15 de março de 2017

Capítulo vinte e três

Evangeline

ELA RI NO MEU PESCOÇO, um esfregar de lábios e aço frio. Minha coroa pende de seu cabelo vermelho ondulado, aço e diamantes reluzindo entre os cachos cor de rubi. Com sua habilidade, ela faz os diamantes piscarem como estrelas.
Relutante, saio da cama, deixando os lençóis de seda e Elane para trás. Ela reclama quando abro as cortinas, deixando a luz do sol entrar. Com um gesto seu, a janela escurece, até que a claridade fique a seu gosto.
Eu me troco na penumbra, vestindo as pequenas roupas íntimas pretas e sandálias. Hoje é um dia especial e me apresso para moldar uma roupa a partir das placas de metal no meu armário. Titânio e aço escurecido cintilam pelo meu corpo. Preto e prateado, refletindo a luz em um arco-íris brilhante. Não preciso de uma criada para me maquiar, nem quero uma passeando pelo meu quarto. Eu mesma cuido disso, combinando o batom azul-escuro brilhante com um delineador preto salpicado com cristais, feito especialmente para mim. Elane cochila enquanto isso, até eu puxar a coroa da cabeça dela. Serve perfeitamente na minha cabeça.
— Isso é meu — digo, abaixando para dar mais um beijo nela. Elane sorri preguiçosa, seus lábios se curvando contra os meus. — Não esqueça que você também deve estar presente hoje.
Ela faz uma reverência irônica.
— Ao seu comando, alteza.
O título é tão delicioso que quero lamber as palavras direto da boca dela. Mas, para não correr o risco de borrar a maquiagem, me detenho. Não olho para trás, para não perder o pouco de autocontrole que me resta.
A mansão Ridge pertence à minha família há gerações e fica no cume de uma das muitas colinas da região. Toda de aço e vidro, é de longe minha favorita entre as propriedades da família. Meu quarto fica virado para o leste, em direção ao alvorecer. Gosto de levantar com o sol, tanto quanto Elane desgosta. A passagem de aço que liga meus aposentos aos corredores principais foi feita por um magnetron, aberta dos lados. Algumas passarelas se prolongam até o térreo, mas muitas se arqueiam para cima das copas das árvores, das rochas irregulares e das fontes salpicadas pela propriedade. Caso a batalha um dia bata à nossa porta, os invasores passariam por maus bocados para abrir caminho pela estrutura, armada contra eles.
Apesar da floresta bem podada e dos jardins luxuosos, poucos pássaros vêm até aqui. Eles sabem do perigo. Quando éramos crianças, Ptolemus e eu os usávamos como alvo para treinamento. Outros ainda caíam pelos caprichos da minha mãe.
Mais de trezentos anos atrás, antes dos reis Calore ascenderem, Ridge não existia, tampouco Norta. Este pedaço de terra era governado por um chefe militar Samos, meu ancestral. Nosso sangue é de conquistadores e nosso destino se elevou de novo. Maven não é mais o único rei de Norta.
Os criados são especialistas em ficar fora de vista aqui, surgindo apenas quando são  necessários ou quando são chamados. Nas últimas semanas, parecem quase bons demais nesse quesito. Não é difícil adivinhar o porquê. Muitos vermelhos estão fugindo — ou para as cidades, para se protegerem da guerra civil, ou para se juntar à rebelião da Guarda Escarlate. Meu pai diz que a Guarda em si fugiu para Piedmont, que por sua vez nada mais é do que uma marionete, dançando ao comando de Montfort.
Mesmo relutante, ele mantém canais de comunicação com Montfort e com líderes da Guarda. Por enquanto, o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo, o que os torna todos possíveis aliados contra Maven.
Tolly espera na galeria, o amplo espaço na lateral do prédio principal. As janelas oferecem vista em todas as direções, estendendo-se pelos vários quilômetros da propriedade. Nos dias mais claros, dá para ver Pitarus a oeste, mas as nuvens estão baixas ao longe, conforme chuvas de primavera correm por toda a extensão do rio que se espalha pelo vale. A leste, colinas se estendem, cada vez mais altas, até se tornarem montanhas azul-esverdeadas. A região é, na minha opinião, o pedaço mais bonito de Norta. E é minha. Da minha família. A Casa Samos governa este paraíso.
