13 de março de 2017

Capítulo vinte e quatro

ESTRANHAMENTE, CONSIGO DORMIR MAIS NOS TRÊS DIAS SEGUINTES do que em semanas. Os treinos pesados a céu aberto somados às longas sessões de planejamento deixam todos em frangalhos. Nossas viagens de resgate param por completo. Não sinto falta delas. Cada missão era um suspiro de alívio ou de terror, e ambos acabavam comigo. Eram muitos corpos pendendo em forcas, muitas crianças deixando suas mães, muita gente sendo arrancada da vida que sempre conheceu. Para o bem ou para o mal, sou a responsável por tudo isso. Mas agora que o jato está no chão e que gasto meu tempo debruçada sobre mapas e plantas de prédio, sinto outro tipo de vergonha. Abandonei os que ainda estão por aí, do mesmo jeito que Cameron diz que abandonei as crianças da Legiãozinha. Quantos mais vão morrer? Quantos bebês e quantas crianças?
Mas sou uma só, uma menininha que já não pode mais sorrir. Escondo-a dos outros, atrás da minha máscara de eletricidade. Mas ela continua aqui, irrequieta, atônita, medrosa. Eu a afasto o tempo todo, mas ela ainda me assombra. Nunca vai embora.
Todos dormem pesado, até Cal, que garante que todos descansem o máximo possível depois de cada treinamento. Enquanto Kilorn volta a conversar, se enturmando novamente com o grupo, Cal se fecha mais e mais a cada hora. É como se não tivesse mais espaço na cabeça para conversar. Corros já o aprisionou. Ele acorda antes de mim para fazer anotações e listas, rascunhando em qualquer pedaço de papel que conseguimos arranjar. Ada é sua maior vantagem. Ela memoriza tudo tão intensamente que fico com medo de seus olhos furarem os mapas. Cameron nunca está distante. Apesar das ordens de Cal, ela parece mais exausta a cada minuto. Círculos escuros rodeiam seus olhos, e ela se escora ou senta sempre que pode. Mas não reclama, pelo menos não na frente dos outros.
Hoje é nosso último dia antes do ataque, e o humor dela está especialmente azedo. Ela desconta em seus alvos de treinamento, ou seja, em Lory e em mim.
— Chega — Lory geme entre dentes cerrados. Ela cai de joelhos, acenando na direção de Cameron. A adolescente fecha o punho, mas a libera, interrompendo a influência do seu poder, abrindo as cortinas sufocantes do silêncio. — Era para você nocautear o meu poder, não a mim — Lory reclama, lutando para se reerguer.
Embora Lory seja de Kentosport, uma cidade pedregosa praticamente esquecida no litoral, castigada tanto por nevascas como por tormentas, ela fecha mais o casaco. O silêncio de Cameron não retira apenas os poderes que vêm com o sangue, mas desliga a pessoa por inteiro. A pulsação diminui, os olhos escurecem, a temperatura cai. E desestabiliza os ossos.
— Desculpa — Cameron começa a falar, usando o mínimo possível de palavras. Uma mudança bem-vinda depois de seus discursos eloquentes. — Não sou boa nisso.
Lory paga na mesma moeda.
— Bom, é melhor você ficar boa logo. Partimos hoje à noite, Cole, e você não vai só para bancar a guia turística.
Não é do meu feitio apartar brigas. Instigá-las, sim; observá-las, com certeza; mas impedi-las? Por outro lado, sei que não temos tempo para discussões.
— Lory, chega. Cameron, mais uma vez. — A voz cortante de Mareena vem bem a calhar, e as duas me ouvem. — Bloqueie os sentidos dela. Transforme-a numa pessoa normal. Controle o que ela é.
Um músculo se contrai na bochecha de Cameron, mas ela não manifesta oposição. Apesar de todas as reclamações, sabe que isso é algo que precisa fazer. Se não por nós, por ela mesma. Aprender a controlar o próprio poder é sua melhor escolha, e é parte do nosso acordo. Eu a treino, ela nos leva até Corros.
Lory não é tão agradável.
