3 de março de 2017

Epílogo

O VAZIO ESCURO DO SONO SE DESFAZ e dá lugar mais uma vez à vida. Meu corpo balança com o movimento e sinto um motor em alguma parte. Metal range contra metal, deslizando em alta velocidade com um ruído que reconheço vagamente: o subtrem.
O lugar onde apoio minha bochecha é estranhamente suave, mas também tenso. Não é feito de couro, tecido ou concreto, mas de carne. Ele se desloca sob mim para se ajustar aos meus movimentos, e então abro os olhos. O que vejo é o bastante para me convencer de que ainda estou sonhando.
Cal está sentado de frente para mim, mas do outro lado do vagão. Está tenso, com os punhos cerrados sobre o colo. Olha para a frente, para a pessoa em que me aconchego, e seu olhar carrega o fogo que conheço tão bem. O trem o fascina, de vez em quando vira o rosto para observar as luzes, as janelas e os cabos. Quer muito examinar tudo de perto, mas a pessoa ao seu lado o impede de se mover.
Farley.
A revolucionária, toda cicatriz e tensão, está de pé. Deu um jeito de sobreviver ao massacre. Quero sorrir, quero chamá-la, mas minha fraqueza não permite e fico quieta.
Lembro da tempestade, da batalha no Ossário e de todos os horrores que vieram antes. Maven.
Seu nome faz meu coração se contorcer de angústia e vergonha. Todo mundo pode trair todo mundo.
A arma de Farley pende da cinta passada ao redor do peito, pronta para atirar em Cal. Há outros como ela, também tensos, também vigiando o prateado. Estão arrasados, feridos e são poucos, mas ainda parecem ameaçadores. Seus olhos nunca desviam do príncipe caído, o observando como um rato observa um gato. E então noto a algema nos pulsos de Cal, feita de um ferro que ele poderia derreter facilmente. Mas não o faz. Simplesmente fica ali, à espera.
Ao perceber meu olhar, seus olhos me encaram. A vida pulsa novamente nele.
— Mare — ele murmura e parte da ira ardente se desfaz. Parte.
Minha cabeça gira quando tento me endireitar no assento, mas uma mão reconfortante me mantém deitada.
— Quieta — diz uma voz, que reconheço vagamente.
— Kilorn? — balbucio.
— Estou aqui.
Para minha confusão, o ex-pescador abre caminho pelos guardas atrás de Farley. Ele possui suas próprias cicatrizes agora, e bandagens imundas envolvem seu braço, mas caminha ereto.
E está vivo. Só de vê-lo, sou tomada por uma enxurrada de alívio. Mas, se Kilorn está lá, com o resto da Guarda, então...
Meu pescoço gira rápido para que eu veja quem está comigo.
— Quem...?
Trata-se de um rosto familiar, um rosto que conheço muito bem. Se já não estivesse deitada, certamente cairia. O choque é demais para suportar.
— Estou morta? Estamos todos mortos?
Ele veio me levar. Morri na arena. Isto é uma alucinação, um sonho, um desejo, um último pensamento antes de morrer. Estamos todos mortos.
Mas meu irmão balança a cabeça devagar e pousa sobre mim seus olhos cor de mel. Shade sempre foi o mais bonito, e a morte não mudou isso.
— Você não está morta, Mare — ele diz, com a voz suave de que recordo. — Nem eu.
— Como? — é só o que consigo dizer, indo mais para trás para examinar meu irmão por inteiro. Ele parece o mesmo de sempre, sem as habituais cicatrizes de um soldado. Até seu cabelo está maior, nada de corte militar.
Mas ele não é o mesmo. Assim como você não é a mesma.
— A mutação — digo, correndo a mão por seu braço. — Eles mataram você por isso.
Seus olhos parecem dançar.
— Tentaram... — ele começa.
Não pisco, não passa um instante, mas ele se move mais rápido que meus olhos, mais rápido até que um lépido. Agora está sentado do outro lado do vagão, perto do ainda algemado Cal. É como se meu irmão se deslocasse pelo espaço em saltos de um lugar para outro instantaneamente.
— ... e falharam — conclui.
Ele sorri de orelha a orelha, admirado e satisfeito com meu queixo caído.
— Eles disseram que me mataram, contaram aos capitães que estava morto e que tinham cremado meu corpo.
Outra fração de segundo e ele aparece sentado ao meu lado novamente, surgindo do nada. Se teletransportando.
— Mas não foram rápidos o bastante. Ninguém é.
Tento concordar com a cabeça, tento entender seu poder, sua mera existência, mas não consigo compreender mais que seus braços envoltos em mim. Shade. Vivo e como eu.