Meu irmão certamente parece um príncipe, o herdeiro do trono de Rift. Em vez de uma armadura, Tolly veste um uniforme novo. Prateado em vez de preto, com botões reluzentes de aço e ônix e uma faixa escura como petróleo passando por seu ombro e chegando ao quadril. Sem medalhas ainda, ou pelo menos sem nenhuma que ele possa usar. As que possui foram recebidas por servir outro rei. Seu cabelo prateado está molhado, lambido para trás na cabeça. Está com o frescor do banho. Ele mantém sua nova mão junto ao corpo. Wren precisou de quase um dia inteiro para fazê-la crescer de forma adequada e teve muita ajuda de dois outros curandeiros.
— Onde está minha esposa? — ele pergunta, olhando para a passagem vazia atrás de mim.
— Ela vai se juntar a nós em algum momento. É uma preguiçosa. — Tolly casou com Elane uma semana atrás. Não sei se ele a viu desde a noite do casamento, mas não se importa. Esse foi o acordo que estabeleceram.
Tolly encosta o braço bom no meu.
— Nem todo mundo é capaz de trabalhar com tão poucas horas de sono como você.
— E você? Soube que todo aquele esforço para reconstruir sua mão resultou em longas noites com Lady Wren — respondo com malícia. — Ou estou mal informada?
Tolly sorri, envergonhado.
— Como poderia estar?
— É verdade. — Na mansão Ridge, é quase impossível guardar segredos. Em especial da nossa mãe. Os olhos dela estão em todos os lugares, em ratos, gatos e em algum eventual pássaro ousado. Os raios do sol penetram pela galeria, reluzindo nas muitas esculturas de metal fluido. Enquanto passamos, Ptolemus gira sua nova mão no ar e as esculturas a acompanham, alterando-se. Cada uma se torna mais complexa que a anterior.
— Não perca tempo, Tolly. Se os embaixadores chegarem antes de nós, papai vai espetar nossa cabeça no portão — zombo. Ele ri da piada. Nenhum de nós nunca viu algo assim. Meu pai matou antes, isso é certo, mas nunca com tanta crueldade ou tão perto de casa. Não derrame sangue no seu próprio jardim, ele diz.
Seguimos nosso caminho pela galeria, permanecendo nas passarelas externas para apreciar melhor o clima agradável. A maioria dos salões interiores dá vista para a passarela, através de janelas de vidro polido ou portas abertas para receber a brisa da primavera. Guardas de Samos protegem um deles e acenam com a cabeça quando nos aproximamos, demonstrando respeito ao seu príncipe e à sua princesa. Sorrio diante do gesto, mas a presença deles me incomoda.
Os guardas de Samos supervisionam uma operação violenta: a produção de Pedra Silenciosa. Até mesmo Ptolemus se empalidece quando passamos. O cheiro de sangue nos sobrepuja por um instante, preenchendo o ar com ferro pungente. Duas pessoas da Casa Arven estão sentadas no interior da sala, acorrentadas às cadeiras. Não estão aqui voluntariamente. A Casa deles é aliada de Maven, mas precisamos das Pedras.
Wren está parada entre eles, acompanhando o progresso. Ambos os punhos dos Arven foram cortados e eles sangram livremente em grandes baldes. Quando chegarem ao limite, Wren vai curá-los para estimular a produção de sangue e recomeçar outra vez.
Enquanto isso, o sangue se mistura com o cimento, enrijecendo os terríveis blocos de pedras supressoras de habilidades. Para quê, não sei, mas com certeza meu pai tem planos para eles. Uma prisão, talvez, como aquela que Maven construiu tanto para os prateados quanto para os sanguenovos.
Nossa maior sala de visitas, apropriadamente chamada de Prolongar do Sol, é a que fica na encosta oeste. Suponho que agora seja nossa sala do trono também. Conforme nos aproximamos, cortesãos da nobreza recém-criada por meu pai despontam no caminho, e a quantidade aumenta a cada passo. A maioria são primos da família Samos, promovidos por nossa declaração de independência. Alguns parentes mais próximos, os irmãos do meu pai e seus filhos, reivindicaram títulos de príncipes para si, mas o restante se contentou, como sempre, a viver do nome e das ambições do meu pai. Cores brilhantes se destacam entre o tradicional preto e prata, um indicativo óbvio da reunião de hoje. Embaixadores de outras Casas rebeldes vieram negociar com o reino de Rift, ou melhor, se ajoelhar. A Casa Iral vai argumentar. Tentar barganhar. Os silfos pensam que seus segredos podem lhes garantir uma coroa, mas o poder é a única coisa de valor aqui. Força é a única moeda de troca. E eles abriram mão de ambos ao entrar no nosso território.
