15 de março de 2017

Capítulo vinte e sete

Mare

NÃO É UMA ARMADILHA NEM UM TRUQUE.
Gisa me sacode algum momento depois da meia-noite para que eu acorde, seus olhos castanhos arregalados e preocupados. Durante o jantar, contei para minha família o que está para acontecer. Como esperado, eles não ficaram exatamente felizes com a minha decisão. Minha mãe apertou a faca o máximo que pôde. Chorou por Shade, uma ferida ainda aberta, e pela minha captura. Disse o quanto eu era egoísta. Me afastando deles mais uma vez.
Mais tarde, ela mudou a abordagem. Pediu desculpas e exaltou o quanto eu era corajosa. Corajosa, teimosa e preciosa demais para me deixar partir.
Meu pai só se fechou, com os nós da mão brancos de tanto apertar a bengala. Somos iguais, ele e eu. Fazemos escolhas e as seguimos, mesmo que sejam erradas.
No final, Bree e Tramy compreenderam. Eles não foram chamados para essa missão. Isso já é um conforto.
— Cal está lá embaixo — Gisa sussurra, com as mãos firmes nos meus ombros. — É hora de ir.
Enquanto sento, já de uniforme, eu a puxo para um último abraço.
— Você faz isso demais — Gisa resmunga, tentando ser engraçada para disfarçar a tristeza. — Vê se volta dessa vez.
Assinto, mas não prometo.
Kilorn nos encontra no corredor, de pijama e com o olhar triste. Ele não vai junto. Corvium está muito além dos seus limites. Esse é outro conforto amargo. Por mais que costumasse reclamar de ter que me preocupar com alguém cuja maior habilidade é dar nós, sentirei sua falta. Sobretudo porque ele me protegeu e me ajudou muito mais do que eu o protegi e ajudei.
Abro a boca para falar tudo isso, mas ele me cala com um beijo rápido na bochecha.
— Nem tente dizer adeus, ou jogo você da escada.
— Tudo bem. — Meu peito aperta, e fica mais difícil respirar a cada degrau.
Todos esperam reunidos, com um olhar sombrio como o de um esquadrão da morte.
Os olhos da minha mãe estão vermelhos e inchados, iguais aos de Bree. Ele me abraça primeiro, me tirando do chão. O gigante deixa um soluço escapar no meu pescoço.
Tramy é mais reservado. Farley está na sala também. Ela abraça Clara com força, ninando-a. Minha mãe vai ficar com ela.
Tudo vira um borrão, por mais que eu queira me agarrar a cada pedacinho desse momento. O tempo passa muito depressa. Minha cabeça gira e, antes que eu perceba o que está acontecendo, estou do lado de fora da porta, descendo os degraus e sendo enfiada dentro do veículo. Meu pai apertou a mão de Cal ou eu imaginei aquilo? Ainda estou dormindo? É um sonho? As luzes da base iluminam a escuridão como estrelas cadentes. Os postes recortam as sombras, iluminando a estrada até o campo de pouso.
Já posso ouvir o rugido dos motores e os gritos dos aviões nos céus.
Na sua maioria, são jatos cargueiros, projetados para transportar um grande número de tropas em alta velocidade. Eles pousam verticalmente, sem pistas de pouso, podendo ser pilotados direto para dentro de Corvium. Sou tomada por uma sensação terrível e familiar enquanto subimos a bordo. Da última vez que fiz isso, passei seis meses como prisioneira e voltei como um fantasma.
Cal sente meu desconforto. Ele se adianta e me afivela no assento do jato, os dedos se movendo suaves enquanto fixo o olhar na grade de metal sob meus pés.
— Não vai acontecer de novo — ele murmura, baixo o suficiente para que apenas eu possa ouvir. — Dessa vez é diferente.
Seguro o rosto dele com as mãos, fazendo-o parar e olhar para mim.
— Então por que sinto como se fosse a mesma coisa?
Os olhos de bronze buscam os meus. Procurando uma resposta. Cal não acha nenhuma. Em vez disso, ele me beija, como se isso resolvesse alguma coisa. Seus lábios queimam contra os meus. Dura mais do que deveria, especialmente com tantas pessoas em volta, mas ninguém faz alarde.
Quando Cal se afasta, empurra algo na minha mão.
— Não se esqueça de quem você é — ele sussurra.
