20 de abril de 2017

1. Os esplêndidos canibais


OS PECULIARES DA aldeia de Swampmuck viviam de forma bastante humilde.
Tiravam seu sustento do plantio da terra e, embora não possuíssem objetos de luxo e habitassem casas de estrutura frágil feitas de junco, eram saudáveis, alegres e não precisavam de muito. Os alimentos cresciam abundantemente nos jardins, os riachos ofereciam água límpida e até as humildes residências davam a sensação de luxo, pois o clima em Swampmuck era bastante agradável e os habitantes se dedicavam tanto a suas atividades que, após um longo dia de trabalho na lama, simplesmente se deitavam e adormeciam.
A época da colheita era a melhor do ano. Trabalhando sem parar, os habitantes colhiam os melhores lírios-do-brejo que houvessem crescido nos pântanos, embalavam-nos e os levavam, em carroças puxadas por burros, até o mercado da cidade de Chipping Whippet, uma viagem de cinco dias, para vender o que conseguissem. Era um trabalho árduo. Ásperos que eram, os lírios-do-brejo feriam as mãos; os burros eram mal-humorados e às vezes mordiam; a estrada para o mercado era cheia de buracos e infestada de ladrões; acidentes graves eram frequentes, como aquele em que o aldeão Pullman, em tamanha exaltação durante o momento da colheita, decepou com a foice a perna de seu vizinho, o aldeão Hayworth. O vizinho ficou compreensivelmente aborrecido, mas os habitantes de Swampmuck eram tão amáveis que logo o ocorrido foi superado.
O dinheiro que os aldeões ganhavam no mercado era pouco, mas atendia a suas necessidades e ainda lhes permitia comprar algumas peças de picanha de bode. Em torno dessa iguaria se realizava um festival agitado, que durava dias. Naquele mesmo ano, logo após o encerramento do festival, quando os aldeões estavam prestes a retomar o trabalho nos campos, três visitantes chegaram à aldeia. Swampmuck raramente recebia visitantes, pois não era o tipo de lugar que as pessoas tinham vontade de conhecer, e sem dúvida nunca tinha recebido visitantes como aqueles: dois homens e uma dama vestida dos pés à cabeça com rica seda brocada. Os três chegaram em belos cavalos árabes. Embora fossem obviamente ricos, pareciam abatidos e balançavam, sem forças, em suas selas cravejadas de pedras preciosas.
Os habitantes do vilarejo se aproximaram, curiosos e maravilhados com as belas roupas e os cavalos dos forasteiros.
— Tomem cuidado! — alertou a aldeã Sally. — Eles parecem estar doentes.
— Estamos em viagem, a caminho da costa de Meek1 — explicou um dos visitantes, que parecia ser o único que ainda tinha forças para falar. — Fomos abordados por bandidos há algumas semanas. Conseguimos despistá-los, mas nos perdemos completamente e desde então estamos andando em círculos, à procura da velha estrada Romana.
— Vocês não estão nem perto da estrada Romana — disse a aldeã Sally.
— Nem da costa de Meek — completou o aldeão Pullman.
— A que distância fica daqui? — perguntou o homem.
— Seis dias de viagem — respondeu a aldeã Sally.
— Nunca conseguiremos — concluiu o homem, em tom sombrio.
Em seguida, a dama de vestido de seda caiu da sela para o chão.
Apesar dos temores, os aldeões se comoveram. Resgataram a dama caída e levaram a ela e a seus companheiros para a casa mais próxima, onde lhes deram água e os acomodaram em colchões de palha. Uma dúzia de aldeões se reuniu em torno deles, oferecendo ajuda.
— Abram espaço! — ordenou o aldeão Pullman. — Eles estão exaustos, precisam descansar!
— Não, eles precisam de um médico! — disse a aldeã Sally.
— Não estamos doentes — disse o homem. — Estamos com fome. Nossos mantimentos acabaram. Não comemos nada há uma semana.
A aldeã Sally se perguntou por que pessoas tão ricas não tinham simplesmente comprado comida de outros viajantes que encontrassem pela estrada, mas, por educação, não se pronunciou sobre o assunto. Ela mandou alguns garotos da aldeia irem buscar tigelas de sopa de lírio-do-brejo, pão de painço e o pouco que sobrara de picanha de bode do festival. Mas os visitantes recusaram.