Os representantes de Haven vieram, sombrios banhando-se na luz do sol, enquanto os dobra-ventos de Laris se mantêm juntos, usando amarelo. Eles já juraram lealdade ao meu pai e contribuíram com o poderio da Força Aérea, tomando o controle da maioria das bases. Me preocupo mais com a Casa Haven. Elane não fala sobre isso, mas sente falta da sua família. Alguns já juraram lealdade aos Samos, mas não todos, incluindo seu pai, e ela se entristece ao ver a Casa rachar. Na verdade, acho que esse é o motivo de não ter vindo até aqui comigo. Elane não consegue suportar a casa dividida. Gostaria de poder fazê-los se ajoelhar diante dela.
Com a luz da manhã, o Prolongar do Sol ainda é impressionante com seu piso liso de pedras do rio e a visão arrebatadora do vale. O rio Devoto é uma faixa azul sobre o verde sedoso, curvando-se preguiçoso até a tempestade distante.
A coalizão não chegou ainda, dando tempo para Tolly e eu tomarmos nossos lugares nos respectivos tronos. O de Tolly fica à direita de papai e o meu, à esquerda de mamãe. São todos feitos de aço da melhor qualidade, polido até refletir como um espelho. São gelados, por isso digo a mim mesma para não tremer enquanto sento.
Sinto arrepios mesmo assim, a maioria antecipando a sensação. Sou a princesa Evangeline de Rift, da Casa Samos. Pensava que meu destino era ser rainha de outra pessoa, sujeita à coroa de outra pessoa. Isso é muito melhor. Era o que deveríamos ter feito desde o princípio. Quase me arrependo dos anos desperdiçados aprendendo a ser esposa de alguém.
Meu pai entra na sala com uma multidão de conselheiros, inclinando a cabeça para escutá-los. Ele não fala muito por natureza. Seus pensamentos são reservados para si mesmo, mas ouve bem, levando tudo em consideração antes de tomar decisões. Não como Maven, o rei tolo, que seguia apenas sua bússola quebrada.
Minha mãe entra a seguir, sozinha, com seu verde tradicional, sem damas nem conselheiros. As pessoas abrem um amplo espaço para sua passagem. Provavelmente por causa da pantera negra andando atrás dela. O animal acompanha seu ritmo, saindo de perto apenas quando chegam ao trono. Ela vem até mim, aconchegando a cabeça enorme no meu tornozelo. Por costume, me mantenho imóvel. O controle da minha mãe sobre as criaturas é bem forte, mas não perfeito. Já vi seus animais de estimação arrancarem pedaços de muitos criados, por vontade dela ou não. A pantera então volta para perto da minha mãe, sentando à esquerda dela, entre nós duas. Ela repousa a mão resplandecente de esmeraldas na cabeça do animal, acariciando sua pelagem negra e sedosa. O felino gigantesco pisca lentamente, com seus olhos redondos e amarelos.
Encontro os olhos da minha mãe e ergo uma sobrancelha.
— Bela entrada.
— Fiquei entre a pantera e a píton — ela retruca. As esmeraldas brilham na coroa em sua cabeça, habilmente encrustadas na prata. Seu cabelo cai perfeitamente, como uma cortina preta, grossa e macia. — Mas não consegui achar um vestido que combinasse com a cobra. — Ela gesticula para os jades cobrindo seu vestido de chiffon. Duvido que essa seja a razão, mas não preciso falar em voz alta. Suas maquinações ficarão claras em breve. Esperta como é, minha mãe tem pouco talento para subterfúgios. Suas ameaças são diretas. Meu pai é um bom par nesse sentido. Está sempre se movendo nas sombras, ainda que suas manobras levem anos.
Mas, por enquanto, ele está exposto à luz do dia. Seus conselheiros se afastam ao aceno de sua mão e ele sobe para sentar conosco. É uma visão poderosa. Sua antiga túnica negra foi abandonada. Como Ptolemus, veste roupas brocadas com fios de prata. Posso sentir a armadura sob seu traje real. Cromo. Exatamente igual à coroa em sua cabeça. Nada de joias para meu pai. Elas não têm utilidade para ele.
— Primos de ferro — ele diz com tranquilidade, procurando os vários rostos de Samos na multidão.
— Reis de aço! — gritam em resposta, erguendo os punhos. A força daquilo faz meu peito vibrar.
Em Norta, nas salas do trono de Whitefire ou de Summerton, alguém sempre gralhava o nome do rei, anunciando sua presença. Assim como no caso das joias, meu pai não se importa com tais demonstrações. Todos aqui sabem nosso nome. Repeti-lo apenas demonstraria fraqueza, sede por reafirmação. Meu pai não é fraco nem precisa disso.
