13 de março de 2017

Capítulo vinte e três

MINHA VOZ ECOA DE UM JEITO ESTRANHO na ampla antecâmara do abrigo. A tempestade de Rift chegou até nós, e uma mistura pesada de neve e chuva uiva do outro lado da nossa parede de terra. O frio a acompanha, mas Cal faz o máximo para afugentá-lo. Os habitantes do Furo se amontoam, tentando se esquentar na fogueira que ele acendeu no chão. Cada par de olhos reflete a luz das chamas, formando um enorme conjunto de joias vermelhas e alaranjadas. Reluzem cada movimento do fogo, e estão sempre fixos em mim. São quinze pares ao todo. Além de Cameron, Cal, Farley e meu irmão, os adultos do Furo vieram ouvir o que tenho a dizer.
Sentados ao lado de Ada estão Ketha, Harrick e Nix.
Fletcher, um curandeiro de pele imune a dor, estende as mãos pálidas perto demais da fogueira. Gareth o puxa para trás antes que se queime. Também estão presentes Darmian, invulnerável como Nix, e Lory, das ilhas rochosas de Kentosport.
Até Kilorn dá a graça da sua presença, sentado ao lado dos seus parceiros de caça, Crance e Farrah.
Felizmente, nenhuma das crianças veio. Não vão tomar qualquer parte nisso, e continuarão na segurança que posso lhes oferecer, por mais precária que seja.
Nanny as mantém no quarto, entretendo-as com suas transformações, enquanto qualquer um acima dos dezesseis me ouve falar sobre o que descobrimos a caminho de Pitarus. Estão sentados, muito atentos, com expressões de choque, medo ou determinação.
— Jon disse que quatro dias seria tempo demais. Então precisamos fazer isso em três.
Temos três dias para invadir uma prisão, e três dias para planejar. Tive mais de um mês de treinamento duro com os prateados, e anos nas ruas de Palafitas. Cal é soldado de nascença, Shade passou mais de um ano no exército, e Farley é capitã por mérito próprio, embora não tenha nenhum poder. Mas e os outros? Quando corro os olhos pelas pessoas reunidas no Furo, minha determinação vacila. Se ao menos tivéssemos mais tempo... Ada, Gareth e Nix são nossas melhores apostas, já que seus poderes são mais adequados para uma invasão, e estão aqui há mais tempo. Os outros são poderosos — Ketha é capaz de destruir objetos num piscar de olhos —, mas lamentavelmente inexperientes.
Estão aqui há apenas alguns dias, uma semana no máximo, vindos de sarjetas e vilarejos esquecidos onde não eram ninguém. Enviá-los para a luta é como deixar uma criança dirigir um veículo. Eles serão um perigo para todos, especialmente para si próprios.
Todos sabem que é burrice, que é impossível, mas ninguém diz nada. Até Cameron tem o bom senso de manter a boca fechada. Ela olha fixamente para o fogo, recusando-se a levantar a cabeça. Não posso observá-la por muito tempo. Ela me dá muita raiva, e muita tristeza.
É exatamente o que eu estava tentando evitar.
Farley é a primeira a falar.
— Mesmo se esse tal Jon falou a verdade sobre o poder dele, não há prova de que o que disse é verdade. — Ela faz uma pausa e se inclina para a frente, ganhando contornos agudos e sombrios contra a luz da fogueira. — Ele pode ser um agente de Maven. Disse que Elara ia começar a controlar os sanguenovos. E se ela estiver controlando Jon? Usando-o para nos atrair para uma armadilha? Ele disse que Maven ia armar alguma coisa. Não poderia ser isso?
Sentindo que estou perdendo o chão, vejo alguns concordarem com ela. Crance, Farrah e Fletcher. Espero que Kilorn fique do lado de seus companheiros de caça, mas ele se mantém imóvel e calado. Como Cameron, não quer me encarar.
Sinto calor por todos os lados. Na minha frente, está a fogueira; atrás, Cal, encostado numa parede de terra. Ele irradia calor como uma fornalha, mas permanece quieto como um túmulo.
Sabe que é melhor não falar.
Muitos o toleram aqui só por minha causa, ou por causa das crianças, ou pelos dois. Não posso me apoiar nele para angariar soldados. Preciso conseguir sozinha.
