13 de março de 2017

Capítulo vinte e seis

CÂMERAS CEGAS SÓ PODEM NOS PROTEGER POR UM TEMPO — que parece ter se esgotado. O ataque começa com explosões no primeiro corredor. Ouço Ketha berrar a cada estrondo, assustada com o que fez e continua fazendo com carne e ossos. Cada grito agudo ecoa através das celas, fazendo os sanguenovos — já lentos — paralisarem.
— Continuem! — Farley ordena. Sua energia maníaca se foi, substituída por uma autoridade severa. — Sigam Ada! Sigam Ada!
Ela os conduz como ovelhas e chega até a empurrar muitos deles escada acima. Shade é mais útil, saltando com os mais velhos e doentes dos andares inferiores até a parte de cima, embora isso deixe a maioria deles desorientada. Kilorn evita que tropecem na passarela, e seus braços longos vêm bem a calhar na função.
Ada agita os braços, direcionando os sanguenovos para a porta ao seu lado, marcada com um C grande e preto.
— Comigo! — berra. Seus olhos varrem tudo e todos, contando. Preciso empurrar muitos para ela, pois estão inexplicavelmente atraídos por mim. Pelo menos a garotinha capta a mensagem. Ela vai cambaleando até Ada e se agarra à perna dela, tentando se proteger do barulho. Cada ruído ecoa de maneira horrível pelo bloco, como uivos de animais entre as paredes de concreto e chapas de metal. Os disparos logo começam, seguidos pela inconfundível risada de Nix. Só que ele não vai rir por muito tempo se a invasão continuar.
Agora é a hora que mais temo, o momento contra o que mais lutei. Mas Cal foi claro: precisamos nos separar. Cobrir mais território, libertar mais prisioneiros, e, mais importante, tirá-los daqui em segurança. Assim, avanço pela multidão de sanguenovos, lutando contra a maré, com Cameron ao meu lado. Ela joga a chave para trás e Kilorn a agarra com destreza. Sem piscar, ele nos observa partir. Esta pode ser última vez que me vê, e ambos sabemos disso.
Cal está atrás de mim; sinto seu calor a metros de distância. Ele queima a passarela após a nossa passagem, deixando-a derreter e separando-a das outras. Quando chegamos até a porta oposta, em que se lê COMANDO, Cameron começa a trabalhar no painel de acesso. Não posso fazer nada além de esperar, alternando o olhar entre Kilorn e meu irmão, decorando seus rostos. Ketha, Nix e Darmian disparam para o bloco, correndo do massacre que já não podem conter. As balas vêm logo em seguida, resvalando na carne de Nix. De novo, o mundo fica lento, e gostaria que parasse por completo.
Queria que Jon estivesse aqui para me dizer o que fazer, para me dizer que fiz as escolhas certas. Para me contar quem vai morrer.
Uma mão quente, quase escaldante, pega minha bochecha, me forçando a desviar o rosto da cena.
— Concentre-se — Cal diz, me encarando. — Mare, você vai ter que esquecer eles agora. Confie no que está fazendo.
Mal consigo concordar. Mal consigo falar.
— Sim.
Atrás de nós, o bloco de celas se esvazia. À frente, a tranca faísca. A porta desliza e abre.
Cal empurra nós duas para dentro e caio contra mais um piso de lajotas brancas e duras. Meu corpo reage antes da minha mente, e os raios faíscam vivos ao meu redor.
A eletricidade desfaz meus pensamentos sobre Kilorn e Shade, até que restam apenas o centro de comando no fim do corredor e o que preciso fazer.
Como Cameron tinha dito, trata-se de uma sala triangular de diamante ondulado e impenetrável. O interior está repleto de painéis de controle, telas de monitoramento e seis soldados inquietos. São três portas no total, do mesmo tipo das portas das celas, uma em cada parede. Corro até a primeira esperando que abra, esperando que os soldados levantem para me enfrentar.
Para a minha surpresa, eles continuam nos assentos, me encarando com olhos arregalados e amedrontados.
Esmurro a porta, quase gostando da dor que sobe pela minha mão.
— Abram! — grito, como se isso pudesse surtir algum efeito.
Na verdade, o soldado mais perto de mim se encolhe e salta para longe da parede. Seu distintivo também é de capitão.
— Não! — ele ordena, erguendo a mão para deter os companheiros.
