15 de março de 2017

Capítulo vinte e seis

Mare

CONTINUO TREINANDO EM DOBRO, o que me deixa exausta. É melhor assim. Facilita o sono e reduz o tempo para preocupações. Toda vez que a dúvida se revira no meu cérebro, sobre Cal, Piedmont ou o que quer que virá depois, estou cansada demais para me dedicar aos pensamentos. Corro e levanto pesos com Cal de manhã, tirando vantagem do meu tempo sob efeito da Pedra Silenciosa. Depois do peso delas, nada físico parece difícil. Ele também enfia um pouco de teoria no processo, mesmo que eu o assegure de que Ella está cobrindo essa parte. Ele apenas dá de ombros e continua mesmo assim. Não menciono que o treinamento dela é mais brutal. Cal foi criado para lutar, mas com um curandeiro por perto. A versão dele de prática é diferente da de Ella, que foca em aniquilação. Cal é mais direcionado para defesa. Sua disposição para matar prateados apenas quando absolutamente necessário fica óbvia nas minhas horas com os eletricons.
Ella é uma invocadora. Suas tempestades se formam em uma velocidade surpreendente, com nuvens negras girando no céu limpo para abastecer uma saraivada impiedosa de raios. Lembro dela em Archeon, empunhando uma arma em uma mão e lançando raios com a outra. Apenas a reação rápida de Iris Cygnet a impediu de transformar Maven numa pilha de cinzas fumegantes. Não acho que meus raios algum dia serão tão destrutivos quanto os dela, não sem anos de treinamento, mas o aprendizado é inestimável. Com ela aprendi que uma tempestade de raios é mais poderosa que qualquer outra, mais quente que a superfície do sol e forte o suficiente para partir cristais de diamante. Um só raio como o dela já me drena por completo, ao ponto de mal conseguir ficar de pé, mas ela os lança por diversão e para treinar. Uma vez me fez correr por um campo enquanto o atingia com seus raios, para testar minha agilidade com os pés.
O raio em teia, como Rafe o chama, é mais familiar. Ele lança raios e faíscas das mãos e dos pés, formando teias verdes para proteger o corpo. Apesar de poder invocar tempestades, Rafe prefere métodos mais precisos para lutar. Seus raios podem assumir diferentes formas. Ele é melhor com escudos, malhas crepitantes de energia capazes de parar uma bala, e chicotes, que podem cortar pedras e ossos. O último é impressionante de ver: um arco esfiapado de eletricidade que se molda como uma corda mortal, capaz de queimar qualquer coisa no caminho. Sinto a força disso toda vez que treinamos. Não me machuca tanto quanto machucaria outra pessoa, mas qualquer raio cujo controle eu não possa assumir me atinge com força. É comum eu terminar o dia com o cabelo em pé, e quando Cal me beija sempre leva um ou outro choque.
O silencioso Tyton não treina combate com nenhum de nós, ou com qualquer outra pessoa, na verdade. Não deu um nome para sua especialidade, mas Ella chama de raio pulsante. Seu controle da eletricidade é espantoso. As fagulhas puras e brancas são pequenas mas concentradas, contendo a força do raio de uma tempestade. Como uma bala que eletrocuta.
— Eu te mostraria um raio mental — ele murmura para mim um dia —, mas duvido que alguém se ofereça como voluntário.
Passamos pelas arenas de treino juntos, começando a longa caminhada pela base até a Colina da Tempestade. Agora que estou com eles há algum tempo, Tyton passou a me dirigir mais do que algumas poucas palavras. Ainda assim, é uma surpresa ouvir sua voz lenta e metódica.
