3 de março de 2017

Capítulo vinte e três

QUANDO O NAVIO APORTA NAS DOCAS DA MARGEM OESTE e pisamos em terra firme, já é noite.
Em casa, isso significa desligar a força e ir para a cama, mas em Archeon é diferente. A cidade parece brilhar ainda mais quando o resto do mundo escurece. Fogos de artifício estouram sobre nós fazendo chover luz sobre a ponte. No topo de Whitefire, uma bandeira vermelha e negra é hasteada. O rei voltou ao trono.
Felizmente não há mais nenhum evento para sofrer. Somos recepcionados por veículos blindados que nos levam das docas. Para minha alegria, Maven e eu temos um veículo só para nós, acompanhados apenas por dois sentinelas. O príncipe indica os pontos turísticos à medida que avançamos e explica praticamente cada estátua e esquina. Chega até a mencionar sua padaria favorita, embora fique do outro lado do rio.
— A ponte e Archeon Leste são para civis, os prateados comuns, embora muitos sejam mais ricos que alguns nobres.
— Prateados comuns? — pergunto quase aos risos. — Existe isso?
Maven apenas dá de ombros.
— Claro. São comerciantes, executivos, soldados, oficiais, donos de lojas, políticos, proprietários de terras, artistas e intelectuais. Alguns chegam às Grandes Casas por meio do casamento, outros chegam a crescer em status, mas nenhum tem sangue nobre, e seus poderes não são, digamos, tão interessantes.
Nem todo mundo é especial, Lucas me falou certa vez. Não sabia que ele se referia também aos prateados.
— Já o resto de Archeon está destinado à corte e ao rei — prossegue Maven enquanto passamos por uma rua cheia de adoráveis casas de pedra, árvores bem podadas e flores. — Todas as Grandes Casas possuem casas aqui, para ficar perto do rei e do governo. Na verdade, o país inteiro pode ser controlado deste monte em caso de necessidade.
Ele explica o local. A margem oeste é extremamente íngreme, de modo que o palácio e os outros prédios governamentais ficam no topo do monte, com vista para a ponte. Outra muralha cerca o pico, isolando o coração do país. Tento não babar quando passamos pelo portão e nos deparamos com uma praça de lajotas, do tamanho de uma arena. Maven a chama de Praça de César, em memória ao primeiro rei de sua dinastia. Julian já tinha mencionado brevemente o rei César. Nossas aulas nunca foram muito além do Primeiro Cisma, quando vermelho e prateado se tornaram muito mais do que cores.
O Palácio de Whitefire ocupa o lado sul da praça, ao passo que as cortes, o tesouro e os centros administrativos ficam com o resto. Há um conjunto de quartéis militares, a julgar pelas tropas se exercitando no pavilhão. É a Legião das Sombras de Cal, que viajou até a cidade antes de nós. Um conforto para a nobreza, foi como Maven os chamou. Soldados dentro dos muros, para nos proteger caso ocorra outro ataque.
Apesar da hora, a praça pulsa em atividade: as pessoas correm em direção a uma construção rigorosa perto dos quartéis. Bandeiras rubro-negras decoradas com a espada símbolo do Exército pendem de suas colunas. Avisto apenas um pequeno palanque armado diante do prédio com um pódio cercado de holofotes brilhantes e uma multidão crescente.
De repente, as câmeras recaem sobre nosso veículo de modo mais pesado que o habitual para mim. Elas nos acompanham ao longo da fila de carros que passa perto do palco. Por sorte continuamos a avançar e passamos através de um arco para um pequeno pátio. Então paramos.
— O está acontecendo? — pergunto em voz baixa, agarrando o braço de Maven.
Até agora tinha conseguido controlar o medo, mas entre as luzes, as câmeras e a multidão, minha tranquilidade começa a ruir.
