3 de março de 2017

Capítulo vinte e quatro

PASSO A MAIOR PARTE DO DIA SEGUINTE EXPLORANDO, ainda que minha cabeça esteja em outro lugar, Whitefire é mais antigo que o Palacete e suas paredes são feitas de pedra e madeira entalhada em vez de diamante. Duvido que algum dia vou decorar a planta do lugar. Aqui não fica apenas a residência real, mas muitos escritórios da administração, salas de controle, salões de festa, um ginásio de treinamento completo e outras coisas que não compreendo.
Acho que é por isso que o secretário leva quase meia hora para me encontrar, circulando pela galeria de estátuas. Mas não tenho mais tempo para explorar. Tenho deveres a cumprir.
Deveres, de acordo com o falante secretário do rei, que se aplicam a uma vasta gama de males além da leitura das Medidas. Como futura princesa, preciso encontrar pessoas em passeios programados, fazer discursos, apertar mãos e ficar ao lado de Maven. A última parte não me incomoda nem um pouco, mas ser posta para desfilar como um bode num leilão não é nada emocionante.
Maven e eu entramos num veículo destinado para nossa primeira aparição. Estou louca para lhe contar sobre a lista e agradecer pela base sanguínea, mas há muitos olhos e ouvidos ao redor.
A maior parte do dia passa num borrão de ruídos e cores à medida que visitamos diferentes partes da capital. O Mercado da Ponte me lembra o Grande Jardim, embora três vezes maior. Em apenas uma hora saudando apressadamente crianças e comerciantes, vejo prateados agredirem ou humilharem dúzias de criados vermelhos que apenas queriam fazer seu trabalho. Os seguranças evitam que a coisa vire um ataque generalizado, mas as palavras lançadas contra os infelizes doem quase como golpes. Assassinos de crianças, animais, malditos.
Maven aperta minha mão cada vez que um vermelho é jogado no chão. Quando chegamos à nossa próxima parada, uma galeria de arte, fico feliz de estar longe dos olhares do público, até ver as pinturas. O artista prateado usa duas cores — prata e vermelho — numa série de quadros horríveis que me deixa enjoada. As pinturas são umas piores que as outras e representam a força prateada e a fraqueza vermelha em cada pincelada. O último quadro mostra uma figura cinza e prata, bem similar a um fantasma, e a coroa sobre sua cabeça sangra em vermelho. Tenho vontade de bater a cabeça na parede.
A praça do lado de fora da galeria é barulhenta, pulsando vida urbana. Muitos param, atônitos, para nos ver entrar no veículo. Maven acena com um sorriso ensaiado, o que faz a multidão gritar seu nome. Ele é bom nisso, afinal, esta gente é sua herança. Quando se inclina para conversar com um punhado de crianças, seu sorriso se ilumina. Cal pode ter nascido para governar, mas Maven é quem possui a vocação. E ele deseja mudar o mundo para nós, para os vermelhos, nos quais foi ensinado a pisar.
Toco discretamente a lista em meu bolso, com o pensamento naqueles que podem nos ajudar a mudar o mundo. São como eu ou tão diversificados como os prateados?
Shade era como você. Eles descobriram e tiveram que matá-lo, mas não puderam matar você. Meu coração dói por meu irmão, pelas conversas que poderíamos ter tido. Pelo futuro que poderíamos ter criado.
Mas Shade está morto, e há outros que precisam da minha ajuda.
— Precisamos encontrar Farley — sussurro no ouvido de Maven, tão baixinho que eu mesma mal consigo escutar.
Ele arqueia a sobrancelha fazendo uma pergunta silenciosa.
— Preciso entregar algo para ela — explico no mesmo tom de voz.
— Tenho certeza de que vai nos encontrar — ele responde, também aos sussurros. — Se já não estiver nos observando.
— Como...?
Farley nos espiando? Dentro de uma cidade que a quer em pedaços? Parece impossível.