— Acredito nele. — As palavras parecem estranhas na minha boca, mas são sólidas como rocha. Essas pessoas insistem em me tratar como líder, então vou agir como líder. E vou convencê-las a me seguir. — Vou para Corros, quer seja uma armadilha ou não. Os sanguenovos de lá só têm duas opções: ou vão morrer ou serão usados pela manipuladora que todos chamam de rainha. Ambos são destinos inaceitáveis.
Cochichos em concordância se espalham entre as pessoas que estou tentando conquistar. Gareth as lidera, assentindo, mostrando lealdade. Ele viu Jon com os próprios olhos e, como eu, não precisa ser convencido de nada.
— Não vou forçar ninguém a ir. Como antes, vocês todos têm uma escolha.
Cameron balança um pouco a cabeça, mas não diz nada. Shade se mantém perto dela, sempre ao alcance do braço, caso ela decida fazer mais alguma coisa idiota.
— Não vai ser fácil — continuo —, mas não é impossível.
Se eu repetir isso várias vezes, talvez comece a acreditar.
— Como assim? — Crance intervém. — Se ouvi você direito, essa prisão foi construída para manter gente como você presa. Não vamos ter que atravessar apenas barras e portas trancadas. Haverá observadores em cada portão, um pelotão de agentes prateados, um arsenal, câmeras, Pedras Silenciosas... isso se você tiver sorte, garota elétrica.
Ao lado dele, Fletcher engole em seco. Esse homem pálido e parrudo pode até não sentir dor, mas com certeza sente medo.
— E se você não tiver sorte? — Crance continua.
— Pergunte a ela — digo, inclinando a cabeça na direção de Cameron. — Ela escapou.
Os suspiros admirados se espalham pela multidão como ondas na superfície de um lago. É bom poder relaxar um pouco agora que não sou mais o centro das atenções.
Por outro lado, Cameron fica tensa. Seus braços e pernas longas parecem se encolher, como se quisessem se proteger de tantos olhares.
Até Kilorn ergue a cabeça, mas ele não procura Cameron. Seus olhos me encontram encostada na parede. Todo o meu alívio vai embora, substituído por um toque de outra emoção que não consigo descrever.
Não é medo, não é raiva. Não, é outra coisa. Saudade. A luz cambaleante do fogo e a tempestade lá fora me permitem fingir que somos apenas garotos encolhidos debaixo de uma palafita, buscando refúgio do vento do outono. Será que existe alguém capaz de controlar o tempo e me trazer aqueles anos de volta? Me apegaria a eles com todo cuidado, em vez de reclamar do frio e da fome. Agora sinto o mesmo frio, a mesma fome, mas nenhum cobertor é capaz de me esquentar, nenhuma comida é capaz de me saciar. Nada mais vai ser igual. E a culpa é minha. E Kilorn me seguiu nesse pesadelo.
— Ela fala? — Crance caçoa quando cansa de esperar Cameron abrir a boca.
Farley ri.
— Até demais para o meu gosto. Vamos, Cole, conte tudo de que se lembra.
Espero Cameron explodir de novo ou morder o nariz de Farley, mas o público acalma seu temperamento. Ela nota meu truque, mas isso não o impede de funcionar.
Há muitos olhos esperançosos a encarando, muitos desejos para serem pisoteados. Ela não pode ignorá-los agora.
— É depois de Delphie — ela suspira. Seus olhos escurecem com a lembrança dolorosa. — Em algum lugar perto de Wash, tão perto que dá até para sentir o cheiro da radiação.
Wash é parte da fronteira sul de Norta, uma divisão natural entre nós e Piedmont e os príncipes prateados que reinam lá. Como Naercey, é uma terra em ruínas, destruída há tempo demais para que algum prateado a reclame para si. Nem mesmo a Guarda Escarlate ousa caminhar por lá, onde a radiação persiste e a fumaça de mil anos atrás ainda paira.
— Eles nos mantinham isolados. Um em cada cela — Cameron continua. — Muitos não tinham força para nada além de ficar deitado no leito. Algo naquele lugar deixava as pessoas doentes.