— Comecem — ele diz. Seus dedos tamborilam no braço do trono e as portas pesadas de metal no fim do salão se abrem.
Os embaixadores são poucos, mas de alta patente. São os líderes de suas Casas. Lord Salin de Iral parece usar todas as joias que faltam em meu pai, com um largo colar de rubis e safiras se espalhando de ombro a ombro. Sua túnica balança na altura dos tornozelos, estampada com padrões vermelhos e azuis em igual proporção. Seria fácil tropeçar, mas um silfo da Casa Iral não se preocupa com isso. Ele se move com uma graça letal, seus olhos pretos focados. Lord Salin faz o que pode para ficar à altura da memória de sua predecessora, Ara Iral. Seus acompanhantes são silfos também, tão extravagantes quanto ele. Fazem parte de uma bela Casa, com pele bronze e cabelos pretos exuberantes. Sonya não está entre eles. Eu a considerava uma amiga na corte, tanto quanto era possível. Não sinto sua falta, e provavelmente é melhor que não esteja aqui.
Os olhos de Salin se estreitam ao avistar a pantera ao lado da minha mãe, no momento ronronando diante de suas carícias. Ah. Eu tinha esquecido. A mãe dele, assassinada recentemente, era chamada de Pantera na juventude. Bem sutil, mãe.
Seis sombrios de Haven ficam visíveis, com a expressão decididamente menos hostil. No fundo da sala, percebo Elane chegando. O rosto dela permanece nas sombras, ocultando sua dor de qualquer outra pessoa na multidão. Gostaria que estivesse sentada ao meu lado. Mas, mesmo que minha família tenha sido mais do que favorável a seu respeito, isso nunca poderá acontecer. Ela vai sentar ao lado de Tolly um dia. Não ao meu.
O pai de Elane, Lord Jerald, é o líder da delegação de Haven. Como ela, tem cabelo vermelho e a pele radiante. Aparenta ser mais jovem do que é de fato, maquiado por sua habilidade natural de manipular a luz. Se sabe que sua filha está no fundo da sala, não demonstra.
— Majestade. — Salin Iral inclina a cabeça apenas o suficiente para ser educado.
Meu pai não se inclina. Apenas seus olhos se movem, percorrendo os embaixadores.
— Senhores. Senhoras. Bem-vindos ao reino de Rift.
— Agradecemos a hospitalidade — Jerald responde.
Quase posso ouvir meu pai ranger os dentes. Ele detesta perda de tempo, e tais cordialidades com certeza estão nessa categoria.
— Bem, vocês viajaram até aqui. Espero que seja para confirmar sua lealdade.
— Nós nos comprometemos a apoiar sua coalizão para destronar Maven — Salin diz. — Não a isso.
Meu pai suspira.
— Maven foi destronado em Rift. Com a nossa aliança, podemos conquistar mais.
— Mas você será rei. Teremos um ditador no lugar de outro. — Murmúrios se espalham pela multidão, mas permanecemos em silêncio enquanto Salin cospe suas bobagens.
Minha mãe se inclina para a frente.
— É muito injusto comparar meu marido àquele príncipe podre que não deveria ter sentado no trono do pai.
— Não ficarei parado enquanto confisca uma coroa que não é sua — Salin rosna em resposta.
Minha mãe estala a língua.
— Uma coroa que você não teve a ideia de tomar? É uma pena que a Pantera tenha sido assassinada. Ela pelo menos teria se preparado para isso. — Minha mãe continua alisando o predador brilhante ao seu lado. A pantera rosna baixo, exibindo as presas.
— O fato permanece — meu pai interrompe. — Mesmo com Maven se debatendo, seu Exército e seus recursos são vastos o suficiente para nos sobrepujar. Especialmente agora que Lakeland se uniu a ele. Mas juntos podemos nos defender. Contra-atacar com força. Esperar que mais do seu reino caia. Esperar que a Guarda Escarlate…
— A Guarda Escarlate. — Jerald cospe no nosso belo piso. Seu rosto muda de cor quando o sangue prateado sobe. — Você quer dizer Montfort. O verdadeiro poder por trás daqueles terroristas. Outro reino.
— Tecnicamente… — Tolly começa a falar, mas Jerald prossegue.
— Começo a achar que você não se importa com Norta, apenas com seu título e sua coroa. Quer manter qualquer parte da nação para si, enquanto criaturas maiores a devoram — Jerald estoura. Na multidão, Elane se retrai e fecha os olhos. Ninguém fala com meu pai desse jeito.
A pantera rosna de novo, acompanhando o temperamento de minha mãe, que agora está furiosa. Meu pai apenas se recosta no trono, observando a ameaça ecoar por toda a sala.