— Você é a próxima, Barrow — ela rosna para mim. Seu sotaque do extremo norte é afiado e impiedoso, assim como ela própria e o lugar de onde veio. — Cole, se você me deixar enjoada de novo, vou te matar quando você estiver dormindo.
Por algum motivo, a frase arranca um leve sorriso de Cameron.
— Pode tentar — ela responde enquanto estica os dedos longos e tortos. — Avise quando você sentir.
Observo a cena, à espera de algum sinal. Mas, assim como o poder de Cameron, o de Lory é difícil de enxergar. O tal poder sensorial faz com que tudo o que ele ouve, vê, toca, cheira e saboreia seja extremamente ampliado. Ela pode enxergar tão longe quanto um falcão, ouvir galhos estalarem a dois quilômetros de distância e até farejar como um cão de caça. Se ela ao menos gostasse de caçar... Mas Lory prefere vigiar o acampamento com seus ouvidos e olhos superdotados.
— Calma — instruo. A testa de Cameron enruga de concentração, e compreendo. Uma coisa é liberar seu poder com tudo, derrubando as paredes da represa interior e apenas deixando tudo transbordar. É mais fácil do que manter o controle, pôr rédeas em si mesmo, se manter firme e constante. — Você controla, Cameron. Está nas suas mãos. Responde a você.
Algo brilha nos olhos dela. Não a raiva habitual. Orgulho. Também compreendo. Para garotas como nós, que não tinham nada e não esperavam nada, é estonteante saber que existe uma coisa só sua, algo que ninguém pode tomar.
À minha esquerda, Lory pisca, forçando a visão.
— Está indo embora — diz. — Mal enxergo além do acampamento.
Ainda assim é longe. O poder de Lory continua lá.
— Um pouco mais, Cameron.
Cameron faz o que lhe digo e estende a outra mão.
Seus dedos se agitam em sincronia com o que deve ser sua pulsação, transformando o que ela sente no que quer.
— E agora? — ela diz com esforço.
— Quê? — Lory inclina a cabeça para o lado, apertando ainda mais os olhos. Mal consegue ver e ouvir.
— Esta é a sua constante. — Sem pensar, estendo os braços e apoio as mãos nos ombros de Cameron. — Este é o seu objetivo. Logo vai ser fácil como virar uma chave, familiar demais para que você esqueça. Vai ser instantâneo.
— Logo? — ela diz, virando a cabeça. — Voamos esta noite!
Ponho os dedos no queixo dela e a forço a olhar para Lory.
— Esqueça isso. Veja quanto tempo consegue manter o controle sem machucá-la.
— Totalmente cega! — Lory grita, alto demais.
Totalmente surda também.
— Seja lá o que estiver fazendo, está dando certo — digo a Cameron. — Não precisa dizer o que é, mas saiba que este é o seu gatilho.
Meses atrás, Julian me disse a mesma coisa para eu encontrar o gatilho que acionou minhas faíscas no Jardim Espiral. Hoje sei que me soltar é o que me dá força, e parece que Cameron descobriu a fonte dela.
— Lembre-se desta sensação — digo por fim.
Apesar do frio, uma gota de suor escorre pelo pescoço de Cameron e some na gola da camisa. Ele range os dentes, forçando o maxilar para conter um gemido de frustração.
— Vai ficar mais fácil — continuo, com as mãos de volta aos seus ombros.
Sinto seus músculos tensionarem, rijos e estendidos como cordas esticadas com muita força. Embora o poder cause um estrago monumental nos sentidos de Lory, também enfraquece Cameron. Se ao menos tivéssemos mais tempo... Uma semana, ou pelo menos mais um dia.
Pelo menos Cameron não vai precisar se segurar quando chegarmos em Corros. Dentro da prisão, quero que ela cause o máximo de dor que puder. Com seu temperamento e seu histórico nas celas, silenciar os guardas não deve ser um problema, e ela vai abrir uma rota direta através das pedras e dos corpos. Mas e se a pessoa errada cruzar o caminho dela? Um sanguenovo que ela não conhece? Cal? Eu? O poder dela pode ser o mais forte que já vi ou senti, e com certeza não quero ser vítima dele de novo. Fico arrepiada só de pensar. No fundo dos meus ossos, minhas faíscas reagem e começam a saltar pelos meus nervos. Preciso contê-las, usar meus próprios conselhos para manter a eletricidade quieta e distante. Embora elas obedeçam e se desmanchem no zumbido monótono que quase já não percebo, as faíscas crispam com a própria energia.
