15 de março de 2017

Capítulo vinte e quatro

Cameron

MORREY DEMORA MAIS QUE OS OUTROS REFÉNS.
Alguns acreditaram em questão de minutos. Outros resistiram por dias, teimosos, agarrando-se às mentiras que haviam sido enfiadas goela abaixo. A Guarda Escarlate é um bando de terroristas. A Guarda Escarlate é cruel. A Guarda Escarlate tornará sua vida pior. O rei Maven os libertou da guerra e os libertará de muito mais. Meias verdades distorcidas e transformadas em propaganda. Posso compreender como eles e tantos outros acreditaram. Maven explorou a ânsia dos vermelhos, ignorantes à manipulação. Eles viram um prateado disposto a ouvir, o que seus predecessores nunca fariam. Sua esperança era fácil de comprar.
E a Guarda Escarlate está longe de ser um grupo de heróis inocentes. São, na melhor das hipóteses, falhos, combatendo opressão com violência. Os integrantes da Legião Adaga continuam cautelosos. São apenas adolescentes que saltaram das trincheiras de um exército para outro. Não os culpo por ficarem de olhos abertos.
Morrey ainda se agarra às suas inquietações. Por minha causa, pelo que sou. Maven acusou a Guarda de matar pessoas como eu. Não importa quanto meu irmão tente, ele não consegue se desvencilhar das palavras do rei.
Enquanto sentamos para tomar café da manhã, com tigelas de mingau de aveia quentes demais para serem tocadas, me preparo para as perguntas de sempre.
Gostamos de comer na grama, a céu aberto, com os campos de treino se perdendo no horizonte. Depois de quinze anos na favela, cada sopro da brisa parece um milagre. Estou sentada com as pernas cruzadas, o macacão verde-escuro já confortável depois de tanto uso e das incontáveis lavagens.
— Por que você não vai embora? — Morrey pergunta, indo direto ao assunto. Ele mexe o mingau três vezes, no sentido anti-horário. — Não jurou lealdade à Guarda. Não tem motivo para ficar.
— Por que você não faz isso? — Bato na colher dele com a minha. É uma réplica idiota, mas também uma fuga fácil. Não tenho uma boa resposta para ele e odeio que insista.
Ele encolhe os ombros estreitos.
— Gosto da rotina — balbucia. — Em casa… Bom, você sabe que era terrível lá, mas… — Ele mexe o mingau, metal raspando no metal. — Você lembra dos cronogramas, dos apitos?
— Lembro. — Ainda os ouço nos meus sonhos. — Sente falta disso?
Meu irmão zomba:
— É claro que não. Mas não saber o que vai acontecer… Não sei. É… é assustador.
Pego uma colherada de mingau. Está espesso e saboroso. Morrey me deu sua cota de açúcar, e a doçura em dobro corta qualquer desconforto que sinto.
— Acho que é assim com todo mundo. Talvez seja por isso que eu fico.
Morrey se vira para olhar para mim, estreitando os olhos para se proteger do brilho do sol nascente. Isso ilumina seu rosto, ressaltando o quanto mudou. As rações diárias preencheram seu corpo. O ar puro claramente faz bem para ele. Não tenho ouvido a tosse seca que costumava pontuar suas frases.
Uma coisa não mudou, porém. Ele ainda tem a tatuagem em volta do pescoço, quase igual à minha.
CN-MMPF-188908, está registrado na dele. Cidade Nova, Montagem e Manutenção, Setor de Pequenas Fábricas. Na minha, o número é 188907. Eu nasci primeiro. Meu pescoço coça com a memória do dia em que fomos marcados, ficando permanentemente ligados aos nossos contratos vitalícios de trabalho.
— Não sei para onde ir. — Falo essas palavras em voz alta pela primeira vez, mesmo que tivesse pensado nelas todos os dias desde que escapei de Corros. — Não podemos voltar para casa.
— Acho que não — ele murmura. — Então o que vamos fazer? Você vai ficar e deixar essas pessoas…
— Já disse, eles não querem matar os sanguenovos. Maven mentiu…