Maven suspira pesadamente, mais entediado do que outra coisa.
— Meu pai vai fazer um pronunciamento. Apenas tomar a espada em punho para manter as massas felizes. O que o povo mais ama é um líder que promete vitórias.
Maven desce do carro de braços dados comigo. Apesar da maquiagem e das roupas, me sinto nua. Estamos aqui para uma transmissão. Milhares, milhões verão isto.
— Não se preocupe. Só precisamos ficar de pé com a cara fechada — ele cochicha em meu ouvido.
— Acho que Cal já fez essa parte — digo, indicando com a cabeça o local onde o príncipe remói a sua raiva ainda agarrado à cintura de Evangeline.
Maven ri consigo mesmo.
— Ele acha pronunciamentos uma perda de tempo. Cal gosta de ações, não de palavras.
Somos dois, penso, mas não quero admitir nenhum ponto em comum com o príncipe mais velho. Talvez um dia tenha pensado nisso, mas agora não. Nunca mais.
Um secretário gesticula enfaticamente para nós. Sua roupa é azul e cinza, as cores da Casa Macanthos. Talvez ele tenha conhecido a coronel, talvez seja seu irmão, seu primo.
Não, Mare, censuro a mim mesma. Este é o último lugar para você perder o controle.
O secretário sequer nos olha quando assumimos nossos lugares atrás de Cal e Evangeline, com o rei e a rainha na ponta. É estranho, mas Evangeline não exibe a postura fria de sempre. Dá para ver que suas mãos tremem. Está com medo. Queria os holofotes, queria ser noiva de Cal, mas está com medo. Por quê?
E logo estamos caminhando para um edifício com sentinelas e espectadores demais para contar. O interior tem uma estrutura funcional: mapas, escritórios e salas de reunião em vez de quadros ou salões. Pessoas com uniformes cinza se agitam pelos corredores, embora parem para nos deixar passar. A maioria das portas está fechada, mas consigo ver de relance o interior de algumas salas. Oficiais e soldados analisam mapas da frente de batalha e discutem a distribuição das tropas. Outra sala me faz sentir uma eletricidade tremenda e parece conter cem monitores, cada um deles operado por um soldado em uniforme de batalha. Eles falam em microfones acoplados a fones de ouvido e berram ordens para lugares distantes. As palavras são diferentes, mas o sentido é o mesmo.
— Defendam a linha.
Cal se detém à entrada da sala de vídeo e estica o pescoço para enxergar melhor. De repente, a porta se fecha em sua cara. Ele bufa, mas não reclama e volta à fila com Evangeline.
Ela lhe diz algo em voz baixa, mas ele a repele, para minha satisfação.
Meu sorriso, porém, desaparece quando voltamos ao centro dos holofotes, aos degraus externos do edifício. Uma placa de bronze na porta diz “Comando de Guerra”. Aqui é o coração das forças armadas: cada soldado, cada exército, cada arma é controlada daqui de dentro. Meu estômago dá voltas com a quantidade de energia, mas não posso me descontrolar, não diante de tanta gente. O brilho do flash das câmeras fotográficas ofusca minha visão.
Quando abro os olhos, ouço uma voz em minha cabeça.
O secretário bota um papel em minhas mãos. Uma lida rápida basta para me dar vontade de gritar. Agora sei por que me salvaram.
— Faça por merecer sua permanência — sussurra a voz de Elara em minha mente. Ela me encara do outro lado, se esforçando para não abrir um sorriso maldoso.
Maven segue o olhar diabólico da mãe e percebe o papel em minha mão trêmula. Devagar, ele enlaça os dedos nos meus, como se pudesse me passar sua força. Meu único desejo é rasgar o papel no meio, mas o príncipe me mantém firme.
— Você precisa — é tudo que diz, tão baixo que mal o escuto. — Precisa.