Apesar da preocupação e do desgaste constantes, meu poder parece maior. Está mais forte do que antes, saudável e vivo. Pelo menos alguma parte de mim está, penso.
Porque, sob a eletricidade, há outro elemento.
O frio nunca me deixa. Ele nunca vai embora, e é pior do que qualquer outro fardo. O frio é vazio e devora as minhas entranhas. Espalha-se como podridão, como doença, e um dia temo que me deixe vazia. Então serei apenas a casca da garota elétrica, o cadáver animado de Mare Barrow.
Cega, Lory vira os olhos, procurando enxergar além do cobertor de escuridão de Cameron.
— Estou começando a sentir aquilo de novo! — grita.
E o chiado nas palavras revela a dor que sente. Embora seja dura como as rochas marítimas em que foi criada, nem Lory é capaz de ficar calada diante das armas de Cameron.
— Está piorando!
— Solte.
Depois de um momento longo demais para o meu gosto, Cameron solta os braços e relaxa o corpo. Ela parece encolher, e Lory cai de joelhos de novo. Suas mãos massageiam as têmporas, e ela pisca várias vezes até seus sentidos voltarem.
— Ai — ela balbucia, sorrindo para Cameron.
Mas a garota não retribui o sorriso. Ela vira para o lado bruscamente, fazendo suas tranças balançarem, e me encara. Ou melhor, encara o topo da minha cabeça.
Vejo a raiva dela, uma raiva familiar. Será útil hoje à noite.
— Pois não?
— Chega por hoje — ela dispara, mostrando os dentes brancos e brilhantes.
Só consigo cruzar os braços e endireitar o corpo. Me sinto muito parecida com Lady Blonos ao olhar bem para ela.
— O treino acaba em duas horas, Cameron, e você deveria querer mais. Precisamos de cada segundo...
— Eu disse chega — ela repete. Para uma menina de quinze anos, ela consegue ser absurdamente teimosa. Os músculos do seu pescoço comprido reluzem com suor, e a respiração sai difícil. Mas ela se esforça para não resfolegar, tentando me enfrentar de igual para igual. Tentando estar no mesmo nível que eu. — Estou cansada e com fome — Cameron continua. — Estou prestes a partir para uma batalha que não quero lutar de novo. E a última coisa que quero é morrer de estômago vazio.
Atrás dela, Lory nos observa sem piscar, com olhos arregalados. Sei o que Cal faria. Insubordinação é o nome que dá a esse tipo de coisa, que não pode ser tolerada. Eu deveria ser mais dura com Cameron, fazê-la correr em volta da clareira, talvez conferir se é capaz de derrubar um pássaro com seu poder. Cal deixaria claro: ela não está no comando. Mas Cal lida com soldados, e esta garota não faz parte das suas tropas. Ela não vai se dobrar à minha vontade ou à dele. Passou muito tempo obedecendo sirenes de troca de turno, horários passados de geração em geração de operários escravizados. Ela sentiu o gosto da liberdade, e não vai se submeter a qualquer ordem que não queira seguir. E, embora reclame o tempo todo, ainda está aqui. Mesmo tendo tanto poder, ela ainda está aqui.
Não vou agradecê-la por isso, mas vou deixá-la comer. Em silêncio, dou um passo para o lado.
— Meia hora de descanso, depois volte.
Os olhos dela brilham de raiva, e a cena familiar quase me faz sorrir. Não posso deixar de admirar essa garota. Um dia, talvez, até sejamos amigas.
Ela não concorda, mas também não discute, e se retira pelo canto da clareira. Os outros a observam sair, seguindo-a com o olhar depois de ela ter desafiado a garota elétrica. Mas não me importo nem um pouco com o que pensam. Não sou a capitã deles, nem a rainha. Não sou melhor nem pior do que qualquer um deles, e já é hora de começarem a me ver como sou. Mais uma sanguenova, mais uma guerreira, e nada mais.