Depois de um momento de agitação, Jerald se ajoelha.
— Peço desculpas, majestade. Eu me expressei mal. Não foi minha intenção… — Ele para de falar sob o olhar atento do rei, as palavras morrendo nos seus lábios carnudos.
— A Guarda Escarlate nunca terá lugar aqui. Não importa quem os apoie — meu pai diz, resoluto. — Vermelhos são inferiores, estão abaixo de nós. É assim que funciona. A própria natureza sabe que somos seus mestres. Por que mais seríamos prateados? Por que mais seríamos deuses, se não para governá-los?
Os primos da família Samos vibram:
— Reis de aço!
— Se os sanguenovos querem se aliar a insetos, deixe-os. Se querem dar as costas para nosso estilo de vida, deixe-os. Quando se voltarem contra nós, para lutar contra a natureza, nós os mataremos.
O apoio aumenta, espalhando-se da nossa Casa para a Casa Laris. Mesmo alguns nas delegações aplaudem ou acenam em concordância. Duvido que já tenham visto Volo Samos falar tanto. Meu pai guarda sua voz e suas palavras para momentos importantes.
Este com certeza é um deles.
Apenas Salin permanece parado. Seus olhos escuros se destacam, rodeados por um contorno negro.
— Não foi sua filha que deixou uma terrorista escapar? Ela não massacrou quatro prateados de uma Casa nobre no caminho?
— Quatro membros da Casa Arven, que haviam jurado lealdade a Maven. — Minha voz estala como a ponta de um chicote. Lord Iral vira o rosto para mim e me sinto eletrificada, quase levantando do trono. Essas são minhas primeiras palavras como princesa, finalmente ditas em uma voz que é realmente minha. — Quatro soldados que arrancariam cada pedaço de qualquer um de nós se o rei perturbado deles mandasse. Está de luto por eles, meu senhor?
Salin fecha a cara.
— Estou de luto pela perda de uma refém valiosa, nada mais. E obviamente questiono sua decisão, princesa.
Mais uma gota de escárnio na sua voz e corto sua língua.
— A decisão foi minha — meu pai diz, neutro. — Barrow era uma refém valiosa. Nós a tiramos de Maven. — E a deixamos solta na praça, como uma fera fora da jaula. Me pergunto quantos soldados reais Barrow derrubou naquele dia. O suficiente para concretizar o plano do meu pai, para encobrir nossa própria fuga.
— E agora ela está solta por aí! — Salin grita, perdendo a calma cada vez mais.
Meu pai não demonstra sinais de interesse e declara o óbvio:
— Barrow está em Piedmont, é claro. E asseguro a você que era mais perigosa sob o comando de Maven do que jamais será com eles. Nossa preocupação deveria ser eliminar o garoto, não radicais destinados ao fracasso.
Salin empalidece.
— Fracassar? Eles dominaram Corvium. Controlam uma vasta parte de Piedmont, usando um príncipe prateado como marionete. Se isso é fracasso…
— Eles querem igualar o que é desigual por princípio — minha mãe fala com frieza e sinceridade. — É tolice, uma equação impossível. Só pode terminar em derramamento de sangue. E vai terminar. Piedmont vai se reerguer. Norta expulsará os demônios vermelhos. O mundo continuará girando.
Todos os argumentos parecem morrer ali. Como meu pai, ela se recosta no trono, satisfeita. Não está cercada pelo familiar silvo de cobras, mas a grande pantera ronrona sob seu toque.
Meu pai continua no seu ritmo, ansioso para dar o golpe definitivo.
— Nosso foco é Maven. Lakeland. Extirpar o rei do seu novo aliado o deixará vulnerável, mortalmente vulnerável. Vocês vão nos apoiar em nossa jornada para livrar o país desse veneno?
Lentamente, Salin e Jerald trocam olhares. A adrenalina corre pelas minhas veias. Eles vão se ajoelhar. Precisam fazer isso.
— Vocês apoiarão a Casa Samos, a Casa Laris, a Casa Lerolan…
Uma voz o interrompe. A voz de uma mulher, ecoando de lugar nenhum.
— Você acha que tem o direito de falar por mim?
Jerald retorce as mãos, em movimentos rápidos. Todos no salão engasgam, inclusive eu, quando uma terceira embaixadora aparece do nada entre os integrantes das Casas Iral e Haven. Sua Casa está atrás dela, dezenas de pessoas em roupas vermelhas e laranja, como o sol poente. Como uma explosão.
Minha mãe dá um pulo, surpresa pela primeira vez em muitos, muitos anos. A adrenalina se transforma em estacas de gelo, resfriando meu sangue.
A líder da Casa Lerolan dá um passo ousado à frente. Parece séria. Os cabelos grisalhos estão presos em um coque perfeito e seus olhos queimam como bronze. Ela não conhece a palavra medo.
