3 de março de 2017

Capítulo vinte

MEU GRITO SE JUNTA AOS DELES. As luzes brilham, piscam e por fim se apagam.
Um minuto de escuridão. É o que preciso dar. Os gritos, berros, o barulho de pés quase me desconcentram, mas faço um esforço. As luzes apagadas impossibilitam qualquer movimento.
Possibilitam a fuga dos meus amigos.
— Nos vãos! — ruge uma voz sobre o caos. — Estão correndo!
Outras vozes se juntam ao chamado, nenhuma delas é familiar. Mas nesta loucura todos soam diferentes.
— Encontrem-nos!
— Detenham-nos!
— Matem-nos!
Os sentinelas do patamar superior apontam suas armas para as sombras. Outros vultos passam correndo. Lembro-me de que Walsh está com eles. Se ela e outros criados conseguiram fazem Farley e Kilorn entrar, também vão conseguir fazê-los sair. Eles podem se esconder. Podem escapar. Ficarão bem.
Minha escuridão vai salvá-los.
Um pilar de fogo irrompe da multidão, agitando no ar feito uma serpente flamejante. As chamas projetam-se para o alto e iluminam o salão escuro. Sombras dançantes tingem as paredes e iluminam os rostos conturbados, transformando o lugar num pesadelo de luzes vermelhas e pólvora. Sonya grita perto de mim, curvada sobre o corpo de Reynald. A ágil matriarca Ara tenta tirá-la do caos e de cima do cadáver. Os olhos sem vida de Reynald encaram o teto e refletem a luz vermelha.
Ainda assim, aguento firme. Cada um dos meus músculos está tenso.
Em algum lugar próximo ao fogo, distingo os guardas do rei arrastando-o para fora do salão. Ele tenta resistir, grita para que não o levem, mas desta vez suas ordens não são obedecidas. Elara e Maven estão logo atrás e correm para longe do perigo. Muitos outros fazem o mesmo, ansiosos para sair do lugar.
Os agentes de segurança correm contra o fluxo, enchendo o salão com gritos e batidas de botas. Os prateados passam por mim aos empurrões na tentativa de escapar, mas tenho que manter meu posto e aguentar o máximo que puder. Ninguém tenta me levar consigo, ninguém sequer me nota. Estão com medo. Apesar da força, do poder, ainda sabem o significado do medo. Umas poucas balas no ar são o bastante para trazer à tona o terror que guardam dentro de si.
Uma mulher chorosa esbarra em mim e me derruba. Caio face a face com um cadáver, com a cicatriz da coronel Macanthos. O sangue prata escorre de sua testa. O buraco da bala é estranho, rodeado de uma carne cinzenta, rochosa. Ela era uma pétrea. Foi sagaz o bastante para tentar deter a bala, para se proteger. Mas foi impossível. Morreu mesmo assim.
Me afasto da mulher assassinada e acabo com as mãos sobre uma mistura de vinho e sangue prata. Deixo escapar um grito com uma combinação aterrorizante de dor e frustação. O sangue gruda em minhas mãos, como se soubesse o que fiz. É pegajoso, frio. Está por todos os lados, tentando me afogar.
— MARE!
Braços fortes me arrastam pelo chão para longe da mulher que deixei morrer.
— Mare, por favor... — suplica uma voz, mas não sei por quê.
Perco a batalha com um gemido de frustração. As luzes voltam para revelar um campo de guerra com pedaços de seda e morte. Quando tento levantar para verificar se o trabalho realmente chegou ao fim, uma mão me força para baixo.
Digo as palavras necessárias, desempenhando meu papel.
— Sinto muito... As luzes... Não consigo...
Acima de nós, as luzes piscam novamente.
Cal quase não me ouve e se ajoelha diante de mim.
— Onde você foi atingida? — ele pergunta aos berros enquanto examina meu corpo como foi treinado a fazer. Seus dedos correm pelos meus braços e pernas à procura de uma ferida, de uma fonte para tanto sangue.
Minha voz soa estranha. Fraca. Arrasada.
— Estou bem.
Ele não me dá ouvidos de novo.
— Cal, estou bem.
Seu rosto é invadido pelo alívio, e por um instante penso que vai me beijar outra vez. Mas ele recobra os sentidos mais rápido que eu.
— Tem certeza?
Devagar, ergo a manga do meu vestido, manchada de sangue prata.
— Como isto pode ser meu?
Meu sangue não é desta cor. Você sabe.
Ele assente.
— Claro — sussurra. — É que... Vi você no chão e pensei que...
Suas palavras se perdem, dão lugar a uma tristeza terrível em seus olhos. Mas ela também logo se esvai e se transforma em determinação.
— Lucas! Tire-a daqui!
Meu guarda-costas avança por entre o tumulto com a arma em punho. Embora pareça o mesmo, com o uniforme e as botas de todos os dias, aquele não é o Lucas que conheço. Seus olhos pretos — olhos de Samos — estão escuros como a noite.
— Vou levá-la até os outros — rosna ao me puxar para si.
Embora eu saiba melhor que ninguém que o perigo já passou, não deixo de estender a mão para Cal.
— E você?
Ele se solta de mim com surpreendente facilidade.
— Não vou fugir.
Cal então se volta para mim, ombro a ombro com um grupo de sentinelas. Ele passa sobre os cadáveres, encarando o teto. Um sentinela joga uma arma para o príncipe, que apanha com destreza, colocando o dedo no gatilho. Sua outra mão se acende e arde em chamas escuras e mortais. Ao lado dos sentinelas e dos corpos no chão, parece ser completamente outra pessoa.
— Vamos à caça — ele urra, para em seguida correr escada acima.
Os sentinelas e os agentes de segurança o acompanham, como uma nuvem negra e vermelha fumegando entre as chamas. Eles deixam atrás de si um salão de festas salpicado de sangue, pó e gritos.
No centro de tudo está Belicos Lerolan, atravessado não por uma bala, mas por uma lança prateada. Vinda de um atirador de lanças, como os usados para pescar. Uma faixa vermelha e gasta pende da haste, quase sem balançar com o vento. Um símbolo está estampado nela: o sol despedaçado.
O salão de festas ficou no passado, agora sou engolida pelas paredes escuras de uma passagem de serviço. O chão estremece sob nossos pés e Lucas me empurra contra a parede, me protegendo com o corpo. Um som de trovão reverbera. O teto treme e derruba pedaços de pedra sobre nós. A porta pela qual fugimos é sugada para fora, destruída pelo fogo. Atrás dela, o salão de festas está preto de fumaça. Uma explosão.
— Cal...
Tento me desvencilhar de Lucas, refazer o caminho pelo qual viemos, mas ele me puxa.
— Lucas, precisamos ajudar!
— Acredite em mim, uma bomba não é nada para o príncipe — ele esbraveja enquanto me empurra para a frente.
— Uma bomba?
Isso não fazia parte do plano.
— Isso foi uma bomba? — repito a pergunta.
Lucas se afasta de mim, trêmulo de raiva.
— Você viu aquela faixa vermelha como sangue? É a Guarda Escarlate, e isso — diz, apontando para o salão de festas, ainda dominado por sombras e chamas —, isso é o que realmente são.
— Não faz sentido... — murmuro para mim mesma enquanto tento recordar cada detalhe do plano. Maven nunca falou sobre uma bomba. Nunca. E Kilorn não me deixaria fazer isso, não se soubesse que eu estaria em perigo. Eles não fariam isso comigo.
Lucas guarda a arma e fala com a voz grave mais uma vez:
— Assassinos não fazem sentido.
Uma dúvida entala em minha garganta: quantos ainda estavam lá? Quantas crianças, quantas mortes desnecessárias aconteceram?
Lucas toma meu silêncio por choque, mas está errado. O que sinto agora é raiva.
Todo mundo pode trair todo mundo.