— O que é um raio mental? — pergunto, intrigada.
— É o que o nome mesmo diz.
— Ajudou muito — Ella zomba ao meu lado. Como sempre, seu cabelo vívido está trançado para trás. Ele não é tingido há algumas semanas, como fica evidente pelo tom loiro escuro que aparece na raiz. — Ele quer dizer que o corpo humano funciona através de pulsos elétricos. Bem pequenos e com uma rapidez absurda. Difíceis de detectar e quase impossíveis de controlar. Eles se concentram mais no cérebro, onde podem ser colhidos mais fácil.
Meus olhos se arregalam enquanto olho para Tyton. Ele continua andando, com o cabelo branco sobre um olho, as mãos enfiadas nos bolsos. Despretensioso. Como se Ella não tivesse acabado de dizer uma coisa apavorante.
— Você pode controlar o cérebro de alguém? — Um medo gélido me corta como uma faca no estômago.
— Não do jeito que você está pensando.
— Como sabe o jeito que…
— Você é muito previsível, Mare. Não leio mentes, mas sei que seis meses à mercê de um murmurador deixariam qualquer um assustado. — Com um suspiro irritado, ele ergue a mão. Uma fagulha mais brilhante que o sol ondula entre seus dedos. Um toque e poderia virar um homem do avesso com sua força. — O que Ella está tentando dizer é que posso olhar para alguém e fazer com que caia como um saco de ossos. Afetando a eletricidade em seu corpo. Causando um derrame, se eu estiver me sentindo bondoso. Ou matando, caso contrário.
Olho para Ella e Rafe, alternando entre os dois.
— Algum de vocês aprendeu isso?
Eles negam.
— Nenhum de nós chega perto do nível de controle exigido — Ella diz.
— Tyton pode matar alguém discretamente, sem que qualquer outra pessoa perceba — Rafe explica. — Poderíamos estar jantando na cantina e o primeiro-ministro cairia do outro lado da sala. Derrame. Ele morre. Tyton nem pisca e continua comendo. Não que a gente ache que ele seja capaz de uma coisa dessas, claro — ele acrescenta, dando tapinhas nas costas do colega.
Tyton quase não esboça reação.
— Reconfortante — ele comenta.
É um jeito monstruoso mas bastante útil de usar nossa habilidade.
Nos campos de treino, alguém grita frustrado. O som chama minha atenção e viro para ver uma dupla de sanguenovos lutando. Kilorn está supervisionando o treino e acena para nós.
— Vão vir para os ringues hoje? — ele diz, gesticulando para as arenas circulares. — Não vejo a garota elétrica brilhando há um bom tempo.
Sinto uma ansiedade surpreendentemente forte. Lutar com Ella ou Rafe é divertido, mas usar raios para enfrentar raios não é de grande auxílio. Não há motivo para praticar contra um poder que não vamos enfrentar tão cedo.
Ella responde antes que eu possa, dando um passo à frente.
— Treinamos combate na Colina da Tempestade. E já estamos atrasados.
Kilorn apenas levanta uma sobrancelha. Ele quer uma resposta minha, não dela.
— Na verdade, acho que seria bom. Precisamos praticar contra o que Maven pode ter no seu arsenal. — Tento manter meu tom diplomático. Gosto de Ella, de Rafe. Até gosto de Tyton, pelo pouco que sei. Mas tenho opinião também. E acho que só podemos chegar até certo ponto lutando uns contra os outros. — Quero lutar aqui hoje.
Ella abre a boca para discutir, mas Tyton fala primeiro.
— Tudo bem — ele diz. — Contra quem?
A coisa mais parecida com Maven que temos.