No alto, uma sirene desperta e começa a gritar.
— Se é o que vocês querem... — Cal murmura, passando para a outra porta.
Um som seco e repentino me sobressalta. Quando olho para trás, deparo com grandes blocos de granito no lugar da porta de metal pela qual acabamos de passar.
Cameron sorri para o painel de controle e chega até a alisá-lo com carinho.
— Isso deve nos garantir alguns minutos — diz. Em seguida levanta tão rápido que seus joelhos estalam. Fecha a cara quando vê o centro de comando. — Esses idiotas malditos estão assustados — grunhe enquanto faz um gesto bem grosseiro, mais apropriado para as vielas de Palafitas. — A gente consegue atingi-los através do vidro?
Em resposta, pouso o olhar sobre as telas de monitoramento. Elas explodem em uma sequência rápida, fazendo uma chuva de faíscas e cacos de vidro cair sobre os soldados. O volume da sirene abaixa até se tornar um ganido vago, e então para por completo. Cada pedaço de metal dentro do comando pulsa de eletricidade, chiando como ovos numa frigideira, o que faz os soldados se agruparem no meio da sala. Um deles desaba com as mãos na cabeça, num gesto que agora reconheço. Seu corpo balança em sincronia com o pulso cerrado de Cameron, tentando combater as ondas do poder silenciador da jovem. Sangue começa a sair pelas suas orelhas, nariz e boca, e não demora muito para o soldado sufocar.
— Cameron! — Cal vocifera, mas ela finge não ouvir.
— Julian Jacos! — berro, esmurrando o vidro de novo. — Sara Skonos! Onde estão?
Outro soldado cai, uivando de dor.
— Cameron!
Ela não parece que vai parar. Não que devesse. Esta gente a aprisionou, a torturou, a deixou passar fome, e a teria matado se não tivesse fugido. Ela tem direito à vingança.
Minha eletricidade fica mais intensa, saltando pela pirâmide de vidro, forçando os soldados a se protegerem da minha fúria roxa e branca. Cada raio estala, explodindo cada vez mais perto deles.
— Mare, pare! — Cal continua a gritar. — Julian Jacos! Sara Sko...
O capitão agora se arrasta pelo chão, se joga contra a parede diante de mim.
— Bloco G! — ele grita, espalmando as mãos no vidro, a poucos centímetros do meu rosto. — Estão no Bloco G! Por aquela porta!
— É isso! Vamos! — Cal ruge.
Dentro do interior do módulo de comando, os olhos do capitão vão até o príncipe caído.
Cameron ri em alto e bom som.
— Você quer que eles vivam? Sabe o que fizeram com a gente? Com todos aqui, até com os seus prateados?
— Por favor, por favor... Estávamos seguindo ordens, ordens do rei... — o capitão suplica, abaixando para evitar outro rompante de eletricidade dentro da sala.
Atrás dele, a segunda vítima de Cameron se encolhe, sucumbindo ao silêncio. Lágrimas dependuram-se dos cílios dele como cristais.
— Alteza, imploro misericórdia, a sua misericórdia.
Penso na garotinha da cela. Seus olhos estavam injetados de sangue, e pude sentir as costelas dela debaixo das roupas. Penso em Gisa e na sua mão quebrada. No bebê ensanguentado de Templyn. Nas crianças inocentes. Penso em tudo que aconteceu comigo desde aquele fatídico verão, quando um pescador morto desencadeou toda esta situação. Não, não foi culpa dele. Foi culpa deles. Foi por causa das leis deles, do recrutamento deles, do plano deles para cada um de nós. Eles fizeram isso. Eles atraíram esse fim para si mesmos. Mesmo agora, quando Cameron e eu os destruímos, eles imploram pela misericórdia de Cal. Imploram a um rei prateado e cospem em rainhas vermelhas.
Vejo o príncipe pelo vidro ondulado, que distorce seu rosto, deixando-o parecido com Maven.
— Mare... — Cal murmura, mais para si mesmo.
Mas os murmúrios dele não vão me deter. Sinto algo novo dentro de mim, familiar e estranho. Um poder que não vem do sangue, mas da escolha. Vem de quem eu me tornei, e não daquilo que nasci. Desvio o rosto da imagem deformada de Cal. Sei que pareço tão deformada quanto ele.
Mostro os dentes numa careta de ódio.
— A eletricidade não tem misericórdia.
Uma vez, vi meus irmãos queimarem formigas usando um caco de vidro. Isso é semelhante... mas pior.


