15 de março de 2017

Capítulo vinte

Mare

O TELEPORTADOR DE UNIFORME VERDE aterrissa com calma, os pés firmes. Fazia muito tempo que eu não via o mundo se espremer e borrar. A última vez foi com Shade. A lembrança repentina dele dói. Somada a meu ferimento e o fluxo nauseante de dor, não é de espantar que eu tenha caído de joelhos. Pontos pretos dançam diante dos meus olhos, ameaçando se espalhar e me consumir. Me obrigo a ficar acordada e não vomitar aqui… onde quer que seja.
Antes que eu possa olhar para algo além do metal sob minhas mãos, alguém me puxa para um abraço apertado. Retribuo o máximo que posso.
— Cal — sussurro em seu ouvido, meus lábios roçando sua pele. Ele cheira a fumaça e sangue, calor e suor. Minha cabeça cabe perfeitamente no espaço entre seu pescoço e seu ombro.
Ele vacila em meus braços, tremendo. Até sua respiração oscila. Está pensando o mesmo que eu.
Isso não pode ser real.
Devagar, Cal se afasta, levando as mãos ao meu rosto. Ele observa meu olhar e repara em cada centímetro do meu corpo. Faço o mesmo, buscando o truque, a mentira, a traição. Talvez Maven tenha sanguenovos metamorfos como Nanny. Talvez seja outra alucinação de um Merandus. Posso acordar no trem, sob o olhar gelado do rei e o sorriso cortante de Evangeline. O casamento, minha fuga, a batalha — talvez tudo não tenha passado de uma piada terrível. Mas Cal parece real.
Está mais pálido do que lembro, com o cabelo curto. Enrolaria como o de Maven se tivesse chance. A barba por fazer contorna suas bochechas, e há alguns cortes pequenos na linha do queixo. Está mais magro, mas os músculos parecem mais rígidos sob meu toque. Só seus olhos continuam os mesmos. Cor de bronze, dourado-avermelhados, como o ferro sob o calor ardente.
Eu também estou diferente. Um esqueleto, um fantasma. Ele enrola uma mecha do meu cabelo nos dedos, vendo o marrom esvanecer em um cinza frágil. Então toca minhas cicatrizes. No pescoço, nas costas e então a marca sob o vestido arruinado.
Seus dedos são gentis, principalmente depois de quase termos destruído um ao outro.
Sou como vidro para ele, uma coisa frágil que pode se quebrar ou desaparecer a qualquer momento.
— Sou eu — digo a ele, sussurrando as palavras que nós dois precisamos ouvir. — Estou de volta.
Estou de volta.
— É você, Cal? — pergunto, parecendo uma criança.
Ele faz que sim com a cabeça, sem desviar o olhar.
— Sou eu.
Como Cal não se mexe, eu tomo a iniciativa, pegando nós dois de surpresa. Meus lábios encostam nos dele com vontade, e o puxo mais para perto. Seu calor cai sobre meus ombros como um cobertor. Me esforço para que minhas faíscas não façam o mesmo. Ainda assim, os pelos da sua nuca se arrepiam, respondendo à corrente elétrica no ar. Nenhum de nós fecha os olhos. Ainda pode ser um sonho.
Ele se recupera, tirando meus pés do chão. Uma dúzia de rostos finge não olhar. Não ligo. Que olhem. Não sinto nenhuma vergonha. Já fui obrigada a fazer coisa muito pior diante de uma multidão.
Estamos em um jato. A fuselagem longa, o ronco dos motores e as nuvens passando não deixam dúvida. Isso sem falar no ronronar delicioso da eletricidade pulsando pelos fios por toda parte. Estendo a mão, encostando a palma no metal curvado e frio da parede do jato. Seria fácil beber o pulso rítmico, trazê-lo para dentro de mim. Por mais que queira me esbaldar nessa sensação, acabaria muito mal.
Cal não tira a mão da minha cintura. Ele vira para olhar por cima do ombro. Dirige-se a uma das pessoas nos assentos.
— Curandeiro Reese, ela primeiro — ele diz.
— Claro.
