13 de março de 2017

Capítulo vinte

DESSE DIA EM DIANTE, o quarto dele se torna nosso. É um acordo sem palavras, que nos dá algo em que nos apegar. Estamos sempre cansados demais para fazer algo além de dormir, embora eu tenha certeza de que Kilorn desconfie de outra coisa. Ele para de falar comigo e ignora Cal completamente. Parte de mim quer se juntar aos outros nos dormitórios mais amplos, onde as crianças cochicham noite adentro e Nanny as manda ficar caladas. Isso os torna mais unidos. Mas eu apenas os assustaria, e por isso fico com Cal, a única pessoa que não me teme de verdade.
Ele não me mantém acordada de propósito, mas sinto sua agitação todas as noites. Seus pesadelos são piores que os meus, e sei exatamente com o que sonha: com o momento em que separou a cabeça do pai do corpo.
Finjo dormir, consciente de que ele não quer ser visto nesse estado. Mas sinto suas lágrimas nas minhas bochechas. Às vezes acho que elas me queimam, mas não acordo com novas cicatrizes. Pelo menos não que sejam visíveis.
Embora passemos todas as noites juntos, Cal e eu não conversamos muito. Não há muito o que dizer. Não lhe conto do primeiro bilhete, nem dos seguintes. Embora muito distante, Maven ainda consegue ficar entre nós.
Eu o vejo nos olhos de Cal, como uma serpente enrolada na mente do irmão, tentando envenená-lo por dentro. E faz o mesmo comigo, tanto nos bilhetes como nas lembranças. Não sei por quê, mas não consigo destruí-los, e não conto a ninguém sobre a existência deles.
Devia queimá-los, mas não queimo.
Encontro mais uma carta em Corvium, durante outro resgate. Sabíamos que Maven estava a caminho para visitar a última grande cidade antes da terra de cinzas que é o Gargalo. Achávamos que chegaríamos primeiro.
Na verdade, quando chegamos, o rei já tinha ido embora.

31 de outubro
Esperei você na minha coroação. Parecia o tipo de evento que a sua Guarda Escarlate adoraria tentar arruinar, embora tenha sido bem modesto. Ainda esperam que estejamos de luto por causa do meu pai, e algo grandioso pareceria falta de respeito. Especialmente com Cal solto por aí, correndo por toda parte com você e a sua ralé. Poucas e valiosas pessoas ainda são fiéis a ele, segundo a minha mãe. Mas não se preocupe. Estamos lidando com elas. Não haverá nenhuma crise de sucessão prateada para tirar meu irmão da sua coleira. Se puder, deseje feliz aniversário a ele por mim. E lhe garanta que será o último. O seu também está chegando, não está? Não duvido que o passaremos juntos.
Até nosso próximo encontro,
Maven