Embora os blocos isolados dificultem que os prisioneiros escapem, tornando a tarefa quase impossível, também dificultam a comunicação entre os guardas. E a confusão é tão eficaz quanto os raios e o fogo. Os guardas relutam em deixar seus postos, especialmente com os rumores de que o rei está presente, e encontramos quatro magnetrons irrequietos discutindo no Bloco G.
— Vocês ouviram a sirene. Tem alguma coisa errada...
— Provavelmente é uma simulação, para mostrar ao reizinho...
— Não consigo contatar o comando pelo rádio.
— Você ouviu o que disseram antes, que as câmeras não estão funcionando e que os rádios também foram afetados. Deve ser aquela rainha bagunçando de novo. Bruxa desgraçada.
Acerto um relâmpago em um deles para obter a atenção dos outros.
— Bruxa errada.
Antes que a passarela de metal desabe sob meus pés, me agarro firmemente às barras do lado esquerdo da porta. Cal vai para a direita, e as barras ficam vermelhas com seu toque ardente, derretendo no mesmo instante.
Cameron permanece à porta. O brilho de suor reluz na sua testa, mas ela não dá mostras de que vai diminuir o ritmo. Um dos magnetrons cai do seu poleiro retrátil. Com as mãos na cabeça, ele desaba três andares até o chão de concreto. Faltam dois.
Uma chuva de metal afiado vem na minha direção; cada gota é uma adaga minúscula com intenção de matar. Antes que me atinjam, abro as mãos e deslizo pelas barras até meus pés darem com o leve beiral da cela abaixo.
— Cal, uma ajudinha aqui! — grito enquanto me esquivo de outra leva.
Retribuo com as minhas próprias rajadas, mas o magnetron mergulha, pisando no que deveria ser o ar, mas a chapa de metal se move com ele, permitindo que corra pelo átrio aberto.
Para a minha infelicidade, Cal me ignora, e arranca a barra derretida da cela. Suas costas pulsam com asas de fogo, protegendo-o de qualquer arma que outro magnetron possa lançar contra ele. Mal consigo vê-lo por entre as chamas, mas enxergo o suficiente. Está terrivelmente zangado, e o motivo não é nenhum mistério. Ele está me odiando por eu ter matado aqueles prateados, por ter feito o que ele não pôde.
Nunca imaginei ver o dia que Cal, o soldado, o guerreiro, teria medo de agir. Agora ele se concentra em abrir o máximo de celas que pode, me obrigando a lutar sozinha.
— Cameron, derrube-o! — berro, levantando o olhar para a minha improvável aliada.
— Com prazer — a jovem rosna ao estender a mão para o magnetron que me ataca. Ele tropeça, mas logo se equilibra. Ela está enfraquecendo.
Vou me segurando de cela em cela, meus pés quase escorregando, minhas mãos mais exaustas a cada segundo que passa. Sou uma corredora, não uma alpinista, e é quase impossível lutar desse jeito. Quase.
Uma lâmina afiada em formato de losango roça a minha bochecha e abre uma ferida no meu rosto. Outra lâmina corta a palma da minha mão. Quando agarro a barra seguinte, tenho pouca aderência, deslizando no meu próprio sangue. Despenco os últimos dois metros e caio feio no fundo do bloco. Por um segundo, sou incapaz de respirar e, quando abro os olhos, vejo uma estaca gigante caindo na minha direção, zunindo. Rolo para o lado, escapando do golpe mortal. E então outra estaca vem, e outra, e preciso correr em ziguezague para continuar viva.
— Cal! — grito de novo, mais com raiva do que com medo.
A estaca seguinte derrete antes de me atingir, mas o ferro liquefeito respinga perto demais e queima minhas costas. Deixo escapar um grito à medida que o tecido do meu uniforme derrete sobre as minhas cicatrizes. É quase a pior dor que já senti na vida, perdendo apenas para o sonador e o coma excruciante que se seguiu a ele. Meus joelhos dão com tudo no chão, enviando picos de agonia pelas minhas pernas.
A dor, ao que parece, é mais um dos meus gatilhos.
A claraboia sobre nós se despedaça e um relâmpago vem estalando até mim. Por uma fração de segundo, é como se uma árvore violeta tivesse brotado do nível mais baixo, se espraiando e se ramificando pelo átrio aberto do Bloco G. O raio acerta uma magnetron, e ela sequer tem tempo de gritar. O outro guarda, o último, está praticamente destruído, e limita-se a se esconder na última chapa de metal, encolhido contra o poder esmagador de Cameron.
— Julian! — grito assim que o ar clareia. — Sara!
Cal pula na outra ponta do andar, com as mãos em concha ao redor da boca.
— Tio Julian! — ruge.
— Vou esperar aqui — Cameron diz, nos observando da porta do andar de cima, balançando as pernas. Ela tem até a pachorra de assobiar, com os olhos no último magnetron agonizante.
