15 de março de 2017

Capítulo vinte e oito

Mare

OS VENTOS UIVAM. Bufam contra as muralhas e baluartes, tirando várias pessoas de posição. A chuva congela nas pedras, deixando nossos pés em uma situação precária. A primeira baixa é por queda. Um soldado vermelho, um dos homens de Townsend. O vento agarra sua jaqueta, soprando-o para fora da passarela escorregadia. Ele grita enquanto cai por cima da beirada, despencando por uns dez metros antes de começar a navegar pelo céu, graças à concentração de um gravitron. O vermelho cai com força contra a parede, fazendo um barulho assustador ao colidir. O gravitron não teve controle suficiente. O soldado está vivo. Ferido, mas vivo.
— Segurem-se! — ecoa por toda parte, passando pelos uniformes verdes e vermelhos. Quando o vento rosna novamente, estamos firmes. Eu me enfio atrás de uma ponta de metal gelado da muralha, me protegendo da pior parte. O ataque de um dobra-ventos é imprevisível, diferente do vento normal. Ele se divide e gira, agarrando como mãos. Tudo isso enquanto a tempestade aperta à nossa volta.
Cameron se enfia do meu lado. Olho para ela, surpresa. Deveria estar com os curandeiros, para formar a última linha de defesa contra qualquer cerco. Se alguém pode defendê-los dos prateados, dar tempo e espaço para tratar dos soldados, é ela. A chuva a faz tremer, e seus dentes batem sem parar. Ela parece menor, mais jovem, no frio e na escuridão que nos cerca. Me pergunto se ao menos completou dezesseis anos.
— Tudo certo, garota elétrica? — Cameron fala com alguma dificuldade. Água escorre pelo seu rosto.
— Tudo — murmuro em resposta. — O que está fazendo aqui em cima?
— Queria ver — ela mente. Cameron está aqui porque acredita que tem que estar.
Estou abandonando vocês?, ela me perguntou uma vez. Vejo essa questão nos seus olhos agora. A resposta continua a mesma. Se ela não quer ser uma assassina, não precisa ser.
Balanço a cabeça.
— Você tem que proteger os curandeiros, Cameron. Volte para lá. Estão indefesos, e se os perdermos…
Cameron morde o lábio.
— Estamos todos perdidos.
Nos entreolhamos, tentando ser fortes, procurando forças uma na outra. Como eu, Cameron está ensopada. Seus cílios negros estão grudados e, toda vez que ela pisca, parece que está chorando. Os pingos de água caem com força, fazendo nós duas fecharmos os olhos enquanto escorrem por nossos rostos. Até que não escorrem mais. Até que as gotas de água comecem a rolar na direção oposta, flutuando. Os olhos dela se arregalam, como os meus, observando horrorizados.
— Ataque ninfoide! — grito, em alerta.
Sobre nós, a chuva brilha, dançando no ar, juntando-se em gotas maiores e maiores. As poças, os centímetros de água nas ruas e becos… se transformam em rios.
— Segurem-se! — ecoa de novo. Dessa vez o ataque é com água congelante em vez de vento, espumando branca enquanto se quebra como uma onda, curvando-se sobre as paredes e os prédios de Corvium. Um jato de água me atinge com força, lançando minha cabeça contra a parede. O mundo gira. Alguns corpos voam da muralha, rodopiando na tempestade. Suas silhuetas desaparecem rapidamente, bem como seus gritos. Os gravitrons salvam alguns, mas não todos.
Cameron desliza para longe, sobre as mãos e os joelhos, voltando para as escadas. Ela usa sua habilidade para formar um casulo de segurança conforme corre de volta para seu posto, no interior da segunda muralha.
Cal patina até o meu lado, quase perdendo o controle dos pés. Atordoada, eu me agarro nele, puxando-o para perto. Se cair da muralha, sei que vou junto. Ele observa, aterrorizado, enquanto a água ataca nossas defesas como ondas de um mar revolto. Isso o torna inútil. Chamas não têm espaço aqui. Seu fogo não pode queimar. E o mesmo vale para meu raio. Uma faísca e eletrocuto sei lá quantas pessoas das nossas próprias tropas. Não posso arriscar.
Akkadi e Davidson não têm essas restrições. Enquanto o primeiro-ministro ergue um escudo azul na beirada do muro, evitando que mais alguém caia, Akkadi urra para suas tropas de sanguenovos. Não consigo ouvir suas ordens com o barulho das pancadas das ondas.
A água aumenta, balançando com violência, de repente em guerra consigo mesma. Nós também temos ninfoides.
Mas não tempestuosos ou algum sanguenovo que possa assumir o controle do furacão que nos cerca. A escuridão se aproxima, tão absoluta que parece meia-noite. Lutaremos cegos. E nem começou ainda. Não vi nenhum dos soldados de Maven ou o exército de Lakeland. Nenhum estandarte vermelho ou azul. Mas eles estão vindo. Com certeza estão.
