13 de março de 2017

Capítulo vinte e oito

TUCK PARECE MENOR DO QUE ME LEMBRAVA, com os trezentos fugitivos de Corros somados aos próprios reforços do coronel amontoando-se pela ilha inteira. Ele me conduz por entre a multidão, num passo que custo a acompanhar.
Muitos dos novos soldados são de Lakeland, trazidos às escondidas do extremo norte assim como as armas e os alimentos que chegam pelas docas, mas há um bom número de pessoas de Norta também.
Fazendeiros, criados, desertores e até alguns técnicos tatuados fazem exercícios no espaço aberto entre os galpões. Muitos chegaram nos últimos meses. São os primeiros fugitivos das Medidas, e com certeza outros virão. Normalmente, esse pensamento me faria sorrir, mas ultimamente meus sorrisos não têm saído facilmente. Sorrir faz minhas cicatrizes e minha cabeça doerem. Na pista, ouço um ronco familiar de jato. O Abutre sobe aos céus, certamente rumo ao Furo, com Cal nos controles. Melhor. Não preciso dele me rondando, observando e julgando cada um dos meus movimentos.
Galpão 1. Da última vez, entrei aqui em segredo.
Agora adentro em plena luz do dia, com o coronel ao meu lado. Caminhamos pelas passagens estreitas do abrigo subaquático; os soldados de Lakeland abrem passagem sempre que me aproximo. Tenho uma consciência perfeita deste lugar — já fui prisioneira —, mas já não temo nada aqui embaixo. Seguimos a tubulação do teto, na direção do coração vivo do galpão e da ilha inteira. A sala de controle é pequena, mas lotada de telas, equipamentos de rádio e mapas estendidos sobre cada superfície plana.
Espero ver Farley berrando ordens, mas ela desapareceu. O que vejo é uma saudável mistura do azul de Lakeland com o vermelho da Guarda.
Dois homens destoam em seus uniformes grossos, de tom verde desbotado com detalhes em preto. Não faço ideia do país ou reino que representam.
— Deixem-nos — o coronel sussurra. Não tem motivo para gritar e é obedecido com rapidez.
Mas a dupla de verde não sai. Tenho a sensação de que esperavam por isso. Movem-se numa sincronia estranha, voltando-se para nós exatamente ao mesmo tempo. Ambos têm insígnias em seus uniformes, um círculo branco contendo um triângulo verde-escuro. As mesmas marcas que vi nas caixas contrabandeadas quando estive aqui da última vez.
Os homens são gêmeos, perturbadoramente idênticos. Mas vai além disso. Ambos têm cabelo preto encaracolado, espesso como um capacete, olhos cor de terra, pele marrom e barba impecável. Uma cicatriz é a única diferença entre eles: um tem uma linha dentada na bochecha direita; o outro, na esquerda. Para distingui-los. Com um arrepio, percebo que até piscam ao mesmo tempo.
— Srta. Barrow, é um prazer conhecê-la, afinal. — O da cicatriz na direita estende a mão, mas demoro para apertá-la. Ele parece não se importar, insistindo. — Meu nome é Rash, e meu irmão...
— Tahir, ao seu dispor — o outro interrompe. Eles curvam a cabeça com elegância, de novo numa sincronia impressionante. — Viajamos de muito longe para encontrar você e os seus. E esperamos...
— ... durante um tempo que pareceu ainda maior — Rash termina a frase por ele. Em seguida, pousa rapidamente os olhos no coronel, e capto uma ponta de desgosto lá no fundo. — Trazemos uma mensagem e uma oferta para você.
— De quem?
Sinto falta de ar, quase fico zonza. Com certeza esses homens são sanguenovos — a ligação entre eles não é natural —, e não são nem de Norta nem de Lakeland. Viajamos de longe, disseram. De onde?
Eles falam num coro melódico:
— Da República Livre de Montfort.
De repente, queria que Julian estivesse ao meu lado para me ajudar a lembrar das aulas e dos mapas que mantinha por perto. Montfort, uma nação montanhosa, tão distante que poderia estar do outro lado do mundo. Mas Julian me disse que era como a terra de Piedmont ao sul, governada por vários príncipes, todos prateados.
— Não entendo.
— O coronel Farley também não entendia... — diz Tahir.
Rash corta:
— ... porque a República é bem guardada, escondida por montanhas...