Meu sorriso desaparece no instante em que um homem desconhecido coloca a mão em mim. Seus dedos se fecham em volta do meu pulso. O toque parece errado, pesado. Como pedra. Algemas. Sem pensar, empurro-o e dou um pulo para trás, como se tivesse me queimado. O horror me corrói por dentro, e faíscas saem dos meus dedos.
Rostos passam diante dos meus olhos, encobrindo minha visão. Maven, Samson, os guardas Arven, com mãos pesadas e olhos duros. No teto, as luzes piscam.
O curandeiro ruivo recua, dando um grito, enquanto Cal tenta acalmar as coisas.
— Mare, ele vai tratar suas feridas. É um sanguenovo. Está do nosso lado.
Ele coloca a mão na parede ao lado do meu rosto, me protegendo. De repente o jato fica pequeno, e o ar parece rançoso e sufocante. O peso das algemas se foi, mas não o esqueci. Ainda as sinto nos pulsos e tornozelos.
As luzes piscam de novo. Engulo em seco, fechando bem os olhos, tentando me concentrar. Manter o controle. Meu coração acelera, e os batimentos parecem trovões.
Inspiro o ar entre dentes cerrados, tentando me tranquilizar. Você está segura. Está com Cal, com a Guarda. Está tudo bem.
Ele coloca as mãos no meu rosto de novo, implorando.
— Abra os olhos, olhe para mim. — Todos os demais permanecem em silêncio. — Mare, ninguém vai machucar você aqui. Acabou. Olhe para mim!
Ouço o desespero em sua voz. Ele sabe tão bem quanto eu o que pode acontecer com o jato se eu perder o controle.
A aeronave oscila sob meus pés, em um declínio constante para que estejamos mais perto do chão caso o pior aconteça. Tensa, me obrigo a abrir os olhos.
Olhe para mim.
Maven disse essas palavras um dia. Em Harbor Bay. Quando o sonador ameaçou me partir ao meio. Ouço Maven na voz de Cal, vejo-o no rosto dele. Não, eu fugi de você. Eu fugi. Mas o jovem rei está por toda parte.
Cal solta um suspiro, exausto e dolorido.
— Cameron.
O nome me faz arregalar os olhos. Bato os dois punhos no peito de Cal. Ele dá um passo para trás, surpreso com a força. Um tom prateado surge em seu rosto. Cal franze as sobrancelhas, confuso.
Atrás dele, Cameron mantém uma mão no assento, balançando com o movimento do jato. Ela parece forte. Está vestindo um colete tático grosso e suas tranças estão bem presas. Seus olhos castanhos profundos penetram os meus.
— Isso não. — Implorar é natural para mim. — Tudo menos isso. Por favor. Não posso… não posso me sentir assim de novo.
A asfixia do silêncio. A morte lenta. Passei seis meses sob esse peso e agora, quando me sinto eu mesma de novo, talvez não sobreviva a mais um instante sob ele. Um sopro de liberdade entre duas prisões seria só mais uma tortura.
Cameron mantém as mãos ao lado do corpo, os dedos longos e escuros parados. Esperando para atacar. Ela também mudou nesses dois meses. Seu fogo não desapareceu, mas agora é direcionado, tem foco. Propósito.
— Tudo bem — Cameron responde. Com movimentos deliberados, cruza os braços, guardando as mãos letais. Quase caio, aliviada. — É bom ver você, Mare.
Meu coração ainda está martelando, o suficiente para me deixar sem ar, mas as luzes param de piscar. Abaixo a cabeça, mais uma vez aliviada.
— Obrigada.
Ao meu lado, Cal observa sombrio. Um músculo se tensiona em seu rosto. Não sei dizer o que está pensando. Mas posso adivinhar. Passei seis meses rodeada de monstros, e não esqueci como é a sensação de ser um.
Devagar, me deixo cair em um assento vazio, apoiando as mãos nos joelhos. Então entrelaço os dedos. Então sento em cima das mãos. Não sei o que parece menos ameaçador. Furiosa comigo mesma, olho fixo para o metal sob meus pés. De repente, me sinto desconfortável com a jaqueta militar e o vestido destruído, rasgado em quase todas as costuras, e com o frio que faz aqui dentro.