— Kilorn preparou um coelho — Lory diz para quebrar o silêncio. Ela funga o ar e lambe os beiços de uma maneira que faria Lady Blonos esbravejar. — Bem suculento, aliás.
— Vá lá então — digo baixo, apontando para a fogueira do outro lado da clareira.
Lory não precisa ouvir duas vezes.
— Cal está de mau humor, aliás — ela acrescenta enquanto passa por mim com passos frenéticos. — É o que parece. Não para de xingar e chutar coisas.
Corro os olhos pelo lugar e chego à conclusão de que ele não está do lado de fora. Fico surpresa por um momento, mas depois me lembro: Lory escuta praticamente tudo, se parar para prestar atenção.
— Vou falar com ele — digo, antes de sair rápido.
Ela tenta me seguir, mas depois muda de ideia e me deixa disparar na frente.
Não faço questão de esconder a preocupação. Cal não costuma se irritar do nada, e planejar o deixa calmo, até feliz. Então, seja lá qual for o problema, também me deixa tensa, bem mais do que deveria estar às vésperas do nosso ataque.
O Furo está praticamente vazio; todos estão treinando a céu aberto. Até as crianças foram ver os mais velhos lutando, atirando e controlando os próprios poderes. Fico feliz de não estarem no meu pé, puxando minhas mãos, me infernizando com perguntas sobre o seu herói, o príncipe exilado. Minha paciência com crianças não é como a de Cal.
Ao dobrar a esquina de um dos túneis, dou de cara com meu irmão, vindo dos dormitórios. Farley o segue, rindo sozinha, mas o sorriso desaparece assim que me vê.
Opa.
— Mare — ela cumprimenta com um grunhido. Nem para. Passa direto.
Shade tenta fazer o mesmo, mas estico o braço e impeço a passagem.
— Posso ajudar com alguma coisa? — ele pergunta.
Seus lábios tremem, lutando para segurar um sorrisinho malicioso e brincalhão. O sorriso vence.
Tento parecer irritada com ele, pelo menos para manter as aparências.
— Você devia estar treinando.
— Está preocupada por eu não estar me exercitando muito? Garanto a você, Mare, que estamos — ele diz, com uma piscadela.
Faz sentido. Shade e Farley não se desgrudam há um bom tempo. Ainda assim, finjo surpresa e dou um tapinha no braço dele.
— Shade Barrow!
— Ah, o que é isso? Todo mundo sabe. Não é culpa minha se você não percebeu.
— Você podia ter me contado — contra-ataco, procurando algum motivo para lhe dar uma bronca.
Ele apenas dá de ombros, ainda com um sorriso no rosto.
— Assim como você me contou sobre Cal?
— Mas é...
Diferente, quero dizer. Não damos escapadinhas no meio do dia e não fazemos praticamente nada de noite.
Mas Shade ergue a mão para me cortar.
— Se não se importa, não quero mesmo saber. E se você me dá licença, preciso treinar um pouco, como você disse tão gentilmente.
Ele se retira com as mãos para cima, como um homem rendido. Eu o dispenso com um aceno da mão enquanto me seguro para não rir também. Um minúsculo botão de felicidade desabrocha no meu peito, uma sensação estranha depois de tantos dias de desespero.
Protejo-a como a chama de uma vela, tentando mantê-la viva e acesa. Mas ela se apaga quando vejo Cal.
Ele está no nosso quarto, sentado sobre uma caixa, com um papel familiar aberto sobre o colo. É o verso de um dos mapas do coronel, agora coberto de linhas desenhadas nos mínimos detalhes. É um mapa do presídio de Corros, ou pelo menos o que Cameron se lembra dele. Espero ver as bordas do papel fumegarem, mas ele mantém o fogo contido no buraco carbonizado no chão. Uma luz vermelha dançante se projeta de lá, o que deve dificultar a leitura, mas Cal força a vista. No canto do quarto, a minha caixa permanece intacta, repleta dos bilhetes assombrosos de Maven.