— ... neve...
— ... muralhas...
— ... e planejamento.
Isto é muito irritante.
— Minhas desculpas — Rash acrescenta ao notar meu desconforto. — Nossa mutação liga nossos cérebros. Pode ser bastante...
— ... perturbador — completo para ele, arrancando um sorriso dos dois. Mas o coronel continua de cara fechada, com um brilho no olho vermelho. — Então vocês são sanguenovos também? Como eu?
Os dois confirmam.
— Em Montfort, somos chamados de rubros, mas isso muda de nação para nação. Ninguém entrou num acordo sobre como chamar os vermelhos-prateados — Tahir diz. — Há muitos de nós pelo mundo. Alguns vivem livres, como na República, outros escondidos, como no seu país. — Ele olha para o coronel, impregnando a frase de duplo sentido. — Mas os nossos laços vão além das fronteiras entre as nações. Protegemos os nossos, pois ninguém mais protegerá. Montfort ocultou-se por vinte anos, construindo sua república sobre as cinzas de uma opressão brutal. Creio que você entende isso.
Entendo mesmo. Nem me importo de estar sorrindo, apesar da dor que isso me causa.
— Mas agora não nos escondemos mais — ele continua. — Temos exércitos e frotas próprios, e não vamos permanecer de braços cruzados. Não enquanto reinos como Norta, Lakeland e todo o resto ainda existirem. Não enquanto vermelhos estiverem morrendo e rubros enfrentando um destino ainda pior.
Ah. Então o coronel não está nos aceitando por bondade ou necessidade, mas por medo. Outro jogador está à mesa, e este ele não compreende. Mas eles têm um inimigo em comum, isso é claro. Prateados. Pessoas como Maven. Nós também temos um inimigo em comum.
Mas um tremor me percorre o corpo, e não consigo ignorá-lo. Cal é prateado. Julian é prateado. O que pensam deles? Assim como o coronel, preciso recuar e ver o que essa gente quer de verdade.
— O primeiro-ministro Davidson, líder da República, nos enviou como embaixadores para estender uma mão amiga à Guarda Escarlate — Rash diz, com a mão grudada na coxa. — O coronel aceitou de bom grado a aliança duas semanas atrás, assim como seus superiores, os generais vermelhos do Comando.
Comando. As misteriosas palavras de Farley parecem mais próximas agora. Ela nunca me explicou nada, mas agora vejo um pouco mais da Guarda. Nunca ouvi falar dos generais vermelhos, porém mantenho o rosto impassível. Eles não sabem o quanto sei — ou não sei. A julgar pela maneira como os gêmeos falam, acham que também sou uma líder com controle sobre a Guarda Escarlate. Mal tenho controle sobre mim.
— Já nos aliamos a grupos e facções similares em nações espalhadas por todo o continente, formando uma complexa rede como os raios de uma roda. A República é o centro. — Os olhos de Rash cravam-se nos meus. — Vamos entregar salvo-condutos a qualquer rubro daqui que permitirá a entrada num país que não só vai proteger vocês, mas também oferecer liberdade. Não vão ter que lutar. Só precisam viver, e viver em liberdade. Essa é a nossa oferta.
Meu coração dispara. Vocês só precisam viver.
Quantas vezes já não desejei algo assim? Incontáveis vezes. Mesmo nos tempos de Palafitas, quando pensava ser dolorosamente normal, quando não era nada. Só queria viver. Palafitas me ensinou o valor — e a raridade — de uma vida comum. Mas também me ensinou outra coisa, uma lição mais valiosa. Tudo tem um preço.
— E o que vocês querem em troca? — resmungo, sem querer ouvir a resposta.
Rash e Tahir trocam olhares carregados, estreitando os olhos em silenciosa comunicação. Não duvido que os irmãos sejam capazes de se comunicar sem palavras, murmurando, como Elara fazia antes.
— O primeiro-ministro Davidson solicita que você os acompanhe — dizem ao mesmo tempo.
Uma “solicitação”. Isso não existe.
— Você é a faísca da revolta, e por mérito próprio. Será de grande ajuda para a guerra que se aproxima.
Vocês não precisam lutar. Devia ter percebido que isso não se aplicava a mim.
— Você terá sua própria unidade, com os rubros que escolher ao seu lado... Um rei sanguenovo vai sentar no trono que você construiu.
