3 de março de 2017

Capítulo vinte e oito

O ESCUDO SURGE COM UMA EXPLOSÃO, uma cúpula gigante de vidro pulsante e lilás como o do Jardim Espiral. Não para nos proteger, mas para proteger o público. A eletricidade lateja provocante pela cobertura monstruosa. Sem Arven, eu teria meus raios e poderia lutar. Poderia mostrar ao mundo quem sou. Mas isso não vai acontecer.
Cal assume sua posição e abre os braços. O ar se ondula ao seu redor, distorcido pelas ondas de calor emanando de seu corpo. Ele se põe entre mim e os outros para me proteger.
— Fique atrás de mim o máximo que puder — orienta. Seu próprio calor me faz recuar.
A pulseira emite uma faísca e o fogo estala entre seus dedos até o braço. Algo em seu uniforme evita que ele queime e que o tecido se desfaça em fumaça.
— Quando eles atravessarem a parede, você vai ter que correr — continua. — Evangeline é a mais fraca, e o forçador é lento. Você pode correr mais rápido que ele. Vão arrastar a luta em nome do espetáculo.
Por fim, simplesmente acrescenta:
— Não vão nos dar uma morte rápida.
— E você? Osanos vai...
— Deixe que eu me preocupo com Osanos.
Os carrascos avançam firmes, como lobos rondando a presa. Se espalham pelo centro da arena, todos prontos para atacar. Um chiado de metal soa em algum lugar e uma parte do chão da arena se abre para revelar um tanque transbordando de água aos pés de Lord Osanos. Ele sorri e traz a água para si a fim de formar um escudo ameaçador. Lembro da luta entre Maven e sua filha Tirana no treinamento. Ela o destruiu.
Ao redor, a multidão delira. Ptolemus acompanha seus gritos e deixa seu famigerado temperamento tomar conta de si. Dá um golpe na própria armadura, que tine como um sino. Do seu lado, Evangeline gira suas facas e as passa por entre os dedos, sorrindo.
— Não vai ser como da outra vez, vermelha — ela grasna. — Nenhum truque vai salvar você.
Truques. Evangeline conhece meu poder melhor que a maioria das pessoas, sabe que não era um truque. Mas acredita. Ignora a verdade por algo mais fácil de entender...
O garoto Haven, Stralian, ri sozinho. Como a irmã Elane, é um sombrio. Quando parece deixar de existir num piscar de olhos, invisível em plena luz do sol, Cal se move mais rápido do que pensei ser possível e traça um arco com o braço como se desferisse um cruzado de direita.
Uma nuvem de fogo segue seu braço, queimando a areia e nos separando deles. Mas o fogo é surpreendentemente fraco. A areia mal vai queimar.
Não consigo deixar de me voltar para Maven para gritar com ele. Seus olhos ainda estão cravados em mim e seu rosto ainda ostenta o sorriso perverso. Ele não apenas retirou meu poder, mas limitou Cal o máximo que pode.
— Maldito! — xingo. — A areia...
— Eu sei — Cal dispara, fazendo arder mais trechos do chão.
Traçada bem diante de nós, a parede de fogo vacila por um segundo e ouvimos um gemido amargo de dor. Do outro lado do fogo quase morto, Stralian volta a aparecer e tenta apagar as chamas em seus braços. Osanos o salva com um movimento preguiçoso, apagando o fogo com uma onda. Depois direciona seus olhos azuis para nós, para a parede de Cal, e com outro gesto faz a água passar sobre o fogo fraco. Entre chiados e bolhas, a água ferve. Preso pela cúpula de vidro, o vapor baixa sobre a arena e nos envolve numa neblina branca, fantasmagórica e agitada. Cada sombra deste novo mundo branco pode ser nosso fim.
— Prepare-se! — grita Cal, me procurando com a mão, mas Ptolemus ataca em meio ao vapor num ímpeto de músculos e aço.
Cal é atingido no quadril e vai ao chão, mas não fica caído tempo o bastante para ser pego pelas facas do Samos. As lâminas fincam na areia segundos depois de Cal saltar e se agarrar à armadura de Ptolemus. O aço derrete ao seu toque, fazendo o bárbaro gritar. Enquanto corro de um lado para o outro — é só o que posso fazer — quase sem conseguir respirar, Cal tenta cozinhar o homem dentro da própria armadura.