— Pedra Silenciosa — respondo a pergunta que nem foi feita, porque lembro daquela sensação. Duas vezes fiquei presa numa cela assim, e nas duas vezes elas pareciam sugar minha força.
— Pouca luz, pouca comida. — Ela se ajeita no chão, com os olhos concentrados nas chamas. — Também não podíamos conversar muito. Os guardas não gostavam que a gente falasse, e estavam sempre de patrulha. Às vezes, os sentinelas vinham e levavam pessoas. Algumas estavam fracas demais para andar e tinham que ser arrastadas. Mas acho que o bloco em que fiquei não estava completamente cheio. Via várias celas vazias. — Com essas palavras, ela perde o fôlego. — Cada vez mais vazias, a cada droga de dia.
— Descreva a estrutura — Farley diz, dando um cutucão em Harrick, e compreendo seu raciocínio.
— Os sanguenovos pegos na região de Beacon ficavam no mesmo bloco. Era um quadrado grande, com quatro andares de celas. Passarelas conectavam os andares, todas emaranhadas, e magnetrons as recolhiam de noite. Faziam o mesmo nas celas, se precisassem abrir. Magnetrons por todo lado — ela reclama, e não a culpo por sua raiva. Provavelmente não havia homens como Lucas Samos na prisão, nenhum magnetron bondoso como o que morreu por mim em Archeon. — Nada de janelas, mas havia uma claraboia no teto. Pequena, mas dava para ver o sol por alguns minutos.
— Assim? — Harrick pergunta, esfregando as mãos.
Diante dos nossos olhos, em cima da fogueira, surge uma de suas ilusões, uma imagem girando devagar. Uma caixa feita de tênues linhas verdes. Quando meus olhos se ajustam ao que veem, percebo que é um esboço tridimensional do bloco de Cameron na prisão.
Ela fixa os olhos na ilusão e a percorre por inteiro.
— Maior — murmura, e os dedos de Harrick saltam. A ilusão acompanha. — Mais duas passarelas. Quatro portões no andar mais alto, um em cada parede.
Harrick faz o que ela pede, manipulando a imagem até Cameron ficar satisfeita.
Ele quase sorri. É fácil para ele, uma brincadeira simples, como desenhar. Observamos o esboço em silêncio, cada um de nós pensando em como entrar.
— Um poço — Farrah geme, enterrando a cabeça entre as mãos. De fato, o bloco parece simplesmente um buraco quadrado.
Ada é menos negativa, e está mais interessada em dissecar a prisão o máximo que pode.
— Para onde dão os portões?
Com um suspiro, Cameron relaxa os ombros.
— Mais blocos. Não sei quantos são no total. Passei por três antes de sair.
A ilusão muda com o acréscimo de mais blocos ao lado do de Cameron. A imagem é o mesmo que um soco no estômago. Tantas celas, tantos portões. Tantos lugares onde tropeçar e cair. Mas Cameron escapou.
Cameron, que não tem treinamento nem ideia do que é capaz.
— Você disse que havia prateados na prisão — Cal fala pela primeira vez desde que começamos a reunião, e seu ar é sombrio. Ele não quer chegar perto da luz do fogo. Por um momento, parece a sombra que Maven dizia ser. — Onde?
Uma gargalhada agressiva, raivosa, áspera como pedra no metal, escapa de Nix. Ele ergue um dedo acusador, como se desse uma facada.
— Por quê? Quer soltar seus amigos das jaulas? Mandar essa gente de volta para suas mansões e festinhas? Argh! Que apodreçam lá! — Antes de continuar, ele abana a mão na direção de Cal e solta outra risada, tão fria quanto a tempestade lá fora. — Você devia deixar esse aí para trás, Mare. Melhor ainda, devia mandá-lo embora. Ele só quer proteger os que são iguais a ele.
Minha boca é mais rápida que meu cérebro, mas, desta vez, estão de acordo.
— Cada um de vocês sabe que isso é mentira. Cal já sangrou por todos aqui e protegeu cada um de nós, isso sem falar do treinamento que ofereceu à maioria de vocês. Se ele está perguntando dos outros prateados em Corros, tem um motivo, e não é libertá-los.
— Na verdade...
Viro para o lado, e minha surpresa reverbera no ambiente.
— Você quer mesmo libertá-los?