O Bloco G é tão frio e úmido quanto o D, dos sanguenovos. Graças a mim, também está praticamente destruído. Um buraco fumega no meio do chão, único vestígio do meu relâmpago gigante. Pelo que posso ver, as celas de baixo são tão escuras que quase não podem ser vistas, mas estão todas cheias. Alguns prisioneiros se arrastaram até as barras para ver o conflito. Quantos rostos reconhecerei aqui? Mas todos estão exauridos demais, esqueléticos, com a pele quase azul de medo, fome e frio. Duvido que reconheceria Cal após algumas semanas aqui. Pensava que as condições dos prateados seriam melhores, mas acho que prisioneiros políticos são tão perigosos quanto prisioneiros secretos de sangue mutante.
— Aqui — uma voz crocita.
Quase tropeço sobre o corpo de um magnetron ao correr, mesmo com as queimaduras nas costas protestando a cada passo. Cal me encontra diante da cela. Suas mãos estão em chamas, prontas para derreter as barras, para salvar o tio, para reparar alguns de seus pecados.
O homem na cela parece fraco, tão velho e frágil quanto seus queridos livros.
Sua pele está pálida, seu cabelo ficou mais ralo, e as rugas do seu rosto se multiplicaram e se tornaram mais fundas. Acho que está até sem um dente. Mas não há como confundir esses olhos castanhos tão familiares e a faísca de inteligência ainda queimando lá no fundo. Julian.
Me apresso para chegar até ele, e quase toco o metal em brasas. Julian. Julian. Julian. Meu professor, meu amigo. A primeira barra de metal se curva e Cal a arranca, abrindo espaço suficiente para eu passar. Mal noto a pressão sufocante da Pedra Silenciosa e trato de levantar Julian. Ele parece fraco, como se seus ossos pudessem se partir, e por um instante me pergunto se sairá vivo daqui. Mas então ele me aperta com mais força e sua testa franze em concentração.
— Me leve até aquele guarda — grunhe, deixando à mostra um pouco do seu velho espírito. — E libertem Sara.
— Claro. Viemos por ela também — digo enquanto passo o braço dele por cima do meu ombro para ajudá-lo a caminhar. Embora seja bem mais alto do que eu, está lamentavelmente leve. — Viemos por todos.
Quando o tiramos da cela, Julian tropeça, mas se mantém de pé.
— Cal — ele balbucia, estendendo os braços para o sobrinho. Em seguida, toma o rosto do príncipe entre as mãos e o estuda como se fosse um livro antigo. — As coisas foram feitas, não é?
— Sim, foram — Cal grunhe sem olhar para mim.
As celas podem até ter mudado a aparência de Julian, mas não mudaram quem ele é. Com um ar solene, ele acena com a cabeça para sinalizar que entendeu. E isso reconforta Cal de um jeito significante.
— Esses pensamentos não têm lugar aqui e agora. Depois.
— Depois — Cal repete. Por fim, volta os olhos ardentes para mim. Sinto-me queimar. — Depois.
— Vamos, Mare, me ajude a chegar naquele monte de podridão — Julian pede, apontando para o guarda no chão. — Vamos ver se não sou totalmente inútil.
Faço o que ele pede, servindo de muleta para que manque até o agente caído.
Enquanto isso, Cal começa a trabalhar na cela de Sara, na frente da de Julian. Eles podiam se ver e se ouvir, mas estavam distantes demais para se tocar. Outra pequena tortura que tiveram que suportar.
Já vi Julian fazer o que está prestes a fazer agora. Só que nunca com tanto esforço e dor. Seus dedos tremem quando ele abre um dos olhos do agente, engolindo em seco várias vezes na tentativa de invocar a voz de que precisa. A canção.
— Tudo bem, Julian, podemos encontrar outra maneira...
— Outra maneira resultaria na nossa morte, Mare. Por acaso não lhe ensinei nada?
Apesar da situação, acho graça. Luto contra o ímpeto de abraçar meu velho professor e tento esconder o sorriso.
Por fim, Julian solta o ar, com olhos semicerrados, veias saltando. Então abre os olhos, límpidos e largos.
— Acorde — ele diz, numa voz mais bela que o poente.
O agente estirado aos nossos pés obedece, e seu outro olho abre lentamente.
— Abra as celas. Todas.
Um som tortuoso ecoa pelo bloco de alto a baixo à medida que as barras de cada cela se abrem em sincronia.
— Monte as escadas e passarelas. Conecte tudo.
Clang. Clang. Clang. Cada caco de metal, adaga, chapa partida pelo raio, e até gota derretida, tudo se funde com tinidos sequenciais.
— Caminhe conosco. — A voz de Julian vacila na última ordem, mas o magnetron obedece, talvez um pouco mais devagar. — Vocês têm sorte de terem vindo hoje, Mare — Julian diz para mim enquanto o ajudo a endireitar o corpo. — Ontem nos fizeram andar. Não estamos tão fracos como de costume.
