15 de março de 2017

Capítulo vinte e um

Mare

A ÁGUA DA BANHEIRA FORMA um redemoinho marrom e vermelho. Sujeira e sangue.
Minha mãe troca a água duas vezes e meu cabelo continua impregnado. Pelo menos o curandeiro no jato cuidou das minhas feridas aparentes, então posso aproveitar a água quente e ensaboada sem sentir mais dor ainda. Gisa está empoleirada em um banco na beirada da banheira, com sua coluna ereta, na postura rígida que aperfeiçoou ao longo dos anos. Ou ela ficou mais bonita ou esses seis meses nublaram minha lembrança do seu rosto. Nariz arrebitado, lábios grossos e olhos escuros brilhantes. Os olhos da nossa mãe. Meus olhos. Os olhos que todos os Barrow têm, exceto Shade. Ele era o único com olhos que lembravam mel ou ouro. Do pai da minha mãe. Aqueles olhos se foram para sempre.
Afasto as lembranças do meu irmão e olho para a mão de Gisa. A que eu quebrei com meus erros tolos.
A pele agora está macia, os ossos recuperados. Não há nenhuma evidência dos dedos destroçados pela coronha da arma de um agente de segurança.
— Sara — Gisa explica gentilmente, flexionando os dedos.
— Ela fez um bom trabalho. Com o papai também.
— Aquilo levou uma semana inteira. Fazer tudo crescer de novo, da coxa para baixo. E ele ainda está se acostumando. Mas não doeu tanto quanto isto aqui. — Ela dobra os dedos, sorrindo. — Sabia que ela teve que quebrar de novo estes dois? — Os dedos médio e indicador balançam. — Usou um martelo. Doeu pra cacete.
Gisa Barrow, seu linguajar é deplorável. — Jogo um pouco de água nos pés dela, que xinga de novo, retraindo os dedos dos pés.
— Culpe a Guarda Escarlate. Parece que passam o tempo todo xingando e pedindo mais bandeiras. — Isso soa familiar. Como Gisa não é de deixar barato, coloca a mão na banheira e joga água em mim.
Mamãe esbraveja conosco. Ela tenta parecer severa, mas falha miseravelmente.
— Parem com isso, vocês duas.
Uma toalha branca felpuda sacode nas mãos dela, estendida para mim. Por mais que eu queira passar mais uma hora mergulhada na tranquilidade da água quente, quero ainda mais voltar lá para baixo.
A água forma ondas ao meu redor enquanto levanto e saio da banheira, me enrolando na toalha. O sorriso de Gisa hesita um pouco. Minhas cicatrizes são claras como o dia, pedaços perolados de carne branca sobre a pele escura. Mesmo minha mãe vira o rosto, me dando mais um segundo para enrolar a toalha um pouco melhor, escondendo a marca na minha clavícula.
Foco no banheiro em vez de seus rostos envergonhados. Não é tão bom quanto o que eu tinha em Archeon, mas a ausência das Pedras Silenciosas mais que compensa. O oficial que viveu aqui antes era um tanto exagerado. As paredes são pintadas em um tom espalhafatoso de laranja, com molduras brancas combinando com os aparatos de porcelana, incluindo a pia canelada, a banheira profunda e o chuveiro escondido atrás da cortina verde-limão. Meu reflexo me encara do espelho sobre a pia. Pareço um rato afogado, mas bem limpo. Perto da minha mãe, vejo nossa semelhança mais claramente.
Ela tem ossos pequenos como eu e o mesmo tom dourado na pele. Só que a dela está mais cansada, com rugas talhadas pelos anos.
Gisa nos conduz para o corredor, com nossa mãe nos seguindo e secando meu cabelo com outra toalha macia. Elas me mostram um quarto azul-bebê com duas camas confortáveis. É pequeno, mas adequado. Prefiro dormir no chão sujo ao cômodo mais suntuoso do palácio de Maven. Minha mãe me enfia com rapidez em um pijama de algodão, com direito a meias e um xale macio.
— Mãe, vou derreter — reclamo com gentileza, desenrolando o xale do pescoço.
Ela o pega de volta com um sorriso e me beija de novo nas duas bochechas.
— Só quero deixar você confortável.
— Confie em mim, eu estou — digo, apertando seu braço.
No canto, noto o vestido do casamento, agora reduzido a trapos. Gisa segue meu olhar e se envergonha.
— Pensei que poderia salvar uma parte dele — minha irmã admite, envergonhada. — São rubis. Não queria desperdiçar.
Parece que ela tem mais dos meus instintos de ladra do que eu imaginava.
E, aparentemente, minha mãe também.
Ela fala antes mesmo de eu dar um passo em direção à porta do quarto.
— Se acha que vou deixar você ficar acordada até altas horas falando de guerra, está completamente enganada. — Para reforçar sua afirmação, ela cruza os braços e para bem no meu caminho. Minha mãe é baixa como eu, mas é uma trabalhadora. Está longe de ser fraca. Já a vi segurando meus três irmãos e sei por experiência própria que vai me colocar na cama à força se precisar.
— Mãe, tem coisas que eu preciso dizer…
— Seu interrogatório é amanhã às oito. Conte tudo lá.
— Também quero saber o que perdi…
— A Guarda Escarlate dominou Corvium. Eles estão trabalhando em Piedmont. Isso é tudo o que qualquer um lá embaixo sabe — minha mãe dispara como uma metralhadora, me empurrando para a cama.
Olho para Gisa pedindo socorro, mas ela recua com as mãos erguidas.
— Não falei com Kilorn…
— Ele compreende.
— Cal…
— Vai ficar bem com seu pai e seus irmãos. Se ele é capaz de atacar a capital, pode lidar com eles.
Com um sorriso, imagino-o esmagado entre Bree e Tramy.
— Além do mais, ele fez tudo o que podia para trazer você de volta para nós — ela acrescenta com uma piscadela. — Eles não vão criar nenhum problema com ele, pelo menos não esta noite. Agora vá para a cama e feche os olhos, ou eu fecho para você.
As lâmpadas chiam dentro dos bulbos; a fiação do quarto serpenteia pelos fios elétricos. Nada disso se compara à força da voz da minha mãe. Faço como ela manda, entrando embaixo das cobertas da cama mais próxima. Para minha surpresa, ela deita do meu lado, me abraçando apertado.
Pela milésima vez esta noite, beija minha bochecha.
— Você não vai a lugar nenhum.
No meu coração, sei que não é verdade.
A guerra está longe de ser vencida.
Mas, pelo menos esta noite, posso ficar.