Ranjo os dentes.
— Levante.
O príncipe é pesado e está paralisado pelo medo. Coloco a mão no seu pescoço e lhe dou um leve choque. Gentil, como Tyton me ensinou. Ele levanta rápido, vivo e alerta.
— Certo, obrigado — balbucia. Com um olhar, Cal avalia a situação. — A temperatura está caindo.
— Genial — solto. Cada parte do meu corpo parece congelada.
Sobre nós, a água se enfurece, dividindo-se e tomando nova forma. Quer despencar, quer dissipar. Uma parte dela se lança por sobre o escudo de Davidson, correndo para a tempestade como um pássaro estranho. Passado um momento, o restante despenca, encharcando todos nós mais uma vez. Gritamos em comemoração mesmo assim. Os ninfoides sanguenovos, apesar de estarem em menor número e de terem sido pegos de surpresa, acabam de ganhar o primeiro duelo.
Cal não participa da comemoração. Em vez disso, bate os pulsos, acendendo uma chama fraca nas mãos. Ela crepita sob o aguaceiro, lutando para queimar. Até que a chuva vira algo mais amargo: uma nevasca. Na completa escuridão, ela reluz vermelha, refletindo as luzes fracas de Corvium e a chama de Cal.
Sinto meu cabelo começar a congelar e sacudo o rabo de cavalo. Lascas de gelo voam em todas as direções.
Um rugido cresce na tempestade, diferente do vento. Com muitas vozes. Uma dezena, uma centena, mil. A escuridão da nevasca aumenta. Por um instante, Cal fecha os olhos e suspira alto.
— Preparar para o ataque — Cal diz com a voz rouca.
A primeira ponte de gelo desponta pela muralha a meio metro de onde estou. Salto para trás com um grito. Outra racha a pedra a cinco metros dali, atingindo soldados.
Arezzo e os outros teleportadores entram em ação, recolhendo os feridos e os levando de volta para os curandeiros. Quase instantaneamente, soldados de Lakeland, com suas sombras parecendo monstros, surgem das pontes, correndo pelo gelo enquanto cresce.
Prontos para o ataque.
Vi batalhas de prateados antes. São caóticas.
Mas essa é pior.
Cal avança, suas chamas quentes voando alto. O gelo é grosso, não é tão fácil de derreter. Ele arranca pedaços da ponte mais próxima como um lenhador com uma motosserra. Isso o deixa vulnerável. Acerto o primeiro inimigo que se aproxima dele. Minhas faíscas lançam o homem de armadura girando na escuridão. Outro vem em seguida, e minha pele se reveste de veias roxas e brancas de raios sibilantes. Tiros encobrem qualquer ordem que alguém possa gritar. Foco em mim mesma, em Cal. Na nossa sobrevivência. Farley se mantém próxima, com a arma para cima. Como Cal, ela me coloca na retaguarda, me deixando defender seus pontos cegos. Não pisca enquanto dispara, cravejando a ponte mais próxima com balas. Ela foca no gelo, não nos guerreiros brotando da nevasca. A ponte racha e se estilhaça sob os inimigos, se despedaçando na escuridão.
Trovões soam, mais próximos a cada segundo. Raios de eletricidade azul e branca explodem pelas nuvens, despencando em volta de Corvium. Das torres, a mira de Ella é mortal, atingindo o lado de fora das muralhas. Uma ponte de gelo cai com sua fúria, partindo-se ao meio, então cresce mais uma vez, regenerando-se em pleno ar graças à vontade de um calafrio escondido em algum lugar. Os bombardeiros fazem o mesmo, obliterando pedaços enormes de gelo com o poder de sua força explosiva. Os inimigos apenas recuam rastejando, deslizando para outra rampa. Raios verdes estalam em algum lugar à minha esquerda, conforme Rafe lança seu chicote em uma horda de soldados de Lakeland. O ataque dele bate em um escudo de água, que absorve a corrente elétrica enquanto avançam. A água não para os tiros, contudo. Farley os enche de balas, derrubando alguns prateados. Os corpos deslizam pela escuridão.
Volto minha atenção para a ponte mais próxima. Em vez de focar no gelo, invisto nas figuras avançando na escuridão. As armaduras azuis são grossas, escamadas, e graças aos capacetes os soldados nem parecem humanos. Isso torna mais fácil matá-los. Eles forçam outra investida contra a muralha. É uma fila de monstros sem rosto se movendo como uma cobra. Raios roxos explodem das minhas mãos curvadas como garras e atravessam o coração de cada um deles, saltando de armadura em armadura. O metal superaquece, mudando de azul para vermelho, e muitos caem da ponte agonizando.