Mas então noto a compacta multidão prateada e, mais adiante, os criados vermelhos. Alguns param para nos ver, com fitas vermelhas nos braços. Qualquer um deles poderia trabalhar para Farley. Todos poderiam. Mesmo com os sentinelas e os agentes por todos os lados, ela ainda está conosco.
Esta multidão não é como as do vilarejo, pelas quais eu podia me mover com facilidade. Agora estou em evidência: sou a futura princesa rodeada de guardas, com uma rebelião sobre os ombros. E talvez algo ainda mais importante, penso ao me lembrar da lista de nomes em meu casaco.
Quando a multidão avança, todos com o pescoço esticado para nos ver, aproveito a chance para sair de cena. Os sentinelas se amontoam ao redor de Maven, ainda desacostumados ao trabalho de me proteger também. Com umas poucas curvas, estou fora do círculo de guardas e admiradores. Eles continuam a caminhar pela praça sem mim, e se Maven deu por minha falta não os fez parar.
Os criados vermelhos não percebem minha chegada, pois mantêm a cabeça baixa enquanto passam de uma loja para outra. Eles se limitam aos becos e às sombras na tentativa de ficar longe de vista. Estou tão concentrada na tarefa de examinar os rostos que não percebo um garotinho ao meu lado.
— A senhora deixou isto cair — diz ele, que tem talvez uns dez anos e uma fita vermelha no braço. — Senhora?
Então reparo no que tem na mão. Apenas um papelzinho amassado que não me lembro de carregar. Mesmo assim, sorrio e pego o papel.
— Muito obrigada.
Ele sorri para mim do jeito que só as crianças são capazes, e em seguida se enfia por um dos becos. Seus passos saltitantes mostram que a vida ainda não o derrubou.
— Por aqui, Lady Titanos.
Um sentinela se ergue diante de mim, me observando com olhos impassíveis. Meu plano já era. Acompanho o guarda de volta ao veículo, sentindo uma tristeza súbita. Não consigo sequer fugir como antes. Estou ficando mole.
— O que foi isso? — pergunta Maven quando entro no veículo.
— Nada — suspiro, enquanto lanço um olhar pela janela e vamos embora da praça. — Pensei ter visto alguém.
Só quando dobramos a esquina é que me lembro do papelzinho. Eu o desdobro em meu colo e o escondo na manga. Há algumas palavras escritas no papel, tão pequenas que mal consigo ler.
Teatro Hexaprin. Peça da tarde. Melhores assentos.
Levo um segundo para me dar conta de que só sei o significado de metade das palavras, mas não importa nem um pouco. Com um sorriso, aperto a mensagem contra a mão de Maven.
O pedido dele basta para que nos levem ao teatro. É um lugar pequeno, mas luxuoso, com uma cúpula verde coroada com um cisne negro. Um espaço de entretenimento que exibe peças, concertos e até alguns filmes históricos em datas especiais. Uma peça — ensina Maven — é quando pessoas, atores, representam uma história sobre o palco. No vilarejo mal tínhamos tempo para um conto de fadas antes de dormir, quem dirá para palcos, atores e fantasias.
Num piscar de olhos, já estamos sentados num camarote fechado acima do palco. Os assentos de baixo transbordam de pessoas, muitas crianças, todos prateados. Uns poucos vermelhos passam por entre as fileiras e corredores para servir bebidas ou pegar as entradas, mas nenhum senta. Trata-se de um luxo que não podem ter. Enquanto isso, sentamos em cadeiras de veludo com a melhor vista, separados do secretário e dos sentinelas por belas cortinas.
Quando o teatro escurece, Maven passa o braço pelo meu ombro e me puxa para si, tão perto que consigo escutar seu coração. Ele sorri para o secretário, que espia por entre as cortinas.
— Não nos perturbe — ordena o príncipe devagar, e aproxima o rosto do meu.
A porta se fecha, mas nenhum de nós recua. Depois de um minuto ou uma hora — não sei dizer — as vozes soam no palco e volto à realidade.
— Desculpe — digo a Maven, me endireitando no assento para ficar mais distante.
Não há tempo para beijos agora, por mais que eu queira. Ele apenas sorri e continua com os olhos em mim, não no palco. Faço o máximo para desviar o olhar, mas algo sempre me atrai para ele.