O curandeiro percebe e coloca um cobertor sobre meus ombros. Ele se movimenta sem parar, cumprindo sua função. Quando trocamos olhares, abre um leve sorriso.
— Acontece o tempo todo — ele sussurra.
Forço uma risada, um som oco.
— Vamos cuidar do machucado, tudo bem?
Enquanto me viro para mostrar o corte longo mas superficial nas costelas, Cal senta ao meu lado. Ele também me oferece um sorriso.
Sinto muito, diz apenas movendo os lábios.
Sinto muito, respondo da mesma forma.
Mas não tenho motivos para pedir desculpas. Pela primeira vez. Passei por coisas horríveis e fiz coisas horríveis para sobreviver. É mais fácil assim. Por enquanto.
Não sei por que finjo dormir. Enquanto o curandeiro trabalha, meus olhos se fecham e ficam assim durante horas. Sonhei tanto com esse momento que é quase avassalador. A única coisa que consigo fazer é encostar na poltrona e respirar com calma. Me sinto como uma bomba. Nada de movimentos repentinos. Cal fica ao meu lado, a perna encostada na minha. Ouço se mexer de vez em quando, mas ele não fala com os outros. Nem Cameron. A atenção deles está focada em mim.
Uma parte de mim quer conversar. Perguntar sobre minha família. Kilorn. Farley. O que aconteceu antes, o que está acontecendo agora. Para onde estamos indo. Não consigo fazer mais do que pensar nessas palavras. Só há energia suficiente em mim para sentir alívio. Um alívio fresco e tranquilizador. Cal está vivo; Cameron está viva.
Eu estou viva.
Os outros sussurram, mantendo a voz baixa em sinal de respeito. Ou só não querem me acordar e arriscar outro incidente elétrico.
Ouvir a conversa alheia é instintivo a essa altura. Capto algumas palavras, o suficiente para esboçar um panorama nebuloso. Guarda Escarlate, sucesso tático, Montfort. A última me faz pensar. Mal consigo lembrar dos gêmeos sanguenovos da nação distante. O rosto deles é um borrão na minha memória. Mas com certeza lembro do que ofereceram. Um porto seguro para os sanguenovos, desde que eu os acompanhasse. Fiquei inquieta na época e ainda fico. Se fizeram uma aliança com a Guarda Escarlate, qual foi o preço? Meu corpo fica tenso ao pensar nisso. Montfort me quer para alguma coisa, isso é claro. E parece ter ajudado meu resgate.
Com a mente, toco de leve a eletricidade do jato, deixando que se conecte com a eletricidade dentro de mim. Alguma coisa me diz que essa batalha ainda não terminou.
O jato aterrissa suave depois que o sol se põe. A sensação me assusta, mas Cal reage com os reflexos de um gato, tocando meu pulso. Me retraio de novo com o pico de adrenalina.
— Desculpe — ele gagueja. — Eu…
Apesar do estômago se revirando, eu me obrigo a ficar calma. Coloco as mãos em seus pulsos, esfregando os dedos no metal de seu bracelete.
— Ele me mantinha acorrentada. Com algemas de Pedra Silenciosa, noite e dia — sussurro. Seguro mais forte, fazendo-o sentir um pouco do que lembro. — Não consigo tirar isso da cabeça.
Suas sobrancelhas se curvam sobre os olhos escuros. Conheço muito bem a dor, mas não encontro forças para vê-la em Cal. Olho para baixo, correndo o dedo por sua pele quente. Mais um lembrete de que ele está aqui, assim como eu. Não importa o que aconteça.
Cal se vira, movimentando-se com sua elegância letal, até eu segurar sua mão.
Nossos dedos se entrelaçam.
— Eu queria poder te ajudar a esquecer — ele diz.
— Isso não ajudaria em nada.
— Eu sei, mas mesmo assim.
Cameron observa do outro lado do corredor, com uma perna agitada cruzada sobre a outra. Parece quase se divertir quando olho para ela.
— Incrível — diz.
Tento não me irritar. Meu relacionamento com ela, embora curto, não foi exatamente fácil. Em retrospectiva, sei que a culpa foi minha. Mais um erro na longa lista que quero desesperadamente consertar.