— Pense: eles estão trancafiados porque desafiaram Maven ou Elara ou ambos. Meu irmão subiu ao trono em circunstâncias estranhas, e muitos não acreditam nas mentiras que a mãe dele conta. Alguns têm a inteligência de não demonstrar, de esperar o momento certo, mas outros não. Então suas tramoias na corte acabam em prisão. E, claro, há aqueles como eu e meu tio Julian, que explicou a Mare o que ela era. Ele ajudou a Guarda Escarlate, salvou Kilorn e Farley da execução, e seu sangue é prata reluzente. Ele também está naquela prisão, com outros que acreditam na igualdade além da cor do sangue. Não são nossos inimigos, não agora — ele argumenta, descruzando os braços e gesticulando sem parar, tentando nos fazer ver o que o soldado dentro dele vê. — Se soltarmos os prateados de Corros, será o caos. Eles vão atacar os guardas e fazer tudo o que puderem para escapar. É uma distração melhor do que qualquer um de nós pode oferecer.
Até Nix murcha, intimidado pela sugestão tão rápida e decisiva de Cal. Embora o odeie e o culpe pela morte das filhas, não pode negar que o plano é bom. Talvez o melhor que vamos conseguir.
— Além disso... — Cal acrescenta, retornando às sombras. Dessa vez, suas palavras são endereçadas somente a mim. — Julian e Sara estão presos com os prateados, não com os sanguenovos.
Ah. Na minha pressa, até esqueci que o sangue deles não é da mesma cor que o meu, que os dois também são prateados.
Cal prossegue, tentando explicar:
— Lembre do que eles são e do que sentem. Não são os únicos a ver a ruína deste mundo.
Não são os únicos. A lógica me diz que ele deve estar certo. Afinal, no meu tempo limitado com os prateados, conheci Julian, Cal, Sara e Lucas, quatro prateados que não eram tão cruéis quanto imaginava. Devem existir mais. Como faz com os sanguenovos de Norta, Maven está eliminando essas pessoas, jogando opositores e adversários políticos na cadeia para apodrecerem e serem esquecidos.
Os lábios de Cameron tremem, demonstrando preocupação e deixando entrever seus dentes brilhantes.
— Os blocos dos prateados são iguais aos nossos, e se alternam como numa colcha de retalhos. Um prateado, um sanguenovo, e assim por diante.
— Xadrez — Cal murmura, acenando com a cabeça. — Isso os mantém separados. É mais fácil de controlar, mais fácil de combater. E a sua fuga?
— Eles nos faziam caminhar uma vez por dia, para que não morrêssemos. Alguns guardas riam disso, dizendo que as celas nos matariam se não nos deixassem sair um pouco. Os outros não conseguiam nem arrastar o pé direito, quanto mais lutar. Mas eu não. As celas não me deixavam doente.
— Porque elas não afetam você — Ada diz, com uma voz controlada, estável e bondosa na medida certa. Ela soa tanto como Julian que até me surpreende. Por uma fração de segundo, retorno à sala de aula dele, cheia de livros, e sou eu que estou sendo examinada. — Seus poderes silenciadores são tão fortes que as medidas usuais não se aplicam a você. Efeito anulador, acho. Um silêncio contra outro.
Cameron dá de ombros, sem se interessar.
— Se você diz.
— Então você fugiu durante a caminhada — Cal murmura, mais para si que para os outros. Está pensando em cada etapa, se colocando no lugar de Cameron, imaginando a prisão quando ela escapou, para poder descobrir uma maneira de entrar. — Os observadores não viram o que você planejava fazer, então não conseguiram impedir. Eles guardavam os portões, certo?
Ela faz que sim, decidida.
— Um em cada bloco. Peguei a arma dele, baixei a cabeça e corri.
Crance solta um assobio baixo, impressionado com a coragem dela. Mas Cal não se impressiona tão fácil.
— E os portões? Apenas magnetrons podem abrir.
Ao ouvir isso, Cameron sorri, nervosa.
— Parece que os prateados já não são tão burros para deixar o controle de cada cela e portão nas mãos de um punhado de manipuladores de metal. Há uma trava para abrir as portas, caso não haja nenhum magnetron por perto. Ou para fechar tudo com pedra, se um deles decidir não se comportar.