— E os outros? Nossos pais...? — começo a perguntar, mas Shade me cala com outro sorriso.
— Estão seguros e à espera — diz com a voz um pouco trêmula de emoção. — Você vai ver todos em breve.
Meu coração quase explode só de pensar. Mas, como toda a minha felicidade, toda a minha alegria, toda a minha esperança, a sensação não dura muito. Meus olhos se detêm nas armas prontas para disparar da Guarda, no rosto tenso de Farley e nas mãos atadas de Cal. Ele, que tanto sofreu, que escapou de uma prisão atrás da outra.
— Soltem ele — peço.
Devo a ele minha vida, mais que minha vida. Com certeza, posso lhe oferecer algum conforto aqui. Mas ninguém esboça a menor reação às minhas palavras. Nem mesmo Cal.
Para minha surpresa, ele responde antes de Farley:
— Eles não vão soltar. E não deveriam. Aliás, vocês precisam vendar meus olhos se querem mais segurança.
Embora tenha sido derrubado, arremessado para fora da própria vida, Cal não pode mudar quem é. O soldado ainda está nele.
— Cale a boca, Cal. Você já não é mais um perigo para ninguém — comento secamente.
Com ar de desdém, ele inclina a cabeça na direção do punhado de rebeldes armados.
— Eles não parecem pensar o mesmo.
— Não para nós, quis dizer — acrescento, me encolhendo no assento. — Ele me salvou, apesar de tudo o que fiz. E depois do que Maven fez para vocês...
— Não pronuncie o nome dele — Cal ruge de uma maneira medonha que me faz arrepiar.
Não deixo de notar a mão de Farley apertar a arma.
A revolucionária, então, vocifera por entre os dentes:
— Não importa o que ele fez por você, o príncipe não está do nosso lado. E não vou arriscar o que sobrou de nós por causa do seu romancezinho.
Romance. Nós dois estremecemos com a palavra. Já não existe nada assim entre nós. Não depois do que fizemos um ao outro, e do que fizeram conosco. Não importa o quanto desejamos que ainda exista.
— Vamos continuar a lutar, Mare, mas os prateados já nos traíram uma vez. Não vamos confiar neles de novo.
As palavras de Kilorn são mais suaves, como um bálsamo para me fazer entender. Mas seus olhos soltam faíscas sobre Cal. Ele obviamente se lembra da tortura no calabouço e da imagem terrível do sangue congelado.
— Ele pode ser um prisioneiro valioso — complementa Kilorn.
Eles não conhecem Cal como eu. Não sabem que é capaz de destruir todos, de escapar num piscar de olhos se quiser. Então, por que fica? Quando nossos olhos se encontram, descubro a resposta sem palavras à minha pergunta. A dor que irradia dele é suficiente para partir o coração. Cal está cansado. Arrasado. E não quer lutar mais.
Parte de mim também não quer. Parte de mim deseja se submeter às correntes, a uma vida cativa e silenciosa. Mas eu já vivi uma vida assim, na lama, nas sombras, numa cela, num vestido de seda. Jamais serei submissa de novo. E jamais vou parar de lutar.
Nem Kilorn. Nem Farley. Nunca pararemos.
— Os outros como nós... — Minha voz treme, mas nunca me senti tão forte. — Os outros como Shade e eu...
Farley inclina a cabeça e leva a mão ao bolso.
— Ainda tenho a lista. Sei os nomes.
— E Maven também — replico simplesmente. Cal se contorce ao ouvir o nome do irmão. — Ele usará a base sanguínea para caçar todos.
Apesar dos balanços e solavancos do trem sobre os trilhos escuros, faço um esforço para levantar. Shade tenta me apoiar, mas afasto sua mão. Preciso ficar de pé sozinha.
— Ele não pode encontrá-los antes de nós — ergo a cabeça, sentindo o vigor da eletricidade do trem. — Não pode.
Quando Kilorn vem na minha direção com uma expressão determinada, suas feridas, cicatrizes e bandagens parecem desaparecer. Tenho a impressão de ver a aurora em seus olhos.
— Ele não vai.
Um estranho calor paira ao meu redor, um calor como o sol, embora estejamos bem abaixo da superfície. É tão familiar para mim quanto meus raios, e me envolve num abraço que não podemos dar. Apesar de dizerem que Cal é meu inimigo, apesar de o temerem, deixo seu calor penetrar minha pele e seus olhos queimarem nos meus.
As lembranças que compartilhamos passam pela minha mente, trazendo cada segundo que passamos juntos. Mas agora nossa amizade não existe, foi substituída pela única coisa que ainda temos em comum.
Nosso ódio por Maven.
Não preciso ser uma murmuradora para saber que compartilhamos a mesma ideia: Vou matá-lo.

