3 de março de 2017

Capítulo vinte e seis

MAL CONSIGO CAMINHAR, mas o soldado atrás de mim não para de empurrar enquanto mantém as mãos em meus braços algemados. Ao meu lado, outro faz o mesmo com Maven. Arven nos segue para garantir que não vamos fugir. Sua presença é um peso maligno que cega meus sentidos. Ainda posso ver o corredor ao redor, vazio e distante dos olhos curiosos da corte, mas não tenho forças para me importar. Cal vai à frente. Seus ombros tensos revelam sua dificuldade em não olhar para trás.
O som dos tiros, dos gritos e do sangue nos túneis ecoa em minha mente. Estão mortos. Nós estamos mortos. Acabou.
Espero que nos levem para baixo, para a cela mais sombria do mundo. Em vez disso, Cal sobe as escadas até um cômodo sem janelas nem sentinelas. Nossos passos sequer ressoam ao entrarmos. É um ambiente à prova de som, ninguém pode nos ouvir. E isso me assusta mais que as armas ou o fogo ou o ódio puro que emana do rei.
Ele está no centro da sala, coberto com sua armadura dourada e a coroa em sua cabeça. Sua espada cerimonial está ao seu lado, bem como uma pistola que provavelmente nunca usou.
Tudo parte de um espetáculo. Pelo menos ele veste o figurino.
A rainha também está presente. Nos aguarda usando apenas um vestido branco e fino. Assim que entramos, seus olhos se cravam nos meus e ela penetra meus pensamentos como uma faca.
Gemo, tentando recuar, mas as correntes aguentam firme.
Tudo passa novamente diante dos meus olhos, do começo ao fim: o trailer de Will, a Guarda, Kilorn, a rebelião, os encontros, as mensagens secretas. O rosto de Maven surge no meio das lembranças, mas Elara o afasta. Não quer ver o que me lembro dele. Meu cérebro grita diante do massacre, saltando de um pensamento a outro até minha vida inteira, cada beijo e cada segredo, ser revelado diante dela.
Quando ela termina, me sinto morta. Desejo estar morta. Pelo menos não vou ter que esperar muito.
— Deixem-nos! — diz Elara em tom agudo e cortante. Os soldados esperam com os olhos em Cal. Quando ele assente, fazem uma reverência e se retiram com passos abafados. Arven, porém, permanece, e sua influência ainda pesa sobre mim. Quando o ruído das botas desaparece, o rei se permite um suspiro.
— Filho?
Ele olha para Cal e posso notar um leve tremor em seus dedos. Mas não faço ideia por que ele treme.
— Quero ouvir da sua boca — o rei pede.
— Fazem parte disso há muito tempo — murmura Cal, quase incapaz de pronunciar as palavras. — Desde que ela chegou.
— Os dois? — Tiberias desvia o olhar de Cal para fixá-lo no filho esquecido.
Parece quase triste, com o rosto dominado pela dor. Seus olhos vacilam, mal podem encará-lo, mas Maven o observa com firmeza. Ele não vai baixar a cabeça.
— Você sabia disso, meu garoto? — o rei pergunta.
Maven confirma.
— Ajudei a planejar.
Tiberias estremece, como se as palavras fossem um soco.
— E o atentado?
— Escolhi os alvos.
Cal fecha os olhos como se pudesse se isolar de tudo.
O olhar de Maven chega em Elara, que está ao lado do rei. Os dois se encaram por um instante. Acho que ela vai espiar os pensamentos dele. Então tenho um estalo: ela não vai fazer isso. Não é capaz de ver.
— Você me disse para encontrar uma causa, pai. Foi o que fiz. Está orgulhoso de mim?
Mas Tiberias se concentra em mim, urrando feito um urso.
— Você fez isto! Você o envenenou, envenenou meu filho!
Quando as lágrimas brotam em seus olhos, sei que seu coração, por menor ou mais frio que seja, se partiu. Ele ama Maven a seu modo. Mas é tarde demais para isso.
— Você tirou meu filho de mim!
— Você mesmo fez isso — digo por entre os dentes. — Maven tem seu próprio coração e acredita num mundo novo tanto quanto eu. Quando muito, foi seu filho que me mudou.
— Não acredito em você. Você o enganou de algum jeito.
— Ela não está mentindo.
Ouvir Elara concordar comigo me faz perder o fôlego.
— Nosso filho sempre desejou mudanças — diz com o olhar pousado em Maven. Parece ter medo. — Ele é apenas um garoto, Tiberias.
Salve Maven, grito em minha cabeça. Ela precisa ouvir. Precisa.