Isso é culpa minha, percebo. Usei Lucas contra as celas no Palacete do Sol. Maven está garantindo que ninguém mais possa fazer o mesmo.
Cal lança um olhar para mim, pensando exatamente a mesma coisa. Então volta a perguntar:
— E você tem a chave?
Ela balança a cabeça e, em vez de responder, aponta para o pescoço. A tatuagem é preta, mais escura que a pele dela. Sinal de que é uma técnica, uma escrava das fábricas e da fumaça.
— Sou mecânica — ela começa, agitando os dedos curvados. — Trancas têm engrenagens e fios. Só um idiota precisa de chave para botar uma coisa dessas para funcionar.
Cameron pode ser insuportável, mas com certeza é útil. Até eu tenho que reconhecer isso.
— Fui recrutada, apesar de ter um emprego em Cidade Nova — ela continua, baixando o tom de voz.
— A prisão, Cameron — digo a ela. — Precisamos nos concentrar...
— Lá todo mundo trabalha. Antes, a gente não podia entrar para o exército, mesmo se quiséssemos. — Ela me interrompe, com a voz mais forte e mais alta. Reagir seria começar uma competição de gritos. — As Medidas mudaram isso. Foi uma loteria. Um em vinte, para todos entre quinze e dezessete. Meu irmão e eu fomos escolhidos. Coincidência, não é?
— Menos de três por cento de chance — Ada sussurra.
— Separaram nós dois. Fui com a Legião Beacon para o Forte Patriota, e Morrey foi para a Legião Adaga. É o que faziam com todo mundo que causava problema, mesmo que só tivesse olhado torto para um oficial. A Legião Adaga é pena de morte, vocês sabem. Cinco mil crianças que tiveram coragem para lutar e que vão acabar na vala comum.
Meus dentes rangem. A lembrança das ordens militares queima viva e reluzente na memória.
— É uma marcha direto para a morte depois que saírem de Corvium. Uma carnificina. Direto para as trincheiras e para o coração do Gargalo. Mandaram Morrey para lá porque ele quis abraçar nossa mãe pela última vez.
Meu tênue controle enfraquece. Vejo cada rosto conforme meus sanguenovos vão digerindo as palavras de Cameron. Ada é a pior; ela me encara sem piscar. Não é um olhar rude, mas de dúvida. Ela está fazendo o possível para evitar que sua opinião obscureça seus olhos, mas não funciona. O fogo arde no centro do chão, transformando o branco dos seus olhos em dourado e vermelho.
— Há sanguenovos naquela prisão, e prateados também. — Cameron sabe que os tem sob controle, e aperta o laço. — Mas há cinco mil crianças, cinco mil meninos e meninas vermelhos prestes a desaparecer para sempre. Vocês vão deixar esses cinco mil morrerem? Vocês seguem essa garota — ela joga a cabeça na minha direção — e seu príncipe de estimação?
Os dedos de Cal se contorcem bem perto de mim, mas afasto a mão. Não aqui. Todos sabem que dividimos o quarto; nem sei o que mais imaginam. Não vou dar a Cameron mais munição do que ela já tem.
— Ela diz que vocês têm escolha, mas não sabe o que essa palavra quer dizer. Fui trazida para cá como fui levada de casa por um legionário, como fui levada uns dias depois por sentinelas. A garota elétrica não dá escolha.
Ela espera que eu me defenda da acusação, mas seguro a língua. Parece uma derrota, e ela sabe disso muito bem. Atrás de seus olhos, as engrenagens já começaram a rodar. Ela já me atingiu antes, e pode atingir de novo. Então por que está aqui? Podia silenciar todos e ir embora. Por que ficar?
— Mare salva pessoas. — A voz de Kilorn soa diferente, mais velha. A dor da saudade retorna ao meu peito. — Mare salvou todos e cada um de vocês da prisão ou da morte. Ela se arriscou todas as vezes que entrou nas suas cidades. Não é perfeita, mas não é um monstro, muito longe disso. Confiem em mim — ele acrescenta, ainda se recusando a me encarar. — Já vi monstros. E vocês também verão, se deixarmos os sanguenovos dependendo da misericórdia da rainha. Então ela fará vocês se matarem uns aos outros, até não sobrar ninguém vivo para lembrar o que eram.