Os pássaros em Piedmont fazem uma algazarra horrível. Eles piam e gorjeiam do lado de fora da janela e imagino bandos deles empoleirados nas árvores. É a única explicação para tanto barulho. A parte boa é que nunca ouvi pássaros em Archeon.
Mesmo antes de abrir os olhos, sei que ontem não foi um sonho. Sei onde estou acordando e o que vou enfrentar.
Minha mãe levantou cedo como de costume. Gisa tampouco está aqui, mas não estou sozinha. Coloco a cabeça para fora do quarto e descubro um garoto esguio sentado no topo das escadas, com as pernas esticadas sobre os degraus.
Kilorn fica de pé com um sorriso e abre bem os braços. Existe uma boa chance de eu desmontar com todos os abraços.
— Você demorou — ele disse. Mesmo depois de seis meses de prisão e tormento, ele não me trata como um animal ferido. Voltamos a ser como antes em um piscar de olhos.
Acerto-o nas costelas com o cotovelo.
— Se você tivesse ajudado…
— Invasões militares e ataques táticos não são exatamente minha especialidade.
— Você tem uma especialidade?
— Além de ser um estorvo? — Ele ri, me acompanhando na descida pelas escadas.
Panelas e frigideiras fazem barulho em algum lugar. Sigo o cheiro do bacon fritando. À luz do dia, os sons da casa parecem amigáveis e não combinam com uma base militar. As paredes cor de manteiga e os tapetes de um roxo floral aquecem o corredor central, mas a falta de decoração é um tanto suspeita. Há buracos de pregos no papel de parede. Talvez uma dezena de pinturas tenha sido retirada. Os cômodos por onde passamos — uma sala de visitas e um escritório — também sofrem de escassez de mobília. Ou o oficial que vivia aqui esvaziou a casa ou outra pessoa fez isso por ele.
Pare, digo a mim mesma. Mereço o direito de não pensar em traições e deslealdades por um maldito dia. Você está segura; terminou. Repito as palavras na minha cabeça.
Kilorn estende o braço, me parando na porta da cozinha. Ele se inclina para a frente na minha direção de um jeito que me impede de ignorar seus olhos. Verdes como lembrava. Ele estreita os olhos, preocupado.
— Você está bem?
Normalmente, eu acenaria com a cabeça e sorriria diante da insinuação. Já fiz isso muitas vezes. Afastei as pessoas mais próximas de mim, achando que podia sangrar sozinha. Nunca mais. Aquilo me tornava uma pessoa odiosa, uma pessoa horrível. Mas as palavras que quero pôr para fora não saem. Não para Kilorn. Ele não entenderia.
— Acho que preciso de uma palavra que signifique sim e não ao mesmo tempo — sussurro olhando para os pés.
Ele coloca a mão no meu ombro. Por pouco tempo. Sabe os limites que tracei. Kilorn não os ultrapassaria.
— Estarei aqui quando precisar conversar. — Não se, mas quando. — Não vou sair do seu pé até lá.
Abro um sorriso inseguro.
— Ótimo. — O barulho da gordura fritando estala no ar. — Espero que Bree não tenha comido tudo.
Com certeza meu irmão tentou. Enquanto Tramy ajuda na cozinha, Bree paira sobre os ombros da minha mãe, pegando fatias de bacon direto da gordura quente. Ela bate nele enquanto Tramy se diverte, sorrindo sobre a frigideira com os ovos. Os dois são adultos, mas parecem crianças, exatamente como lembrava. Gisa está sentada à mesa da cozinha, observando de canto do olho. Fazendo seu melhor para permanecer respeitável. Ela tamborila os dedos na mesa de madeira.
Meu pai é mais contido. Está encostado no armário, com a perna nova esticada à frente. Ele me vê antes dos outros e abre um sorriso discreto. Apesar da cena alegre, a tristeza o corrói por dentro.
Sente a falta do nosso pedaço perdido. Aquele que nunca recuperaremos.
Engulo em seco, afastando o fantasma de Shade.
A ausência de Cal também é notória. Não que ele vá ficar longe por muito tempo. Provavelmente está dormindo ou planejando a próxima fase do… do que estiver prestes a acontecer.
— Tem mais gente para comer — resmungo enquanto passo por Bree. Rapidamente, arranco um bacon dos dedos dele. Seis meses não diminuíram meus reflexos ou impulsos. Sorrio para meu irmão enquanto sento ao lado de Gisa, que agora está prendendo o cabelo em um coque perfeito.
Bree faz uma careta quando senta, com um prato cheio de torradas com manteiga. Ele não comia tão bem assim no exército ou em Tuck. Como todos nós, está aproveitando a oportunidade.
— É, Tramy, deixa um pouco pra gente.
— Como se você precisasse — ele retruca, beliscando a bochecha de Bree. Eles terminam dando tapas um no outro. Crianças, penso de novo. E soldados também.
Ambos foram recrutados e sobreviveram mais do que a maioria. Alguns diriam que foi sorte, mas eles são fortes. Mais espertos no campo de batalha do que em casa. O sorriso travesso e o comportamento juvenil encobrem o guerreiro que há dentro deles.
Por enquanto, fico contente de não precisar ver esse outro lado.
Minha mãe me serve primeiro. Ninguém reclama, nem mesmo Bree. Ataco os ovos e o bacon com a xícara de café quente com leite e açúcar. A comida é digna de um nobre prateado, como eu bem sei.
— Mãe, como você conseguiu isso? — pergunto entre as garfadas. Gisa faz uma careta, torcendo o nariz para minha boca cheia de comida enquanto falo.
— É a entrega diária — minha mãe responde, jogando uma mecha de cabelo grisalho por cima do ombro. — Esse setor é só de oficiais da Guarda, de alta patente ou relevância… e seus familiares.
— Por “relevância” você quer dizer… — tento ler as entrelinhas — sanguenovos?
Kilorn responde por ela.
— Se forem oficiais, sim. Mas os recrutas sanguenovos vivem nos quartéis, com o resto dos soldados. Acham que é melhor assim. Quanto menos divisão, menos medo. Nunca teremos um exército adequado se a maior parte das tropas temer a pessoa ao lado.
Contra minha vontade, sinto as sobrancelhas se erguerem em surpresa.
— Eu disse que tinha uma especialidade — ele sussurra, piscando.
Minha mãe irradia alegria, colocando outro prato de comida na frente dele. Ela despenteia seu cabelo com carinho, jogando as mechas castanhas para trás. Kilorn tenta ajeitá-lo de novo.
— Ele tem trabalhado na melhoria das relações entres os sanguenovos e o resto da Guarda Escarlate — ela diz com orgulho.
Kilorn tenta esconder sua expressão de vergonha com a mão.
— Warren, se você não vai comer isso…
Meu pai reage mais rápido que qualquer um de nós, batendo na mão esticada de Tramy com a bengala.
— Tenha modos, garoto — ele rosna. Então agarra um bacon do meu prato. — Muito bom.
— O melhor que já comi — Gisa concorda. Com delicadeza mas faminta, ela ataca os ovos com queijo ralado. — O povo de Montfort entende de comida.
— Piedmont — meu pai corrige. — A comida e os suprimentos são de Piedmont.
Arquivo a informação e estremeço instintivamente. Estou tão acostumada a dissecar as palavras de todos à minha volta que faço sem pensar, mesmo com minha família.
Você está segura; terminou. As palavras ecoam na minha cabeça. O ritmo delas me acalma um pouco.
Meu pai se recusa a sentar.
— E o que você está achando da perna? — pergunto.
Ele coça a cabeça, inquieto.
— Bem, não vou devolver tão cedo — ele diz com um raro sorriso. — Mas demora para acostumar. A curandeira de pele está ajudando quando pode.
— Isso é ótimo.