— Meu coração está de luto pelas vidas perdidas, mas sei que não foram perdidas em vão. Seu sangue alimentará nossa determinação e nos estimulará a superar as dificuldades à frente. Somos uma nação em guerra há um século, e estamos acostumados com obstáculos no caminho da vitória. Os responsáveis serão encontrados, e esta doença que chamam de rebelião jamais ganhará corpo em meu país.
O monitor em meu novo quarto é tão útil quanto um barco sem casco: só repete o nauseante discurso do rei da noite passada. Agora já consigo recitar o texto inteiro, palavra por palavra, mas sou incapaz de parar de assistir. Porque sei o que vem depois.
Meu rosto parece estranho na tela, frio e pálido demais. Não consigo acreditar que mantive o rosto sério ao ler as palavras. Quando piso no pódio e assumo o lugar do rei, sequer tremo.
— Fui criada por vermelhos. Acreditava ser uma deles. E experimentei diretamente a bondade de nossa majestade, o rei, o comportamento justo dos nobres prateados e o grande privilégio que nos concedem. O direito de trabalhar, de servir nosso país, de viver e viver bem.
No vídeo, Maven põe a mão em meu braço e concorda com a cabeça durante meu discurso.
— Agora sei que nasci prateada, uma integrante da Casa Titanos e, um dia, princesa de Norta. Meus olhos se abriram. Um mundo com que nunca sonhei existe, e é invencível. É misericordioso. Esses terroristas, esses assassinos da pior espécie, tentam destruir o pilar da nossa nação. Não podemos permitir.
Na segurança do meu quarto, suspiro profundamente. O pior está por vir.
— Em sua sabedoria, o rei Tiberias escreveu as Medidas, para eliminar a doença dessa rebelião e proteger os bons cidadãos de nossa pátria. A partir de hoje, um toque de recolher ao pôr do sol entra em vigor para todos os vermelhos. A segurança será dobrada em cada vilarejo e cidade vermelha. Novos postos de vigilância serão construídos nas estradas e guarnecidos com o máximo de homens. Todos os crimes cometidos por vermelhos, inclusive desrespeito ao toque de recolher, serão punidos com a morte. E — minha voz vacila pela primeira vez com estas palavras — a idade de recrutamento será rebaixada para quinze anos. Qualquer pessoa que fornecer informações que levem à captura de membros da Guarda Escarlate ou à prevenção de suas atividades será recompensada com dispensa do serviço militar para até cinco membros da família.
É uma manobra terrível e brilhante. Os vermelhos vão se matar pelas dispensas.
— As Medidas serão mantidas até a doença conhecida como Guarda Escarlate ser destruída.
Encaro meus próprios olhos na tela, observando o momento em que evito engasgar durante o discurso. Meus olhos crescem na esperança de que meu povo entenda o que tento dizer.
Palavras podem mentir.
— Vida longa ao rei — é minha última frase.
A raiva se expande em ondas pelo meu corpo, ocasionando um curto-circuito no monitor, substituindo meu rosto por uma tela negra. Mas ainda vejo cada uma das novas ordens em minha mente. Mais soldados em patrulha, mais pessoas executadas, mais mães chorando filhos que lhes foram roubados. Matamos dozes deles e eles matam mil de nós. Parte de mim sabe que esses golpes vão atrair alguns para o lado da Guarda, mas muitos vão se aliar ao rei. Por sua vida, pela dos filhos, vão abrir mão da pequena liberdade que ainda tinham.
Pensei que ser marionete deles seria fácil comparado ao resto. Estava muito enganada. Mas não posso deixar essa gente me abater, não agora. Não agora que meu próprio destino se desdobra no horizonte. Tenho que fazer tudo o que posso até identificarem meu sangue e o jogo terminar para mim. Até me tirarem da frente das câmeras e me matarem.
Pelo menos minha janela tem vista para o rio, para a parte sul que deságua no mar. Ao olhar para a água, não consigo ignorar meu futuro desaparecendo. Meus olhos acompanham suavemente a corrente que termina na mancha negra no horizonte. Enquanto o resto do céu está claro, nuvens escuras pairam ao sul sem nunca se afastar da terra proibida na costa. As Ruínas. Fogo e radiação consumiram a cidade uma vez e nunca a deixaram. Agora não passa de um fantasma negro fora de alcance, uma relíquia do antigo mundo.
Parte de mim deseja que Lucas bata à porta e me apresse para iniciar o novo horário, mas ele ainda não voltou. Deve estar mais seguro sem mim.
O presente de Julian está encostado contra a parede, uma dura lembrança de outro amigo perdido. É um pedaço do mapa gigante emoldurado em vidro. Quando o levanto, algo cai da parte de trás da moldura.
Eu sabia.
Meu coração dispara loucamente. Agacho na esperança de encontrar algum bilhete secreto de Julian. Mas não encontro nada além de um livro.
Apesar da frustração, não contenho o sorriso. É óbvio que Julian me deixaria outra história, outro conjunto de palavras para me confortar, já que ele não pode mais fazer isso.
Abro a capa do livro na esperança de encontrar novas histórias, mas o que vejo são palavras escritas à mão no topo da página de rosto. Vermelho e prateado. São os garranchos inconfundíveis de Julian.
O olhar das câmeras em meu quarto bate em minhas costas, lembrando-me de que não estou sozinha. Julian sabia disso. Gênio.
O livro parece normal, um estudo chato sobre relíquias descobertas em Delphie, mas escondido entre as palavras, no mesmo tipo de letra, há um segredo que vale a pena ser contado. Levo muito tempo para encontrar todas as linhas acrescentadas, de modo que fico muito feliz por ter acordado tão cedo. Por fim, junto todas. E o que leio me faz até esquecer de respirar.