Cameron me disse isso há alguns dias, quando a forcei a se juntar a nós. Agora sei exatamente como ela se sentiu. Sei que suas palavras podem conter uma verdade terrível.
— Mas apenas rubros? — pergunto, levantando com determinação. — Apenas sanguenovos? Me contem, como é a sua república de verdade? Vocês simplesmente trocaram os senhores prateados por outros?
Os irmãos permanecem sentados, me observando com olhos atentos.
— Você não compreende — Tahir diz, tocando brevemente a cicatriz sob o olho esquerdo. — Somos como você, Mare Barrow. Sofremos por causa do que somos e simplesmente não queremos que ninguém mais tenha o mesmo destino. Estamos oferecendo refúgio para os nossos semelhantes. Para você, em especial.
Mentirosos. Os dois. Não estão me oferecendo nada além de outro palco para eu subir e atuar.
— Estou bem onde estou — digo, mirando o olho bom do coronel. Sua cara não está mais fechada. — Não vou fugir, não agora. Há coisas que precisam ser resolvidas aqui. Problemas vermelhos com os quais vocês não precisam se preocupar. Podem levar qualquer sanguenovo que quiser acompanhá-los, mas não vou. E se tentarem me obrigar a fazer qualquer coisa contra a minha vontade, frito os dois. Não me importa a cor do seu sangue ou quão livres vocês alegam ser. Diga ao seu líder que não posso ser comprada com promessas.
— E com ações? — Rash propõe, erguendo uma sobrancelha bem desenhada. — Isso a atrairia para o lado do nosso líder?
Já sei onde isso vai dar. Já tive minha cota de reis, não importa como sejam chamados. Mas cuspir nos gêmeos não vai me levar a lugar nenhum, então dou de ombros.
— Me mostrem essas ações e veremos — digo, rindo, virando as costas em seguida para sair. — Me tragam a cabeça de Maven Calore, e o seu líder pode me usar como apoio.
A resposta de Tahir faz meu sangue gelar.
— Você matou a loba. Matar o filhote não deve ser nada.
Saio da sala de controle a passos largos.
— Estranho, srta. Barrow.
— O quê? — rosno, fechando a cara para olhar o coronel. Ele não me deixa nem sair do galpão em paz.
Mas o rosto aberto dele me pega de surpresa, demonstrando algo próximo à compreensão. Ele é a última pessoa que espero ser capaz de compreender.
— Você voltou para cá com muito mais seguidores, mas perdeu aqueles com quem partiu. — Ele ergue a sobrancelha e encosta na parede fria e úmida do corredor. — O garoto do vilarejo, o seu príncipe e a minha filha, todos parecem estar evitando você. E, claro, o seu irmão...
Dou um passo à frente, interrompendo-o, assustando-o e fazendo-o se calar. Depois de um momento, ele murmura:
— Meus pêsames. Nunca é fácil perder um membro da família.
Lembro da fotografia no alojamento dele. O coronel tinha outra filha e uma esposa, e nenhuma das duas está aqui agora.
— Todos precisamos de um tempo — eu digo, na esperança de que baste.
— Mas não tempo demais. Não é bom deixá-los vivendo nos nossos próprios pecados.
Não consigo juntar forças para argumentar porque ele tem razão. Repeli as pessoas mais próximas a mim, mostrei o monstro sob a minha pele.
— E esse problema vermelho que você mencionou? — ele continua. — Há algo que eu deva saber?
Ainda no jato, disse a Cal que estava indo para o norte. Metade de mim disse aquilo de raiva, para provar alguma coisa para ele. A outra metade disse porque é a coisa certa a ser feita, porque ignorei a questão por tempo demais.
— Alguns dias atrás interceptamos uma ordem de movimentação de tropas. A primeira das legiões infantis está sendo enviada para o Gargalo. — Minha respiração vacila ao me lembrar do que Ada falou. — As crianças vão ser massacradas, obrigadas a marchar além das trincheiras, na frente de batalha. Cinco mil crianças serão chacinadas.
— Sanguenovas? — o coronel alfineta.
Faço que não com a cabeça.
— Não que eu saiba.
Ele leva a mão à pistola, endireita o corpo e cospe no chão.
— Bom, o Comando realmente me mandou te ajudar. Acho que já é hora de fazermos algo útil juntos.


