25 de março de 2017

Prólogo - Unidos para sempre

As botas de Cam tocaram os beirais do telhado da velha igreja sob um frio céu estrelado. Ele trouxe as asas para junto do corpo e admirou a paisagem. As barbas-de-velha pendiam das árvores centenárias, como estalactites brancas à luz do luar. Construções térreas de concreto circundavam um campo cheio de ervas-daninhas e um par de arquibancadas cheias de farpas. Do mar, vinha a brisa agitada.
Férias de inverno na Escola Sword & Cross. Não havia vivalma à vista. O que ele fazia ali?
Passava pouco da meia-noite. Ele tinha chegado de Troia. Viajara em meio a uma névoa de confusão, as asas guiadas por uma força misteriosa. Flagrou-se cantarolando uma canção que não se permitia recordar havia milhares de anos. Talvez ele tivesse voltado ali porque fora onde os anjos caídos encontraram Luce em sua última e amaldiçoada vida. Era sua tricentésima vigésima quarta encarnação, e a tricentésima vigésima quarta vez que os anjos caídos se reuniam para ver como a maldição se desenrolaria.
Agora, a maldição fora quebrada. Luce e Daniel estavam livres.
E, caramba, que inveja Cam sentia disso.
Ele correu os olhos pelo cemitério. Nunca teria imaginado que um dia ficaria nostálgico em relação àquele ferro-velho, mas seu início na Sword & Cross fora empolgante de certa forma. O resplendor de Lucinda nunca fora tão intenso, levando os anjos a duvidarem das próprias expectativas em relação a ela.
Durante seis milênios, sempre que ela completava 17 anos, eles presenciavam alguma variação do mesmo acontecimento: os demônios — Cam, Roland e Molly — tentavam ao máximo fazer Luce aliar-se a Lúcifer, enquanto os anjos — Ariane, Gabbe e, às vezes, Annabelle — se esmeravam para fazê-la voltar à proteção do Paraíso. Nenhum dos dois lados jamais chegava nem perto de convencê-la. Pois toda vez que Luce encontrava Daniel — e ela sempre encontrava Daniel —, nada se tornava mais importante que o amor de ambos. Em todas as vezes, eles se apaixonavam, e, em todas as vezes, Luce morria em meio a uma explosão.
Até que, certa noite na Sword & Cross, tudo mudou. Daniel beijou Lucinda, e ela sobreviveu. E então todos souberam que Luce, finalmente, receberia o poder da escolha.
Algumas semanas mais tarde, todos viajaram até o local original de sua queda, Troia, onde Lucinda escolheu seu destino. Ela e Daniel novamente se recusaram a alinhar-se com o Inferno ou o Paraíso, escolhendo um ao outro em vez disso. Abdicaram da imortalidade para passar uma vida mortal juntos.
Agora os dois tinham morrido, mas continuavam nas lembranças de Cam. Aquele amor triunfante o fez ansiar por algo que não ousava colocar em palavras.
Começou a cantarolar novamente. Aquela canção... Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda se lembrava dela...
Fechou os olhos e viu a cantora: o cabelo ruivo preso numa trança frouxa às costas, seus dedos longos acariciando as cordas de uma lira enquanto ela se recostava numa árvore.
Ele não se permitira pensar nela em milhares de anos. Por que agora...?
— Esta lata aqui já era, dá pra me passar outra? — pediu uma voz familiar.
Cam virou-se. Não havia ninguém ali.
Notou um movimento atrás da claraboia de vitrais quebrados do telhado e aproximou-se para espiar por ali. Queria ver o interior da capela que Sophia Bliss havia usado como escritório quando era a bibliotecária da Sword & Cross.
Lá dentro, as asas iridescentes de Ariane se dobraram quando ela sacudiu uma lata de tinta spray e levantou-se, mirando o jato na parede.
O mural que havia criado mostrava uma garota numa floresta azul cintilante. Ela usava um vestido negro em camadas e olhava para um garoto loiro, que lhe oferecia uma peônia branca. Luce e Daniel Para Sempre, escreveu Ariane com letras góticas prateadas na saia rodada da garota.