— Não quero parecer rude, mas não podemos comer isso.
— Sei que é uma oferta humilde e que os senhores provavelmente estão acostumados a banquetes dignos de um rei, mas é tudo o que temos — respondeu a aldeã Sally.
— Não é isso. Grãos, vegetais e carne de animais... Nosso corpo simplesmente não consegue digerir tais alimentos. Se nos obrigarmos a comer, só ficaremos mais fracos.
Os aldeões não compreenderam.
— Se não podem comer grãos, vegetais nem carne de animais, o que os senhores podem comer? — indagou o aldeão Pullman.
— Pessoas — respondeu o homem.
Todos que estavam ali deram um passo para trás.
— Estão dizendo que... que são... canibais? — perguntou o aldeão Hayworth.
— Por natureza, não por escolha — retrucou o homem. — Mas, sim.
O homem prosseguiu explicando que eram canibais civilizados, que nunca matavam inocentes. Eles, assim como outros da mesma espécie, haviam feito um acordo com o rei garantindo que jamais comeriam pessoas à força. Em troca, tinham autorização para comprar, a um custo altíssimo, membros amputados de vítimas de acidentes e o corpo de criminosos enforcados. Sua dieta era formada apenas por esses itens. Eles agora estavam a caminho da costa de Meek porque era o lugar na Grã-Bretanha que ostentava tanto o índice mais alto de acidentes quanto o maior número de mortes por enforcamento, por isso a comida lá, apesar de não propriamente farta, era de certa maneira abundante.
Embora canibais naquela época fossem ricos, quase sempre passavam fome; respeitando a lei, estavam condenados a levar uma vida em constante subnutrição, atormentados por um apetite que quase nunca podiam satisfazer. E aqueles canibais que tinham chegado a Swampmuck, já famintos e a muitos dias de distância de Meek, estavam provavelmente condenados à morte.
Fosse qualquer outro vilarejo, de peculiares ou não, os habitantes teriam, depois de ouvir tudo isso, apenas dado de ombros e deixado os canibais morrerem de fome. No entanto, os aldeões eram compassivos, quase em excesso, até, e por isso ninguém se surpreendeu quando o aldeão Hayworth deu um passo à frente e disse:
— Por acaso, perdi minha perna em um acidente alguns dias atrás. Eu a joguei no pântano, mas tenho certeza de que consigo encontrá-la, se as enguias ainda não a tiverem comido.
Os olhos dos canibais brilharam.
— O senhor faria isso? — disse a mulher canibal, jogando paras trás a mecha de cabelo que caía sobre as faces esqueléticas.
— É um pouco estranho — respondeu o aldeão Hayworth —, mas não podemos simplesmente deixar os senhores morrerem.
Os outros aldeões concordaram. Assim, Hayworth foi mancando até o pântano, onde encontrou a perna. Ele espantou as enguias que a mordiscavam e a levou em uma travessa para os canibais.
Um dos homens ofereceu ao aldeão uma bolsa de moedas.
— O que é isso? — perguntou Hayworth.
— Pagamento. A mesma quantia que o rei nos cobra — explicou o canibal.
— Não posso aceitar — disse Hayworth, e tentou devolver o dinheiro.
Mas o canibal levou a mão às costas, sorrindo.
— É o justo a se fazer. O senhor salvou nossa vida!
Os aldeões deram as costas educadamente quando os canibais começaram a comer. O aldeão Hayworth abriu a bolsa de moedas, olhou em seu interior e ficou pálido. Era a maior quantia de dinheiro que ele já vira.
Os canibais passaram os dias seguintes se alimentando e recuperando as forças. Quando finalmente se sentiram prontos para partir outra vez para a costa de Meek (dessa vez com instruções claras), todos os aldeões de Swampmuck se reuniram para a despedida. Os canibais então viram o aldeão Hayworth caminhando sem a ajuda de muletas.
— Eu não entendo! — disse um dos canibais, atônito. — Achei que tivéssemos comido sua perna!
