3 de março de 2017

Capítulo vinte e sete

MAVEN ME TRAIU. Não. Ele nunca esteve do meu lado.
Aperto os olhos para enxergar as barras sob a pouca luz. O teto é baixo e pesado como o ar do subsolo. Nunca estive aqui antes, mas logo compreendo.
— O Ossário — penso em voz alta, imaginando que ninguém me ouve.
Contudo, alguém ri.
As trevas cedem aos poucos e revelam mais da cela. Uma sombra volumosa senta encostada nas barras perto de mim, tremendo em suas gargalhadas entrecortadas.
— Eu tinha apenas quatro anos na primeira vez que estive aqui, e Maven mal tinha feito dois. Ele se escondeu atrás das saias da mãe, com medo do escuro e das celas vazias — Cal conta, sorrindo, o olhar afiado como facas. — Acho que ele perdeu o medo do escuro.
— É, perdeu.
E eu sou sua sombra. A sombra da chama. Acreditei em Maven quando ele disse essas palavras, quando me contou o quanto odiava este mundo. Agora sei que foi tudo um truque de mestre. Cada palavra, cada toque, cada olhar foi mentira. E eu pensava que a mentirosa fosse eu.
Por instinto, tento ativar meu poder, tentando captar qualquer pulso elétrico, algo para me dar uma centelha de energia. Mas não há nada. Nada além de uma ausência absoluta e oca que me dá calafrios.
— Arven está por perto? — pergunto, lembrando-me de como ele bloqueou meu poder para me forçar a assistir a Maven e sua mãe destruírem a própria família. — Não sinto nada.
— São as celas — Cal diz entediado, enquanto desenha formas, chamas, no chão sujo. — São feitas de Pedra Silenciosa. Não me peça para explicar, porque não entendo como funciona e não estou com vontade de tentar entender.
Ele levanta os olhos furiosos na direção das trevas que preenchem a linha infinita de celas.
Eu deveria estar com medo, mas já não tenho nada a temer. O pior aconteceu.
— Antes dos combates na arena, quando ainda executávamos prateados, o Ossário abrigava todo tipo de pesadelo. O Grande Greco, que costumava abrir homens ao meio para comer seu fígado. A Noiva Venenosa, uma animos da Casa Viper que atraiu cobras para a cama do meu tio-bisavô na noite de núpcias dos dois. Dizem que o sangue dele virou veneno depois de tantas picadas — Cal faz uma lista com os criminosos do seu mundo. Parecem histórias inventadas para assustar as crianças. — Agora nós. O Príncipe Traidor é como me chamarão: “Ele matou o pai pela coroa. Não conseguiu esperar”.
Não consigo deixar de complementar a história.
— “Aquela vadia o forçou a isso” é o que vão fofocar.
Posso ver na minha cabeça meu nome exposto em cada esquina, em cada monitor.
— Vão me culpar, a menininha elétrica. Envenenei seus pensamentos, corrompi sua alma. Fiz você fazer aquilo.
— Quase fez — ele responde baixo. — Quase escolhi você hoje de manhã.
Foi hoje de manhã?, me pergunto. Não pode ser verdade. Pressiono o corpo contra as barras e fico a apenas alguns centímetros de Cal.
— Vão nos matar — digo secamente.
Cal confirma, rindo mais uma vez. Já o ouvi rir antes — de mim, sempre que tentava me ensinar a dançar —, mas o som não é o mesmo. Sua ternura foi embora e não deixou nada para trás.
— O rei vai cuidar disso. Seremos executados.
Execução. Não estou nem um pouco surpresa.
— Como vai ser?
Mal posso me lembrar da última vez que assisti a uma execução. Apenas algumas imagens ficaram: o sangue prata na areia, os gritos da multidão. E lembro da forca perto de casa, das cordas balançando contra o vento forte.
Os ombros de Cal estão tensos.
— Há muitas formas. Juntos, um de cada vez, com espadas, armas, poderes ou tudo junto — ele diz com o suspiro pesado de quem já se rendeu ao destino. — Vão nos fazer sofrer. Não vai ser rápido.
— Talvez meu sangue jorre por todo lado. Isso daria ao resto do mundo algo em que pensar.
O pensamento medonho me faz sorrir. Ao morrer, estaria fincando minha própria bandeira vermelha, espalhando-a pela areia da arena.
— Ele não vai conseguir me esconder. Todos vão saber quem eu sou — acrescento.
— Você acha que isso vai mudar alguma coisa?
Tem que mudar. Farley está com a lista. Ela vai encontrar os outros... Mas Farley morreu. Minha única esperança é de que tenha passado os nomes adiante, para alguém que ainda esteja vivo. Os outros estão por aí e precisam ser encontrados. Precisam seguir em frente, porque já não posso.
— Eu não acho que vai — Cal prossegue preenchendo o silêncio com sua voz. — Acho que ele vai usar isso como desculpa. Haverá mais recrutamentos, mais campos de trabalho. A mãe dele vai inventar outra mentira maravilhosa e o mundo vai continuar a girar como antes.