A enfermaria é silenciosa, um bom lugar para esperar.
Sara recebeu autorização para deixar o galpão destinado aos prateados e trabalhou rápido com todos os feridos.
Agora, os leitos estão vazios, com exceção de um. Estou deitada de lado, os olhos fixos na grande janela diante de mim. O decepcionante céu azul já desbotou para um cinza metálico. Teremos outra tempestade em breve, ou talvez meus olhos escureceram. Simplesmente não consigo mais suportar a luz do sol hoje. Os lençóis são macios pelo uso; tenho que me segurar para não cobrir a cabeça. Como se isso pudesse impedir as lembranças.
Elas vêm uma depois da outra, e cada uma me atinge como uma onda de ferro. O último momento de Shade, seus olhos arregalados, sua mão estendida para mim antes que o sangue lhe jorrasse do peito. Ele estava voltando para me salvar, e eu causei sua morte. Me sinto igual a meses atrás, quando me escondi na floresta, incapaz de encarar Gisa e sua mão quebrada. Agora sou incapaz de suportar a perspectiva de retornar à minha família e ver o buraco deixado por Shade. Eles certamente estão se perguntando onde estou — a garota que lhe custou um filho. Mas não é um Barrow que me encontra aqui.
— Devo voltar mais tarde ou você já parou de sentir pena de si mesma?
Sento rápido e vejo Julian ao pé do meu leito. A cor voltou ao seu rosto, bem como seu dente quebrado — cortesia de Sara. Com exceção das roupas esquisitas, sobras dos estoques de Tuck, parece de volta à velha forma. Espero um sorriso, talvez até um agradecimento, mas não uma bronca. Não dele.
— Será que não se pode ter um momento de paz aqui? — bufo, encostando no travesseiro fino.
— Pelas minhas contas, você passou as últimas horas escondida. Acho que isso é mais que um momento, Mare. — O velho professor faz o máximo para ser educado. Não dá certo.
— Se quer saber, estou esperando o coronel. Temos uma operação para planejar, e ele está angariando voluntários neste exato momento.
Aí está. Julian não se deixa dissuadir tão fácil.
— E você decidiu que tirar uma soneca era a melhor maneira de empregar o tempo do que, por exemplo, conversar com os outros sanguenovos? Talvez acalmar um pouco um bando de prateados sobressaltados ou receber cuidados médicos? Ou mesmo ver sua família de luto?
— Não senti falta dos seus sermões, Julian.
— Você mente bem, Mare — ele diz com um sorriso no rosto.
Ele se aproxima, quase rápido demais, e senta ao meu lado. Cheira bem, como se tivesse acabado de sair do banho. De perto, vejo como emagreceu, e noto o vazio em seus olhos. Nem Sara é capaz de curar mentes. Ele continua:
— Um sermão precisa de ouvintes. Você com certeza não me ouve mais. — Ele então abaixa a voz e puxa meu rosto de leve para que eu o encare. Estou tão cansada que não faço nada. — Nem a mim, nem a ninguém, diga-se de passagem. Nem mesmo Cal.
— Você vai gritar comigo também?
Ele abre um sorriso triste.
— Já gritei alguma vez?
— Não — murmuro, desejando não precisar falar. — Nunca.
— E não vou começar agora. Só vim lhe dizer o que você precisa ouvir. Não vou te forçar a ouvir, não vou te forçar a obedecer. Deixo a seu critério, como deve ser.
— Muito bem.
— Disse para você uma vez que todo mundo pode trair todo mundo. Sei que você se lembra.
Ah, e como me lembro.
— E digo novamente. Todo mundo, tudo, pode trair todo mundo. Até seu próprio coração.
— Julian...
— Ninguém nasce mau, assim como ninguém nasce sozinho. As pessoas se tornam más e solitárias, por escolha e circunstância. Esta última você não pode controlar, mas a primeira... Mare, temo muito por você. Fizeram muitas coisas com você, coisas que ninguém deveria ter de passar. Você viu coisas horríveis, fez coisas horríveis, e elas vão te transformar. Temo muito pelo que você pode acabar se tornando, caso faça uma escolha errada.
Eu também.
Deixo minha mão se fechar em volta da dele. O contato até me acalma um pouco, mas é fraco. Nosso laço está desgastado, na melhor das hipóteses, e não sei como consertar.
— Vou tentar, Julian — balbucio. — Vou tentar.
No fundo, fico me questionando. Será que Julian vai contar histórias sobre mim um dia? Quando eu tiver me tornado uma pessoa perversa, alguém como Elara, com nada nem ninguém que me ame? Serei apenas a garota que tentou? Não. Não posso pensar assim. Não serei. Sou Mare Barrow. Sou forte o bastante. Fiz coisas terríveis, e não mereço perdão. Mas vejo perdão nos olhos de Julian, e ele me enche de esperança. Não vou me tornar um monstro, não importa o que precise fazer daqui para a frente. Não vou perder quem eu sou, ainda que me mate para isso.
— Você quer que eu a leve para o alojamento da sua família ou você sabe o caminho?
Não consigo deixar de torcer o nariz.
— E por acaso você sabe o caminho?
— Não é educado questionar os mais velhos, garota elétrica.
