13 de março de 2017

Capítulo vinte e um

SÓ QUANDO ENTRAMOS NO QUE RESTOU DA TAVERNA incendiada de Rosen é que o homem fala de novo, apresentando-se enquanto nos sentamos em volta de uma mesa chamuscada. Seu nome é surpreendentemente simples: Jon. E a presença dele é a coisa mais desconcertante que já senti. Cada vez que ele me encara com seus olhos cor de sangue tenho a impressão de que ele pode ver através da minha pele, até a coisa retorcida que eu costumava chamar de coração. No entanto, guardo esses pensamentos para mim, dando mais espaço para Farley preencher o ambiente com suas queixas. Ela alterna entre resmungos e gritos, argumentando que não podemos confiar nesse estranho que apareceu no meio das cinzas. Shade precisa acalmá-la, segurando-a pelos braços. Jon observa tudo pacientemente, sentado, com um sorriso torto, repelindo as oposições dela com o olhar e só voltando a falar quando ela finalmente fecha a boca.
— Conheço muito bem vocês quatro, então não precisam se apresentar — ele diz, olhando para Shade e erguendo a mão. Meu irmão solta um resmungo e recua um pouco. — Encontrei vocês porque sabia onde estariam. Não foi difícil coordenar a minha viagem com a sua — Jon acrescenta, voltando-se para Cal.
O rosto do príncipe fica branco, mas Jon não se dá ao trabalho de observar. Em vez disso, ele desvia os olhos para mim, e seu sorriso fica um pouco mais suave.
Ele vai ser um bom acréscimo ao grupo, embora um pouco sinistro.
— Não tenho intenção de me juntar a vocês no Furo, srta. Barrow.
É a minha vez de morder a língua. Antes que eu possa me recompor, ele continua, e suas palavras são como uma facada fria no estômago:
— Não, não consigo ler seus pensamentos, mas consigo ver o que vai acontecer. Por exemplo, sei o que você vai dizer em seguida. Achei que isso nos pouparia algum tempo.
— Eficiente — Farley solta, ríspida. É a única que não está embasbacada com o homem. — Por que você não fala de uma vez o que veio dizer e acaba logo com isso? Melhor ainda, apenas nos conte o que vai acontecer.
— Seus instintos são muito úteis, Diana — ele responde, inclinando a cabeça grisalha. — Seus amigos, a metamorfa e o voador, retornarão em breve. Vão encontrar resistência na central de segurança de Pitarus, e precisarão de cuidados médicos. Nada que Diana não possa resolver no jato.
Shade começa a levantar da cadeira, mas Jon gesticula para que volte a sentar.
— Calma, vocês ainda têm tempo. O rei não tem intenção de persegui-los.
— Por que não? — Farley pergunta, erguendo uma sobrancelha.
Os olhos rubros encontram os meus, à espera de que eu responda.
— Gareth é capaz de voar, coisa que nenhum prateado consegue. Maven não quer que ninguém veja isso, nem mesmo seus soldados fiéis.
Cal confirma com a cabeça, conhecendo o irmão tão bem — ou tal mal — quanto eu, e acrescenta:
— Ele disse ao reino que sanguenovos não existem.
— Um de seus muitos erros — Jon divaga em um tom onírico e distante, provavelmente olhando para um futuro que nenhum de nós é capaz de compreender. — Mas vocês vão descobrir isso em breve.
Espero que Farley reclame das charadas, mas Shade toma a dianteira. Ele apoia as mãos na mesa e se projeta para a frente, cobrindo Jon com sua sombra.
— Você veio aqui só para se mostrar? Ou para desperdiçar o nosso tempo?
Não posso deixar de pensar a mesma coisa.
O homem não se abala, nem diante da raiva contida do meu irmão.
— Para ser sincero, Shade, a segunda opção. Mais alguns quilômetros e os observadores de Maven avistariam vocês chegando. Ou vocês prefeririam cair na tocaia dele? Confesso que posso ver ações, mas não pensamentos. Talvez vocês quisessem ser presos e executados, não? — Ele corre os olhos pelos nossos rostos e seu tom de voz é de uma animação chocante. Um lado da sua boca levanta, formando um meio sorriso. — Pitarus teria acabado em morte. Ou pior.
Pior que a morte? Debaixo da mesa, a mão de Cal se fecha sobre a minha, como se ele sentisse o medo tomando conta do meu corpo. Sem pensar, abro bem os dedos, para que os dele se enlacem nos meus. Nem quero perguntar o que seria pior que a morte.
— Obrigada, Jon. — Minha voz sai grave de medo. — Por nos salvar.
— Você não salvou nada — Cal diz, rápido, apertando ainda mais a minha mão. — Qualquer decisão poderia ter mudado isso. Um passo em falso na floresta, o bater das asas de um pássaro. Sei como pessoas como você enxergam e como as previsões podem sair erradas.