Ouço sua voz pronunciando cada palavra, fazendo da tinta sua faca. Por um instante, meu estômago dá voltas e ameaça devolver todo o jantar pelo chão sujo. A náusea passa por tempo suficiente para eu sair do saco de dormir, dos braços de Cal, e ir até a minha caixa de suprimentos no canto. Como fazia em casa, escondo minhas bugigangas, e dois outros bilhetes de Maven estão amarrotados no fundo da caixa. Todos terminam da mesma maneira: “Sinto sua falta. Até nosso próximo encontro”.
Sinto mãos ao redor do meu pescoço, ameaçando espremer minha vida para fora da garganta. Cada palavra aperta mais que a outra, como se a própria tinta fosse capaz de me estrangular. Por um segundo, temo não ser mais capaz de respirar. Não porque Maven ainda insiste em me atormentar. Não, o motivo é bem pior.
Porque também sinto falta de alguém. Sinto falta do garoto que achei que ele fosse.
A marca que ele deixou em mim arde com as lembranças. Fico imaginando se ele também sente isso.
Atrás de mim, Cal se agita no saco de dormir; não é um pesadelo, é só hora de acordar. Apressada, guardo os bilhetes de qualquer jeito e saio do quarto antes que ele abra os olhos. Não quero ver sua pena, não agora. Seria demais para suportar.
— Feliz aniversário, Cal — sussurro pelo túnel vazio.
Esqueci o casaco e o frio de novembro perfura minha pele quando saio do abrigo. A clareira está escura, já que ainda não amanheceu, então mal consigo avistar a fronteira com a floresta. Ada está sentada diante das brasas quase apagadas de uma fogueira, empoleirada num tronco, tremendo dentro de um amontoado de cobertores de lã e cachecóis. Ela sempre escolhe o último turno da vigia, já que prefere acordar mais cedo do que nós. Seu cérebro acelerado permite ler os livros que trago a ela e ficar de olho nas árvores ao mesmo tempo. Assim, no início da manhã, quando levantamos e começamos a trabalhar, ela já adquiriu uma nova capacidade. Só na semana passada, aprendeu tirax, a língua de uma nação estranha no sudeste, bem como princípios básicos de cirurgia. Mas hoje ela não tem nenhum livro à mão, e não está sozinha.
Ketha está de pé junto ao fogo, de braços cruzados.
Seus lábios se movem com rapidez, mas não consigo ouvir o que diz. Kilorn se amontoa perto de Ada, com os pés praticamente metidos nas brasas. À medida que me aproximo, consigo ver sua testa franzida numa concentração imensa. Com uma vareta, ele traça linhas na terra. Letras. Grosseiras, desenhadas às pressas, formando palavras rudimentares como “barco”, “arma” e “casa”. A última palavra é mais longa que as demais.
“Kilorn”. A visão quase traz novas lágrimas aos meus olhos. Mas são lágrimas de felicidade, estranhas. O vazio dentro de mim parece encolher um pouco.
— Não é muito fácil, mas você está pegando o jeito — Ketha diz, com o canto da boca erguido em um meio sorriso. Uma professora de verdade.
Kilorn me nota antes que eu consiga me aproximar mais e logo quebra a vareta com que escrevia. O estalo ressoa pelo ar. Sem nem mesmo um aceno, levanta do tronco e joga a mochila de caça sobre o ombro. Sua faca brilha na cintura, fria e afiada como os pedaços de gelo que pendem das árvores como presas.
— Kilorn? — Ketha chama; então seus olhos deparam comigo, e minha presença responde sua pergunta. — Ah...
— É hora de caçar mesmo — Ada comenta, estendendo a mão para a forma evanescente de Kilorn.
Apesar da cor rosada da sua pele, a ponta de seus dedos está azul de frio. Kilorn desvia do toque, e a mão dela se fecha no ar gélido.
Não faço nada para detê-lo. Em vez disso, dou um passo para trás, oferecendo o espaço que ele tanto deseja. Ele sobe o capuz do casaco novo e, com uma expressão obscura, dá passos cuidadosos em direção às árvores. Veste couro de boa qualidade com forro de lã, perfeitos para manter alguém quente e escondido.
Roubei-o há uma semana em Haven. Não achava que Kilorn fosse aceitar um presente meu, mas até ele reconhece o valor de se manter aquecido.
Minha companhia matinal não incomoda apenas ele.
Ketha me olha de lado, quase corando.
— Ele pediu para aprender — ela diz, quase um pedido de desculpas. Então passa por mim e volta ao calor e conforto do Furo.
Ada a observa com olhos dourados e brilhantes, mas tristes. Ela dá tapinhas no tronco, gesticulando para que eu sente ao seu lado. É o que faço, e então ela joga um dos cobertores no meu colo, ajeitando-o sobre mim.
— Pronto, senhorita.
Ada era criada em Harbor Bay e, apesar da liberdade recém-descoberta, não perdeu os velhos hábitos. Ainda me chama de “senhorita”, embora já tenha lhe pedido várias vezes para não fazer mais isso.
— Acho que eles precisam de uma distração — ela acrescenta.
— E essa é muito boa. Nenhum professor chegou tão longe com Kilorn antes. Vou fazer questão de agradecê-la mais tarde. — Se ela não fugir de novo. — Todos precisamos de alguma distração, Ada.
Ela suspira, concordando. Seus lábios grossos e escuros se curvam num sorriso amargo de quem sabe o que quero dizer. Seu olhar breve para o Furo, onde metade do meu coração dorme, não me escapa. Em seguida, ela encara a floresta, por onde anda minha outra metade.