— Não quero matar você, Ptolemus — diz Cal em meio a gritos de dor. Toda faca, todo pedaço de metal que Ptolemus ergue para furar Cal derrete sob o calor intenso. — Não quero fazer isso.
Três lâminas reluzentes cortam o vapor, rápidas demais para derreter em pleno ar. Elas perfuram a camisa de Cal e se cravam em suas costas antes de derreter. Ele grita de dor e perde a concentração por um segundo enquanto três manchas de sangue prata encharcam a camisa. As facas eram curtas demais para abrir um corte profundo, mas mesmo assim o enfraquecem. Ptolemus aproveita a oportunidade e, num piscar de olhos, funde suas facas numa espada monstruosa. Ele a agita com a intenção de fatiar Cal, que esquiva a tempo, mas não consegue evitar um arranhão na barriga.
Ele ainda está vivo. Mas não por muito tempo.
Evangeline aparece em meio à nuvem de vapor. Suas facas giram pelo ar reluzindo ao sol. Cal abaixa e desvia das lâminas para logo em seguida afastá-la com rajadas de fogo. Luta contra os irmãos ao mesmo tempo, chegando a um ritmo insano que o permite conter os dois magnetrons, apesar da força e do poder deles. Suas roupas estão manchadas de sangue e novas feridas surgem a cada segundo. A arma de Ptolemus assume outras formas — passa de espada a machado e logo para um fino chicote de metal —, enquanto as estrelas pontiagudas de Evangeline continuam a picá-lo. Eles estão cansando Cal. Aos poucos, mas sem parar.
Meus raios, lamento mentalmente, olhando mais uma vez para Arven no portão. Ele ainda está lá, uma presença negra que me atormenta. Uma pistola pende de sua cintura. Não posso sequer pensar em atacá-lo. Não posso fazer nada.
Quando um pedaço gigante de concreto cruza o vapor bem na minha direção, quase não tenho tempo para desviar. O bloco se despedaça contra a areia onde estive há segundos, mas antes que eu consiga pensar, outro pedaço de concreto voa em minha direção. Como Cal, encontro meu ritmo e corro pela areia como um rato até ser interrompida do nada.
Uma mão. Uma mão invisível.
Os dedos de Stralian se fecham em minha garganta e me sufocam. Posso ouvir sua respiração em meu ouvido, apesar de não o ver.
— Vermelha e morta — ele rosna, apertando a mão.
Agito os braços e acerto uma cotovelada onde devem estar suas costelas, mas ele aguenta firme. Não consigo respirar. Pontos pretos turvam minha visão e ameaçam se espalhar, mas continuo a lutar. Avisto a figura embaçada do forçador Rhambos à espreita. Ele vai me desmembrar.
Cal ainda luta contra os irmãos Samos, fazendo o máximo para não levar uma facada. Não posso gritar por ajuda, nem se eu quisesse, mas ele dá um jeito de lançar uma bola de fogo em minha direção mesmo assim. Rhambos precisa pular para trás e perde o equilíbrio, e ganho segundos preciosos. Tossindo e arfando, lanço as mãos para trás contra uma cabeça que não consigo ver. Por milagre, sinto seu rosto e logo seus olhos. Com um grito sufocado, enfio os polegares nos olhos de Stralian e o deixo cego. Ele uiva de dor e me solta para logo cair de joelhos, novamente visível. Sangue prata escorre por seu rosto como lágrimas espelhadas.
— Era para você ser meu! — uma voz grita.
Olho para trás e vejo Evangeline sobre Cal erguendo suas lâminas. Ptolemus conseguiu derrubá-lo no chão, e os dois rolam na areia enquanto Evangeline vai atrás. O chão está pontilhado por suas facas.
— Meu! — ela grita a cada golpe.
Não chego a pensar que avançar com tudo contra uma magnetron pode ser uma má ideia, só me dou conta quando colidimos. Caímos juntas. Raspo o rosto em toda a sua armadura, que me arranha, pinica e me faz sangrar. O sangue vermelho goteja aos olhos de todos e, embora não possa ver os monitores, sei que a imagem está sendo transmitida para o país inteiro.