Devagar, puxo outra caixa e solto o corpo ao lado dele. Ele parece não notar, mas sei que percebeu. Nada escapa a seus sentidos de soldado. Quando meu ombro encosta no dele, ele não levanta os olhos do mapa, mas sua mão desliza até a minha perna, me puxando para o seu calor. Ele não me solta, e não o afasto. Não sou capaz, na verdade.
— O que há de errado? — pergunto, encostando a cabeça no seu ombro. Para ver melhor o mapa, digo a mim mesma.
— Além de Maven, da mãe dele, do fato de eu odiar carne de coelho e da planta dessa prisão infernal? Absolutamente nada, obrigado por perguntar.
Quero rir, mas mal consigo forçar um sorriso. Não é típico dele fazer piadas, não em momentos como este.
Deixo esse tipo de mau gosto para Kilorn.
— Cameron está melhorando, se isso ajuda de alguma forma.
— Sério? — Sua voz reverbera no peito e chega a me fazer vibrar. — É por isso que você está aqui e não treinando?
— Ela precisa comer, Cal. Não é um bloco de Pedra Silenciosa.
Ele bufa, ainda com os olhos cravados no esboço de Corros.
— Nem me lembre.
— Elas só estão nas celas, Cal, não no resto da prisão — digo, na esperança de que me dê ouvidos, se recomponha e saia desse estado bizarro. — Vamos ficar bem, desde que ninguém nos tranque numa delas.
— Avise Kilorn.
Para a minha desgraça, ele ri da própria piada, soando mais como um menino do que como o soldado que precisamos que seja. E o pior: ele aperta a mão no meu joelho. Não o bastante para me machucar, mas o suficiente para se fazer entendido.
— Cal? — chamo de novo, afastando a mão dele como quem se livra de uma aranha. — O que há com você?
Por fim, ele levanta a cabeça e me encara. Ainda sorri, mas não há nem uma ponta de alegria nos seus olhos. Uma espécie de sombra os atravessa, transformando-o num completo desconhecido para mim.
Nem no Ossário, quando seu próprio irmão o condenou à morte, ele estava assim. Estava com medo, perturbado, um pobre-diabo em vez de um príncipe, mas ainda era Cal. Podia confiar naquela pessoa assustada. Mas nesta? Este garoto risonho com a mão boba e os olhos desesperançados? Quem é ele?
— Você quer uma lista? — ele responde, alargando ainda mais o sorriso sinistro, quebrando algo dentro de mim.
Eu o acerto com tudo. Meu punho cerrado contra seu ombro. Ele é enorme, mas não luta contra meu golpe e se deixa cair para trás, o que me pega de surpresa. Caio com ele, e acabamos os dois no chão de terra. A cabeça dele bate com um ruído seco e ele geme de dor. Quando tenta levantar, eu o empurro e o seguro firme debaixo de mim.
— Você não vai levantar até se recompor.
Para a minha surpresa, ele apenas dá de ombros.
Chega até a piscar.
— Não é o melhor dos incentivos.
— Argh.
Antes, as damas da nobreza de Norta desmaiariam se o príncipe Tiberias piscasse para elas. Mas isso me dá um nó no estômago. Dou outro soco nele, desta vez na barriga. Pelo menos ele tem o bom senso de manter a boca fechada e os olhos abertos. Sem nenhuma piscadela, felizmente.
— Agora me diga qual é o seu problema — retomo.
O que antes era um sorriso se transforma numa careta, e ele encosta a cabeça no chão, com a testa franzida. Olha fixamente para o teto. Melhor isso do que bancar o idiota.
— Cal, onze pessoas vão nos acompanhar até Corros. Onze.
Ele cerra os dentes. Sabe onde quero chegar. Onze pessoas que morrerão se não fizermos isso dar certo, e muitos outros no presídio, se os abandonarmos.
— Também estou com medo. — Minha voz vacila mais do que eu queria. — Não quero decepcioná-las ou machucá-las.
De novo, a mão dele encosta na minha perna. Mas ele não a toca com urgência. É apenas um lembrete: estou aqui.
— Mas acima de tudo... — Fico sem fôlego, que agora pende no fio afiado da verdade. — Tenho medo por mim. Tenho medo do sonador, de sentir aquela dor de novo. Tenho medo do que Elara vai fazer se chegar até mim. Sei que sou mais valiosa do que a maioria, por causa do que fiz e do que posso fazer. Meu nome e meu rosto têm tanta força quanto meus raios, e isso me torna importante. Faz de mim um troféu. — Faz de mim uma pessoa solitária. — E odeio pensar desse jeito, mas ainda penso.
