3 de março de 2017

Capítulo vinte e um

DE VOLTA AO MEU QUARTO, arranco o vestido arruinado e jogo a seda no chão. As palavras do rei ecoam em minha cabeça, salpicadas de imagens desta noite terrível. Os olhos de Kilorn se destacam entre as memórias, me queimando como uma chama alta. Preciso protegê-lo, mas como? Se pudesse mais uma vez trocar de lugar com ele, trocar minha liberdade pela dele. Se as coisas ainda fossem simples assim. As lições de Julian nunca me vieram à mente com tanta nitidez: o passado é tão mais grandioso que este futuro.
Julian. Julian.
Os corredores da parte residencial fervilham de sentinelas e agentes, todos com os nervos à flor da pele. Mas já dominei a arte de passar despercebida, e a porta de Julian não é longe.
Apesar do horário, ele está acordado, debruçado sobre os livros. Tudo parece igual, como se nada tivesse acontecido. Talvez ele não saiba. Mas então noto a garrafa de licor marrom sobre a mesa, no lugar habitualmente ocupado por uma chaleira. É claro que ele sabe.
— À luz dos recentes acontecimentos, suponho que nossas aulas estejam canceladas por ora — ele diz, tirando os olhos da página.
Contudo, ele fecha o livro de supetão e concentra a atenção em mim.
— Isso sem falar que é tarde.
— Preciso de você, Julian.
— Tem a ver com o Atentado Rubro? Sim, já inventaram um bom nome — ele diz, apontando para o monitor escurecido no canto da sala. — Há horas está no noticiário. O rei fará um pronunciamento ao país pela manhã.
Lembro da âncora de cabelo loiro que noticiou o atentado na capital mais de um mês atrás. Houve poucos feridos, e ainda assim o mercado virou um caos. O que farão agora? Quantos vermelhos inocentes pagarão por isso?
— Ou tem a ver com os quatro terroristas trancafiados no calabouço deste edifício? — pressiona Julian, à espera da minha reação. — Perdão, são três. Ptolemus Samos com certeza merece sua reputação.
— Não são terroristas — respondo com calma, tentando me controlar.
— Preciso mostrar a definição de terrorista, Mare?
O tom de sua voz me fere.
— A causa deles pode ser justa, mas os métodos... Além disso, o que você diz não importa — prossegue, mais uma vez apontando para o monitor. — Já existe uma versão oficial da verdade, e é a única que as pessoas vão ouvir.
Meus dentes rangem até doerem, a mandíbula tensionada.
— Você vai me ajudar ou não?
— Sou apenas um professor. E meio rejeitado, caso não tenha notado. O que posso fazer?
— Julian, por favor — posso sentir minha última chance escapar por entre os dedos. — Você é um cantor, pode falar com os guardas... pode forçá-los a fazer o que quiser. Pode libertar os presos.
Mas ele permanece imóvel, bebericando calmamente sua bebida. Não faz a careta que espero. O álcool é rotina em sua vida.
— Amanhã eles serão interrogados — continuo. — E não importa quão forte sejam, quanto tempo aguentem, a verdade será descoberta.
Devagar tomo a mão de Julian e aperto os dedos gastos pelo papel.
— O plano foi meu — digo enfim. — Sou uma deles.
Ele não precisa saber de Maven. Só o deixaria mais zangado com o príncipe.
A meia verdade funciona bem. Consigo ver o efeito nos olhos de Julian.
— Você? Você fez isto? — ele gagueja. — Os tiros, a bomba...?
— A bomba foi... inesperada.
A bomba foi um horror.
Ele aperta os olhos e imagino as engrenagens mexendo em sua cabeça. Então ele desaba a falar:
— Eu avisei, avisei para não deixar isso sair do controle!
Ele soca a mesa, irado como nunca o vi antes.
— E agora — perde o fôlego, me encarando com tanta tristeza que meu coração dói — tenho que assistir a você se afogar?
— Se eles escaparem...
Ele mata o resto da bebida com um só gole. Depois, numa explosão, despedaça o copo contra o chão, o que me faz pular.
— E eu? Mesmo se eliminar as câmeras, a memória dos guardas, qualquer coisa que pode nos incriminar, a rainha saberá — ele diz, para então concluir balançando a cabeça. — Ela arrancará meus olhos por isto.
E Julian jamais lerá novamente. Como posso pedir uma coisa dessas?
— E depois me matará — as palavras finalmente saem da minha garganta. — Mereço tanto quanto eles.
Ele não vai me deixar morrer. Não vai. Sou a menininha elétrica, e vou tornar o mundo um lugar melhor.