— O que fazemos agora?
Ele ri sozinho, com um brilho malicioso no olhar.
— Não foi isso que quis dizer — emendo, mas não consigo conter um sorriso.
— Cal veio falar comigo hoje cedo.
Maven aperta os lábios com minhas palavras.
— E?
— Parece que estou salva.
O sorriso em seu rosto seria capaz de iluminar o mundo, e sou tomada pela necessidade de beijá-lo novamente.
— Eu disse que salvaria você — ele diz com um tom áspero estranho na voz. Quando sua mão vem ao encontro da minha, nem penso em recusar.
Antes de continuarmos a conversa, o painel no teto desliza para o lado. Maven levanta na hora, mais impressionado que eu, e inspeciona o espaço escuro sobre nós. Nem um mísero ruído chega aos nossos ouvidos, mas não importa: sei o que fazer. O treinamento me deixou mais forte, então subo pelo buraco com facilidade e desapareço naquele lugar escuro e frio.
Não consigo ver nada nem ninguém, mas não tenho medo. A emoção me guia e, sorrindo, estendo a mão para ajudar Maven. Ele também se arrasta pela escuridão, tentando entender o que se passa. Antes de nossos olhos se acostumarem com a falta de luz, o painel no teto fecha, nos separando dos refletores, da peça e do público.
— Rápido e em silêncio. Eu guio a partir daqui.
Não reconheço pela voz, mas pelo cheiro: uma mistura de chá, especiarias e cera azul.
— Will? — pergunto quase com uma risada. — Will Whistle?
Aos poucos, fica cada vez mais fácil lidar com a escuridão. Consigo ver sua barba branca, embaraçada como sempre, apesar da pouca luz. Tem que ser ele.
— Não temos tempo para cumprimentos, pequena Barrow — ele diz. — Temos trabalho a fazer.
Nem imagino como Will veio parar aqui, como atravessou toda a distância desde Palafitas. Seu conhecimento detalhado do teatro é ainda mais peculiar. Ele nos conduz pelo telhado, por escadas, degraus e pequenos alçapões, tudo isso sob o som abafado da peça. Não demora muito e estamos no subterrâneo, com arrimos de alvenaria e vigas de metal por toda parte.
— Vocês realmente gostam de um drama — comenta Maven diante da escuridão que nos cerca.
O lugar parece uma cripta úmida e sombria, onde o horror espreita a cada canto.
Will ri baixo enquanto força uma porta de metal com os ombros.
— Esperem só para ver.
Cruzamos uma passagem estreita e íngreme que nos leva ainda mais para baixo. O ar tem um leve cheiro de esgoto. Para minha surpresa, a trilha termina numa pequena plataforma iluminada apenas por uma tocha. Ela projeta sombras estranhas sobre uma parede de azulejos rachados. Há sinais pretos na parede, letras, mas não em algum idioma que eu saiba ler.
Antes que possa perguntar sobre isso, um grande rangido faz as paredes tremerem. O barulho vem de um buraco redondo na parede ainda mais escuro. Maven segura minha mão, sobressaltado, e eu fico com tanto medo quanto ele. O metal continua a chiar a uma altura capaz de estourar os tímpanos. Luzes brilhantes jorram do túnel e consigo sentir a aproximação de alguma coisa grande, elétrica e poderosa.
Uma cobra metálica aparece e para na nossa frente. As laterais de metal cru estão unidas por soldas e parafusos e possuem janelas minúsculas. Uma porta enferrujada abre e revela uma luminosidade cálida.
Farley sorri para nós de um dos assentos e indica com a mão que nos juntemos a ela.
— Todos a bordo! Os técnicos chamam isso de subtrem — ela diz em voz tremida enquanto nos sentamos. — É incrivelmente rápido e passa sobre trilhos antigos que os prateados não querem saber de procurar.
Will entra por último e fecha a porta. Ficamos trancados nesta coisa que mais parece uma lata gigante. Se não estivesse com tanto medo do subtroço bater, ficaria até impressionada. Em vez disso, agarro firme em meu assento.