Misericórdia, quase bufo. Elara não tem nenhuma.
Não espero que as palavras de Kilorn tenham muito peso, mas estou redondamente enganada. Os outros o veem com respeito e atenção. Não da mesma maneira que me veem. Não; comigo seus olhos estão sempre manchados de medo. Sou uma general para eles, uma líder, mas Kilorn é um irmão. Eles o amam como jamais amariam Cal ou mesmo eu. Eles o escutam.
E então a vitória de Cameron cai por terra. Simples assim.
— Vamos transformar a prisão em pó — Nix troveja, pondo a mão no ombro de Kilorn. Aperta forte demais, mas o pescador não reage. — Eu vou.
— E eu.
— E eu.
— Eu também.
As vozes ecoam na minha cabeça. Tenho mais voluntários do que poderia esperar: Gareth, Nix, Ada, a explosiva Ketha, o outro rolo compressor invulnerável Darmian, Lory e seus sentidos aguçados, e Nanny, claro, que já tinha se comprometido a ir. Os que ficaram em silêncio — Crance, Farrah, Fletcher e o ilusionista Harrick — se agitam nos assentos.
— Ótimo — digo, dando um passo à frente, olhando para eles da maneira mais firme que consigo. — Vamos precisar de vocês aqui, para evitar que as crianças botem fogo na floresta. E para protegê-las, se alguma coisa acontecer.
Alguma coisa. Outro ataque, um ataque com força máxima, que poderia se transformar numa carnificina de todos que me esforcei tanto para salvar. Mas ficar aqui é menos perigoso do que ir para Corros, e eles soltam suspiros discretos de alívio.
Cameron os vê relaxar com uma expressão de inveja. Ficaria com eles se pudesse, mas, nesse caso, quem a treinaria? Quem a ensinaria a controlar seus poderes... e a usá-los?
Não Cal, e com certeza não eu. Ela não gosta do preço, mas vai pagar.
Tento encarar cada um dos voluntários, na esperança de encontrar determinação ou foco. Em vez disso, encontro medo, dúvida e, pior de tudo, arrependimento. Antes mesmo de começarmos. O que não daria agora pela Guarda Escarlate esfarrapada de Farley, ou até pelos soldados de Lakeland do coronel? Pelo menos eles têm algum fio de fé na causa, quando não em si mesmos.
Preciso acreditar por todos nós. Preciso vestir a máscara mais uma vez e ser a garota elétrica que precisam. Mare pode esperar.
Vagamente, pergunto a mim mesma se algum dia terei chance de ser Mare de novo.
— Preciso que você descreva tudo de novo — Cal diz, apontando para Cameron e em seguida para a ilusão giratória do presídio de Corros. — Quanto ao restante, comam bem e treinem o melhor que puderem. Quando a tempestade melhorar, quero ver vocês todos lá fora.
Os outros prestam atenção, incapazes de desobedecer. Assim como aprendi a falar como uma princesa, Cal sempre soube falar como um general. Ele ordena. É nisso que é bom, é para isso que serve. E, agora que tem uma missão, um objetivo além de resgatar e treinar, todo o resto desaparece. Até eu. Como os outros, eu o deixo murmurando seus planos. Seus olhos de bronze brilham contra a luz fraca da ilusão, como se a imagem o tivesse enfeitiçado. Harrick fica lá, cumprindo seu papel de sustentar a miragem.
Não sigo os sanguenovos para as profundezas do Furo, para os túneis e buracos onde podem praticar sem machucar uns aos outros. Em vez disso, encaro a tempestade, deixando uma rajada fria da chuva me atingir de frente. O calor de Cal some imediatamente, abandonado atrás de mim.
Sou a garota elétrica.
As nuvens estão escuras e giram com o peso da neve e da chuva. Um ninfoide acharia fácil manipulá-las, assim como um tempestuoso prateado. Quando era Mareena, mentia e dizia que minha mãe era uma tempestuosa da Casa Nolle. Ela podia influenciar o clima, assim como eu podia controlar a eletricidade. E no Ossário, invoquei raios do céu para despedaçar o escudo de Maven e proteger Cal e eu dos soldados que se aproximavam. Aquilo me enfraqueceu, mas sou mais forte agora. Preciso ser mais forte agora.