Evangeline solta um grito estridente e dispara suas lâminas dançantes. Atrás de nós, Cal tenta ficar de pé enquanto afasta Ptolemus com uma rajada de fogo. O magnetron colide com a irmã e a derruba segundos antes de suas facas me fatiarem.
— Abaixe! — grita Cal, me empurrando para a areia quando outro pedaço de concreto cruza os ares para explodir contra a parede.
Não podemos continuar assim.
— Tenho uma ideia.
Cal cospe na areia uma mistura de sangue e alguns dentes.
— Que bom, porque faz cinco minutos que não tenho nenhuma.
Outro bloco vem em nossa direção, e cada um pula para um lado. Ao mesmo tempo, Evangeline e Ptolemus estão de volta para se vingar. Os irmãos prendem Cal numa dança caótica de facas e lascas de metal. Seus poderes fazem a arena tremer ao redor, atraindo o metal no subsolo e forçando Cal a ter ainda mais cuidado com os pés e todo o resto do corpo. Pedaços de canos e fios brotam da areia para criar uma pista de obstáculos mortais.
Um deles perfura Stralian, que ainda gritava de joelhos por causa dos olhos. O cano atravessa seu corpo e sai pela boca, silenciando os gritos para sempre. Além de todo o barulho, ouço as interjeições e os gritos da plateia diante da visão. Apesar de toda a violência, de todo o poder, os prateados ainda são covardes.
Com passos decididos e ligeiros sobre a areia, dou uma volta em Rhambos para provocá-lo. Cal tem razão: sou mais rápida. E, embora Rhambos seja um monstro musculoso, ele tropeça pelo caminho tentando me pegar. Arranca os canos expostos e os lança contra mim, mas desvio com facilidade, o que o faz urrar de frustração.
Sou vermelha, não sou nada, mas ainda posso derrubar você.
O som de água corrente me tira desse pensamento e me recorda do quarto carrasco: o ninfoide.
Viro bem a tempo de assistir a Lord Osanos abrir as nuvens de vapor como se fossem cortinas e clarear a arena. Três metros à sua frente, ainda pelejando, está Cal. Fogo e fumaça saem de suas mãos para repelir os magnetrons. Mas à medida que Osanos avança — envolto num turbilhão de águas — as chamas de Cal recuam. Aqui está o verdadeiro carrasco. Aqui está o fim do espetáculo.
— Cal! — grito, mas não posso fazer nada por ele. Nada.
Outro cano passa ao lado de minha bochecha, tão perto que sinto sua frieza, giro e vou ao chão. O portão está a apenas uns metros e Arven ainda está lá, com a boca semioculta pelas sombras.
Cal lança uma bola de fogo contra Osanos, que a apaga com facilidade. O vapor grita no embate entre água e fogo, mas a água está ganhando.
Rhambos avança e preciso recuar até o portão. Estou encurralada. Eu o deixei me encurralar. Rochas e pedaços de metal se partem contra a parede atrás de mim, com força mais que suficiente para quebrar meus ossos. Eletricidade, minha mente grita.
ELETRICIDADE!
Mas nada vem. Apenas a repulsa dos sentidos mortos a me sufocar.
Ao nosso redor, a multidão levanta, pressentindo o fim. Posso ouvir Maven acima de mim, berrando como os outros:
— Acabem com eles!
Ainda me surpreendo ao ouvir tanta malícia em sua voz. Mas, quando olho para cima e nossos olhos se encontram através do escudo e do vapor, não vejo nada além de ódio, ira e maldade.
Rhambos mira com um cano longo e pontudo. A morte chegou.
Em meio à neblina, ouço um brado de triunfo: Ptolemus. Ele e Evangeline se afastam do globo de água turbulenta que aprisiona uma figura tênue dentro de si: Cal. A água ferve, seu corpo se agita tentando escapar, mas em vão. Ele vai se afogar.
Atrás de mim, quase no meu ouvido, Arven ri sozinho.
— De quem é a vantagem? — ele se vangloria, repetindo a pergunta do treinamento.