— Crance está com ele, e Farrah vai se juntar aos dois em breve. Nada de ursos — ela comenta, forçando a vista para enxergar o horizonte escuro. À luz do dia, quando não há névoa, conseguimos avistar até as montanhas distantes. — Eles já estão quietos, se preparando para o inverno. Dormem a estação inteira.
Ursos. Em Palafitas, mal tínhamos cervos, muito menos os famosos monstros do interior do país. Os depósitos de madeira, os lenhadores e o trânsito no rio bastavam para afastar qualquer animal maior que um guaxinim. Greatwoods, por outro lado, transborda vida selvagem. Alces de chifres enormes, raposas curiosas e, de vez em quando, o uivo de um lobo assombra os montes e vales. Ainda não vi nenhum desses vultosos ursos, mas Kilorn e os outros caçadores toparam com um há algumas semanas. Apenas o poder abafador de Farrah e o bom senso de Kilorn de ficar contra o vento evitaram que todos acabassem entre as presas do animal.
— Onde você aprendeu tanto sobre ursos? — pergunto, para pelo menos preencher o ar com alguma conversa boba.
Ada percebe exatamente o que estou fazendo, mas me responde mesmo assim.
— O governador Rhambos gosta de caçar — ela responde, dando de ombros. — Tinha uma propriedade fora da cidade, e seus filhos a encheram de bichos estranhos para que ele os matasse. Principalmente ursos. Criaturas belíssimas, com pelo preto e olhos vivos. Eram até tranquilos quando não mexiam com eles ou quando recebiam os cuidados do tratador. A pequena Rohr, filha do governador, queria um filhote, mas os ursos foram mortos antes de procriarem.
Lembro de Rohr Rhambos. Uma forçadora que parecia um ratinho, mas que conseguia pulverizar pedras com a força das mãos. Competiu na Prova Real há muito tempo, quando eu era uma criada como Ada.
— Não sei se o que o governador fazia pode ser chamado de caça, na verdade — Ada continua, com a voz cheia de tristeza. — Ele prendia os animais num poço, lutava com eles e lhes quebrava o pescoço. Seus filhos faziam isso também, para treinar.
Os ursos têm fama de serem feras selvagens e aterrorizantes, mas as palavras de Ada me dizem o contrário. Seu olhar opaco só pode significar que ela viu o poço pessoalmente, e se lembra de cada segundo.
— Que horrível — comento.
— A senhorita matou um dos filhos dele, sabia? Ryker era o nome dele. Tinha sido escolhido para ser um dos seus carrascos.
Nunca quis saber seu nome. Nunca perguntei nada sobre aqueles que matei no Ossário, e ninguém nunca me contou. Ryker Rhambos, eletrocutado na areia, reduzido a nada mais que carne enegrecida.
— Perdão, senhorita. Não era a minha intenção chateá-la — Ada emenda. Sua máscara de calma está de volta, junto com os modos perfeitos de uma mulher educada para ser uma criada. Com o poder que tem, só posso imaginar como deve ter sido terrível só observar e nunca poder falar, nunca poder mostrar seu valor ou se revelar por inteiro. Mas é ainda pior pensar que, diferente de mim, ela não pode se esconder atrás do escudo de uma mente imperfeita. Ela sabe e sente coisas demais, que ameaçam derrubá-la. Como eu, ela precisa continuar fugindo.
— Só fico chateada quando você me chama assim. “Senhorita”, quero dizer.
— Acho que é o hábito.
Ela muda de posição para pegar alguma coisa debaixo dos cobertores. Ouço o som característico de papel amassado e espero ver outro boletim de notícias com detalhes sobre a turnê de coroação de Maven. Em vez disso, Ada revela um documento que parece oficial, apesar de estar todo amarrotado e com os cantos chamuscados. Tem a espada vermelha do exército de Norta.
— Shade pegou isso daquele agente em Corvium — Ada explica.
— Aquele que eu fritei.
Passo os dedos pelo papel queimado, sentindo-o áspero e preto, prestes a se desintegrar. É estranho o documento ter sobrevivido e o portador não.
— Preparativos — balbucio, decifrando a ordem. — Para legiões substitutivas.
Ela confirma.
— Dez legiões para ficar no lugar das nove que estão nas trincheiras do Gargalo.
Legião Tempestade, Legião Martelo, Legião Espada, Legião Escudo: os nomes e os números estão listados de maneira bem clara. Cinco mil soldados vermelhos em cada, e mais quinhentos oficiais prateados. Estão se reunindo em Corvium antes de seguirem para o Gargalo, para substituir os soldados na frente de batalha. É uma coisa terrível, mas não me interessa muito.
— Que bom que já checamos Corvium. — É o que me ocorre dizer. — Pelo menos evitamos algumas centenas de oficiais prateados de passagem.
Mas Ada apoia a mão sobre o meu braço delicadamente; sinto o frio dos seus dedos longos e ágeis mesmo por baixo da manga da camisa.
— Dez para substituírem nove? Por quê?
— Um ataque fulminante? — pergunto. De novo, não entendo por que isso é problema meu. — Maven pode querer dar um espetáculo, revelar o guerreiro que é, fazer todos esquecerem Cal...
— Improvável. Ataques em trincheiras demandam pelo menos quinze legiões, cinco para ficarem de guarda, dez para marcharem.