Nunca me envergonhei do ferimento do meu pai. Significava que ele estava vivo e protegido do recrutamento. Tantos outros pais, o de Kilorn inclusive, morreram por uma guerra sem sentido enquanto o meu sobreviveu. A perna perdida o deixava azedo, descontente, ressentido na cadeira de rodas. Ele franzia a testa mais do que sorria e era um eremita amargo na melhor das hipóteses. Mas estava vivo. Meu pai me disse uma vez que era cruel dar esperanças quando não havia nenhuma. Ele não achava que ia andar de novo, voltar a ser o homem que tinha sido. Agora está de pé como prova do contrário, de que a esperança, não importa quão pequena, não importa quão impossível, pode se tornar realidade.
Na prisão de Maven, fiquei desesperada. Definhei. Contei os dias e desejei um fim, não importava qual. Mas tive esperança. Tola e irracional. Às vezes uma faísca solitária, às vezes uma chama. Também parecia impossível. Exatamente como o caminho que temos pela frente, passando pela guerra e pela revolução. Todos poderemos morrer nos dias que virão. Podemos ser traídos. Ou podemos vencer.
Não faço ideia de como seria isso ou de que exatamente devo ter esperança. Só sei que tenho que mantê-la viva. Esse é o único escudo contra a escuridão que tenho dentro de mim.
Olho em volta da mesa da cozinha. Um tempo atrás lamentei que minha família não me conhecesse, não entendesse o que eu tinha me tornado. Pensei que estava separada deles, sozinha, isolada.
Não podia estar mais errada. Compreendo tudo melhor agora. Sei quem sou.
Sou Mare Barrow. Não Mareena, não a garota elétrica. Mare.
Meus pais se oferecem discretamente para me acompanhar no interrogatório. Gisa também. Recuso. Essa é uma empreitada militar, oficial, pela causa. Será mais fácil lembrar dos detalhes se minha mãe não estiver segurando minha mão. Posso ser forte na frente do coronel e dos seus oficiais, mas não na frente dela. Minha mãe aumenta a chance de eu desmoronar. A fraqueza é aceitável, perdoável, quando se está com a família. Mas não quando vidas e guerras estão em jogo.
No exato momento que o relógio da cozinha marca oito horas, um veículo aberto para na frente da casa. Vou em silêncio. Apenas Kilorn me segue, mas não vai comigo.
Ele sabe que não faz parte disso.
— E o que você vai fazer o dia todo? — pergunto enquanto giro a maçaneta de bronze da porta.
Ele dá de ombros.
— Tinha um cronograma pra seguir em Trial. Treinamento, umas voltas com os sanguenovos, aulas com Ada. Depois que vim pra cá com seus pais, achei que deveria continuar.
— Um cronograma — zombo dele, saindo para o sol. — Você parece uma lady prateada.
— Bem, quando se é uma beldade como eu… — ele suspira.
Já está quente. O sol arde no horizonte ao leste. Tiro a jaqueta fina que minha mãe me forçou a vestir. Árvores frondosas se alinham pela rua, disfarçando a base militar como um bairro de classe alta. A maioria das casas geminadas de tijolos parece vazia, com as janelas escuras e fechadas. No fim dos degraus, meu transporte espera. O motorista atrás do volante abaixa os óculos escuros, me olhando por cima das lentes.
Eu deveria imaginar. Cal me deu todo o tempo que eu precisava com a minha família, mas não ia ficar longe.
— Kilorn — ele cumprimenta, acenando com a mão. Meu amigo retribui o gesto com tranquilidade e um sorriso. Os últimos seis meses devem ter matado a rivalidade dos dois pela raiz.
— Encontro você depois — digo. — Para trocar uma ideia.
Ele assente.
— Com certeza.
Apesar de ser Cal no assento do motorista, me atraindo como um farol, ando lentamente até o veículo. Ao longe, motores de jato ressoam. Cada passo me deixa um centímetro mais perto de reviver os seis meses de cativeiro. Se eu voltasse, ninguém ia me recriminar. Mas apenas prolongaria o inevitável.
Cal observa, seu rosto reluzindo ao sol. Ele estende a mão e me ajuda a sentar no banco da frente como se eu fosse algum tipo de inválida. O motor ronrona, e seu coração elétrico é um conforto e um lembrete. Posso estar assustada, mas não sou fraca.
Com um último aceno para Kilorn, Cal gira a direção e acelera, nos conduzindo pela rua. A brisa despenteia seus cabelos cortados de forma grosseira, realçando as mechas desiguais.
Passo a mão pela nuca dele.
— Você mesmo que fez isso?
Seu rosto fica prateado.
— Tentei. — Ele mantém uma mão no volante e pega a minha com a outra. — Está pronta?
— Vou sobreviver. Suponho que os relatórios tenham coberto as partes mais importantes. Só vou precisar preencher os buracos. — A quantidade de árvores diminui em ambos os lados quando a rua dos oficiais chega a uma avenida larga. À esquerda fica o campo de pouso. Viramos à direita, e o veículo corre suave no pavimento. — E com sorte alguém vai me deixar a par de tudo… isso.
— Com essas pessoas você tem que exigir respostas em vez de esperar por elas.
— Você tem sido exigente, alteza?
Ele ri baixinho.
— Eles com certeza acham isso.
É uma viagem de cinco minutos até nosso destino, e Cal faz o possível para me atualizar. Havia um quartel-general na fronteira com Lakeland, próximo a Trial. Todos os soldados do coronel evacuaram para o norte com a possibilidade de invasão da ilha de Tuck. Passaram meses embaixo da terra, em abrigos congelantes, enquanto Farley e o coronel se comunicavam com o Comando e preparavam o próximo alvo: Corvium. A voz de Cal falha um pouco enquanto descreve o cerco. Ele mesmo liderou o ataque, tomando as muralhas de surpresa e depois destruindo a cidade-fortaleza, tijolo por tijolo. Provavelmente conhecia os soldados contra quem estava lutando. Talvez tenha matado amigos. Não cutuco a ferida aberta. No final, fecharam o cerco, removendo os últimos oficiais prateados e oferecendo a opção de se render ou serem executados.
— A maioria está presa agora, mas alguns voltaram para a família depois de pagarem resgate. Outros preferiram a morte — ele murmura baixinho. Cal olha para mim apenas por um instante, por trás das lentes escuras.
— Sinto muito — murmuro com sinceridade. Não só porque Cal está sofrendo, mas porque aprendi há um bom tempo que há muitas áreas cinzentas no mundo. — Julian estará no interrogatório?
Cal suspira, agradecido pela mudança de assunto.
— Não sei. Ele disse mais cedo que o alto-comando de Montfort tem sido muito flexível com suas investigações. Deram a ele acesso aos arquivos da base e a um laboratório, e todo o tempo que quiser para continuar com seus estudos sobre sanguenovos.
Não consigo pensar em recompensa melhor para Julian Jacos. Tempo e livros.
— Mas talvez eles não estejam muito animados em deixar um cantor próximo do seu líder — Cal acrescenta, pensativo.
— É compreensível — respondo. Apesar das nossas habilidades serem mais destrutivas, Julian é um manipulador, tão perigoso quanto qualquer outro. — Então, há quanto tempo Montfort está nessa?
— Não sei — ele diz, e sua irritação é óbvia. — Mas se mostraram mais depois de Corvium. E com a aliança de Maven e Lakeland… Ele está juntando forças contra a rebelião. Montfort e a Guarda fizeram o mesmo. Em vez de armas e comida, Montfort começou a mandar soldados. Vermelhos, sanguenovos. Eles já tinham um plano pra extrair você de Archeon. Um ataque cirúrgico. Nós partindo de Trial, Montfort de Piedmont. Tenho que admitir que eles sabem se organizar. Só precisavam do momento certo.