Dane Davidson, soldado vermelho, Legião da Tempestade, morto em patrulha de rotina, corpo nunca recuperado, 1o de agosto de 296 NE. Jane Barbaro, soldado vermelho, Legião da Tempestade, morta por fogo amigo, corpo cremado, 19 de novembro de 297 NE. Pace Gardner, soldado vermelho, Legião da Tempestade, executado por insubordinação, corpo extraviado, 4 de junho de 300 NE.

A lista tem mais nomes e abrange os últimos vinte anos. Todos os soldados nela foram cremados, tiveram o corpo perdido ou “extraviado”. Como alguém pode extraviar o cadáver de um executado não faço ideia. O nome ao fim da lista faz meus olhos se encherem de lágrimas.

Shade Barrow, soldado vermelho, Legião da Tempestade, executado por deserção, corpo cremado, 27 de julho de 320 NE.

O texto de Julian vem depois do nome do meu irmão. É como se ele estivesse próximo de novo, dando sua aula lenta e calmamente.

De acordo com a lei militar, todos os soldados vermelhos devem ser enterrados em cemitérios no Gargalo. Soldados executados não têm funeral e jazem em valas comuns.
A cremação não é usual. Corpos extraviados são inexistentes. E, no entanto, encontrei vinte e sete nomes, inclusive o do seu irmão, que sofreram esse destino.
Todos morreram em patrulha, mortos pelo inimigo ou por suas próprias unidades, quando não foram executados por acusações sem fundamento. Todos foram transferidos para a Legião da Tempestade semanas antes de morrer. E todos os corpos foram destruídos ou perdidos de algum modo. Por quê? A Legião da Tempestade não é um esquadrão da morte: centenas de vermelhos servem sob o comando do general Eagrie sem mortes estranhas. Então por que matar esses vinte e sete?
Pela primeira vez fiquei feliz pela existência da base sanguínea. Embora estejam “mortos” há tempos, suas amostras de sangue são mantidas. E agora devo me desculpar, Mare, por não ter sido inteiramente honesto com você. Confiou em mim para treiná-la e ajudá-la. Foi o que fiz, mas também ajudei a mim mesmo. Sou um homem curioso, e você foi a coisa mais curiosa que já vi na vida. Não pude me controlar. Comparei sua amostra de sangue com a deles e descobri um marcador idêntico em todos que os diferencia das pessoas.
Não me surpreende ninguém ter percebido, pois não estavam procurando por isso. Mas agora que descobri, foi fácil encontrar. Seu sangue é vermelho, mas não é o mesmo. Há algo novo em você, algo que ninguém jamais viu. E que os outros vinte e sete também tinham. Uma mutação que pode ser a chave do mistério.
Você não é a única, Mare. Não está sozinha. É simplesmente a primeira protegida pelos olhos de milhares de pessoas, a primeira que não puderam matar e esconder.
Como os outros, você é vermelha e prateada, e mais forte que ambos.
Você é o futuro. Você é a nova aurora.
E se esses vinte e sete existiram, deve haver outros. Deve haver mais.