Quando Julian retoma a palavra, sua voz soa vazia.
— Disseram que a morte da minha irmã foi suicídio — ele começa, correndo os dedos ao redor do punho, detendo-se numa lembrança de muito tempo atrás. — Era mentira, e eu sabia. Ela era triste, mas jamais faria tal coisa. Não quando tinha Cal e Tibe. Foi assassinada, e eu não disse nada. Tive medo e a deixei morrer coberta de vergonha. Desde aquele dia trabalho para corrigir isso, esperando nas sombras deste mundo monstruoso, esperando minha vez de vingá-la.
Ele ergue os olhos com lágrimas para mim.
— Suponho que seja um bom modo de começar.
Não leva muito tempo para Julian elaborar um plano. Precisamos apenas de um magnetron e de algumas câmeras desligadas. Por sorte, posso fornecer ambos.
Lucas bate à minha porta menos de dois minutos depois de eu o chamar.
— O que posso fazer por você, Mare? — diz mais tenso que o habitual. Sei que o tempo que passou acompanhando a rainha no interrogatório dos criados não foi fácil. Mas ao menos deve estar distraído demais para notar que tremo.
— Estou com fome — as palavras ensaiadas saem com mais facilidade do que deveriam. — Não jantamos, então estava me perguntando se...
— Tenho cara de chef? Você deveria ter chamado alguém da cozinha. É o trabalho deles.
— É só que, bem, não acho agora um bom momento para os criados circularem pelo Palacete. As pessoas ainda estão ouriçadas, e não quero ninguém ferido só porque tive fome. Queria apenas que você me acompanhasse. Talvez sobre até um biscoito para você.
Suspirando como um adolescente irritado, Lucas me dá o braço. Antes de sairmos, lanço um olhar para as câmeras do corredor e as desligo. Aqui vamos nós.
Deveria me sentir mal por usar Lucas, sei por experiência própria o que é ter a mente feita de brinquedo. Mas se trata da vida de Kilorn. Lucas ainda fala quando dobramos a esquina do corredor e topamos com Julian.
— Lord Jacos... — Lucas cumprimenta, inclinando a cabeça em reverência.
Então Julian, mais rápido do que jamais imaginei, o segura pelo queixo. Antes que Lucas possa reagir, Julian o encara nos olhos. A luta acaba antes de começar.
Suas palavras doces, leves como pluma e fortes como ferro, caem nos ouvidos abertos.
— Leve-nos às celas. Use os corredores de serviço. Mantenha-nos longe das patrulhas. Não se lembre disto.
Lucas, geralmente todo piada e sorrisos, cai num estado estranho, meio hipnótico. Olha para o nada e sequer nota quando Julian retira sua arma do coldre. Mas marcha mesmo assim, nos conduzindo pelos labirintos do Palacete. A cada curva, sinto os olhos elétricos das câmeras e desativo uma por uma. Julian faz o mesmo com os guardas e os força a esquecer nossa passagem. Juntos, somos uma dupla imbatível, e não demora muito para chegarmos ao fim da escadaria do calabouço. Lá embaixo haverá muitos sentinelas, Julian não vai conseguir se virar sozinho.
— Não diga nenhuma palavra — Julian sussurra para Lucas, que concorda com a cabeça.
Agora é a minha vez de liderar. Espero sentir medo, mas a pouca luz e o tardar da hora são familiares. Este é o meu mundo: me esgueirar, mentir e roubar.
— Quem vem lá? Declare seu nome e o que veio fazer aqui! — grita um dos sentinelas.
Reconheço a voz: Gliacon, a calafrio que torturou Farley. Talvez possa convencer Julian a mandá-la se jogar de um penhasco.
Estico o corpo e me preparo para falar. A voz e o tom são o mais importante.
— Meu nome é Lady Mareena Titanos, sou noiva do príncipe Maven — respondo enquanto desço os degraus com toda a graciosidade possível. Minha voz é fria e aguda, uma imitação de Elara e Evangeline. Também tenho força e poder. — E não dou satisfações a sentinelas.
Ao me ver, os quatro sentinelas trocam olhares de dúvida. Um deles — um homem grande com olhos de porco — chega mesmo a me examinar de um jeito rude. Atrás das grades, Kilorn e Walsh ficam atentos. Farley não se mexe, abraçada aos joelhos. Por um segundo, acho que está dormindo, mas ela se move e seus olhos azuis refletem a luz.
— Preciso saber, Lady Titanos — diz Gliacon em tom de desculpa. Em seguida, olha para Julian e Lucas, que surgem atrás de mim. — O mesmo vale para os dois.