Os olhos dela vão de um lado para o outro, como se pudesse ver a batalha na cabeça. Não consigo evitar arregalar os olhos. Pelo que sei, não temos nenhum manual de estratégia por aqui.
— O príncipe é muito versado na arte da guerra — ela explica. — E um bom professor.
— Você mostrou isso a Cal?
A hesitação dela é a única resposta que preciso.
— Creio que se trata de uma ordem de execução — Ada sussurra. — Nove legiões para assumirem os postos, e a décima para morrer.
Isso é loucura, mesmo para Maven.
— Não faz o menor sentido. Por que alguém desperdiçaria cinco mil bons soldados? — questiono.
— O nome oficial da legião é Adaga — ela diz, apontando para a palavra no papel. Como as outras, é formada por cinco mil vermelhos e está partindo direto para as trincheiras. — Mas o governador Rhambos a chama de outra coisa. Legiãozinha.
— Legiãozinha?
Meu cérebro finalmente começa a funcionar. De repente, volto à ilha de Tuck, para o pavilhão médico, com o coronel fungando na minha cara. Ele planejava trocar Cal, usá-lo para salvar as cinco mil crianças que agora marcham mais cedo para a cova.
— Os novos recrutas — balbucio. — Crianças.
— Entre quinze e dezessete anos. A Adaga é a primeira das legiões que o rei considerou “pronta para combate”. — Ela não se dá ao trabalho de esconder sua incredulidade. — Não devem ter sequer dois meses de treinamento.
Lembro de como eu era aos quinze anos. Embora já fosse uma ladra, era pequena e tonta, mais preocupada em atormentar minha irmã do que com o meu futuro. Ainda pensava ter uma chance de escapar do recrutamento. Rifles, trincheiras, explosões e cinzas não tinham começado a assombrar meu sono.
— Vão ser massacrados.
Ada se encolhe nos cobertores com uma expressão sombria.
— Acho que essa é a ideia.
Sei o que ela quer, o que muitos iriam querer se soubessem das ordens de Maven para o exército infantil.
As crianças prestes a serem enviadas para o Gargalo são consequência das Medidas, uma forma de punir o reino pela insurreição da Guarda Escarlate. A sensação é de que eu mesma os sentenciei à morte, e não duvido que muitos pensem assim. Logo haverá um mar de sangue nas minhas mãos, e não tenho como impedir. Sangue inocente, como o do bebê em Templyn.
— Não podemos fazer nada por eles — digo, olhando para baixo para não ver a frustração no rosto de Ada. — Não temos como lutar contra legiões inteiras.
— Mare...
— Por acaso você é capaz de pensar numa maneira de ajudar essas crianças? — eu a interrompo com a voz áspera de raiva, o que a faz se encolher num silêncio derrotado. — Então como eu seria?
— Claro. Tem razão. Senhorita.
O título me fere, conforme a intenção dela.
— Vou deixar você continuar a vigia — murmuro antes de levantar do tronco, ainda segurando a ordem.
Devagar, eu a dobro e enfio bem no fundo do bolso.
Cada corpo é uma mensagem para você.
Rendam-se, e isso vai parar.
— Partimos para Pitarus em algumas horas — digo a ela. Ada já sabe qual é a nossa missão de resgate do dia, mas a repetição me dá o que fazer. — Cal vai pilotar o jato, então entregue uma lista para Shade com os suprimentos de que vamos precisar.
— Cuidado. O rei está em Delphie, a apenas uma hora de voo — ela comenta.
A informação faz minhas cicatrizes arderem. Uma hora me separa das manipulações torturantes de Maven. Da sua máquina de terror que jogou meu poder contra mim.
— Delphie? De novo?
Cal vem caminhando até nós; acaba de sair do Furo e seu cabelo ainda está despenteado. Mas seus olhos nunca pareceram tão despertos.
— Por que de novo? — ele pergunta.
— Li um boletim em Corvium dizendo que ele visitaria o governador Lerolan — Ada diz, confusa com a atenção repentina de Cal. — Para lhe oferecer os pêsames em pessoa.
— Por Belicos e seus filhos.
Só me encontrei com Belicos uma vez, minutos antes da sua morte, mas ele me tratou com gentileza. Não merecia o fim que ajudei a lhe darem. Seus filhos também não.
Mas Cal força a vista na direção do sol nascente. Vê algo que não vemos, algo que nem mesmo as listas e informações de Ada podem compreender.
— Maven não perderia tempo com uma coisa dessas. Os Lerolan não significam nada para ele, e ele já matou os sanguenovos de Delphie. Não voltaria sem um bom motivo.
— Que é? — pergunto.
Ele abre a boca, como se esperando que a resposta certa saia. Nada acontece e, por fim, ele balança a cabeça.
— Não sei ao certo.
Porque não se trata de uma manobra militar. É outra coisa, algo que Cal não entende. Ele tem talento para guerra, não para intrigas — elas são domínio de Maven e sua mãe, e estamos completamente desarmados nesse campo. O melhor que podemos fazer é desafiá-los nos nossos termos, com a força, não com a mente. Mas precisamos de mais força. E rápido.
— Pitarus — digo em voz alta. — Diga a Nanny que ela vem junto.
A idosa pede para ajudar desde que chegou, e Cal acha que ela está pronta. Harrick, por outro lado, não quis se juntar a nós para outro resgate. Não desde Templyn. Não o culpo.