O sorriso de Jon aumenta até quase dividir seu rosto no meio. Isso enfurece Cal mais do que qualquer coisa, mais do que ouvir seu primeiro nome, Tiberias.
— Vejo mais longe e de modo mais nítido que qualquer observador prateado que já conheceu. A escolha de dar ouvidos ao que digo é sua. Mas você vai acreditar em mim. — Jon acrescenta, quase sorrindo. — Mais ou menos quando descobrir sobre a prisão. Julian Jacos é amigo, não é?
Agora as mãos de Cal também começam a tremer.
— É — balbucio. Meus olhos estão arregalados e esperançosos. — Ele ainda está vivo, não está?
De novo, os olhos de Jon ficam opacos. Ele murmura consigo mesmo palavras inaudíveis, e acena vez ou outra com a cabeça. Sobre a mesa, seus dedos se agitam, movendo-se para a frente e para trás como um rastelo arando a terra. Puxando e empurrando. Mas o quê?
— Sim, está vivo. Mas sua execução está marcada, assim como a de... — Ele faz uma pausa para pensar. — Sara Skonos.
O tempo avança de maneira estranha. Jon responde todas as nossas perguntas antes que elas saiam dos nossos lábios.
— Maven planeja anunciar a execução deles para preparar uma nova armadilha para vocês. Os dois estão presos no presídio de Corros. Não, ele não está abandonado, Tiberias. Foi reformado para receber prateados. Colocaram Pedras Silenciosas nas paredes, vidraças de diamante e guardas militares. Não, tudo isso não é apenas para Julian e Sara. Há outros dissidentes nas celas, aprisionados por questionar o rei ou irritar a mãe dele. A Casa Lerolan tem sido especialmente difícil, assim como a Casa Iral. E os sanguenovos presos têm se mostrado tão perigosos quanto os prateados.
— Sanguenovos? — A palavra explode de mim e corta a fala de Jon, que continua atirando informações.
— Os que vocês não encontraram, que deram por mortos. Foram levados para serem observados e examinados, mas Lord Jacos se recusou a estudá-los. Mesmo depois de muita... persuasão.
Bile sobe pela minha garganta. Persuasão só pode significar tortura.
— Há coisas piores que a dor, srta. Barrow — Jon diz suave. — Agora os sanguenovos estão nas mãos da rainha Elara. Ela pretende usá-los... com precisão.
Os olhos dele se desviam para Cal, e os dois trocam um olhar de dolorosa compreensão. O homem cinza retoma:
— Com o tempo, se tornarão armas contra seu próprio sangue, controlados pela rainha e sua família. Trata-se de uma estrada muito, muito escura. Vocês não devem permitir que isso aconteça.
Ele crava as unhas rachadas e imundas na mesa, escavando sulcos profundos na madeira enegrecida.
— Não devem — finaliza.
— O que vai acontecer se libertarmos Julian e os outros? — digo, me inclinando para a frente. — Você é capaz de ver?
— Não. Só consigo enxergar a partir do momento atual. — Não sei se ele está mentindo ou não. — Por exemplo, agora vejo vocês sobrevivendo à armadilha de Pitarus, apenas para morrer quatro dias depois. Vocês esperam demais para atacar Corros. Ah, esperem. Agora que contei, tudo mudou. — Outro sorriso estranho e triste. — Hmmm...
— Isso não faz sentido — Cal grunhe, desenlaçando minha mão. Ele levanta, devagar e determinado como uma tempestade. — As pessoas enlouquecem ouvindo previsões como as suas. São arruinadas pelo conhecimento de um futuro incerto.
— Não temos prova nenhuma além das suas palavras — Farley intervém. Pela primeira vez, concorda com Cal, o que surpreende os dois. Ela joga a cadeira para trás num movimento rápido e violento. — São só truques baratos.
Truques baratos. Ele previu nossas palavras, sabendo dos ataques de Farley antes de ela pronunciá-los. Isso está longe de ser um truque. Mas é mais fácil acreditar que o poder de Jon é impossível. É por isso que todos acreditaram nas mentiras de Maven a meu respeito, a respeito dos sanguenovos. Viram meu poder com os próprios olhos e escolheram confiar no que eram capazes de compreender, não na realidade. Vou fazê-los pagar por essa burrice, mas não vou cometer o mesmo erro. Algo em Jon mexe comigo, e meus instintos me dizem para ter fé — não no homem, mas ao menos em suas visões. O que ele diz é verdade, embora o motivo para dizê-lo talvez não seja muito nobre.
O sorriso enlouquecedor dele tremula, contorcendo-se numa careta que denuncia um temperamento instável.
— Vejo uma coroa pingando sangue. Uma tempestade sem trovão. Sombras se agitando sobre uma cama de labaredas. — A mão de Cal estremece. — Vejo lagos inundando a costa, engolindo homens por inteiro. Vejo um homem de olho vermelho, casaco azul, arma fumegante...