— Não vou apoiar um rei de Samos enquanto um herdeiro dos Calore viver.
— Sabia que estava sentindo cheiro de fumaça — minha mãe murmura, afastando a mão da pantera. A criatura fica imediatamente tensa, levantando com as garras para fora.
Ela apenas dá de ombros, sorrindo.
— É fácil falar, Larentia, agora que me vê aqui de pé. — Os dedos dela tamborilam a lateral do corpo. Observo com atenção. Ela é uma oblívia, capaz de explodir as coisas com o toque. Aproximando-se o suficiente, pode obliterar meu coração dentro do peito ou meu cérebro dentro do crânio.
— Sou uma rainha…
— Eu também. — Anabel Lerolan abre um sorriso largo. Apesar de suas roupas serem elegantes, ela não usa nenhuma joia, nem mesmo uma coroa. Nada de metal. Meu punho se fecha. — Não vamos abandonar meu neto. O trono de Norta pertence a Tiberias VII. Nossa coroa é de chamas, não de metal.
A raiva do meu pai se acumula como um trovão e cai como um raio. Ele levanta do trono, com um dos punhos cerrados. Os reforços de metal que sustentam a sala se retorcem, rugindo sob a força de sua fúria.
— Tínhamos um acordo, Anabel! — ele rosna. — Barrow em troca do seu apoio.
Ela apenas pisca.
Do outro lado, ouço meu irmão acusar, entredentes:
— Você esqueceu como a Guarda assumiu o controle de Corvium? Não viu seu neto lutando contra seus semelhantes em Archeon? Como o reino pode apoiá-lo agora?
Anabel não se move. Seu rosto permanece calmo, com uma expressão sincera e paciente. Ela parece uma velhinha bondosa em todos os trejeitos, exceto pelas ondas de ferocidade que emana. Espera que meu irmão prossiga, mas, quando ele não o faz, assume a fala.
— Obrigada, príncipe Ptolemus, por pelo menos não insistir na mentira ultrajante sobre o assassinato do meu filho e o exílio do meu neto. Ambos os crimes cometidos pelas mãos de Elara Merandus, ao contrário do que a máquina de propaganda do reino espalha. Sim, Tiberias fez coisas terríveis. Mas seu intuito era sobreviver. Depois que demos as costas para ele, que o abandonamos. Depois que seu próprio irmão, envenenado pela mãe, tentou matá-lo na arena como um criminoso. Uma coroa é o mínimo que devemos lhe oferecer como desculpas.
Atrás dela, os representantes de Iral e Haven se mantêm firmes. Uma cortina de tensão cai sobre a sala. Todos a sentem. Somos prateados, nascidos para a força e o poder. Fomos treinados para lutar, para matar. Ouvimos o tique-taque do relógio em cada coração, numa contagem regressiva para o derramamento de sangue. Olho para Elane, que aperta os lábios em uma linha sinistra.
— O Rift é meu — meu pai rosna, soando como uma das feras da minha mãe. O barulho faz meus ossos vibrarem e no mesmo instante me sinto uma criança de novo.
Não tem o mesmo efeito sobre a velha rainha. Anabel apenas inclina a cabeça para o lado. Raios de sol cintilam nas mechas ferrosas e lisas do seu cabelo, preso na altura da nuca.
— Então fique com ele — a velha responde dando de ombros. — Como você disse, tínhamos um acordo.
Simples assim, o redemoinho que ameaçava engolir a sala desaparece. Alguns dos primos, além de Lord Jerald, voltam a respirar.
Anabel estende as mãos em um gesto aberto.
— Você é o rei de Rift, e que tenha um reinado longo e próspero. Mas meu neto é o rei de Norta por direito. E precisará de todos os aliados que pudermos reunir para reconquistar o trono.
Mesmo meu pai não previa essa virada. Anabel Lerolan não ia à corte havia muitos anos, sempre optando por permanecer em Delphie, o território de sua Casa. Ela desprezava Elara Merandus e não aguentava ficar perto dela; talvez a temesse.
Suponho que, agora que a rainha murmuradora se foi, a velha rainha oblívia pode voltar. E de fato voltou.
Digo a mim mesma para não entrar em pânico. Meu pai pode ter sido pego de surpresa, mas não vai se render. Controlamos Rift. Estamos em casa. Não entregaremos a coroa. Foram apenas algumas semanas, mas não admito a ideia de perder o que conquistamos. O que mereço.
— Me pergunto como você pretende devolver o poder a um rei que não quer o trono — meu pai reflete. Ele junta as pontas dos dedos e analisa Anabel. — Seu neto está em Piedmont…