— E escolheram um belo momento — ironizo. Tiroteios e derramamento de sangue nublam meus pensamentos. — Tudo isso por mim. Parece estúpido.
Cal aperta minha mão mais forte. Ele foi criado para ser o soldado prateado perfeito. Lembro de seus manuais, de seus livros de táticas militares. Vitória a qualquer preço, diziam. E ele costumava acreditar nisso. Da mesma forma que eu costumava acreditar que nada na terra poderia me fazer voltar para Maven.
— Ou tinham outro alvo em Archeon ou Montfort realmente queria você de volta. — Cal diz conforme o transporte freia.
Paramos em frente a outro prédio de tijolos, sua fachada ornamentada por colunas brancas e um grande terraço. Penso de novo no Forte Patriota e em seus portões decorados com um bronze amedrontador. Os prateados gostam de coisas bonitas, e este lugar não é exceção. Videiras floridas sobem pelas colunas, carregadas de botões roxos de glicínias e madressilvas perfumadas. Soldados uniformizados andam sob as plantas, mantendo-se na sombra. Vejo a Guarda Escarlate com suas roupas sem padrão e cachecóis vermelhos, os soldados de Lakeland em azul e uma multidão de oficiais de Montfort de verde. Meu estômago se revira.
O coronel marcha para nos encontrar. Sozinho, felizmente.
Ele começa antes mesmo de eu descer.
— Você vai se reunir comigo, dois generais de Montfort e um oficial do Comando.
Tanto Cal quanto eu ficamos surpresos, arregalando os olhos.
— Do Comando? — balbucio.
— Sim. — O olho bom do coronel brilha. Ele dá meia-volta, nos obrigando a seguir seu ritmo. — Digamos que as coisas estão em movimento.
Reviro os olhos, já irritada.
— Que tal simplesmente dizer o que isso significa?
— Provavelmente ele não sabe — replica uma voz familiar.
Farley está escorada em uma das colunas, na sombra, com os braços cruzados acima do peito. Fico pasma, com o queixo caído. Ela está grávida, com a barriga absurdamente grande. Usa um uniforme adaptado, uma veste simples sobre calças largas. Não ficaria surpresa se desse à luz nos próximos trinta segundos.
— Ah — é tudo o que consigo dizer.
Ela parece quase se divertir.
— Faça as contas, Barrow.
Nove meses. Shade. A reação dela no jato cargueiro quando eu contei para ela o que Jon tinha dito. A resposta para a sua pergunta é “sim”.
Eu não sabia o que significava, mas Farley sabia. Ela suspeitava. E descobriu que estava grávida do meu irmão menos de uma hora depois de Shade morrer. Cada revelação é um chute no meu estômago. Partes iguais de alegria e tristeza. Shade vai ter um filho, mas nunca poderá conhecê-lo.
— Não acredito que ninguém pensou em contar para você — Farley continua, lançando um olhar para Cal, que vira o rosto, desconcertado. — Com certeza tiveram tempo.
Em choque, tudo o que eu posso fazer é concordar. Não só Cal, mas minha mãe e o resto da família.
— Todos sabiam?
— Bom, não vale a pena discutir isso agora — Farley prossegue, se afastando da coluna. Mesmo em Palafitas, a maioria das mulheres fica de cama nessa fase da gravidez, mas não ela. Farley mantém uma arma na cintura, com o coldre aberto em alerta. Uma Farley grávida ainda é uma Farley perigosa. Provavelmente mais perigosa. — Imagino que você queira acabar com isso o mais rápido possível.
Quando ela vira as costas, abrindo caminho, soco Cal nas costelas. Duas vezes, para garantir.
Ele range os dentes, respirando entre os golpes.
— Desculpe — balbucia.
O interior do que costumava ser o prédio de uma base de comando parece mais uma mansão. Escadas em espiral dos dois lados do saguão de entrada levam à galeria superior, repleta de janelas. Frisos de gesso perpassam o teto, pintado para parecer com as glicínias do lado de fora. O assoalho é de tacos de madeira, alternando placas de mogno, cerejeira e carvalho em um desenho complexo. Mas, como nas casas geminadas, qualquer coisa que não estivesse fixada desapareceu. Há muitos espaços vazios, enquanto alcovas reservadas para esculturas e bustos agora abrigam guardas.
De Montfort.
Olhando de perto, seus uniformes são melhores do que qualquer um usado pela Guarda Escarlate ou pelos soldados de Lakeland do coronel. São mais parecidos com os de oficiais prateados. Produzidos em massa, robustos, com medalhas, insígnias, e o triângulo branco gravado nos braços.
Cal observa tão atentamente quanto eu. Ele me cutuca, acenando para o topo das escadas. Na galeria, nada menos que seis oficiais de Montfort nos observam. Eles têm cabelo grisalho, marcas de guerra e carregam medalhas suficientes para afundar um navio. São generais.
— Há câmeras também — sussurro para Cal. Sinto a eletricidade de cada uma enquanto passo pelo saguão de entrada.
Apesar das paredes vazias e da decoração esparsa, as passagens estreitas fazem minha pele arrepiar. Continuo dizendo a mim mesma que a pessoa ao meu lado não é uma Arven. Aqui não é Whitefire. Minhas habilidades são a prova disso. Ninguém está me mantendo prisioneira. Queria poder baixar a guarda, mas é parte da minha natureza agora.
Salas de reunião me fazem lembrar da câmara do conselho de Maven. Tem uma grande mesa lustrosa com cadeiras de estofamento fino, e é iluminada por um conjunto de janelas com vista para outro jardim. Aqui as paredes também estão vazias, exceto por um brasão pintado. Amarelo com listras brancas e uma estrela roxa no centro. Piedmont.
Somos os primeiros a chegar. Espero o coronel sentar na cabeceira da mesa, mas ele não faz isso, optando pela cadeira à direita. O resto de nós se enfileira ao lado dele, encarando o lado vazio que deixamos para os oficiais de Montfort e o Comando.
O coronel contempla a cena, perplexo. Observa enquanto Farley se senta, com o olho bom frio e firme como aço.
— Capitã, você não tem permissão para estar aqui.
Cal e eu trocamos olhares com as sobrancelhas erguidas. Farley e o coronel se confrontam com frequência. Pelo menos isso não mudou.
— Ah, você não foi informado? — ela replica, puxando um pedaço dobrado do bolso. — É tão chato quando isso acontece. — Com um gesto rápido, ela desliza o papel na direção do pai.
Ele o desdobra com avidez, passando o olho com frieza pela página e suas letras datilografadas. A mensagem não é longa, mas ele a encara por um tempo, sem acreditar nas palavras. Finalmente, alisa o papel à mesa.
— Isso não pode estar certo.
— O Comando precisa de um representante na mesa. — Farley sorri. Ela abre bem as mãos. — Aqui estou.
— Então o Comando cometeu um erro.
— Agora eu sou do Comando, coronel. Não há erro algum.
O Comando rege a Guarda Escarlate, é o centro de uma engrenagem bem sigilosa. Ouvi apenas menções à sua existência, mas não o suficiente para saber como controlam uma operação tão vasta e complicada. Se aceitaram Farley, significa que a Guarda está saindo de vez das sombras, ou apenas que a queriam?
— Diana, você não pode…
Ela se ouriça, com o rosto vermelho.
— Porque estou grávida? Eu lhe garanto que posso cuidar de duas coisas ao mesmo tempo. — Se não fosse por sua semelhança indiscutível, tanto em aparência quanto em atitude, seria fácil esquecer que Farley é filha do coronel. — Você quer se prolongar mais nessa questão, Willis?
Ele fecha o punho sobre a mensagem, com os nós dos dedos brancos, mas apenas balança a cabeça.