— Comeram, sim! Mas se os peculiares de Swampmuck perdem um membro, ele torna a crescer — explicou Hayworth.2
O rosto do canibal assumiu uma expressão engraçada e ele pareceu prestes a dizer mais alguma coisa, porém desistiu. Por fim, montou no cavalo e foi embora junto com os outros.
Semanas se passaram. A vida em Swampmuck voltou ao normal para todos, menos para o aldeão Hayworth. Ele passou a andar distraído e, durante o dia, era visto apoiado em seu bastão de revirar lama, olhando para além dos pântanos. Estava pensando na bolsa de dinheiro, que tinha escondido em um buraco na terra. O que fazer com aquilo?
Todos os seus amigos opinaram.
— Você podia comprar várias roupas bonitas — sugeriu o aldeão Bettelheim.
— Mas onde eu as usaria? Trabalho nos pântanos o dia inteiro; as roupas seriam um desperdício — retrucou o aldeão Hayworth.
— Você podia montar uma biblioteca com bons livros — sugeriu o aldeão Hegel.
— Mas eu não sei ler. Nem ninguém em Swampmuck.
A sugestão do aldeão Bachelard foi a mais tola de todas:
— Compre um elefante. E use-o para levar todo o seu lírio-do-brejo ao mercado.
— Mas ele comeria todo o meu lírio antes mesmo que eu conseguisse vendê-lo! — retrucou Hayworth, já aflito a essa altura. — Se ao menos eu pudesse fazer algo em relação a minha casa... Os juncos não ajudam muito a impedir a entrada do vento, e eu sinto muito frio durante todo o inverno.
— Você podia usar o dinheiro para forrar as paredes — sugeriu o aldeão Anderson.
— Não diga bobagem — retrucou a aldeã Sally. — Ele devia comprar uma casa nova!
E foi exatamente o que fez Hayworth: construiu uma casa de madeira, a primeira do tipo a ser erguida em Swampmuck. Pequena porém bastante robusta, a casa impedia a entrada do vento e tinha até uma porta que se abria e se fechava com dobradiças. O aldeão Hayworth ficou muito orgulhoso, e sua casa despertou inveja em toda a aldeia.
Alguns dias depois, outro grupo de visitantes chegou. Eram quatro — três homens e uma mulher —, e, como trajavam roupas elegantes e montavam cavalos árabes, os aldeões souberam imediatamente o que eram: canibais que viviam sob a lei da costa de Meek.3
Esses canibais, porém, não pareciam famintos.
Mais uma vez os aldeões se reuniram para se maravilhar com eles. A mulher canibal, que vestia uma elegante camisa entremeada de fios de ouro, calça com botões de pérolas e botas adornadas com pele de raposa, disse:
— Alguns amigos nossos vieram a esta aldeia semanas atrás e vocês os receberam com grande bondade. Como não somos um povo acostumado a bondade, viemos agradecer pessoalmente.
Os canibais apearam dos cavalos, fizeram uma reverência para os aldeões e começaram a apertar-lhes as mãos. Os aldeões ficaram surpresos com a maciez da pele dos canibais.
— Mais uma coisa antes de irmos! — disse a mulher canibal. — Soubemos que vocês têm uma habilidade única. É verdade que seus membros se regeneram?
Os aldeões confirmaram.
— Nesse caso, temos uma proposta modesta para lhes fazer. Os membros que comemos na costa de Meek raramente são frescos, e estamos cansados de alimentos em putrefação. Vocês nos venderiam alguns dos seus? Pagaríamos muito bem, é claro.
Ela abriu o alforje, revelando uma grande quantidade de ouro e joias. Os aldeões arregalaram os olhos, mas ficaram desconfiados e começaram a cochichar entre si.
— Não podemos vender nossos membros. Preciso de minhas pernas para andar — afirmou o aldeão Pullman.
— Então venda apenas os braços — sugeriu o aldeão Bachelard.
— Mas precisamos dos braços para trabalhar na lama do brejo! — retrucou o aldeão Hayworth.
— Com o que nos darão por nossos braços, não precisaremos mais cultivar lírios-do-brejo — disse o aldeão Anderson. — Não ganhamos praticamente nada com agricultura, de qualquer maneira.
— Isso não me parece certo, nos vendermos desse jeito — ponderou o aldeão Hayworth.