— Você sabe que sou bem melhor nisso do que ele, né?
Cal alonga um braço sobre a cabeça, o bíceps esticando o algodão fino da camisa. Ele sorri enquanto o observo, apreciando a atenção. Olho furiosa e cruzo os braços. Ele não aceitou meu pedido, tampouco recusou. O fato de interromper sua própria rotina de treinamento e vir para os ringues diz muita coisa.
— Ótimo. Assim vai ser mais fácil lutar contra ele. — Sou cuidadosa com as palavras. Lutar, não matar. Desde que Cal mencionou sua busca por alguém que pudesse “consertar” seu irmão, tenho pisado em ovos. Por mais que queira acabar com o rei pelo que fez comigo, não posso dizer isso em voz alta. — Se treinar contra você, Maven vai ser moleza.
Ele esfrega a terra sob os pés, testando o terreno.
— Nós já nos enfrentamos.
— Sob a influência de um murmurador. Com alguém nos manipulando. Não é a mesma coisa.
Na beirada da arena, uma pequena multidão se junta para ver. Quando Cal e eu pisamos no ringue, a notícia se espalhou rápido. Kilorn parece estar organizando apostas, enquanto passa sorrindo por uma dezena de sanguenovos. Um deles é Reese, o curandeiro que atingi quando fui resgatada. Ele fica a postos, como os curandeiros costumavam ficar quando eu treinava com os prateados. Pronto para consertar o que quer que quebremos.
Meus dedos tamborilam nos braços, cada um deles contando os segundos. Invoco a eletricidade. Ela surge ao meu comando e sinto as nuvens se formando sobre minha cabeça.
— Você vai continuar desperdiçando meu tempo enquanto cria uma estratégia ou podemos começar?
Ele só dá uma piscadela para mim e continua o alongamento.
— Estou acabando.
— Ótimo. — Abaixo e passo a terra fina nas mãos, secando o suor. Cal me ensinou isso. Ele sorri e faz o mesmo. Então, para a surpresa e o deleite de algumas pessoas, tira a camisa e a joga de lado.
Comida melhor e treino duro deixaram nós dois mais musculosos, mas, enquanto sou esguia e ágil, levemente curvilínea, ele é todo anguloso, com cortes retos definindo o corpo. Já o vi sem roupa muitas vezes, mas a visão ainda me paralisa, aumentando o fluxo de sangue das minhas bochechas até a ponta dos pés. Engulo em seco. Pelo canto do olho, noto que tanto Ella quanto Rafe olham para Cal com interesse.
— Tentando me distrair? — Finjo não me importar, ignorando o calor por todo o rosto.
Cal inclina a cabeça para o lado, o retrato da inocência. Ele até coloca a mão no peito, forçando um suspiro falso como se dissesse: “Quem, eu?”.
— Você ia fritar minha camisa de qualquer forma. Estou economizando suprimentos. Mas… — ele acrescenta, começando a andar em círculos — um bom soldado usa toda vantagem ao seu dispor.
O céu continua escuro. Agora eu definitivamente ouço Kilorn coletando apostas.
— Ah, você acha que está em vantagem? Que fofo. — Imito o movimento dele, contornando a arena na direção oposta. Meus pés se movem por vontade própria. Confio neles. A adrenalina é uma sensação familiar, nascida em Palafitas, na arena de treino, e em cada batalha de que já participei. Assume o controle dos meus nervos.
Ouço a voz de Cal na minha cabeça, mesmo enquanto ele se prepara, assumindo sua posição de combate tão familiar. ArdenteDez metros. Mantenho as mãos baixas, girando os dedos enquanto fagulhas roxas e brancas saltam para dentro e para fora da minha pele. Do outro lado da arena, Cal sacode os punhos, e uma onda de calor calcinante atinge minhas mãos.
Dou um grito, pulando para trás ao ver minhas faíscas transformadas em chamas vermelhas. Ele as tomou de mim. Com uma explosão de energia, forço-as a voltar a ser raios. Elas vacilam, desejando virar fogo, mas mantenho a concentração, impedindo-as de fugir do controle.