Penso em contar a Julian sobre Jon, sobre o poder dele, o conselho. Julian vai adorar saber. Depois, digo a mim mesma. Depois.
Pela primeira vez, tenho esperança.
Haverá um depois.
O caos se instala em Corros. Disparos ecoam em cada corredor, atrás de cada porta. O grupo de prateados esfarrapados nos segue. Estão fracos, mas alguns ainda têm alguma força. Não confio nem um pouco neles, e quase vou para a retaguarda para ficar de vigia. Muitos seguem por outros caminhos, escapando pelos cantos, ansiosos para se verem livres deste lugar. Outros se enfiam ainda mais fundo na prisão, à procura de vingança. Alguns ficam conosco, com os olhos abatidos, envergonhados por estarem seguindo a garota elétrica.
Mas seguem mesmo assim. E lutam o melhor que podem. É como soltar uma pedra na água parada. As ondas começam pequenas, mas inevitavelmente crescem. Cada bloco cai mais fácil que o anterior, a ponto de os magnetrons precisarem fugir de nós. Os prateados matam mais do que eu, atacando seus traidores como lobos esfomeados. Mas mesmo isso não pode durar. Quando um oblívio Lerolan explode outra barreira de pedra, os destroços não caem. Sobem. E, antes que eu perceba, estou sendo sugada num redemoinho de fumaça, cacos e gemidos sinistros.
Cameron segura minha mão, que acaba escorregando, e a garota desaparece no que parece um nevoeiro. Um ninfoide. Não vejo nada além de sombras e vagas luzes amarelas, cada uma um sol distante e nebuloso. Antes de cair na dormência, estendo as mãos à procura de qualquer coisa em que segurar. Minha mão se fecha numa perna fria e vacilante.
— Cal! — grito, mas o vento engole minha voz.
Bufando, levanto segurando na perna. Deve pertencer a um cadáver, pois não está se movendo. Um medo frio rasga minha mente com dedos gélidos e afiados. Quase a solto. Não quero ver o rosto. Pode ser qualquer um.
Pode ser todo mundo.
É errado sentir alívio, mas sinto. Não reconheço o homem enroscado nas barras da cela, com uma perna presa e outra ainda balançando. Com certeza é um prisioneiro, mas não o conheço, então não choro por ele.
Minhas costas parecem se partir com as cicatrizes e queimaduras. Por um segundo, me permito apoiar nas barras. A gravidade no bloco mudou. Gareth está aqui, o que significa que Kilorn, Shade e Farley não estão muito longe. Eles deveriam estar do outro lado da prisão, esvaziando os blocos mais distantes. Algo os forçou a entrar aqui.
Ou os prendeu por completo.
Antes que possa chamá-los, volto a cair, e o bloco gira. Mas não são as celas que estão se movendo. É a própria gravidade.
— Gareth, pare! — grito para o vazio.
Ninguém responde. Pelo menos ninguém que eu queira ouvir.
Menininha elétrica.
Sua voz quase parte meu crânio em dois.
Rainha Elara.
Desta vez, desejo o sonador. Desejo que algo me mate, me dê a segurança da morte. Ainda estou caindo. Talvez isso baste. Talvez eu morra antes de ela se intrometer no meu cérebro e me jogar contra tudo e todos que amo. Mas sinto seus tentáculos tomando conta da minha mente. Meus dedos se movem ao comando dela, soltando faíscas. Não. Por favor, não.
Bato forte contra o outro lado do bloco, provavelmente quebrando o braço, mas não sinto dor.
Ela a elimina.
Com um último grito entrecortado, faço o necessário e uso minhas últimas gotas de livre-arbítrio para passar por entre as barras retorcidas abaixo de mim, para dentro de uma cela de Pedra Silenciosa. O que destrói o meu poder, e o dela também. As faíscas morrem, o controle dela cede, e uma dor ofuscante vara meu braço esquerdo até o ombro. Rio por entre as lágrimas. Que ironia. Ela construiu esta prisão para me ferir, para ferir os outros sanguenovos. Agora, este lugar é a única coisa que a impede de fazer exatamente isso.
Agora, este é o meu último santuário.
Do meu lugar, na parede de trás da cela — acho que é o chão agora —, observo a neblina dançar. Os disparos diminuem, seja porque as balas estão acabando, seja porque é impossível mirar com a visibilidade péssima.
Uma serpente de chamas passa por perto, ardendo, e espero ver Cal, mas ele não aparece. Chamo mesmo assim:
— Cal!
Minha voz está fraca. A Pedra que me salvou está tomando conta de mim, me esmagando, me sufocando.
Ela não leva muito tempo até me descobrir. Suas botas passam ao lado das barras da minha jaula e, por um segundo, penso estar tendo uma alucinação. Esta não é a rainha gloriosa e reluzente de que me recordo. Já não há vestidos e joias; eles foram substituídos por um simples uniforme azul-marinho com detalhes em branco.