Outros os substituem, surgindo da tempestade. É um terreno mortal, uma zona de massacre. Lágrimas congelam nas minhas bochechas enquanto perco as contas de quantos corpos dilacerei.
A muralha da cidade se racha a meus pés, um lado deslizando para longe do outro. Um impacto direto estremece meus ossos. Em seguida outro. A rachadura aumenta.
Rapidamente, escolho um lado, saltando na direção de Cal antes que a rachadura me engula por inteiro. Raízes de árvore surgem como vermes pela fissura, grossas como meu braço e crescendo mais. Forçam as rochas como dedos gigantes, criando rachaduras em forma de teia de aranha que passam sob meus pés. A parede se move sob tanta força.
Verdes.
— A parede vai quebrar — Cal sussurra. — Vão rachá-la e passar por nós.
Cerro o punho.
— A menos quê…? — Ele apenas pisca sem expressão, perdido. — Deve haver algo que possamos fazer!
— A tempestade. Se pudermos nos livrar dela e conseguir alguma visibilidade para atacar à distância… — Enquanto fala, ele queima as raízes, que se aproximam mais. As chamas correm por todo o comprimento, chamuscando a planta, que simplesmente cresce de novo. — Precisamos de dobra-ventos. Para soprar as nuvens para longe.
— Casa Laris. Aguentamos até eles chegarem aqui?
— Aguentamos e torcemos para serem o suficiente.
— Certo. E, quanto a isso… — Aponto com a cabeça para o vão que se amplia a cada segundo. Em breve um exército prateado vai passar direto por ele. — Vamos dar a eles uma recepção explosiva.
Cal balança a cabeça, compreendendo.
— Bombardeiros! — ele urra mais alto que os assobios do vento e da neve. — Desçam lá e estejam preparados! — Apontando, Cal indica a rua que passa imediatamente atrás da muralha exterior. O primeiro lugar que Lakeland vai invadir.
Uma dezena ou mais de bombardeiros obedecem, saindo dos postos para defender a rua. Meus pés se movem por vontade própria, com intenção de segui-los. Cal agarra meu pulso e eu quase derrapo.
— Não me referi a você — ele grunhe. — Você fica bem aqui.
Com agilidade, tiro seus dedos um a um. O aperto é muito forte, pesado como uma algema. Mesmo no calor da batalha, me vejo lançada de volta no tempo, para quando era prisioneira.
— Cal, vou ajudar os bombardeiros. Posso fazer isso. — Seus olhos de bronze se voltam para a escuridão, como as chamas vermelhas de duas velas ardentes. — Se romperem a parede, você estará cercado. Então a tempestade será o menor dos nossos problemas.
A decisão dele é rápida… e equivocada.
— Certo. Então eu vou.
— Precisam de você aqui em cima. — Com a mão em seu peito, eu o afasto. — Farley, Townsend, Akkadi… Os soldados precisam de generais na linha de frente. Precisam de você na linha de frente.
Se não fosse pela batalha, Cal discutiria comigo. Ele apenas acaricia minha mão.
Não há tempo para nada. Especialmente quando estou certa.
— Ficarei bem — digo quando salto, escorregando pelas pedras congeladas. A tempestade engole sua resposta. Reservo uma batida do meu coração para ele, para me perguntar se nos veremos novamente. A seguinte apaga o pensamento. Não tenho tempo para isso. Preciso me manter focada. Preciso me manter viva.
Levanto e corro pelas escadas, minhas mãos escorregando pelo corrimão gelado. Na rua, longe do vento, o ar é bem mais quente e as poças se foram. Congelada ou líquida, a água foi usada para atacar as defesas da muralha de Corvium.
Os bombardeiros encaram a rachadura na parede, que se alarga a cada segundo. No alto, a muralha se abre por vários metros, mas aqui embaixo a fresta tem apenas centímetros, embora esteja aumentando. Outro tremor atravessa a pedra e chega aos meus pés, como uma explosão ou um terremoto. Engulo em seco, imaginando uma forçadora do outro lado da parede, seus punhos desferindo golpe após golpe contra a fundação.
— Esperem para atacar — digo aos bombardeiros. Eles olham para mim aguardando ordens, mesmo eu não sendo um oficial. — Sem explosões até ficar claro que estão passando. Não precisamos ajudar nossos inimigos a chegar aqui.
— Vou bloquear a fenda com um escudo o máximo que puder — uma voz diz atrás de mim.
Giro para ver Davidson, seu rosto manchado de sangue cinza que aos poucos escurece. Ele parece pálido, atordoado.
— Primeiro-ministro — murmuro, abaixando a cabeça. Ele responde depois de um bom tempo. Tão diferente aqui em campo e lá na sala de guerra.
Enquanto isso, direciono minha eletricidade contra nossos atacantes. Usando as raízes como um mapa, faço um raio correr pela planta, deixando-o girar e espiralar pelo caminho até a fonte da raiz. Não posso ver o verde do outro lado, mas o sinto.