Me sinto gelada, dormente. Sinto tudo e nada. Outros como eu.

Usando a mutação em seu sangue, pesquisei o resto da base sanguínea e descobri o mesmo marcador em outras amostras. Inclui todos aqui para que você saiba.
Sei que não preciso lhe dizer a importância desta lista, do que pode significar para você e para o resto do mundo. Repasse a alguém da sua confiança, encontre os outros, treine-os, pois é apenas uma questão de tempo até que alguém menos simpático descubra o que tenho... e os cace.

Suas palavras terminam aqui, seguidas por uma lista que faz minhas mãos tremerem. Há muitos nomes e endereços, todos à espera de serem descobertos. Todos querendo lutar.
Minha mente parece em chamas. Outros. Mais. As palavras de Julian flutuam diante dos meus olhos, queimam minha alma.
Mais forte que ambos.
Aconchego o livrinho no bolso interno do meu casaco, perto do coração. Mas, antes que consiga chegar a Maven para mostrar a descoberta de Julian, Cal me encontra. Ele me encurrala numa sala parecida com aquela em que dançamos, embora a lua e a música já estejam há tempos no passado. Um dia desejei tudo o que ele podia me dar, e agora meu estômago se embrulha só de encará-lo. Cal pode ver o desconforto em meu rosto, não importa o quanto eu tente esconder.
— Você está brava comigo — ele diz. Não é uma pergunta.
— Não estou.
— Não minta — ele rosna com os olhos subitamente em chamas.
Minto desde que conheci você.
— Dois dias atrás você me beijou — ele continua. — Agora não consegue sequer me olhar.
— Sou noiva do seu irmão — digo, me afastando.
Ele desfaz meu argumento com um gesto.
— Isso não impediu você antes. O que mudou?
Vi quem você é de verdade, quero gritar. Você não é o guerreiro bondoso, o príncipe perfeito, nem mesmo o garoto confuso que finge ser. Por mais que se esforce para esconder, é igualzinho a todos eles.
— Tem a ver com os terroristas?
Aperto os dentes com força para corrigi-lo.
— Rebeldes.
— Eles assassinaram pessoas, crianças, inocentes. O que fiz, o que mandei a sentinela fazer, foi por eles, por justiça.
— E o que a tortura trouxe? Você tem nomes? Sabe quantos são? Sabe ao menos o que querem? Você se deu ao trabalho de escutar?
Ele respira fundo e tenta manter a conversa.
— Sei que você tem seus próprios motivos para... simpatizar com eles, mas os métodos deles não podem ser...
— Os métodos são culpa de vocês. Vocês fazem a gente trabalhar, sangrar, morrer em suas guerras e fábricas para terem pequenos confortos que nem notam. Tudo porque somos diferentes. Como esperam que deixemos a situação continuar assim?
Cal hesita contraindo um músculo do rosto. Não tem resposta.
— O único motivo para não estar morta numa trincheira em algum lugar é porque teve pena de mim. O único motivo para você ao menos me escutar é que, por um milagre insano, sou ainda mais diferente.
Sem esforço, a eletricidade se mostra em minhas mãos. Não consigo me imaginar de volta à vida antes de meu corpo vibrar com energia, mas com certeza me lembro dela.
— Você pode acabar com isso, Cal. Você será rei e poderá parar esta guerra. Pode salvar milhares, milhões de gerações da escravidão glorificada, se disser que basta.
Cal cede um pouco. O fogo que ele tenta ao máximo esconder se apaga. Avança até a janela com as mãos nas costas. Diante dele, o sol nascente; atrás, as sombras. Parece dividido entre dois mundos. Sinto em meu coração que está. O pedacinho de mim que ainda se importa com ele quer chegar mais perto, mas não sou tão boba. Não sou uma menininha apaixonada.
— Já pensei nisso uma vez — ele murmura. — Mas causaria revolta dos dois lados, e não serei eu o rei a arruinar este país. Este é meu legado, o legado de meu pai, e tenho um dever com ele.