Atrás de Ariane, um demônio de pele negra e dreadlocks acendia uma vela alta, confinada num vidro pintado com a imagem da Santa Muerte, a santa da morte venerada na cultura mexicana. Roland criava um santuário no local onde Sophia matara Penn, amiga de Luce. Nenhum anjo caído podia entrar num santuário de Deus, pois, tão logo pisasse ali, todo o local se acenderia em chamas e incineraria os mortais presentes. Aquela capela, porém, fora dessacralizada depois que a Srta. Sophia se instalara nela.
Cam abriu as asas e desceu pela claraboia quebrada, aterrissando atrás de Ariane.
— Cam. — Roland abraçou o amigo.
— Ei, vá com calma — retrucou Cam, mas não se desvencilhou do abraço.
Roland inclinou a cabeça.
— Que coincidência encontrar você por aqui.
— Ah, é? — perguntou Cam.
— Não se você gostar de carnitas — disse Ariane, atirando um pacotinho embrulhado em papel alumínio para ele. — Lembra-se daquele food truck de tacos em Lovington? Eu estava louca por um desses tacos desde que viemos para este fim de mundo. — Ela abriu o próprio embrulho e devorou o taco em duas mordidas. — Delícia.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Roland para Cam.
Cam encostou-se numa coluna de mármore fria e deu de ombros.
— Esqueci minha Les Paul no dormitório.
— Nossa. E você veio até aqui só por causa de uma guitarra? — questionou Roland, depois assentiu. — Bem, acho que todos nós precisamos encontrar maneiras de preencher nossos dias intermináveis, agora que Luce e Daniel se foram.
Cam sempre odiara a força que atraía os anjos caídos até os amantes amaldiçoados a cada 17 anos. Tinha sido obrigado a abandonar campos de batalha e cerimônias de coroação. A desistir dos braços de garotas maravilhosas. Certa vez tivera até mesmo de deixar um set de filmagem. Sempre era obrigado a largar tudo para encontrar Luce e Daniel. Porém, agora que aquela força irresistível se fora, ele sentia saudades.
A própria eternidade estava aberta à sua frente. O que ele faria com ela?
— O que aconteceu em Troia te deu, sei lá... — começou Roland, mas deixou a frase solta no ar.
— Esperança? — Ariane pegou o taco intocado de Cam e o devorou. — Tipo, se depois de todos esses milhares de anos Luce e Daniel foram capazes de enfrentar o Trono e conseguir um final feliz, por que não os outros? Por que nós não podemos também?
Cam olhou pela janela quebrada.
— Talvez eu não seja esse tipo de cara.
— Todos nós carregamos conosco pedaços de nossas jornadas — retrucou Roland. — Todos nós aprendemos com nossos erros. Quem disse que não merecemos a felicidade?
— Ah, essa é boa. — Ariane tocou as cicatrizes em seu pescoço. — O que nós, três aves de rapina desiludidas, sabemos sobre o amor? — Ela olhou de Cam para Roland. — É ou não é?
— O amor não é propriedade exclusiva de Luce e Daniel — argumentou Roland. — Todos sentimos o gostinho dele um dia. Talvez voltemos a sentir de novo.
O otimismo de Roland não bateu bem para Cam.
— Eu não — anunciou ele.
Ariane suspirou, arqueando as costas para abrir as asas e erguer-se alguns centímetros do chão. Um som esvoaçante preencheu a igreja vazia. Com movimentos hábeis da lata de tinta spray branca, ela acrescentou uma levíssima sugestão de asas acima dos ombros de Lucinda.
Antes da Queda, as asas dos anjos eram feitas de luz empírea. Eram perfeitas, um par idêntico ao outro. Agora, as asas haviam se tornado manifestações da personalidade de cada anjo, de seus erros e impulsos. Os anjos caídos que se aliaram a Lúcifer possuíam asas douradas. Já as dos anjos que haviam retornado aos braços do Paraíso exibiam, nas suas fibras, os toques prateados do Trono.
As asas de Lucinda haviam sido especiais. Eram surpreendentemente puras e brancas. Intocadas.
Inocentes das escolhas alheias. Além dela, o único outro anjo caído que preservara as asas brancas fora Daniel.
Ariane desembrulhou o segundo taco.
— Às vezes eu me pergunto se...
— Se o quê? — interrompeu Roland.
— Se vocês poderiam voltar no tempo e não dar uma mancada tão épica no quesito amor, sabem?