Lucas me guia pelo subterrâneo e atravessamos três portas, cada uma com trinta centímetros de espessura, feitas de metal. Estão trancadas sem fechaduras, mas ele as abre com apenas um gesto. Isso me lembra da primeira vez que o encontrei, quando entortou as barras da minha cela.
Escuto os outros antes de vê-los. Suas vozes ecoam através das paredes de metal. O rei vocifera palavras que me provocam calafrios. Ainda vestido com seu manto, caminha de um lado para o outro, e sua presença preenche o abrigo.
— Quero que os encontrem. Quero todos com uma espada atravessada pelas costelas. E quero que confessem o que sabem, como os ratos covardes que são!
Ele se dirige a uma sentinela, mas a mulher mascarada não esboça qualquer expressão.
— Quero saber o que está acontecendo!
Elara está sentada com uma mão sobre o peito e a outra agarrada a Maven. Meu noivo se aproxima de mim assim que me vê.
— Você está bem? — pergunta baixo durante um abraço rápido.
— Apenas abalada — é o que consigo dizer, tentando comunicar o que posso. Mas, com Elara tão perto, mal posso me dar ao luxo de pensar, quanto mais falar. — Houve uma explosão depois dos tiros. Uma bomba.
Maven franze a testa, confuso. Mas rapidamente oculta a confusão com raiva.
— Malditos.
— Selvagens — bufa o rei Tiberias através dos dentes cerrados. — E meu filho?
Meu olhar se dirige para Maven antes de me dar conta de que o rei não se refere a ele.
Maven não se incomoda, está acostumado a ser esquecido.
— Cal foi atrás dos atiradores. Levou um bando de sentinelas com ele.
A lembrança do príncipe sombrio e furioso como uma chama me assusta.
— Quando o salão explodiu — acrescento —, não sei quantos ainda... ainda estavam lá.
— Algo mais, querida?
Vindo de Elara, o “querida” me choca. Ela parece mais pálida que nunca, respirando rápido. Está com medo.
— Algo mais que você se lembre? — insiste.
— Havia uma bandeira presa a uma lança. A Guarda Escarlate fez isso.
— A Guarda Escarlate — ela diz, erguendo uma das sobrancelhas.
Contenho a vontade de fugir, de correr dela e dos seus sussurros. A qualquer momento ela se infiltrará na minha cabeça para arrancar a verdade.
Mas, em vez disso, desvia o olhar de mim para o rei.
— Viu o que você fez? — ela desafia, mostrando os dentes, que refletem a luz como presas brilhantes.
— Eu? Você chamou a Guarda de pequena e fraca, mentiu para o povo — Tiberias rebate. — Foram suas ações que nos enfraqueceram diante do perigo, não as minhas.
— Se você tivesse cuidado disso quando teve a chance, quando eram pequenos e fracos, isto nunca teria acontecido!
Eles vociferam um contra o outro como cães famintos disputando comida.
— Elara, eles não eram terroristas naquela época. Não podia desperdiçar meus soldados e oficiais em caçadas a um punhado de vermelhos que escrevia panfletos. Não causavam estragos.
Elara aponta para o teto devagar.
— E isso não parece um estrago para você?
O rei fica sem resposta e a rainha sorri, satisfeita por vencer a discussão.
— Um dia, seus homens aprenderão a ficar sempre atentos, e o mundo todo tremerá. A Guarda é uma doença, uma doença que você permitiu se espalhar. É hora de eliminá-la pela raiz.
Ela levanta da cadeira e endireita o corpo.
— São demônios vermelhos e devem ter aliados dentro de nossas próprias paredes.
A essas palavras, faço o máximo para manter os olhos fixos no chão.
— Acho que terei uma palavra com os criados. Soldado Samos, por favor? — conclui.
Lucas arregala os olhos e abre a porta do abrigo. A rainha sai furiosa como um furacão, acompanhada por dois sentinelas. Lucas vai atrás dela para destravar as sucessivas portas de aço, que estalam cada vez mais distantes. Não sei o que a rainha fará aos criados, mas sei que será doloroso e sei o que descobrirá: nada. Walsh e Holland fugiram com Farley, conforme o planejado. Sabiam que seria perigoso demais ficar depois do baile. E tinham razão.
A porta de metal espesso permanece fechada apenas por uns instantes e se abre novamente, com o poder de outro magnetron: Evangeline. Ela parece o diabo com um vestido de gala: as joias destroçadas e os dentes à mostra. O pior são os olhos: selvagens e úmidos, borrados de maquiagem preta. PtolemusEla chora pelo irmão morto. Embora diga a mim mesma que não me importo, preciso segurar o impulso de a confortar com um abraço. Mas a vontade passa logo que seu noivo adentra o abrigo depois dela.