O que começou como o colapso de Cal acabou se transformando no meu. Numa noite escura, numa estrada densa sob o calor do verão, cuspi todos os meus segredos nele. Não passava da garota que tentou roubar o dinheiro dele. Agora o inverno se aproxima, e sou a garota que roubou a vida dele.
A pior das minhas confissões ainda está guardada. Agita-se no meu cérebro como um pássaro numa gaiola. Bate contra os meus dentes, implorando para sair.
— Sinto falta dele — sussurro, incapaz de encarar Cal nos olhos. — Sinto falta de quem pensei que ele fosse.
A mão na minha perna se fecha e emana calor. Raiva.
É fácil ler Cal, o que é um descanso bem-vindo depois de tanto tempo fechada num covil de lobos.
— Também sinto falta dele.
Meus olhos disparam para os dele, em choque.
— Não sei o que tornaria mais fácil esquecê-lo. Pensar que não foi sempre assim, que a mãe o envenenou, ou que ele simplesmente nasceu um monstro.
— Ninguém nasce um monstro. — Mas eu desejaria que fosse assim com algumas pessoas. Seria mais fácil odiá-las, matá-las, esquecer seus rostos mortos. — Nem Maven.
Sem pensar, deito sobre ele, coração com coração.
Eles batem em sincronia, refletindo as lembranças de um garoto de língua afiada e olhos azuis. Inteligente, esquecido, compassivo. Jamais veremos aquele garoto de novo.
— Temos que desapegar — murmuro no pescoço de Cal. — Mesmo que isso signifique matá-lo.
— Se ele estiver em Corros...
— Eu consigo, Cal. Se você não conseguir.
Ele se cala pelo que parece uma eternidade, mas não pode ser mais de um minuto. Ainda assim, quase adormeço. Seu calor é mais convidativo do que a cama mais confortável de qualquer palácio.
— Se ele estiver em Corros, vou perder o controle — ele diz afinal. — Vou atrás dele com tudo que tenho, dele e de Elara. Ela vai usar o meu ódio, vai voltá-lo contra você. Vai me fazer matar você, como me fez...
Meus dedos sobem até os lábios dele e o impedem de pronunciar as palavras. Elas lhe causam muita dor.
Naquele instante, vislumbro um homem sem qualquer outra motivação a não ser vingança, e nenhum outro coração além do que eu parti. Outro monstro, apenas esperando para assumir a verdadeira forma.
— Não vou deixar isso acontecer — digo, afastando nossos piores medos.
Ele não acredita em mim. Vejo isso nas trevas do seu olhar. O vazio, o vazio que vi em Ocean Hill, ameaça voltar.
— Não vamos morrer, Cal. Chegamos longe demais para isso.
O riso dele soa vazio, dolorido. Ele afasta as minhas mãos gentilmente, mas não solta meu punho.
— Você sabe quantas pessoas que eu amo já morreram? — pergunta.
Sei que ele sente as pontadas do meu pulso, e estou perto demais para poder ocultar a dor que sinto por ele.
Ele quase caçoa da minha pena.
— Todos se foram. Todos assassinados. Por ela. — A rainha Elara. — Ela os mata, e depois os apaga.
Qualquer um imaginaria que ele está pensando no pai, ou mesmo no irmão que achou que Maven fosse. Mas eu sei.
— Coriane — balbucio, me referindo à mãe dele. A irmã de Julian. A rainha cantora. Cal não lembra dela, mas com certeza pode chorar sua perda. — É por isso que Ocean Hill era o meu palácio favorito. Era dela. Meu pai deu para ela.
Pisco várias vezes tentando lembrar do pesadelo que vivemos no palácio de Harbor Bay. Tentando me lembrar da aparência do lugar onde lutamos por nossas vidas.
Vaga e lentamente, lembro das cores que dominavam o interior. Dourado. Amarelo. Como papel antigo, como as roupas de Julian. A cor da Casa Jacos.
É por isso que Cal parecia tão triste. Por isso não conseguiu queimar os estandartes. Eram dela.