Não. Nunca mais.
— Ele vai procurar outros como eu — concluo em voz alta.
Já me derrubaram. Já perdi. Já estou morta. E este é o último prego no caixão. Apoio a cabeça nas mãos e meus dedos ágeis enroscam maquinalmente nos meus cabelos.
Cal se agita contra suas barras e seus movimentos fazem o metal vibrar.
— O quê?
— Há outros. Julian descobriu. Ele me disse para encontrar e... — minha voz vacila, não quer continuar — e eu contei para Maven.
Sinto vontade de gritar.
— Ele me usou perfeitamente — lamento enfim.
Por entre as barras, Cal me encara. Embora sem seu poder, suprimido pelas paredes malditas, um inferno arde em seus olhos.
— Qual é a sensação? — ele brada, nossos narizes quase se tocando. — Qual é a sensação, Mare Barrow?
Antes, daria qualquer coisa para ouvir meu nome verdadeiro sair da sua boca, mas agora dói como uma queimadura. E cheguei a pensar que estava usando os dois: Maven e Cal.
Como fui burra.
— Desculpe — falo com dificuldade. Desprezo essas palavras, mas são tudo o que tenho a oferecer. — Não sou Maven, Cal. Não fiz isso para magoar você. Nunca quis machucar você. — Em seguida, num tom quase inaudível, acrescento: — E não era tudo mentira.
Sua cabeça bate contra as barras. O barulho é tão alto que deve ter doído. Mas Cal nem parece notar. Como eu, perdeu a capacidade de sentir dor ou medo. Muita coisa já aconteceu.
— Você acha que ele vai matar meus pais?
Minha irmã, meus irmãos, completo em minha cabeça. Pela primeira vez, fico feliz por Shade estar morto e fora do alcance de Maven.
Sinto um calor surpreendente próximo de mim, penetrando meus ossos. Cal se move de novo, se apoia contra as barras bem atrás de mim. Sua temperatura é amena, natural... Não é provocada por raiva ou poder. Ele é humano. Posso sentir sua respiração, seu coração pulsar.
Bate forte enquanto Cal reúne forças para mentir para mim.
— Acho que ele tem coisas mais importantes com que se preocupar.
Sei que percebe que estou chorando. Meus ombros sacodem a cada soluço, mas Cal não diz nada. Não há palavras para este momento. Ainda assim, ele não se afasta; é minha última fonte de calor neste mundo que se transforma em pó. Choro por todos: Farley, Tristan, Walsh, Will. Shade, Bree, Tramy, Gisa, minha mãe, meu pai. Todos guerreiros. E Kilorn. Não consegui salvá-lo. Não consigo nem salvar a mim mesma.
Pelo menos tenho meus brincos. As pedrinhas, brilhantes em minha pele, ficarão comigo até o fim. Morrerei com elas, e elas morrerão comigo.
Tenho a impressão de que passamos horas assim, embora nada marque a passagem do tempo. Chego até a cochilar a certa altura. É então que uma voz familiar me faz acordar sobressaltada.
— Em outra vida, eu teria ciúmes.
As palavras de Maven me arrepiam, e não por um motivo bom.
Cal levanta mais rápido do que pensei ser possível e se lança contra as barras, fazendo barulho. Mas as barras aguentam firme, e Maven — o maquiavélico, nojento, odioso Maven — fica fora do seu alcance por pouco. Pelo menos toma um susto, para minha alegria.
— Poupe sua força, irmão — ele diz, pronunciando muito bem cada palavra. — Vai precisar dela em breve.
Embora não use a coroa, Maven já carrega o ar de um rei terrível. Seu uniforme de gala está lotado de novas medalhas que eram do pai. Fico surpresa por elas não estarem cobertas de sangue. Ele parece mais pálido que antes, embora os círculos escuros ao redor dos olhos tenham desaparecido. Matar o ajuda a dormir.
— Será contra você na arena? — provoca Cal por trás das barras, as mãos apertando firme. — Vai fazer isso pessoalmente? Tem coragem?
Não consigo reunir forças para levantar, embora eu queira saltar contra as barras, arrancá-las com minhas próprias mãos e não parar até sentir o pescoço de Maven. Mas consigo apenas assistir.
Ele ri das palavras do irmão como um retardado.
— Ambos sabemos que nunca venceria você com meu poder — ele diz, atirando na cara de Cal o conselho dado há tanto tempo. — Então venço com a cabeça, querido irmão.
Maven me disse uma vez que Cal odiava perder. Agora percebo que o único jogando para vencer era ele próprio. Cada suspiro, cada palavra era para construir sua vitória sangrenta.
Cal resmunga em voz alta.
— Mavey — ele começa, mas o apelido sai sem qualquer afeto —, como pôde fazer isso com nosso pai? Comigo? Com ela?