— Primeiro ponto para Calore! — Kilorn grita da beirada da arena. Uma mistura de resmungos e urras atravessa a plateia, que continua crescendo. Ele bate palmas e bate os pés no chão. Isso me lembra de quando gritava pelos campeões prateados na arena de Palafitas. — Vamos, Mare, reaja!
Uma boa lição, percebo. Cal não precisava ter começado a luta revelando um golpe para o qual eu não estava preparada. Ele poderia ter escondido o jogo. Esperado para usar a vantagem. Em vez disso, lançou o truque de cara. Ele pretende pegar leve comigo.
Primeiro erro.
A dez metros de distância, Cal acena, indicando para que eu continue. Uma provocação, mais do que qualquer outra coisa. Ele é melhor na defensiva. Quer que eu vá para cima dele. Tudo bem.
Na borda da arena, Ella murmura um alerta para a multidão.
— Eu me afastaria se fosse vocês.
Meu punho se fecha e um raio cai. Ele corta o ar com uma força cegante e atinge a arena bem no meio, como uma flecha. Mas não afunda na terra, rachando o chão como esperado. Em vez disso, uso uma combinação de tempestade e teia, de modo que o raio roxo e branco acende a arena, correndo pela terra na altura do meu joelho. Cal usa o braço para proteger os olhos da claridade, enquanto a outra mão transforma faíscas em uma chama azul ardente em volta dele. Corro e disparo em meio aos raios que ele não suporta olhar. Com um rugido, atinjo as pernas de Cal, derrubando-o. Ele bate nas faíscas e é tomado pelo choque enquanto me levanto rapidamente.
Um calor vermelho se aproxima do meu rosto, mas eu o lanço de volta com um escudo elétrico. E então caio também, levando uma rasteira. Meu rosto bate com força no chão e sinto o gosto da terra. Uma mão agarra meu ombro, queimando, e eu dou uma cotovelada, acertando o queixo dele. Isso também queima. O corpo inteiro de Cal está em chamas. Vermelho e laranja, amarelo e azul. Ondas de calor pulsam dele, fazendo o mundo inteiro se agitar e ondular.
Pego um punhado de terra para jogar o máximo que posso no rosto dele. Cal fecha os olhos e isso alivia um pouco o fogo, me dando tempo suficiente para ficar de pé. Com outro movimento dos braços, jogo um raio na forma de um chicote, faiscando e assobiando no ar. Cal desvia de cada golpe, rolando e se abaixando, com pés leves como um dançarino. As faíscas que não consigo controlar totalmente viram bolas de fogo. Cal as transforma em seus próprios chicotes flamejantes, tornando a arena um inferno. Roxo e vermelho se enfrentam, faísca e chama, até que a terra compacta sob nós estremece como um mar tempestuoso e o céu fica preto, numa chuva de raios.
Cal passa perto o suficiente para atacar. Sinto a força do impacto do seu punho quando me atinge e o cheiro de cabelo queimado. Inicio meu próprio ataque, dando uma cotovelada brutal no rim. Ele grunhe, mas responde à altura, os dedos flamejantes rasgando minhas costas. Minha pele enruga com as bolhas frescas. Mordo o lábio para me impedir de gritar. Cal pararia a luta se soubesse o quanto dói. E dói muito. A dor cortante atravessa minha coluna e meus joelhos fraquejam. Estendo os braços para impedir a queda e o raio me põe de pé. Aguento a dor lancinante porque tenho que saber qual é a sensação. Maven provavelmente fará pior quando chegar a hora.
Uso a teia de novo, numa manobra defensiva para manter as mãos de Cal longe. Um raio forte corre pelas pernas dele, por seus músculos, nervos e ossos. Seguro o golpe o suficiente para não causar dano permanente. Ele se contorce, caindo de lado. Vou para cima sem pensar, focando nos braceletes que o vi prender e soltar uma dezena de vezes. Sob mim, seus olhos se reviram, e ele tenta me impedir. Os braceletes voam, brilhando em um tom púrpura com minhas faíscas.