Sua pele está coberta de lixo e fuligem, assim como seu uniforme. Geralmente, ficaria preocupada com a expressão de ódio e dureza nos olhos de Cal, mas algo me faz tremer até os ossos. Há manchas de sangue em seu uniforme preto, e não é prateado. VermelhoO sangue é vermelho.
— Mare — ele me chama, mas sem qualquer ternura na voz —, venha comigo. Agora.
As palavras foram dirigidas a mim, mas todos nos acompanham pelas passagens que conduzem às celas. Meu coração salta no peito, a ponto de parecer pular para fora. Não KilornQualquer um menos ele. Maven mantém a mão firme em meu ombro. No começo penso que se trata de um gesto de conforto, mas então ele me puxa para trás. Quer evitar que eu corra na frente dos outros.
— Você devia tê-lo matado na hora — Evangeline diz a Cal, apontando a mancha de sangue vermelho no uniforme do príncipe. — Eu não deixaria esse demônio vermelho viver.
Esse. Mordo os lábios para manter a boca fechada e não dizer alguma idiotice. Maven aperta a mão em meu ombro como uma garra, posso até sentir seu pulso acelerar. Tudo indica que este será o fim do nosso jogo. Elara voltará para revirar os cérebros destroçados dos meus amigos e descobrir até onde vai o plano.
Os degraus até as celas são os mesmos, mas parecem maiores, descendo até as partes mais profundas do Palácio. O calabouço finalmente surge aos nossos olhos, e nada menos que seis sentinelas montam guarda. Uma onda de frio percorre meu corpo, mas não tremo. Mal sou capaz de me mover.
Quatro figuras aguardam na cela, todas feridas e sujas de sangue. Apesar da pouca luz, reconheço todas. Os olhos de Walsh estão fechados de tão inchados, mas ela parece bem. Tristan, por sua vez, escora-se contra a parede e pressiona a perna encharcada de sangue. Bandagens improvisadas — provavelmente feitas com um pedaço da camisa de Kilorn — envolvem a ferida. Já meu amigo parece ileso, para meu grande alívio. Com um braço, ele mantém Farley de pé. A clavícula da líder está deslocada e um dos seus braços pende de forma estranha. Mas isso não a impede de desdenhar de nós e até mesmo cuspir por entre as barras um misto de sangue e saliva que acerta o pé de Evangeline.
— Arranquem a língua dela por isso — resmunga Evangeline, avançando em direção às barras.
Ela para a milímetros da cela e bate a mão contra o metal. Embora seja capaz de partir a cela e seus detentos em dois só com um pensamento, a vencedora da Prova Real se controla.
Farley sustenta o olhar e mal pisca. Se este é seu fim, certamente partirá de cabeça erguida.
— Um pouco violenta para uma princesa.
Antes de Evangeline perder a calma, Cal a puxa das barras. Devagar, ergue a mão e aponta.
— Você.
Um medo horrível se espalha pelo meu corpo quando percebo que ele aponta para Kilorn.
Um músculo da bochecha do meu amigo repuxa, mas ele mantém os olhos fixos no chão.
Cal se lembra dele. Da noite em que me levou para a casa.
— Mare, explique isto.
Abro a boca, à espera de que uma mentira fantástica saia, mas não digo nada.
O olhar de Cal escurece.
— Ele é seu amigo. Explique isto.
Evangeline arregala os olhos e direciona sua ira contra mim.
— Você o trouxe aqui! — grita. — Você fez isto!
— Não fiz nada — gaguejo sob o peso de todos os olhares. — Quer dizer, eu arrumei um emprego para ele aqui. Ele trabalhava na madeireira, um trabalho duro, mortal... — minha boca derrama mentiras, uma mais rápida que a outra. — Ele... ele era meu amigo lá no vilarejo. Só queria ter certeza de que ficaria bem. Arranjei o emprego de criado, como... — Faço uma pausa e olho para Cal. Nós dois recordamos a noite em que nos conhecemos e o dia seguinte a ela. — Pensei que estivesse ajudando.
Maven dá um passo em direção à cela e observa nossos amigos como se esta fosse a primeira vez que os vê.
— Parecem meros criados — comenta, apontando para seus uniformes vermelhos.
— Eu diria o mesmo, exceto que os encontramos tentando escapar por um cano de drenagem — emenda Cal. — Demoramos para arrancá-los de lá.
— Estão todos aqui? — pergunta o rei Tiberias enquanto espreita através das barras.
Cal nega com a cabeça.
— Havia mais na frente, mas conseguiram chegar até o rio. Não sei quantos.