— Gostaria de ter uma conversa particular com essas... — forço o máximo de nojo possível na voz. Não é difícil com o sentinela de olhos de porco tão perto. — ... criaturas. Temos perguntas que devem ser respondidas e ofensas a punir. Não temos, Julian?
Julian desdenha, numa boa representação.
— Será fácil fazê-los falar.
— Não será possível, senhorita — guincha Olho de Porco com seu forte sotaque de Harbor Bay. — Nossas ordens são de permanecer a noite toda aqui. Não saímos para ninguém.
Uma vez fui xingada por um garoto de Palafitas porque usei meu charme para convencê-lo a me dar seu belo par de botas.
— Você compreende meu status, não? Em breve serei princesa, e um favor a uma princesa é algo muito valioso. Além disso, estes ratos vermelhos precisam de uma lição. E de uma lição dolorosa.
Olho de Porco pisca devagar, ruminando a questão. Julian avulta por trás de mim, pronto para usar suas palavras doces caso precise. Em menos de dois segundos, o sentinela assente e gesticula para os outros.
— Podemos dar cinco minutos.
O sorriso de orelha a orelha que abro chega a fazer meu rosto doer, mas não me importo.
— Muito obrigada. Estou em dívida com vocês.
Eles marcham em fila única arrastando as botas. Assim que atingem o patamar da escada, começo a ter esperanças. Cinco minutos é mais do que o suficiente.
Kilorn praticamente pula nas barras, ansioso por sua liberdade, ao passo que Walsh ajuda Farley a se levantar. Mas eu não esboço qualquer movimento. Não pretendo libertá-los, não ainda.
— Mare... — cochicha Kilorn, estranhando minha hesitação, mas o faço se calar com apenas um olhar.
— A bomba.
Fumaça e fogo assombram minha mente e me levam de volta ao momento em que o salão de festas explodiu.
— Me falem da bomba — ordeno.
Espero que se desfaçam em pedidos de desculpa, que supliquem meu perdão, mas, em vez disso, os três se entreolham com o rosto inexpressivo. Farley se apoia contra as barras, seus olhos ardem.
— Não sei nada sobre a bomba — ela murmura, quase inaudível. — Nunca autorizei isso. A ideia era sermos organizados, com alvos específicos. Não matarmos aleatoriamente, sem propósito.
— E a capital, as outras bombas...?
— Você sabe que os prédios estavam vazios. Ninguém ali morreu, não por nossa causa — ela diz em tom de voz equilibrado. — Juro, Mare, não foi coisa nossa.
— Você acha de verdade que a gente tentaria explodir nossa maior esperança? — acrescenta Kilorn. Não preciso perguntar para saber que se refere a mim.
Por fim, olho para Julian e aceno com a cabeça.
— Abra a cela, discretamente — sussurra Julian com as mãos no rosto de Lucas.
O magnetron obedece. As barras desenham um largo o bastante para os prisioneiros passarem. Walsh sai primeiro, com os olhos arregalados de admiração. Kilorn vai em seguida, ajudando Farley a passar por entre as barras. O braço da líder ainda pende contundido. O curandeiro não cuidou de tudo.
Indico a parede e os três caminham sem fazer barulho, como ratos. Os olhos de Walsh se despedem do corpo sem vida de Tristan, ainda na cela, mas ela mantém o controle e segue ao lado de Farley. Julian empurra Lucas para perto dos prisioneiros antes de assumir seu posto ao pé da escada, no outro extremo do cômodo.
Eu fico do outro lado, espremida ao lado de Kilorn. Embora ele tenha passado a noite acompanhado por um cadáver, ainda tem o cheiro do vilarejo.
— Eu sabia que você viria — ele cochicha em meu ouvido. — Eu sabia.
Mas não há tempo para comemoração e elogios. Não até estarmos longe e seguros.
Perto das escadas, Julian acena com a cabeça. Está pronto.
— Sentinela Gliacon, posso falar com você? — grito para o alto da escadaria.
É a isca da nossa próxima armadilha. E o ruído de passos me diz que ela mordeu.
— Pois não, Lady Titanos?
Quando chega ao calabouço, seus olhos vão direto para a cela aberta e ela arfa de susto por trás da máscara. Mas Julian é rápido demais, mesmo para uma sentinela.
— Você foi andar um pouco. Voltou e encontrou isto. Não se lembra de nós. Chame um dos outros — ele murmura na melodia terrível da sua voz.
— Sentinela Tyros, sua ajuda é necessária — as palavras soam sem vida.
— Agora durma.