— É fácil falar! Você tem uma casa feita de madeira! — acusou o aldeão Bettelheim.
Os aldeões fizeram, então, um acordo com os canibais: os destros venderiam o braço esquerdo e os canhotos venderiam o braço direito, e eles continuariam a vender os membros à medida que tornassem a crescer. Assim teriam uma fonte permanente de renda e nunca mais teriam que passar o dia inteiro na lama ou sobreviver a uma colheita difícil. Todo mundo pareceu satisfeito com o combinado, exceto o aldeão Hayworth, que gostava bastante de trabalhar no pântano e lamentou ver a aldeia abrir mão de seu tradicional ofício, mesmo que não fosse muito lucrativo se comparado à venda dos próprios membros para os canibais.
Mas não havia nada que o aldeão Hayworth pudesse fazer. Assim, ele assistiu, impotente, a seus vizinhos desistirem de plantar, deixarem os pântanos abandonados e arrancarem os braços. (A peculiaridade era tal que não doía muito, e os membros saíam com bastante facilidade, como um rabo de lagarto.) Eles usaram o dinheiro que ganharam para comprar comida no mercado em Chipping Whippet (picanha de bode se tornou um prato consumido todos os dias, em vez de apenas algumas vezes por ano) e para construir casas de madeira, como a do aldeão Hayworth. Todos queriam uma porta que se abrisse e se fechasse com dobradiças. Então o aldeão Pullman construiu uma casa com dois andares, e todos quiseram uma casa de dois andares. Depois, a aldeã Sally construiu uma casa com dois andares e um telhado triangular, e logo todos queriam casas com dois andares e telhado triangular. Toda vez que os braços dos aldeões tornavam a crescer e eram arrancados para serem vendidos novamente, eles usavam o dinheiro para fazer melhorias em suas casas. Por fim, as casas ficaram tão grandes que mal havia espaço entre uma e outra. E a praça da aldeia, antes ampla e aberta, fora reduzida a um beco muito estreito.
O aldeão Bachelard foi o primeiro a encontrar uma solução. Ele decidiu comprar um terreno grande nos arredores do vilarejo e ali construir uma casa nova, ainda maior do que a que habitava antes (esta, por acaso, tinha três portas que se abriam e se fechavam com dobradiças, dois andares, um telhado triangular e uma varanda). Isso foi mais ou menos na mesmo época em que os aldeões pararam de chamar uns aos outros de “aldeão Isso” e “aldeã Aquilo”, porque já não mais se julgavam simples e rústicos agricultores, com exceção do aldeão Hayworth, que continuava a revirar a lama em seu brejo e se recusava a vender mais membros para os canibais. Ele insistia em dizer que gostava bastante de sua modesta casa, e que na verdade nem a usava muito, porque ainda gostava de dormir no pântano depois de um dia duro de trabalho. Seus antigos amigos o achavam tolo e antiquado e pararam de visitá-lo.
A antes humilde aldeia de Swampmuck se expandia rapidamente à medida que os aldeões compravam extensões de terra cada vez mais extensas, nas quais construíam casas mais e mais ornamentadas e maiores. Para financiar a empreitada, eles passaram a vender aos canibais um braço e uma perna ao mesmo tempo (sempre a perna do lado oposto do braço, para ajudar no equilíbrio) e treinaram andar de muletas. Os canibais, cuja fome e riqueza pareciam não ter fim, ficaram muito felizes com isso. Foi quando o sr. Pullman derrubou sua casa de madeira e a substituiu por uma de tijolos, o que deu início a uma competição entre os aldeões para ver quem construía a casa de tijolos mais grandiosa. O sr. Bettelheim superou todos eles: construiu uma bela casa feita de pedra calcária cor de mel, o tipo de lugar habitado apenas pelos mercadores mais ricos de Chipping Whippet. Ele conseguiu pagar pela construção vendendo um braço e as duas pernas.
— Bettelheim foi longe demais! — reclamou a sra. Sally, enquanto comia sanduíches de picanha de bode no recém-inaugurado restaurante chique da aldeia.
Os amigos dela concordaram.
— Como ele pretende aproveitar aquela casa de três andares se não consegue nem subir as escadas? — indagou a sra. Wannamaker.