— Onde vocês construíram isto? — Maven pergunta gritando enquanto corre os olhos pela lamentável caixa de metal. — A Cidade Cinzenta é controlada, os técnicos trabalham para...
— Também temos nossos técnicos e cidades para eles, pequeno príncipe — diz Farley, orgulhosa de si mesma. — O que vocês prateados sabem sobre a Guarda não dá para encher uma xícara de chá.
O trem dá um pulo que quase me joga do assento, mas os outros nem se impressionam. A máquina avança aos solavancos até atingir uma velocidade que faz meu estômago grudar nas costas. Os outros continuam a conversar. Maven é o mais animado e faz uma série de perguntas sobre o subtrem e a Guarda. Fico contente de ninguém me pedir para falar. Com certeza vomitaria ou desmaiaria se tivesse que fazer alguma coisa além de segurar firme. Mas Maven não se abala e não deixa escapar nenhum detalhe.
Ele olha pela janela, percebendo alguma coisa na rocha que passa pelo caminho.
— Vamos para o sul.
Farley recosta no assento e confirma:
— Sim.
— O sul é radiativo — Maven replica enfático, encarando a líder.
Ela dá de ombros.
— Para onde está nos levando? — pergunto, finalmente capaz de falar.
Maven não perde tempo e parte em direção à porta. Ninguém o impede porque não há para onde ir. Não há escapatória.
— Você sabe o que a radiação faz? — ele pergunta, realmente assustado.
Farley começa a contar os sintomas no dedo com um sorriso insolente.
— Náusea, vômito, enxaqueca, convulsões, câncer e, claro, morte. Uma morte bem desagradável.
De repente começo a passar mal.
— Por que está fazendo isso? Estamos aqui para ajudar.
— Mare, pare o trem. Você consegue parar! — pede Maven, saltando à minha frente e me segurando pelos ombros. — Pare o trem!
Para minha surpresa, a lata gigante começa a guinchar por todos os lados e faz uma parada brusca e repentina. Maven e eu caímos num emaranhado de pernas e braços que termina com uma cabeçada dolorosa contra o piso duro de metal. Luzes se acendem sobre nós e revelam outra plataforma iluminada por tochas. É muito maior que a primeira e se estende até onde a vista alcança.
Farley passa sobre nós sem sequer olhar e salta para a plataforma.
— Vocês não vêm?
— Não se mexa, Mare. Este lugar vai nos matar!
Algo geme em meus ouvidos, quase sufocando as gargalhadas frias de Farley. Consigo sentar no chão e vejo que ela nos espera pacientemente.
— Como vocês sabem que o sul, que as Ruínas ainda são radiativas? — ela pergunta com um sorriso louco.
Maven gagueja ao responder.
— Temos aparelhos, detectores, eles dizem...
Farley balança a cabeça e continua.
— E quem construiu os aparelhos?
— Técnicos — Maven resmunga. — Vermelhos.
Finalmente ele chega à conclusão correta.
— Os detectores mentem.
Ainda sorrindo, Farley confirma a conclusão e estende a mão para levantá-lo. Maven mantém os olhos nela, ainda cauteloso, mas permite que nos guie através da plataforma até uma escadaria de ferro. A luz do sol penetra do alto e uma brisa de ar fresco desce para se misturar com os vapores do subsolo.
Logo estamos ao ar livre, cobertos pela neblina baixa. Paredes se erguem para sustentar um teto que já não existe. Restam apenas pedaços dele, fragmentos de água-marinha e ouro. À medida que meus olhos se adaptam à luz, consigo avistar sombras enormes no céu, tão altas que desaparecem no nevoeiro. As ruas, rios largos de asfalto, estão repletas de rachaduras por onde brota um mato cinzento e velho. Árvores e arbustos crescem sobre o concreto, ocupando os cantos, mas muitos já foram cortados. Pedaços de vidro estilhaçam sobre meus pés e nuvens de poeira se agitam com o vento. Apesar de tudo, este lugar, imagem do descaso, não parece abandonado. Conheço-o das histórias, dos livros e mapas antigos.
Farley passa o braço sobre meus ombros e abre um sorriso largo e luminoso.
— Bem-vindos às Ruínas. Bem-vindos a Naercey — anuncia, usando o velho nome há muito esquecido.