Perto de mim, Maven respira fundo à espera do que pode ser nosso fim.
Tiberias encara os próprios pés. Ele conhece as leis melhor que ninguém, mas é Cal quem tem força o bastante para encarar o irmão nos olhos. Deve imaginar toda uma vida juntos.
Fogo e sombra: um não existe sem o outro.
Após um longo momento de silêncio quente e sufocante, o rei põe a mão no ombro de Cal. Ele balança a cabeça loucamente, e as lágrimas escorrem por suas bochechas até a barba.
— Garoto ou não, Maven matou. Ao lado dessa víbora — ele aponta um dedo trêmulo para mim —, cometeu crimes graves contra os seus. Contra mim e contra você. Contra nosso trono.
— Pai... — Cal se move rapidamente, se colocando entre o rei e nós. — Ele é seu filho. Deve haver outra maneira.
Tiberias endireita o corpo e põe de lado o papel de pai para ser novamente o rei. Enxuga as lágrimas do rosto e diz:
— Você vai entender quando usar a coroa.
A rainha aperta os olhos, que parecem agora duas lâminas azuis. São idênticos aos de Maven.
— Felizmente, isso jamais vai acontecer — ela diz calmamente.
— Como?
Tiberias se volta na direção dela, mas para no meio do movimento. Seu corpo está congelado.
Já vi isso antes. Na arena, há muito tempo, quando o murmurador derrotou o forçador. Elara chegou a fazer o mesmo comigo e me transformou numa marionete. Mais uma vez, é ela quem controla as cordas.
— Elara, o que está fazendo? — ele pergunta entre os dentes.
Ela responde dentro da cabeça do rei, não consigo ouvir. Ele não gosta nem um pouco da resposta.
— Não! — grita enquanto ela o põe de joelhos com seus sussurros.
Enfurecido, Cal faz seus punhos explodirem em chamas, mas Elara estende a mão e o faz parar. Ela controla os dois.
Ele luta, seu rosto se contorce, mas não consegue se mover um centímetro. Mal consegue falar.
— Elara... Arven...
Meu ex-instrutor permanece imóvel. Se limita a observar calmamente, satisfeito. Parece que sua lealdade não é ao rei, mas à rainha.
Ela está nos salvando. Pela vida do filho, vai nos salvar. Achamos que Cal me amaria o suficiente para mudar o mundo. Teria sido melhor procurar a rainha. Tento rir, mas algo no rosto de Cal inibe meu alívio.
— Julian me avisou — Cal rosna, ainda tentando escapar de seu controle. — Pensei que ele estava mentindo sobre você, sobre minha mãe, sobre o que você fez com ela.
De joelhos, o rei uiva. É um som terrível que jamais quero ouvir de novo.
— Coriane — ele geme, com os olhos no chão. — Julian sabia. Sara sabia. Você a castigou pela verdade.
O suor começa a brotar na testa de Elara. Ela não pode manter o rei e o príncipe presos por muito tempo.
— Elara, você precisa tirar Maven daqui — digo. — Não se preocupe comigo, apenas o salve.
— Ah, não tema, menininha elétrica — ela desdenha. — Nem penso em você. Embora sua lealdade ao meu filho seja bastante inspiradora. Não é, Maven?
Ela lança um olhar para o filho, ainda algemado.
A reação dele é partir as correntes ao meio com uma facilidade impressionante. Elas se derretem em seu pulso e escorrem como uma pasta de metal quente que abre um buraco no chão. Quando ele levanta, espero que venha me defender, me salvar como tento salvá-lo.
Então me dou conta de que Arven ainda me domina, e a sensação familiar das centelhas, da eletricidade, ainda não voltou. Ele ainda me detém, apesar de ter liberado Maven.
Quando os olhos de Cal encontram os meus, sei que ele compreende a situação tão bem quanto eu. A frase todo mundo pode trair todo mundo ressoa cada vez mais forte, até zunir em meus ouvidos como os ventos de um furacão.
— Maven?
Preciso erguer a cabeça para ver seu rosto e, por um instante, não o reconheço. Ele ainda é o mesmo garoto, aquele que me consolou, que me beijou, que me manteve forte. Meu amigo. Mais que meu amigo. Mas há algo de errado com ele. Algo mudou.
— Maven, me ajude.
Ele relaxa os ombros e um estalo indica o fim de algum incômodo. Seus movimentos são presunçosos, estranhos. Quando ele ajeita o corpo pretensioso e leva as mãos à cintura, é como se eu o visse pela primeira vez. Seus olhos estão frios.
— Não, acho que não.
