13 de março de 2017

Capítulo vinte e sete

ESTE NÃO É O ABUTRE.
Cal pilota um enorme jato, feito para transportar veículos ou máquinas pesadas. Agora, o compartimento de carga contém mais de trezentos prisioneiros fugitivos — muitos feridos, todos traumatizados. A maioria é de sanguenovos, mas há alguns prateados entre eles, reunidos entre si, esperando o momento certo. Hoje, pelo menos, parecem todos iguais, envoltos em farrapos, exaustão e fome. Não quero ir até eles, então me atenho ao andar de cima do jato. Pelo menos esta parte é silenciosa, separada do compartimento de carga por uma escadaria estreita, e da cabine por uma porta. Não consigo passar pelos dois corpos aos meus pés. Um deles jaz sob um lençol branco, manchado apenas pelo desabrochar do sangue vermelho saído de seu coração perfurado. Farley se ajoelha sobre ele, paralisada, com uma mão embaixo do lençol, agarrada aos dedos mortos e frios do meu irmão. O outro cadáver eu me recuso a cobrir.
A morte deixa Elara feia. O relâmpago contorceu seus músculos, repuxando sua boca num sorriso de escárnio que ela não conseguiria abrir quando viva. Seu uniforme simples está grudado à pele, e seu cabelo loiro e cinzento caiu quase por completo, queimado até sobrarem apenas tufos viscosos. Mas a rainha ainda é inconfundível. Todos reconhecerão o cadáver. Vou garantir isso.
— Você devia se deitar.
O corpo perturba Kilorn, isso é evidente. Não sei por quê. Deveríamos estar dançando sobre o cadáver dela.
— Deixe Sara examinar você.
— Diga a Cal para mudar o curso.
Ele pisca, perplexo.
— Mudar o curso? Do que você está falando? Estamos voltando para o Furo, para casa...
Casa. Solto um suspiro de desprezo ao ouvir essa palavra tão infantil.
— Vamos voltar para Tuck. Diga a ele, por favor.
— Mare.
— Por favor.
Ele não se move.
— Você ficou louca? Não lembra o que aconteceu lá? Não sabe o que o coronel vai fazer com você se voltar?
Louca. Bem que gostaria. Queria que minha mente rachasse sob a tortura que se tornou a minha vida. Seria um alívio tão grande. Simplesmente enlouquecer.
— Ele com certeza pode tentar. Mas somos muitos agora, mesmo para ele. E quando ele vir o que tenho comigo, duvido que vai nos rejeitar outra vez.
— O corpo? — ele suspira, visivelmente abalado.
Não é o cadáver que o assusta, percebo agora. Sou eu.
— Você vai mostrar o corpo para ele?
— Vou mostrar para todo mundo — digo. Em seguida, repito, mais firme: — Diga a Cal para mudar o curso. Ele vai compreender.
O golpe atinge Kilorn, mas não ligo. Ele endurece e recua para fazer o que pedi. A porta da cabine se fecha quando ele passa, mas mal noto. Estou preocupada com coisas mais importantes do que insultos tolos. Quem é ele para questionar minhas ordens? Um ninguém. Um pescador que conta com a sorte e comigo para protegê-lo. Não é como Shade, que se teletransportava — um sanguenovo, um grande homem.
Como pode estar morto? E ele não é o único. Não, com certeza muitos outros ficaram para trás, tendo o presídio como túmulo.
Só vamos saber quando aterrissarmos e virmos quem mais escapou no Abutre. E vamos aterrissar no complexo da ilha, e não nos enfiar numa caverna perdida no meio da floresta.
— O seu vidente lhe falou a respeito disso?
São as primeiras palavras de Farley desde que deixamos Corros. Ela ainda não chorou, mas sua voz sai rouca, como se tivesse passado os últimos dias gritando. Seus olhos estão horríveis, rodeados de vermelho, as íris num tom azul-vivo.
— Aquele idiota do Jon, que nos disse para fazer isso? — ela continua, virando para me encarar. — Ele disse que Shade ia morrer? Disse? Imagino que saiu barato para a garota elétrica, já que isso significava mais sanguenovos para você controlar. Mais soldados para uma guerra que você não faz ideia de como combater. Um mísero irmão em troca de mais seguidores para beijar seus pés. Não foi mau negócio, foi? Especialmente com a rainha na conta. Quem se importa com um defunto que ninguém conhece quando você poderia ter o cadáver dela?
Meu tapa a faz recuar, mais de surpresa que de dor.
Ela agarra o lençol ao cair, puxando-o de lado e revelando o rosto pálido do meu irmão. Pelo menos seus olhos estão fechados. Ele poderia estar apenas dormindo.