— O quê?
Sorrindo, ela solta o cinto e levanta enquanto o jato desacelera.
— Você ainda não perguntou para onde estamos indo.
— Qualquer lugar é melhor do que onde eu estava. — Lanço um olhar profundo para Cal e afasto a mão para mexer na fivela do meu cinto. — E achei que alguém ia acabar dizendo.
Cal dá de ombros enquanto levanta.
— Estava esperando a hora certa. Não queria sobrecarregar você.
Pela primeira vez em muito tempo, dou uma risada sincera.
— Que trocadilho horrível.
Seu sorriso largo encontra o meu.
— Deu certo.
— Vocês são insuportáveis — Cameron resmunga.
Depois de tirar o cinto, me aproximo dela, hesitante. Cameron percebe minha apreensão e enfia as mãos no bolso. Não costuma recuar ou pegar leve, mas faz isso por mim. Não a vi na batalha e seria idiota se não percebesse seu real propósito. Ela está no jato para ficar de olho em mim, como um balde de água ao lado da fogueira, caso o fogo saia do controle.
Devagar, envolvo seus ombros com os braços, em um abraço forte. Digo a mim mesma para não estremecer com o toque de sua pele. Ela pode controlarNão vai permitir que o silêncio te toque.
— Obrigada por estar aqui — digo, com sinceridade.
Cameron assente com a cabeça, o queixo quase encostando no topo da minha cabeça. Ela é tão alta. Ou ainda está crescendo ou comecei a encolher. Pode ser qualquer um dos dois.
— Agora me diga onde estamos — continuo, me afastando. — E o que foi que eu perdi.
Ela aponta com o queixo para a cauda do avião. Como o velho Abutre, este jato tem uma entrada em rampa, que desce com um ruído pneumático. O curandeiro Reese lidera a saída. Nós o acompanhamos, alguns passos atrás. Fico tensa enquanto saímos, sem saber o que esperar do lado de fora.
— Temos sorte — Cameron diz. — Vamos conhecer Piedmont.
— Piedmont? — Olho para Cal, incapaz de esconder o choque e a confusão.
Ele dá de ombros. O desconforto aparece em seu rosto.
— Eu não sabia até estar tudo acertado. Eles não nos disseram muita coisa.
— Nunca dizem.
É assim que a Guarda funciona, como se mantém um passo à frente de prateados como Samson ou Elara. Cada um sabe exatamente o que precisa saber, nada mais. É preciso muita confiança, ou tolice, para seguir ordens assim.
Desço a rampa, cada passo mais leve que o anterior. Sem o peso morto das algemas, sinto como se pudesse voar. Os outros seguem à nossa frente e se juntam a uma multidão de soldados.
— A divisão da Guarda Escarlate de Piedmont, certo? Parece grande.
— Como assim? — Cal sussurra em meu ouvido. Por cima do ombro dele, Cameron olha para nós, igualmente confusa. Olho para um e para o outro, procurando a coisa certa a dizer. Escolho a verdade.
— É por isso que estamos em Piedmont. A Guarda tem operado aqui como em Norta e em Lakeland. — As palavras dos príncipes de Piedmont, Daraeus e Alexandret, ecoam na minha cabeça.
Cal fica me olhando por um instante, antes de virar e olhar para Cameron.
— Você soube de alguma coisa por Farley?
Cameron bate o dedo nos lábios.
— Ela não disse nada. Duvido que saiba. Ou tenha permissão para me contar.
O tom deles muda. Fica mais sério, pragmático. Não gostam um do outro. Cameron, eu entendo. Mas Cal? Ele foi criado como um príncipe mimado. Nem a Guarda Escarlate poderia apagar todos os resquícios disso.
— Minha família está aqui? — Fico mais séria também. — Pelo menos isso vocês sabem?
— Claro — Cal responde. Ele não sabe mentir muito bem, então sei que fala a verdade. — Eles me garantiram. Vieram de Trial com o resto da equipe do coronel.
— Ótimo. Vou vê-los assim que possível.