Farley soca a mesa.
— Chega!
— Acredito nele — digo, e as palavras têm um gosto estranho.
Sou incapaz de confiar nos meus próprios amigos, mas aqui estou, me aliando a um estranho amaldiçoado.
Cal me encara como se uma segunda cabeça tivesse brotado do meu pescoço; seus olhos gritam uma pergunta que ele não ousa pronunciar. Só consigo dar de ombros e evitar o peso do olhar vermelho de Jon. Ele paira sobre mim, examinando cada milímetro da garota elétrica. Pela primeira vez em séculos, desejo a seda e as armaduras dos prateados, desejo parecer a líder que finjo ser. Em vez disso, meu corpo se arrepia sob o casaco esfarrapado, como se tentasse esconder minhas cicatrizes e meus ossos. Fico feliz por ele não poder ver a marca de Maven, mas algo me diz que ele já sabe dela.
Recomponha-se, Mare Barrow. Num grande ímpeto de força, ergo a cabeça e me ajeito na cadeira, dando as costas para os outros. Jon abre um sorriso em meio às luzes repletas de cinzas.
— Onde fica o presídio de Corros?
— Mare...
— Me deixem lá no caminho de volta — interrompo Cal, sem me dar ao trabalho de virar para vê-lo reagir. — Não vou deixar os sanguenovos se tornarem marionetes de Elara. E não vou abandonar Julian de novo.
Os contornos do rosto de Jon ficam mais fundos, contando a história de muitas décadas dolorosas. Ele é mais jovem do que pensei; a juventude se esconde sob suas rugas e cabelo grisalho. Quanto ele não terá visto para ficar desse jeito? Tudo, me dou conta. Cada coisa horrível e maravilhosa que pode vir a acontecer. Morte, vida e tudo entre os dois extremos.
— Você é exatamente como pensei que seria — ele balbucia, cobrindo minhas mãos com as suas. As veias se ramificam em azul e roxo sob a pele dele, cheias de sangue vermelho. Vê-las é um conforto imenso para mim. — Agradeço muito por ter encontrado você.
Eu lhe ofereço um pequeno sorriso, mas sincero. É o melhor que posso fazer.
— Onde fica a prisão?
— Não vão deixar você ir sozinha — Jon diz, lançando um olhar por cima do meu ombro. — Mas ambos sabemos disso, não sabemos?
Meu rosto fica corado e quente, e sou forçada a concordar com a cabeça.
Jon faz o mesmo antes de desviar os olhos e fixá-los na mesa. O ar onírico retorna e ele recolhe as mãos.
Levanta em pés vacilantes, ainda observando algo que não vemos. Então funga, levanta a gola da camisa e gesticula para que façamos como ele.
— Chuva — avisa, segundos antes de o temporal se abater sobre o telhado. — Pena que precisamos andar.
Me sinto um rato afogado quando chegamos ao jato, depois de atravessar a lama e a chuva torrencial. Jon nos mantém em um ritmo constante, diminuindo uma ou duas vezes para “alinhar as coisas”. Alguns instantes depois de o jato entrar no nosso campo de visão, percebo o que ele quis dizer. Gareth precipita-se do céu como um meteoro vagaroso de roupas molhadas e sangue. Ele aterrissa bem, e o embrulho nos seus braços, um bebê, ao que parece, salta pelo ar e se transforma diante dos nossos olhos.
Os pés de Nanny atingem o solo com força, e seu joelho idoso se dobra. Shade corre para o lado dela e a segura firme, enquanto Farley passa o braço de Gareth por cima do ombro para lhe dar apoio e compensar a perna inútil e sangrenta.
— Tocaia em Pitarus — ele urra, tanto de dor como de raiva. — Nanny saiu ilesa, mas eles me cercaram. Precisei virar um quarteirão da cidade de cabeça para baixo antes de conseguir escapar.
Embora Jon tivesse nos assegurado de que não haveria perseguição, não consigo deixar de olhar o céu cada vez mais escuro. Cada nuvem que passa lembra um jato, mas não ouço nem sinto nada além das oscilações distantes dos trovões.
— Não estão vindo, srta. Barrow — Jon fala, num tom mais alto que o ruído da chuva. O sorriso louco está de volta.
Gareth olha para ele, confuso, mas confirma:
— Acho que ninguém nos seguiu — diz, e as palavras se emendam num grunhido de dor.
Farley ajusta o corpo contra Gareth, recebendo quase todo o peso dele. Mesmo ocupada ajudando-o a chegar no jato, ela continua com os olhos fixos em Jon.
— O monstrinho estava lá? — ela pergunta a Gareth.
Ele faz que sim.
— Os sentinelas estavam, então o rei não devia estar muito longe.
Ela xinga, mas não sei do que tem mais raiva: de Maven, por atacar nossos amigos, ou de Jon, por estar certo.