Não preciso indicar a Cal onde fica a região de Rift.
À medida que passamos o Estado do Rei e o Estado do Príncipe, a divisa fica surpreendentemente clara da altitude em que estamos. O jato sobrevoa uma série de vales com fendas, ladeados por uma fileira de montanhas. Seus longos entalhes parecem até criações humanas, como se a terra tivesse sido esculpida. Mas as fendas são grandes demais para terem sido feitas por homens, mesmo prateados. Esta terra foi esculpida por algo muito mais poderoso e destrutivo, milhares de anos atrás. O outono sangra pela paisagem, tingindo a floresta de vários tons de fogo. Estamos bem mais ao sul, e vejo neve no pico das montanhas, escondendo-se do sol nascente. Como Greatwoods, Rift é mais uma terra selvagem, embora sua riqueza se concentre em aço e ferro, não em madeira. A capital, Pitarus, é a única metrópole da região, e também o coração industrial. Fica na bifurcação de um rio, ligando as siderúrgicas às frentes de batalha, bem como as cidades carvoeiras do sul ao resto do reino. Embora Rift seja oficialmente governado pelos dobra-ventos da Casa Laris, é o lar ancestral da Casa Samos.
Proprietários das minas de ferro e das usinas de aço, são os Samos quem realmente controla Pitarus e Rift. Se tivermos sorte, Evangeline pode estar circulando por aí, e terei a chance de fazê-la pagar pelos seus males.
A fenda mais próxima de Pitarus fica a mais de vinte quilômetros, mas nos oferece uma boa cobertura. Pousamos na mais esburacada das pistas escondidas, e me pergunto se não ultrapassamos os limites do pavimento. Mas Cal mantém o Abutre sob controle e aterrissamos em segurança, apesar das sacudidas.
Nanny bate palmas, maravilhada com o voo. Um sorriso ilumina seu rosto enrugado.
— É sempre divertido assim? — ela pergunta, nos encarando.
Na frente dela, Shade força um sorriso amarelo. Ele ainda não se acostumou a voar e está se esforçando muito para não despejar seu café da manhã no colo da idosa.
— Estamos à procura de quatro sanguenovos. — Minha voz ecoa pela nave, silenciando o estalar das fivelas e barras de proteção.
Shade, recuperado, está sentado ao lado de Farley.
Além deles, Nanny e o sanguenovo Gareth Baument estão com a gente. Essa vai ser a terceira missão de Gareth em quatro dias, desde que Cal decidiu que o antigo domador de cavalos seria um acréscimo bem-vindo às nossas missões diárias. Ele já trabalhou para a própria Lady Ara Iral e era responsável pelo vasto haras da família próximo ao rio Capital. Na corte, todos a chamavam de pantera por causa de seu cabelo preto e brilhante e de sua agilidade felina. Gareth é menos elogioso e prefere chamá-la de silfa vadia. Por sorte, o trabalho na Casa Iral o manteve em forma, e seu poder está bem longe de ser desprezível. Na primeira vez que falei com ele e perguntei se era capaz de fazer alguma coisa especial, fui erguida até o teto. Gareth manipulou as forças da gravidade que me mantinham no chão. Se estivéssemos num lugar aberto, provavelmente teria ido parar nas nuvens. Mas deixo isso a critério de Gareth.
Além de ser capaz de lançar as pessoas pelo ar, ele consegue usar seu poder para voar.
— Gareth vai soltar Nanny dentro da cidade, e ela vai entrar na central de segurança disfarçada de general Lord Laris — digo, lançando um olhar para ela. Logo deparo com um homem um pouco mais velho que a mulher com quem estou acostumada. Ele faz que sim com a cabeça e flexiona os dedos, como se nunca os tivesse usado. Mas sei o que está acontecendo. É Nanny por baixo daquela pele, fingindo ser o comandante prateado da Frota Aérea. — Ela vai nos arranjar cópias dos registros dos quatro sanguenovos que vivem em Pitarus e no resto da região de Rift. Seguiremos a pé, e depois Shade vai tirar todos de lá.
Como sempre, Farley é a primeira a levantar.
— Boa sorte com este aqui, Nan — ela diz, enfiando o dedo no peito de Gareth. — Se você gostou do jato, vai adorar o que ele faz.
— Não gosto desse sorriso, mocinha — Nanny diz com a voz de Laris. Embora já tenha visto ela se transformar antes, ainda acho tudo muito estranho.
Gareth ri ao lado de Nanny enquanto a ajuda a levantar do assento.
— Farley voou comigo da última vez. Fez um belo estrago nas minhas botas quando pousamos.
— Não fiz nada disso — Farley rebate, mas segue rápido para a traseira do jato, provavelmente para esconder o rosto corado. Shade a segue, como sempre, tentando abafar o riso com a mão. Ela vomitou e está fazendo de tudo para esconder, o que nos diverte muito.
Cal e eu somos os últimos, embora eu não tenha motivos para esperá-lo. Ele repete as ações de sempre, girando botões e chaves, desligando partes do jato numa sequência rápida. Sinto cada uma delas afundar numa espécie de morte elétrica, até só restar a vibração baixa das baterias carregadas. O silêncio lateja no mesmo compasso que o meu coração, e de repente não vejo a hora de sair dali. Estar a sós com Cal me assusta, pelo menos à luz do dia. Quando a noite cai, não há outra pessoa com quem eu queira estar.
— Você devia conversar com Kilorn.
A voz dele me faz parar, e congelo no meio da rampa.
— Não quero conversar com ele.
O calor aumenta à medida que ele se aproxima.
— Engraçado. Geralmente você mente muito bem.
Viro para dar de cara com o peito dele. A roupa de voo — intacta quando ele a vestiu há mais de um mês — mostra sinais nítidos de desgaste. Embora ele faça o máximo para não se envolver nas nossas batalhas, elas visivelmente o atingiram.