Meus músculos doem e repuxam, implorando pelo final. Quero apenas me deitar, reconhecer a derrota, morrer. Disseram que era uma mentirosa, que usava truques. Tinham razão.
Ainda tenho um truque na manga.
Rhambos mira, com os pés firmes na areia, e sei o que devo fazer. Ele atira a lança improvisada com tanta força que ela parece queimar o ar. E eu caio, me jogando na areia.
Um grunhido doentio indica que meu plano funcionou, e a sensação da eletricidade de volta à vida indica que posso vencer.
Atrás de mim, Arven tomba com o cano atravessado na barriga.
— Eu tenho a vantagem.
Ao levantar, meu corpo transborda de trovões, relâmpagos, centelhas e choques, tudo o que posso controlar. O público grita, Maven principalmente.
— Matem-na! MATEM-NA! — ele ruge, apontando para mim além da cúpula. — ATIREM NELA!
As balas batem na cúpula, faiscando e explodindo contra o escudo elétrico que aguenta firme. Servia para proteger os de fora, mas é elétrico, é feito de raios, é meu e agora me protege.
A multidão se cala, incapaz de acreditar nos próprios olhos. Sangue vermelho goteja das minhas feridas e o raio vibra em minha pele declarando para todos o que sou. No alto, os monitores se apagam. Mas já fui vista. Eles não podem deter o que já aconteceu.
Rhambos dá um passo inseguro à frente. Sua respiração vacila e não dou chance de voltar ao normal.
Prateada e vermelha, e mais forte que ambos.
Meu raio o atravessa, fervendo seu sangue e seus nervos até ele desabar feito uma pilha de carne retorcida.
Osanos é o próximo a cair sob o poder da minha eletricidade. O globo líquido se desmancha e Cal cai na areia cuspindo água e tossindo.
Apesar das pontas de metal que se erguem da areia para me perfurar, corro por entre todas elas, me esquivando de cada obstáculo. Eles me treinaram para isso. É culpa deles. Ajudaram a criar seu próprio fim.
Evangeline acena com a mão e envia uma viga de metal direto para minha cabeça. Deslizo pela areia, ralando os joelhos, e apareço do lado de minha rival com as mãos cheias de raios.
Ela invoca todas as suas lâminas para forjar uma espada. Os raios estouram contra ela e eletrizam o metal, mas Evangeline não desiste. O metal agita e se espalha ao nosso redor na tentativa de me vencer. Até suas aranhas retornam para me despedaçar, mas não bastam. Ela não basta.
Outra explosão de raios manda as lâminas para longe e faz Evangeline se atirar no chão para tentar fugir de mim. Mas ela não vai conseguir.
— Não é truque — Evangeline ofega, pega de surpresa. Seu olhar salta para minhas mãos enquanto recua. Pedaços de metal se levantam entre nós para formar um escudo improvisado. — Não é mentira.
Sinto o gosto do sangue vermelho na boca, picante e metálico e estranhamente maravilhoso. Cuspo para todos verem. Sobre nós, noto o céu azul escurecer do outro lado da cúpula.
Nuvens negras se juntam, pesadas e carregadas de chuva.
— Você disse que ia me matar se um dia eu ficasse em seu caminho.
É tão bom atirar de volta as próprias palavras dela.
— Aqui está sua chance! — acrescento.
Seu peito sobe e desce, como se cada respiração exigisse muito esforço. Ela está ferida. O aço em seus olhos já está quase no fim e começa a dar lugar ao medo.
Evangeline investe e me preparo para defender seu ataque, mas ele nunca chega. Ela está correndo. Foge de mim, disparando rumo ao portão mais próximo que consegue encontrar. Eu avanço na direção dela, correndo para alcançá-la, mas os urros de frustação de Cal me fazem parar.
Osanos está em pé mais uma vez, duelando com força renovada, ao passo que Ptolemus dança entre eles, à procura de uma abertura. Cal não é bom contra ninfoides, não com seu fogo. Lembro da facilidade com que Maven foi derrotado no treinamento há tanto tempo.