— Um rei assassinado, um príncipe traidor. Tanto sangue... — ele provoca, dançando perto de Cal. — As pessoas choram nas ruas por nosso pai. Ou pelo menos fingem chorar — acrescenta, dando de ombros, desinteressado. — Os lobos idiotas já esperam por um tropeço meu, e os espertos sabem que isso não vai acontecer. A Casa Samos, a Casa Iral... Há anos afiam as garras à espera de um rei fraco, de um rei compassivo. Você sabe que babavam ao ver você, não é? Pense nisso, Cal. Dentro de algumas décadas, nosso pai morreria devagar, em paz, e você seria o rei. Casado com Evangeline, filha do aço e da faca, com o irmão dela ao seu lado. Você não sobreviveria à coroação. Ela faria como minha mãe e substituiria você pelo próprio filho.
— Não diga que fez isso para proteger a dinastia — Cal rebate, balançando a cabeça. — Você fez isso por si próprio.
De novo, Maven dá de ombros e sorri para si mesmo, um sorriso cruel.
— Você está mesmo tão surpreso? Pobre Maven, o segundo príncipe. A sombra da chama do irmão. Uma coisinha fraca, destinado a ficar de lado e se ajoelhar.
O novo rei se afasta da cela de Cal para se pôr diante da minha. Apenas o observo do chão.
Não estou certa se posso me mover. Até seu perfume é gelado.
— Noivo de uma garota com os olhos em outro, no irmão, no príncipe que ninguém é capaz de ignorar.
Suas palavras assumem um tom selvagem, carregadas de rancor desumano. Mas há verdade nelas, a verdade dura que eu tanto tentei esquecer. E que faz minha pele arrepiar.
— Você tomou tudo o que deveria ser meu, Cal. Tudo.
Levanto de repente. Tremo violentamente, mas consigo me manter de pé. Ele mentiu para nós por tanto tempo que não posso deixá-lo mentir agora.
— Nunca fui sua, e você nunca foi meu, Maven — disparo. — E não por causa dele. Pensei que você fosse perfeito, pensei que era forte, corajoso. Bom. Pensei que você fosse melhor que ele.
Melhor que Cal. Essas são as palavras que Maven pensou que ninguém jamais diria. Ele vacila por um segundo e consigo ver o garoto que conheci. Um garoto que não existe. Ele estende a mão e me agarra por entre as barras. Quando seus dedos se fecham ao redor do meu punho, só sinto repulsa. Ele me aperta forte, como se sua vida dependesse disso. Algo o despertou, algo revelou uma criança desesperada, um patético, um rejeitado que tenta se apegar ao brinquedo favorito.
— Posso salvar você.
As palavras fazem minha pele retorcer.
— Seu pai amava você, Maven. Você não percebia, mas ele amava.
— Mentira.
— Ele amava e você o matou! — As palavras escorrem depressa, como sangue a jorrar de uma veia. — Seu irmão amava você e você fez dele um assassino. Eu... eu amava você. Confiava em você. Precisava de você. E agora vou morrer por isso.
— Eu sou o rei. Você vai viver se eu quiser. E assim farei.
— Você quis dizer “se eu mentir”? Um dia suas mentiras enforcarão você, rei Maven. Meu único arrependimento é não ter sido capaz de enxergá-las.
Chega então minha vez de agarrá-lo com toda a força e puxá-lo contra as barras. Minha mão se choca contra seu rosto e ele gane como um cachorro ferido.
— Jamais cometerei o erro de amar você outra vez.
Para minha decepção, ele se recupera rápido e ajeita os cabelos.
— Então você escolhe Cal?
Sempre foi isso: inveja, rivalidade. Tudo para que a sombra pudesse derrotar o fogo.
Solto uma gargalhada que quase me faz cair para trás. Sinto os olhos dos irmãos sobre mim.
— Cal me traiu e eu o traí. E você traiu nós dois, de mil maneiras diferentes. — As palavras são duras como uma rocha, mas certas. Certíssimas. — Não escolho ninguém.
Pela primeira vez, tenho a sensação de controlar o fogo e de que consegui queimar Maven. Ele recua cambaleando da minha cela, derrotado pela menininha sem eletricidade, a prisioneira acorrentada, a humana diante de um deus.
— O que você vai dizer quando eu sangrar? — sussurro em sua direção. — A verdade?
Ele ri a plenos pulmões. O garotinho desaparece, para mais uma vez dar lugar ao regicida.
— Verdade é o que eu digo ser verdade. Posso incendiar o mundo e chamar de chuva.
E alguns vão acreditar. Os tolos. Mas outros não. Vermelhos e prateados, nobres ou não, alguns verão a verdade.
Ele range os dentes e diz:
— Lidaremos com qualquer um que saiba que escondemos você, qualquer um que ao menos suspeite.
Minha mente fervilha com o nome de todos aqueles que notaram algo estranho em mim. Maven é mais rápido, porém, e dá a entender que gosta de listar as muitas mortes.
— Lady Blonos teve que partir, claro. Decapitação funciona bem com os curandeiros de pele.
Era uma gralha velha, um incômodo... mas não merecia isso.
