20 de abril de 2017

10. A história de Cuthbert


ERA UMA VEZ, em tempos peculiares, uma floresta densa e muito antiga onde viviam muitos animais. Havia coelhos, cervos e raposas, como em todas as florestas, mas havia também animais menos comuns, como urxinins pernaltas, linces de duas cabeças e jumirafas falantes. Esses animais peculiares eram o alvo favorito de caçadores, que adoravam atirar neles para empalhá-los, pendurá-los nas paredes e exibi-los para os amigos caçadores, mas sua predileção era por vendê-los para os donos de zoológicos, que os trancavam em jaulas e cobravam ingresso das pessoas que quisessem vê-los. Ora, você deve estar pensando que seria muito melhor viver trancado em uma jaula do que levar um tiro e ser pendurado em uma parede, mas acontece que as criaturas peculiares precisam de liberdade para serem felizes. Depois de um tempo, os espíritos dos animais peculiares enjaulados murchavam, e eles começavam a invejar os amigos nas paredes.
Nessa época, os gigantes ainda andavam pela terra como nos remotos tempos Aldinn, mas eram pouco numerosos e cada vez mais raros.1 Por acaso, um desses gigantes vivia perto da floresta. Ele era muito simpático, falava com muita delicadeza e só comia plantas. Seu nome era Cuthbert. Um dia, Cuthbert foi à floresta colher frutas silvestres e, quando estava por lá, viu um caçador tentando capturar uma jumirafa. Como era um gigante bom, Cuthbert pegou a pequena jumirafa pelo pescoço comprido e, esticando-se todo na ponta dos pés (coisa que raramente fazia, pois seus ossos velhos sempre estalavam nessa posição), conseguiu alcançar muito alto e deixar a jumirafa no topo de uma montanha, bem longe de perigo. Aí, só para garantir, pisou no caçador, esmagando-o até o homem virar uma geleia que escorreu entre os dedos dos pés do gigante.
Os relatos da bondade de Cuthbert se espalharam pela floresta, e logo os animais peculiares começaram a procurá-lo todos os dias, pedindo para serem erguidos até o alto da montanha, onde ficariam longe de perigo. E Cuthbert sempre dizia:
— Vou proteger vocês, irmãozinhos. Tudo o que peço em troca é que conversem comigo e me façam companhia. Não sobraram muitos gigantes no mundo, e de vez em quando eu me sinto solitário.
— Mas é claro que vamos lhe fazer companhia, Cuthbert — respondiam os animais.
Todos os dias, Cuthbert salvava mais animais peculiares da mira dos caçadores, erguendo-os pelo pescoço até o alto da montanha, e isso continuou até haver um monte de animais peculiares morando lá em cima. Os animais estavam felizes porque finalmente podiam viver em paz, e Cuthbert também estava feliz, porque, se ficasse na ponta dos pés e apoiasse o queixo no topo da montanha, podia conversar com seus novos amigos pelo tempo que quisesse. Até que, certa manhã, uma bruxa foi visitá-lo. Ele estava tomando banho em um laguinho à sombra da montanha quando ela apareceu e anunciou:
— Sinto muitíssimo, mas preciso transformar você em pedra.
— Por que você faria uma coisa dessas? — perguntou o gigante. — Eu sou muito bondoso. Sou um gigante que gosta muito de ajudar.
— Fui contratada pela família do caçador que você esmagou — respondeu a bruxa.
— Ah — disse o gigante. — Eu já tinha me esquecido dele.
— Sinto muitíssimo — repetiu a bruxa, e em seguida agitou um galho de bétula na direção de Cuthbert, transformando em pedra o pobre coitado.
De repente, Cuthbert se sentiu pesado, tão pesado que começou a afundar no lago. Ele afundou, afundou e não parou de afundar, ficou com água até o pescoço. Seus amigos animais viram o que estava acontecendo e, apesar de ficarem muito tristes, chegaram à conclusão de que nada podiam fazer para ajudá-lo.
— Sei que vocês não podem me salvar — gritou Cuthbert para seus amigos —, mas pelo menos venham conversar comigo! Estou preso aqui embaixo e me sinto tão solitário!
— Mas se descermos até aí, os caçadores vão atirar em nós! — responderam os animais.
Cuthbert sabia que eles tinham razão, mas mesmo assim implorou:
— Conversem comigo! Por favor, venham conversar comigo.
Os animais tentaram cantar e gritar para o pobre Cuthbert do topo da montanha, mas estavam longe demais, e suas vozes eram baixas até mesmo para Cuthbert, com suas orelhas de gigante; soavam mais baixas que o farfalhar de folhas ao vento.
— Conversem comigo! — implorava ele. — Venham conversar comigo!
Mas os animais não foram. E o gigante ainda estava gritando quando sua garganta virou pedra, igual ao restante do corpo.