Gliacon cai antes mesmo de as últimas palavras saírem dos lábios de Julian, que a apanha pela cintura e a coloca cuidadosamente atrás de si. Kilorn suspira de admiração por Julian, que dá um sorrisinho, satisfeito.
Tyros é o próximo a descer, confuso, mas ansioso por ser útil. Julian repete a operação e canta suas ordens em poucos segundos. Eu não imaginava que os sentinelas fossem tão burros, mas faz sentido. São treinados desde a infância na arte do combate; lógica e inteligência não são suas prioridades.
Os últimos dois, porém, Olho de Porco e o curandeiro, não são idiotas completos. Quando Tyros chama o curandeiro, os dois lá de cima conversam algo.
— Terminou, Lady Titanos? — questiona Olho de Porco, atento.
Pensando rápido, grito de volta:
— Sim, terminamos. Seus companheiros retornaram aos seus postos, quero ter certeza de que vocês também vão voltar.
— Ah, sim. É isso mesmo, Tyros?
Com uma velocidade impressionante, Julian se ajoelha diante do desmaiado Tyros, abre seus olhos à força e segura as pálpebras:
— Diga que retornou ao posto. Diga que Lady Titanos terminou.
— Estou em meu posto — ele diz com uma voz monótona que espero que a longa escadaria e as paredes de pedras disfarcem. — Lady Titanos terminou.
Olho de Porco resmunga consigo mesmo.
— Muito bem.
Suas botas batem contra os degraus. Os dois sentinelas descem juntos. DoisJulian não pode lidar com dois sozinho. Sinto atrás de mim a tensão de Kilorn, que cerra o punho, preparado para qualquer imprevisto. Com uma mão o empurro de volta para a parede, enquanto a outra se ilumina com a eletricidade.
Os passos param um pouco antes do portal. Nem Julian nem eu conseguimos ver os sentinelas, mas Olho de Porco arfa como um cachorro. O curandeiro também está lá, à espreita, longe do nosso alcance. Em meio ao silêncio total, não é difícil escutar o engatilhar de uma pistola.
Julian arregala os olhos, mas permanece firme e leva uma das mãos à sua arma roubada. Não ouso sequer respirar, ciente do nervosismo que domina todos nós. As paredes parecem encolher e nos fechar num caixão de pedra sem escapatória.
Sinto uma grande calma ao avançar até o pé da escada com a mão eletrificada nas costas. Espero as balas virem contra mim a qualquer minuto, mas a dor não chega. Ninguém vai atirar em mim se eu não der um bom motivo.
— Algum problema, sentinelas? — pergunto com ar de superioridade e uma sobrancelha arqueada, como vi Evangeline fazer centenas de vezes.
Lentamente, subo um degrau, atraindo ambos até nosso campo de visão. Eles estão lado a lado, com o dedo roçando no gatilho.
— Acharia melhor que não apontassem suas armas para mim.
Olho de Porco me encara, mas isso não me abala. Sou uma nobre. Preciso agir como uma.
Agir por minha vida.
— Onde está seu amigo? — ele pergunta.
— Ah, já está vindo. Uma das prisioneiras fala demais. Precisa de uma atenção extra.
A mentira sai fácil. A prática realmente leva à perfeição.
Com um sorriso maldoso, Olho de Porco baixa um pouco a pistola.
— A vadia cheia de cicatrizes? Também precisei apresentá-la à minha mão — ele ri.
Rimos juntos, enquanto imagino o que a eletricidade faria aos seus olhos gordos e pálidos.
À medida que me aproximo, o curandeiro segura o corrimão de metal e me impede de avançar. Calma, digo a mim mesma, carregando a mão com a energia suficiente. O bastante para não queimar, não ferir, mas derrubar os dois. É como passar linha por uma agulha e, desta vez, a costureira experiente sou eu.
À minha frente, o curandeiro já não ri com seu amigo. Seus olhos estão brilhantes e prateados. Com a máscara e o traje flamejante, ele parece um demônio saído de um pesadelo.
— O que você tem atrás das costas? — sibila através da máscara.
Dou de ombros e me permito um passo a mais.
— Nada, sentinela Skonos.
A próxima palavra é severa.
— Mentirosa.
Reagimos ao mesmo tempo e partimos para a ação. A bala me acerta na barriga, mas minha eletricidade flui pelo corrimão, e chega pela pele do curandeiro até seu cérebro. Olho de Porco grita e dispara. A bala perfura a parede e por pouco não me acerta. Mas eu, sim, o acerto com a bola faiscante que tinha atrás das costas. Os dois caem ao meu lado com os músculos se contraindo do choque.
E então chega minha vez de cair.