— As criadas foram mais fáceis. Belas garotas, irmãs vindas de Oldshire. Minha mãe fez isso pessoalmente.
Jamais cheguei a saber o nome delas.
Meus joelhos batem secamente contra o chão, mas nem sinto.
— Elas não sabiam de nada — imploro, mas já não adianta.
— Lucas também dará adeus — ele continua, seus dentes brancos e sorridentes brilhando na escuridão. — Vocês verão com seus próprios olhos.
Sinto ânsia de vômito.
— Você me disse que ele estava seguro, com a família...!
Sua risada é alta e demorada.
— Quando você vai perceber que cada palavra que saiu da minha boca era mentira?
Implorar é horrível, mas é só o que me vem à cabeça.
— Ele foi forçado por mim e por Julian. Não fez nada de errado. É da Casa Samos. Você não pode matar um deles.
— Mare, você não presta atenção? Posso fazer qualquer coisa! — Maven troveja. — É uma pena não termos conseguido trazer Julian até aqui a tempo. Eu gostaria de forçá-lo a assistir à sua morte.
Faço o máximo para engolir o soluço e tapo minha boca. Perto de mim, Cal pergunta com um grito gutural, preocupado com o tio:
— Você o encontrou?
— Claro que sim. Capturamos Julian e Sara — ri Maven. — Decidi matar Skonos primeiro, para acabar o trabalho que minha mãe começou. Você conhece a história, não conhece, Cal? Sabe o que minha mãe fez. Invadiu com seus sussurros a cabeça de Coriane, fazendo seu cérebro rastejar.
Antes de continuar, o novo rei se aproxima do irmão, o olhar selvagem e assustador.
— Sara sabia. Mas seu pai, e até você, se recusaram a acreditar nela. Deixaram minha mãe ganhar. E fizeram o mesmo agora.
Cal não responde. Apenas encosta a cabeça nas barras. Satisfeito com a destruição do irmão, Maven vira para mim e caminha de um lado para o outro bem diante da minha cela, mas longe do meu alcance.
— Vou fazer os outros gritarem por você, Mare. Até o último deles. Não só seus pais. Não só seus irmãos. Mas todos que forem como você. Vou encontrá-los, e eles morrerão com você no pensamento, sabendo que sofrem o destino que você lhes comprou. Sou o rei e você poderia ser minha rainha. Agora, você não é nada.
Nem trato de secar as lágrimas que escorrem pelas minhas bochechas. Já não adianta.
Maven se alegra em me ver destroçada e estala a língua, como se quisesse sentir meu gosto.
— Adeus, Maven.
Gostaria de ter mais a dizer, mas não existem palavras para descrever sua maldade. Ele sabe que é assim e, pior, gosta disso.
Maven abaixa a cabeça, quase em reverência a nós. Cal não liga para o irmão. Em vez disso, agarra as barras, pressionando o metal como se fosse o pescoço de Maven.
— Adeus, Mare.
O sorriso não está mais em seu rosto. Para minha surpresa, seus olhos parecem úmidos. Ele hesita, não quer sair. É como se finalmente compreendesse o que fez e o que vai acontecer com todos nós.
— Uma vez eu lhe disse para esconder seu coração. Você devia ter escutado.
Como ousa?
Tenho três irmãos mais velhos, de modo que minha mira para cuspe é perfeita. Acerto bem no olho de Maven.
Ele dá meia-volta rápido, quase fugindo de nós. Cal o observa por um longo tempo, incapaz de falar. Sento e espero minha raiva diminuir. Quando Cal volta a sentar atrás de mim, já não há palavras a serem ditas.
Muitos fatores levaram a este dia, para todos nós. Um filho esquecido, uma mãe vingativa, um irmão com uma longa sombra, uma mutação estranha. Juntos escreveram uma tragédia.
Nas histórias, nos antigos contos de fadas, um herói sempre aparece. Mas todos os meus heróis estão longe ou mortos. Ninguém vai aparecer pra mim.
Já deve ser o dia seguinte quando os sentinelas chegam, liderados por Arven em pessoa. Com as paredes sufocantes e sua presença, é difícil levantar. Mas sou puxada para cima à força.
— Sentinela Provos, sentinela Viper — Cal saúda os sentinelas que abrem sua cela. Eles o põem de pé bruscamente. Mesmo agora, diante da morte, Cal permanece calmo.
Ele cumprimenta cada um dos guardas pelo caminho, dirigindo-se a eles pelo nome. Eles retribuem com um olhar de raiva, confusão ou ambas. Um regicida não seria tão gentil. Com os soldados é ainda pior. Cal quer parar e se despedir adequadamente, mas seus próprios homens reagem com rispidez e frieza à sua chegada. Acho que isso lhe dói tanto quanto o resto.
Depois de um tempo, ele se cala, perdendo o último bocado de força que ainda tinha. Ao subirmos a escada para fora da escuridão, o ruído da multidão se aproxima cada vez mais.
Fraco no começo, mas logo um rugido contínuo sobre nossas cabeças. A arena está cheia e todos estão prontos para o espetáculo.