41 comentários:

  1. diz agora que ele não é igual a mãe pulei o livro e estou CERTOOOOO

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  2. Aninha das kebradas5 de março de 2017 09:59

    Primeira a comentar!

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  3. Aninha das kebradas5 de março de 2017 09:59

    Que infantil, não???

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  4. Aninha das kebradas6 de março de 2017 18:36

    ...
    QUE FANTASTICO...CADA A CONTINUAÇÃO????

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  5. Karina por favor me faça um ser humano feliz novamente e posta a continuação ´Espada de vidro`. Por favor, pra que eu consiga ter vida de novo. Por favor, por favor e por favorzinho.

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  6. Final com gostinho de quero mais!!!

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  7. Amei esse livro de magia, como sempre.

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  8. Quero dia 13 logooo!!!!!!!!!

    @cahdominguees

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  9. E não é que meu desejo realizou e o Shade renasceu? FINALMENTE alguém q parece fodão!

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    1. Mih eu tbm estava esse tempo todo esperando ele ressucitar e vim atrás de Mare
      😄😄😄😄😄😄😄😄😄😄
      #ApaixonadaPeloLivro
      #GostinhoDeQueroMais

      Karina amo seu trabalho você é incrível 😘

      ass.:Yasmim O.Santos

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  10. chego a rir quando penso nesse livro como um pouco de Divergente( esse último capitulo me lembrou kkkk) e A Seleção, por causa desse lance de realeza, um ótimo livro.
    ~Paloma

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  11. ESSE LIVRO É UMA DILICINHAAAA, ADOREEEIIII

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  12. Quando vi a sinopse desse livro achei o máximo. Afinal não é toda escritora que resolve fazer uma deliquente de mocinha kkkkk então pensei tem potencial. Más não gostei muito não dessa Mare. Entre um " ah os vermelhos são para servir" ou "odeio a rainha que me fez me afastar da minha familia" bla bla ... Achei que a personagem seria bem lokona porém com autopreservação sem acreditar tanto no Maven. E ainda que tenha sido por uma boa causa , usar as pessoas não é legal, Lucas Samos que o diga.Enfim, vou ler os outros só porque sou uma pessoa curiosa.

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    1. Nem me lembre do Lucas coitado...Acabou morto por culpa da Mare!