Um calor lento emana de seu corpo, fazendo o vidro da parede embaçar.
— Você trocaria um milhão de mortes pelo que eles querem? — Cal me pergunta.
Um milhão de mortes. Vêm à minha cabeça o cadáver de Belicos Lerolan com os filhos mortos ao lado. E então outros rostos se juntam a eles: Shade, o pai de Kilorn, todos os soldados vermelhos que morreram na guerra dos prateados.
— A Guarda não vai parar — digo com suavidade, mas sei que ele praticamente não me ouve. — E, embora tenham culpa, vocês também têm. Também há sangue em suas mãos, príncipe.
E nas de Maven. E nas minhas.
Caminho rumo à saída com ele ainda diante da janela. Quero ter a esperança de que mudou, mas sei que as chances são mínimas no melhor dos casos. Cal é como o pai.
— Julian desapareceu, não? — ele pergunta, me fazendo parar.
Dou meia-volta devagar, ruminando o que suas palavras querem dizer.
— Desapareceu? — decido bancar a sonsa.
— A fuga deixou buracos nas memórias de muitos sentinelas, bem como nos registros de vídeo. Meu tio não usa muito seu poder, mas conheço os sinais.
— Você acha que ele os ajudou a fugir?
— Acho — ele diz pesaroso, olhando para as próprias mãos. — Por isso dei tempo para que escapasse.
— Você fez o quê?
Não acredito em meus ouvidos. Cal, o soldado, aquele que sempre cumpre ordens, quebrou as regras por causa de Julian.
— É meu tio, fiz o que pude por ele. Você acha que não tenho coração?
Ele abre um sorriso triste, sem esperar resposta, que me dói na alma.
— Adiei a prisão o máximo que pude, mas todos deixam pistas, e a rainha vai encontrá-lo — ele suspira, apertando a mão contra o vidro. — Ele será executado.
— Você faria isso com seu tio?
Não faço questão de esconder meu nojo. Se Cal vai matar Julian, mesmo depois de deixá-lo fugir, o que fará comigo quando eu for descoberta?
Ele endireita os ombros e assume novamente o ar de soldado. Não quer mais saber de Julian ou da Guarda Escarlate.
— Maven fez uma sugestão interessante.
Por essa eu não esperava.
— Sim?
Ele confirma, estranhamente aborrecido ao pensar no irmão.
— Meu irmão sempre pensou rápido. Herdou isso da mãe.
— Isso é para me assustar?
Sei melhor que ninguém que Maven não é nada parecido com a mãe ou com qualquer outro maldito prateado.
— O que você quer dizer, Cal?
— Você é uma pessoa pública agora — ele desembucha. — Depois do seu discurso, o país inteiro conhece seu nome e seu rosto. E muitos se perguntarão quem e o que você é.
Só posso desprezar a informação e dar de ombros.
— Talvez vocês devessem ter pensado nisso antes de me fazer ler aquele discurso nojento.
— Sou um soldado, não um político. Você sabe que não tive nada a ver com as Medidas.
— Mas vai seguir uma por uma. Sem questionar.
Cal não discute. Com todos os seus defeitos, ele não mentiria para mim. Não agora.
— Todos os seus registros foram removidos. Oficiais, arquivistas, ninguém vai descobrir qualquer prova de que você nasceu vermelha — ele explica de cabeça baixa. — Essa foi a sugestão de Maven.
Apesar da minha raiva, não consigo conter um suspiro de espanto. A base sanguíneaOs registros.
— O que isso quer dizer? — pergunto, juntando todas as forças para não deixar minha voz falhar.
— Seu registro escolar, sua certidão de nascimento, sua impressão sanguínea, até seu cartão de identidade foram destruídos.
Mal consigo ouvir suas palavras com meu coração batendo tão forte. Antes eu o abraçaria no ato. Mas devo permanecer parada. Não posso deixar Cal saber que me salvou novamente.
Não, Cal não. Isso é obra de Maven. Foi a sombra que controlou o fogo.
— Parece a coisa certa a fazer — afirmo, fingindo um ar desinteressado.
Mas minha interpretação termina aí. Depois de uma reverência rígida na direção dele, saio às pressas da sala escondendo meu sorriso enorme.