— O quê? — ouço minha voz como se ela tivesse saído de outra pessoa. Falo como uma garotinha. Sou apenas uma garotinha.
Maven não responde, mas mantém os olhos nos meus. O garoto que conheço ainda está lá, escondido, se insinuando por trás da expressão fechada. Se eu conseguir chegar até ele... Só que Maven é mais rápido que eu e me repele quando chego perto.
— CAPITÃO TYROS! — ruge Cal, ainda capaz de falar. Elara não tirou essa capacidade. Mas ninguém aparece. Ninguém nos escuta. — CAPITÃO TYROS! — ele suplica novamente. — EVANGELINE! PTOLEMUS! ALGUÉM AJUDE!
Elara fica contente ao vê-lo gritar, mas Maven se irrita.
— Temos mesmo que ouvir isso? — pergunta.
— Não, acho que não — ela diz, suspirando e inclinando a cabeça.
O corpo de Cal se move aos pensamentos dela e se volta na direção do pai.
O príncipe entra em pânico, seus olhos se arregalam.
— O que você está fazendo?
O rosto do rei se enche de sombras.
— Não é óbvio?
Não entendo nada. Não pertenço a este mundo. Julian estava certo: é um jogo que não entendo, um jogo que não sei jogar. Queria que Julian estivesse aqui agora para explicar, para ajudar, para me salvar. Mas ninguém virá.
— Maven, por favor — imploro na tentativa de fazê-lo olhar para mim. Mas ele me dá as costas e se concentra na mãe e na família que traiu. Ele é como a mãe.
A rainha não se importa com a presença dele na minha memória. Não se importa por ele fazer parte disto. Não pareceu sequer surpresa. A resposta é assustadoramente simples: porque já sabiaPorque é seu filho. Porque tudo foi um plano dela desde o começo. A ideia me atravessa como uma faca, mas a dor só a torna mais real.
— Você me usou.
Finalmente, Maven se vira para me encarar.
— Ah, percebeu?
— Você escolheu os alvos. A coronel, Reynald, Belicos, mesmo Ptolemus: não eram inimigos da Guarda, mas seus.
Sinto vontade de despedaçá-lo, com ou sem meus poderes. Quero que sofra.
Finalmente entendo a lição: todo mundo pode trair todo mundo.
— E esta foi outra trapaça. Você me meteu nisso, mesmo sabendo que era impossível, mesmo sabendo que Cal não trairia o pai! Você me fez acreditar. Você nos fez acreditar!
— Não é culpa minha você ter sido burra o bastante para cair — ele replica. — Agora a Guarda acabou.
É como se eu levasse um soco no rosto.
— Eles eram seus amigos. Confiaram em você.
— Eram uma ameaça a meu reino e eram idiotas — ele rebate, para em seguida se inclinar na minha direção com um sorriso perverso nos lábios. — Eram.
Elara ri da piada cruel.
— Foi fácil infiltrá-lo. Só precisamos de um criado sentimental. Não sei como gente tão burra pode se tornar um risco.
— Você me fez acreditar — repito ao lembrar cada uma das suas mentiras. — Pensei que quisesse nos ajudar.
Por uma fração de segundo, minhas lamúrias o penetram. Mas isso não dura muito.
— Menina burra! — diz Elara. — Suas idiotices quase foram nossa ruína. Usar seu guarda pessoal na fuga, provocar os blecautes: acha mesmo que eu seria tão idiota para não ver suas pistas?
Entorpecida, nego com a cabeça.
— Você deixou. Você sabia de tudo.
— Claro que sim. Como acha que chegou até aquiEu tive que apagar suas pegadas, eu tive que protegê-la de qualquer um com um mínimo de inteligência que pudesse seguir seus rastros — ela vocifera com seu tom de desprezo. — Você não imagina o que precisei fazer para protegê-la.
Elara se enche de prazer e desfruta cada instante.
— Mas você é vermelha. E, como tal, está fadada ao fracasso — conclui.
Tudo desaba sobre mim e as lembranças se encaixam. Devia ter percebido, lá no fundo, que não podia confiar em Maven. Ele era perfeito demais, corajoso demais, gentil demaisDeu as costas para sua própria gente para se juntar à Guarda. Ele me empurrou para Cal, deu exatamente o que eu queria e me cegou.
Com vontade de gritar, de chorar, dirijo o olhar para Elara.
— Você disse a Maven o que ele precisava falar — murmuro. Ela não precisa confirmar, sei que estou certa. — Você sabe quem sou aqui dentro — minha cabeça dói ao me lembrar como brincou com minha mente — e sabia exatamente como me vencer.
Nada dói mais que a expressão vazia de Maven.