Me inclino para ajeitar o lençol de novo — não consigo olhar muito para Shade —, mas ela me atinge com o ombro, usando a altura considerável para me jogar contra a parede.
A porta da cabine se escancara e os dois garotos entram correndo, atraídos pelo barulho. Cal derruba Farley num instante, golpeando a parte de trás do seu joelho, fazendo-a se dobrar. Kilorn é mais simples.
Apenas me agarra com os dois braços e me levanta do chão.
— Ele era meu irmão! — berro para ela.
Ela responde gritando:
— Ele era bem mais do que isso! — ela responde gritando.
Suas palavras me fazem lembrar de uma coisa.
Quando ela duvidar. Jon me falou para dizer a Farley uma coisa. Quando ela duvidar. E ela com certeza está em dúvida agora.
— Jon me contou uma coisa sim — digo, tentando me desvencilhar de Kilorn. — Algo para você ouvir.
Ela investe novamente, e Cal a puxa para baixo de novo, o que rende a ele uma cotovelada na cara. Mesmo assim, ele não tira as mãos do ombro dela. Ela não vai a lugar nenhum, mas continua a lutar.
Farley, você nunca sabe quando desistir. Eu costumava admirar você por isso. Agora só posso ter pena.
— Ele me disse a resposta para a sua pergunta.
Isso a faz parar. Sua respiração sai curta e assustada.
Ela me encara com olhos arregalados. Quase consigo ouvir seu coração batendo.
— Ele disse que sim.
Não sei o que isso significa, mas a frase a desmonta.
Ela cai, se apoiando nas mãos e baixando a cabeça, que se esconde atrás de um curto véu de cabelos loiros.
Mesmo assim, consigo ver as lágrimas. Ela não vai mais lutar.
Cal também percebe e se afasta de Farley e seus tremores. Quase tropeça no braço deformado de Elara, e recua, nervoso.
— Dê espaço a ela — murmura, para em seguida me agarrar com uma força que machuca. Praticamente me tira dali aos puxões, apesar dos meus protestos.
Não quero deixá-la. Não Farley. Elara. Apesar das feridas, das queimaduras e dos olhos opacos, não confio que seu cadáver continue morto. É uma preocupação tola, mas não posso evitá-la.
— Pelas minhas cores, o que te deu? — ele dispara, batendo a porta da cabine, nos isolando dos soluços de Farley e do rosto triste de Kilorn. — Você sabe o que Shade significava para ela...
— Você sabe o que ele significava para mim — respondo. Ser educada não é minha prioridade, mas tento. Minha voz vacila. Meu irmão mais próximo. Já o perdi antes, e agora de novo. Desta vez ele não vai voltar. Não há volta. — E você não me vê gritando com as pessoas.
— Tem razão. Você só mata as pessoas.
O ar passa sibilando por entre meus dentes. É disso que se trata? Quase rio na cara dele.
— Pelo menos um de nós é capaz.
Espero no mínimo uma gritaria. Mas o que recebo é ainda pior. Cal dá um passo para trás, trombando contra o painel de controle, tentando abrir o maior espaço possível entre nós. Geralmente sou eu quem recua, mas não mais. Algo se parte dentro dele, me deixando entrever as feridas que ele esconde sob a pele flamejante.
— O que aconteceu com você, Mare? — ele balbucia.
O que não aconteceu comigo? Um único dia sem preocupações, isso nunca aconteceu. Tudo para me preparar para isso, para o destino a que me condenei com as mutações do meu sangue — e os vários erros que cometi. Cal entre eles.
— Meu irmão acabou de morrer, Cal.
Mas ele balança a cabeça sem jamais desviar os olhos de mim. Seu olhar queima.
— Você matou aqueles homens no centro de comando, você e Cameron, apesar de eles implorarem. Shade não tinha morrido ainda. Não ponha a culpa nele.
— Eles eram prateados e...
Eu sou prateado.
— E eu sou vermelha. Não aja como se não tivesse matado centenas de nós.
— Não por vontade própria, não do jeito que você mata. Eu era um soldado seguindo ordens, obedecendo meu rei. E eles eram tão inocentes quanto eu quando meu pai estava vivo.
Lágrimas despontam nos meus olhos, implorando para serem derramadas. Rostos pairam diante de mim: soldados e agentes assassinados. São muitos para contar.
— Por que está me dizendo isso? — sussurro. — Fiz o que precisava para sobreviver, para salvar as pessoas. Para salvar você. Você, um idiota, teimoso, príncipe de nada. Você, mais que todo mundo, deveria conhecer o peso do meu fardo. Como ousa fazer eu sentir mais culpa do que já sinto?
— Ela queria transformar você num monstro — ele diz, inclinando a cabeça na direção da porta e do cadáver retorcido do outro lado. — Só estou tentando garantir que isso não aconteça.