Não preciso olhar para saber que é um brinco, uma pedrinha colorida presa ao metal. Algo para dizer “até logo”, “se cuide”, “lembre-se de mim se formos separados”. Outra tradição do meu passado. Mantenho-o apertado no punho, quase fazendo sua ponta afiada perfurar a pele. Só quando Cal senta na minha frente eu olho.
Vermelho. É claro. Vermelho como sangue, vermelho como fogo. Vermelho como o ódio que nos consome.
Incapaz de fazer um furo na orelha agora, eu o guardo com cuidado. A pedrinha vai se juntar às outras em breve.
Farley se move determinada, sentando perto dos pilotos de Montfort. Cameron a segue bem de perto, oferecendo um sorriso discreto enquanto senta. Ela finalmente tem um uniforme oficial verde. O de Farley é diferente, vermelho-escuro com um branco no braço. Comando. Ela raspou a cabeça de novo, deixando os centímetros de cabelo loiro para trás e voltando ao seu antigo estilo. Parece séria, com a cicatriz irregular no rosto e os olhos azuis que podem perfurar qualquer armadura. Combinam com ela. Entendo por que Shade a amava.
Ela tem motivos para parar de lutar, mais do que qualquer um de nós. Mas continua. Um pouco da sua determinação me invade. Se ela pode fazer isso, eu também posso.
Davidson finalmente sobe no jato, rondando as quarenta pessoas próximas da área de salto. Ele segue uma tropa de gravitrons identificada pelas linhas verticais na insígnia. Usa o mesmo uniforme gasto, mas seu cabelo, que normalmente é alinhado, está despenteado. Duvido que tenha dormido. Isso me faz gostar um pouco mais dele.
O primeiro-ministro acena para nós conforme passa, marchando pela extensão do jato para sentar com Farley. Os dois parecem mergulhar em pensamentos quase de imediato.
Meu senso elétrico melhorou com o treinamento com os eletricons. Posso sentir o avião inteiro até a fiação. Cada fagulha, cada pulso. Ella, Rafe e Tyton vão, é claro, mas ninguém ousa nos colocar no mesmo jato. Se o pior acontecer, pelo menos não morreremos todos juntos.
Cal está inquieto no assento, exalando uma energia nervosa. Faço o oposto. Tento me anestesiar, ignorar a fúria faminta que começa a se libertar. Não vi Maven desde que escapei e imagino seu rosto como era na época. Gritando por mim na multidão, tentando me fazer virar. Ele não queria me deixar partir. Quando eu fechar as mãos em volta da sua garganta, será a minha vez de não deixá-lo ir. Não terei medo. É só mais uma batalha no meu caminho.
— Minha avó está trazendo todos os soldados que conseguiu reunir — Cal murmura. — Davidson já sabe, mas acho que ninguém te colocou a par.
— Ah.
— Ela tem Lerolan e as outras Casas que se rebelaram a seu lado. Incluindo a Samos.
— Princesa Evangeline — murmuro, ainda rindo da ideia. Cal olha com sarcasmo para mim.
— Pelo menos ela tem a própria coroa e não precisa roubar a dos outros — ele diz.
— Vocês dois estariam casados a essa altura se… — Se tantas coisas fossem diferentes.
Ele concorda.
— Casado a tempo suficiente para ter enlouquecido. Ela seria uma boa rainha, mas não para mim. — Cal pega minha mão sem olhar. — Teria sido um casamento terrível.
Não tenho energia para pensar nas implicações dessa frase, mas uma onda de calor brota no meu peito.
O jato se movimenta, acelerando até atingir velocidade máxima. Rotores e motores zunem, encobrindo nossa conversa. Com outro impulso, estamos no ar, ascendendo na noite quente de verão. Fecho os olhos por um momento e imagino o que está por vir.
Conheço Corvium das fotografias e das transmissões. Muros de granito preto com reforço de ouro e ferro. Uma fortaleza espiralada que costumava ser a última parada de qualquer soldado em direção ao Gargalo. Em outra vida, eu teria passado por ali. Agora o lugar está sob cerco pela segunda vez este ano. As forças de Maven se posicionaram há algumas horas, pousando na faixa que controlam em Rocasta antes de avançar por terra. Devem chegar às muralhas em breve. Antes de nós.
Um sacrifício pequeno por tanto, Davidson disse.
Espero que ele esteja certo.