— Alguma coisa era verdade? — pergunto.
Ele nega, mas sei que também mente.
— Até Thomas?
O garoto na frente de batalha, que morreu lutando pelos outros. Seu nome era Thomas, e eu o vi morrer.
O nome atravessa a máscara e racha a fachada de indiferença, mas não é o bastante. Maven afasta de si o nome e a dor causada por ele e responde:
— Só mais um garoto que morreu. Não faz diferença.
— Faz toda a diferença — sussurro para mim mesma.
— Acho que é hora das despedidas, Maven — Elara interrompe, pondo a mão pálida sobre o ombro do filho. Minhas palavras atingiram o ponto fraco dele, e ela não vai me deixar continuar.
— Não há necessidade — ele responde baixo.
O filho da rainha se volta para o pai. Seus olhos azuis tremulam. Passam pela coroa, pela espada, pela armadura, por tudo, menos pelo rosto do rei.
— Você nunca olhou pra mim. Nunca me viu. Não quando tinha a ele. — Maven aponta com a cabeça para Cal.
— Você sabe que não é verdade, Maven. Você é meu filho. Nada vai mudar isso. Nem mesmo ela — diz Tiberias lançando um olhar a Elara. — Nem mesmo o que ela está a ponto de fazer.
— Meu querido, não farei coisa alguma — ela grasna em resposta. — Quem fará é seu filho amado — ela desfere um tapa na cara de Cal —, o herdeiro perfeito — um novo tapa, mais forte —, o filho de Coriane — mais um tapa, que lhe corta o lábio e arranca sangue. — Não posso responder por ele.
O sangue prateado e grosso goteja da boca de Cal. Os olhos de Maven se detêm sobre o sangue, e sua testa franze brevemente.
— Nós também tivemos um filho, Tibe — sussurra Elara com a voz carregada de ódio antes de se voltar para o rei. — Não importa o que você sentia por mim, você tinha que amar Maven.
— Eu amei — ele grita, lutando contra a influência mental. — Eu amo.
Sei o que é ser posta de lado, ficar à sombra de alguém. Mas esse tipo de ressentimento, essa cena assassina, destrutiva, terrível, está além da minha compreensão. Maven ama o pai, o irmão... Como pode deixar a mãe fazer isto? Como pode querer isto?
Mas ele permanece imóvel, assistindo, e não encontro palavras que o façam se mexer.
Nada me preparou para o que vai acontecer, para o que Elara força suas marionetes a fazer. As mãos de Cal tremem, se estendem dominadas pela vontade dela. Ele tenta resistir, combate com toda a força que possui, mas em vão. É uma batalha que não pode vencer. Quando sua mão se fecha em volta da espada dourada e a puxa da bainha na cintura do pai, a última peça do quebra-cabeça se encaixa. Lágrimas descem pelo seu rosto como um rio e evaporam sobre a pele quente.
— Não é você — diz Tiberias encarando o rosto despedaçado de Cal. Nem tenta implorar pela própria vida. — Sei que não é você, filho. Não é sua culpa.
Ninguém merece isso. Ninguém. Na minha imaginação, invoco a eletricidade e ela vem. Explodo Elara e Maven, salvo o príncipe e o rei. Mas até a fantasia vem manchada. Farley está morta. Kilorn está morto. A revolução acabou. Nem na minha mente consigo consertar tudo. A espada se levanta trêmula nas mãos de Cal. É uma arma cerimonial, quando muito, mas a lâmina brilha afiada como uma navalha. O aço se avermelha, cada vez mais quente ao toque flamejante do príncipe. Pedaços do punho da espada começam a derreter por entre seus dedos, e gotas de ouro, prata e ferro escorrem por suas mãos.
Maven observa a espada com atenção e minúcia, assustado demais para olhar para o pai durante os últimos momentos.
Pensei que você fosse corajoso. Estava tão errada.
— Por favor — é tudo o que Cal consegue dizer, se esforçando para pronunciar cada palavra. — Por favor.
Não há qualquer arrependimento ou remorso nos olhos de Elara. Este plano foi arquitetado há muito tempo. Quando a lâmina brilha, cortando o ar, a carne e o osso, a rainha sequer pisca.
O corpo do rei bate secamente contra o chão, enquanto a cabeça rola até parar uns metros à frente. Sangue prata esguicha pelo chão, formando uma poça que cerca os pés de Cal. Ele solta a espada incandescente que atinge ruidosamente o chão de pedra e cai de joelhos. A coroa de pontas afiadas e brilhantes rola, contorna a poça de sangue e para aos pés de Maven.