— Tive um professor que me disse para questionar tudo.
Os olhos dele cintilam de orgulho e ele estufa o peito fraco.
— Seu professor era um homem inteligente.
Percebo seu olhar parado e o brilho dele se apaga.
Está observando a parte exposta do meu peito e a marca que há ali. Penso em cobri-la, mas decido não me mexer.
Não vou esconder o M queimado na minha pele, não dele.
— Sara pode dar um jeito nisso — ele sussurra. — Posso chamá-la?
Levanto, me apoiando em pernas bambas. Há muitas cicatrizes que desejo que ela cure, mas não esta.
— Não.
Que seja um aviso para todos nós.
De braços dados, saímos da enfermaria vazia, que reverbera o som dos nossos passos. O pavilhão branco logo começa a desbotar para o cinza. Do lado de fora, o mundo parece engolido por sombras. O inverno espera à nossa soleira, e logo baterá na porta. Mas gosto do ar frio. Me faz acordar.
Enquanto cruzamos o pátio central rumo ao Galpão 3, observo o complexo. Rostos familiares se misturam nos grupos, alguns treinando, outros transportando bens ou apenas circulando pelos arredores. Noto Ada se enfiando debaixo de um veículo quebrado com um manual de instruções na mão. Lory está abaixada ao lado dela, vasculhando uma pilha de ferramentas. Alguns metros à frente, Darmian entra em formação com uma tropa de rebeldes e se junta a eles para uma corrida. São os únicos do Furo que vejo, o que me faz sentir um frio na barriga. Cameron, Nix, Nanny, Gareth, Ketha... Onde estão? Fico enjoada, mas engulo a sensação. Só tenho forças para lamentar a perda da pessoa que sei com certeza que está morta.
Julian não tem permissão para entrar no Galpão 3. Ele me informa isso com um sorriso tenso e palavras que pingam desdém. Não há como fazer a ordem valer, mas ele a obedece mesmo assim.
— Só estou tentando ser um “bom” prateado — ele diz, seco. — O coronel já foi bondoso a ponto de nos deixar sair do galpão. Odiaria trair a confiança dele.
— Vou me encontrar com você depois — digo, apertando o ombro dele. — As coisas devem estar ficando bem feias por lá.
Julian apenas dá de ombros.
— Sara não está com pressa para curar todos. Não queremos muitos prateados cheios de poder, mal alimentados e irritados num espaço fechado. Eles sabem o que você fez por eles. Não têm motivo para criar caso.
Ainda.
Ainda. Um aviso simples, mas eficaz. O coronel não sabe como lidar com tantos refugiados prateados, e com certeza logo dará um passo em falso.
— Farei o melhor que posso — suspiro, acrescentando à minha crescente lista de afazeres a prevenção de uma possível revolta. Não chorar na frente da minha mãe. Pedir desculpas a Farley. Descobrir como salvar cinco mil crianças. Bancar a babá para um bando de prateados. Enfiar a cabeça na parede. Parece possível.
O galpão é como me lembro: cheio de curvas e corredores labirínticos. Me perco uma ou duas vezes, mas por fim encontro a porta com o cachecol roxo amarrado à maçaneta. Está trancada e preciso bater.
Bree abre a porta. Seu rosto está vermelho de tanto chorar, e ele quase me faz cair em lágrimas logo de cara.
— Demorou, hein? — ele resmunga antes de dar passagem para eu entrar. O tom de voz seco me faz tremer, mas não discuto. Em vez disso, ponho a mão no braço dele. Ele se encolhe, mas não se afasta.
— Sinto muito — digo. E depois, mais alto, para todos: — Sinto muito não ter vindo antes.
Gisa e Tramy estão sentados. Minha mãe está encolhida numa das camas, com meu pai e sua cadeira de rodas logo ao lado. Ela se vira para o outro lado e esconde o rosto de mim, e ele me encara direto nos olhos.
— Você tinha coisas para fazer — meu pai diz, seco como sempre. Mas suas palavras saem mais agressivas do que nunca. — Compreendemos.
— Devia ter vindo — digo à medida que entro mais no dormitório. Como posso me sentir perdida num espaço tão pequeno? — Trouxe o corpo dele de volta.
— Nós vimos — Bree dispara, sentando na cama oposta à da minha mãe. O estrado verga sob seu enorme peso. — Um golpe de uma agulha e ele se foi.
— Eu lembro — murmuro, tentando me conter.
Gisa se agita na cadeira e puxa as pernas finas para baixo do assento. Fica abrindo e fechando a mão ferida para se distrair.
— Você sabe quem o matou?
— Ptolemus Samos. Um magnetron.
Na arena, Cal teve a chance de matar o desgraçado. Mas foi misericordioso. E a sua misericórdia matou meu irmão.
— Conheço esse nome — Tramy diz, só para jogar alguma coisa no ar tenso. — Era um dos seus carrascos. Não conseguiu pegar você, mas pegou Shade.
As palavras soam como uma acusação. Sinto a necessidade de baixar a cabeça e olhar para os sapatos para evitar a mágoa na expressão de Tramy.
— Você pelo menos se vingou? — Bree pergunta, levantando novamente, incapaz de ficar parado. Ele me cobre com a sua sombra, na tentativa de parecer intimidador. Ele esquece que não tenho mais medo da força bruta. — Se vingou?