Aperto os olhos contra a chuva, ignorando o golpe de cada gota congelante. Elas penetram meu grosso casaco de inverno, esfriando meus dedos da mão e do pé. Mas não os deixam dormentes. Sinto tudo, desde a teia pulsante sob a minha pele até a coisa além das nuvens, batendo devagar como um coração negro. Dedos de eletricidade estática despontam da tormenta que não enxergo, até se unirem em nuvens baixas de chuva. Os pelos da minha nuca se arrepiam quando uma nova tempestade toma forma, estalando de energia. Uma tempestade elétrica. Cerro o punho, apertando com força o que criei, na esperança de fazê-lo ressoar.
O primeiro raio é suave, tocando o vale, brevemente visível através da bruma da chuva e da neve; o trovão mal chega a ser um rugido. O próximo sai mais forte, cintilando roxo e branco. A cena me faz resfolegar, tanto de orgulho como de exaustão. Cada rajada de raio parece brilhar dentro de mim, mas drena tanto poder quanto libera.
— Você não tem mira.
Kilorn está encostado na entrada do Furo, tomando cuidado para permanecer o mais seco que pode. Longe do fogo, ele parece mais rígido e magro do que nunca, embora esteja se alimentando tanto quanto em Palafitas.
As longas caçadas e a raiva constante cobraram seu preço.
— Acho que é melhor assim, já que você insiste em treinar com aquilo tão perto de casa — ele acrescenta, apontando para o vale. À distância, um pinheiro alto fumega. — Mas, se pretende melhorar, faça um favor a todos nós e se enfie na floresta.
— Resolveu falar comigo agora? — provoco, tentando esconder minha falta de ar.
Forço a vista para enxergar a árvore fumegante. Um raio fraco desce a cem metros de distância, bem depois de onde eu estava mirando.
Um ano atrás, Kilorn teria rido dos meus esforços e me provocado até eu reagir. Mas ele amadureceu, assim como o seu corpo. Seu ar infantil está desaparecendo — antes eu o odiava, agora choro sua perda.
Ele sobe o capuz do casaco e esconde o cabelo mal cortado. Ele se negou a deixar Farley raspá-lo como ela usa, e Nix testou seus dons, deixando Kilorn com cachos castanho-avermelhados desiguais.
— Você vai me deixar ir para Corros? — ele pergunta afinal.
— Você se voluntariou.
O sorriso que corta o seu rosto é tão branco quanto a neve que cai à nossa volta. Gostaria que ele não quisesse tanto isso. Gostaria que ele me escutasse e ficasse aqui.
Mas Cal diz que Kilorn respeita as minhas decisões.
Então preciso respeitar as dele.
— Obrigada por me defender lá dentro — continuo, sincera em cada palavra.
Ele inclina a cabeça para tirar o cabelo dos olhos. Começa a cutucar a parede de barro atrás de si e dá de ombros, fingindo desinteresse.
— Era de se esperar que você aprendesse a convencer as pessoas depois daquele monte de aulas com os prateados. Mas você é bem burrinha.
Nossas risadas se fundem num som que reconheço de dias passados. Neste momento, somos diferentes de quem somos hoje, mas somos os mesmos de sempre. Fazia semanas que não conversávamos, e não me dei conta do quanto senti a falta dele. Por um momento, penso em desabafar, mas me seguro. Dói guardar as coisas, não contar sobre os bilhetes de Maven, ou sobre os rostos mortos que vejo todas as noites, ou como os pesadelos de Cal me mantêm acordada. Quero contar tudo. Ele conhece Mare como ninguém, assim como conheço o pescador Kilorn. Mas essas pessoas são do passado. Essas pessoas devem ser do passado. Não podem sobreviver num mundo como este. Preciso ser outra pessoa, alguém que não se apoia em nada além da própria força. Com Kilorn, é fácil me voltar a ser Mare e esquecer a pessoa que preciso ser.
O silêncio se estende, suave como a neblina da nossa respiração no ar frio.
— Se você morrer, eu te mato.
Ele abre um sorriso triste.
— Digo o mesmo.