— Elara está morta. — As palavras têm o gosto doce do vinho. Ela morreu, não pode me machucar. — Não pode controlar mais ninguém.
— Mesmo assim você não sente remorso pelas mortes. Faz tudo o que pode para se esquecer delas. Você abandonou sua família sem nenhuma palavra. Você é incapaz de se controlar. Passa metade do tempo fugindo do papel de líder, e a outra metade agindo como uma mártir intocável, coroada de culpa, por ser a única pessoa que está se entregando de verdade à causa. Olhe ao seu redor, Mare Barrow. Shade não foi o único a morrer em Corros. Você não é a única a fazer sacrifícios. Farley traiu o pai. Você forçou Cameron a se juntar a nós contra a vontade dela. Você escolheu ignorar tudo exceto a lista de Julian, e agora quer abandonar as crianças no Furo. Para quê? Para humilhar o coronel? Para assumir o trono? Para matar qualquer um que olhar para você do jeito errado?
Me sinto como uma criança levando bronca, incapaz de falar, argumentar ou fazer qualquer coisa além de segurar as lágrimas. Preciso usar toda a minha força para conter as faíscas.
— E você ainda se apega a Maven, uma pessoa que não existe.
Ele bem que podia ter posto a mão ao redor da minha garganta e apertado bem forte.
— Você mexeu nas minhas coisas?
— Não sou cego. Vi você pegando os bilhetes naqueles cadáveres. Pensei que fosse rasgá-los. Mas não rasgou, e então quis ver o que você ia fazer. Queimar, jogar fora, devolver encharcados em sangue prateado... Mas não guardar. Não ler enquanto eu dormia do seu lado.
— Você disse que também sentia falta dele. Você disse... — murmuro. Preciso me segurar para não bater o pé no chão feito uma criança frustrada.
— Ele é meu irmão. Sinto falta dele de um jeito muito diferente.
Algo arranha meu punho, e então me dou conta de que estou me arranhando no meio da minha desolação, criando uma dor física para mascarar a agonia dentro de mim.
Ele apenas observa, dividido.
— Cada uma das coisas que fiz teve o seu apoio — digo. — Se estou me transformando num monstro, você também está.
Ele baixa os olhos.
— O amor cega.
— Se essa é a sua ideia de amor...
— Não sei se você ama alguém de verdade — ele dispara. — Se vê algo além de instrumentos e armas. Pessoas para manipular e controlar. Para sacrificar.
Não existe qualquer defesa contra essa acusação.
Como posso provar que ele está errado? Como posso fazer Cal enxergar o que fiz, o que estou tentando fazer, o que me tornei para proteger todos que amo? Falhei terrivelmente. Me sinto péssima. As cicatrizes e lembranças doem. Ele me feriu profundamente com essas palavras. Não consigo provar meu amor por ele, ou por Kilorn, ou pela minha família. Não consigo verbalizar esses sentimentos, nem deveria ter que fazer isso.
Então não verbalizo.
— Depois do bombardeio de Archeon, Farley e a Guarda Escarlate usaram uma transmissão de notícias para assumir a responsabilidade — falo lentamente, numa explicação calma e metódica. É a única coisa que mantém minha sanidade. — Vou fazer a mesma coisa agora, com o corpo da rainha. Vou mostrar a cada habitante deste reino a mulher que matei e as pessoas que ela mantinha trancafiadas, sanguenovos e prateados. Estou farta de deixar Maven controlar o jogo, espalhando mentiras pelo reino. O que fizemos não é o bastante para derrubá-lo. Precisamos deixar o país fazer isso para nós.
A boca de Cal se escancara.
— Uma guerra civil?
— Casa contra Casa, prateado contra prateado.
Apenas os vermelhos permanecerão unidos.
E venceremos. Norta vai cair, e vamos nos levantar, vermelhos como a aurora. Um plano simples, custoso e letal para ambos os lados. Mas um passo que devemos dar. Eles nos forçaram a seguir esse caminho há muito tempo.
— Você pode buscar as crianças no Furo depois que aterrissarmos em Tuck — continuo. — Mas preciso do coronel, preciso dos recursos dele para colocar isso em prática. Você entende?
Ele mal assente.
— E depois... Bom, vou para o norte, para o Gargalo, para aqueles que abandonei tão fácil. O senhor pode fazer o que quiser, alteza.
— Mare — ele roça meu braço, mas recuo, quase batendo na parede.
— Não me toque mais.
As palavras soam como uma porta se fechando.
Imagino que sejam mesmo.