Cameron joga suas cartas sobre meu colo. Quatro rainhas fumegantes viradas para mim, me provocando.
— Quadra de damas, Barrow. — Ela ri em silêncio. — E agora? Vai apostar suas malditas botas?
Sorrio e descarto minha mão inútil, composta por números vermelhos e um príncipe preto solitário.
— Elas não serviriam em você — retruco. — Meus pés não são canoas.
Cameron racha de rir, jogando a cabeça para trás enquanto mostra os pés. De fato, são bem longos e magros. Espero, pelo bem dos nossos recursos, que a fase de crescimento de Cameron já tenha passado.
— Mais uma rodada — ela diz, e estende a mão para pegar as cartas. — Aposto uma semana de lavanderia.
Do outro lado, Cal para seus alongamentos e bufa.
— Você acha que Mare lava roupa?
— E você lava, majestade? — devolvo, sorridente. Ele finge não me escutar.
As brincadeiras bobas são tanto um bálsamo quanto uma distração. Não tenho que lidar com a batalha que nos espera quando estou sendo massacrada no baralho por Cameron. Ela aprendeu a jogar nas fábricas, claro. Eu mal entendo as regras desse jogo, mas ele me ajuda a focar no momento.
Embaixo de nós, o jato sacode, balançando em uma bolha de turbulência. Depois de muitas horas de voo, isso não me perturba. Continuo embaralhando as cartas. O segundo solavanco é mais profundo, mas não vejo motivo para alarde. O terceiro faz as cartas voarem das minhas mãos. Eu me ajeito no assento e procuro o cinto. Cameron faz o mesmo, assim como Cal, que mantém os olhos voltados para a cabine. Sigo seu olhar e noto que ambos os pilotos trabalham furiosamente para manter o jato estável.
O mais preocupante é a vista. O sol deveria ter começado a nascer a essa altura, mas o céu à nossa frente continua preto.
— Tempestades — Cal solta, mas pode ser tanto o tempo quanto os prateados. — Temos que subir.
Mal as palavras saem dos seus lábios e sinto o jato se inclinar, mirando altitudes maiores. Luzes piscam nas profundezas das nuvens. Caem raios de verdade, nascidos das nuvens, não das habilidades de sanguenovos. Sinto os estouros como a pulsação distante de um coração.
Agarro o cinto sobre meu peito.
— Não podemos pousar assim.
— Não mesmo — Cal rosna.
— Talvez eu possa fazer alguma coisa. Parar os raios…
— Não são apenas os raios lá embaixo! — Mesmo sob o rugido cada vez mais alto do avião, a voz dele ecoa. Muitas cabeças se viram em sua direção. A de Davidson é uma delas. — Dobra-ventos e tempestuosos vão nos jogar para fora do curso assim que descermos por essas nuvens. Vão fazer o jato cair.
Os olhos de Cal se agitam por todos os lados do jato, como se fizesse um inventário. As engrenagens giram na cabeça dele, trabalhando sem parar. Meu medo se entrega à fé.
— Qual é o plano?
O jato salta de novo, fazendo todos pularmos nos assentos. Isso não abala Cal.
— Preciso dos gravitrons e de você — ele acrescenta, apontando para Cameron.
Ela congela o olhar e assente.
— Acho que sei o que você quer fazer.
— Mande uma mensagem para os outros jatos. Vamos precisar de um teleportador aqui e preciso saber onde está o resto dos gravitrons. Eles devem estar distribuídos.
Davidson abaixa o queixo em sinal de que compreendeu.
— Vocês o ouviram.
Meu estômago se revira conforme todos começam a se mexer. Soldados verificam duas vezes as armas e afivelam os equipamentos táticos, com o semblante cheio de determinação. Cal mais que de todos.
Ele salta do assento, agarrando o suporte para se manter de pé.
— Deixe-nos diretamente sobre Corvium. Onde está o teleportador?
Arezzo aparece do nada, ajoelhando para conter a energia do movimento.
— Não gosto disso — ela dispara.
— Infelizmente você e os outros teleportadores vão ter que fazer a mesma coisa inúmeras vezes — Cal retruca. — Você consegue saltar de jato em jato?
— É claro — ela diz, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Ótimo. Assim que descermos, leve Cameron para o próximo jato da fila.
Descermos.
— Cal — quase choramingo. Posso fazer muitas coisas, mas isso?