* * *

Nota do editor:
É aqui que, tradicionalmente, termina a história. Entretanto, é um desfecho tão triste, tão desprovido de lições de moral construtivas e tão notório por levar os ouvintes às lágrimas que se tornou uma tradição entre contadores de histórias improvisar desfechos menos desoladores. Por isso, tomei a liberdade de incluir o meu próprio, a seguir.
— MN

* * *

Os animais tentaram cantar e gritar para o pobre Cuthbert do topo da montanha, mas estavam longe demais, e suas vozes eram baixas até mesmo para Cuthbert, com suas orelhas de gigante; soavam mais baixas que o farfalhar de folhas ao vento.
— Conversem comigo! — implorava ele. — Venham conversar comigo!
Depois de um tempo, os animais começaram a se sentir muito mal, especialmente a jumirafa.
— Ah, pelo amor de Deus! Ele só quer um pouco de companhia. É pedir demais? — comentou ela.
— Eu diria que sim — concluiu o urxinim. — Lá embaixo é perigoso. E, com Cuthbert transformado em pedra, como voltaríamos para nossa montanha?
— Não há nada que possamos fazer por ele, a menos que vocês saibam como reverter uma maldição de bruxa — sugeriu o lince de duas cabeças.
— Claro que não sabemos. Isso não importa. Todos vamos morrer um dia, e talvez hoje seja a vez de Cuthbert, mas não podemos deixá-lo morrer sozinho. Eu não conseguiria viver com esse peso na consciência — argumentou a jumirafa.
Era culpa demais para suportar, de modo que todos os animais decidiram se unir à jumirafa, apesar dos riscos que os aguardavam no solo. Liderados por ela, os animais formaram uma escada com o próprio corpo de todos eles, ligando mãos a tornozelos, e assim desceram a face do penhasco. Como voltariam ao topo da montanha era uma questão para outra hora. Eles correram até Cuthbert e o confortaram, e o gigante chorou de gratidão mesmo enquanto se transformava em pedra.
À medida que conversavam com Cuthbert, a voz dele foi diminuindo, seus lábios e sua garganta se petrificando até mal se mexerem. Por fim, vendo-o imóvel, os animais se perguntaram se ele havia morrido. A jumirafa encostou a cabeça no peito de Cuthbert.
— Ainda ouço as batidas do coração — disse ele após alguns momentos.
A cambaxirra que se transformava em mulher se empoleirou na orelha de Cuthbert e perguntou:
— Amigo, pode nos ouvir?
E, da garganta de pedra, eles ouviram uma resposta pouco mais audível que a brisa:
— Sim, amigos.
Os animais irromperam em vivas. Cuthbert ainda estava vivo no interior da pele de pedra, e assim permaneceu. A maldição da bruxa tinha sido forte, mas não a ponto de petrificá-lo por completo. Agora eram os animais que cuidavam do pobre Cuthbert, como ele cuidara dos animais: lhe faziam companhia, jogavam comida em sua boca aberta e conversavam com o gigante o dia inteiro. (As respostas dele se tornaram cada vez mais raras, mas as batidas do coração indicavam que ainda estava vivo.) E, embora os animais sem asas não tivessem como subir o penhasco, Cuthbert os protegia de outro modo: durante a noite, eles dormiam dentro de sua boca de pedra, e, se por acaso surgissem caçadores, desciam por sua garganta e aterrorizavam os humanos com barulhos amplificados pelo eco. Cuthbert se tornou o lar e refúgio dos animais e, mesmo não conseguindo mover um músculo, foi muito feliz.
Muitos anos depois, o coração de Cuthbert finalmente parou. Ele morreu em paz, cercado de amigos, um gigante feliz. A cambaxirra, que crescera e se tornara ymbryne, decidiu que os animais tinham se tornado numerosos demais para continuar a viver dentro do gigante, por isso levou a todos para uma fenda no tempo que criou no alto de um morro.2 A entrada da fenda se localizava dentro de Cuthbert, para que ele nunca fosse esquecido, e toda vez que alguém entrava ou saía, tinha a chance de dizer olá para seu velho amigo. E sempre que ela ou algum dos animais passavam por Cuthbert, saudavam-no com um tapinha no ombro, dizendo:
— Olá, amigo.
E, se parassem e prestassem atenção, e se o vento estivesse soprando do jeito certo, ouviam algo que soava quase como um olá.

1 Isso não quer dizer que os gigantes tenham desaparecido completamente, apenas não caminham mais sobre a terra. Leia o conto “Cocobolo” para saber o que aconteceu com eles.
2 Eles alcançaram o topo da montanha por meio do engenhoso sistema de roldana com corda criado pela própria srta. Wren.

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Boa leitura :)