— Não estou falando disso. A Guarda Escarlate talvez não te mate, mas a coloca em perigo. Você fica treinando para lutar, para matar, todo o tempo que não está comigo. E em Corvium eu vi… quando você libertou a gente…
Não fale o que eu fiz. Meu irmão não precisa me lembrar. Lembro muito bem como matei dois prateados. Mais rápido do que jamais havia matado antes. O sangue escorrendo pelos olhos e pelas bocas, suas entranhas morrendo órgão a órgão, enquanto meu silêncio destruía tudo. Eu senti na pele. Ainda sinto. A sensação da morte pulsa pelo meu corpo.
— Sei que você pode ajudar. — Ele deixa o mingau de lado e pega minha mão. Nas fábricas, eu costumava segurar a dele. Os papéis se inverteram. — Não quero que a transformem em uma arma. Cameron, você é minha irmã. Fez tudo o que pôde para me salvar. Deixe que eu faça o mesmo.
Irritada, caio de costas na grama, deixando a tigela do lado.
Ele me deixa pensar e olha para o horizonte. Aponta para os campos à nossa frente.
— É verde demais aqui. Você acha que o resto do mundo é assim?
— Não sei.
— A gente podia descobrir. — A voz dele é tão macia que finjo não ouvir, e caímos em um silêncio tranquilo. Vejo os ventos da primavera perseguindo as nuvens no céu enquanto meu irmão come com movimentos rápidos e eficientes. — Ou voltar para casa. Papai e mamãe…
— Impossível. — Foco no azul do céu, de uma cor que eu nunca vi no inferno em que nascemos.
— Você me salvou.
— E quase morremos. Tínhamos tudo a nosso favor e quase morremos. — Expiro lentamente. — Não há nada que a gente possa fazer por eles agora. Por um tempo pensei que seria possível, mas… só podemos ter esperança.
A tristeza pesa em seu rosto, deixando sua expressão amarga. Mas ele assente.
— E sobreviver. Continuar sendo nós mesmos. Você está me ouvindo, Cam? — Morrey segura minha mão. — Não deixe isso mudar você.
Ele está certo. Apesar de estar brava, apesar de sentir ódio por tudo que ameaça minha família, vale a pena alimentar esse sentimento?
— Então o que eu deveria fazer? — finalmente me forço a perguntar.
— Não sei como é ter uma habilidade. Você tem amigos que sabem. — Morrey pisca e faz uma pausa para enfatizar o que disse. — Você tem amigos, né? — Meu irmão abre um sorriso sarcástico por cima da borda da tigela. Dou um tapa no braço dele por ser engraçadinho.
Minha mente salta para Farley primeiro, mas ela ainda está no hospital com o bebê, além de não ter uma habilidade. Farley não sabe como é ser tão letal, controlar algo tão poderoso.
— Tenho medo, Morrey. Quando você perde o controle, apenas grita ou chora. Já eu, com o que sou capaz de fazer… — Estendo a mão para o céu flexionando os dedos diante das nuvens. — Tenho medo.
— Talvez isso seja uma coisa boa.
— O que você quer dizer?
— Lá em casa, você lembra como usavam as crianças para consertar máquinas grandes? Como elas entravam no meio da fiação? — Morrey abre os olhos escuros.
A memória ecoa. Ferro sobre ferro, batendo e torcendo, o zumbido constante do maquinário ao longo da fábrica interminável. Quase posso sentir o óleo, a chave inglesa na minha mão. Foi um alívio quando Morrey e eu crescemos o suficiente para não sermos mais aranhas. Era assim que os capatazes chamavam as crianças menores da nossa divisão. Pequenas o suficiente para ir aonde os trabalhadores adultos não alcançavam, jovens demais para ter medo de morrer esmagados.
— O medo pode ser uma coisa boa, Cam — ele prossegue. — Não te deixa esquecer. E o medo, o respeito que tem por essa coisa perigosa dentro de você… acho que também é uma habilidade.
Meu mingau está gelado a essa altura, mas forço uma colherada para não ter que falar. Agora o sabor do açúcar é dominante e a pasta gruda nos meus dentes.