Isto começou quando caí no Jardim Espiral, um corpo feito de centelhas, e agora termina no Ossário. Sairei daqui um cadáver.
Os funcionários da arena — todos prateados com olhar sem vida — descem sobre nós como um bando de pombos. Eles me empurram para trás de uma cortina e me preparam para o que vem pela frente com movimentos bruscos e mãos rígidas. Mal os sinto puxar e empurrar para me vestir com uma imitação barata do traje de treino. O objetivo é humilhar me fazendo usar algo tão simples para morrer, mas prefiro minha pele arranhada por esse tecido grosso do que por seda. Penso vagamente em minhas criadas. Me pintavam todos os dias, sabiam que eu tinha algo a esconder. E morreram por isso. Agora ninguém me pinta ou cuida de limpar a sujeira de uma noite dormida na cela. Mais exibições. Uma vez ostentei seda, joias e um belo sorriso, mas nada disso condiz com a mentira de Maven. Uma garota vermelha em trapos é mais fácil de entender e matar.
Quando me empurram para fora, noto que fizeram o mesmo com Cal. Nada de medalhas ou armadura para ele. Mas lhe devolveram a pulseira que cria as chamas. O fogo ainda queima lentamente no soldado destruído. Ele está resignado com a morte, mas não sem antes levar alguém com ele.
Encaramos um ao outro, simplesmente porque não há mais para onde olhar.
— No que vamos nos meter? — Cal diz finalmente, passando a encarar Arven.
O ancião, branco como papel, observa seus ex-alunos sem qualquer vestígio de remorso. O que lhe prometeram por sua ajuda? Mas já posso ver. A insígnia em seu peito, a coroa feita de âmbar preto, diamante e rubi já pertenceu a Cal. Não duvido que tenha recebido muito mais.
— Você foi príncipe e general. Em sua sabedoria, o misericordioso rei decidiu que pelo menos morrerá com glória. Uma morte que traidores não merecem.
Arven sorri ao falar, mostrando seus dentes pequenos e afiados. Dentes de rato.
— Quanto à vermelha, a farsante — ele dirige seu olhar medonho a mim com mais intensidade, e o peso do seu poder parece prestes a me afogar. — Ela não terá armas, e morrerá como o demônio que é.
Abro a boca para protestar, mas Arven me fulmina com os olhos. Seu hálito fede a veneno.
— Ordens do rei.
Sem armas. Sinto vontade de gritar. Sem eletricidade. Arven não me solta, nem na hora da morte. As palavras de Maven soam nítidas em minha mente: Agora, você não é nada.
Morrerei como nada. Não precisam esconder meu sangue se puderem afirmar que fingi meus poderes de alguma maneira.
Lá embaixo, no calabouço, estava quase ansiosa para lutar, para mandar meus raios pelos ares e meu sangue para a terra. Agora tremo arrepiada, com vontade de fugir, mas meu maldito orgulho, a única coisa que me resta, não permitirá isso.
Cal toma minha mão. Treme como eu, com medo de morrer. Pelo menos terá a chance de lutar.
— Vou protegê-la o quanto puder — sussurra. Quase não o ouço em meio aos passos estrondosos e os patéticos batimentos do meu coração.
— Não mereço — respondo também em voz baixa, mas aperto sua mão em agradecimento mesmo assim. Eu o traí, arruinei sua vida, e é assim que ele retribui.
A próxima sala é a última. É uma espécie de rampa que dá para um portão de aço. O sol dança por suas frestas e nos tinge com sua luz, enquanto o ruído da arena lotada é cada vez mais alto. A parede distorce o som, transforma os gritos e brados nos uivos de um pesadelo.
Acho que a verdade não está muito diferente disso.
Ao entrarmos, vemos que não somos os únicos à espera da morte.
— Lucas!
Um guarda segura seu braço, mas ele consegue me olhar por cima do ombro. Seu rosto está cheio de feridas e ele parece mais pálido que antes, como se há dias não visse o sol. O que provavelmente é verdade.
— Mare.
Só o jeito de pronunciar meu nome me faz contrair o corpo. Ele é outro que traí, que usei como Cal, Julian, a coronel, Kilorn, como tentei usar Maven.
— Me perguntava quando veria você de novo — ele acrescenta.
— Sinto muito.
Vou para a cova pedindo perdão e ainda não será suficiente.
— Eles me disseram que você estava com sua família, que estava seguro, ou...
— Ou o quê? — ele pergunta devagar. — Não sou nada pra você. Apenas um objeto para ser usado e descartado.
A acusação corta como faca.
— Desculpe, mas foi necessário.
— A rainha me fez lembrar disso.
Fez. Sua voz está repleta de dor. Ele continua:
— Não peça desculpas, porque sei que não são sinceras.
Quero lhe dar um abraço, mostrar que não era isso que queria.
— São. Eu juro, Lucas.