O ar de Piedmont é quente, pesado, grudento. Como um verão intenso, embora ainda seja primavera. Nunca comecei a suar tão rápido. Até a brisa é quente, sem oferecer nenhum alívio enquanto passa por cima do concreto pelando. A pista de pouso é inundada de holofotes, tão brilhantes que quase não consigo ver as estrelas. À distância, mais jatos chegam. Alguns são verdes, como os que vi na Praça de César.
Naves como o Abutre e também maiores, de carga. Montfort. Os pontos se ligam no meu cérebro. O triângulo branco nas asas é sua marca. Já vi isso antes, em Tuck, nas caixas de equipamentos e nos uniformes dos gêmeos. Salpicados entre as naves de Montfort há jatos azuis, amarelos e brancos, com as asas listradas. Tudo à nossa volta é bem organizado e, a julgar pelos hangares e demais construções, bem financiado.
Claramente, estamos em uma base militar, e não do tipo com que a Guarda Escarlate está acostumada.
Tanto Cal quanto Cameron parecem tão surpresos quanto eu.
— Acabei de passar seis meses como prisioneira e vocês estão me dizendo que sei mais sobre as operações do que vocês? — repreendo.
Cal parece encabulado. Ele é um general; é um prateado; nasceu príncipe. Ficar confuso e perdido é muito perturbador para ele.
Cameron se irrita.
— Demorou só algumas horas para você retomar o ar de superioridade. Deve ser um novo recorde.
Ela está certa, e isso dói. Corro para alcançá-la, e Cal me acompanha.
— Eu só… desculpa. Achei que isso seria mais fácil.
Uma mão esquenta minha cintura, acalmando meus músculos.
— O que você sabe que nós não sabemos? — Cal pergunta, a voz insuportavelmente suave. Parte de mim quer chacoalhá-lo. Não sou uma boneca, nem de Maven nem de ninguém, e estou no controle agora. Não preciso ser manipulada. Mas o resto de mim aprecia o cuidado. É melhor do que qualquer outra coisa que eu tenha vivido em tanto tempo.
Não interrompo o passo, mas mantenho a voz baixa.
— No dia em que a Casa Iral e as outras tentaram matar Maven, ele estava dando um banquete para dois príncipes de Piedmont. Daraeus e Alexandret. Eles me questionaram, perguntando sobre a Guarda Escarlate e suas operações neste reino. Algo sobre um príncipe e uma princesa. — Minha memória começa a voltar. — Charlotta e Michael. Eles estão desaparecidos.
Uma nuvem escura atravessa o rosto de Cal.
— Soubemos que os príncipes estavam em Archeon. Alexandret morreu na tentativa de assassinato.
Pisco, surpresa.
— Como vocês…
— Vigiamos você o máximo que pudemos — Cal explica. — Estava nos relatórios.
Relatórios. A palavra gira na minha cabeça.
— Foi por isso que Nanny se infiltrou na Corte? Para ficar de olho em mim?
— Isso foi minha culpa. — Cal desabafa. Ele olha para baixo. — De mais ninguém.
Ao seu lado, Cameron fecha a cara.
— Foi mesmo.
— Srta. Barrow!
A voz não é uma surpresa. Aonde a Guarda Escarlate vai, o coronel vai também. Ele parece quase o mesmo de sempre: aflito, desagradável e bruto, o cabelo loiro bem claro e curto, o rosto marcado pelo estresse prematuro e um olho coberto por uma camada permanente de sangue escarlate. As únicas mudanças são o cabelo mais grisalho, o nariz queimado de sol e mais sardas nos braços. O homem de Lakeland não está acostumado com o clima de Piedmont e está aqui há tempo suficiente para ser afetado.
Soldados de Lakeland, cujos uniformes são uma mistura de vermelho e azul, o acompanham dos dois lados. Outros dois de uniforme verde também. Reconheço Rash e Tahir à distância, andando no mesmo passo. Farley não está com eles. E ela não costuma fugir da raia — a não ser que não tenha conseguido sair de Norta. Engulo esse pensamento e me concentro em seu pai.
— Coronel. — Abaixo a cabeça em um cumprimento.
Ele me surpreende ao estender a mão calejada.
— É bom ver você inteira — diz.
— Tão inteira quanto possível.