— Bom, vamos descobrir — diz Evangeline com as sobrancelhas arqueadas. — Chamem a rainha. Enquanto isso...
Ela então olha para o rei, que abre um pequeno sorriso por baixo da barba e concorda. Não preciso perguntar para saber o que têm em mente. Tortura.
Os quatro prisioneiros se mantêm firmes, sem um tremor sequer. O rosto de Maven revela o turbilhão em sua cabeça, enquanto tenta descobrir um jeito de nos proteger, mas não há. É bem mais do que poderíamos esperar. Se eles conseguirem mentir... Mas como podemos exigir isso? Como assistir aos quatro gritando e permanecer impassível?
Kilorn parece ter uma resposta para mim. Mesmo neste lugar horrível, seus olhos verdes conseguem brilhar. Mentiremos por você.
— Cal, faça as honras — diz o rei, levando a mão ao ombro do filho.
A única coisa que posso fazer é observar, rezando para que Cal não atenda ao pedido do pai. O príncipe herdeiro me lança um olhar, como um pedido de desculpas. Em seguida, encara uma sentinela menor que os outros. Seus olhos cinza acendem por trás da máscara.
— Sentinela Gliacon, preciso de um pouco de gelo.
Não faço ideia do que isso significa, mas Evangeline comemora.
— Boa escolha.
— Você não precisa ver isto — sussurra Maven, tentando me tirar daqui.
Não posso abandonar Kilorn. Não agora. Escapo de suas mãos com raiva e mantenho os olhos sobre meu amigo.
— Deixe-a ficar — grasna Evangeline, contente com meu desconforto. — Isto vai ensiná-la a não tratar vermelhos como amigos.
Ela então se volta para a cela, abre as barras com um gesto e estica o dedo.
— Comece por ela. Precisa de uma lição.
A sentinela assente e arranca Farley da cela pelo punho. As barras voltam à posição original e mantêm os demais presos. Walsh e Kilorn acorrem às barras, ambos transparecendo medo.
A sentinela força Farley a se ajoelhar e espera a próxima ordem.
— Alteza?
Cal vai para o lado dela, respirando forte. Hesita antes de falar, mas a voz soa firme.
— Quantos mais existem de vocês?
Farley aperta o maxilar e cerra os dentes. Prefere morrer a falar.
— Comece pelo braço.
A sentinela não faz questão de ser delicada e imobiliza o braço ferido de Farley. A líder bufa de dor, mas não diz nada. Preciso reunir todas as minhas forças para não atacar a sentinela.
— E vocês nos chamam de selvagens — dispara Kilorn com a testa contra as grades.
Devagar, a sentinela dobra a manga encharcada de sangue de Farley e põe as mãos pálidas e cruéis sobre sua pele. Farley grita ao toque, mas não sei o motivo.
— Onde estão os outros? — indaga Cal, ajoelhando para encarar a vítima nos olhos.
Farley fica em silêncio por uns instantes e respira fundo. O príncipe espera pacientemente que ceda.
Em vez disso, Farley salta para a frente e lhe acerta uma cabeçada com toda a força.
— Estamos por toda parte — ela ri, mas grita quando a sentinela retoma a tortura.
Cal se recupera bem, com uma das mãos sobre o nariz, agora quebrado. Outra pessoa revidaria, mas ele não.
Manchas vermelhas surgem no braço de Farley onde a sentinela toca. Elas crescem a cada segundo, pontos vermelhos nítidos e lívidos contra a pele agora azulada. Sentinela Gliacon. Casa Gliacon. Minha mente volta às aulas de protocolo, às lições sobre as Casas. Calafrios.
Arrepiada, compreendo o que se passa e desvio o olhar.
— É o sangue — murmuro, incapaz de continuar a ver. — Está congelando o sangue dela.
Maven apenas confirma com a cabeça. Seus olhos estão sérios e cheios de tristeza. Atrás de nós, a sentinela continua o trabalho, subindo a mão pelo braço de Farley. Pequenos cristais de gelo vermelho atravessam sua pele e cortam cada nervo, provocando uma dor inimaginável para mim. Farley solta o ar entre os dentes cerrados. Ainda assim, não diz nada.
Meu coração bate mais rápido com o passar do tempo, perguntando quando a rainha vai chegar, quando nosso teatro acabará.
Por fim, Cal se põe de pé.
— Basta.
Outro sentinela, um Skonos curandeiro de pele, se inclina diante de Farley. Por pouco a líder não desmaia. Agora, tem o olhar perdido no braço perfurado por lâminas de sangue congelado. O novo sentinela a cura rapidamente com suas mãos bem treinadas.
Farley solta uma gargalhada sombria à medida que o calor retorna ao braço.
— Tudo isso só para poderem repetir, hein?