Arezzo estala os dedos, falando por cima de mim.
— Afirmativo.
— Gravitrons, usem cabos, seis por corpo. Mantenham todos bem apertados.
Os sanguenovos em questão ficam de pé, puxando cordas enroladas escondidas em seus uniformes. Cada uma delas tem um monte de ganchos, permitindo que transportem várias pessoas com suas habilidades de manipular a gravidade. Quando estava no Furo, recrutei um homem chamado Gareth. Ele usava sua habilidade para voar ou saltar grandes distâncias.
Mas não para saltar de jatos.
De repente me sinto enjoada, e minha testa fica encharcada de suor.
— Cal? — digo de novo, minha voz subindo um pouco.
Ele me ignora.
— Cam, seu trabalho é proteger o jato. Lance quanto silêncio conseguir, visualizando uma esfera. Isso vai nos manter estáveis em meio à tempestade.
— Cal? — grito. Sou a única que acha que isso é suicídio? Sou a única sã aqui? Até Farley parece desorientada. Seus lábios estão apertados em uma linha sombria quando ela se prende a um dos gravitrons. Farley sente meu olhar e olha para cima. Seu rosto se contrai por um instante, transmitindo um grama do terror que sinto. Então ela pisca.
Por Shade, leio nos seus lábios.
Cal me faz levantar, ignorando meu medo ou sem o notar. Ele mesmo me amarra na gravitron mais alta, uma mulher esguia. Cal se prende ao meu lado, com um braço pesado sobre meus ombros enquanto o resto de mim é esmagado pela sanguenova. Por todo o jato as pessoas fazem o mesmo, prendendo-se às cordas dos gravitrons.
— Qual é a nossa posição? — Cal grita sobre a minha cabeça.
— Cinco segundos do centro — o piloto ruge em resposta.
— O plano foi transmitido por completo?
— Afirmativo, senhor! Estamos no centro, senhor!
Cal range os dentes.
— Arezzo?
Ela bate continência.
— Pronta, senhor.
Tem uma grande chance de eu vomitar na pobre gravitron em meio a essa colmeia de pessoas.
— Calma — Cal respira na minha orelha. — Só segure firme, você vai ficar bem. Feche os olhos.
O que mais queria era fazer isso. Fico inquieta, batendo as pernas, tremendo. Uma pilha de nervos.
— Isso não é loucura — Cal sussurra. — Soldados fazem isso sempre. Treinam para coisas assim.
Aperto Cal mais forte, o suficiente para machucar.
— Você já fez isso?
Ele só engole em seco.
— Cam, pode começar. Iniciem a queda.
A onda de silêncio me atinge como um martelo. Não é suficiente para me fazer sentir dor, mas a memória faz meus joelhos fraquejarem. Aperto os dentes para me impedir de gritar e fecho os olhos com tanta força que vejo estrelas. O calor natural de Cal funciona como uma âncora, mas uma âncora trepidante. Me pressiono contra seu corpo, como se pudesse me enterrar nele. Cal murmura para mim, mas não posso ouvi-lo. Não com a sensação da escuridão lenta e sufocante, ou, pior ainda, com a sensação da morte. Meu batimento cardíaco triplica. Nem acredito, mas realmente quero saltar do avião agora. Qualquer coisa para escapar do silêncio de Cameron. Qualquer coisa para parar de lembrar.
Quase não sinto o avião caindo ou se chocando com a tempestade. Cameron expira bufadas constantes, tentando manter a respiração estável. Se o resto das pessoas sente a dor da habilidade dela, não demonstra. Descemos pela quietude. Ou talvez meu corpo esteja simplesmente se recusando a ouvir mais.
Quando nos aglomeramos na plataforma de lançamento, percebo que é chegada a hora. O jato balança, soprado pelos ventos que Cameron não é capaz de defletir. Ela grita alguma coisa que não posso decifrar sob o pulsar do sangue nos ouvidos.
Então o mundo se abre embaixo de mim. E caímos.
Quando a Casa Samos derrubou meu último jato do céu, pelo menos tiveram a decência de nos deixar em uma jaula de metal. Agora não temos nada além do vento, da chuva congelante e da escuridão rodopiante nos puxando para todos os lados. A inércia deve ser suficiente para nos manter no alvo, assim como o fato de que nenhuma pessoa sã esperaria que pulássemos dos aviões há alguns milhares de quilômetros do chão no meio de uma tempestade. O vento soa como uma mulher gritando, arrepiando cada centímetro do meu corpo. Pelo menos a pressão do silêncio da Cameron se foi. As veias elétricas nas nuvens me chamam, como se dissessem adeus antes de eu me transformar em uma cratera.