Isso o perturba. O coronel tosse, olhando para nós três. É uma situação complicada para um homem que teme o que somos.
— Vou ver minha família agora.
Não há motivo para pedir permissão. Quando vou passar por ele, suas mãos me interrompem, frias. Desta vez, luto contra o impulso de recuar. Ninguém mais vai me ver com medo. Não agora. Em vez disso, sustento seu olhar, e o faço perceber exatamente o que está fazendo.
— Essa decisão não foi minha — ele diz com firmeza e levanta as sobrancelhas, implorando que eu o ouça. Então inclina a cabeça. Atrás dele, Rash e Tahir acenam para mim com a cabeça.
— Srta. Barrow…
— Fomos instruídos…
— … a acompanhá-la…
— … em seu interrogatório.
Os gêmeos piscam em sincronia, terminando o discurso enlouquecedor. Como o coronel, eles suam com a umidade, o que faz a barba preta e a pele ocre idênticas brilharem.
Em vez de socar os dois, como queria fazer, dou um passo para trás. Interrogatório.
A ideia de explicar tudo o que passei para algum soldado me faz querer gritar, fugir, ou os dois.
Cal fica entre nós, ao menos para amortecer algum golpe que eu possa desferir.
— Vocês vão mesmo obrigar Mare a fazer isso agora? — O tom é de descrença e alerta. — Com certeza pode esperar.
O coronel solta um suspiro lento, parecendo extremamente irritado.
— Pode parecer cruel — ele lança um olhar para os gêmeos de Montfort —, mas você tem informações vitais sobre nossos inimigos. Essas são nossas ordens, Barrow. — Sua voz fica mais suave. — Eu gostaria que fossem diferentes.
Com um toque suave, empurro Cal para o lado.
— Eu… vou… ver… minha… família… agora! — grito, olhando de um gêmeo insuportável para o outro. Eles só franzem a testa.
— Que grossa — Rash resmunga.
— Muito grossa — Tahir resmunga de volta.
Cameron disfarça uma risada tossindo.
— Não a provoquem — ela avisa. — Vou fingir que não vi nada se a tempestade de raios chegar.
— As ordens podem esperar — Cal completa, usando todo o seu treinamento militar para parecer imponente, ainda que tenha pouca autoridade aqui. A Guarda Escarlate o vê como uma arma e nada mais. Sei disso porque costumava vê-lo da mesma forma.
Os gêmeos não arredam o pé. Rash estoura, empertigando-se como um pássaro quando eriça as penas.
— Você certamente tem tantos motivos quanto qualquer um para querer a queda do rei.
— Você certamente sabe qual é a melhor maneira de derrotá-lo — Tahir continua.
Eles não estão errados. Vi as feridas mais profundas e as partes mais obscuras de Maven. Sei onde acertar para fazê-lo sangrar mais. Mas, neste momento, com todos que amo tão perto, não consigo nem enxergar as coisas com clareza. Se alguém acorrentasse Maven na minha frente agora, eu não pararia para chutar sua cara.
— Não me importa quem está segurando sua coleira. De nenhum de vocês. — Desvio deles, decidida. — Digam que esperem.
Os irmãos trocam olhares. Eles conversam em pensamento, discutindo. Eu daria as costas e seguiria em frente se soubesse para onde ir, mas não tenho ideia.
Minha cabeça já está focada em minha mãe, meu pai, Gisa, Tramy e Bree. Imagino-os escondidos em mais um galpão, apertados em um dormitório menor do que nossa palafita. O cheiro da comida ruim da mamãe dominando o lugar. A cadeira do papai, os retalhos de Gisa. Tudo isso faz meu coração doer.
— Posso encontrar minha família sozinha — digo entredentes, determinada a deixar os gêmeos para trás.
Mas Rash e Tahir recuam, gesticulando para que eu siga em frente.
— Muito bem…
— Seu interrogatório será pela manhã, srta. Barrow.
— Coronel, por favor, acompanhe a srta. Barrow até…
— Sim — o coronel os interrompe incisivo. Fico grata por sua impaciência. — Venha, Mare.