Apesar de enfraquecida pela densidade da raiz, minha faísca atravessa seu corpo. Um grito distante ecoa pelas rachaduras da pedra, de alguma forma audível, mesmo com o caos ao redor.
O verde não é o único prateado capaz de derrubar as pedras. Outros tomam seu lugar, um forçador, a julgar pela forma que a pedra treme e racha. Golpe atrás de golpe, lança pedriscos e poeira pela fresta que cresce.
Davidson fica parado do meu lado, com a boca entreaberta. Entorpecido.
— Primeira batalha? — murmuro enquanto outro golpe trovejante é desferido.
— Infelizmente, não — ele diz, para minha surpresa. — Já fui soldado. Me disseram que eu estava na sua lista.
Dane Davidson. O nome passa pela minha cabeça, uma borboleta batendo as asas contra as barras de uma jaula de ossos. A lembrança volta como se tirada da lama, lentamente e com muito esforço.
— A lista de Julian.
Ele balança a cabeça, concordando.
— Um homem esperto, o Jacos. Ligou os pontos que ninguém via. Sim, eu era um dos vermelhos de Norta que seria executado. Por causa do meu sangue. Quando escapei, os oficiais me deram como morto. Assim não teriam que explicar a perda de outro criminoso. — Ele lambe o lábio rachado pelo frio. — Fugi para Montfort, reunindo outros como eu pelo caminho.
Outra rachadura. O vão à nossa frente se amplia conforme volto a sentir os dedos dos pés. Mexo-os dentro das botas, me preparando para lutar.
— Parece familiar.
A voz de Davidson ganha força e impulso enquanto ele fala. Conforme nos lembra pelo que estamos lutando.
— Montfort estava em ruínas. Mil prateados exigindo suas próprias coroas, cada montanha seu próprio reino, um país estilhaçado a ponto de ficar irreconhecível. Apenas os vermelhos permaneciam unidos. E os rubros estavam nas sombras, esperando para se libertar. Dividir e conquistar, srta. Barrow. É a única forma de ganhar.
O reino de Norta, o reino de Rift, Piedmont, Lakeland. Prateados contra prateados, em disputas mesquinhas por pedaços cada vez menores enquanto esperamos para pegar tudo de uma vez. Apesar de Davidson parecer perdido, quase posso sentir o cheiro do aço em seus ossos. Um gênio, talvez; perigoso, com certeza.
Uma lufada de neve me traz de volta. A única coisa com que preciso me preocupar é o agora. SobreviverVencer.
Uma energia azul explode pela parede fragmentada, pulsando pela abertura de quase um metro. Davidson mantém seu escudo no lugar com a mão estendida. Uma gota de sangue escorre pelo seu queixo.
Uma silhueta do outro lado soca o escudo, punhos fazendo chover pancadas infernais pela área oscilante. Outro forçador se junta e ataca a rocha, para ampliar a abertura. O escudo cresce acompanhando o esforço deles.
— Estejam prontos — Davidson diz. — Quando eu abrir o escudo, disparem com tudo.
Obedecemos, preparando o ataque.
— Três.
Faíscas roxas envolvem meus dedos e se entrelaçam em uma bola pulsante de luz destrutiva.
— Dois.
Os bombardeiros ajoelham em formação, como atiradores de elite. Em vez de armas, têm apenas seus dedos e olhos.
— Um.
O escudo azul estremece, parte-se em dois e lança os forçadores contra as paredes, fazendo um barulho perturbador de ossos rachando. Disparamos pela abertura, meu raio brilhando. Ele ilumina a escuridão à frente, revelando uma dezena de soldados ferozes, prontos para correr pela brecha. Muitos caem de joelhos, cuspindo sangue e fogo conforme os bombardeiros explodem suas entranhas. Antes de qualquer um se recuperar, Davidson sela o escudo mais uma vez, segurando uma rajada de balas que vem em nossa direção.
Ele parece surpreso com nosso sucesso.
Na muralha sobre nós, uma bola de fogo queima pela tempestade negra, uma tocha contra a falsa noite. O fogo de Cal se espalha e se movimenta como uma cobra de fogo.
O calor vermelho transforma o céu em um inferno escarlate.
Cerro o punho e gesticulo para Davidson.
— Mais uma vez — digo a ele.
É impossível saber quanto tempo passa. Sem o sol, não tenho ideia da duração da batalha na fenda. Mesmo que os empurremos para trás, ataque após ataque, o vão continua se alargando. Um sacrifício pequeno por tanto, digo a mim mesma. No alto, a onda de soldados não venceu as defesas da muralha. As pontes de gelo continuam vindo e nós as enfrentamos. Alguns corpos caem na rua, em um estado que está além da capacidade dos curandeiros. Entre os ataques, arrastamos os corpos para os becos, para fora de vista. Olho cada rosto morto, prendendo a respiração todas as vezes. Não é Cal, não é Farley. O único que reconheço é Townsend, com o pescoço quebrado.