— E de que adianta se perguntar isso? — disparou Cam. — Rosaline morreu. — Ele viu Roland estremecer ao ouvir o nome da amada perdida. — Tess jamais irá perdoar você — acrescentou, olhando para Ariane. — E Lilith...
Pronto. Ele disse o nome dela.
Lilith foi a única garota que Cam amou. Ele a pedira em casamento.
Não deu certo.
Ele ouviu aquela música mais uma vez, latejando em sua alma, cegando-o com o arrependimento.
— Você está cantarolando? — perguntou Ariane, olhando para Cam, desconfiada. — E desde quando você cantarola, posso saber?
— Qual é o lance com Lilith? — insistiu Roland.
Lilith também havia morrido. Embora Cam jamais tivesse descoberto como foram os últimos dias dela na Terra depois que se separaram, sabia que ela já devia ter abandonado este mundo e retornado ao Paraíso há muito tempo. Se Cam fosse um cara diferente, talvez sentisse certo consolo em imaginá-la envolta em luz e alegria. O Paraíso, porém, lhe era tão dolorosamente distante que achava melhor simplesmente nem pensar nela.
Roland pareceu ler sua mente.
— Você poderia fazer as coisas do seu jeito.
— Eu sempre faço as coisas do meu jeito — retrucou Cam, suas asas pulsando silenciosamente às costas.
— Sim, é uma de suas melhores qualidades — disse Roland, olhando para as estrelas através do telhado destruído. Depois, olhou novamente para Cam.
— Que foi? — perguntou Cam.
Roland deu uma risada baixinha.
— Eu não falei nada!
— Deixe comigo, sim? — interrompeu Ariane. — Cam, este seria o exato momento no qual todo mundo fica esperando para ver uma de suas partidas dramáticas... daquelas em que você sai voando até um bando de nuvens como aquele ali. — Ela apontou para uma névoa que pendia do Cinturão de Órion.
— Cam. — Roland olhou alarmado para o amigo. — Suas asas.
Perto da pontinha da asa esquerda de Cam havia um único e pequenino filamento branco.
Ariane ficou boquiaberta.
— O que isso quer dizer?
Era uma única mancha branca em meio à vastidão dourada, mas obrigou Cam a se lembrar do momento em que suas asas deixaram de ser brancas e ganharam a cor do ouro. Há muito tempo aceitara seu destino, mas agora, pela primeira vez em milênios, vislumbrava uma possibilidade.
Graças a Luce e Daniel, Cam tivera uma nova chance. E um único arrependimento.
— Preciso ir. — Ele abriu as asas completamente, e uma brilhante luz dourada banhou a capela.
Ariane e Roland saíram do caminho. A vela tombou e se estilhaçou no chão. Sua chama apagou-se lentamente no frio piso de pedra.
Cam disparou até o céu e atravessou a noite, rumando em direção às trevas que estavam sempre à espera desde o dia em que fugira do amor de Lilith.

9 comentários:

  1. Karina te amo!
    Estava louca por esse livro
    E esse começo em!! Tava morrendo de saudades do Roland e da Ariane

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    1. Haha valeu, Lu ❤
      Espero que goste do livro, boa leitura!

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  2. Luce e Daniel se foram,um amor tão lindo!!

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  3. Mds Cam amor dá minha vida ❤
    Luce e Daniel 😢
    MDS se foram ;-;

    ~Lua

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  4. Finalmente vou ler esse livro! !

    Flavia

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  5. Karina muito obrigada por postar esse livro ♡♥

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  6. Vai acabar que todos eles vão desistir da Imortalidade para viver o amor e se juntar a Luce e Daniel sete palmos embaixo da terra kkkkk

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    1. E que comece APAIXONADOS 2 ♡♡♡

      Ass•analu

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  7. Omg a Luce e Daniel morreram!! Que triste espero que tenham sido felizes.
    E a Ariane sempre com o Roland, e eles ainda num deram uns pega? Por que meu Deus, por que?

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Boa leitura :)