A base de Piedmont é muito maior do que Tuck, a julgar pelo tamanho da pista de pouso. No escuro é difícil dizer, mas lembra mais o Forte Patriota, o quartel-general de Norta em Harbor Bay. Os hangares são maiores, há mais aeronaves. Os homens do coronel nos levam em um veículo aberto até nosso destino. Como alguns dos jatos, as laterais têm listras amarelas e brancas. Tuck eu entendia. Uma base abandonada, esquecida, provavelmente conquistada pela Guarda Escarlate com facilidade. Mas este lugar não é nada disso.
— Onde está Kilorn? — resmungo baixinho, cutucando Cal ao meu lado.
— Com sua família, imagino. Ficou alternando entre eles e os sanguenovos a maior parte do tempo.
Porque não tem família.
Diminuo ainda mais o tom de voz, para que o coronel não ouça.
— E Farley?
Cameron responde antes de Cal, com os olhos estranhamente gentis.
— Ela está no hospital, mas não se preocupe. Ela não foi para Archeon; não está ferida. Vocês vão se ver logo. — Ela pisca rápido, escolhendo as palavras com cuidado. — Têm muito o que conversar.
— Ótimo.
O ar quente me agarra com seus dedos pegajosos, emaranhando meu cabelo. Mal consigo ficar quieta no banco, de tão ansiosa e nervosa. Quando fui levada, Shade tinha acabado de morrer… por minha causa. Eu não culparia ninguém, muito menos Farley, se me odiassem por isso. O tempo nem sempre cura as feridas. De vez em quando, faz com que fiquem piores.
Cal mantém uma mão na minha perna, um peso firme como um lembrete de sua presença. Seus olhos vão de um lado pra o outro, reparando em cada curva que o veículo faz. Eu deveria fazer o mesmo. A base de Piedmont é território desconhecido.
Mas não consigo fazer mais do que morder o lábio e esperar. Meus nervos se agitam, mas não por causa da eletricidade. Quando viramos à direita, entrando em uma área de casas alegres de tijolos, sinto que vou explodir.
— São os aposentos dos oficiais — Cal sussurra. — É uma base real. Financiada pelo governo. Há poucas em Piedmont deste tamanho.
Seu tom me diz que ele está perguntando o mesmo que eu. Então por que estamos aqui?
Paramos na frente da única casa com todas as janelas acesas. Sem pensar, pulo do veículo, quase tropeçando nos trapos do vestido. Meus olhos se concentram no caminho à frente. Entrada de cascalho, degraus de lajota. A movimentação atrás das cortinas nas janelas. Só ouço meu coração batendo e o ruído de uma porta se abrindo.
Minha mãe vem primeiro, ultrapassando meus dois irmãos de pernas compridas. A colisão quase arranca o ar dos meus pulmões, mas não tanto quanto o abraço. Não me importo. Ela poderia quebrar todos os ossos do meu corpo e eu não me importaria.
Bree e Tramy carregam nós duas pelos degraus até o interior da casa. Gritam alguma coisa enquanto minha mãe sussurra em meu ouvido. Não ouço nada. A felicidade e a alegria dominam todos os meus sentidos. Nunca senti nada assim.
Minha mãe se ajoelha comigo no tapete no meio da sala grande. Fica beijando meu rosto, alternando as bochechas tão rápido que acho que vai deixar marca. Gisa se junta a nós, seu cabelo ruivo-escuro queimando no canto da minha visão. Como o coronel, ela tem sardas novas, pontos marrons na pele dourada. Trago-a mais para perto. Ela cresceu.
Tramy sorri para nós, sustentando uma barba escura e bem cuidada. Sempre queria deixá-la crescer quando era adolescente. Nunca passava de uns tufos irregulares, e Bree o provocava. Agora não. Ele se aproxima por trás de mim, os braços grossos envolvendo minha mãe também. Seu rosto está molhado. De repente, percebo que o meu também está.
— Onde está… — começo a perguntar.
Felizmente, não tenho tempo de temer pelo pior. Quando ele aparece, me pergunto se não estou alucinando.
Meu pai se apoia no braço de Kilorn e em uma bengala. Os meses lhe fizeram bem. Refeições frequentes o deixaram mais forte. Ele anda devagar, vindo do quarto ao lado.
Anda. Seus passos são irregulares, estranhos. Meu pai não tem duas pernas há anos, ou mais do que um pulmão ativo. Presto atenção enquanto ele se aproxima com os olhos brilhando. Nenhum chiado. Nenhum barulho de máquinas ajudando-o a respirar. Nenhum ruído de cadeira de rodas enferrujada. Não sei o que pensar ou dizer. Esqueci como ele era alto.
Curandeiros. Provavelmente a própria Sara. Agradeço mil vezes em silêncio, do fundo do coração. Devagar, levanto, apertando a jaqueta militar que me envolve. Há buracos de bala nela. Meu pai olha para eles. Ainda é um soldado.
— Você pode me abraçar, não vou desabar — ele diz.
Mentiroso. Meu pai quase cai quando coloco os braços em volta da sua cintura, mas Kilorn o mantém ereto. Nós nos abraçamos de um jeito que não podíamos desde que eu era uma garotinha.
As mãos suaves da minha mãe tiram o cabelo do meu rosto, e ela repousa a cabeça ao lado da minha. Fico no meio deles, protegida e segura. Por um instante, esqueço.
Nada de Maven, nada de algemas, nada de marca. Nada de guerra, nada de rebelião.
Nada de Shade.
Eu não era a única faltando na nossa família. Nada pode mudar isso.
Ele não está aqui e nunca mais vai estar. Meu irmão está sozinho no desconhecido.
Me recuso a deixar que outro Barrow tenha o mesmo destino.