— Conheço Kilorn melhor que você. Nada que eu disser vai impedi-lo de ficar emburrado.
— Você sabe que ele está pedindo para vir com a gente? — ele pergunta, com os olhos escuros e as pálpebras pesadas. Sua aparência é a mesma de momentos antes de dormir. — Ele me pede toda noite.
Meu tempo no Furo me deixou direta e fácil de ler.
Não tenho dúvida de que Cal vê a minha confusão ou a leve corrente de ciúmes que passa por mim.
— Ele conversa com você? Ele não fala comigo por sua causa, então por que raios...
De repente, os dedos dele estão no meu queixo, levantando minha cabeça para que eu não desvie o olhar.
— Não é de mim que ele sente raiva. Ele não está irritado porque nós... — Sua voz vacila. — Ele te respeita e acha que você é capaz de fazer as próprias escolhas.
— Ele me disse isso.
— Mas você não acredita nele.
Meu silêncio é resposta suficiente.
— Sei que você acha que não pode confiar em ninguém — ele continua. — Pelas minhas cores, eu sei. Mas você não pode enfrentar isso sozinha. E não diga que tem a mim, porque nós dois sabemos que você também não acredita nisso. — A dor na voz dele quase me esmaga. Seus dedos tremem na minha pele.
Devagar, desvencilho o rosto da mão dele.
— Não ia falar isso — digo. Uma meia verdade. Não me sinto dona de Cal, e não me deixo confiar nele, mas também não consigo me distanciar. Sempre que tento, logo retorno.
— Ele não é uma criança, Mare. Não precisa mais da sua proteção.
E pensar que, durante todo esse tempo, Kilorn esteve bravo só porque quero mantê-lo vivo. Quase começo a rir. Como ouso fazer uma coisa dessas? Como ouso querer que ele esteja seguro?
— Então traga-o da próxima vez. Deixe-o tropeçar na própria cova — digo simplesmente. Sei que ele capta o vacilo na minha voz, mas finge ignorar, por educação. — E desde quando você se preocupa com ele?
Mal ouço a resposta de Cal enquanto me afasto.
— Não digo isso para o bem dele.
Mais adiante, na pista, os outros estão à nossa espera.
Farley está ocupada prendendo Nanny ao peito de Gareth, improvisando amarras com um cinto de segurança do jato. Shade está olhando para o chão. A julgar pela expressão severa no seu rosto, ele ouviu cada palavra. Ele me lança um olhar fulminante quando passo, mas não diz nada. Com certeza vou levar outra bronca mais tarde, mas, por enquanto, quero me concentrar na nossa ida a Pitarus e nos resgates que faremos.
— Braços retraídos. Cabeça baixa — Gareth instrui Nanny. Diante dos nossos olhos, ela se transforma do robusto Lord Laris nela mesma, bem menor e mais magra, e então aperta o cinto.
— Fica mais leve assim — ela explica, com um sorriso.
Depois de longos dias de conversas sérias e noites inquietas, a cena me faz rir, e acabo tendo de tapar a boca com a mão.
Gareth acaricia o cocuruto da idosa.
— Você nunca para de surpreender, Nan. Sinta-se à vontade para fechar os olhos.
Ela faz que não com a cabeça.
— Passei a vida inteira de olhos fechados. Nunca mais.
Quando era criança e sonhava em voar como um pássaro, nunca imaginei uma coisa dessas. As pernas de Gareth não dobram, os músculos não enrijecem. Ele não toma impulso. Em vez disso, ele espalma as mãos e as deixa paralelas à pista, então simplesmente começa a flutuar. Sei que a gravidade ao redor dele está afrouxando, como um nó sendo desamarrado de uma corda. Ele sobe com Nanny presa ao corpo, cada vez mais rápido, até não passar de um pontinho no céu. E então a corda fica tensa e puxa o pontinho para a terra, para cima e para baixo, em arcos suaves e progressivos, afrouxando e tensionando, até os dois desaparecerem no pico mais próximo. Daqui de baixo, até parece um voo tranquilo, mas duvido que algum dia descubra. O jato é suficiente para mim.
Farley é a primeira a desviar o olhar do horizonte e retornar à missão. Ela aponta para a colina que se ergue diante de nós, com o topo repleto de árvores com folhas vermelhas e douradas.
— Vamos?
Como resposta, começo a marchar, estabelecendo um bom ritmo em direção ao cume. De acordo com a nossa vasta coleção de mapas, o vilarejo minerador de Rosen fica do outro lado do morro. Ou pelo menos ficava. Um incêndio de carvão devastou Rosen anos atrás, forçando tanto vermelhos como prateados a abandonar as valiosas e voláteis minas. Segundo as leituras de Ada, o lugar foi abandonado de um dia para o outro, e é provável que nos reserve um tesouro em suprimentos. Por enquanto, estou pensando em passar reto, para conferir o que conseguimos carregar na volta.
O cheiro de cinzas chega primeiro. Está vindo do lado oeste da encosta, e fica mais forte a cada passo que damos morro abaixo. Farley, Shade e eu logo cobrimos o nariz com os cachecóis, mas Cal não se incomoda com o aroma pesado de fumaça. Bom, não deveria mesmo.
Em vez disso, ele o aspira e o estuda.
— O fogo ainda está queimando — ele sussurra, observando as árvores. Ao contrário das que encontramos do outro lado da encosta, os carvalhos e olmos daqui parecem mortos. Poucas folhas, troncos cinzentos, não há nem mato crescendo sobre as raízes retorcidas. — Queimando em algum lugar nas profundezas.
Se Cal não estivesse conosco, eu teria medo dos focos remanescentes do incêndio. Mas sei que mesmo as brasas da mina não são páreo para ele. O príncipe é capaz de desfazer qualquer explosão que quiser, por isso seguimos em frente num silêncio agradável por entre a floresta moribunda.