Em Tuck, somos recebidos por silêncio e por uma claridade asquerosa. Não há nuvens, não há vento, há apenas o outono cintilante e a luz do sol. Shade não deveria ter morrido num dia tão bonito, mas morreu.
Gente demais morreu.
Sou a primeira a descer do avião de carga, com duas macas cobertas logo atrás. Kilorn e Farley estão ao lado de uma, cada um com uma mão sobre Shade. Mas é a outra maca que me importa agora. Os homens que a seguram parecem ter medo do cadáver, assim como eu tive. As últimas horas de reflexão silenciosa diante do corpo de Elara foram um consolo estranho. Ela não vai acordar. Assim como Cal jamais voltará a falar comigo, não depois do que dissemos um ao outro. Não sei em que lugar ele está na fila, ou se vai desembarcar. Digo a mim mesma para não me preocupar. Pensar nele é um desperdício.
Preciso proteger os olhos para enxergar a barreira do coronel no meio da pista. Ele está empoleirado em cima de um veículo médico, cercado de enfermeiras de jalecos brancos. Ada deve ter passado um rádio avisando que precisaríamos de ajuda. O Abutre que ela pilotou já está aqui, a única sombra escura à vista. Quando o primeiro prisioneiro pisa na pista depois de mim, a familiar rampa negra desce do outro jato.
Menos pessoas do que eu esperava saem atrás de Ada. Ela começa a marchar, decidida, até a muralha de soldados de Lakeland, de rebeldes resignados e de espectadores curiosos. Em silêncio, amaldiçoo a mim mesma. Minha família vai estar lá para ver os filhos, mas vão encontrar apenas um.
Você não se importa com a sua família. Talvez Cal tenha razão, porque com certeza eu os esqueço mais do que qualquer pessoa em sã consciência seria capaz.
— Até aí está bom, srta. Barrow — o coronel ladra, com a mão erguida.
Faço o que ele pede, parando a cinco metros de distância. Consigo ver as armas apontadas para nós e, mais importante, os homens atrás delas. Estão alertas, mas não exaltados. Não têm ordens para matar, ainda não.
— Veio devolver o que roubou? — o coronel provoca.
Forço uma risada que deixa nós dois à vontade.
— Trago um presente, coronel.
O canto da boca dele sobe.
— É assim que você chama essa... — Ele procura a palavra certa para descrever as pessoas esfarrapadas atrás de mim. — ... gente?
— Eram prisioneiros até hoje cedo, numa instalação secreta chamada Corros. Foram trancafiados por ordens do rei Maven. Iam fazer experimentos com eles, torturá-los, matá-los. — Olho para trás, esperando ver corações e mentes partidos, mas vejo um orgulho inabalado. A garotinha, a que quase caiu da passarela, parece a ponto de verter lágrimas, mas cerra os pequenos punhos ao lado do corpo. Ela não vai chorar. — São sanguenovos como eu.
Atrás da garotinha, um adolescente com a pele pálida demais e cabelo alaranjado está de pé como um guarda-costas.