Cal põe as mãos atrás das costas. Troca um olhar com o pai, que assente.
— De fato — diz Cal, com os olhos novamente voltados para a calafrio.
Gliacon, porém, não tem chance de continuar.
— ONDE ESTÁ ELA? — brada uma voz terrível escada abaixo.
O barulho faz Evangeline correr até o pé das escadas.
— Estou aqui! — ela grita de volta.
Quando Ptolemus Samos desce pelos degraus e abraça a irmã, preciso enterrar minhas unhas na palma da mão para me segurar. Ali está ele: vivo, respirando e terrivelmente irado.
No chão, Farley solta palavrões.
O Samos se detém apenas uns instantes ao lado da irmã e logo avança rumo à cela, com uma fúria aterrorizante nos olhos. Sua armadura está danificada no ombro, pulverizada por uma bala. Mas a pele sob ela está perfeita. Curada. Ele fecha as mãos e as barras tremem, chiando contra o concreto.
— Ptolemus, ainda não... — grita Cal, e o agarra pelo braço.
Ptolemus, porém, afasta o príncipe com um empurrão. Apesar do tamanho e da força, Cal quase cai pra trás.
Evangeline corre até o irmão e puxa sua mão.
— Não, precisamos que eles falem!
Com apenas um movimento do braço, ele se desvencilha. Nem mesmo Evangeline consegue pará-lo.
As barras estalam, guinchando sob seu poder à medida que a cela abre. Nem mesmo os sentinelas são capazes de deter seu avanço com seus movimentos ágeis e treinados. Kilorn e Walsh se agitam e saltam para trás contra as paredes de pedra, mas Ptolemus é um predador, e predadores atacam os fracos. Com sua perna quebrada, incapaz sequer de se mover, Tristan não tem a menor chance.
— Você não vai ameaçar minha irmã de novo — ruge Ptolemus enquanto controla as barras de metal da cela.
Uma delas se crava diretamente no coração de Tristan. O rebelde engasga com o próprio sangue e morre. Ptolemus sorri.
Quando ele se volta para Kilorn, com o desejo de morte no coração, ataco.
As centelhas ganham vida em minha pele. Quando minha mão fecha ao redor do pescoço dele, libero a eletricidade. Ela penetra seu corpo, eletrificando suas veias, e Ptolemus convulsiona sob meu toque. O metal do uniforme vibra e fumega, quase o cozinha vivo. E então ele cai sobre o chão de concreto, com o corpo ainda tremendo do choque.
— Ptolemus!
Evangeline se apressa para o lado do irmão e segura seu rosto. Uma faísca salta em seus dedos e a eletricidade a faz recuar com uma careta. Ela avança contra mim num acesso de raiva.
— Como você ousa...?
— Ele vai ficar bem.
De fato, não lhe dei uma carga capaz de causar danos sérios.
— Como você disse — acrescento —, precisamos que eles falem. E não poderão fazer isso mortos.
Os olhos arregalados dos outros pousam sobre mim revelando uma mistura de emoções. Principalmente medo. Cal, o garoto que beijei, o soldado, o bruto, não consegue me encarar.
Reconheço a expressão em seu rosto: vergonha. Não sei se por ter machucado Farley ou se por não a ter feito falar. Pelo menos Maven tem o bom senso de aparentar tristeza, com olhos fixos no corpo de Tristan, ainda sangrando.
— Mamãe pode cuidar dos prisioneiros mais tarde — ele diz ao rei. — Mas as pessoas lá em cima vão querer ver o rei e saber que ele está seguro. Muitos morreram. Você devia consolá-los, pai. E você também, Cal.
Ele está tentando ganhar tempo. Maven, brilhantemente, tenta nos comprar uma chance. Embora me cause arrepios, levo a mão ao ombro de Cal. Ele já me beijou uma vez. Talvez ainda dê ouvidos ao que eu disser.
— Ele tem razão, Cal. Isto pode esperar.
Ainda no chão, Evangeline mostra os dentes.
— A corte quer respostas, não abraços! Isto precisa ser feito agora! Majestade, arranque a verdade deles...
Mas mesmo Tiberias vê a sabedoria das palavras de Maven.
— Vamos esperar — concorda. — Amanhã saberemos a verdade.
Aperto a mão no braço de Cal e sinto os músculos tensos sob a roupa. Ele relaxa ao meu toque, como se um grande fardo fosse retirado dos ombros.
A essas palavras, os sentinelas jogam Farley de volta à cela destruída. Seus olhos se fixam nos meus, querendo saber o que tenho em mente. Quem dera eu soubesse.
Evangeline carrega Ptolemus para fora aos puxões e depois endireita as barras.
— Você é fraco, meu príncipe — ela sussurra no ouvido de Cal.
Resisto à vontade de dirigir o olhar a Kilorn ao me lembrar de suas palavras: Pare de tentar me proteger.
Não vou parar.