— A perna parece pior do que está — Jon diz no meio da chuva. Ele aponta para Gareth enquanto Farley o ajuda a subir pela rampa do jato. Em seguida, seu dedo pousa em Nanny, ainda encolhida contra Shade. — Só está exausta e com frio. Uns cobertores devem resolver.
— Não sou uma velha gagá que precisa ser trancada em casa debaixo de cobertores — Nanny reclama, sentada no chão. Ela levanta o mais rápido que pode, lançando um olhar fulminante para Jon. — Me deixe andar, Shade, ou vou soltar um berro que vai fazer você evaporar.
— Você que sabe, Nanny — Shade diz baixinho, se esforçando para não rir enquanto a apoia. Ele lhe dá algum espaço, mas não mais que a distância de um braço.
Nanny sobe no jato, orgulhosa, de cabeça erguida e costas eretas.
— Você fez de propósito — Cal resmunga ao passar quase roçando o ombro em Jon. Nem se dá ao trabalho de olhar para trás, nem quando o vidente explode em risos observando o príncipe.
— E funcionou — ele diz tão baixo que só eu escuto.
Confie na visão, não no homem. Uma boa lição a aprender.
— Cal não é muito chegado a brincadeiras com a mente dos outros — aviso, apontando para ele. Uma faísca de eletricidade corre pelo meu dedo. A ameaça é clara como a luz do dia. — Nem eu.
— Não brinco — Jon dá de ombros. — Nem quando era criança brincava. Era difícil encontrar um concorrente à altura tendo isto aqui — conclui, dando batidinhas na própria cabeça.
— Não foi isso que...
— Sei que não foi isso que quis dizer, srta. Barrow — ele me corta. Seu sorriso plácido, antes desconcertante, se torna frustrante.
Dou meia-volta e sigo em direção ao jato, mas, depois de alguns passos rápidos, me dou conta de que Jon não está vindo.
Ele está olhando para o nada, para a chuva, com olhos arregalados e brilhantes.
Não é uma visão. Está só parado, desfrutando a sensação do frio, da água limpa lavando as cinzas da pele.
— É aqui que nos separamos.
O pulso do jato ganha vida e ecoa pelas minhas costelas, distante, desprezível. A única coisa que consigo fazer é observar Jon. Sob a escuridão cada vez mais densa da tempestade, ele parece desaparecer. Cinza como a fuligem, cinza como a chuva, fugaz como ambos.
— Pensei que fosse nos ajudar na prisão. — Deixo as palavras pairando no ar, com um tom inundado de desespero.
Jon parece não ligar, então recorro a outra tática.
— Maven está à sua caça. Está matando todos nós, e vai matar você quando tiver a chance.
Isso o faz rir tanto que ele até se contorce.
— Acha que não sei quando vou morrer? Eu sei, srta. Barrow, e não será nas mãos do rei.
Meus dentes rangem de irritação. Como ele pode nos deixar? Todos os outros escolheram lutar. Por que ele não?
— Você sabe que posso obrigar você a vir conosco.
Minhas faíscas parecem brilhar duas vezes mais em meio ao temporal cinzento. Roxas e brancas, chiando sob a chuva, elas se agitam entre os meus dedos e provocam calafrios de prazer na minha coluna.
De novo, Jon sorri.
— Sei que pode, e sei que não vai. Mas coragem, srta. Barrow. Vamos nos encontrar de novo. — Ele inclina a cabeça, pensativo. — Sim, sim, vamos.
Só estou cumprindo a minha promessa. Estou oferecendo uma escolha. Ainda assim, preciso me segurar com todas as forças para não arrastar Jon para o jato.
— Precisamos de você, Jon!
Mas ele já começou a se afastar. Cada passo torna mais difícil enxergá-lo.
— Confie em mim quando digo que não precisa! Deixo as seguintes instruções: voe para a periferia de Siracas, para o lago Little Sword. Proteja o que encontrar lá, ou seus amigos presos acabarão mortos.
Siracas, lago Little Sword. Repito as palavras até gravá-las na memória.
— Não amanhã, não hoje à noite, mas agora. Você precisa voar para lá agora.
O ronco do jato se expande, até o próprio ar começar a vibrar sob a pressão.
— O que procuramos lá? — berro mais alto que o barulho, protegendo o rosto da chuva. Gotas pesadas me atingem, mas forço a vista para ver pela última vez a silhueta do homem cinza.
— Vocês vão saber! — É o que ecoa pela chuva. — E diga a Diana, quando ela duvidar, diga a Diana que a resposta para a pergunta dela é “sim”.
— Que pergunta?
Ele ergue o dedo, quase numa censura.
— Atenha-se ao seu destino, Mare Barrow.
— Que é?
— Se levantar. E se levantar sozinha. — As palavras ressoam como o uivo de um lobo. — Vejo o que você pode se tornar: não apenas um relâmpago, mas uma tempestade. A tempestade que vai engolir o mundo inteiro.