Mesmo o cabelo, geralmente em cachos e tranças perfeitos, está puxado para trás num coque simples.
Quando vejo o grisalho nas suas têmporas, recomeço a rir.
— Na primeira vez que nos encontramos, você estava numa cela igual a esta — ela comenta, abaixando para me enxergar melhor. — As barras não me detiveram antes, e não vão me deter agora.
— Então entre — digo a ela, cuspindo sangue. Com certeza perdi um dente.
— Ainda a mesma garota de antes. Pensei que o mundo fosse mudar você um pouco, mas, em vez disso, você mudou um pouco o mundo. — Ela inclina a cabeça para o lado, sorrindo como um gato. — Se me der a mão, pode mudar ainda mais.
Mal consigo respirar em meio às gargalhadas.
— Quão burra você acha que sou?
Mantenha Elara falando, distraída. Alguém a verá logo. Alguém precisa vê-la, penso comigo.
— Como quiser, então — ela suspira, levantando. Em seguida, gesticula para alguém que não consigo ver. Guardas, percebo, com uma resignação oca e desanimadora. A mão dela reaparece com uma pistola, seu dedo já no gatilho. — Adoraria entrar mais uma vez na sua cabeça. Você tem ilusões tão divertidas.
Uma pequena vitória, acho, fechando os olhos. Ela jamais terá meus raios, jamais terá a mim. Uma vitória de verdade.
De novo, me sinto cair.
Mas, em vez de uma bala, meu rosto atinge as barras de ferro. Abro os olhos a tempo de ver Elara se afastando de mim, sua arma escorregando da mão, e um terrível olhar de ódio desfigurando seu belo rosto. Os guardas fogem com ela, sumindo em meio às nuvens amareladas. Alguém agarra meu braço bom e me puxa.
— Vamos, Mare! Não consigo tirar você daí sozinho — Shade diz, tentando me passar pelas barras. Sem fôlego, me espremo o máximo que posso. Acho que é o suficiente, porque o mundo encolhe de repente, a neblina desaparece e abro os olhos diante dos azulejos brancos e reluzentes.
Quase desabo de alegria. Quando vejo Sara correndo na minha direção com os braços abertos, com Kilorn e Julian logo atrás, desabo mesmo. Outra pessoa me segura, uma pessoa quente. Ele me volta para si e eu silvo de dor quando meu braço sofre um pouco de pressão.
— Primeiro o braço, depois as queimaduras, e depois as cicatrizes — Cal diz em tom burocrático.
Não consigo conter um gemido quando Sara me toca, e a sensação de dormência se espalha pelo meu braço. Algo frio atinge minhas costas, curando as queimaduras que certamente estavam infeccionadas. Mas, antes que Sara possa alcançar minhas cicatrizes feias e torcidas, sou puxada para cima e para fora do seu controle.
A porta no fim do corredor explode graças a galhos de árvores retorcidos que não param de crescer. A neblina vem em seguida, girando na nossa direção em alta velocidade. As sombras vêm por último. Sei a quem pertencem.
Cal lança uma rajada de fogo nos ramos que avançam, queimando-os e fazendo-os recuar. Mas suas brasas simplesmente se juntam ao furacão uivante.
— Cameron?! — berro, esticando o pescoço à procura da única pessoa que pode deter Elara. Mas ela não está em lugar nenhum.
— Ela já foi. Agora vamos! — Kilorn grita para mim enquanto me empurra.
Sei o que Elara quer. Não apenas o meu poder, mas o meu rosto. Se conseguir me controlar, vai poder me usar como sua língua de novo, para mentir para o país, para fazer o que quiser. É por isso que corro mais rápido que os outros. Sempre fui rápida.
Quando olho por cima do ombro, estou metros à frente dos demais, e o que vejo me faz tremer.
Cal arrasta Julian na marra, não porque o tio está fraco, mas porque insiste em parar. Ele quer enfrentá-la, quer confrontar sua voz com a mente dela, com os murmúrios. Para vingar a irmã morta, um amor ferido e um orgulho arrasado e despedaçado. Mas Cal não vai perder a única família que lhe resta, e praticamente carrega Julian para longe. Sara se mantém por perto, ao lado de Julian, segurando a mão dele, incapaz de gritar de medo.
Então dobro a esquina. E esbarro em alguma coisa.
Não. Em alguém.
Outra mulher que jamais queria ver de novo.
Ara, a Pantera, chefe da Casa Iral, me encara com olhos negros como carvão.
Seus dedos ainda estão tingidos de um azul cinzento por causa da Pedra Silenciosa, e suas roupas não passam de trapos. Mas sua força já está retornando, como seu olhar metálico revela.
Não há como dar a volta. Só me resta passar por cima.
Ergo meu relâmpago para matá-la, pois é outra que sabia que eu era diferente desde o princípio.