Os acessos aos elevadores ainda existem na lateral da montanha, todos lacrados às pressas. Um deles exala fumaça, criando uma trilha de nuvens cinzentas que sobem para o céu nebuloso. Farley luta contra o ímpeto de investigar, e desce rápido pelas pedras e galhos baixos. Silenciosa, ela examina a área com atenção, sempre em guarda. E sempre a poucos metros de Shade, que nunca tira os olhos dela. Isso evoca a lembrança de Julian e Sara, dois dançarinos que se moviam ao som de uma música que ninguém mais ouvia.
Rosen é o lugar mais cinzento que já vi. As cinzas cobrem o vilarejo como neve, pairando no ar, abraçando as construções... Chegam até a encobrir o sol, o que deixa o vilarejo envolto numa neblina perpétua. Lembro das favelas dos técnicos em Cidade Cinzenta, mas aquele lugar maldito ainda pulsa como um coração lento e enegrecido.
Este vilarejo está morto faz tempo, assassinado por um acidente, uma faísca nas profundezas das minas. Apenas a rua principal, que traz uma mistura precária de lojas de alvenaria e casas de madeira, ainda está boa. O resto desmoronou ou foi queimado. Me pergunto se há ossos humanos entre as cinzas que inspiramos.
— Nenhuma eletricidade — comento. Não consigo sentir nada, nem uma lâmpada sequer. A tensão no meu peito se desfaz. Rosen já era faz tempo, e não representa perigo para nós. — Vou conferir as janelas.
Os outros seguem meu exemplo e esfregam as vitrines com a manga já suja da camisa. Tento enxergar o que há dentro do menor dos prédios ainda de pé; a construção parece um armário espremido entre um posto de segurança e uma escola quase toda destruída. Quando meus olhos se ajustam à pouca luz, vejo fileiras e mais fileiras de livros. Acumulados em prateleiras, empilhados de qualquer jeito, espalhados pelo assoalho encardido.
Sorrio contra o vidro, sonhando com a quantidade de tesouros que posso levar para Ada.
Um estalo parece partir meus nervos. Giro a cabeça na direção do som e vejo Farley parada diante de uma vidraça com uma tábua na mão e cacos de vidro aos pés.
— Ficaram presos — explica, apontando para a loja.
No instante seguinte, uma revoada de corvos explode da janela quebrada. Eles desaparecem no céu cinzento, mas seus grasnados ainda ecoam por um bom tempo.
Soam como crianças sofrendo.
— Minhas cores! — Cal exclama, balançando a cabeça na direção de Farley.
Ela só dá de ombros, rindo.
— Por acaso o assustei, alteza?
Ele abre a boca para responder, quase sorrindo, mas alguém interrompe. Uma voz que não reconheço, vinda de uma pessoa que jamais vi.
— Ainda não, Diana Farley. — O homem parece ter se materializado das cinzas. A pele, o cabelo e as roupas são da cor do vilarejo morto. Mas seus olhos são de um vermelho-sangue luminoso e aterrorizante. — Mas vão ficar assustados muito em breve. Todos vocês.
Cal invoca seu fogo e eu os meus raios, e Farley aponta a arma na direção do homem cinza. Nada disso parece assustá-lo. Na verdade, ele dá um passo à frente, e seu olhar vermelho me encontra.
— Mare Barrow — ele suspira, como se meu nome lhe causasse uma dor extrema. — Sinto como se já te conhecesse.
Nenhum de nós se mexe, estamos todos paralisados.
Digo a mim mesma que é por causa dos olhos dele, ou do cabelo longo e grisalho. Sua aparência é peculiar, mesmo para nós. Mas não é isso o que me mantém entorpecida. Outra coisa me deixa nervosa, um instinto que não compreendo. Embora o homem pareça curvado pela idade, incapaz de dar um soco, quanto mais lutar contra Cal, não consigo deixar de temê-lo.
— Quem é você? — Minha voz vacila, ecoando pelo vilarejo vazio.
O homem cinza inclina a cabeça e encara cada um de nós. À medida que os segundos passam, seu rosto murcha, e acho que ele vai começar a chorar.
— Os sanguenovos de Pitarus estão mortos. O rei espera vocês lá.
Antes que Cal possa abrir a boca para perguntar o que todos estamos pensando, o homem cinza ergue a mão.
— Sei porque vi, Tiberias. Assim como vi a chegada de vocês.
— O que você quer dizer com vi? — Farley rosna, se aproximando dele a passos rápidos, com a arma ainda na mão, pronta. — Fale!
— Que temperamento, Diana — ele a censura, posicionando-se ao lado dela com uma rapidez surpreendente.
Farley pisca, perplexa, e tenta agarrá-lo. De novo, ele se esquiva.
— Farley, pare! — ordeno, para a minha própria surpresa. Ela faz uma careta, mas obedece, parando atrás do homem estranho. — Qual o seu nome, senhor?
Seu sorriso é tão cinza quanto seu cabelo.
— Isso não importa. Meu nome não está na sua lista. Venho de fora das fronteiras do seu reino.
Antes que eu tenha chance de perguntar como ele sabe da lista de Julian, Farley ataca a toda velocidade, pulando nas costas do homem. Ela não emite nenhum ruído e ele não pode vê-la, mas o homem dá um passo para o lado e escapa do golpe com facilidade. Ela cai de cara nas cinzas, xingando, e não perde tempo tentando levantar.
Mira a pistola no coração dele.
— Vai desviar disto também? — ela provoca, engatilhando a arma com um clique.
— Não vou precisar — ele responde, com um sorriso sagaz. — Vou, srta. Barrow?
Claro.
— Farley, deixe-o. É mais um sanguenovo.
— Você é um... um observador — Cal suspira, dando alguns passos pela rua cinzenta. — Você vê o futuro.
O homem desdenha, abanando a mão.
— Um observador só vê o que procura, e sua visão é muito mais limitada que a minha.
Ele faz uma pausa e mais uma vez nos encara com um olhar triste e escarlate.
— Eu vejo tudo.