— Matei um monte de pessoas. — Minha voz vacila, mas me esforço para continuar. — Nem sei quantas. Só sei que a rainha era uma delas.
Minha mãe senta na cama, finalmente decidindo me encarar. Os olhos dela estão nadando em lágrimas.
— A rainha? — ela sussurra, sem fôlego.
— Trouxemos o corpo dela também — digo, quase ansiosa demais. Falar do cadáver é mais fácil do que lamentar meu irmão. Então conto a eles sobre a transmissão e sobre o que queremos fazer.
Aquele vídeo horrível deve ser exibido esta noite, durante o boletim de notícias. São obrigatórios agora, um acréscimo às Medidas para forçar cada pessoa no reino a engolir junto com o jantar mentiras e propaganda — sobre seu jovem e ansioso rei, outra vitória nas trincheiras e coisas desse tipo.
Mas não esta noite. Em vez disso, Norta verá sua rainha morta. E o mundo ouvirá nosso chamado às armas. Bree anda de um lado para o outro, sorrindo loucamente com a perspectiva de uma guerra civil, e Tramy faz o mesmo, como sempre. Eles matraqueiam, já pensando em marchar sobre Archeon juntos e hastear nossa bandeira vermelha nas ruínas do Palácio de Whitefire. Gisa está menos entusiasmada.
— Acho que você não vai ficar aqui muito tempo — ela diz, desamparada. — Vão precisar de você no continente para continuar os resgates.
— Não, não vou resgatar mais ninguém. Pelo menos não por um tempo.
Não posso suportar a esperança que brilha em todos eles, especialmente na minha mãe. Quase não lhes conto nada, mas da última vez saí muito de repente. Não vou fazer isso agora.
— Vou até o Gargalo. E logo.
Meu pai ruge tão alto que espero vê-lo cair da cadeira de rodas.
— Você não vai! Não enquanto eu respirar! — ele resfolega para dar ênfase ao argumento. — Nenhum filho meu jamais vai retornar àquele lugar. Jamais. E não ouse dizer que não posso te impedir, porque, acredite em mim, eu posso e vou.
Uma vez, o Gargalo levou uma perna e um pulmão do meu pai. Ele perdeu tanto naquele lugar, e agora acha que vai me perder também.
— Sei que você impediria, pai — digo, tentando animá-lo. Geralmente dá certo.
Mas, desta vez, ele me ignora, rolando a cadeira tão rápido na minha direção que a perna dele bate na minha canela. Seus olhos parecem os de um demônio, e ele aponta o dedo trêmulo para mim.
— Me dê a sua palavra, Mare Barrow.
— Você sabe que não posso fazer isso — digo, e depois explico o motivo.
Cinco mil crianças, cinco mil filhos e filhas. Cameron estava certa desde o começo. As divisões de sangue ainda são bem reais e não podem mais ser toleradas.
— Deixe outra pessoa ir — ele rosna, se esforçando ao máximo para não desabar. Jamais quis ver meu pai chorando, e agora queria ser capaz de esquecer a cena. — O coronel, aquele príncipe, outra pessoa pode ir.
Meu pai se agarra ao meu braço como um homem se afogando no mar.
— Daniel. — A voz da minha mãe sai suave, calma, como uma única nuvem branca num céu vazio. — Solte Mare.
Quando tiro a mão dele do meu punho, percebo que também estou chorando.
— Vamos com ela. — Bree mal termina de pronunciar as palavras quando digo que não. O rosto do meu pai fica roxo à medida que a tristeza dá lugar à raiva.
— Vocês querem me matar do coração?! — ele grunhe, direcionando a cadeira até meu irmão mais velho.
— Ela nunca esteve no Gargalo, não sabe como é — Tramy intervém. — Nós sabemos. Somados, temos quase uma década de trincheiras.
Balanço a cabeça e estendo a mão para encerrar a questão antes que meu pai realmente perca o controle.
— O coronel vai conosco. Já viu o Gargalo também, não é necessário...
— Talvez ele tenha visto pelo lado de Lakeland — Bree diz, revirando suas coisas no baú. Procurando o que levar. — Mas as trincheiras de Norta têm uma estrutura diferente. Ele vai ser superado em segundos.
Essa é a coisa mais inteligente que ouvi Bree dizer na vida. Ele não é reconhecido por ter um cérebro brilhante, mas, por outro lado, sobreviveu cinco anos na linha de frente. São quatro anos a mais do que a maioria. Não pode ser sorte. Então me dou conta de que é simplesmente coragem. Mais coragem do que eu poderia imaginar. Certa vez, pensei no quanto meus irmãos perderam da minha vida, mas o mesmo aconteceu comigo. Eles não são como me lembro. São guerreiros, tanto quanto eu.
Meu silêncio é tudo o que ambos precisam para começar a fazer as malas. Gostaria de poder dizer para não irem. Eles ouviriam se eu falasse sério. Mas não posso. Preciso deles, assim como precisava de Shade.
Só espero não levar outro irmão ao túmulo.
Depois de um longo momento, me dou conta de que estou tremendo. Então deito ao lado da minha mãe e a deixo me abraçar por um longo tempo. Faço o possível para não chorar. O meu possível não basta.