A cidade arrasada tem marcadores especiais nas fronteiras para enganar os detectores de radiação usados pelos prateados para examinar os antigos campos de batalha. É assim que a protegem, o lar da Guarda Escarlate. Em Norta, ao menos. Foi o que Farley disse, sugerindo a existência de mais bases pelo país. E, em breve, será um santuário para todos os refugiados vermelhos que escaparem dos novos castigos do rei.
Passamos por vários prédios, todos devastados, cobertos de cinzas e mato, mas ao olhar bem, é possível ver algo mais. Pegadas na poeira, uma janela acesa, o aroma da comida saindo pelas coifas. Pessoas, vermelhos, têm sua própria cidade, escondida à vista de todos.
Há pouca eletricidade, mas muitos sorrisos.
O prédio meio destruído a que Farley nos conduz deve ter sido uma espécie de café algum dia — tem mesas e assentos enferrujados. As janelas já se foram faz tempo, mas o chão está limpo. Uma mulher varre a poeira porta afora, juntando pequenos montinhos dela na calçada esburacada. Eu não teria coragem de fazer o mesmo — ainda tem muita sujeira do lado de dentro —, mas ela trabalha com um sorriso e até cantarolando.
Farley acena para a mulher com a vassoura, que sai às pressas para nos deixar a sós. Para minha alegria, o banco mais próximo de nós está ocupado por um rosto familiar.
Kilorn, são e salvo. Ele tem até a ousadia de piscar.
— Há quanto tempo!
— Não temos tempo para brincadeirinhas — Farley protesta ao sentar do lado dele.
A líder nos convida a fazer o mesmo. Obedecemos, e o banco range.
— Suponho que viram os vilarejos durante seu cruzeiro rio abaixo? — ela começa.
Meu sorriso se desfaz rapidamente, como o de Kilorn.
— Sim.
— E as últimas notícias? Sei que vocês já sabem — ela pressiona, com um olhar duro, como se fosse minha culpa ter sido forçada a ler as Medidas.
— É isso que acontece quando você provoca uma fera — afirma Maven em minha defesa.
— Mas agora eles sabem nosso nome.
— Agora eles estão caçando vocês — dispara Maven com um soco na mesa que agita a fina camada de pó. — Vocês sacudiram uma bandeira vermelha na frente de um touro, porém não fizeram mais do que o cutucar.
— Mas agora eles estão com medo — intervenho. — Aprenderam a temer vocês. Isso tem que servir para alguma coisa.
— Não serve para nada se vocês se recolherem em sua cidade escondida e os deixarem se reorganizar. Vocês estão dando tempo ao rei e ao Exército. Meu irmão já está atrás de vocês e não vai demorar para encontrá-los. — Maven então fixa os olhos nas mãos com uma raiva estranha antes de continuar. — Logo não vai adiantar ficar um passo à frente. Não vai ser sequer possível.
Os olhos de Farley escurecem enquanto ela nos examina pensativa. Kilorn se limita a desenhar círculos no pó, aparentemente despreocupado. Preciso me esforçar para não lhe acertar um chute por baixo da mesa para que preste atenção.
— Minha segurança não me importa nem um pouco, príncipe — diz Farley. — O que me preocupa é o povo dos vilarejos, os trabalhadores e os soldados. São eles que estão recebendo a punição agora, e uma punição dura.
Meus pensamentos voam até minha família e Palafitas e me lembram do olhar moribundo nos milhares de rostos durante nossa passagem.
— O que você ouviu dizer?
— Nada de bom.
Kilorn ergue a cabeça, mas continua a correr os dedos pelo pó.
— Jornada dupla de trabalho, enforcamentos aos domingos, valas comuns — descreve. — Não está fácil para quem não consegue acompanhar o ritmo.
Ele está pensando em nosso vilarejo como eu.
— Nossa gente na guerra diz que as coisas não estão muito diferentes por lá — prossegue. — Criaram uma legião só para jovens de quinze e dezesseis anos. Não vão durar muito.
Seus dedos traçam um X na mesa, um sinal do ódio em seu coração.
— Talvez eu consiga atrasar isso um pouco — Maven pensa em voz alta. — Se conseguir convencer o conselho de guerra a segurá-los, a oferecer mais tempo de treinamento.
— Isso não basta — digo com a voz baixa, mas firme.
A lista queima contra minha pele, implorando para ser liberada. Volto o rosto para Farley.
— Você tem gente por toda parte, certo?
Não deixo de notar o ar de satisfação em seu rosto ao responder.
— Tenho.
— Então entregue esta lista a eles — digo, sacando o livro de Julian do casaco e abrindo na página com a lista. — E encontre estas pessoas.
Maven apanha o livro com cuidado e corre os olhos pela página.
— Deve haver centenas de nomes aqui — comenta sem desviar o olhar. — O que é?
— São como eu: vermelhos e prateados, mas mais fortes que ambos.