Todos gritam durante a descida. Até mesmo Cal.
Ainda estou gritando quando começamos a frear faltando quinze metros para os picos irregulares de Corvium, formando um hexágono de prédios e paredes interiores. Estou rouca quando nos chocamos gentilmente contra o piso liso e escorregadio, com pelo menos cinco centímetros de água da chuva.
Nossa sanguenovo rapidamente nos desamarra e eu caio de costas, sem me importar com a poça gelada onde estou deitando. Cal fica de pé.
Deito lá por um segundo, sem pensar em nada. Apenas olhando para o céu de onde caí e sobrevivi de alguma forma milagrosa. Então Cal agarra meu braço e me levanta, literalmente me puxando de volta para a realidade.
— Os outros vão pousar aqui, então temos que nos mexer. — Cal me empurra adiante e eu cambaleio um pouco pela água que espirra por todos os lados. — Gravitrons, Arezzo virá com o próximo grupo para teletransportar vocês. Fiquem alertas.
— Sim, senhor — eles ecoam, preparando-se para outra rodada. Quase fico enjoada só de pensar.
Já Farley está de fato enjoada. Ela vomita em um beco, despejando o que comeu no café da manhã corrido. Esqueci que Farley odeia voar, e ainda mais se teletransportar.
A queda foi pior que as duas coisas.
Vou até ela e a ajudo a ficar de pé direito.
— Você está bem?
— Estou — Farley responde. — Só estou passando uma demão de tinta fresca na parede.
Olho para o céu, ainda nos açoitando com a chuva gelada. Estranhamente fria para essa época do ano, mesmo no norte.
— Vamos em frente. Eles não estão nas muralhas ainda, mas logo estarão.
Cal vaporiza um pouco da umidade e fecha o zíper do uniforme até o pescoço para se manter seco.
— Calafrios — ele alerta. — Tenho um pressentimento de que estamos prestes a ser cobertos de neve — ele alerta.
— Deveríamos ir para os portões?
— Não. Eles estão protegidos com Pedra Silenciosa. Os prateados não podem forçar a entrada. Eles têm que vir por cima. — Cal gesticula para que todos o sigam. — Temos que ficar nos parapeitos, prontos para devolver qualquer coisa que jogarem. A tempestade é só o começo. Ela nos bloqueia e reduz nossa visibilidade. Querem que fiquemos cegos até que estejam em cima da gente.
É difícil acompanhar o ritmo dele, especialmente sob a chuva, mas me mantenho ao seu lado mesmo assim. A água encharca minhas botas e não demora muito para eu parar de sentir meus dedos. Cal olha para a frente, como se seus olhos sozinhos pudessem incendiar o mundo todo. Acho que é mesmo o que ele quer. Isso facilitaria as coisas.
Mais uma vez ele deve enfrentar e provavelmente matar as pessoas que foi criado para proteger. Seguro sua mão, porque não há palavras que eu possa dizer nesse momento. Cal aperta meus dedos, mas os solta com a mesma rapidez.
— As tropas de sua avó também não podem entrar. — Conforme falo, mais gravitrons e soldados despencam do céu. Todos gritando, todos seguros ao tocar o chão. Viramos uma esquina, passando de um anel de muros para o próximo. — Como juntaremos nossas forças?
— Eles estão vindo de Rift. Fica a sudoeste. Com sorte, manteremos as forças de Maven ocupadas por tempo suficiente para os pegarem pela retaguarda. Assim ficarão cercadas.
Engulo em seco. Muito do plano depende do trabalho dos prateados. Sei que não se pode confiar neles. A Casa Samos talvez simplesmente não venha e nos deixe ser capturados ou mortos. Então estariam livres para desafiar Maven diretamente. Cal não é tolo. Ele sabe de tudo isso. E sabe que Corvium e sua tropa são muito valiosos para ser perdidos. Essa é nossa bandeira, nossa rebelião, nossa promessa. Nós nos levantamos contra o poder de Maven Calore e seu trono perverso.