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    2. a personagem de trono de vidro é assim :Celaena . Vc deveria ler ele

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  13. Vou ser linchada más não achei tão bom quanto os comentários que li. O universo criado pela escritora foi ótimo até que é bacana porém essa heroína elétrica não me desceu. Tive mais empatia com o Mavem o que me deixa preocupada considerando a natureza de caráter dele kkkkkkkKKK by Naiane

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  14. cara Shade ta vivo, acreditem chorei a bessa quando decobri que fodão

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  15. Desconfiava que o irmão dela estivesse vivo, mas não que o poder dele fosse de teletransporte, pensei que fosse um tipo de murmurados, por causa dos sonhos dela... AMANDO O LIVRO!!!

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    1. TAMBEM ACHEI COLEGA, PORQUE SEMPRE QUE ELA SONHAVA OU ESCUTAVA UMA VOZ EM SUA MENTE DEPOIS VINHA O SEU IRMÃO NA MENTE,ATE ACHEI QUE ERA, MAS CONVENHAMOS TELETRANSPORTE É FODA PRA CARALHO KKKKKKKKKKKK

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  16. Desconfiei no momento da lista, o corpo havia sido cremado.Achei que ele era murmurador também.

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  17. vou da minha opinião, o livro começa bem e depois fica um pouco ruim, não gostei do final, vou ler a continuação espero que seja melhor.
    Não chega nem perto da minha saga preferida o trono de vidro.
    pronto falei.

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  18. Estava na cara que Shade não estava morto

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  19. Eu sabia que ele era um traidor!mimadinho😡

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  20. Shade vivo, amei! Ele parece fodão mesmo, mas o poder de murmurador seria mais legal! Minha série favorita ainda é Trono de vidro. Esse é bom mas não chega perto! !

    Flavia

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  21. O início do livro é bom, mas o meio é ruim pq acontece umas coisas sem explicação, não tem relatos, tipo, quando foi que o Marven "entrou" pra guarda?, foi a partir daí que ficou chato, por sinal. Por sorte, os 3 ou 4 últimos capítulos salvaram o livro. Esse desenrolar me lembrou de tramas grandiosas, onde os amados, tipo, muita gente amava o Marven, se viram para o mal e tal (já imagina isso, quem não? Haha) E essas cenas de luta? Amei!! Em suma, vou ler o restante porque amei esse final, haha.
    Ass: Bingo

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  22. Vou mata-lo!!! 💪👊🔋💡🌩🌩🌩🔥🔥🔥

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  23. Que tensooooo! Poucas coisas na vida me fizeram ficar tão tensa/empolgada
    VEY, QUASE Q EU CHORO NESSA MISERIA

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  24. O Shade está vivo!Partiu próximo livro!!!!!!!!!!!

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  25. SABIAAAAAAA!!!SHADE, BOY MAGIA VOLTOU!!!POHAAAAA<3

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  26. Agora a guerra começa de verdade,aquela Vaca Coroada e o Mavem(gente precisamos de um apelido,alguém tem sugestões?) q se cuidem,porque a Guarda Escarlate esta chegandooooo kkkkk

    Ps: Amei o Shade, esse promete

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  27. OMG como assim... #SHADENAOESTAMORTO
    ass: rosany de boca aberta e feliz.

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  28. Eu achei meio sem logica o personagem que a escritora criou, porque como a Mare não viu que tinha alguém controlando ela se o ela mais fazia era controlar as pessoas?

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  29. no fundo eu sabia que o shade estava vivo, mas o poder dele me surpreendeu mesmo. eu gostei do livro, e acima de tudo da mare. ela é aquela famosa personagem humanista, que esta predestinadas a cometer erros. não começa fodona como algumas, pelo visto vai aprender no decorrer da saga. precisou acreditar nas pessoas erradas, e passar por isso pra crescer. faz parte da vida, e isso me chama atenção. fácil de me se identificar, por isso ja ganhou pontos. vou acompanhar o resto da historia.

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  30. Eu sabia que o Shade tava vivo! Será quote algum outro Barrow tem poderes?
    #Partiu próximo livro!

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Boa leitura :)