Não sei o que é ser órfã. Sempre tive mãe e pai. É uma bênção que nunca compreendi até eles serem tirados de mim. Parece errado sentir falta deles agora, quando sei que estão seguros, enquanto os pais de Cal estão mortos e enterrados. E agora, mais do que nunca, odeio o frio dentro de mim e meu medo egoísta de ficar sozinha. Entre nós dois, Cal é muito mais solitário do que jamais serei.
Mas não podemos ficar remoendo pensamentos e lembranças. Não podemos nos deter neste momento.
— Me conte da prisão — digo, forçando um novo assunto. Vou arrancar a depressão de Cal mesmo que precise me matar para isso.
A força do suspiro dele faz todo o seu corpo tremer, mas ele fica grato pela distração.
— É um poço. Uma fortaleza protegida por uma arquitetura engenhosa. Os portões ficam no primeiro andar, com as celas embaixo, e passarelas de magnetrons conectam tudo. Um gesto com a mão pode nos fazer despencar trinta metros e cair bem no fundo do barril. E então eles nos massacram, junto com qualquer um que libertemos.
— E os prisioneiros prateados? Acha que não vão brigar um pouco?
— Não depois de semanas em celas silenciosas. Vão ser um obstáculo, mas não muito grande. E isso vai tornar a fuga lenta.
— Você vai deixá-los... fugir?
O silêncio dele é suficiente.
— Eles podem se virar contra nós lá, ou vir atrás de nós depois.
— Acho que uma fuga em massa vai dar muita dor de cabeça ao meu irmão, especialmente se os fugitivos forem seus inimigos políticos.
Balanço a cabeça.
— Não gostou?
— Não confio.
— Há uma surpresa — ele diz secamente. Um de seus dedos contorna as cicatrizes que o dispositivo de Maven me deu. — A força bruta não vai vencer essa batalha, Mare. Não importa quantos sanguenovos você resgate. Os prateados ainda estão em maior número, e ainda têm a vantagem.
O soldado defendendo outro tipo de luta. Que irônico.
— Espero que você saiba o que está fazendo.
Ele dá de ombros sob mim.
— Intrigas políticas não são minha especialidade, mas vou tentar.
— Mesmo que acabe numa guerra civil?
Meses atrás, Cal me contou como seria uma rebelião assim. Uma guerra de ambos os lados, sangue contra sangue. Vermelho contra vermelho, prateado contra prateado, e tudo o que estiver no meio. Ele falou que não arriscaria o legado do pai por uma guerra, ainda que fosse justa. O silêncio mais uma vez recai sobre nós, e Cal se nega a responder. Imagino que não saiba mais qual é a sua posição. Não é rebelde, não é príncipe, não tem certeza de nada além do fogo nos seus ossos.
— Estamos em menor número, mas isso não diminui nossas chances — digo.
Mais fortes que os dois. Foi o que Julian me escreveu quando descobriu o que eu era. Julian, que, para minha grande surpresa, posso muito bem reencontrar.
— Os sanguenovos têm poderes para os quais nenhum prateado está pronto, nem mesmo você — concluo.
— Aonde quer chegar?
— Você está encarando isso como se liderasse suas tropas, com poderes que compreende e com os quais já treinou.
— E?
— E gostaria de saber o que vai acontecer quando um guarda tentar atirar em Nix ou um magnetron tentar derrubar Gareth.
Cal leva um segundo para compreender o que estou dizendo. Nix é invulnerável, mais forte que um pétreo. E Gareth não vai cair de lugar nenhum tão cedo, manipulando a gravidade. Não temos um exército, mas com certeza temos soldados, e poderes que os guardas prateados não sabem como combater. Quando se dá conta, Cal agarra minhas bochechas e levanta meu rosto.
Então estala um beijo orgulhoso no meu lábio, rápido demais para o meu gosto.
— Você é genial! — ele suspira e levanta com um salto. — Volte para Cameron, apronte todo mundo.
Ele pega o mapa, quase louco de entusiasmo. O mesmo sorriso malicioso reaparece, mas dessa vez não o odeio.
— Isso pode dar certo de verdade — diz.

