13 de março de 2017

Epílogo

DIAS SE PASSAM. Ou pelo menos acho que são dias.
Passo a maior parte do tempo numa cegueira dormente, submetida ao sonador.
Não dói mais, não tanto. Meus carcereiros aperfeiçoaram a dosagem, usando-a para me manter inconsciente, mas sem causar aquela dor que parece rachar meu crânio. Sempre que me liberto, vejo com a vista embaçada homens em roupas brancas, mas logo eles ajustam um botão e o dispositivo faz um clique novamente. Então o inseto se enterra no meu cérebro, clicando, sempre clicando. Às vezes, ouço a voz de Maven. Então a prisão se torna preta e vermelha, ambas as cores fortes demais para eu suportar.
Dessa vez, quando me liberto, nada clica. Tudo brilha excessivamente, ainda que esteja levemente turvo, mas não caio de novo. Acordo de verdade.
Minhas correntes são claras, provavelmente de plástico ou diamante. Prendem meus punhos e tornozelos de um jeito apertado demais para ser confortável, mas folgado o suficiente para permitir a circulação. As algemas são a pior parte, afiadas e ásperas contra minha pele sensível. As feridas gastas gotejam sangue. O vermelho é um contraste grande com meu traje claro e desbotado, e ninguém se preocupa em limpá-lo.
Agora que Maven não pode esconder o que sou, ele precisa mostrar ao mundo, conforme qualquer plano perverso que tenha. As correntes balançam, e percebo que estou num veículo blindado, que estou me movendo. Deve ser usado para prisioneiros, porque não há janelas e as paredes têm argolas. Minhas correntes estão presas em uma delas, chacoalhando devagar.
Diante de mim, há dois homens de branco, ambos carecas. Se parecem muito com o instrutor Arven. São irmãos ou primos, provavelmente. Isso explica a sensação de abafamento e minha dificuldade em respirar.
Os homens silenciam meu poder, me fazendo refém dentro do meu próprio corpo. Estranho eles precisarem das correntes também. Sem a eletricidade, sou apenas uma garota de dezessete anos, quase dezoito agora. Não consigo conter o sorriso. Vou passar meu aniversário presa porque quis. A esta altura no ano passado, pensei que estaria marchando para a frente de guerra. Agora estou indo para sabe-se lá onde, trancada num veículo em movimento com dois homens que gostariam muito de me matar. A situação não é muito melhor.
E acho que Maven tinha razão. Ele avisou que passaríamos meu próximo aniversário juntos. Parece que ele é um homem de palavra.
— Que dia é hoje? — pergunto, mas nenhum dos dois responde. Sequer piscam. Seu foco em mim, em silenciar o que sou, é perfeito e inabalável.
Lá fora, um rumor estranho e abafado começa a crescer. Não consigo identificar o que é, nem quero gastar energia tentando. Certamente descobrirei logo.
Não estou enganada. Depois de alguns minutos, o veículo para e a porta traseira se abre. O rumor vinha da multidão desesperada. Por um segundo aterrorizante, me pergunto se voltarei ao Ossário, para a arena onde Maven tentou me jogar à morte.
Ele quer terminar o serviço. Alguém solta as minhas correntes da argola e me empurra para a frente. Quase caio para fora do veículo, mas um dos silenciadores Arven me agarra no último momento. Não por bondade, mas por necessidade. Preciso parecer perigosa, como a garota elétrica de antes. Ninguém liga para uma prisioneira fraca. Ninguém vaia uma covarde chorona. Eles querem ver uma conquistadora humilhada, um troféu vivo. Pois é isso o que sou agora.
E entrei nessa gaiola porque quis.
É sempre assim.
Meu corpo estremece quando percebo onde estou.
A ponte de Archeon. Uma vez a vi desmoronar e queimar, mas o símbolo do poder e da força foi reconstruído. E devo atravessá-la, com os pés descalços e cortados, correntes e captores por perto. Olho para o chão, incapaz de erguer a cabeça. Não quero ver o rosto de tanta gente, tantas câmeras. Não posso deixar que me vejam falhar. É o que Maven quer, e jamais lhe darei isso.
Pensei que seria fácil ser colocada para desfilar.
Afinal, já estou acostumada com a humilhação a esta altura. Mas isso é muito pior. Os tremores de alívio que senti na clareira da floresta se foram, dando lugar à angústia.
Todos os olhos estão cravados em mim, à procura de rachaduras no meu rosto famoso. Encontram muitas. Tento não ouvir os gritos e até consigo por alguns segundos. Então compreendo o que a maioria das pessoas está dizendo, e as coisas horríveis que querem que eu veja. Nomes. Fotografias. Todos os prateados mortos e desaparecidos. Tive um dedo no destino de todos eles. Eles gritam comigo, jogando palavras que machucam mais do que qualquer objeto.
Quando chego do outro lado da ponte, na lotada Praça de César, as lágrimas são rápidas e numerosas demais para que eu consiga segurar. Todos veem. Meu corpo fica mais tenso a cada passo. Busco o que não posso ter, o poder que não é capaz de me salvar. Mal consigo respirar, como se a corda já tivesse sido amarrada no meu pescoço.
O que fiz?
Há muita gente reunida nos degraus do Palácio de Whitefire, ansiosa para assistir à minha queda. Os nobres e generais estão todos de preto, de luto pela rainha. O vestido de Evangeline é difícil de ignorar, com escamas de cristal escuro que reluzem a cada movimento.
Uma pessoa veste cinza, a única cor que lhe cabe.
Jon. Por algum motivo, ele está de pé com eles, observando a minha chegada.
Seus olhos, vermelhos como sangue, contêm um pedido de desculpas que jamais aceitarei. Nunca deveria tê-lo deixado ir embora, praguejo contra mim mesma.
Uma vez, ele disse que me levantaria sozinha. Agora sei que estava mentindo. Porque com certeza caí.
A plataforma da frente, num nível mais alto que todo o resto, está vazia. É um bom lugar para uma execução, se é isso que Maven quer. Ele está sentado lá, à espera, num trono que não reconheço.
Meus carcereiros me empurram na direção dele, me forçando a me aproximar do rei. Pergunto a mim mesma se ele vai me matar na frente de todos e pintar os degraus do seu palácio com o sangue. Quando ele levanta, estremeço. Percebo que nos encaramos como fazem os noivos, que conseguem se sentir sozinhos em meio a uma multidão. Mas isto não é um casamento.
Pode ser o meu funeral, o meu fim.
Alguma coisa reluz na mão dele. É a espada do pai? A lâmina de um carrasco? Sinto um arrepio quando ele prende algo ao redor do meu pescoço. Um colar.
Cravado de joias, dourado, pontiagudo, uma coisa terrível e belíssima. Meus olhos turvos de lágrimas dificultam a visão, até que não tenho certeza de nada além da armadura escura do rei diante de mim, e da marca ardendo no meu peito.
Há uma corrente presa ao colar. Uma coleira. Não passo de uma cachorra. Ele a segura firme no começo e espero ser arrastada por toda a plataforma. Mas ele permanece imóvel.
Ele puxa um pouco, para testar a corrente, e me faz cambalear em sua direção. As pontas do colar penetram na minha carne e quase sufoco.
— Você exibiu o corpo dela — ele sussurra, roçando os lábios contra o meu ouvido enquanto fala por entre os dentes cerrados. Há um tom de dor em sua voz. — Vou fazer o mesmo com você.
É impossível ler a expressão no rosto dele, mas o sentido é claro. Com a mão, ele aponta para os pés. Seus dedos estão mais brancos do que me lembro.
Faço o que ele quer.
Me ajoelho.