Um braço se enrola na minha cintura, me derrubando. A terra nas minhas costas é como uma labareda de fogo. Grito dessa vez, perdendo o controle. Faíscas explodem das minhas mãos e Cal se joga para trás, fugindo da fúria do raio.
Lutando contra as lágrimas, eu me forço para cima, com os dedos cravados na terra.
A alguns metros de distância, Cal faz o mesmo. Seu cabelo está todo espetado por causa da estática. Estamos ambos feridos e somos orgulhosos demais para parar.
Cambaleamos como velhos, sobre membros instáveis. Sem seus braceletes, ele recorre à grama que queima na beirada da arena, formando uma chama a partir das brasas. Ela é disparada contra mim enquanto meus raios explodem de novo.
Ambos colidem, formando uma parede azul faiscante. Ela assobia, absorvendo a força dos dois ataques, e então desaparece.
— Talvez seja melhor vocês lutarem no campo de tiro da próxima vez — Davidson fala. Hoje o primeiro-ministro parece uma pessoa comum, com um uniforme verde simples, parado em pé na beira da arena. Pelo menos do que era uma arena. Agora a terra e a grama são uma bagunça carbonizada, completamente reviradas, num campo de batalha destruído por nossas habilidades.
Assobiando de dor, sento no chão, em silêncio, grata pelo término. Até respirar faz minhas costas doerem. Tenho que me inclinar sobre os joelhos, cerrando os punhos com força para lutar contra a dor.
Cal dá um passo na minha direção e cai também, apoiando-se nos cotovelos. Sua respiração está ofegante e pesada, o peito subindo e desabando com o esforço. Sem energia para oferecer um sorriso que seja. Suor o recobre dos pés à cabeça.
— E sem uma plateia, se possível — Davidson acrescenta. Atrás dele, conforme a fumaça se dissipa, outra parede azul nos separa dos espectadores. Com um aceno de Davidson, ela pisca e desaparece. Ele abre um sorriso brando, então aponta para o símbolo em seu braço, um hexágono branco. — Escudo. Bem útil.
— Eu que o diga — Kilorn grita, avançando na minha direção. Ele se ajoelha do meu lado. — Reese — chama por cima do ombro.
Mas o curandeiro ruivo para a alguns metros de distância.
— Você sabe que não é assim que funciona.
— Reese, para com isso! — Kilorn sibila. Ele range os dentes, irritado. — Ela está com as costas inteiras queimadas e ele mal consegue andar.
Cal pisca na minha direção, ainda ofegante. Seu rosto se contrai de preocupação e arrependimento, mas também de dor. Estou agonizando, assim como ele. O príncipe se esforça ao máximo para parecer forte e tenta sentar. Ele cai de imediato no chão.
Reese se mantém firme.
— O treinamento tem consequências. Não somos prateados. Precisamos ter consciência do que fazemos uns aos outros com nossas habilidades. — As palavras parecem ensaiadas. Se eu não estivesse com tanta dor, concordaria. Lembro das arenas onde os prateados lutavam por esporte, sem medo. Lembro do meu treinamento no Palacete do Sol. Um curandeiro estava sempre a postos, pronto para remendar cada arranhão. Os prateados não se importam em machucar outras pessoas porque os efeitos não duram. Reese nos observa de cima e só falta balançar o dedo, numa repreensão.
— A vida deles não corre perigo. Vão passar vinte e quatro horas assim. É o protocolo, Warren.
— Normalmente, eu concordaria — Davidson diz. Com passadas firmes, ele atravessa o espaço até o curandeiro e fixa nele um olhar sem emoção. — Mas, infelizmente, preciso desses dois bem dispostos já, não dá pra esperar.
— Senhor…
— Cure os dois.
Sinto um pequeno alívio enquanto aperto a terra. Se esse é o preço para encerrar essa tortura, farei o que o primeiro-ministro quiser, e sorrindo.