— Ótimo. E sou general agora. Aja de acordo.
Uma resposta trava na garganta do coronel, deixando-o com uma expressão angustiada. Com um sorriso de satisfação, Farley pega a mensagem de volta e a guarda.
Ela percebe o olhar de Cal, tão confuso quanto o meu.
— Você não é mais o único oficial de alta patente no recinto, Calore.
— Parece que não. Parabéns — ele acrescenta, oferecendo um sorriso tímido.
Isso a desarma. Depois da franca hostilidade do pai, Farley não esperava o apoio de ninguém, muito menos do rancoroso príncipe prateado.
As generais de Montfort entram por outra porta, magníficas em seus uniformes verde-escuros. Vi uma delas na galeria. Tem o cabelo branco cortado reto acima dos ombros, olhos castanhos aguados e longos cílios tremeluzentes. A outra é uma mulher de cabelo escuro e pele morena, que parece ter por volta de quarenta anos, com o físico de um touro. Ela acena com a cabeça para mim, como se cumprimentasse uma amiga.
— Conheço você — digo, tentando lembrar onde vi seu rosto. — De onde?
Ela não responde, virando a cabeça sobre o ombro para esperar mais uma pessoa, um homem de cabelo grisalho e roupas simples. Mas praticamente não presto atenção nele, distraída por seu acompanhante. Mesmo sem as cores da sua Casa, vestido de cinza em vez do dourado desbotado de costume, Julian não consegue passar despercebido. Sinto uma explosão de afeto ao ver meu antigo professor. Ele inclina a cabeça, oferecendo um sorriso discreto para me cumprimentar. Parece melhor do que nunca, melhor até do que quando o conheci no Palacete do Sol. Na época ele estava esgotado, exaurido por uma corte de inimigos, assombrado por uma irmã falecida, por uma Sara Skonos em frangalhos e por suas próprias dúvidas. Apesar do seu cabelo agora estar mais cinza do que marrom e de suas rugas terem se aprofundado, ele parece vibrante, vivo, aliviado. Inteiro. A Guarda Escarlate lhe deu um propósito. Sara também, aposto.
Sua presença acalma Cal mais até do que a mim. Ele relaxa um pouco ao meu lado, fazendo um pequeno aceno para o tio. Nós dois percebemos o que isso quer dizer, que tipo de mensagem Montfort está tentando mandar. Eles não odeiam os prateados… e não os temem.
O outro homem fecha a porta por onde entrou enquanto Julian senta do nosso lado da mesa. Mesmo com mais de um metro e oitenta de altura, o homem parece pequeno sem um uniforme. Veste roupas civis: uma camisa de abotoar, calça e sapato. Não carrega nenhuma arma à vista. Ele não tem sangue prateado, isso é certo, a julgar pelo tom rosado sob sua pele arenosa. Se é sanguenovo ou vermelho, não sei. Tudo nele é definitivamente neutro, agradavelmente mediano e modesto. Parece uma página em branco, e isso pode ser natural ou proposital. Não há nada mais que indique quem ou o que ele é.
Mas Farley sabe. Ela começa a levantar, mas o homem acena para que permaneça sentada.
— Não há necessidade disso, general — ele diz. De certa forma, ele me lembra Julian. Eles têm os mesmos olhos selvagens, a única coisa notável nele. Seu olhar percorre o recinto, observando e absorvendo tudo. — É um prazer finalmente conhecer todos vocês — ele acrescenta, acenando para nós um por vez. — Coronel, srta. Barrow, alteza.
Sob a mesa, os dedos de Cal se contorcem contra a perna. Ninguém o chama mais assim. Pelo menos não quem realmente o considera merecedor do título.
— E quem é você exatamente? — o coronel pergunta.
— É claro — o homem responde. — Desculpem por não poder vir antes. Meu nome é Dane Davidson, senhor. Sou primeiro-ministro da República Livre de Montfort.
Os dedos de Cal se contorcem de novo.
— Obrigado a todos por virem. Queria esta reunião há algum tempo — Davidson prossegue — e acredito que juntos poderemos realizar feitos magníficos.
Esse homem é o líder do país. Foi ele quem me chamou e que quer que me junte a ele. Será que fez tudo isso para que as coisas acontecessem do seu jeito? Assim como o rosto genérico, seu nome traz uma vaga lembrança.
— Esta é a general Torkins. — Davidson gesticula. — E esta é a general Salida.
Salida. Não reconheço o nome, mas já a vi antes.
A general robusta percebe meu incômodo.
— Fiz alguns trabalhos de reconhecimento, srta. Barrow. Eu me apresentei ao rei Maven quando ele estava entrevistando rubros… quer dizer, sanguenovos. Você deve lembrar. — Para demonstrar, ela passa a mão na mesa, atravessando-a. Como se a mesa fosse feita de ar, ou como se ela própria fosse.
Com um estalo, a memória vem. Ela demonstrou sua habilidade e foi aceita entre os “protegidos” de Maven, com vários outros sanguenovos. Uma delas, amedrontada, expôs Nanny na frente de toda a corte.
Olho para ela.
— Você estava lá no dia que Nanny morreu. A sanguenova que podia mudar de rosto.
Ela parece se sentir culpada e abaixa a cabeça.
— Se eu soubesse, teria feito algo, com certeza. Mas Montfort e a Guarda Escarlate não se comunicavam abertamente na época. Não sabíamos de todas as suas operações e vocês não sabiam das nossas.
— Isso mudou. — Davidson permanece de pé, com os punhos apoiados na mesa. — A Guarda Escarlate precisava operar em segredo, sim, mas receio que isso causará mais males do que bem daqui em diante. São muitas peças em movimento para uma não atrapalhar a outra.
Farley se mexe na cadeira. Ou quer discordar ou o assento é desconfortável. Ela segura a língua, deixando Davidson prosseguir.
— Então, em nome da transparência, sinto que é melhor que a srta. Barrow detalhe seu tempo como prisioneira, o máximo que puder, para todos os envolvidos. Depois, responderei a toda e qualquer questão que vocês possam ter sobre mim, meu país e a estrada à nossa frente.
Nas histórias de Julian, havia registros de governantes que eram eleitos, e não herdeiros. Eles conquistavam a coroa com uma variedade de atributos: força, inteligência, algumas promessas vazias ou intimidação. Davidson governa a autointitulada República Livre, e seu povo o escolheu para liderá-lo. Baseado em qual atributo ainda não sei. Ele tem um jeito firme de falar, uma convicção natural. E é óbvio que é muito esperto. Sem falar que é o tipo de homem que fica mais atraente com o passar dos anos. Posso ver por que as pessoas o escolheram para governar.
— Quando estiver pronta, srta. Barrow.
Para minha surpresa, a primeira mão a segurar a minha não é de Cal, mas de Farley. Ela me dá um aperto reconfortante.
Começo do princípio. Do único momento em que consigo pensar.
Minha voz falha quando detalho como fui forçada a me lembrar de Shade. Farley abaixa os olhos. Sua dor é tão profunda quanto a minha. Continuo firme, passando pela obsessão crescente de Maven, o rei menino que transformou mentiras em armas, usando meu rosto e as palavras dele para virar todos sanguenovos possíveis contra a Guarda Escarlate. Tudo isso enquanto suas fraquezas começavam a ficar mais aparentes.
— Ele diz que a rainha deixou furos — conto. — Ela mexeu com a cabeça dele, tirando e colocando peças, embaralhando tudo. Maven sabe que tem algo errado com ele, mas acredita que está seguindo um caminho do qual não pode desviar.
Uma onda de calor se agita. Ao meu lado, Cal mantém o rosto impassível, os olhos focados quase abrindo buracos na mesa. Prossigo com cuidado.