— Essas tranças estão uma bagunça — Morrey resmunga sozinho. Nossos pais iam trabalhar antes da gente e tínhamos que nos aprontar sozinhos para sair. Assim, Morrey aprendeu a desembaraçar meu cabelo em um instante. Me sinto bem com ele de volta, e sou dominada pela emoção quando arruma meu cabelo preto em duas tranças.
Meu irmão não me força a tomar uma decisão, mas a conversa traz à tona inúmeras questões em que eu já tinha pensado. Quem eu quero ser? Que escolha vou tomar?
Ao longe, perto do limite dos campos de treino, avisto duas figuras familiares. Uma alta, outra baixa, ambas correndo nos limites da base. Fazem isso todos os dias, e sua rotina de exercícios é conhecida pela maioria de nós. Apesar das pernas longas de Cal, Mare não tem dificuldade para acompanhar seu ritmo. Conforme se aproximam, posso vê-la sorrindo. Há muita coisa na garota elétrica que não compreendo, e o fato de sorrir enquanto corre é umas delas.
— Obrigada, Morrey — digo, levantando quando ele termina.
Meu irmão não me acompanha. Ele segue meu olhar, encontrando Mare, que se aproxima. Ela não o deixa tenso, mas Cal sim. Morrey se ocupa rapidamente das tigelas, abaixando a cabeça para esconder sua expressão fechada. Os Cole não simpatizam com o príncipe de Norta.
Mare ergue o queixo enquanto corre, demonstrando que nos viu.
O príncipe tenta esconder sua irritação quando ela diminui o ritmo para uma caminhada. Ele acena com a cabeça para nós dois em uma tentativa de nos cumprimentar educadamente.
— Bom dia — Mare diz, saltando de um pé para o outro enquanto recupera o fôlego. Sua aparência melhorou, e um brilho dourado quente está voltando para sua pele morena. — Cameron, Morrey — ela fala com os olhos alternando entre nós com a velocidade de um gato. Seu cérebro está sempre girando, procurando rachaduras. Depois do que passou, como poderia ser diferente?
Mare deve sentir a hesitação em mim, porque continua ali, esperando que eu diga algo. Quase perco a calma, mas Morrey encosta na minha perna. Faça um sacrifício, digo a mim mesma. Ela pode até entender.
— Você se importaria de caminhar comigo?
Antes de ser capturada, Mare teria zombado de mim, mandado eu me catar, me enxotado como uma mosca irritante. Ela mal me tolerava. Mas agora concorda. Com um único gesto, dispensa Cal como só ela é capaz de fazer.
A prisão a mudou, como muda todos nós.
— Claro, Cameron.
Sinto como se falasse por horas, despejando tudo o que vinha guardando dentro de mim. O medo, a raiva, o enjoo que sinto todas as vezes que penso no que posso fazer e no que fiz. Em como aquilo costumava me empolgar. Como fazia eu me sentir invencível, indestrutível, mas agora me envergonha. É como se eu mesma cortasse minha barriga e deixasse as tripas caírem. Evito olhar para Mare enquanto falo, mantendo o olhar fixo nos pés enquanto andamos pelos campos de treino. Conforme avançamos, mais e mais soldados inundam o lugar. Sanguenovos e vermelhos, todos fazendo seus exercícios matinais. Nos macacões verdes fornecidos por Montfort, é difícil dizer quem é quem. Parecemos iguais, unidos.
— Quero proteger meu irmão. Ele acha que deveríamos partir… — Minha voz enfraquece e some.
Mare é enérgica em sua resposta.
— Minha irmã diz a mesma coisa. Todos os dias. Ela quer aceitar a oferta de Davidson. Ser realocada. Deixar outras pessoas lutarem. — Os olhos dela escurecem, intensos, passeando metodicamente pela paisagem repleta de uniformes verdes. Quer saiba ou não, está procurando riscos e ameaças. — Gisa diz que já demos o suficiente.
— Então o que você vai fazer?
— Não posso dar as costas a tudo isso. — Ela morde o lábio, pensativa. — Tem muita raiva em mim. Se não achar um jeito de me livrar dela, pode me envenenar. Mas acho que não é isso que você quer ouvir. — Soaria como uma acusação vindo de qualquer outra pessoa. De Cal ou Farley. De quem Mare era seis meses atrás. Mas as palavras dela são suaves.