Quando Elara grita, gemendo e chorando sobre o corpo do rei, quase dou risada do absurdo da cena. Ela mudou de ideia? Perdeu completamente o juízo? Então ouço o ruído das câmeras que voltam à vida. Elas se movem pela parede e focam o cadáver do rei ao lado da rainha que lamenta a morte do marido. Maven grita ao seu lado, com o braço sobre os ombros da mãe.
— Você o matou! Você matou o rei! Você matou nosso pai! — ele berra para Cal.
Um minúsculo sorriso se insinua no rosto do príncipe mais novo e Cal resiste ao impulso de arrancar a cabeça do irmão. Está em choque, sem compreender, sem querer compreender.
Mas, pela primeira vez, eu compreendo.
A verdade não importa. Só importa aquilo em que as pessoas acreditam. Julian tentou me ensinar essa lição antes, e só agora aprendi. Vão acreditar nesta cena, neste belo drama de atores e mentiras. E nenhum Exército, nenhum país, vai apoiar um homem que assassinou o pai pela coroa.
— Corra, Cal! — grito, para trazê-lo de volta à realidade. — Você tem que correr!
Arven me solta e o pulso elétrico retorna, avançando em minhas veias como fogo sobre gelo. Sem esforço, eletrifico o metal até derreter as algemas, que caem dos meus pulsos. Conheço essa sensação. Conheço o instinto que toma conta de mim agora: correr, correr, correr.
Agarro Cal pelos ombros, tento puxá-lo, mas o grande idiota não se move. Aplico um pequeno choque, o bastante para chamar sua atenção, antes de gritar novamente:
— CORRA!
Funciona, e ele levanta, quase escorregando na piscina de sangue.
Espero um ataque de Elara, que ela force a mim ou Cal ao suicídio, mas a rainha continua a gritar, atuando para as câmeras. Maven está de pé ao lado dela com os braços em chamas, pronto para defender a mãe. Ele nem tenta nos deter.
— Vocês não têm para onde ir! — berra, mas já estou correndo e arrastando Cal. — São assassinos traidores e enfrentarão a justiça!
Sua voz, que eu costumava conhecer tão bem, parece nos perseguir através das portas e dos corredores. As vozes em minha cabeça gritam ao mesmo tempo que ele.
Idiota! Burra! Veja o que sua esperança causou!
E então Cal é quem me arrasta e me força a manter o ritmo. Lágrimas quentes de raiva, ódio e dor enchem meus olhos até que consigo apenas enxergar a mão dele na minha. Não sei para onde vamos. Apenas o sigo.
Passos ressoam atrás de nós, o familiar ruído das botas. Oficiais, sentinelas, soldados: todos nos perseguem, nos caçam.
O piso sob nós muda da madeira maciça para o mármore. Estamos na sala de banquetes. Longas mesas repletas da mais fina porcelana bloqueiam o caminho, mas Cal as joga para o lado com explosões de fogo. A fumaça dispara o alarme de incêndio. Água chove sobre nós e vira vapor na pele de Cal, envolvendo seu corpo numa crescente nuvem branca. Ele parece um fantasma assombrado por uma vida subitamente despedaçada, e não sei como consolá-lo.
O mundo parece mais devagar para mim no momento em que a outra ponta do salão escurece com uniformes cinza e armas negras. Não há mais para onde correr. Preciso lutar.
A eletricidade acende em minha pele, suplicando para ser solta.
— Não — a voz de Cal sai sem emoção, sem vida. Ele baixa as mãos e desfaz as chamas. — Não vamos vencer.
Ele tem razão.
Eles chegam pelas muitas portas e arcos, e até mesmo as janelas já estão bloqueadas por montes de uniformes. Centenas de prateados, armados até os dentes, prontos para matar.
Estamos encurralados.
Cal examina seus rostos detalhadamente. Seus próprios homens. Pelo modo como retribuem o olhar, furiosos, sei que já viram o horror criado por Elara. Sua lealdade se quebrou, como seu general. Um deles, um capitão, treme ao ver Cal. Para minha surpresa, ele avança com a pistola abaixada.
— Rendam-se — ordena. Suas mãos tremem.
Cal troca olhares com o velho amigo e cede.
— Nós nos rendemos, capitão Tyros.
Corra, cada pedaço meu grita. Mas desta vez não dá. Perto de mim, Cal demonstra o mesmo desânimo e uma dor que não sou capaz nem de imaginar. Está ferido no fundo da alma.
Ele também aprendeu a lição.