11 comentários:

  1. Nossa que triste!!! Eu acho que a Mérida não devia levar os irmãos

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  2. Mare, não quero cortar seu barato, mas vai dar merd@.
    Tomara que nenhum irmão vá ao túmulo, ainda nem superei Shade. ~polly~

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  3. nossa ela sofre muito

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  4. Não !!!! Pelo amor de Deus eu não to bem !! Eu quero ele de volta !!!!Seila faça q tenha sido mas um truque dele !!!

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  5. tenho pena da Mare, ela se tornou ruim por um lado, mas ela tem boas intençoes, mesmo que nao aparente, e o Cal deveria se esforçar para entender ela, todos deveriam, e nao ver so o lado ruim

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  6. ai coitado do pai dela, eu imaginei aqui na minha cabeça a cena e agr to morrendo de dod ele ;-;

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  7. Que bom que Julien voltarias por um pouco de amor desse coração da Mare

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  8. Tadinha, tomare que nao perca outro irmao

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  9. Acho q os perdoam desse livro são muito rasos... Tipo, vc não percebe bem o envolvimento deles. A Mare fala e fala o quanto o Shade era especial mas só teve uma ou duas cenas deles.
    O msm com o relacionamento dos outros. Não tem profundidade. Tipo, minha opinião.

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    1. Concordo totalmente. É muito vazio e costumam sem bem frios, não ha envolvimento entre os personagens. Em momentos de perca é meio revoltante porque os personagens se tornam especiais pra gente, mas o luto não é como esperamos que seja...

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Boa leitura :)