperar até que estivessem casados para revelá-lo, ela sabia que isso não seria certo.
— Tenho uma confissão a fazer — disse ela, ainda cobrindo a boca. — E tenho medo de que você não queira se casar comigo quando souber o que é.
— Bobagem. O que é? Ah, não... Não somos primos, somos?
— Não é isso.
— Bom, nada me faria desistir de me casar com você — afirmou o príncipe, confiante.
— Espero que você seja um homem de palavra — disse a princesa, então tirou a mão e mostrou a ele a língua bifurcada.
— Pelos céus! — exclamou o príncipe, recuando.
— E não é só isso — disse a princesa, que, tirando um braço do vestido, mostrou a ele as escamas nas costas.
O príncipe ficou embasbacado e, depois, furioso.
— Eu nunca me casaria com um monstro como você! Não posso acreditar que você e seu pai tentaram me enganar! — esbravejou ele.
— Ele não fez nada! Meu pai não sabe nada sobre minha condição!
— Pois vai ficar sabendo! Isso é um ultraje!
O príncipe saiu da sala para contar tudo ao rei e a princesa foi atrás, implorando que ele não fizesse isso.
Foi só então que cinco assassinos frísios, que tinham se disfarçado de cozinheiros, sacaram punhais do bolo e saíram correndo da cozinha em direção ao quarto do rei. O príncipe estava prestes a revelar o segredo da princesa quando eles derrubaram a porta.
Enquanto os assassinos matavam os guardas, o covarde rei mergulhou em um guarda-roupa e se escondeu embaixo de uma pilha de roupas.
Os assassinos se viraram para o príncipe e a princesa.
— Não me matem! — gritou o príncipe. — Sou apenas um garoto de recados de outro país!
— Boa tentativa — disse o líder dos assassinos. — Você é o príncipe da Galácia e veio para se casar com a princesa e formar uma aliança contra nós. Prepare-se para morrer!
O príncipe correu até uma janela e tentou abri-la à força, deixando a princesa sozinha para enfrentar os assassinos. Quando eles correram em direção a ela, com os punhais em mãos, ela sentiu uma estranha pressão atrás da língua.
Os assassinos se lançaram sobre a princesa, que lançou jatos de veneno peçonhento no rosto de cada um. Todos caíram encolhidos no chão e morreram, menos um; o quinto assassino escapou do quarto, aterrorizado.
A princesa ficou mais surpresa que qualquer um, pois não sabia que era capaz de fazer aquilo; afinal, nunca tinha sido ameaçada de morte antes. O príncipe, que já estava com metade do corpo para fora da janela, voltou para o quarto e olhou tanto para os assassinos mortos quanto para a princesa, impressionado.
— Agora você vai se casar comigo? — perguntou ela.
— Não mesmo! Mas, como sinal de gratidão, não vou contar a seu pai o motivo.
Ele pegou um dos punhais dos assassinos e, correndo de um em um, apunhalou os cadáveres deles.
— O que está fazendo? — perguntou a princesa, perplexa.
O rei saiu do guarda-roupa.
— Eles foram mortos? — perguntou o monarca, com a voz trêmula.
— Sim, sua majestade. Eu os matei! — afirmou o príncipe, erguendo o punhal.
A princesa ficou chocada com a mentira, mas segurou a língua.
— Magnífico! Você se tornou o herói de Frankenburgo, meu rapaz, e no dia de seu casamento! — exclamou o rei.
— Ah... quanto a isso, lamento informar que não haverá casamento.
— O quê?! Por que não? — vociferou o rei.
— Acabei de saber que a princesa e eu somos primos. É uma pena!
E, sem sequer olhar para trás, o príncipe deixou o quarto, reuniu seu séquito e partiu em sua carruagem.
— Isso é uma afronta! Esse rapaz tem tanto parentesco com minha filha quanto eu com esta cadeira. Minha família não será tratada desse jeito.
O rei ficou tão furioso que ameaçou entrar em guerra contra a Galácia. A princesa tinha consciência de que não podia permitir isso e, portanto, certa noite, solicitou uma audiência a sós com o pai, para revelar o segredo que guardara por tanto tempo. Ele cancelou os planos de guerra, mas ficou com tanta raiva da filha e se sentiu tão humilhado que a trancou na cela mais úmida do calabouço.
— Além de ser uma mentirosa e um monstro, você não serve para o casamento! — vociferou ele através das barras da cela.
Ele disse isso como se fosse o maior dos pecados.
— Mas, pai, eu ainda sou sua filha, não sou?
— Não mais — respondeu ele, e lhe deu as costas.
A princesa podia usar seu veneno ácido para derreter a tranca da cela e escapar, mas optou por aguardar, na esperança de que o pai reconhecesse seu erro e repensasse sua decisão.2 Por meses ela sobreviveu de mingau e passou as noites tremendo de frio no chão de pedra, mas o pai não apareceu. A única visita que a princesa recebia era de sua criada.
Um dia, a criada chegou com notícias.
— Meu pai me perdoou? — perguntou a princesa, ansiosa.