47 comentários:

  1. MAS O QUE FOI ISSO? QUE BRINCADEIRA É ESSA TÁ TODO MUNDO TENTANDO PASSAR PERNA UM NO OUTRO NÃO CONSIGO NEM PENSAR DIREITO!
    CARA, FOI UM DOS CAPÍTULOS MAIS TENSOS.
    E ESSA MALDITA DA ELARA? E O MAVEN "GENTIL E BOM" QUE SE MOSTROU PIOR QUE O CAL? TAL MÃE TAL FILHO, E REALMENTE TÔ MUITO REVOLTADA! SE EU FOSSE A MARE, TERIA FRITADO TODOS ELES! (MENOS O CAL, ACHO QUE ELES VÃO COMEÇAR A SE ENTENDER).
    ~POLLY~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho q tem q ensinar a ela os materiais q podem conduzir eletricidade, meudes tantas as vestes q era perdeu a chance de ter a vantagem.
      Bora mata esse desgraçado do má en?:P

      Letícia.

      Excluir
    2. eu sabia que esse maven era psicopata, a mare foi muito burra mesmo :@

      Excluir
    3. Aninha das kebradas30 de junho de 2017 17:48

      Ah! Eu sabia que esse Maven n prestava!
      Era só questão de tempo!
      Cal, boa sorte
      N morre

      Excluir
  2. Que tenso! Maven seu traira maldito!!!
    Por que eu ainda te amo ;-;
    É todo mundo traindo todo mundo. É todo mundo matando todo mundo!
    Que isso! Já ouviram falar em paz e amor. Chazinho de camomila faz bem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Aninha das kebradas30 de junho de 2017 17:48

      Cal e Mare

      Excluir
    2. Aninha das kebradas30 de junho de 2017 17:49

      rei
      nunca pesnsei q ia dizer isso
      as vc ta perdoado
      sei q amava seus filhos

      Excluir
  3. Sabia q não podia confiar em Maven bonzinho de mais q raiva

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente Nadia! SABIA QUE ELE ERA UM DESGRAMADO! No fim isso é bem tipico :| Tadinho do Cal :/

      Excluir
    2. Sabia que essa cara não era confiável... gente do céu que capitulo tenso foi esse???!!! Karina-chan não dá pra por a opção ``tenso´´ ali em cima não???