O sr. Bettelheim entrou no restaurante bem naquele momento, nos braços de um musculoso habitante da aldeia vizinha.
— Contratei um homem para me carregar para cima e para baixo pelas escadas e para qualquer outro lugar a que eu queira ir. Não preciso de pernas! — anunciou ele, com orgulho.
As senhoras ficaram pasmas, mas não demoraram a fazer o mesmo e vender as duas pernas. Por todo o vilarejo, casas de tijolos eram demolidas e substituídas por mansões de pedra calcária.
Os canibais, a essa altura, tinham abandonado a costa de Meek para se instalarem na floresta que crescia nas proximidades de Swampmuck. Não havia mais motivo para subsistir de uma dieta magra à base de criminosos enforcados e vítimas de acidentes, já que os membros que vinham dos aldeões eram mais frescos, mais saborosos e mais fartos do que qualquer alimento disponível em Meek. As casas na floresta eram modestas, pois os canibais davam grande parte de seu dinheiro aos aldeões de Swampmuck, mas mesmo assim estavam satisfeitos, muito mais felizes por viver de barriga cheia em cabanas do que famintos em mansões.
Quanto mais os aldeões e os canibais dependiam uns dos outros, mais crescia o apetite de ambos os grupos. Os canibais engordaram e, após esgotarem todas as receitas possíveis com braços e pernas, começaram a imaginar qual seria o sabor das orelhas.
Mas os aldeões não lhes vendiam as orelhas, porque elas não tornavam a crescer. Tal situação prosseguiu até o sr. Bachelard, carregado por seu criado musculoso, visitar em segredo a floresta dos canibais e perguntar a eles quanto estariam dispostos a pagar pelas orelhas. Ele ainda conseguiria ouvir, raciocinou, e, embora isso fosse deixá-lo um pouco feio, a bela casa de mármore branco que ele conseguiria construir com os rendimentos compensaria o problema. (Agora, se você é astuto financeiramente, deve estar se perguntando: por que o sr. Bachelard simplesmente não guardou dinheiro com a venda constante de seus braços e pernas até que pudesse pagar uma casa de mármore? É porque ele não conseguia economizar dinheiro, pois tomara um empréstimo muito grande com um banco para comprar a terra na qual sua casa de pedra calcária foi construída, e agora devia ao banco um braço e uma perna todo mês só para pagar os juros do empréstimo. Por isso, ele precisava vender as orelhas.)
Os canibais ofereceram uma soma exorbitante pelas orelhas do sr. Bachelard, que então as cortou fora, feliz por se livrar delas, e substituiu sua casa de pedra calcária pela casa de mármore de seus sonhos. Era a casa mais bonita do vilarejo, talvez de toda a região de Oddfordshire. Embora os moradores de Swampmuck falassem pelas costas de Bachelard sobre como ele tinha ficado feio e como era tolice vender orelhas que nunca tornariam a crescer, todos o visitavam e eram carregados por seus criados pelos cômodos de mármore e para cima e para baixo da escadaria, também de mármore, e quando saíam, todos estavam verdes de inveja.
A essa altura, nenhum dos aldeões tinha pernas, exceto o aldeão Hayworth, e poucos tinham braços. Durante algum tempo, todos tinham insistido em manter um braço para poderem apontar para coisas e se alimentar, mas aí perceberam que um criado podia erguer uma colher ou um copo até seus lábios facilmente, e dizer “pegue isso para mim” ou “pegue aquilo para mim” era apenas um pouco mais trabalhoso do que apontar para algo do outro lado da sala. Então, braços passaram a ser vistos como luxos supérfluos, e os aldeões, reduzidos a troncos sem membros, viajavam de um lugar para outro em sacos de seda que os criados levavam nos ombros.
As orelhas logo seguiram o caminho dos braços. Os aldeões fingiam nunca ter chamado o sr. Bachelard de feio.
— Ele não parece tão mal — comentou o sr. Bettelheim.
— Podíamos usar protetores de ouvido — sugeriu o sr. Anderson.
E assim as orelhas foram cortadas e vendidas, e casas de mármore foram construídas. A aldeia ganhou reputação por sua beleza arquitetônica, e o que antes era um lugar ermo visitado apenas por acidente se tornou um destino turístico. Foi construído um hotel e mais restaurantes. Os sanduíches de picanha de bode sumiram do cardápio — os habitantes de Swampmuck fingiam nunca ter sequer ouvido falar em sanduíches de picanha de bode.