— Meu neto é um agente forçado da Guarda Escarlate, que no momento é controlada pela República Livre de Montfort. O líder deles, o autointitulado primeiro-ministro, é um homem bem razoável — ela acrescenta, falando como se estivesse discutindo a previsão do tempo.
Meu estômago se revira e me sinto um pouco enjoada. Algo em mim, um instinto primitivo, grita para que eu a mate antes que continue.
Meu pai ergue uma sobrancelha.
— Você tem contato com ele?
A rainha Lerolan dá um pequeno sorriso.
— O suficiente para uma negociação. E tenho falado com meu neto com mais frequência ultimamente. É um rapaz talentoso, muito bom com máquinas. Ele me procurou num momento de desespero, me pedindo apenas uma coisa. E, graças a você, meu neto a conseguiu.
Mare.
Meu pai estreita os olhos.
— Ele tem conhecimento dos seus planos, então?
— Terá.
— E Montfort?
— Estão ansiosos para se aliar a um rei. Apoiarão uma guerra para restaurar o nome de Tiberias VII.
— Do mesmo jeito que se aliaram a Piedmont? — Se ninguém mais vai apontar a loucura do que ela está dizendo, serei obrigada a isso. — O príncipe Bracken dança conforme a música deles. Os relatórios indicam que tomaram seus filhos. Está disposta a permitir que seu neto seja uma marionete?
Vim aqui sedenta para ver os outros se ajoelhando. Permaneço no trono, mas me sinto vulnerável diante de Anabel enquanto ela sorri.
— Como sua mãe disse de forma tão eloquente, eles querem igualar o que é desigual por princípio. A vitória é impossível. Os prateados não podem ser dominados.
Até a pantera está em silêncio, observando o debate com olhos atentos. Sua cauda se move devagar. Noto sua pelagem, escura como a noite. Um abismo exatamente igual àquele diante do qual estamos. Meu coração bate forte em um ritmo exausto, bombeando tanto medo quanto adrenalina pelo meu corpo. Não sei para que lado meu pai penderá. Não sei o que virá em seguida. Minha pele se arrepia.
— É claro — Anabel acrescenta — que o reino de Norta e o reino de Rift seriam ligados por uma aliança. E pelo casamento.
Perco o chão. Preciso de cada grama de esforço e orgulho para permanecer no meu trono gélido. Você é de aço, sussurro na minha cabeça. Não se curva nem se quebra.
Mas já posso me sentir fazendo a reverência, cedendo à vontade do meu pai. Ele vai me trocar sem nem pensar, se isso significar manter a coroa. O reino de Rift, o reino de Norta… Volo Samos vai se agarrar ao que puder. Se o segundo estiver fora de alcance, fará o máximo para manter o primeiro. Mesmo que isso signifique quebrar sua promessa. Me vender mais uma vez. Minha pele formiga. Pensei que tudo isso tinha ficado para trás. Sou uma princesa agora, e meu pai é um rei. Não preciso casar com ninguém por uma coroa. Ela está no meu sangue, em mim.
Não, isso não é verdade. Você ainda precisa do seu pai. E do nome dele. Nunca será dona de si mesma.
O sangue pulsa no meu ouvido, rugindo como um furacão. Não ouso procurar Elane. Eu prometi. Ela casou com meu irmão para que nunca nos separássemos. Cumpriu sua parte da barganha, mas e agora? Eles vão me mandar para Archeon. Ela vai ficar aqui como esposa de Tolly e, um dia, sua rainha. Quero gritar. Quero levantar desse trono, estilhaçá-lo e usá-lo para derrubar cada um nesta sala. Incluindo eu mesma. Não posso aceitar isso. Não posso viver assim.
Tive algumas semanas da sensação mais próxima da liberdade que já conheci; não posso deixar isso escapar. Não quero voltar a viver segundo as ambições de alguém.
Respiro, tentando conter a raiva. Não acredito em nenhum deus, mas rezo.
Diga não. Diga não. Diga não. Por favor, pai, diga não.
Ninguém olha para mim, e esse é meu único alívio. Ninguém me vê desmanchando lentamente. Eles só têm olhos para o meu pai. Tento me desligar. Colocar a dor em uma caixa e guardá-la bem no fundo. É fácil fazer isso quando se está treinando ou numa luta. Mas nesse momento é quase impossível.
É claro. Rio de tristeza por dentro. Seu destino sempre foi este, não importava o que acontecesse. Fui criada para casar com o herdeiro da Casa Calore. Fisicamente. Mentalmente. Fabricada para isso. Como um castelo ou um túmulo. Minha vida nunca foi minha e nunca será.
As palavras do meu pai fincam pregos no meu coração. Cada uma é uma nova explosão de lamento sangrento.
— Ao reino de Norta. E ao reino de Rift.