— Não. Ele disse ao reino que você morreu. Seu funeral será amanhã.
A princesa ficou arrasada. Naquela mesma noite, ela fugiu do calabouço, escapou do palácio e, junto com a criada, deixou para trás o reino e sua antiga vida. As duas viajaram disfarçadas por meses, percorrendo o país sem rumo, prestando serviços domésticos onde fosse possível. A princesa sujava o rosto de terra para não ser reconhecida e nunca abria a boca para falar com ninguém além da criada, e a criada, por sua vez, dizia a todos que a garota de rosto sujo com quem viajava era muda.
Certo dia, elas ouviram falar sobre um príncipe, do distante reino da Trácia, cujo corpo às vezes assumia uma forma muito peculiar e se tornara escândalo nacional.
— Será que é verdade? Será que ele é como eu? — indagou a princesa.
— Acho que vale a pena descobrir — disse a criada.
Então elas partiram em uma longa viagem. Levaram duas semanas para atravessar a cavalo o Deserto Impiedoso e mais duas semanas para atravessar de navio a Grande Catarata. Quando finalmente chegaram ao reino da Trácia, estavam queimadas pelo sol e pelo vento e quase sem recursos.
— Não posso conhecer o príncipe desse jeito! — disse a princesa.
Por isso, elas decidiram gastar o pouco dinheiro que lhes restava em uma casa de banhos, onde se lavaram, se perfumaram e passaram óleos no corpo. Quando saíram, a princesa estava tão bonita que deixou boquiabertos todos que a olhavam, fossem homens ou mulheres.
— Vou mostrar ao meu pai que é possível alguém querer se casar comigo! Vamos conhecer esse príncipe peculiar.
As duas foram até o palácio e perguntaram pelo príncipe, mas receberam uma resposta muito decepcionante.
— Lamento, mas o príncipe faleceu — informou um guarda do palácio.
— Como foi que isso aconteceu? — perguntou a criada.
— Ele foi acometido por uma doença misteriosa e morreu à noite. Foi tudo muito repentino.
— Exatamente a mesma coisa que o rei disse que aconteceu com a senhora — sussurrou a criada para a princesa.
Naquela noite, elas penetraram nas masmorras do palácio às escondidas e encontraram, na cela mais escura e úmida, uma lesma de jardim gigante com a cabeça de um jovem muito bonito.
— O senhor é o príncipe? — perguntou a criada a ele.
— Sim, sou — respondeu a criatura repulsiva. — Quando fico deprimido, meu corpo se transforma em uma massa gelatinosa e trêmula. Quando finalmente descobriu isso, minha mãe me trancou aqui embaixo, e agora, como podem ver, eu me tornei uma lesma quase dos pés à cabeça. — O príncipe rastejou na direção das grades da cela, seu corpo deixando um rastro de mancha escura no chão. — Mas tenho certeza de que ela vai pensar melhor e me soltar em breve.
A princesa e a criada trocaram um olhar de constrangimento.
— Bem, temos uma boa e uma má notícia — falou a criada. — A má notícia é que sua mãe disse a todo mundo que você morreu.
O príncipe começou a se lamentar e a gemer, e logo um par de antenas gelatinosas começou a crescer em sua testa. Agora, até sua cabeça estava assumindo as características de lesma.
— Espere! Ainda tem a boa notícia! — tentou a criada.
— Ah, sim, esqueci — disse o príncipe, e as antenas pararam de crescer. — E o que é?
— Esta é a princesa de Frankenburgo — disse a criada.
A princesa deu um passo à frente, entrando em um foco de luz, e pela primeira vez o príncipe viu sua grande beleza.
— Você é uma princesa? — gaguejou ele, arregalando os olhos.
— Isso mesmo — confirmou a criada. — E ela veio resgatá-lo.
O príncipe ficou empolgado ao ouvir a notícia.
— Não acredito! Mas como?
Suas antenas estavam encolhendo, e a massa que constituía a parte superior de seu corpo já começava a se separar, recuperando a forma de braços e de um tronco humano.
Ele estava voltando ao normal.
— Assim! — disse a princesa, e cuspiu um jato de ácido venenoso na porta da cela do príncipe.
A fechadura chiava e fumegava conforme derretia.
O príncipe recuou, assustado.
— O que você é? — perguntou ele.
— Eu sou peculiar, como você! Quando meu pai descobriu meu segredo, também me renegou e me prendeu. Sei como está se sentindo!
Enquanto ela falava, a língua bifurcada saiu brevemente de sua boca.
— E sua língua... é parte do que há de... de errado com você?
— A língua e isto — disse a princesa, tirando um braço do vestido para mostrar a ele as escamas que cobriam suas costas.
— Entendo. Eu deveria ter imaginado que era bom demais para ser verdade — disse o príncipe, novamente com a voz triste.
Quando uma lágrima escorreu por seu rosto, seus braços começaram a desaparecer junto ao tronco, formando novamente uma massa trêmula de corpo de lesma.