É minha vez de ostentar. Até o queixo de Maven cai. Farley estala os dedos e o príncipe passa a lista sem pestanejar, ainda contemplando o livrinho que contém um segredo tão poderoso.
— Não vai demorar muito para a pessoa errada descobrir isto — acrescento. — Farley, você precisa chegar primeiro até eles.
Kilorn fecha a cara para os nomes, como se os tomasse como uma ofensa.
— Isso pode levar meses, anos.
Maven balança a cabeça.
— Não temos todo esse tempo.
— Exatamente — concorda Kilorn. — Precisamos agir agora.
Agora sou eu quem balanço a cabeça. Revoluções não podem ser feitas às pressas.
— Mas se vocês esperarem, se reunirem a maior quantidade possível dessas pessoas, podem formar um exército.
De repente, Maven dá um tapa na mesa que nos faz pular de susto.
— Mas temos um exército — afirma.
— Tenho muita gente sob meu comando, mas não tanta — argumenta Farley, encarando Maven como se ele estivesse louco.
Ele sorri, animado por um fogo escondido.
— Se eu arranjar um exército, uma legião em Archeon, o que você conseguiria fazer?
A líder simplesmente dá de ombros.
— Muito pouco na verdade. Seria esmagada pelas outras legiões numa batalha.
Ao compreender a ideia, me sinto atingida por um relâmpago. Finalmente percebo aonde Maven quer chegar.
— Mas eles não vão combater no campo de batalha — digo quase sem ar. Meu noivo me encara sorrindo como um doido. — Você está falando de um golpe — digo enfim.
Farley franze a testa.
— Como assim?
— Um golpe de Estado. É coisa do passado, de antes — explico na tentativa de desfazer a confusão. — É quando um pequeno grupo derruba um governo enorme. Soa familiar?
Farley e Kilorn se entreolham concentrados.
— Prossiga — ela diz.
— Você sabe como Archeon foi construída, com a ponte, margem leste e oeste. — Vou fazendo o desenho do mapa da cidade passando o dedo no pó da mesa. — O palácio está a oeste, junto com o comando de guerra, o tesouro, as cortes, o governo inteiro. Se conseguirmos chegar lá de algum jeito, chegar ao rei e forçá-lo a concordar com nossos termos, acabou. Você mesmo disse, Maven, dá para controlar o país inteiro da Praça de César. Só precisamos tomá-la.
Sob a mesa, Maven me dá um tapinha no joelho. Ele está radiante de orgulho. O habitual ar desconfiado de Farley abre espaço para uma esperança real. Ela leva a mão à boca e murmura consigo mesma enquanto contempla o plano desenhado no pó.
— Posso até topar — começa Kilorn em seu tom de voz depreciativo —, mas não tenho muita certeza de como vocês planejam botar vermelhos o suficiente para lutar contra prateados. São necessários dez de nós para derrubar um deles. Isso sem falar nos cinco mil soldados prateados leais ao seu irmão — ele prossegue olhando para Maven —, todos treinando para nos caçar e matar enquanto estamos aqui conversando.
Volto a encostar no assento.
— É difícil — comento desanimada. É impossível.
Maven passa a mão sobre meu mapa de pó e apaga o oeste de Archeon.
— As legiões obedecem a seus generais. E eu conheço uma garota que conhece muito bem um dos generais.
Seus olhos encontram os meus. Todo seu fogo foi substituído por um olhar gelado. Ele abre um sorriso tenso.
— Você está falando de Cal.
O soldado. O general. O príncipe. O que é igual ao pai. De novo penso em Julian, o tio que Cal mataria em nome de sua versão torta de justiça. Cal nunca trairia seu país, por nada.
Maven replica como se fosse óbvio.
— Vamos fazê-lo escolher.
Posso sentir os olhos de Kilorn sobre mim, examinando minha reação. A pressão é quase insuportável.
— Cal nunca vai dar as costas à coroa e ao pai de vocês.
— Conheço meu irmão. Se chegar a esse ponto, se tiver que escolher entre sua vida e a coroa, sabemos o que ele vai escolher — Maven rebate.
— Ele nunca me escolheria.
Minha pele queima sob o olhar de Maven com a lembrança do beijo roubado. Foi Cal quem me salvou de Evangeline. Foi ele quem me salvou de fugir e causar mais dor para mim mesma. Foi Cal quem me salvou do recrutamento. Passei muito tempo tentando salvar outros para notar o quanto Cal me salva. O quanto ele me ama.
De repente, sinto um nó na garganta.
Maven balança a cabeça e conclui:
— Ele sempre vai escolher você.
Farley desdenha.
— Você quer que eu apoie toda a minha operação, toda a revolução, numa historinha de amor adolescente? Não consigo acreditar nisso!
Do outro lado da mesa, Kilorn assume uma expressão estranha. Farley se volta para ele em busca de apoio. Em vão.
— Eu consigo — ele murmura sem tirar os olhos de mim.