— Persistir nisso vai me devorar viva — admito. — Se eu continuar usando minha habilidade para matar… vou me transformar em um monstro.
Monstro. Ela estremece quando digo isso, fechando-se dentro de si. Mare Barrow já teve sua cota de monstros. Ela olha para longe, mexendo distraída em uma mecha de cabelo cacheada pelo suor e pela umidade.
— É tão fácil criar monstros, especialmente a partir de pessoas como nós — Mare murmura, então se recupera. — Você não lutou em Archeon. Pelo menos não a vi.
— Não, eu estava lá só para… — Manter você sob controle. Na época, era um bom plano. Mas agora que sei pelo que Mare passou, me sinto péssima.
Ela não insiste.
— Foi ideia de Kilorn lá em Trial — falo. — Ele trabalha bem organizando os sanguenovos e os vermelhos, e sabia que eu queria me afastar um pouco. Então concordei em ir… não para lutar, não para matar, a menos que fosse absolutamente necessário.
— E você quer continuar nesse caminho. — Não é uma pergunta.
Lentamente, concordo com a cabeça. Não deveria me sentir envergonhada.
— Acho que é melhor. Defender, não destruir. — Ao lado do corpo, meus dedos se dobram. O silêncio se acumula sob minha pele. Não odeio minha habilidade, mas odeio o que ela pode fazer.
Mare fixa o olhar em mim, sorrindo.
— Não sou sua comandante. Não posso lhe dizer o que fazer ou como lutar. Mas acho que essa é uma boa ideia. Se alguém tentar lhe convencer do contrário, mande falar comigo.
Sorrio. De alguma forma, sinto como se um peso fosse tirado das minhas costas.
— Obrigada.
— Tenho que te pedir desculpas — ela acrescenta, aproximando-se. — Sou o motivo de você estar aqui. Entendo agora que o que fiz, forçar você a se juntar a nós… foi errado. Desculpe.
— É verdade. Você agiu errado. Mas, no fim das contas, consegui o que eu queria.
— Morrey. — Ela suspira. — Estou feliz que o tenha de volta. — O sorriso dela não desaparece, mas é enfraquecido pela menção a um irmão.
Na leve subida à frente, Morrey me espera, com os prédios da base se espalhando atrás dele. Cal se foi. Ótimo.
Apesar de já estar conosco há alguns meses, o príncipe age sempre de um jeito estranho, não sabe conversar e parece sempre nervoso quando não tem uma estratégia em que pensar. Parte de mim ainda acha que nos vê como descartáveis, cartas que pode usar no momento certo. Mas ele ama Mare, penso. Ama uma garota de sangue vermelho.
Isso deve valer alguma coisa.
Antes de alcançarmos meu irmão, um último medo borbulha na minha garganta.
— Estou abandonando vocês? Os sanguenovos, digo.
Minha habilidade é a morte silenciosa. Sou uma arma, querendo ou não. Posso ser usada. Posso ser útil. É egoísmo me afastar?
Tenho a sensação de que essa é uma pergunta que Mare tem feito a si mesma. Mas sua resposta é só para mim.
— Claro que não — ela murmura. — Você ainda está aqui. Há um monstro a menos para a gente se preocupar. Um fantasma a menos.

6 comentários:

  1. Nossa .. Me surpreendi ! As duas amigas❤

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  2. Aleluia um capitulo da Cameron em que ela não e tão irritante!

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  3. Meu raciocinio foi interrompido... Cameron não sendo irritante??? OMG!
    Sério, gosto da Cam mas tem horas que não aguento. Felizmente, esse capítulo não fez parte dessas horas.
    ~polly~ Nossa, é tão estranho ver elas se dando bem, como se fossem amigas.

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  4. Já tinha imaginado isso, a autora fez Mare crescer com os erros,ia fazer Cam amadurecer tbm 😊

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Boa leitura :)