— Por que você está triste? Nós formamos um par perfeito! Juntos, podemos mostrar a nossos pais que somos aptos para o casamento, que não somos lixo. Podemos unificar nossos reinos e um dia, talvez, tomar nosso trono de direito — disse a princesa.
— Você só pode estar louca! — gritou o príncipe. — Como eu poderia amá-la? Você é repulsiva, uma aberração!
A princesa ficou sem fala. Não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Ah, isso é tão humilhante! — gritou o príncipe.
Então, antenas brotaram da testa dele, seu rosto desapareceu e ele se transformou em lesma dos pés à cabeça, estremecendo e gemendo enquanto tentava chorar sem boca.
A princesa e a criada viraram o rosto, com ânsia de vômito, e foram embora, deixando o príncipe ingrato para apodrecer no calabouço.
— Chega de príncipes para mim. Peculiares ou não — disse a princesa.
Elas cruzaram novamente a Grande Catarata e o Deserto Impiedoso, voltando para casa. Encontraram o reino em guerra contra a Galácia e a Frísia, que tinham se unido contra Frankenburgo. O rei havia sido deposto e preso, e os frísios o tinham substituído por um duque. Esse duque era um homem solteiro, que, depois de estabelecer seu domínio e pacificar o país, começou a procurar uma noiva. O emissário enviado por ele encontrou a princesa trabalhando em uma estalagem.
— Você aí! — gritou ele ao vê-la limpando uma mesa. — O duque está à procura de uma noiva.
— Boa sorte para ele. Não estou interessada.
— Sua opinião não importa — retrucou o emissário. — Venha comigo imediatamente.
— Mas eu não sou da realeza! — mentiu ela.
— Isso também não importa. O duque quer a mulher mais bonita do reino, e pode muito bem ser você.
A princesa estava começando a ver a beleza como uma maldição.
Ela recebeu um belo vestido para usar e foi levada até o duque. Quando o viu, um calafrio percorreu o corpo da jovem: aquele duque frísio era um dos homens que tinham tentado matá-la; era o assassino que fugira.
— Eu a conheço de algum lugar? Você me é familiar — disse o duque.
A princesa estava cansada de se esconder e de mentir, por isso contou a verdade.
— Você tentou me matar uma vez, a mim e a meu pai. Já fui a princesa de Frankenburgo.
— Achei que você tivesse morrido!
— Não. Meu pai mentiu.
— Então eu não fui o único que tentou matar você — disse o homem, com um sorriso.
— Acho que não.
— Gosto de sua honestidade. Gosto também de sua coragem. Você tem uma constituição forte, e nós, frísios, admiramos isso. Não posso fazer de você minha esposa, porque você poderia me matar durante o sono, mas, se aceitar, gostaria de nomeá-la minha conselheira. Seu ponto de vista único seria muito valioso.
A princesa aceitou de bom grado. Ela voltou a morar no palácio com sua criada, assumiu uma posição de destaque no governo do duque e nunca mais cobriu a boca para falar, pois não precisava mais esconder quem era.
Passado algum tempo, ela fez uma visita ao pai, que continuava preso no calabouço. Ele usava uma roupa de aniagem suja e não parecia nada majestoso.
— Vá embora daqui. Você é uma traidora e eu não tenho nada para lhe dizer — rosnou ele.
— Bom, eu tenho uma coisa para dizer ao senhor. Embora ainda esteja com raiva, quero que saiba que o perdoo. Hoje eu entendo que o que fez comigo não foi a atitude de um homem mau, mas de um homem comum.
— Está bem, obrigado pelo lindo discurso. Agora vá embora.
— Como quiser.
A princesa se afastou, mas parou à porta.
— Por falar nisso, estão planejando enforcá-lo amanhã de manhã.
Com essa notícia, o rei se encolheu em posição fetal e caiu no choro. Era uma cena tão patética que a princesa sentiu pena. Apesar de tudo o que seu pai tinha feito, naquele momento a mágoa que ela sentia se desfez. Ela usou seu veneno para derreter a tranca da cela, tirou-o dali, disfarçou-o de mendigo e o mandou fugir na mesma direção para a qual ela própria fugira uma vez. Ele não agradeceu, nem mesmo olhou para trás.
Quando o pai desapareceu de vista, a princesa foi tomada por uma súbita felicidade desmedida, pois seu ato de bondade havia libertado os dois.

1 Os nomes dos países são fictícios, embora em algumas versões regionais da história sejam substituídos por nomes de lugares reais. Em uma das versões, Frankenburgo é a Espanha; em outra, a Galácia é a Pérsia. Em todos os casos, porém, a história se mantém inalterada.
2 Antigamente havia um líquido muito ácido disponível para compra no mercado negro peculiar, capaz de corroer metal. Os frascos eram revestidos de pele de cobra. Chamava-se Cuspe de Princesa, sem dúvida em referência a este conto. Depois de vários incidentes desagradáveis decorrentes do mau uso desse líquido, autoridades peculiares proibiram a produção, de modo que os frascos de Cuspe de Princesa ainda disponíveis hoje se tornaram itens de colecionador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)