19 comentários:

  1. Karina vc é muito de Deus, Serio kkkk ❤❤

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  2. Capitulo ótimo <333

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  3. Amei esse capítulo <3

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  4. Cameron disfarça uma risada tossindo.
    — Não a provoquem — ela avisa. — Vou fingir que não vi nada se a tempestade de raios chegar.
    GENTE E SO EU QUE GOSTO DELA ???

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    1. nessa parte eu gostei kkk

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    2. Eu gosto dela também, anônimo :D

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    3. No começo eu gostava, aí parei de gostar, agora gosto denovo

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  5. Capítulo emocionante! !

    Flavia

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  6. Foi o capítulo mais Cutcut ❤

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  7. Otimo capítulo

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  8. amei e chorei pela primeira vez de felicidade

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  9. Meu pai se apoia no braço de Kilorn e em uma bengala. Os meses lhe fizeram bem. Refeições frequentes o deixaram mais forte. Ele anda devagar, vindo do quarto ao lado.
    AI GENTE, FIQUEI EMOCIONADA. É UM MILAGRE. :')
    CHORANDO ~POLLY~

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  10. Poucas vezes chorei com um livro e esta foi uma delas, capítulo que salvou o livro todo

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  11. Que delícia! !! Um momento de felicidade pra respirarmos . Amei!!!!

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  12. Esse reencontro... Foi emocionante demais! ❤😢

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  13. Isso me lembra diário de um vampiro: dois irmãos apaixonados pela mesma menina. Um bonzinho e um malvado e lá no fundo torço pro malvado kkkkk da mais tchan

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  14. Será que o bebê da Farley já nasceu?Torço para ser uma menina.

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Boa leitura :)