— E prateados também, coronel — finalizo.
Ele reage como o esperado.
— Sua idiota! Você trouxe prateados para cá? — ele grita, em pânico. — Preparem as armas!
Os soldados de Lakeland, em duas fileiras com talvez vinte homens, fazem o que ele manda. As armas clicam em uníssono e as balas deslizam para a câmara. Prontas para disparar. Atrás de mim, os prisioneiros se encolhem e recuam. Mas ninguém implora.
Estão fartos de implorar.
— Ameaças vazias — digo, segurando a vontade de sorrir.
A mão dele voa para a pistola na cintura.
— Não me provoque.
— Sei quais são as suas ordens, coronel, e elas são para não matar a garota elétrica. O Comando me quer viva, não quer? — Lembro de Ellie Whistle, uma dentre muitos rebeldes instruídos a me ajudar nas missões. Ela não era nada perto do coronel, mas o coronel não é nada perto do Comando, seja lá quem forem os membros.
O coronel perde um pouco do ímpeto, mas não recua.
— Tragam-na para a frente — disparo, olhando para as macas. Os dois homens fazem o que digo o mais rápido que podem. Deixam a maca de Elara aos meus pés. As armas acompanham seus passos trôpegos. Sinto as miras neste exato momento no meu coração, no meu cérebro, em cada milímetro de mim.
— Seu presente, coronel — digo, cutucando a maca com o pé, fazendo o corpo balançar sob o lençol branco. — Quer ver?
O olho bom dele brilha, quase rápido demais para que alguém note. Encontra Farley na multidão, e o franzido na testa alivia um pouco. Com um lampejo de revirar o estômago, percebo o motivo. Ele achou que eu a tivesse matado.
— Quem é, Barrow? O príncipe? Você matou sua melhor moeda de troca?
— Não mesmo. — Uma voz ressoa na multidão. Cal.
Não me viro para ele. Prefiro me concentrar no coronel. Ele sustenta o meu olhar sem fraquejar.
Devagar, com uma mão erguida e a outra no lençol, descubro o corpo para que todos vejam. Os membros estão rígidos. Os dedos estão especialmente retorcidos, e pedaços de osso aparecem através da carne da mão direita. Os atiradores são os primeiros a reagir, baixando um pouco as armas. Um ou dois chegam a soltar ruídos de surpresa e cobrem a boca para abafar o som. O coronel permanece completamente calado e imóvel; contentando-se em observar. Depois de um longo momento, ele pisca.
— É quem eu acho que é? — pergunta de maneira rude.
Confirmo com a cabeça.
— Elara da Casa Merandus, rainha de Norta, mãe do rei. Morta por sanguenovos e prateados na prisão que construiu para eles.
A explicação deve acalmar a mão dele por um instante.
Por outro lado, seu olho vermelho reluz.
— O que você planeja fazer com isso?
— O rei e o país merecem uma chance de se despedir dela, não acha?
O coronel se parece muito com Farley quando sorri.