Os sanguenovos reforçam as muralhas, unidos com os soldados vermelhos armados. Eles não disparam, apenas fixam o olhar ao longe. Um deles, um homem alto e fino, com um uniforme igual ao de Farley e um no ombro, dá um passo à frente. Ele a cumprimenta primeiro, e acena com a cabeça.
— General Farley — diz.
Ela abaixa o queixo.
— General Townsend. — Então acena para outra oficial de alta patente vestida de verde, provavelmente a comandante dos sanguenovos de Montfort. A mulher atarracada de pele bronzeada e longas tranças brancas enroladas em volta da cabeça retribui o gesto. — General Akkadi — cumprimenta Farley. — Qual é a situação?
Outra soldada se aproxima, de vermelho em vez de verde. O cabelo dela está diferente, tingido de escarlate, mas eu a reconheço.
— É bom te ver, Lory — Farley diz, em tom oficial. Eu cumprimentaria a sanguenovo também se tivesse tempo. Fico feliz em silêncio por ver outra recruta do Furo não apenas viva, mas bem. Como Farley, o cabelo vermelho de Lory é cortado curto. Ela pertence à causa.
A mulher acena com a cabeça para todos nós antes de jogar o braço sobre a beirada metálica da muralha. Tem sentidos extremamente apurados, que permitem que veja muito além do que nós.
— Suas forças estão a oeste, de costas para o Gargalo. Eles têm tempestuosos e calafrios dentro do primeiro anel de nuvens, fora do campo de visão de vocês.
Cal se inclina para a frente, apertando os olhos na direção das nuvens negras e da chuva intensa. Elas tornam impossível que enxergue mais de quatrocentos metros além das muralhas.
— Vocês têm atiradores de elite?
— Já tentamos — o general Townsend suspira.
— Desperdício de munição. O vento simplesmente engole as balas — Akkadi concorda.
— Dobra-ventos também estão lá, então. — Cal tensiona a mandíbula. — Eles têm precisão suficiente para isso.
O significado é claro. Os dobra-ventos de Norta, da Casa Laris, se rebelaram contra Maven. Então essa força é de Lakeland. Outra pessoa poderia não perceber o breve sorriso ou o relaxamento da tensão nos ombros de Cal, mas eu não. E sei o motivo. Ele foi criado para lutar contra Lakeland. É um inimigo cuja derrota não vai partir seu coração.
— Precisamos de Ella. É a melhor com tempestades de raios. — Aponto para as torres gigantes que vigiam essa parte da muralha. — Se a levarmos até aquela altura, pode virar a tempestade contra eles. Não controlar, mas usar para se abastecer.
— Faça isso — Cal diz com um tom contido. Eu já o vi em batalha, mas nunca em algo assim. Ele se transforma em outra pessoa por completo. Focado, quase em um nível inumano, sem nem uma fagulha do príncipe gentil e despedaçado. Qualquer calor que lhe resta é infernal, feito para destruir. Feito para vencer. — Quando os gravitrons terminarem as descidas, coloque todos aqui, distribuídos igualmente. Os soldados de Lakeland vão avançar contra as muralhas. Vamos tornar esse avanço mais difícil. General Akkadi, quem mais você tem na manga?
— Uma boa combinação de defensiva e ofensiva — ela responde. — Bombardeiros suficientes para transformar a estrada do Gargalo em um campo minado. — Com um sorriso orgulhoso, ela indica os sanguenovos nas proximidades, com um emblema que parece uma explosão solar nos ombros. Bombardeiros. Melhores que oblívios, capazes de explodir qualquer coisa ou pessoa apenas olhando, sem precisar tocar.
— Parece um bom plano — Cal diz. — Mantenha seus sanguenovos prontos. Ataque quando achar oportuno.
Se Townsend se importa em receber ordens, ainda mais vindas de um prateado, não demonstra. Como o resto de nós, sente os tambores da morte no ar. Não há espaço para politicagem agora.
— E os meus soldados? Tenho mil vermelhos nas muralhas.
— Mantenha todos lá. Balas são tão boas quanto habilidades, às vezes até melhores. Mas não desperdicem munição. Mirem apenas nos que passarem pela primeira bateria de defesa. — Cal olha para mim. — Querem nos sobrecarregar, mas não vamos deixar, vamos?
Sorrio, piscando sob a chuva.
— Não, senhor.