      Excluir
    3. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 08:11

      O Cal e a Mare vão se fod#r, mas vão se fod#r juntos.

      Excluir
  4. EU SABIA QUE ESSE MAVEN ERA MAÇÃ PODRE POR DENTRO. Fio duma égua. ;-;

    ResponderExcluir
  5. Nossa,adorei! Me fez de patinho. Que capítulo incrível, to digitando com os pés, pq com as mãos eu to aplaudindo. Mas eu não to tão convencida da maldade do Maven, mas pode ser só esperança idiota mesmo
    (Mas bem q na parte q ela foi libertar o povo eu pensei q era meio burrice)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pra falar a verdade pra mim Marven tá é com raiva porque aquele tal de Thomas na real era o crash dele e morreu não sei se na guerra ou por causa da guerra... tipo só tô pensando alto.

      Excluir
  6. Eu sempre soube,na verdade. Por que não tinha lógica, a Rainha,que controla tudo e todos, perversa e mortal,não saber disso. E Maven, bom,era perfeito demais, e nada é perfeito, ninguém é. Fico até orgulhosa de mim mesma, por, mesmo achando loucura, desvendar tudo logo de inicio. kkkkkk.
    Ótimo livro, devo dizer.
    ~Paloma.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem uma pessoa sim que é perfeita, é Maxon *-*

      Excluir
  7. EEEEEUUUUUUU SABIAAAAAAAAA, JA IMAGINAVA ISSO. SO NAO SABIA QUE ESSA ESCRITORA SERIA TAO FRIA QUANTO, R.R. GEORGE MARTIN. TO TAO TRISTE PELO CAL

    ResponderExcluir
  8. Eu lembro que na época que li o livro minha surpresa maior não foi a traição do Maven. Não confiava nele, minha surpresa foi a escolha do Cal, aliás Maven pode ser um fdp traidor, mas Cal tbm está muito longe de ser um anjo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um anjo Cal pode até não ser, porém sempre foi um homem de valor que nunca trairia a família por causa de um rabo-de-saia... mesmo que isso o matasse por dentro. Sempre foi mais Cal.

      Excluir
  9. Eu sabia que não era mais mim confiar em Maven em que momento da história me fez mudar de idéia
    QUE ODIO MAVEN VOCE FOI CAPAS DE TRAIR MARÉ

    ResponderExcluir
  10. Agr sabemos o verdadeiro significado de TODOS PODEM TRAIR TODOS

    ResponderExcluir
  11. Rindo aqui das pessoas que gostava e acreditava no Maven, racharam a cara kkjk
    Como não perceberam? Ele foi um cínico

    ResponderExcluir
  12. MEU DEUS! MEU CORAÇÃO SE QUEBROU!
    FUI ILUDIDA PELOS DOIS IRMÃOS!!!
    ;-;
    Chorando, mas ameiii essa autora!

    ~D

    ResponderExcluir
  13. Haaa. ... que foi que eu disse? Em alguns momentos eu até queria acreditar nele, mas uma vozinha na minha cabeça dizia pra não confiar!
    Cadê o team maveena?

    Flavia

    ResponderExcluir
  14. TODO MUNDO PODE TRAIR TODO MUNDO.Coitada da Mare!Só que ela foi burra! ninguém desse livro é perfeito!Será que a Mare agora entendeu?Dois traidores:Cal e Maven. Nenhum presta ein?

    ResponderExcluir
  15. Se eu tava sem palavras antes imagina agora . Sabia que esse Maven n era flor k se cheire . Eles vão escapar . Tem que escaparem ( concordo América , ela devia ter desconfiado . De perfeito só o Maxon )

    Ass: Apaixonada por livros

    ResponderExcluir
  16. Sábia..... Ele, marven, é um fingido!!!!
    Agora o bicho vai pegar...

    ResponderExcluir
  17. Ufaaa, ainda bem que minhas suspeitas contra o Maven se confirmaram. Agora posso viver tranquila pq Cal e Mare vai rolar \o/ \o/
    Ass: Déborah Alana.