14 comentários:

  1. "O silêncio se estende, suave como a neblina da nossa respiração no ar frio.
    — Se você morrer, eu te mato.
    Ele abre um sorriso triste.
    — Digo o mesmo."

    Momento meio triste au mesmo tempo bonito ='D

    Letícia.

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    1. Aquele momento "Bons Tempos" e "velhos amigos" kkk
      Queria que os dois voltassem a ser como eram, um pouco mais "afetuosos". Fazer o que? A guerra muda qualquer um :P ~polly~

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  2. Shippo Kilorn e Mare <3

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  3. — Mare salva pessoas. — A voz de Kilorn soa diferente, mais velha.
    VELHA? Achei que o kilorn era menino:) kkkkk
    Mas tudo bem, o livro é muito grande. Não tem como não errar.

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    1. A voz dele soa velha. Voz velha. Não Kilorn velha :P

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  4. Queria q o Kilorn beijasse ela

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  5. "Preciso ser outra pessoa" essa frase parece do OLIVER QUEEN de ARROW

    ass:J Carstairs

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  6. Nao sei exatamente o motivo, mas esta saga me deixa na bad T-T

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    1. aqui tbm o/
      muito problema kkk

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  7. "Lucas morreu por mim"
    So pra te lembrar mare vc que fez ele morre naquele dia que Julian epnotiso ele
    Se liga, niguem ta querendo de salvá tao morrendo pq vc causa isso

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  8. Shippo Cal e Mare❤ amando o livro

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  9. Shippo Cal com Mare❤ amando o livro

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  10. To muito mais do lado da Cameron...
    Fala sério, os saguenovos são fortes mas não são as coisas mais importantes do mundo.
    A mare vai acabar virando uma nova Elara, isso sim

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Boa leitura :)