27 comentários:

  1. Essa velha é muito esperta!
    Mais e a mare? Na visão de jhon ele viu um rei prateado e uma rainha vermelha

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    1. Mare e cal ♡♡♡
      Só acho...

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    2. É claro! Cal é de Mare e Mare é dele, eles TEM que se casar!

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    3. Vai saber se na visão o rei prateado n era o Maven.
      Amo e odeio o Maven kkkkk
      Mas msm assim n qr ele e a Mare n kkkk
      Ainda teremos outro livro ( pelo q dizem) e vai q as coisas mudam de nv

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  2. Karaca que rainha fdp meu Deus do céu, nossa as autoras tão combinando , parece até a Celeste, quando eu começo a gostar dela a baixa morre , agora a Evangeline começa a me agradaresponde acontece essa merda.

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    1. caraca achei que só eu tinha lembrado da celeste qnd a Eve salvou a Meri hsauhsa

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    2. Sempre achei elas duas parecidas kkk acho que é por isso que imagino Evangeline de cabelos pretos

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  3. Putz...
    Isso que eu chamo de uma família moderna e evoluída
    Tenho medo dessa véia (Mãe da Eve)

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  4. Só sei dizer AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA puta merda

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  5. Só tenho a dizer: Annabel eu te venero ❤️❤️❤️❤️

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    1. Concordo, mas essa história de casamento?! Cal é de Mare!

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  6. E eu aqui pensando que já tá no fim do livro e ainda tem muita treta pra acontecer...

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  7. Vihis, acho que essa Evangeline é uma sapatão. Prefiro Cal e Mare.

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    1. Evangeline é LÉSBICA, olha o preconceito, cara

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    2. Acho que ela é bi mais misericórdia as pessoas não estão mas nem apontando o dedo para preconceito direito, estão apontando para dizer que é preconceito sendo que não se ve nada demais! O que o Nazaro quis dizer é que pelo gosto da Evangeline ele acha que ela nunca vai gostar do Cal oq concordaria se acha-se que ela é lesbica mais acho que é bi e que poderia sim gostar de cal por algumas partes do livro... Tambem prefiro Cal e Mare não pela opção sexsual dele (acho que ate isso tem que explicar) mais por que ele sempre gostou dela e ela aprendeu a gostar dele, Evangeline não é o que eu esperava e espero que ela tenha um final feliz mais não no desmanche de um casal bonito como o Cal e Mare.

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  8. Uma familia pra lá de evoluída tds sabem q Evangeline e Elane se amam,o irmão gosta da Wren os pais são egocêntricos so pensam em poder e usar os filhos pra isso como alguém pode ser normal.....

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  9. Cal não vai aceitar. Ele ama a Mare, e mesmo com a aliança, nunca aceitaria isso... ah, tô amando os capítulos da Eve, ela era meio vadia no início mas é uma vilã que a gente gosta. Tô super shippando ela e a Elane ❤

    ~Bella~

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    1. Eu tb...❤ sei lá, Cal é tão... Certinho...e se ele sair da guarda po causa disso? E ter guerra? Do jeito que essa autor o é, n duvido

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  10. E a Evangeline perde a coroa pela 3 vez

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  11. Ah meo o Cal tem que casar com a Mare ♥️

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  12. Cal tem que casar com a Mare e ponto! Cal e Mare ❤ Mare e Cal ❤

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  13. Em um reino o amor não importa e sim as alianças.
    Acho que se for imposto a Cal se casar com Evangeline ele aceita. Ele foi criado pra reinar e pôr o reino à frente das suas necessidades, será que depois de 1 ano ele vai ir contra o que aprendeu a vida toda? 😞

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  14. Eu acho q o cal escolheria a mare enves da coroa , mas vai q da merda dai a autora da um jeito de o cal ter q escolher a coroa e se casar com eve senão a mare morre. So eu acho suspeito o sumisso de maven?
    Eu qurero o cal com a mare!

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  15. Amo odiar a Evangeline.Mas minha vilã favorita é a Celeste.Tive um mini ataque cardíaco com o que aconteceu com ela.

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  16. Oi, pessoal, tbm fiquei chateada com o que meu pai fez. Mas eu tô achando que agora eu quero é pegar a Mare, aquela gostosa. Vou confessar, meu coração fica eletrizado por ela, se é que me entendem kkkkkkkkkkkkkk

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Boa leitura :)