Por um segundo, passa pela minha mente uma dúvida: será que minha cabeça vai se espatifar contra o chão de pedra? Acho que deve ser melhor do que sangrar até a morte. Antes de descobrir a resposta, sou salva por dois braços longos.
— Mare, você vai ficar bem — sussurra Kilorn, levando a mão à minha barriga na tentativa de estancar o sangramento. Seus olhos estão verdes como grama e se destacam num mundo que desfaz em escuridão. — Não é nada.
— Vistam isto! — Julian ordena aos outros.
Farley e Walsh passam com pressa ao meu lado para botar os mantos e as máscaras vermelhos como o fogo.
— Você também! — ele grita apressado para Kilorn, com um puxão que quase lança meu amigo para o outro lado do calabouço.
— Julian... — me esforço para chamar, tentando agarrá-lo. Preciso agradecer a ele.
Mas Julian está fora do meu alcance, já abaixado diante do curandeiro. Ele abre as pálpebras do sentinela e canta para que desperte. Quando me dou conta, o curandeiro coloca as mãos sobre minha ferida. Um segundo depois, o mundo já está de volta ao normal. No canto, Kilorn respira aliviado e veste o manto.
— Ela também — digo, apontando para Farley.
Julian concorda com a cabeça e dirige o curandeiro até ela. Com um estalo bem sonoro, seu ombro volta ao lugar.
— Muitíssimo obrigada — ela diz e, em seguida, coloca a máscara.
Walsh permanece atônita, esquecida da máscara em sua mão. Observa boquiaberta os sentinelas caídos.
— Estão mortos? — pergunta baixinho, como uma criança assustada.
Julian observa por cima de Olho de Porco depois que terminou de cantar para ele.
— Longe disso. Vão acordar em algumas horas. Se vocês tiverem sorte, ninguém vai perceber que partiram até lá.
— Posso me virar com algumas horas — Farley comenta. Em seguida, fala com Walsh para trazer a companheira de volta à realidade: — Cabeça erguida, garota! Temos muito o que correr esta noite.
Não demoramos muito para nos esgueirar entre as últimas passagens de serviço. Ainda assim, meu medo aumenta a cada segundo, até dar com a garagem de Cal. O hipnotizado Lucas abre um buraco na porta de metal como se rasgasse um papel e revela a noite lá fora.
Walsh me surpreende com um abraço.
— Não sei como — ela sussurra —, mas tomara que um dia você seja rainha. Imagine o que poderia fazer. A rainha vermelha.
A ideia impossível me arranca um sorriso.
— Vá antes que sua bobeira passe para mim.
Farley não é de abraços, mas me dá até uma palmadinha no ombro.
— Vamos nos encontrar de novo. Em breve.
— Não assim, espero.
Seu rosto se abre num raro e amplo sorriso. Apesar da cicatriz, percebo que é muito bonita.
— Não assim — repete antes de se esgueirar pela noite com Walsh.
— Sei que não posso pedir para você vir comigo — murmura Kilorn, já pronto para seguir as duas.
Ele olha para as próprias mãos, para as cicatrizes que conheço melhor que minha cabeça.
Olhe para mim, seu idiota. E, suspirando, me esforço para empurrá-lo em direção à liberdade.
— A causa precisa de mim aqui. Você também precisa de mim aqui.
— O que preciso e o que quero são coisas bem diferentes.
Quero rir, mas não encontro forças.
— Não é nosso fim, Mare — ele garante ao me abraçar, fazendo seu peito vibrar ao rir. — A rainha vermelha. Até que soa bem.
— Vá embora, seu bobo.
Nunca abri um sorriso tão luminoso e estive tão triste ao mesmo tempo.
Ele me encara pela última vez e acena para Julian antes de sair para a escuridão. A chapa de metal volta ao que era antes e me impede de ver meus amigos. Para onde vão, não quero nem saber.
Julian precisa me puxar de lá, mas não reclama da minha longa despedida. Acho que está mais preocupado com Lucas, que começa a babar em seu estado de transe.

6 comentários:

  1. Ri com essas últimas frases kkk
    ~polly~

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  2. Espero que nada aconteça com o Julian i.i

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    1. Nem com o Lucas. Gosto mais dele do que do Julian

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  3. Espero que não aconteça nada com o Julian e nem com o Lucas 😨😨

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  4. Espero que n aconteça nd com nenhum dos três

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Boa leitura :)