Meu macacão cheira a desinfetante e faz minha pele coçar. Eu reclamaria, mas não consigo. Não depois dos últimos relatos dos agentes de Davidson. Até o primeiro-ministro parece abalado, andando para lá e para cá diante da longa mesa de conselheiros militares, que inclui Cal e eu. Davidson mantém o punho fechado sob o queixo e o olhar indecifrável no chão.
Farley o observa por um longo momento antes de abaixar a cabeça para ler a caligrafia meticulosa de Ada. A sanguenova que consegue lembrar de tudo é uma oficial agora e trabalha com Farley e a Guarda. Não me surpreenderia se a pequena Clara também virasse oficial. Ela cochila no peito da mãe, enrolada bem firme em um pano. Fios curtos de cabelo castanho-escuro despontam na cabeça dela. Realmente parece com Shade.
— A tropa de Corvium no momento é composta por cinco mil soldados vermelhos da Guarda Escarlate e quinhentos sanguenovos de Montfort — Farley recita as anotações de Ada. — Os relatórios indicam que as forças de Maven estão na casa dos milhares, todos prateados. Estão se reunindo no Forte Patriota, em Harbor Bay, e nos arredores de Detraon, em Lakeland. Não temos o número exato nem meios para conseguir isso.
Minhas mãos tremem na superfície da mesa. Rápido, eu as coloco embaixo das pernas. Imagino quem poderia auxiliar a tentativa de Maven de retomar a cidade-fortaleza. Os Samos se foram; os Laris, Iral e Haven também. E os Lerolan, se der para acreditar na avó de Cal. Por mais que queira desaparecer, me forço a falar.
— Ele tem um apoio forte das Casas Rhambos e Welle. Forçadores e verdes. Dos Arven também. Podem neutralizar qualquer ataque dos sanguenovos. — Não me aprofundo na explicação. Senti na pele o que são capazes de fazer. — Não conheço as forças de Lakeland além dos ninfoides reais.
O coronel se inclina para a frente, apoiando a palma das mãos na mesa.
— Eu conheço. Lutam bravamente e oferecem muita resistência. A lealdade deles ao rei é obstinada. Se ele der seu apoio ao desgraçado… — Ele para e volta o olhar para Cal, que não reage. — Se ele der seu apoio a Maven, os demais não hesitarão em seguir. Os ninfoides são os mais perigosos, é claro, seguidos por tempestuosos, calafrios e dobra-ventos. Os guerreiros pétreos também são um bando horrível.
Eu me contorço a cada um dos nomes.
Davidson vira para encarar Tahir, sentado à mesa. O sanguenovo parece incompleto sem seu gêmeo e inclina-se de forma estranha, como se para compensar a ausência dele.
— Alguma atualização sobre o cronograma? — o primeiro-ministro vocifera. — Menos de uma semana não é preciso o suficiente.
Apertando os olhos, Tahir se foca em outro lugar, bem longe dali. O lugar onde seu irmão gêmeo deve estar. Como em muitas das operações, a localização de Rash é secreta, mas tenho um palpite. Salida já esteve infiltrada no exército de sanguenovos de Maven. Rash é o substituto perfeito para ela, provavelmente trabalhando como um serviçal vermelho em algum lugar na corte. É uma ideia genial. Usando sua ligação com Tahir, ele pode despachar informações mais rápido do que qualquer rádio ou comunicador, sem deixar rastros e sem a possibilidade de ser interceptado.
— Ainda estou confirmando — ele fala lentamente. — Há rumores a respeito de… — O sanguenovo para e seu queixo cai, formando um O de surpresa. — Em menos de um dia. Um ataque pelos dois lados da fronteira.
Mordo o lábio, fazendo-o sangrar. Como isso pode acontecer tão rápido? Sem aviso.
Cal compartilha minha surpresa.
— Pensei que estivéssemos vigiando a movimentação das tropas. Exércitos não se agrupam do dia para a noite. — Uma leve corrente de calor emana dele, esquentando o lado direito do meu corpo.
— Sabemos que o grosso da força está em Lakeland. A nova esposa de Maven e a aliança que trouxe nos deixou um pouco amarrados — Farley explica. — Não temos recursos suficientes lá, ainda mais agora que a maior parte da Guarda Escarlate está aqui. Não podemos monitorar três países diferentes…
— Mas vocês têm certeza de que eles vão para Corvium? Sem sombra de dúvida? — Cal estoura.
Ada confirma com a cabeça, hesitante.
— Todas as informações apontam para isso.