— De novo — o coronel Farley ordena, voltando à sua posição.
— Meu nome é Mare Barrow — digo à câmera, tentando não soar idiota. Afinal, é a sexta vez que me apresento nos últimos dez minutos. — Nasci em Palafitas, um vilarejo no vale do rio Capital. Meu sangue é vermelho, mas por causa disso — estendo as mãos e deixo duas bolas de faíscas se formarem — fui levada à corte do rei Tiberias VI, onde recebi um novo nome, uma nova vida, e fui transformada numa mentira. Eles me chamaram de Mareena Titanos, e disseram ao mundo que nasci prateada. Não nasci. — Tremendo, risco uma faca na palma da mão, sobre a carne já cortada. Meu sangue brilha como rubi na luz dura do hangar vazio. — O rei Maven disse que isso era uma fraude. — Faíscas saltam de dentro da ferida. — Não sou. Nem os outros como eu, todos aqueles nascidos vermelhos, mas com poderes estranhos, prateados. O rei sabe que vocês existem, e está caçando vocês. Agora digo: corram. Me encontrem. Encontrem a Guarda Escarlate.
Ao meu lado, o coronel se empertiga, orgulhoso. Tem um cachecol vermelho enrolado no rosto, como se o olho vazado não fosse identificação suficiente. Mas não reclamo. Ele concordou em receber os sanguenovos, percebendo como estava errado. Agora reconhece o valor — e a força — das pessoas como eu. Não pode se dar ao luxo de fazer de nós seus inimigos também.
— Diferente dos reis prateados, não vemos separação entre nós e os outros vermelhos. Vamos lutar por vocês e vamos morrer por vocês, se isso significar um mundo novo. Larguem o machado, a pá, a agulha e a vassoura. Peguem uma arma. Juntem-se a nós. Lutem. Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
A parte seguinte faz meu estômago revirar, e preferiria esfregar as mãos com ácido. Quando meus dedos se enroscam no cabelo frágil e erguem o rosto dela para a câmera decrépita e ruidosa, preciso segurar as lágrimas. Por mais que a odeie, odeio isto ainda mais.
Parece contra a natureza, contra qualquer coisa boa que eu ainda possa ter dentro de mim. Já perdi Cal — o joguei fora —, mas agora sinto que estou perdendo a alma.
E, contudo, pronuncio as palavras que me cabem.
Acredito nelas, e isso me ajuda um pouco.
— Lutem e vençam. Esta é Elara, rainha de Norta, e nós a matamos. Esta guerra não é impossível, e com vocês, pode ser vencida para sempre.
Sustento a posição, fazendo o máximo para não piscar. Se fechar os olhos, as lágrimas vão cair. Penso em tudo, menos no cadáver nas minhas mãos.
— Neste exato momento, os rebeldes da Guarda estão deixando seus postos para esperar quem quiser responder ao nosso chamado.
— Armem-se, irmãos e irmãs — o coronel diz, dando um passo à frente. — Vocês são mais numerosos que seus senhores, e eles sabem disso. Temem isso. Temem vocês, e o que vocês se tornarão. Procurem os assobios na floresta. Eles vão trazer vocês para casa.
Depois de seis tentativas, finalmente falamos em uníssono:
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora.
— Quanto aos prateados de Norta — falo rapidamente, apertando ainda mais Elara. — O rei e a rainha mentiram para vocês. Traíram vocês. A Guarda Escarlate invadiu um presídio esta manhã, e lá dentro encontramos tanto vermelhos como prateados. Membros desaparecidos das Casas Iral, Lerolan, Osanos, Skonos, Jacos, entre outras. Aprisionados injustamente, torturados com Pedras Silenciosas, deixados para morrer por crimes inexistentes. Estão conosco agora, estão vivos. Os seus entes desaparecidos estão vivos. Levantem-se para ajudá-los. Levantem-se para vingar os que não conseguimos salvar. Levantem-se e juntem-se a nós. Pois o seu rei é um monstro. — Olho bem para a câmera, sabendo que ele vai ver isto. — Maven é um monstro.
O coronel me encara boquiaberto, afrontado. A câmera para. Ele arranca o cachecol de raiva.
— O que você está fazendo, Barrow?
Eu devolvo o olhar.
— Facilitando muito a sua vida. Dividir para conquistar, coronel — digo, apontando em seguida para a equipe de filmagem, sem me dar ao trabalho de lembrar seus nomes. — Vão até o galpão dos prateados, filmem um pouco. Não mostrem os guardas. Guardem as minhas palavras: isto vai fazer o país pegar fogo. E nem Maven será capaz de apagar.
Eles não precisam falar para mostrar que concordam.
Dou meia-volta.
— Terminei.
O coronel me segue, desviando dos meus passos enquanto abro caminho pelo hangar.
— Barrow, eu não disse que tínhamos terminado... — ele urra, mas, quando me detenho, ele faz o mesmo.
Não preciso dos meus raios para assustar as pessoas.
Não mais.
— Me obrigue a voltar, coronel. — Estendo o braço, desafiando-o a me puxar. Desafiando-o a me testar. — Vá em frente.
Uma vez, este homem prendeu Cal numa cela. Ele lidera sabe-se lá quantos soldados, e matou muitos homens. Não sei quantas batalhas lutou, ou mesmo quantas vezes enganou a morte.
Ele não tem direito de temer uma garota como eu.
Mas teme. Voltei a Tuck como uma igual, mais do que uma igual. E ele sabe disso.
Viro devagar para encará-lo, apenas porque agora me convém.
— O que mudou em você, coronel? Sei que não foi o seu bom senso, nem mesmo as ordens do seu Comando.
Depois de um longo momento, ele acena com a cabeça.
— Venha comigo. Eles têm pedido uma reunião com você.