A mãe dele tirou o amor de Maven por você, Cal. Ele o amava. Maven sabe que amava. Isso simplesmente não está mais lá, e nunca estará. Mas essas palavras não são para Davidson, para o coronel ou mesmo para Farley ouvir.
O povo de Montfort parece mais interessado no relato sobre a visita de Piedmont. Eles se animam com a menção a Daraeus e Alexandret, e eu narro passo a passo, dos questionamentos e dos modos deles até o tipo de roupa que vestiam. Quando falo em Michael e Charlotta, a princesa e o príncipe perdidos, Davidson morde o lábio.
Conforme falo, despejando mais e mais sobre meu martírio, uma dormência recai sobre mim. Eu me distancio das palavras. Minha voz é automática. A rebelião das Casas. A fuga de Jon. O atentado contra Maven. A visão do sangue prateado esguichando do seu pescoço. Outro interrogatório, meu e da Haven. Aquela foi a primeira vez que vi o rei realmente fora de si, quando a irmã de Elane jurou lealdade a outro rei. A Cal. Isso resultou no exílio de muitos membros da corte, possíveis aliados.
— Tentei separar o rei da Casa Samos. Sabia que eles eram os aliados mais fortes ainda ao seu lado, então usei minha influência sobre Maven. Disse que se casasse com Evangeline ela me mataria. — As peças se encaixam enquanto falo. — Acho que isso pode ter convencido Maven a procurar uma noiva diferente em Lakeland…
Julian me corta.
— Volo Samos já estava procurando uma desculpa para se distanciar do rei. O fim do noivado foi apenas a última gota. E presumo que as negociações com Lakeland já estivessem em andamento muito antes do que você pensa. — Ele dá um sorriso discreto. Mesmo se estiver mentindo, faz eu me sentir um pouco melhor.
Acelero pelas memórias até a turnê de coroação, o desfile para ocultar suas negociações com Lakeland. A revogação das Medidas, o fim da guerra, o noivado com Iris. Movimentos cuidadosos para conquistar a benevolência de seu povo, para colher os louros de terminar uma guerra sem interromper a destruição.
— Os nobres prateados voltaram para a corte antes do casamento. Maven me deixava sozinha a maior parte do tempo. Então chegou o dia. A aliança com Lakeland estava selada. A tempestade, a tempestade de vocês, veio a seguir. Maven e Iris escaparam pelo trem, mas fomos separados.
Isso aconteceu ontem. Ainda assim, parece um sonho. A adrenalina nubla a batalha, reduzindo minhas memórias a cores, dor e medo.
— Meus guardas me arrastaram de volta para o palácio.
Paro, hesito. Até agora não consigo acreditar no que Evangeline fez.
— Mare? — Cal me cutuca. Sua voz e seu toque são gentis. Ele está tão curioso quanto os outros.
É mais fácil olhar para ele. É o único que vai entender como minha fuga foi estranha.
— Evangeline Samos nos encontrou. Ela matou os guardas da Casa Arven e… me libertou. Me soltou. Ainda não sei por quê.
Um silêncio paira sobre a mesa. Minha maior rival, a garota que ameaçou me matar, a pessoa com aço gelado no lugar do coração, é a razão de eu estar aqui. Julian não tenta esconder a surpresa. Suas sobrancelhas finas quase desaparecem sob o cabelo.
Mas Cal não acusa o golpe. Ele respira fundo, seu peito se enchendo. Seria… orgulho? Não tenho energia para adivinhar. Ou para detalhar a forma como Samson Merandus morreu, colocando Cal e eu um contra o outro até que ambos o queimássemos vivo.
— Vocês sabem o resto — encerro exausta. Sinto como se estivesse falando há décadas.
O primeiro-ministro se mantém de pé. Eu espero mais perguntas. Em vez disso, ele abre um armário e me serve um copo de água. Não toco nele. Estou em um lugar diferente com pessoas estranhas. Resta pouca confiança dentro de mim e não vou desperdiçá-la com alguém que acabei de conhecer.
— Nossa vez? — Cal pergunta. Ele se curva para a frente, ansioso para começar seu próprio interrogatório.
Davidson inclina a cabeça, os lábios apertados formando uma linha neutra.
— É claro. Presumo que vocês estejam se perguntando o que estamos fazendo aqui em Piedmont, ainda por cima numa base da frota real. — Como ninguém o interrompe, Davidson segue em frente. — Como vocês sabem, a Guarda Escarlate começou em Lakeland e se infiltrou em Norta no ano passado. O coronel e a general Farley foram indispensáveis para ambas as realizações e eu agradeço por seu trabalho duro. — Ele acena com a cabeça para um de cada vez. — Sob ordem do seu Comando, outros agentes fizeram uma campanha similar aqui em Piedmont. Infiltração, controle e dominação. Aqui, na verdade, foi onde os agentes de Montfort encontraram pela primeira vez os agentes da Guarda, que até ano passado acreditávamos ser uma invenção popular. Mas era bem real e, com certeza, compartilhávamos os mesmos objetivos. Como seus compatriotas, queremos derrotar o regime opressor dos prateados e expandir nossa república democrática.
— Parece que vocês já fizeram isso. — Farley estende as mãos indicando a sala.
Cal franze a testa.
— Como?
— Concentramos nossos esforços em Piedmont devido à estrutura precária. Príncipes e princesas governam seus territórios com uma paz instável sob um alto-príncipe eleito por seus pares. Alguns controlam grandes territórios, outros, uma cidade ou apenas alguns hectares de fazenda. O poder é fluido, está sempre mudando de mão. Atualmente, o príncipe Bracken de Lowcountry é o alto-príncipe, o prateado mais forte de Piedmont, com o maior território e os maiores recursos. — Davidson passa os dedos no brasão na parede, seguindo o traçado da estrela púrpura. — Essa é a maior das três fortalezas militares que ele possui. E foi cedida para nosso uso.
Cal toma fôlego.
— Vocês estão trabalhando com Bracken?
— Ele está trabalhando para nós — Davidson responde com orgulho.
Minha cabeça gira. Um nobre prateado, ajudando um país que está tentando tirar tudo dele? Por um momento, parece ridículo. Então me lembro de quem está sentado ao meu lado.
— Os príncipes visitaram Maven em nome de Bracken. Eles me questionaram em nome dele. — Estreito os olhos na direção do primeiro-ministro. — Você mandou fazerem isso?
A general Torkins se mexe na cadeira e limpa a garganta.
— Daraeus e Alexandret juraram aliança a Bracken. Não tínhamos conhecimento do contato deles com o rei Maven até um deles morrer em meio à tentativa de assassinato.
— Graças a você, sabemos o porquê — Salida acrescenta.
— E o sobrevivente? Daraeus? Ele está trabalhando contra vocês…
Davidson pisca lentamente, com os olhos impassíveis e indecifráveis.
— Ele estava trabalhando contra nós.
— Ah — murmuro, pensando em todas as maneiras como o príncipe de Piedmont pode ter sido morto.
— E os outros? — o coronel pressiona. — Michael e Charlotta. O príncipe e a princesa desaparecidos.
— São os filhos de Bracken — Julian diz, com um aperto na voz.
Um desgosto me invade.
— Vocês pegaram os filhos dele? Para fazer com que cooperasse?
— Um garoto e uma garota em troca do controle de Piedmont? De todos esses recursos? — Torkins zomba, o cabelo branco ondulando conforme balança a cabeça. — É uma boa troca. Pense nas vidas que perderíamos lutando para conquistar cada quilômetro. Em vez disso, Montfort e a Guarda Escarlate fizeram um progresso real.
Meu coração se aperta ao pensar nas crianças. Prateados ou não, foram presos para que seu pai obedecesse. Davidson lê claramente meu semblante.