Turistas às vezes paravam perto da modesta casa de madeira e telhado plano do aldeão Hayworth, curiosos com o contraste entre aquele lar simples e os palácios que o cercavam. Ele explicava que preferia a vida simples de um agricultor de lírios-do-brejo (com todos os quatro membros) e os mostrava sua área de pântano. A dele era a última faixa de pântano que restara em Swampmuck, pois todas as outras tinham sido aterradas para dar espaço para as casas.
Os olhos do país estavam voltados para o vilarejo e suas belas casas. Os aldeões adoravam a atenção, mas estavam desesperados para se destacar de algum jeito, pois todas as casas eram praticamente idênticas. Cada um queria ser conhecido como o proprietário da mais bonita casa de Swampmuck, mas já estavam usando os braços e as pernas todos os meses só para pagar os juros dos empréstimos vultosos que haviam feito e já haviam vendido as orelhas.
Eles começaram a abordar os canibais com ideias novas.
— O senhor me emprestaria dinheiro com meu nariz como garantia? — perguntou a sra. Sally.
— Não, mas ficaríamos felizes em comprar seu nariz — disseram os canibais.
— Mas se eu cortar meu nariz, vou ficar parecendo um monstro! — protestou ela.
— A senhora pode usar uma echarpe em volta do rosto — sugeriram eles.
A sra. Sally se recusou. De seu saco, instruiu o criado a levá-la para casa.
Em seguida, o sr. Bettelheim foi ver os canibais.
— Os senhores comprariam meu sobrinho? — sussurrou o homem enquanto seu criado empurrava um menino de oito anos diante dos canibais.
— Absolutamente, não! — responderam os canibais, e deram um doce ao menino aterrorizado antes de mandá-lo para casa.
A sra. Sally voltou alguns dias depois.
— Está bem — anunciou, com um suspiro. — Eu vendo o meu nariz.
Ela o substituiu por um falso, feito de ouro, e, com o dinheiro que ganhou, construiu uma enorme cúpula de ouro no alto de sua casa de mármore.
Vocês já devem ter adivinhado aonde isso deu. Todos na aldeia venderam o nariz e construíram cúpulas de ouro e torres de vários tamanhos. Posteriormente, venderam os olhos (apenas um cada), usaram o dinheiro para escavar fossos em torno de suas casas e os encheram com vinho e peixes exóticos embriagados. Eles diziam que a visão binocular era mesmo um luxo e necessária basicamente para jogar e pegar objetos, o que, sem os braços, não faziam mais. E bastava um olho para apreciar a beleza de suas casas.
E os canibais, bem, eles eram civilizados e respeitavam a lei, mas não eram santos. Estavam morando em cabanas na floresta, cozinhavam em fogueiras, enquanto os aldeões viviam em mansões e palácios, servidos por criados. Por isso, os canibais resolveram se mudar para as casas dos aldeões. Suas casas tinham tantos quartos que eles demoraram a se dar conta do que tinha acontecido, mas quando finalmente descobriram, ficaram com raiva.
— Nunca permitimos que vocês morassem conosco! Vocês são canibais, são sujos, comem carne humana! — protestaram os aldeões. — Voltem para a floresta!
— Se não nos deixarem morar nas casas de vocês, vamos parar de comprar seus membros e voltar para Meek. Aí vocês não vão conseguir pagar seus empréstimos e vão perder tudo.
Os aldeões não sabiam o que fazer. Não queriam canibais em casa, mas tampouco podiam imaginar voltar à vida que levavam antes. Na verdade, as coisas seriam piores que antes: não só estariam sem casa, desfigurados e semicegos, como não teriam mais pântanos onde cultivar porque haviam aterrado todos. Era impensável.
Mesmo cheios de rancor, eles concordaram. Os canibais se espalharam por todas as casas da aldeia (exceto a do aldeão Hayworth, pois ninguém queria morar em sua rústica cabana de madeira). Eles ocuparam as suítes principais e os maiores quartos e fizeram os aldeões se mudarem para os próprios quartos de hóspedes, alguns dos quais não eram nem suítes! O sr. Bachelard foi forçado a ocupar o galinheiro, e o sr. Anderson se mudou para o porão. (O cômodo era até muito bom para um porão, mas mesmo assim...)