43 comentários:

  1. nao gosto desse Maven n msm

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    1. tbem não, acho que ele ta usando ela pra derrubar o irmão.

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    2. Como assim você não gosta do Maven??!
      Só eu tenho um crush nele??;u;

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    3. Eu tb não... Dps do que o Julian falou e ele ter saido ;-;

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    4. Também não confio nele.

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    5. Penso o msm !!! Desconfio dele todo o momento e tenho a leve impressão de q a mãe dele está manipulando tudo por trás, p Maven se tornar rei ao invés do Cal.

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    6. Detesto ele! Que matar 3 coelhos com uma cajada só. Pega a lista pra mãe. Mata o sucessor ao trono juntamente com a aberração que é a sua noiva. Tudo de uma única vez.

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  2. Eu Também não, e tenho suspeitas sobre a bomba.

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    1. Nunca confiei em Marven e a estoria de que não ouve bomba ficou mal contada... se o gás vazou por causa dos tiros, porque só da segunda vez que Cal acende o fogo é que explode??? Cada vez mais tenho a sensação de golpe quando Marven fala.

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    2. "Todo mundo pode trair todo mundo!"

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  3. Acho que esse príncipe ta tramando

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  4. esse livro fala tanto de "todo mundo pode trair todo mundo" que já to desconfiando que Maven vai trair everybody ;-;

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  5. Só pq o cara é inteligente e estrategista ngm gosta dele? Uau, realmente faz sentido. SQN

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    1. Ele é filho da mãe dele >< Não confio nem um pouco nele.

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    2. Como disse Sakuragome-san ele é filho da mãe dele, simplesmente não faz sentido ele conseguir dobra a mãe de que pode ler mente, tem treta nessa estoria... e cá entre nós estou desconfiada que ele tenha o mesmo poder que a mãe (no começo até disseram que crianças não herdavam o poder da mãe e nem tinha dois poderes, mas também disseram que os vermelhos não tinha poderes então... fica a pulga né???!!!)

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    3. TBM ACHO QUE ELE POSSUI OS DOIS PODERES, TA NA CARA QUE ELE TA TRAMANDO, NADA FAZ SENTIDO EM RELAÇÃO A ELE

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    4. Gente vcs querem saber a verdade, só olhar a sinopse do terceiro livro.... (só ñ vou falar pq ñ pode dar spoiler)

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  6. finalmente pessoas que concordem comigo sobre o maven!!!

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  7. Sabia que Maven só estava com para provocar o irmão mais ele acabou se apaixonando também

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  8. Relendo esse livro percebi o quanto a Mare é arrogante e um tanto burrinha. Não gosto do Maven também. E o Cal... não sei o que pensar.

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  9. Eu nunca gostei do Maven nesse caralho, sempre achei que ela combinava com o Cal e agora rogo uma macumba, os dois (Cal e Mare) vão ficar juntos, o Maven não vai chegar ao poder, a Evangeline vai se fuder, a Rainha também e o rei que se foda. Mare e o Cal irão governar nesse trem viado

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  10. Ela e o Cal são ma-ra-vi-lho-sos ! Eles tem k ficar juntos ! Eu até gosto do Maven então fico meio dividida. Mas como um dois irmãos é o traidor prefiro que seja ele.Ha horas que confio , outras não .