— Eles estão sendo bem cuidados. Têm tudo de que precisam.
No alto, as luzes piscam como um farfalhar de asas de mariposas.
— Uma cela é uma cela, não importa como você a decore — retruco com desprezo.
Ele não pisca.
— E uma guerra é uma guerra, Mare Barrow. Não importa quão boas sejam suas intenções.
Balanço a cabeça.
— Bem, é uma pena. Economizar todos aqueles soldados, para então desperdiçá-los no resgate de uma pessoa. Também foi uma boa troca? A vida deles pela minha?
— General Salida, quais são os números finais? — o primeiro-ministro pergunta.
Ela recita de cabeça.
— Dos cento e dois rubros recrutados para o Exército de Norta nos últimos meses, sessenta estavam presentes como guardas especiais no casamento. Todos foram resgatados e interrogados na noite passada.
— Em grande parte graças aos esforços da general Salida, que estava junto com eles. — Davidson pousa a mão no ombro musculoso dela. — Incluindo você, salvamos sessenta e um rubros do rei. Cada um receberá comida, abrigo e a opção de se realocar ou se juntar à luta. Além disso, fomos capazes de extrair uma grande soma do Tesouro de Norta. Guerras não são baratas. O pagamento de resgate de prisioneiros fracos ou sem valor nos leva só até certo ponto. — Ele para. — Isso responde sua pergunta?
O alívio se mistura com o temor constante, de que acho que nunca serei capaz de me livrar. O ataque em Archeon não foi apenas por minha causa. Não fui libertada de um ditador só para cair nas mãos de outro. Nenhum de nós sabe o que Davidson é capaz de fazer, mas ele não é Maven. Seu sangue é vermelho.
— Infelizmente tenho mais uma pergunta para você, srta. Barrow — Davidson prossegue. — Acha que o rei de Norta está apaixonado por você?
Em Whitefire, quebrei tantos copos de água que perdi a conta. Sinto a necessidade de fazer isso de novo.
— Não sei. — É mentira. Uma mentira fácil.
Davidson não é dissuadido com facilidade. Seus olhos selvagens piscam, intrigado. Com o reflexo da luz, eles parecem dourados, depois castanhos e de novo dourados.
Mudando como o sol em um campo de trigo balançando ao vento.
— Chute.
Uma fúria quente se acende dentro de mim, como uma chama.
— O que Maven considera amor não tem nada a ver com amor de verdade. — Puxo a gola da camisa, revelando a cicatriz. O M é claro como o dia. Muitos olhos observam, absorvendo as beiradas inchadas de pele queimada e cicatrizada. O olhar de Davidson segue as linhas, e sinto o toque de Maven no seu semblante.
— Agora basta — respiro, forçando a camisa de volta para o lugar.
O primeiro-ministro assente.
— Muito bem. Peço que você…
— Não, quero dizer que já aguentei isso o suficiente. Preciso de… tempo.
Soltando uma respiração vacilante, me afasto da mesa. Minha cadeira range contra o piso, ecoando no silêncio repentino. Ninguém me para. Eles apenas observam, os olhos cheios de pena. Ao menos dessa vez estou feliz por isso. A dó deles me deixa partir.
Outra cadeira segue a minha. Não preciso olhar para trás para saber que é a de Cal. Assim como no jato, começo a sentir o mundo se fechar e me sufocar ao mesmo tempo que expande e me esmaga. Os corredores, como em Whitefire, se alongam em uma linha infinita. Luzes pulsam sobre minha cabeça. Me apego à sensação, torcendo para ela me manter de pé. Você está segura; terminou. Meus pensamentos rodopiam descontrolados e meus pés se movem por vontade própria. Desço as escadas, atravesso outra porta, saio num jardim, onde sou sufocada pela fragrância das flores. O céu aberto é um tormento. Quero que chova. Quero ser lavada.
As mãos de Cal encontram minha nuca. As cicatrizes doem sob o toque. Seu calor irradia pelos meus músculos, tentando aliviar a dor. Esfrego os olhos. Ajuda um pouco.
Não posso ver nada na escuridão, nem mesmo Maven, seu palácio ou aquele quarto horrível.
Você está segura; terminou.
Seria mais fácil ficar na escuridão, ser afogada. Devagar, abaixo as mãos e me forço a olhar para a luz do sol. Isso exige mais forças do que eu pensava ser possível. Me recuso a permitir que Maven me mantenha prisioneira, nem por mais um segundo do que já o fez. Me recuso a viver assim.
— Posso levar você de volta para casa? — Cal pergunta com sua voz grave. Seus dedões fazem círculos firmes no espaço entre meu pescoço e os ombros. — Podemos ir a pé, assim você tem mais tempo.
— Não vou perder mais nem um minuto do meu tempo. — Furiosa, viro e ergo o queixo, me forçando a encarar Cal. Ele não se move, paciente e despretensioso. Apenas reage, se ajustando às minhas emoções, me deixando ditar o ritmo. Depois de tanto tempo à mercê de outros, me sinto bem em saber que alguém permitirá que eu faça minhas próprias escolhas. — Não quero voltar ainda.
— Tudo bem.
— Não quero ficar aqui.
— Nem eu.
— Não quero falar sobre Maven, política ou guerra.
Minha voz ecoa pelas folhas. Soo como uma criança, mas Cal apenas assente. Pela primeira vez, ele parece uma criança também, com seu cabelo mal cortado e suas roupas simples. Sem uniforme, sem adereços militares. Apenas uma camisa fina, calça, bota e os braceletes. Em outra vida, ele pareceria normal. Eu o encaro, esperando que sua feição se transforme na de Maven. Isso não acontece. Percebo que ele também mudou. Parece mais preocupado do que eu imaginava possível. Os últimos seis meses acabaram com ele também.
— Você está bem? — pergunto.
Seus ombros abaixam, uma leve descontração na rigidez de aço. Ele pisca. Não costuma ser pego com a guarda baixa. Me pergunto se alguém se importou em fazer essa pergunta desde o dia em que fui levada.
Depois de uma longa pausa, Cal solta o ar.
— Vou ficar. Espero.
— Eu também.
Verdes cuidaram desse jardim no passado. Dá pra ver os resquícios de um desenho intrincado formado pelos canteiros de flores agora selvagens. A natureza assumiu o controle, e cores e botões diferentes se despejam uns sobre os outros. Sangrando, decaindo, morrendo, florescendo como querem.
— Me lembrem de incomodar vocês dois para pegar uma amostra de sangue num momento mais oportuno.
Dou risada do pedido nada gracioso de Julian. Ele está parado na beirada do jardim. Não que eu me importe com a intromissão. Sorrio e cruzo o espaço rapidamente para abraçá-lo. Ele retribui com alegria.
— Isso poderia soar estranho vindo de qualquer outra pessoa — digo a ele enquanto me afasto. Ao meu lado, Cal ri, concordando. — Mas sinta-se à vontade, Julian. Eu lhe devo uma.
Ele inclina a cabeça, confuso.
— Hein?
— Achei alguns dos seus livros em Whitefire. — Não minto, mas sou cuidadosa com as palavras. Não há por que machucar Cal mais ainda. Ele não precisa saber que Maven me deu os livros. Não lhe darei mais esperanças falsas pelo irmão. — Eles me ajudaram a passar o tempo.
A menção do meu aprisionamento deixa Cal sério, mas Julian não nos deixa prolongar a dor.
— Então você entende o que estou tentando fazer — ele diz rápido. Seu sorriso não afeta os seus olhos, que se mantêm sombrios. — Não entende, Mare?
— Não fomos escolhidos, mas amaldiçoados — murmuro, lembrando das palavras que ele rabiscou em um livro esquecido. — Você vai descobrir de onde viemos e por quê.
Julian cruza os braços.
— Com certeza vou tentar.