Por uma fração de segundo, os olhos dele parecem brilhar. Vermelho contra cinza, me queimando, examinando cada futuro. Seus lábios se contorcem naquele sorriso enlouquecedor, deixando seus dentes reluzirem à luz prateada. E então ele desaparece.
Quando entro no jato sozinha, batendo os pés, Cal tem o bom senso de me deixar ferver de raiva sem me incomodar. Apenas o desespero afoga a raiva. Se levantar sozinha. Sozinha. Enterro as unhas na palma das mãos, na tentativa de repelir a tristeza e a dor.
Destinos podem mudar.
Farley não tem tanto tato quanto Cal. Ela levanta os olhos da perna recém-enfaixada de Gareth; seus dedos estão grudentos, manchados de sangue vermelho.
— Ótimo — bufa. — Não precisávamos daquele velho louco mesmo.
— Aquele velho louco podia ganhar esta guerra — Shade diz, dando um leve tapinha no ombro da capitã, recebendo um olhar sombrio em troca. — Pense no que ele pode fazer com esse poder.
Cal lança um olhar furioso do assento do piloto.
— Ele já fez o bastante.
O príncipe me observa sentar ao seu lado, ainda fervilhando.
— Você quer mesmo invadir uma prisão secreta construída para pessoas como nós? — pergunta.
— Prefere deixar Julian morrer? — Ouço apenas um suspiro baixo. — Foi o que pensei.
— Muito bem, então — ele suspira mais uma vez, desacelerando o jato. As rodas pulam debaixo de nós por conta da pista desnivelada. — Precisamos nos reunir, traçar um plano. Qualquer um que quiser vir junto será bem-vindo, mas nada de crianças.
— Nada de crianças — concordo. Minha mente vai até Luther e as outras crianças sanguenovas no Furo. São jovens demais para lutar, mas não para serem poupadas da caçada de Maven. Não vão gostar de ficar para trás, mas sei que Cal se importa com elas. Não vai permitir que nenhuma fique na ponta errada da pistola.
— Seja lá do que estiverem falando, estou dentro. — Gareth nos lança um olhar ao lado de Farley, com os dentes cerrados para suportar a dor na perna. — Mas quero saber no que estou me metendo.
Incrédula, Nanny lhe dá um tapa com a mão ossuda.
— Só porque levou um tiro não quer dizer que pode parar de prestar atenção. Vamos atacar uma prisão.
— Infelizmente, você tem razão, Nan — Farley concorda. — E é uma perda de tempo, se quer saber minha opinião. Estamos nos baseando na palavra de um maluco.
A frase silencia até as piadas de Nanny, que crava os olhos em mim com a expressão que só uma avó é capaz de fazer.
— É verdade, Mare?
— Maluco é uma palavra muito forte — Shade murmura, mas não nega o que todos estão pensando. Sou a única que confia em Jon, e eles confiam o suficiente em mim para seguirem a minha fé. — Ele acertou sobre Pitarus e tudo o mais que disse. Por que mentiria sobre a cadeia?
Se levantar. E se levantar sozinha.
— Ele não estava mentindo!
Meu grito silencia a todos, até ouvirmos apenas o ronco dos motores do jato aumentando, atingindo aquele ruído monótono e familiar que vibra pela fuselagem. Logo a terra sob nós começa a se distanciar. A chuva se espalha pelas janelas, atrapalhando a visibilidade, mas Cal é bom demais para nos deixar cair. Depois de um momento, atravessamos nuvens que parecem feitas de metal escuro e encontramos o brilho do sol do meio-dia.
É como tirar um peso de ferro das costas.
— Nos leve até o lago Little Sword — digo baixinho. — Jon falou que vamos encontrar uma coisa lá, algo que vai nos ajudar.
Espero mais uma discussão, mas ninguém ousa me confrontar. Não é muito inteligente incomodar uma garota elétrica quando se está voando dentro de um tubo de metal.
Os trovões se sucedem nas nuvens abaixo de nós, um prenúncio dos relâmpagos da tempestade. Raios violentos acertam a terra, e sinto cada um deles como uma extensão de mim mesma. Fluidos, afiados como vidro, queimam tudo pelo caminho. O lago Little Sword não fica longe; está situado na ponta norte do temporal, e reflete como um espelho o céu cada vez mais limpo. Cal dá uma volta com o jato, bem alto e por dentro das nuvens para esconder nossa presença, antes de notar a pista meio enterrada nas colinas verdejantes em volta do lago. Quando pousamos, praticamente pulo do assento, embora não faça ideia do que devo procurar.
Shade vem logo atrás quando desço a rampa correndo, ansiosa para chegar até o lago. Está a quase dois quilômetros ao norte, se minha memória não falha.
Deixo minha bússola interior assumir o comando. No entanto, mal consigo alcançar as árvores que ladeiam a pista antes de um som familiar me fazer parar imediatamente.
O som de uma pistola sendo engatilhada.