Ela reage antes de mim, agarrando meus ombros com uma agilidade que nenhum humano deveria possuir. Mas, em vez de quebrar meu pescoço ou abrir minha garganta, ela me joga para o lado e alguma coisa balança meu cabelo. Uma lâmina curva e giratória, afiada como uma navalha, grande como um prato, voa perto do meu rosto. Caio no chão, boquiaberta e chocada, com as mãos na cabeça que quase perdi. E, sobre mim, Ara Iral se mantém firme, desviando de cada lâmina atirada contra nós. Estão vindo da outra ponta do corredor, de mais alguém do passado, formando discos de metal a partir das placas da sua conhecida armadura de escamas.
— Seu pai não te ensinou a respeitar os mais velhos? — Ara grasna com Ptolemus, passando ilesa por mais uma lâmina. Ela agarra uma no ar e a joga de volta contra ele. Um truque impressionante, mas inútil quando ele desvia com um sorriso torto. — E então, vermelha? Não vai fazer nada? — ela acrescenta, cutucando minha perna com o pé.
Atônita, eu a observo por um instante. Então levanto e me forço a assumir uma posição de combate. Um pouco do meu terror desaparece.
— Com prazer, lady.
Na outra ponta do corredor, o sorriso de Ptolemus aumenta.
— Agora vou acabar o que minha irmã começou na arena — ele grunhe.
— Do que a sua irmã fugiu na arena — rebato, para em seguida lançar um raio na cabeça dele. Ele se joga contra a parede e, enquanto se recupera, Ara diminui a distância entre eles e salta, tomando impulso na parede.
Aproveitando a velocidade, ela quebra a mandíbula de Ptolemus com o cotovelo.
Eu a sigo e, a julgar pelos passos atrás de mim, não sou a única.
Fogo e relâmpago. Neblina e vento. Chuva de metal, escuridão, explosões de pequenas estrelas. E balas, sempre balas. Avançamos em meio ao caos da batalha, rezando para chegar ao fim do presídio, seguindo o mapa que todos nos esforçamos ao máximo para decorar. Com a neblina e as sombras, é fácil se perder. E ainda há Gareth, sempre mexendo com a gravidade, às vezes atrapalhando mais do que ajudando. Quando finalmente encontramos a recepção, a sala com as portas de tom prateado, vermelho ou preto, já estou novamente coberta de feridas e quase sem forças. Não quero nem pensar nos outros, em Julian e Sara, que mal podiam andar.
Precisamos sair para o céu aberto. O céu. O relâmpago que pode salvar todos nós.
Do lado de fora, o sol já nasceu. Ara e Ptolemus continuam a dança visceral enquanto Wash assoma no horizonte como uma névoa cinza. Só tenho olhos para o Abutre e para o outro jato parado na pista. Uma multidão se acotovela ao redor dos aviões, sanguenovos e prateados na mesma proporção, embarcando desesperados. Alguns desaparecem pelos campos, na esperança de fugir a pé.
— Shade, leve-o até o jato — grito, agarrando Cal pela gola enquanto fugimos.
Antes que possa reclamar, Shade faz como pedido e o solta cem metros à frente. Sempre posso contar com a compreensão de Shade.
Cal é um dos nossos dois únicos pilotos. Ele não pode morrer aqui, não quando estamos tão próximos de escapar. Precisamos que ele voe, e voe bem. Uma fração de segundo mais tarde, Shade retorna, envolvendo os braços ao redor de Julian e Sara. Ambos desaparecem com ele e solto um pequeno suspiro de alívio.
Invoco tudo o que restou em mim, desde as profundezas da minha alma. O que me deixa lenta e fraca toma minha vontade e a fortifica. Para minha felicidade, o céu escurece.
Kilorn para ao meu lado com o rifle apoiado no ombro. Ele atira com precisão, derrubando nossos perseguidores um a um. Muitos homens ficam na frente da rainha, protegendo-a, seja por vontade própria ou por ordens dela. Ela vai estar ao meu alcance em breve, tanto para sentir meu poder quanto para usar o dela. Só tenho uma chance. Acontece em câmera lenta. Olho para os dois prateados entre mim e o jato, presos em uma batalha.
Uma lâmina longa e fina, como uma agulha gigante, perfura o pescoço de Ara e faz jorrar sangue prata.
Ptolemus gira a lâmina no mesmo impulso, dirigindo-a para mim. Me preparo para abaixar, esperando o pior.
Sou completamente incapaz de ver o que vai acontecer.
Só uma pessoa seria capaz. Jon. Mas ele fugiu de tudo isso. Permitiu tudo isso.
Não quis nos avisar. Não se importou.
Shade aparece na minha frente, querendo me tirar do meio da confusão. Mas recebe uma agulha cruel e reluzente no coração. Ele nem se dá conta do que aconteceu. Não sente dor nenhuma. Morre antes de seus joelhos tocarem no chão.
Não lembro de muito mais detalhes até estarmos no ar. Lágrimas escorrem do meu rosto, mas não consigo secá-las. Apenas encaro as mãos, manchadas com as duas cores de sangue.