29 comentários:

  1. diana farley esta gravida bom pelo menos eu acho q esta

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    1. Né! Também acho. E a Mare parece não ter percebido

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    2. também me veio isso a mente.

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  2. Como não pensei nisso ?

    Que mudança a Mare

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  3. A ELARA MORREU MAS A MARE CONTINUA VIVA, NÃO EXISTE DIFERENÇA ENTRE AS DUAS

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    1. Ahn, vc tá exagerando um pouco, não acha?

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    2. Acho a Mare mal interpretada, ela faz as coisas pensando em fazer o bem, e só veem o lado ruim, como se ela fosse ruim, pode ser oque parece, mas não é oque ela quer ser!

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  4. Vihis!!! Nem me toquei que ela tava grávida.

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    1. Kkkkk eu já ia falar "Homens!" mas aí a Mare não percebe também...

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  5. Quem é ele para questionar minhas ordens? Um ninguém. Um pescador que conta com a sorte e comigo para protegê-lo. Não é como Shade, que se teletransportava — um sanguenovo, um grande homem.
    Que ridicula a Mare foi nessa parte!!

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    1. Também fiquei com raiva dela nessa parte. ... mas deve ser pela dor de perder o irmão!

      Flavia

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    2. Pois é. Tbm não gostei. Muito vaidosa. Se acha melhor que ele...

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  6. Hahahhahahaa!Amei Cal soltando as verdades na cara dela, gnttttt to com muitaaaa raivaaa dessaaaa p#ta

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    2. Ahn, não acho que Dorian tenha sido forçado a isso! E apaguei o coment pelo spoiler de Trono de Vidro que vc deu...

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  7. Gente!! A Mare virou realmente a Mareena, a Elara conseguiu transformar ela numa pessoa fria, ela não se importa mais com as mortes, ta ficando cada vez pior, espero que ela não se perca de vez nesse caminho de trevas :(

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  8. Ela está sobre pressão tudo acontecendo rápido demais traições desilusões um peso enorme e as pessoas qrendo uma mare líder amiga e irmã ta impossível conciliar ;da um tempo QM fica pegando no pé da mare e ela fez tudo isso pra proteger todo mundo só que ninguém enxerga isso ...acabou perdendo tudo ...e acham q ela ainda é uma megera!ela luta pelo que ela acredita pra transformar o mundo dela em algo melhor com Menos desigualdade...então parem de pegar no pe dela.