    ResponderExcluir
  18. aaaaaaaah PQ EU CONFIEI NAS PESSOASSS??? KILORN, VC NAO MORREU, VC TA BEM. FARLEY, SUA LINDA, VC TBMBTA OTIMA! (ISSO É O Q QUERO PENSAR)

    TODO MUNDO TRAI TODO MUNDO AAAAH NAO CONFIO MAIS EM NINGUÉM NESSA PORRA SO NA MARE! POHA POHA POHA POHAAAAAA
    Q RAIVAAAAA Q ODIIIOO MANO, COMO É Q ELES VAO SAIR DESSA AGR?? ELES VAO SAIR SIM, DEUSES QUISEREM! VAMOS LÁ VAMOS LAAAAAA

    SOCORRO SERIO, NAO CONFIO MAIS EM NGM NA VIDA
    MMAS VAMO LA

    VERMELHOS COMO A AURORA

    ResponderExcluir
  19. SABIAAA KKKKKK
    TAVA TÃO NA CARA ISSO, FINGIDO.
    E O CAL NEM TAVA APAIXONADA PRA DESISTIR DE TUDO, ELE SO GOSTAVA DELA, E DIFERENTE

    ResponderExcluir
  20. Quando Elara grita, gemendo e chorando sobre o corpo do rei, quase dou risada do absurdo da cena. Ela mudou de ideia? Perdeu completamente o juízo? Então ouço o ruído das câmeras que voltam à vida. Elas se movem pela parede e focam o cadáver do rei ao lado da rainha que lamenta a morte do marido. Maven grita ao seu lado, com o braço sobre os ombros da mãe.
    — Você o matou! Você matou o rei! Você matou nosso pai! — ele berra para Cal.
    EU TO É CHOCADAAAAAAAAAAAAAAA ,NÃO ACREDITO QUE MAVEN FEZ ISSO E A VADIA DA SUA MÃE ,TO MUITO TRISTE AGORA,GOSTAVA TANTO DELE(MAVEN):(

    ResponderExcluir
  21. E AINDA FALAM DE TRIANGULO AMOROSO KKKKKKKKKKKKKKKK ACHO QUE ISSO TA FORA DE QUESTÃO AGORA KKKK AINDA TO PUTA DA VIDA COM MAVEN :@

    ResponderExcluir
  22. Sabiaaaaaaa! Sempre que leio um livro escolho uma pessoa que não a protagonista pra confiar. E eu confiava em Julian. E se Julian não confiava em Mavem eu também não confiava. Mas aiinda assim tô no chão. Foi pior do que eu imaginava. Nível Filho Dourado. Devia ser irmão de Adrius.

    ResponderExcluir
  23. lagrimas , apenas lagrimas descem no meu rosto .

    ResponderExcluir
  24. O que Julian queria dizer é que QUANDO A ESMOLA É DEMAIS O SANTO DESCONFIA!!
    Mare não entendeu, deu merda...
    Sabia que o Maven não prestava, sabia!! 😤

    ResponderExcluir
  25. Eu sabia. Desde o inicio, que essa bondade do Maven era na verdade maldade.
    ASS:LUCE SWAN

    ResponderExcluir
  26. Cara eu tô PUTA(desculpa pelo palavrão) COM O MAVEN eu sabia que ele não prestava era bonzinho demais,perfeito demais e a Mare acreditou nele,confiou nele e ele trai ela dessa maneira?😠😠😠 tomara que ele vai pro Tártaro e a ElaraVaca vire brinquedinho do Cérbero

    Ass:Lady Chase

    ResponderExcluir
  27. Aaaaa o Kilorn e a Farley não pode ter morrido já basta o Shade ter morrido e o Julian ter ido embora obrigado 😭😭😭 coitada da Mare embora ela tenha sido muito trouxa em relação ao Maven.

    Ass:Lady Chase

    ResponderExcluir
  28. COMO ASSIM SENHOR??????!!! TO TENSA
    M.A.A

    ResponderExcluir
  29. 😨😨😨😨😲😲😲😲😲😲😲😲😲😨😵😵😵😵😵😵😵😵😵😵

    ResponderExcluir
  30. Que porra foi essa cara
    Bem que tava suspeitando do maven
    Bando de flp

    ResponderExcluir
  31. Eu sabia não, foi nem uma surpresa
    (Tava na cara)
    Ass:Milly*-*
    Será q o cal vai culpar Maré ?

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)