Espero uma onda de culpa ou dó, mas não sinto nada. Só me dou conta que os forçadores estão em cima da muralha também, destroçando nossos soldados.
O escudo de Davidson se estende pelo buraco na parede, que agora está com uma largura de no mínimo três metros, abrindo-se como uma boca bocejante de pedra. Corpos se acumulam ali, fumegantes, abatidos por raios ou rasgados com brutalidade pelo olhar impiedoso dos bombardeiros. Sombras se reúnem na escuridão atrás do escudo, esperando para nos atacar mais uma vez. Marteladas de água e gelo se chocam sem parar contra a habilidade de Davidson. O grito de um banshee reverbera e até mesmo o eco é doloroso aos nossos ouvidos. Davidson estremece. Agora o sangue no rosto dele escorre com o suor, pingando da testa, do nariz e das bochechas. Ele força até seu limite, mas estamos ficando sem tempo.
— Alguém vá buscar Rafe! — grito. — E Tyton.
Um soldado parte assim que as palavras saem da minha boca, saltando os degraus para achá-los. Observo a muralha acima, buscando por uma silhueta familiar.
Cal trabalha em um ritmo maníaco, perfeito como uma máquina. Desvia, gira, ataca. Desvia, gira, ataca. Como eu, esvaziou os pensamentos, focando na sobrevivência. A cada interrupção na chegada contínua de inimigos, ele muda a formação dos soldados, direcionando os tiros dos vermelhos ou trabalhando com Akkadi e Lory para eliminar outro alvo na escuridão. Quantos morreram, não sei dizer.
Outro corpo despenca da muralha. Agarro seus braços e o arrasto antes de perceber que não se trata de uma armadura, mas de pele pétrea, derretida com o calor do fogo da fúria do príncipe. Me retraio, surpresa, como se tivesse me queimado. Um pétreo. As poucas roupas no seu corpo morto são azuis e cinza. Casa Macanthos. Norta. Um dos homens de Maven.
Sinto um nó na garganta ao pensar o que isso implica. As forças de Maven chegaram à muralha. Não estamos mais lutando apenas contra Lakeland. Um rugido furioso cresce no meu peito e eu quase desejo poder me jogar em disparada pela fenda. Rasgar tudo até chegar ao outro lado. Caçá-lo. Matá-lo entre nossos exércitos.
Então o cadáver me agarra.
Ele convulsiona e meu pulso quebra com um estalo. Grito quando a maldita dor repentina corre pelo meu braço.
Raios ondulam pela minha pele, saindo de mim como um grito. Cobrem o corpo dele de faíscas roxas letais, uma luz dançante. Mas ou a pele dele é muito grossa ou sua determinação é muito forte. O pétreo não me deixa ir, seus dedos agarrando meu pescoço. Explosões brotam às suas costas, trabalho dos bombardeiros. Pedaços de pedra descamam dele como pele morta, e o moribundo ruge. Suas mãos só apertam mais com a dor. Cometo o erro de tentar soltar seus dedos, travados em volta da minha garganta. Sua carne pedregosa corta minha pele e o sangue escorre entre meus dedos, vermelho e quente no ar congelante.
Pontos negros dançam em frente aos meus olhos e solto outro raio, deixando que leve minha agonia. A explosão o lança para longe de mim, em direção a um prédio. Ele arrebenta a parede quando a acerta com a cabeça, o corpo ficando pendurado para fora do prédio. Bombardeiros terminam com ele, atingindo a pele exposta nas suas costas.
Davidson treme, mantendo um escudo cada vez mais fino. Viu tudo e não podia fazer nada, a menos que deixasse as forças invasoras passarem por cima de nós. Um canto de sua boca repuxa, como se quisesse se desculpar por ter tomado a decisão correta.
— Quanto mais você consegue aguentar? — pergunto, forçando as palavras. Cuspo sangue na rua.
Ele range os dentes.
— Um pouco.
Isso não ajuda muito, quero gritar.
— Um minuto? Dois?
— Um — ele força a resposta.
— É o suficiente.
Observo o escudo enquanto ele afina, a sombra azul vívida desaparecendo com as forças de Davidson, as figuras do outro lado ficando visíveis. Armaduras azuis e armaduras pretas com recortes vermelhos. Lakeland e Norta. Sem coroa, sem rei. Apenas tropas de choque com a intenção de nos sobrecarregar. Maven não botará o pé em Corvium a menos que a cidade seja dele. Enquanto seu irmão lutará até a morte na muralha, o rei não é tolo o suficiente para se arriscar. Ele sabe que sua força está atrás das linhas de fogo, em um trono, não no campo de batalha.