— Maven gosta de armadilhas. — Odeio dizer o nome dele. — Pode ser uma estratégia para atrair nosso pessoal, para nos pegar em trânsito. — Lembro do barulho do nosso jato destruído em pleno voo, rachando em pedaços irregulares pelo céu. — Ou um truque. Vamos para Corvium. Ele ataca Lowcountry. Toma nossa base debaixo do nosso nariz.
— É por isso que esperamos. — Davidson cerra um punho, determinado. — Deixamos que avancem primeiro para contra-atacar. Se enrolarem, saberemos que é um truque.
O coronel enrubesce, sua pele vermelha como o olho.
— E se for uma ofensiva pura e simples?
— Agiremos rápido assim que conhecermos as intenções deles…
— E quantos dos meus soldados vão morrer enquanto você não age rápido?
— Tantos quanto os meus — Davidson retruca, irônico. — Não aja como se seu pessoal fosse o único a sangrar.
— Meu pessoal…?
— Chega! — Farley grita com os dois, alto o suficiente para acordar Clara. A criança tem o temperamento mais tranquilo do que qualquer um que eu conheço e apenas pisca sonolenta com a interrupção do cochilo. — Se não podemos conseguir mais informações, então esperar é nossa única opção. Já cometemos erros demais atacando primeiro.
Incontáveis erros.
— É um sacrifício, admito. — O primeiro-ministro parece tão sério quanto suas generais, todos estoicos e com a expressão impassível diante das notícias. Se houvesse outra forma, ele optaria por ela. Mas nenhum de nós enxerga uma. Nem mesmo Cal, que permanece em silêncio. — Mas é um sacrifício pequeno por tanto.
O coronel explode de raiva, batendo a mão com força na mesa do conselho. Uma jarra de água balança e Davidson a segura com tranquilidade e agilidade, mostrando bons reflexos.
— Calore, vou precisar que você coordene.
Com a avó dele. Com os prateados. Pessoas que me viram acorrentada e não fizeram nada até que fosse conveniente. Pessoas que ainda pensam que minha família deveria ser escrava. Mordo a língua. Pessoas de quem precisamos para vencer.
Cal abaixa a cabeça.
— O reino de Rift ofereceu apoio. Teremos os soldados de Samos, Iral, Laris e Lerolan.
— O reino de Rift — falo baixo, quase cuspindo. Evangeline conseguiu sua coroa, afinal.
— E você, Barrow?
Levanto os olhos para ver Davidson me encarando, ainda com a expressão neutra. Ele é impossível de ler.
— Está conosco também?
A imagem da minha família pisca diante dos meus olhos, mas apenas por um momento. Deveria me sentir envergonhada pelo ódio e pela raiva que mantenho queimando no fundo do meu estômago e nos cantos do meu cérebro. Por terem mais peso que todos eles. Minha mãe e meu pai vão me matar por deixá-los de novo. Mas estou disposta a me juntar à guerra para encontrar algo que se pareça com paz.
— Sim.

13 comentários:

  1. Nessa luta da arena eu só consiguia pensar no como eles estavam fofos

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  2. só eu fiquei imaginando o Cal sem camisa todo "quente"? huu-lala *-*

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  3. To com um pressentimento qe td isso vai dar merda... mta merda

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  4. Tipo, bem Apolo da vida?♥ eu também fiquei imaginando

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  5. Eu me pergunto qual é o melhor casal lutando roman e aelin ou cal e mare. Imagina uma luta entre eles, seria epico

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    1. sem duvida o rowan e a aelin

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    2. Com todo certeza do mundo Aelin e Rowan
      nada supera eles dois

      J CARSTAIRS

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    3. A Cadela Cuspidora de Fogo... Que saudade dela!!!

      Eles fariam um quarteto incrível! Os quatro sozinhos ganhavam a guerra fácil.

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  6. Isso não vai dar certo.....

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  7. vai dar mavem que é merda

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  8. Esse casal é tão romântico *-* próximo programa com meu namorado vai ser ele queimar minhas costas e eu eletrocutá-lo S2
    Ass: Déborah A.

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  9. é o certo a fazer !
    mais to com pena de evangeline, de cal e principalmente de mare pelo que está por vir .

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Boa leitura :)