24 comentários:

  1. To decepcionada com o Cal e amando o Maven
    ~Emy

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. acho que maven da sendo manipulado pela rainha e está manipulando a mare, julian disse uma vez que todos poderiam trair todos, e que ela"mare" estava sendo fantoche de alguém, e esse alguém, creio eu ser o maven.

      Excluir
    2. meu, tenho certeza que o Maven é um bosta. Ele quer alguma coisa.... Sério, ele não me desce, Não acredito nessa pose toda de bom moço.

      Excluir
  2. ACHO QUE O MAVEN É DO MAL, QUE ELA ESTÁ SENDO O PEÃO DESSA HISTORIA TODA, TALVEZ PARA QUE ELE POSSAM ENCONTRAR OS OUTROS QUE SÃO ESPECIAIS COMO ELA.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo. Esse vazamento de gás é treta. E eu acredito que foi ele que tentou matar o irmão com esse vazamento de gás...

      Excluir
    2. Tbm acho o Maven é do mal, não confiu nele

      Excluir
    3. Nao tem como matar o Cal com fogo, mas msm assim nao confio no Maven

      Excluir
  3. Tô amando Maven cada vez mais 😍😍😍 (nunca gostei do Cal, mas estou muito brava com ele por inúmeros motivos). Sei lá, eu acho que quem deveria ser rei, seria Maven, ele com certeza seria um rei melhor do que Cal um dia seria, pois Cal é muito... Rígido, severo, tonto, pode ser até inteligente com essa de batalhas e base de guerra, mas um rei não deve ter somente isso à apresentar (minha opinião).

    ~Amy~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Desculpe ,mas a forma como Marven fala sempre criticando Cal e Manipulando Mare, acredito que ele é o vilão.

      Excluir
  4. Já deu pra notar que Marven é manipulador... e por enquanto pro bem, maaaassss essa intenções são verdadeiras??? Sei não em!!! :/

    ResponderExcluir
  5. Na boa, acho que o Maven tá sendo manipulado pela mãe, que como. consequência está usando a Mare.
    Ainda não me decidi bem entre Maven e Cal, não consigo dicernir bem eles, pra falar a verdade.

    ResponderExcluir
  6. Sei nao, um cara perfeito assim como marven n pode existir, tem coisa ai

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Existe o Maxon de A Seleção rsrsrs
      Mais também não confio completamente no Maven, e no Cal também não. Nunca fui tão indecisa.

      Excluir
  7. Gente vai por mim Maven não presta!

    ResponderExcluir
  8. Cara, vcs estão esquecidos do início do livro? Ou estão lendo um livro diferente? Sério, só pode ser isso. Como assim vcs acham que o Cal é do mal? Foi ele quem deu emprego a Mare pois ficou triste ao ver o que a pobre garota fazia pq não tinha jeito. Ela contou a história da vida dela à ele. Ele encontrou ela pq tinha costume de ir visitar os locais onde os vermelhos moravam, coisa que os outros teriam nojo de fazer. Ele ficou agitado quando o rei pensou em matá-la. Ele não é do mal! E ela gosta dele, é muito na cara isso, desde o início. Não sei porque ficam shippando ela e o Marven, que por sinal, deve ser o malvado da vez. Cara, ele tá manipulando ela!! E a rainha deve está envolvida, pq como assim ela pode ler pensamentos e não descobriu o que tá rolando? Ou ela é muito pateta ou... bom, ele (Marven) quer o trono, não quer ser a sombra do irmão, e viu uma oportunidade pra não perder o que quer. Mare está sendo manipulada, até o Julian (que não gosta do Marven e acha que ele parece com a mãe) alertou ela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo em gênero,número e grau. Acho Cal do bem sim,o fato dele ter obrigações com a família e o Reino não significa que ele seja vilão. Esse é o mundo que ele conhece,ela tem que mostrar o dela.
      E...não gosto do Maven