22 comentários:

  1. Estou no shawn.
    ~Tsuru

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  2. Ah neim !!! A Mare tá tão diferente do outro livro. Se achando e bancando a prepotente , credo!!!

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  3. ESPERO QUE O OUTRO LIVRO JA TEJA POSTADO OU ENTÃO EU VOU MORRER DE ANCIEDADE!!

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  4. No shawn é pouco! :O ai meu core socorro
    Oq foi q ele fez com o cal e os outros?! Mds aaaaah
    #pietra

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  5. Ela tem complexo de heroína.
    Não podemos esperat que os personagens principais sejam sempre altruístas e que façam tudo certo. Ela é só uma garota que teve a vida revirada do avesso. Admiro muito ela.

    Amei esse livro! Obrigada Karina 😉

    Bora ler o próximo.

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    1. De nada, Carla. Boa leitura:)

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    2. Falo tudo !!
      Tirou as palavras da minha boca !!

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    3. luamara sangue nova "animus"6 de maio de 2017 22:00

      Pelas minhas cores! Alguém concorda comigo afinal !

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  6. Meu Deus! Como eu ainda amo o Maven!
    Me internem PLEASE!!!
    Sabe o fundo do poço? Com esse final... Passei direto e afundei ainda mais

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  7. AI MEU CORE, Q Q TA ACONTECENDO >.<

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  8. Nããããooooo .... Gente parem de criticar a Meri ela teve a vida destruida e faz o que acha certo pra proteger quem ama ...
    Eu vou ler a continuação pra ver se consigo sair do fundo desse poço

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  9. Nããããooooo .... Gente parem de criticar a Meri ela teve a vida destruida e faz o que acha certo pra proteger quem ama ...
    Eu vou ler a continuação pra ver se consigo sair do fundo desse poço

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    1. Verdade!!! Coitada

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    2. Nem todo mundo consegue fazer o que ela fez se sacrficar por quem ama.
      Embora tenha sim dado uns tropeços mas fazer o que ela pode ter poderes mas ainda é humana😭😞

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  10. Coitada, a vergonha que ela vai passar, mas ela não teve culpa, foi muitas coisas novas e trabalhos em tão pouco tempo para ela.

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  11. Ai,ai... terminei de ler o segundo livro e ainda não consigo gostar da Mare.

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  12. Eu sabia que isso ia acontecer, a despedida foi muito cara de despedia entendem?

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  13. Ai meu core. ... e esse Jon hein?

    Flavia

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  14. Se colocou mt num pedestal Mare, agora late rsrsrsrs

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  15. Pelo menos ela se sacrificou pelos outros.
    Estou preocupada com eles, falando nisso.
    ~polly~

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  16. Um dia da caça. Outro do caçador....
    Esse livro acabou suspense total.
    Ansiosa para ler o próximo!
    Partiu....

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  17. E aí me aparece Jon...Ai ai ai...Mais uma lição pra Mare.
    Mas bem que ela merece pra ser mais humilde e ouvir os outros.
    Espero que no próximo livro ela aprenda a importância dos outros além dela.
    Bom,por esse epílogo dá pra ver que o caminho é esse.
    Partiu próximo livro😄
    Amando d++++😄😍😍😍
    Obrigada Karina! !! Você é a nossa heroína 🙏🙏🙏

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Boa leitura :)