Rafe e Tyton se aproximam de lados opostos. Enquanto Rafe parece meticuloso, com seu cabelo verde ainda lambido para trás, Tyton está claramente pintado de sangue. Todo prateado. Ele mesmo não está ferido. Seus olhos brilham com um tipo estranho de ódio, queimando vermelho nos raios flamejantes sobre nossas cabeças.
Vejo Darmian com vários outros invulneráveis, todos dotados de peles impenetráveis. Carregam machados perversos, com extremidades afiadas como navalhas. Bons para combater forçadores. À curta distância, são nossa melhor opção.
— Em formação — Tyton diz, taciturno.
Nós seguimos sua ordem, organizados em uma fila improvisada atrás de Davidson. Seu braço treme conforme nos posicionamos, segurando o máximo que consegue. Rafe fica à minha esquerda e Tyton, à direita. Alterno o olhar entre os dois, me perguntando se deveria dizer alguma coisa. Posso sentir a energia estática brotando de ambos, uma sensação familiar mas estranha. A eletricidade é deles, não minha.
Na tempestade, o trovão azul continua furioso. Ella nos abastece com sua eletricidade.
— Três — Davidson diz.
Verde à minha esquerda, branco à minha direita. As cores piscam nos cantos dos meus olhos, cada fagulha um pequeno batimento cardíaco.
— Dois.
Puxo mais ar. Minha garganta dói, ferida pela pele pétrea. Mas ainda estou respirando.
— Um.
Mais uma vez o escudo entra em colapso, expondo-nos à tempestade que está chegando.
— ABRIU! — ecoa por toda a muralha quando as forças voltam sua atenção para a brecha na parede. O exército prateado responde à altura, avançando na nossa direção com um grito desafiador. Raios verdes e roxos estremecem o campo de batalha, atingindo a primeira onda de soldados. Tyton se move como se jogasse dardos, suas minúsculas agulhas de energia explodindo e lançando as tropas prateadas pelos ares. Muitos convulsionam e se reviram. Ele não tem piedade.
Os bombardeiros nos seguem, movendo-se conosco conforme nos aproximamos da abertura. Eles só precisam de uma linha de visão livre para trabalhar. Sua destruição chamusca pedras, carne e terra na mesma proporção. Poeira cai com a neve e o ar fica com gosto de cinzas. É isso que é a guerra? É essa a sensação de lutar no Gargalo?
Tyton me joga para trás, lançando o braço para mover meu corpo. Darmian e os outros invulneráveis surgem diante de nós, como um escudo humano. Seus machados cortam e destroçam, arrancando sangue até que as paredes arruinadas dos dois lados estejam cobertas de líquido prateado.
Não. Eu lembro do Gargalo. Das trincheiras. Do horizonte se alongando para todos os lados, descendo para encontrar uma cratera cavada por décadas de derramamento de sangue. Cada lado conhecia o outro. Aquela guerra era maligna, mas definida. Isso é um pesadelo.
Soldados após soldados, vindos de Lakeland e de Norta, entram pela fresta. Cada um seguido por um homem ou uma mulher atrás. Como nas pontes, eles se despejam numa zona de massacre. A multidão se move como o oceano, uma onda nos fazendo recuar antes de outra avançar. Temos a vantagem, mas por pouco. Mais forçadores atingem as paredes, esperando alargar a fresta. Telecs jogam detritos na nossa linha de defesa, pulverizando um dos bombardeiros enquanto outro congela imóvel, a boca travada aberta em um grito silencioso.
Tyton dança com movimentos fluidos, cada palma incendiada com raios brancos. Uso a teia no solo, espalhando uma poça de energia elétrica sob os pés do exército que avança. Os corpos se empilham, quase formando uma nova parede na fresta. Mas os telecs apenas os lançam para longe, para dentro da tempestade negra.
Sinto o gosto de sangue, mas meu pulso quebrado é só um zunido de dor agora. Ele está dependurado. Sou grata pela adrenalina, que não me deixa sentir o osso partido.
A rua e a terra se transformam em líquido sob meus pés, inundadas de vermelho e prata. O terreno pantanoso leva alguns. Quando um sanguenovo cai, uma ninfoide salta sobre ele, derramando água por seu nariz e pela garganta. Ele se afoga diante dos meus olhos. Outro corpo cai ao lado dela, raízes saindo das órbitas. Tudo o que sei é lançar raios. Não consigo lembrar meu nome, meu propósito, pelo que estou lutando; nada além do ar nos meus pulmões. Nada além de um segundo a mais de vida.
Um telec nos dispersa, arremessando Rafe para trás pelos ares. E depois eu mesma na direção oposta. Sou lançada para a frente, por cima das forças que se empurram pela brecha na parede. Vou parar do outro lado. Nas zonas de ataque.