Minha mão se fecha no punho do ninfoide e aplico um choque diretamente nele, forçando-o a dirigir sua raiva contra mim. A água me atinge como uma marreta e me lança para trás. As marteladas não param, e fica impossível respirar. Pela primeira vez, a mão fria do medo se fecha sobre mim. Agora que temos chance de ganhar, de viver, tenho muito medo de perder.
Meus pulmões clamam por ar e minha boca se abre por conta própria. A água desce goela abaixo, sufocante. Dói como o fogo, como a morte.
Uma minúscula centelha se desprende de mim e é o bastante: ela atravessa a água até desembocar em Osanos. O lorde salta para trás com um gemido, o que me dá tempo de escapar me arrastando pela areia molhada. O ar invade meus pulmões e inspiro longamente, mas não há tempo para desfrutar. Osanos já está sobre mim, desta vez com as mãos no meu pescoço enquanto prende meus pés com turbilhão de água sob seu controle.
Mas estou pronta para ele. É burro o bastante para me tocar, para colocar sua pele em contato com a minha. Quando libero a eletricidade que consome sua carne e sua água, uiva como um bule de chá e cai para trás. A água escoa pela areia, e então tenho a certeza de que está morto.
Quando me levanto, encharcada, tremendo de adrenalina, medo e força, meus olhos voam para Cal. Cheio de cortes e arranhões, sangrando por todos os lados, mas com os braços ardendo em chamas vermelhas. Ptolemus se encolhe a seus pés, com as mãos erguidas, derrotado, suplicando por clemência.
— Mata ele, Cal! — vocifero, querendo ver o Samos sangrar.
Acima de nós, o escudo de raios pulsa novamente com minha ira. Se fosse Evangeline. Se eu pudesse fazer isso com as próprias mãos.
— Ele tentou nos matar. Mata ele! — grito novamente.
Cal não se move, ofegando pelos dentes. Ele parece dividido, sôfrego por vingança, consumido pela emoção da batalha. Contudo, ao mesmo tempo, parece voltar a ser o homem calmo e reflexivo que costumava ser. O homem que já não pode ser.
Mas a natureza de um homem não se transforma facilmente. Ele recua e desfaz as chamas.
— Não.
O silêncio nos oprime, uma mudança fantástica na multidão que momentos antes gritava e urrava desejando nossa morte. Mas, quando levanto o olhar, percebo que eles não estão vendo. Percebo que não veem a misericórdia de Cal nem meu poder. Aliás, não estão nem presentes. A grandiosa arena foi esvaziada, não há ninguém para testemunhar nossa vitória. O rei os mandou embora para esconder o que fizemos e substituir pelas mentiras dele.
Do seu camarote, Maven aplaude.
— Muito bem! — grita, se aproximando da beirada da arena. Ele nos encara através do escudo com a mãe logo ao lado.
Suas palmas doem mais que qualquer corte e contorcem meus músculos. Ecoam pela construção vazia até serem superadas pelo som de pés em marcha, de botas sobre areia e rocha.
Agentes de segurança, sentinelas e soldados invadem a arena por todos os portões. São centenas, milhares, muitos para enfrentar. Muitos para fugir. Ganhamos a batalha, mas perdemos a guerra.
Ptolemus se arrasta e desaparece na multidão de soldados. Agora estamos sós no meio de um círculo cada vez mais fechado, sem nada nem ninguém.
Não é justo. Vencemos. Mostramos a eles. Não é justo, quero gritar, eletrificar, lutar furiosamente. Só que as balas vão me pegar primeiro. Lágrimas quentes se acumulam em meus olhos, mas não vou chorar. Não nestes últimos momentos.
— Desculpe por ter feito isto com você — sussurro para Cal.
Não importa o que eu pense de suas crenças, ele é o único perdedor aqui. Eu conhecia os riscos, mas ele era apenas um fantoche nas mãos dos muitos jogadores ao redor de um tabuleiro invisível.
Ele franze a testa e contorce o rosto, tentando encontrar um modo de escaparmos. Não há.
Não espero seu perdão, nem o mereço. Mas sua mão se fecha em torno da minha. Ele se apega à última pessoa ao seu lado.