A princípio, me pergunto se o exército de Lakeland é muito lento ou muito tolo. Levamos quase uma hora, mas, com Cameron, os gravitrons e os teleportadores, conseguimos trazer para Corvium todos os que estavam nos trinta e poucos jatos. Algo em torno de mil soldados, treinados e letais. Nossa vantagem, Cal diz, está na incerteza. Os prateados não sabem enfrentar pessoas como eu. Não sabem do que realmente somos capazes. Acho que é por isso que Cal deixa Akkadi livre com seus equipamentos. Ele não conhece as tropas dela o suficiente para comandá-las de forma apropriada. Mas os vermelhos, sim. Isso deixa um gosto amargo na minha boca, que tento engolir. Enquanto o tempo se arrasta, tento não pensar em quantos vermelhos a pessoa que eu amo sacrificou por uma guerra vazia.
A tempestade nunca muda. Sempre agitada, despejando chuva. Se estão tentando nos inundar, levará um bom tempo. A maior parte da água é drenada, mas alguns becos e ruas estão mergulhados em quinze centímetros de água turva. Isso deixa Cal inquieto. Ele continua balançando a cabeça ou empurrando o cabelo para trás, sua pele soltando um pouco de vapor no frio.
Farley não tem vergonha. Ela puxou a jaqueta sobre a cabeça há um bom tempo, e parece uma espécie de fantasma castanho-avermelhado. Acho que não se move há vinte minutos, com a cabeça repousando sobre os braços dobrados como se admirasse a paisagem. Como o resto de nós, espera pelo ataque que pode chegar a qualquer instante. Isso me deixa no limite. A onda constante de adrenalina me drena quase tanto quanto uma Pedra Silenciosa.
Dou um pulo quando Farley fala.
— Lory, você está pensando no que estou pensando?
Em outro posto de observação, Lory também está com a jaqueta sobre a cabeça. Ela não se vira, concentrada para não reduzir seus sentidos.
— Espero que não.
— O quê? — Pergunto, alternando o olhar entre uma e outra. O movimento faz uma corrente de água gelada descer pela gola da minha camisa. Tremo. Cal vê isso e se aproxima das minhas costas, transmitindo um pouco de calor.
Lentamente, Farley se vira, tentando não se encharcar.
— A tempestade está se movendo para cá. Alguns centímetros a cada minuto e ganhando velocidade.
— Merda — Cal solta atrás de mim. Então entra em ação, levando seu calor consigo. — Gravitrons, preparem-se! Quando eu disser, aumentem a gravidade naquele campo. — Aumentem. Nunca vi um gravitron usar sua habilidade para reforçar a gravidade, apenas para reduzi-la. — Derrubem o que quer que esteja vindo.
Enquanto observo, a tempestade acelera, o suficiente para se perceber a olho nu. Ela continua girando, mas as espirais se aproximam mais e mais a cada rotação, as nuvens sangrando sobre o campo aberto. Raios explodem nas suas profundezas, com uma cor pálida e vazia. Aperto os olhos e, por um momento, eles piscam roxos, pulsando com força e fúria. Mas não tenho nada em que mirar. Os raios, não importa quão poderosos sejam, são inúteis sem um alvo.
— A força está marchando atrás da tempestade e se aproxima — Lory alerta, confirmando nossos piores medos. — Eles estão chegando.

8 comentários:

  1. — Você está bem?
    — Estou — Farley responde. — Só estou passando uma demão de tinta fresca na parede.
    ate na hora da morte não entrega os pontos !!!!!

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  2. a mare antes de ser presa se achava a boasuda agr ta uma chata chorona e medrosa preferia a metida que a chorona
    primeira a comentar😍
    Ass: Mary bonetti

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    1. concordo vamos ver se melhora na guerra

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    2. Se coloca no lugar dela, ela passou por muita coisa e, nem é tão forte assim

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  3. So eu que to pensando que alguem vai morrer ou ser capturado??

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  4. Eu não entendo esse povo... Quando a Neri tava se achando reclamavam agora que ela não se acha mais e se sente menos corajosa reclamam....

    Se decidam.

    Ass:Shay Santos

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  5. Eu acho que algo vai dar muito errado. Que merda😠

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Boa leitura :)