21 comentários:

  1. Aaaaaaaaa mudei de ideia.... amo o Cal.taaaao fofenhooo ❤❤❤..nossa cara... shippo...pqp to mt indecisa aaaaaa gostei da Íris.. shippo ela e Maven tbm..

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  2. Ok! por mais que eu shippe ela com o Maven e ame o Maven e ainda tenha esperanças... não da pra negar que o Cal é um amorzinho e que agora que a Mare parou de ser troxa e se esconder as coisas vão fluir melhor (espero) <3

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  3. Ah, sei lá, não to to entendendo mais nada! o.o

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  4. Capitulo bom ainda mais quando se tem o Julian

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  5. Não to entendendo tmb amaldiçoados???

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  6. minha mãe dispara como uma metralhadora, me empurrando para a cama.
    Olho para Gisa pedindo socorro, mas ela recua com as mãos erguidas.
    — Não falei com Kilorn…
    — Ele compreende.
    — Cal…
    — Vai ficar bem com seu pai e seus irmãos. Se ele é capaz de atacar a capital, pode lidar com eles.
    Com um sorriso, imagino-o esmagado entre Bree e Tramy.
    — Além do mais, ele fez tudo o que podia para trazer você de volta para nós — ela acrescenta com uma piscadela. — Eles não vão criar nenhum problema com ele, pelo menos não esta noite. Agora vá para a cama e feche os olhos, ou eu fecho para você.
    kkkkkk adoro a mãe dela <3

    — Tem mais gente para comer — resmungo enquanto passo por Bree. Rapidamente, arranco um bacon dos dedos dele. Seis meses não diminuíram meus reflexos ou impulsos. Sorrio para meu irmão enquanto sento ao lado de Gisa, que agora está prendendo o cabelo em um coque perfeito.
    Bree faz uma careta quando senta, com um prato cheio de torradas com manteiga. Ele não comia tão bem assim no exército ou em Tuck. Como todos nós, está aproveitando a oportunidade.
    — É, Tramy, deixa um pouco pra gente.
    — Como se você precisasse — ele retruca, beliscando a bochecha de Bree. Eles terminam dando tapas um no outro. Crianças, penso de novo. E soldados também.
    ADORO MOMENTOS FAMÍLIA ASSIM :D <3<3
    SÓ NÃO COLOCO O RESTO PORQUE VAI TER MUITO TEXTO...KKKK
    ~POLLY~

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  7. Não shippo ninguém, só todos comigo mesma, até a Evangeline e a Elane.

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  8. Amando essa nova Mare,tomara que ela não volte a ser a egoísta e arrogante de sempre.
    Não consigo shipar ela com ninguém 😕
    Gosto mais do Kilorn 😊🙈

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  9. Não shippo a Mare com o Maven, mas os dois tem uma quimica que flui estranhamente, mesmo ele sendo quem é. O Cal faz bem pra ela e espero q acabem juntos, ele evoluiu mt do primeiro pra esse livro e espero que continue assim

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  10. Sempre fico emocionada com a forma que a mãe cuida dela, nada melhor que colo de mãe quando vc mais precisa.

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  11. Que diferença de atitude espessamento da Mare de espada de vidro pata essa, essa tá muito melhor e parecendo mais uma heroína.

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  12. KD o beijo quando eles mais precisam?... Maré vc devia ter lascado um beijão no cal nesse jardim lindooooo

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  13. Toda vez que tem Whiterfire eu quero ler Whinterfell... Muito GOT na minha mente, socorro

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    1. Whitefire pra Winterfell? Meio diferente, não? Hueahaehu
      Agora eu lembrei de Whitethorn 😅

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  14. — O que Maven considera amor não tem nada a ver com amor de verdade. — Puxo a gola da camisa, revelando a cicatriz. O M é claro como o dia.

    É isso que eu tô tentando explicar para as pessoas que shippam os dois!
    O amor do Maven é doentio e errado.

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  15. Apesar de algumas poucas migalhas de esperança duvido que ela termine com Naven , ou ela morre ou fica com Cal kk ou cal morre e ela termina sozinha :o

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  16. Ahhhhhh! To confusa! Cal ou Maven???? Meu Deus, eu não consigo escolher!!!!

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Boa leitura :)