— Sua majestade, Maven das Casas Calore e Merandus, rei de Norta, Chama do Norte — ressoa o grito na arena que chega até nós através do portão.
A vibração da multidão me faz tremer, e Lucas tensiona os músculos. Seu fim está próximo.
— Você faria de novo? — Suas palavras me ferem como espinhos. — Você me arriscaria de novo por causa dos seus amigos terroristas?
Sim. Não respondo em voz alta, mas Lucas vê em meus olhos.
— Eu guardei seu segredo.
Isso é pior que qualquer insulto. A consciência de que protegeu meu segredo, embora eu não merecesse, corrói o fundo da minha alma.
— Mas sei que você não é diferente, não mais — ele prossegue, quase cuspindo. — Você é igual ao resto. Sem coração, egoísta, fria: igual a nós. Ensinaram você muito bem.
Então ele vira o rosto para o portão novamente. Não quer mais palavras vindas de mim.
Quero ir até ele, tentar explicar, mas um guarda me contém. Não tenho nada a fazer senão endireitar o corpo e esperar meu destino.
— Meus cidadãos!
A voz de Maven vaza pelo portão junto com os raios de sol. Ele soa como o pai, como Cal, mas há um tom mais agudo em sua voz. Com apenas dezessete anos, ele já é um monstro.
— Meu povo, meus filhos.
Cal assume uma expressão de desprezo ao meu lado. Por outro lado, lá fora, na arena, o silêncio é total. Maven tem todos na palma da mão.
— Alguns considerariam isto uma crueldade — Maven continua. Não duvido que tenha decorado um discurso comovente, escrito provavelmente pela bruxa que é sua mãe. — O corpo de meu pai mal esfriou, seu sangue ainda mancha o assoalho, e fui forçado a assumir seu lugar, a começar meu reino sob uma sombra tão violenta. Há dez anos não executamos alguém entre nós, e sofro por retomar uma tradição horrível. Mas por meu pai, por minha coroa, por vocês, preciso fazer isso. Sou jovem, mas não sou fraco. Tamanho crime, tamanho mal será punido.
Nas arquibancadas, gritos delirantes se levantam. As pessoas desejam morte.
— Lucas da Casa Samos, por crimes contra a Coroa, aliança com a organização terrorista conhecida como Guarda Escarlate, o declaro culpado. Sua sentença é a morte. Apresente-se para a execução.
E então Lucas sobe a rampa rumo à própria morte. Ele não me dedica um olhar sequer. Não que eu mereça. Vai morrer não apenas pelo que nós o forçamos a fazer, mas também pelo que sou. Como os outros, sabia que tinha algo estranho em mim. E, como os outros, vai morrer.
Quando ele desaparece pelo portão, preciso virar o rosto para a parede. Os disparos são difíceis de ignorar. A multidão vibra feliz com a demonstração de violência.
Lucas foi só o começo, o show de aberturaNós somos a atração principal.
— Andem — diz Arven nos cutucando. Ele nos acompanha em nossa lenta subida pela rampa.
Não consigo soltar a mão de Cal por medo de cair. Cada um dos seus músculos está rijo, pronto para lutar por sua vida. Faço uma última tentativa de encontrar minha eletricidade em vão. Não resta uma única vibração em mim. Arven — e Maven — levaram tudo.
Pela brecha no portão, vejo o corpo de Lucas ser arrastado para fora, deixando atrás de si um rastro de sangue prata sobre a areia. Enjoada, preciso morder o lábio.
Com um grande rangido, o portão de aço se ergue aos solavancos. O sol me cega por um segundo e me impede de avançar, mas Cal me puxa para a arena.
Meus pés deslizam sobre a areia branca fina como talco. Quando meus olhos se adaptam, quase perco o fôlego. A arena é enorme, um círculo cinza de metal e alvenaria, repleto de milhares de rostos raivosos. Eles nos olham de cima a baixo num silêncio ensurdecedor, despejando seu ódio sobre minha pele. Não vejo um vermelho sequer, mas não tinha essa expectativa. Isto é o que os prateados chamam de entretenimento, mais uma peça para fazê-los rir, e não vão compartilhar o momento.
Monitores estão espalhados pela arena e exibem meu rosto para mim mesma. Claro que vão gravar tudo para mostrar pelo país inteiro. Para mostrar ao mundo outro vermelho sendo humilhado. A visão me faz parar. Me encaro de novo. Maltrapilha, cabelos embaraçados, roupas simples, tufos de poeira se desprendem do corpo. Minha pele cora com o sangue que por tanto tempo tentei ocultar. Se a morte não estivesse à minha espera, provavelmente eu abriria um sorriso.
Para minha surpresa, o monitor pisca e substitui o rosto de Cal e o meu por imagens chuviscadas: o vídeo de segurança, das câmeras, dos olhos elétricos. Perco o fôlego e percebo exatamente quão longe o plano de Maven vai de fato.