    Ass: Apaixonada por livros

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  11. Mare vc não entende nada... E quer dá uma de esperta.
    Está confiando demais.....

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  12. Agooooooora sim eu acho muito que o Maven é um traidor. Ele sabia que o Cal gosta da Mare, fez a Mare confiar nele só para poder usá-la no momento certo. Vai fazer a guarda dar um golpe, para q ele possa assumir o trono. Acho q ele vai manipular todo mundo para q façam o trabalho por ele. E no final capaz de botar a culpa toda no Cal, quando fizer o cal escolher a Mare. Genial.
    Ass: Déborah Alana.

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  13. NÃO SEI PORQUE MAS ESSE CAPITULO ME LEMBRA A ESCOLHA -A SELEÇÃO,
    KILORN -COMO ASPHEN, O AMOR NÃO CORRESPONDISO;
    MARE -COMO AMERICA , A SALVADORA;
    MAVEN -COMO MAXON , QUERENDO O MELHOR PARA O SEU POVO;
    FARLEY - CLARO A LIDER DOS REBELDES;
    QUEM JA LEU O LIVRO VAI ENTENDER O QUE QUERO DIZER

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    1. O Maven tá mais pro pai de Maxon do que Maxon 😂😂😂

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    2. Como assim, Aspen, o amor não correspondido?

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  14. Por favor Mare não faz isso!!!!
    😖😖😖

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  15. TADINHO DO MAVEN CARA !!!!!, TADIIIIINHOOOO ,ELE SABE QUE O CAL GOSTA DA MARE E ELE NAO FICOU CHATIADO COM ISSO PQ ELE TA ACOSTUMADO A SER SOMBRA DO IRMAO ,MANO EU TO CHORANDO POR ELE , TADINHOOOOOOOOOOO!!!!!!

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  16. Hello !! Vamos acordar meu povo!! Um homem que sabe que o irmão é apaixonado pela noiva dele e quer usar isso pra tomar o poder? Ele não gosta dela! Ele so quer ferrar o irmão é se tornar rei e de sobra ainda se livrar de uma noiva vermelha.😡
    E será que só eu tô preocupada com o fato dele saber demais e até a Farley confiar nele. Pra mim ele tá infiltrado na Guarda.😠😠😠
    Bom...se EU estiver errada é pq jÁ peguei pininba com esse cara😄😄😄

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    1. Dani faço de minhas palavras as suas acho até q ele sabe q eles se beijaram
      Às vezes penso q ele tem o poder dá mãe
      Ass:Milly*-*

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  17. O QUE FOI ESSE CAPÍTULO!!!!!!!
    "— Ele sempre vai escolher você." Awnn tá obvio pra todo mundo isso

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  18. Depois desse capítulo n sei mais de nada -_-

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  19. 😲😲Piraí o cara ta jogando a garota pro braços do irmão sabendo que ele a ama e que ela tem sentimentos por ele??? Maven vc é doido

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  20. Que fim vai levar esse plano do Maven hein?Espero que não venha um looongo triângulo amoroso pela frente,e se vier torço para o Maven.Ainda acredito que suas intenções sejam boas e acho que ele será rei,por se tornar mais popular que o Cal ao final da Revolução Vermelha.Nada contra o Cal só acho que ele não tem o mesmo senso de justiça do irmão,e a garra para alcança-la.Força Vermelhos!

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  21. Eu simpleszmente amo o Kilorn, melhor persoangem da serie kk. Ele e o Shade, que nem apareceu e já morreu. Mas só pela carta no inicio eu já gostei dele kk
    E to preocupada com o fato do maven ta sabendo mt sobre a Guarda escarlate.Sei não em... E esse plano de golpe. ele pensou rápido demais nele...

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  22. Naoo disse..sabia q a tal ruina era o distrito 13 dos jogos vorazes kkkkkk quanta imaginaçao heim tia Vi

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  23. A mare quer ser esperta mas esta deixando passar detalhes nas atitudes do maven.ele esta manipulando ela e ela nem se da conta.
    Asa:rosany

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Boa leitura :)