Marchamos todos para a sala do trono. O sangue goteja da manga do meu vestido, deixando um rastro de pontos prateados atrás de mim. Sentinelas e agentes de segurança guardam a imensa porta com as armas apontadas para as saídas de serviço. Sequer se mexem quando passamos, como que congelados em sua posição. Têm ordens para matar caso seja necessário.
Atrás da porta, o grande cômodo reverbera gritos de raiva e tristeza. Quero sentir um quê de vitória, mas a imagem de Kilorn atrás das grades refreia qualquer alegria que eu possa ter. Os olhos sem vida da coronel também me assombram.
Chego perto de Cal. Ele mal nota, caminhando com os olhos ardentes no chão.
— Quantos mortos? — pergunto.
— Dez até agora. Três a bala e oito na explosão. Mais quinze feridos — ele diz, impassível, como se estivesse listando mercadorias, não pessoas. — Mas todos serão curados.
Ele aponta o polegar na direção dos curandeiros que correm por entre os feridos. Vejo duas crianças entre eles. Depois dos feridos, estão os cadáveres, estendidos diante do trono do rei.
Os dois filhos de Belicos Lerolan jazem ao lado do pai, enquanto a mãe chorosa permanece em vigília sobre o corpo.
Preciso levar a mão à boca para conter a surpresa. Nunca desejei isto.
A mão quente de Maven toma a minha e me conduz através do cenário sangrento até nosso lugar ao lado do trono. Cal permanece de pé, tentando em vão limpar o sangue vermelho das mãos.
— Acabou o tempo das lágrimas — troveja Tiberias cerrando os punhos. — Agora é tempo de honrar nossos mortos, curar os feridos e vingar nossos caídos. Sou o rei. Não esqueço. Não perdoo. Fui calmo no passado, permitindo aos nossos irmãos vermelhos uma vida boa, próspera e digna. Mas eles cospem em nós, rejeitam nossa misericórdia e trazem consigo o pior tipo de destino.
Com o rosto fechado, ele derruba a lança prateada e o pano vermelho. A arma bate no chão e ressoa como um sino de funeral. O sol despedaçado se mostra diante de nossos olhos.
— Esses tolos, terroristas, assassinos serão capturados. E morrerão. Juro por minha coroa, por meu trono, por meus filhos: morrerão.
Um rumor ensurdecedor se ergue da multidão à medida que cada prateado se endireita.
Todos — feridos ou não — levantam, unidos. O cheiro metálico de sangue é quase estarrecedor.
— Força! — brada a corte. — Poder! Morte!
Os olhos de Maven, grandes e temerosos, encontram os meus. Sei o que ele está pensando, porque é o mesmo que eu.
O que foi que fizemos?