19 comentários:

  1. não voltava nesse blog desd q terminei academia de vampiros, nossa senti falta e essa saga é maravilhosa, obrigada por postar!
    não me conformo como maven pode fazer isso tudo :( S/2
    #pietra

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  2. Mare não se decide, uma hora ela que ser a lider toda poderosa garota eletrica, e na outra ela quer se igualar ao outros sanguesnovos se decide querida!!!

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  3. também sinto falta dele!!! Eu shippava Maven com Mare...Maren (sou horrivel com shippes sorry)

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    1. Eu também, não d´pra esquecer aquele garoto gentil e bom que Maven era. Que desperdício! Elara, sua piranha, vocês vão pagar.~polly~

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    2. Sinto falta daquele menino incrível que era o antigo Maven...triste, muito triste!

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    3. Sinto falta daquele menino incrível que era o antigo Maven...triste, muito triste!

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    4. morro de amores por esses 2. quem pode contra eles? amo amo amo

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    5. Nunca confiei no Maven desde o começo

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  4. " — Está preocupada por eu não estar me exercitando muito? Garanto a você, Mare, que estamos — ele diz, com uma piscadela.
    Faz sentido. Shade e Farley não se desgrudam há um bom tempo. Ainda assim, finjo surpresa e dou um tapinha no braço dele.
    — Shade Barrow!
    — Ah, o que é isso? Todo mundo sabe. Não é culpa minha se você não percebeu.
    — Você podia ter me contado — contra-ataco, procurando algum motivo para lhe dar uma bronca.
    Ele apenas dá de ombros, ainda com um sorriso no rosto.
    — Assim como você me contou sobre Cal?
    — Mas é...
    Diferente, quero dizer. Não damos escapadinhas no meio do dia e não fazemos praticamente nada de noite.
    Mas Shade ergue a mão para me cortar.
    — Se não se importa, não quero mesmo saber. E se você me dá licença, preciso treinar um pouco, como você disse tão gentilmente.
    Ele se retira com as mãos para cima, como um homem rendido. Eu o dispenso com um aceno da mão enquanto me seguro para não rir também."
    hahahahahaha momento superprotetor entre irmãos kkk
    Finalmente, eu shippava Shade e Farley. #Sharley ~polly~

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    1. Que decepção não ver meu querido shipp ter só isso pra mostra que estão juntos, fala serio tô esperando faz tempo para ver só isso,deslike total

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  5. Aí só vejo a maioria julgando a Mare,mas poxa ela tbm está perdida,eu gosto dela, pq apesar de tudo, oque ela tá fazendo é tentar ajudar todo mundo,ela erra como todo mundo, achei legal sim uma personagem que não é perfeita e que tem seus defeitos!!!

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    1. Aleluia, eu pensei que que só eu não achava a Mare tão metida assim.

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    2. Mesma opinião!! gosto da Mare, gosto dela não ser perfeita, assim tbm como gostei do final de jogos vorazes, que não e feliz, mas que nem tudo termina num felizes para sempre

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    3. eu tbm n to c raiva dela... Me coloco no lugar dela: ela esta tentando salvar a todos sem se salvar, sem nem saber o que ela é, o que ela se tornou.
      Isso deixa um vazio enorme na pessoa.

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  6. não confio na cameron o maven pode ter deixado ela sair e a rainha ta controlando ela.ai quando a mare e os sanguenovos chega na prisão
    ela anula o poder deles e os prateados capturam eles tudo

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    1. Hmmm
      Mds nao se pode confiar em ninguém velho kkkk

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  7. Farney e Shade ahhhhh meu ship é tão lindo genti!

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  8. FINALMENTEEEE
    Farley e Shade!
    #eushippo

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Boa leitura :)