O monitor exibe tudo, cada momento roubado. As saídas às escondidas com Cal, as danças, nossos cochichos, nosso beijo. E então o assassinato do rei em toda a sua terrível glória.
Desse jeito não é difícil acreditar na história de Maven e da rainha. Tudo se encaixa, o conto do demônio vermelho que seduz o príncipe, que o faz matar o rei. A multidão murmura admirada, engolindo a mentira perfeita. Nem meus pais conseguiriam negar isso.
— Mare Molly Barrow.
A voz de Maven explode atrás de mim, e nos deparamos com o idiota real nos encarando com desprezo. Seu camarote está coberto de bandeiras pretas e brancas e de prateados conhecidos. Sonya, Elane e todos os herdeiros das Grandes Casas me observam com desdém.
Lord Samos está à esquerda de Maven, e a rainha à direita. Elara se esconde atrás de um véu de luto, provavelmente para ocultar o sorriso maligno. Espero encontrar Evangeline pelo grupo, feliz por se casar com o próximo rei. Afinal, só queria a coroa. Contudo, não a vejo em parte alguma. O próprio Maven parece um fantasma das trevas e sua palidez contrasta com o brilho preto da armadura de gala. Ele chega mesmo a portar a espada que usaram para matar o rei. E a coroa de seu pai assenta sobre seu cabelo, reluzindo ao sol.
— Antes acreditávamos que você fosse a desaparecida Lady Mareena Titanos, outra cidadã do reino assassinada. Com a ajuda de seus companheiros vermelhos, você nos enganou com truques e ardis tecnológicos para se infiltrar em nossa família.
Truques tecnológicos. O monitor mostra a cena do Jardim Espiral em que transbordo de eletricidade. Na filmagem, não parece natural.
— Nós lhe demos educação, status, poder e força. Nosso amor até. A tudo isso, você retribuiu com traição. Seduzindo meu próprio irmão a se voltar contra seu sangue. Hoje sabemos que é agente da derrotada Guarda Escarlate e diretamente responsável pelo fim de incontáveis vidas.
As imagens mudam para a noite do Atentado Rubro, para o salão de festas cheio de sangue e morte. A bandeira tremulante de Farley, o trapo vermelho e o sol despedaçado se destaca no meio do caos.
— Junto com meu irmão, o príncipe Tiberias VII, das Casas Calore e Jacos, você é acusada de muitas ofensas violentas e deploráveis contra a Coroa, incluindo falsidade ideológica, traição, terrorismo e assassinato.
Suas mãos não estão mais limpas que as minhas, Maven.
— Você matou o rei, meu pai, enfeitiçando seu próprio filho para cometer o crime. Você é um demônio vermelho.
Às próximas palavras, seus olhos se voltam para Cal, que agora quase se queima de raiva.
— E você é um homem fraco. Um traidor da Coroa, do seu sangue e das suas cores.
A morte do rei é exibida novamente para confirmar as acusações de Maven.
— Declaro ambos culpados. Apresentem-se para a execução.
Um grande urro se levanta da arena. Parece o som de porcos guinchando por sangue.
Os monitores voltam a exibir nosso rosto, à espera de registrar um choro ou pedido de clemência. Tanto Cal como eu permanecemos impassíveis. Não vão conseguir isso de nós.
Maven nos encara, malicioso, esperando que um de nós surte.
Em vez disso, Cal faz uma saudação militar e leva os dois dedos à testa. O efeito sobre Maven é melhor que um soco na cara, e o rei volta frustrado ao assento. Ele desvia os olhos de nós e os aponta para o outro extremo da arena. Quando me volto para trás, espero ver os atiradores que mataram Lucas, mas tenho uma visão bem diferente.
Não sei de onde surgiram, mas cinco figuras caminham pela poeira.
— Não é tão ruim assim — murmuro, apertando a mão de Cal.
Ele é um guerreiro, um soldado. Cinco contra um pode até ser justo para ele.
Mas Cal franze a testa e se concentra nos executores. À medida que se tornam mais nítidos, o medo se apodera de mim. Conheço seus nomes e poderes, alguns muito melhores que outros. Todos exalam força e vestem uniformes e armaduras feitos para a guerra.
Um forçador Rhambos para me partir ao meio. O garoto Haven que logo vai desaparecer e me estrangular como um fantasma sombrio. Lord Osanos em pessoa para apagar o fogo de Cal. Arven também. Ele está perto do portão e seus olhos nunca deixam meu corpo.
Não se esqueça dos outros dois. Os magnetrons.
É quase poético, na verdade. Com a mesma armadura e carranca, Evangeline e Ptolemus nos olham com desprezo. Em seus punhos, longas e cruéis facas reluzem.
Em algum lugar na minha cabeça, um cronômetro começa a contagem regressiva: não resta muito tempo.
Sobre nós, Maven grasna.
— Deixem que morram.