Caio com força, rolando antes de parar abruptamente, enterrada até a metade do corpo em lama congelante. Uma onda de dor atravessa meu escudo de adrenalina, me lembrando de um osso muito quebrado e talvez de alguns outros. Os ventos da tempestade rasgam minhas roupas conforme tento sentar, e lascas de gelo atingem meus olhos e bochechas. Apesar do vento uivante, não está tão escuro aqui. Não está preto, mas cinza. Mais para uma tempestade ao entardecer do que para o meio da noite.
Estreito os olhos; venta muito para fazer qualquer coisa além de deitar e sofrer. O que antes eram campos abertos, gramados verdes na encosta dos dois lados da Estrada de Ferro, agora é uma tundra congelada. Cada folha de grama é como uma navalha de gelo. Desse ângulo, é impossível discernir Corvium. Assim como não podíamos ver em meio ao breu da tempestade, as forças de ataque tampouco conseguem. Dificulta a vida deles tanto quanto a nossa. Vários batalhões se reúnem como sombras, silhuetas recortadas contra a tempestade. Algumas tentativas de pontes de gelo ainda se formam e se remodelam, mas agora a maioria avança em direção à fresta. O restante espera atrás de mim, um borrão fora da pior área da tempestade.
Centenas são mantidos na reserva, talvez milhares. Bandeiras azuis e vermelhas tremulam com o vento, brilhantes o suficiente para serem reconhecidas. Pega entre o fogo e a frigideira, suspiro para mim mesma. Estou presa na lama, cercada pelos cadáveres e pelos feridos. Pelo menos a maioria está focada em si mesma, mais preocupada com os membros perdidos e as feridas do que com uma garota vermelha entre eles.
Soldados de Lakeland despontam e me preparo para o pior. Eles marcham, avançando em direção às nuvens trovejantes e ao resto do exército que segue para a destruição.
— Tragam os curandeiros! — um deles grita por cima do ombro, sem nem olhar para trás. Olho para baixo e percebo que estou coberta de sangue prateado e só um pouco suja de sangue vermelho.
Depressa, esfrego lama sobre as feridas abertas e os pedaços do meu uniforme que ainda são verdes. Os cortes ardem de dor, me fazendo chiar entre os dentes. Olho para as nuvens, assistindo os raios pulsantes dentro delas. Azul na coroa, verde na base, onde a fresta está. Para onde tenho que voltar.
A lama agarra meus membros, tentando me congelar. Com o pulso quebrado contra o peito, empurro com o braço, lutando para me libertar. Finalmente consigo sair, e começo a avançar, arquejando a cada respiração. Cada uma delas queima.
Consigo avançar uns dez metros, chegando quase atrás do exército prateado, antes de perceber que não vai funcionar. Estão compactados demais para eu passar entre eles. É impossível mesmo para mim. Eles provavelmente vão me impedir se eu tentar. Meu rosto é bem conhecido, mesmo coberto de lama. Não posso arriscar. Nem as pontes de gelo. Uma delas pode ruir sob meus pés ou um soldado vermelho pode atirar enquanto tento voltar para a muralha. Toda escolha termina mal. Assim como ficar aqui parada.
As forças de Maven vão lançar outro ataque e mandar uma nova onda de tropas. Não vejo nenhuma saída para a frente ou para trás. Por um instante vazio e aterrorizante, encaro a escuridão em Corvium. Raios piscam na tempestade, mais fracos que antes. Parece um furacão com uma nuvem em cima, envoltos por uma nevasca e um vendaval.
Me sinto pequena diante disso, uma estrela solitária em um céu de constelações violentas.
Como podemos nos defender?
O primeiro grito de um jato me faz ajoelhar, cobrindo a cabeça com a mão que ainda funciona. Ressoa no meu peito, uma explosão de eletricidade martelando como um coração. Uma dúzia o segue em baixa altitude, seus motores fazendo a neve e as cinzas rodopiarem, enquanto gritam entre as duas metades do exército.
Mais jatos circulam ao redor da tempestade, girando e girando. As nuvens acompanham os jatos, como se estivessem magnetizadas pelos ventos. Então ouço outro rugido. Outra lufada, mais forte que a primeira, golpeando com a fúria de uma centena de furacões. O vento trabalha para limpar o céu, despedaçando a tempestade com sua força. As nuvens se afastam o suficiente para as torres de Corvium ficarem visíveis, com raios azuis reinando sobre elas. O vento segue os jatos, acumulando-se embaixo das asas recentemente pintadas.
De amarelo brilhante.
Casa Laris.
Meus lábios se esforçam para sorrir. Eles estão aqui. Anabel Lerolan manteve sua palavra.