      Excluir
  9. Amando cada vez o livro .
    # teamCal

    Ass: Apaixonada por livros

    ResponderExcluir
  10. Eu shipo o Mare com o Cal. E sinceramente, não acho que o Marven seja tão bonzinho!!

    ResponderExcluir
  11. Eu sinceramente não SHIPPO mais porr* nenhuma! Vamos lá, ELA poderia muito bem sair sozinha da história, ou com nenhum. Não vou shippar nadenha até eu ter a certeza plena de que ela e ele(seja quem for) fiquem juntos! AAAAAAH Cal as vezes é um babaca estúpido! MAVEN as vezes me assusta cm o jeito dele... sei lá... e pode muito bem ser o vilão então.... sem muitas opções prefiro msm é o KILORN Aquilo sim é q é homem!

    Santo pai* comentei isso memo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Kkkkkkkk
      Bom, eu tô na mesma. Não shippo Mare com ninguém

      Excluir
  12. A Mare tenta colocar em sua própria mente que seu inimigo é Cal. E que Maven é que é seu aliado. Muitas pessoas não entendem Cal. Pensam: Por que ele (Cal) não ajuda Mare e os vermelhos? Simples. Porque Cal, quer ser um bom rei para seu país. Ele já pensou nessa questão de ajudar os vermelhos. Mas os países aliados quebrariam qualquer aliança com Cal. Assim quando houvesse uma guerra, Cal não teria aliados algum. Resultando na morte de muitos vermelhos e prateados, além de seu próprio país ser tomado e destruído por outro país. E pensem: essa bondade de Maven é desconfiável. Ele pode muito bem tramar para tomar o lugar de Cal ou outra coisa. PENSEM: por que a protagonista pensaria que Cal, é seu inimigo e que Maven é que é seu aliado? No final das contas, vai ser uma surpresa para nossa protagonista. Lembrem-se de que os autores gostam de reviravoltas.
    ASS:LUCE SWAN

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim,e ainda é o primeiro livro. Já vou a mocinha ficar com o mocinho no primeiro livro?
      Kkkkkl😉😂😂😂

      Excluir
  13. Por favor !!!!! só eu vejo como Maven é dissimulado? Gente !!!! ele gosta tanto de Mare mais na hora da confusão se protegeu e saiu com sua mãe e foi o Cal quem a encontrou,ele o futuro rei, que pensou mais no proximo do que em si mesmo, que se preocupou com ela e quis ficar e lutar, que certo ou errado luta pelo que acredita e talvez, só talvez, espera realmente ter algum poder para de forma inteligente e organizada possa começar alguma mudança. Maven é bomzinho demais, perfeitinho demais aff, vcs acham que sua mãe tão vaidosa ia aceitar assim o segundo lugar para seu filho e ainda o deixar casar com uma vermelha? pra mim foi ela quem matou a mãe de CAl, não duvido nada. Quero matar Mare por ser tão cega e não confiar nos instintos de julian ou em quem sempre procura ajuda-la de forma mais terna.

    ResponderExcluir
  14. Mano como assim a minha Rainha Vermelha não é a única com poderes?Agora o jogo vira contra a realeza prateada afinal ela é solução encontrada por eles para controlarem a Guarda,não podem mata-la ainda.Ela pode usar isso contra eles enquanto encontra os outros vermelhos prateados com a ajuda do Maven.Sim ainda confio nele e espero que ele não decepcione a mim e a Mare.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)