26 comentários:

  1. Agora sim é GUERRA.
    Calma Mare, você consegue encarar isso.
    ~polly~

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  2. Eu sabia que ia dar merda!
    E não é que eu tava certa!!
    Agora corre porque a Vaca Coroada lê mentes¬¬

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    1. Somos duas!!!
      \(Ò.Ó)/
      Radicalismo dá nisso! Agora chora!

      Ass.: Mutta Chase Herondale

      PS.: Gostei do "Vaca Coroada". (^.^)

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    2. tem coisas que são previsíves, acho que tds sabiamos que ia dar merda.....

      PS.: Gostei do "Vaca Coroada". (^.^)

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  3. Mas são dois bestas mesmo, putz grila. Agr eles têm q arranjar um jeito de fazer o povo fugir ou ferrou de vez pra eles
    E segundo: pq o mais chato fica vivo? Q injustiça. E eu ainda to esperando o irmão dela ressurgir dos mortos, ele parecia fodão

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    1. Exatamente! \(9-9)/

      Ass.: Mutta Chase Herondale

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    2. Não engoli a história do Shade estar morto!
      X Maysa

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    3. Também acho que o Shade ñ morreu...

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  4. Respostas
    1. Também não confio nem um pouco!!! Posso tá redondamente errada, mas de alguma forma Marven sabia que o irmão de Evangeline não seria morto por uma bala de metal... isso pode ser muita influencia de GOT, mas esse relacionamento de Evangeline com o irmão pare o de Cersei e James

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    2. luamara prateada animus11 de julho de 2017 21:12

      muito bom..... muito bom mesmo as suas ideias.....

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  5. Tem algo errado que n parece certo neste história e eu vou descobrir!
    Karina eu te amo eu tava querendo comprar a série mas to sem grana , muito obrigado!!! Bjss

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  6. Vai de novo seus idiotas.
    Meu Deus. Gente burra.
    Estavam esperando o que?
    Agora fica arrependido. Arrrrghhh.