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  9. Eu to com uma dor no coração porque todos culpam a Mare por isso e aquilo, mas depois de tudo que ela passou, depois de ser tão destruída, pisada e traída, era óbvio que ela iria mudar.

    ~Bella~

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  10. Cara, essa doeu Mare. Não se importar com a família e as mortes que está causando deixa muito estrago. Sei que ela está passando por um sufoco com tudo isso, mas está perdendo a humanidade. Enfim, quero logo que tudo se exploda e que ela pelo menos volte a ser como era um pouco.
    E bem feito Elara, sua put@.
    Shade não merecia, um dos melhores personagens :'(

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  11. Finalmente o cal disse boas verdades pra essa mare ridícula, tá se achando demais. Mata as pessoas sem pensar duas vezes. Ela e o marven se merecem .

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  12. Desconfiei q ela estava grávida acho q Shade tambem

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  13. A minha opinião sobre a Maré é q ela tá virando aqueles personagens de animes super fod** q depois de passar por muita coisa cria uma realidade própria e perde sua sanidade. São meus personagens favoritos mas ñ sei Sr gosto disso ou não

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  14. Aaaaah Cal, MUITO obrigada por ter falado essas lindas dessas verdades na cara dessa porca. Só faltava juntar com a Cameron, aí vocês iam destruir essa ordinária. Que desprezo que eu tenho pela Mare, egoísta é pouco pro que ela é. Sempre só pensa nela, sempreee. Daí vem me dizer " ah mas ela faz tudo que faz pelos outros, pra proteger quem ama" negativo !!! Ela mesmo já deixou BEM CLARO que usa as pessoas conforme a vontade dela. Sinceramente ela não me desce. Vai embora Cal, pra bem longe desse buraco q ela quer te colocar, deixa ela e o amado Maven dela juntos. ELES SE MERECEM.

    PS: AAAAAH QUANDO ESTAVAM NO AVIÃO EU DESCONFIEI QUE A FARLEY ESTAVA grávida. Agora q li aqui nos comentários que vocês tb acham tô felizona kkk. PS2: Elara morta :o OMG.

    Ass: Déborah Alana.

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  15. Gente. Por mais que eu ache algumas atitudes da Mare erradas eu não posso deixar de entender o que ela está passando. Eu também já passei por uma situação parecida a dela. Pessoas em quem eu deveria confiar já traíram minha confiança. E assim como a Mare eu comecei a desconfiar de tudo e de todos. Enxergar segundas intenções onde não havia. Não confiar nas pessoas. Fiz e ainda faço o máximo para todos os meus relacionamentos com as outras pessoas seja o mais superficial possível. Afasto a todos, até mesmo alguns amigos ou até minha família. Em certos dias não tenho vontade de ver ninguém. Por isso acabo agindo de um modo rude com alguns e as pessoas dizem que sou egoísta, rude e fria. E isso é muito solitário. Mas simplesmente é difícil mudar depois que vc começa. Construir pontes em vez de muros. Mas estou tentando melhorar. Tomei uma frase de um dos meus livros preferidos, Namorado de Aluguel, " Amanhã seremos pessoas melhores". Então a cada dia tento ser uma pessoa melhor. E ainda confio que a Mare pode melhorar e superar as dificuldades que ela enfrenta. Ainda tenho esperança de que ela se torne uma pessoa melhor em todos os sentidos.

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  16. Daqui a pouco é Mare que vai ser a vilã. Não acho ela muito diferente de Elara ,cada uma luta por seus ideais e não deixam que ninguém atrapalhem seus planos. Ela já traiu,já matou, já roubou e tá apaixonada pelo Mavem (um homem que ela considera o pior de todos)

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  17. Cara, não imaginei que a Farley estivesse gravida... Será?!

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  18. A Mare já não era a pessoa mais bondosa do mundo, agora depois da morte do irmão então... ela ta virando exatamente o que mais odeia, um monstro sem coração. E afastando todos que ama, ela vai ficar exatamente como mais teme, sozinha.

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  19. Farley ta grávida
    Mare e uma elara da vida
    Sei nem oq pensa mais

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Boa leitura :)