21 comentários:

  1. ja li esse livro e sempre choro nessa parte, karina por favor posta logo o outro livro pra eu chorar mais

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  2. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    ~EMY

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  3. Sem palavras pra descrever o q acabei de ler ;-;

    Letícia.

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  4. EU VOU CHORARRRRRR, PIOR QUE TO NO TRABALHOOOO, NAAAOOOOO

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  5. NAOOOOOOO, SHADE NAOOOOOOO, T-T

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  6. Cara ! Estava rezando para isso não acontecer. Realmente não era necessário matar algum que simplesmente voltou dos mortos ?! #choremos

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  7. NÃO COMO ASSIM??? NÃO NÃO NÃO AHADE NÃO,EU GOSTO MAIS DELE DO QUE MARE!!!

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  8. Os muitas historias que li, as dores que a vida me fez sentir, e os detalhes de cada morte escrita nas página de um livro, me tornei uma pessoa fria, hoje posso ate sentir dor, mas eu suporto sem demostrar nada, não derramo mais nenhuma lagrima por nada e ninguém, e tenho medo do que me tornei, por isso quando li a morte do irmão de Mare eu apenas pensei uma morte necessária, apenas mais uma morte...

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  9. Shade não. ... poxa ... Não gostei!

    Flavia

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  10. Me deram spoiler antes de eu ler, mas tinha esquecicido.
    Nãoooooo, pfvr, Shade não

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  11. SEM PALAVRAS...
    BUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAA AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA :-c :_(
    ;-; ~POLLY~
    SHADE NUNCA SERÁ ESQUECIDO. VERMELHOS COMO A AURORA.
    CARA, POR QUE O SHADE??????? AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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  12. Logo Shade ta igual as crônicas de gelo e fogo morre tds os personagens q gosto

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  13. isso só pode estar errado SHADE não pode morrer
    ass J Carstairs

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  14. PORQUÊ? ???!!!! O Shade NÃO! !!
    Cara, tadinha da farley. Tadinha da mare. Do nd o irmão morto dela aparece e agr ele morre msm. Q raiva, manoooo coitada da farley

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  15. 😢😢😢😢😢 NAAAAOOO!!!! ELE NÃO! !😢😢

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  16. Uma das poucos pessoas que gostei ai nao e possível
    Shade nao cara :'(

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Boa leitura :)