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  7. AH MAIS É CLARO QUE IA DAR MERDA MIGA!!!!!!! OLHA, ACHO BOM VC FAZER MUITAS COISAS BOAS PARA COMPENSAR ISSO AÍ VIU! A MERDA FOI TÃO GRANDE QUE AQUI TA FEDENDO! E ESSE MAVES AÍ?! NÃO CONFIA NELE ABESTADA! ELE É UM TIPO DE PSICOPATA INVEJOSO! IGUAL A MÃE DELE!!!!!!!!!!!!!!!!1 SE TOCA

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    1. Melhor comentário........
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  8. Cara. ... Agora que eu não confio no Maven mesmo! Ele se escondeu com a mãe pq sabia da bomba, que provavelmente foi idéia da rainha!

    Flavia

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  9. Apolo me deu inspiração para escrever uma haicai para você, Mare!

    Você foi traída!
    Corra da Vaca Rainha:
    A casa caiu.

    Agora se inspire nele E DESFAÇA A M**** QUE VOCÊ FEZ!!!!!

    Ass.: Mutta Chase Herondale (^-^)

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  10. Não acredito que a Coronel e o Bélicos morreram e aquele traste ainda tá vivo!
    Sabia que ia dá merda !

    Ass: Apaixonada por livros

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  11. Deu tudo errado!!! Tbm vai confiando em todos! Sua besta. Agora fica aí arrependida...

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  12. Eu fiquei tipo CARALHOOOOOOO (#sorrypelopalavreado) ISSO TA Q NEM AS PECAS INFERNAIS, OU SEJA, TEM Q TER UM CORAÇÃO SAUDÁVEL E FORTE (COISA Q Ñ TENHO) E MANNNOOOU O QUE FOI Q FIZERAM? A PORRA TODA DEU MERDA, O PLANO DEU ERRADO, CAPTURARAM A LÍDER E O KILORN (QUE NAO SEI PQ CARAMBAS EU Ñ QUERO Q NADA ACONTEÇA CM ELE, SEI LÁ, ACHO Q PEGUEI A MANIA DE PROTECAO SOBRE ELE COM A MARE! ) E A COISA TODA DEU MERDAAAAAAA MATARAM ATÉ O POBRE DO TRISTAN, O CARA LÁ IRMAO DA VACA Q QUER SER O MAGNETO (ACHO Q É ASSIM Q SE ESCREVE - X MEN EVOLUTION) NAO MORREU PQ CUIDARAM O FDP E TIPO AAAAAAAAAAAAAAH
    SEM FALAR NESSA RAINHA METIDA A APOCALIPSE Q ENTRA NA MENTE DAS PESSOAS E VAI DESCOBRIR A MERDA TODA! PUTA MERDA COMO EU ODEIO ESSA VAGABA! PODIA SER A PRIMEIRA A MORRER! JESUS ME SEGURA P NAO DAR UMA DE ACOUGUEIRA E DAR UM TAPA NA CARA DESSA VACA! PQPPPPPPP

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  13. VERMELHOS COMO A AURORAAAAAAA (agora fico gritando isso por aí )

    Meu sangue é vermelhoooooo

    Só vem

    -Victória

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  14. Gente a rainha não é burra, eu estou suspeitando dela.
    Eu acho que ela iria primeiro fazer um interrogatório com o Cal (que ela odeia) depois com a Maré...
    Ela tá aprontando uma e eu já quero esganar essa vaca!

    Vamos nos levantar, vermelhos como aurora !

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  15. Para mim a rainha ta envolvida em muita coisa, e o Maven deve ser um dos "capangas dela" alias não e possível que ela não sabe de nada que está acontecendo, cara ela lê mentes!

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  16. Já não confio no Maven aí ele deixa Mare sozinha na multidão e niguem percerbe isso 😬
    E se eu tivesse o poder de ler mentes o tempo todo ia ta lendo a das pessoas
    Não como a rainha fez e começou um discursão com o marido(ainda tô abismada com ela chamando Maré de querida)😈💣
    Se eu fosse a mare tentaria reunir coragem para fingir estar com raiva dá traição do "amigo"e mataria ele para o seu bem.😵🔫
    Talvez o irmão dela esteja vivo será q é ele q comanda a guarda escarlate? 😯
    Ass: Milly*-*
    Todos são ameaças😶😓
    Muitas ideias, argumentos, teorias 😨

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Boa leitura :)