15 comentários:

  1. Você sabe tudo Jon-que-não-é-Snow.

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  2. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK AGORA EU RIIII KKKKKKKKKKKKKK ESSA FOI ÓTIMA

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  3. nanny adorei kkkkkkkk

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  4. Que Jon misterioso...E essa Nanny? kkkk
    ~polly~

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  5. PELAS MINHAS CORES TÔ PIRANDO JÁ.

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  6. Ai ai ai. .. O que vem agoraaaa?
    E lá se vai a Mare sabe tudo de novo😥

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  7. Manoo. To mt confusa. N sei se confio nesse jon. Ele msm disse q tinham sanguesnovos presos e q elara estava tentando manipular eles. Como saber se jon já n está sendo manipulado???
    Confio, desconfiando

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  8. GENTE, SOU SÓ EU Q SHIPPO FARLEY E SHADE?
    DIGAM Q N

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    1. Não, eu tbm shippo muito os dois,

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    2. Não caro shipps vc não é o unico, shippo Diana e Shade desde que vi que ele tava vivi, depois que li Cicatrizes de aço so almentou minha esperança neles

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  9. Pelas barbas de merlin, sea que esse jon mentiu? Levou eles pra uma emboscada?
    Mais um pra colocar minhocas na cabeça da Mare!
    To agoniada com esse livro na boa, mas nao largo por nada!
    Shade e Farley forevers 💙

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  10. Acho q é a Farley com a arma

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  11. Eu acho que Mare deveria levar uma surra ou 24 horas de aula de "Chega de mesquice". Pelo amor, ela acha que sempre esta certa. P**** ela não ouve a opnião dos outros. Quero que ela se ferre pra aprender. Ela tinha que morrer no final, pois ela esta afastando pessoas importantes na vida dela. Kilorn, Cal, Shade. Só estou lendo pelo Cal e Maven, pois se fosse por ela já teria parado faz tempo 😭😫😲

    —Nathy

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Boa leitura :)