22 comentários:

  1. ATÉ EU CHOREI NESSE CAPÍTULO. COM CERTEZA NÃO SOU A ÚNICA!
    KKKK :(
    ~POLLY~

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  2. Já tinha achado essa Mare uma idiota, mas a cada capítulo ela se supera. Quando é ela ou os amigos dela a terem atitudes precipitadas, ou que matam inocentes é algo justificável, quando são os outros ela acha a pior coisa da terra? Lucas mo gente boa, morreu sem nem merecer ��

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    1. Concordo. Menina hipócrita.
      E realmente, Lucas era muito gente fina. 😢💔

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    2. Não não não não não! P começar o FDP da história é o MAVEN! Mare só foi levada pela ilusão de q ele era "bom e gentil" só q ele ñ era! EU cai na armadilha dele, EU tbm fui a iludida junto com Mare, NÓS agr somos só pessoas chorando por mortes! AAAAAAAH eu ñ aguento essa MERDA!
      -Victória

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  3. Ah Maven! Eu te amava caramba!
    #Decepcionada_Mas_Ainda_Te_Amo

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  4. Esse Marve tem q ter uma morte horripilante junto com sua mãe

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  5. Isso! Era isso que eu queria,emoção.
    Estou adorando.
    ~Paloma

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  6. GENTE SERÁ QUE ALGUEM VAI SOBREVIVER?!!! MEU DEUS, NAM...

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  7. Mare sua idiota vc cria eletricidade vc pode faze-la sua estúpida!#amo o Cal

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    1. Eu tou pensando a mesma coisa. Como pode ser tão esquecida? Mds #TeamCal

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    2. é isso que eu não entendo Julian disse que ela era diferente porque não precisa da matéria, ela mesmo criava a eletricidade.

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    3. Acho que Arven consegue neutralizar os poderes das pessoas.

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    4. O Arven consegue silenciar o poder dela, mesmo ela sendo diferente.

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  8. Meu Deus !

    Ass: Apaixonada por livros

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  9. — Ele amava e você o matou! — As palavras escorrem depressa, como sangue a jorrar de uma veia. — Seu irmão amava você e você fez dele um assassino. Eu... eu amava você. Confiava em você. Precisava de você. E agora vou morrer por isso

    EU NÃOOOOOOO TOOOOO CONSEGUINDO LIDAR COM ISSOOOO GENTE, EU TO COM O CORAÇÃO NA MÃO,JURO );

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  10. EU NÃO TO CONSEGUINDO ENTENDER MAS NADA, TO FICANDO FRUSTADA COM ESSE LIVRO );
    OOH MAVEN POR QUE VC FEZ ISSO D; / EU GOSTAVA TANTO DE VC

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  11. Gente, ler não faz bem pra saúde não. Vou ter um treco aqui

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  12. As vezes penso em como pessoas que não são leitoras tem sorte, por que nós sofremos demais...
    Lembro de quando eu não lia muito e era normal, agora... Rsrsrs brinks ler é a melhor coisa do mundo (mais que nós sofremos, sofremos)
    Falta só mais um capitulo (+ o epilogo) e eu tô morrendo de medo de ler...

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  13. Gente, a Mare errou muito e verdade,mas na verdade ela foi a vitima de tudo isso, os verdadeiros culpados são Maten e a Elara, então parem de julgar a coitada da menina!haha

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Boa leitura :)