20 comentários:

  1. CARAMBAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Tipo eu vejo tudo!!!!!!!
    Mare esse você PRECISA recrutar esse é muito top

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  3. ESSE 1 PARAGRAFO AI EM SUPEEEER INOCENTE, SÓ DORME NÉ MARE??SÓ DORME......

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  4. Ver o futuro nem sempre é bom, isso foi dito pela número 10, "legados de lorien"

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    1. Exatamente!
      Agora qualquer coisa pode mudá-lo, e talvez até piorar.
      ~polly~

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  5. Tô com aquela pontada de desconfiança desse aí. ... tomara que eu esteja errada!

    Flavia

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  6. Tbm to Flávia . Afinal todo mundo pode trair todo mundo .

    Apaixonada por livros

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  7. Quando Shade e Farley vão assumir esse babado ?

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    1. Mas num é? To esperando eles se pegarem a um tempão já

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  8. Eeita! Shade e Farley, se assumam!
    E só acho que esse cara (só porque eles precisam tipo, muito dele) não vai se juntar ao bando.

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  9. DESSE DIA EM DIANTE, o quarto dele se torna nosso. É um acordo sem palavras, que nos dá algo em que nos apegar. Estamos sempre cansados demais para fazer algo além de dormir, embora eu tenha certeza de que Kilorn desconfie de outra coisa.



    Sei... Kkkk tão inocentes kkkkk
    Se eu tivesse cal do meu lado eu faria de td, menos dormir.

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    1. Kkkkk eu faria o mesmo. Meu Deus, do nada me passou cenas improprias na mente kkkk. Cal tu ta me deixando louca kkk

      Nathy

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  10. Aleluia🙏🙏 Alguém que pode dizer para todos o que está acontecendo com Mare. Sou só eu que percebo que essa garota está si perdendo para culpa,e as outras coisas,que ela já teve que fazer, teve que matar?

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  11. Ai caraca, nem sei o que dizer só sentir, to com um medinho basico kkkk

    Aham só dormir, sei sei, senta la Mare.

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  12. Shade e farley vamo assumi logo ai
    E to desconfiando desse ai "eu vejo td"

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  13. Depois de 11 cap vimos o beijo de Cal e Mare, espero que o beijo de Shade e Diana não fique para o próximo livri. Tem que sai nesse se não eu chorri e esperneio.

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  14. Powww não vão achar mais sangue novo nunca mais né?

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  15. To esperando Farley e Shade assumir o babado e Cal e Mare movimentar o trem ai porque oiiiiia ta difícil kkk

    -Kaah

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  16. “Além de ser capaz de lançar as pessoas pelo ar, ele consegue usar seu poder para voar."
    Daqui a pouco esse pokémon da escola Xavier evolui pra Lar das Crianças Peculiares

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  17. "Eu vejo tudo."
    Olha o corvo de três olhos aí, minha gente!
    Quanto a Farley e Shade, desconfiei quando ele disse que ela era só quatro anos mais velha que Kilorn (que tem a mesma idade dele), como se estivesse dizendo que ela não é velha demais.
    E tô achando engraçada essa obsessão da autora em dizer que Mare e Cal só dormem juntos. Tipo, qual é o problema se eles fizerem outra coisa além de dormir? Já são grandinhos, ué!

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Boa leitura :)