Os aldeões reclamavam sem parar do novo arranjo. (Afinal, eles ainda tinham língua.)
— O cheiro da comida de vocês me causa enjoos! — queixou-se a sra. Sally para os canibais.
— Os turistas não param de perguntar sobre vocês. É constrangedor! — gritou o sr. Pullman com os canibais, assustando-os quando estavam lendo em silêncio na sala.
— Se não forem embora, vou denunciar às autoridades que vocês têm raptado crianças para usá-las como recheio de purê! — ameaçou certa vez o sr. Bettelheim.
— Purê não tem recheio — retrucou o canibal, um espanhol culto chamado Héctor.
— Não me importa! — gritou o sr. Bettelheim, ficando bem vermelho.
Depois de algumas semanas disso, Héctor decidiu que não aguentava mais. Ele ofereceu ao sr. Bettelheim até o último centavo que lhe restava na terra para que lhe vendesse sua língua.
O sr. Bettelheim não recusou imediatamente. A oferta mereceu muita reflexão e consideração. Sem a língua, ele não poderia mais reclamar nem fazer ameaças a Héctor, mas, com o dinheiro, poderia construir uma segunda casa em sua propriedade e morar , longe de Héctor. Não teria mais do que reclamar. E quem mais na aldeia teria não uma, mas duas casas de mármore com cúpula de ouro?
Agora, se o sr. Bettelheim tivesse pedido o conselho do aldeão Hayworth, seu velho amigo lhe teria aconselhado a não aceitar a oferta do canibal. Se o cheiro da comida deles o incomoda, venha morar comigo, teria oferecido Hayworth. Tenho espaço mais que suficiente em minha casa. Mas o sr. Bettelheim havia se afastado do aldeão Hayworth, assim como o restante da aldeia, por isso ele não pediu (e, mesmo que tivesse pedido, Bettelheim era orgulhoso demais e preferiria viver sem língua a morar na casa pobre de Hayworth).
Então Bettelheim procurou Héctor e anunciou:
— Está bem.
Héctor sacou sua faca de trinchar, que levava sempre embainhada.
— Sim?
— Sim — falou Bettelheim, e pôs a língua para fora.
Héctor realizou o ato. Depois, encheu a boca de Bettelheim de algodão para conter o sangramento. Ele levou a língua para a cozinha, onde a fritou em óleo de trufas com uma pitada de sal e a comeu. Então pegou todo o dinheiro que prometera, deu para os criados de Bettelheim e os dispensou. Sem membros e sem língua, mas com muita raiva, Bettelheim grunhiu e se remexeu pelo chão. Héctor o levantou, levou-o para fora e o amarrou a uma estaca em uma área do jardim, à sombra. Dava-lhe água e comida duas vezes por dia, e, como uma árvore frutífera, Bettelheim crescia membros para Héctor comer. Héctor se sentiu um pouco mal em relação a isso, mas não muito. Depois de um tempo, ele se casou com uma boa moça canibal, e, juntos, criaram uma família canibal, toda alimentada pelo homem peculiar do jardim.
Esse foi o destino de todos os aldeões, exceto o do aldeão Hayworth, que manteve seus membros, morava em sua casinha e cultivava seu pântano como sempre tinha feito.
Ele não incomodava seus novos vizinhos, que também não o incomodavam.
E viveram felizes para sempre.

1 Histórica zona de exílio localizada, acredita-se, em alguma região da atual Cornualha.
2 Houve uma época, muito tempo atrás, em que peculiares podiam viver juntos, fora de fendas e abertamente, sem medo de perseguição. Naqueles dias tranquilos, eles se dividiam de acordo com suas habilidades, prática que hoje em dia é malvista por encorajar o tribalismo e a hostilidade entre os diferentes grupos.
3 A fonte de riqueza dos canibais? Fabricação de balas e brinquedos para crianças.

2 comentários:

  1. Tem uma moral bonita, mas é uma história um pouco mórbida

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Boa leitura :)