Procuro pelas outras Casas, mas um falcão grita ao meu redor, suas asas azuis e pretas batendo no ar. Garras brilham, afiadas como lâminas, e eu salto para trás para proteger meu rosto do pássaro. Ele apenas solta um grito vívido antes de voar para longe, planando sobre o campo de batalha em direção a… Ah, não.
As forças que Maven reservou até agora estão se aproximando. Batalhões, legiões. Armaduras negras, armaduras azuis e armaduras vermelhas. Serei esmagada por seu exército.
Mas não sem lutar.
Solto meu poder, e raios roxos disparam. Afastando os soldados, fazendo-os questionar cada passo. Sabem reconhecer minha habilidade. Eles já viram o que a garota elétrica é capaz de fazer. Eles param, mas só por um momento. O suficiente para eu ajeitar os pés e virar. Quanto menor for o alvo, maior a chance de sobreviver. Meu punho bom se fecha, pronto para levar todos comigo.
Muitos prateados que estavam investindo contra a brecha se viram na minha direção. A distração será sua ruína. Raios verdes e brancos pulsam por eles, abrindo o caminho para a chama vermelha que avança na minha direção.
Os lépidos chegam primeiro e são pegos por uma teia de raios. Alguns correm para trás, mas outros caem, incapazes de fugir das fagulhas. Raios crepitando do céu mantêm os piores afastados, formando um círculo de proteção à minha volta. De fora, parece uma jaula de eletricidade, mas é uma jaula que eu mesma criei. Que eu mesma controlo.
Duvido que algum rei possa me colocar em uma jaula agora.
Espero que meu raio o atraia, como a chama de uma vela faz com a mariposa.
Vasculho a horda que se aproxima, procurando por Maven. Uma capa vermelha, uma coroa de ferro em chamas. Um rosto branco no mar, olhos azuis o suficiente para perfurar montanhas.
Em vez disso, os jatos dos Laris passam novamente, voando baixo sobre ambos os exércitos. Eles se dividem à minha volta, fazendo os soldados buscarem cobertura enquanto o grito do metal aumenta sobre suas cabeças. Uma dezena de figuras ou mais saltam da traseira do jato maior, dando piruetas no ar antes de cair no chão a uma velocidade que esmagaria a maioria dos humanos. Em vez disso, eles estendem os braços, freando abruptamente, revolvendo a terra, as cinzas e a neve. E o ferro. Muito ferro.
Evangeline e sua família, incluindo o irmão e o pai, se viram para encarar o exército que chega. O falcão circula a família, gritando conforme se lança no vento intenso.
Evangeline lança um olhar sobre o ombro, encontrando os meus olhos.
— Não vai se acostumando! — grita.
A exaustão me atinge, porque, estranhamente, me sinto segura.
Evangeline Samos vai me proteger.
O fogo arde no canto dos meus olhos. Ele me rodeia, quase me cegando. Cambaleio para trás e trombo com uma parede de músculos e armadura tática. Cal protege meu pulso quebrado, segurando-o gentilmente.
Pelo menos dessa vez, não penso nas algemas.

14 comentários:

  1. Vivi pra ver Mare e Evangeline lutando do mesmo lado

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    1. Vivi pra ver a Farley protegendo o cabelo com uma jaqueta parecendo eu protegendo a chapinha.

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  2. Vivi pra ver Cameron e Mare amigas

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  3. Awwn.. Evangeline é tão Celeste da vida.. espero q n tenha o msm fim... E que n atrapalhe meu shipp...plmdds

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  4. deveria ter a reação "AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA" PQ OLHA... EU TO... AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    N SOU CAPAZ DE OPINAR!

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  5. Melhor capítulo de luta até agora <3

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  6. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    ISSO EHA UNICA COISA QUE CONSIGO FALAR...
    AAAAAAAAAAAAAAAA
    FODA

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  7. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.
    CAPITULO TA BOM D++++

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  8. Tem como alguem ficar sem reação com reação?? estou desse jeito, to paralisada de medo do que pode acontecer

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  9. vivi para ver uma batalha que nao deu merda pra mare, ate agora kkkkkkkkkkk.

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  10. EVANGELINE E MARE LUTANDO JUNTAS, SERIA MEU SONHO?

    ~Bella~

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Boa leitura :)