Devagar, ele começa a cantarolar. Reconheço a melodia: é a canção triste. Foi ao som dela que nos beijamos na sala banhada pelo luar.
Trovões ressoam nas nuvens, prestes a explodir. Gotas de chuva furam a cúpula sobre nós. A eletricidade chia ao toque da chuva, mas a água desaba sobre nós mesmo assim. Até o céu chora nossa perda.
Da beira do camarote, Maven nos observa com desprezo. O escudo elétrico distorce seu rosto e o faz parecer o monstro que verdadeiramente é. A água pinga de seu nariz, mas ele não nota. Sua mãe sussurra algo em seu ouvido e ele volta à realidade com um pulo.
— Adeus, menininha elétrica.
Quando ele levanta a mão, acho que está tremendo.
Como a menininha que sou, fecho os olhos bem apertado à espera de sentir a dor ofuscante de cem balas despedaçando meu corpo. Meus pensamentos se voltam para dentro, para dias distantes no passado. Kilorn, meus pais, meus irmãos, minha irmã. Será que os verei em breve? Meu coração diz que sim. Estão à minha espera, em algum lugar, de algum jeito. E como naquele dia no Jardim Espiral, quando pensei estar caindo para a morte, sinto uma resignação fria. Vou morrer. Sinto a vida me deixar e não a impeço.
A tempestade no céu explode com um estrondo ensurdecedor de trovão, tão forte que faz o ar vibrar. O chão se abre sob meus pés e, mesmo com as pálpebras fechadas, percebo o clarão ofuscante. Branco e lilás, forte, a coisa mais forte que já senti. Fraca, pergunto o que vai acontecer se me acertar. Vou morrer ou sobreviver? Será que vou ser forjada como uma espada, transformada em algo terrível, afiado e novo?
Nunca vou saber.
Cal me agarra pelos ombros e nós dois pulamos para longe de um relâmpago gigante. Ele destrói o escudo e espalha estilhaços lilás por toda a parte como flocos de neve. O raio roça minha pele e produz uma sensação maravilhosa, um pulso vigoroso de poder para me reavivar.
Ao nosso redor, os atiradores se abaixam ou fogem na tentativa de escapar da tempestade elétrica. Cal tenta me puxar, mas mal o noto. Em vez disso, meus sentidos vibram com a tempestade que se agita sobre mim. Ela é minha.
Outro raio cai sobre a arena. Os agentes de segurança debandam e fogem para os portões. Mas os sentinelas e os soldados não são tão fáceis de assustar e voltam a si rapidamente.
Embora Cal me arraste para salvar a nós dois, eles nos perseguem até formar um círculo de armas ao nosso redor.
Por melhor que seja a sensação, a tempestade suga toda a minha energia. Controlar uma tempestade elétrica é simplesmente demais para mim. Meus joelhos se dobram e meu coração acelera como um tambor, tão rápido que acho que vai explodir.
Só mais um raio. Um só, e teremos uma chance.
Contudo, sei que acabou quando caio para trás ao tropeçar na borda do espaço vazio que antes continha a água de Osanos. Não há mais para onde fugir.
Cal me segura firme e me puxa para evitar minha queda. Não há nada lá embaixo a não ser trevas e o eco da água correndo nas profundezas. Nada além de canos e vazio.
O escudo está quebrado, a tempestade morre aos poucos, e nós perdemos. Maven sente o cheiro da minha derrota e abre um sorriso terrível do camarote. Apesar da distância, avisto as pontas reluzentes de sua coroa. A água da chuva passa por cima dos seus olhos, mas ele não pisca. Não quer perder minha morte.
As armas se erguem e agora não vão esperar pelas ordens de Maven.
Os tiros trovejam como minha tempestade e ecoam pela arena vazia. Só que não sinto nada. Os atiradores da primeira fileira caem com o peito crivado de balas, e eu não compreendo.
Olho para meus pés e dou com uma linha de armas estranhas bem na borda do abismo. Elas fumegam e saltam, ainda atirando, ceifando todos os soldados diante de nós.
Antes que eu possa compreender o que se passa, alguém agarra a parte de trás da minha camisa e me puxa para trás, para uma queda pelo ar sombrio. Aterrissamos na água das profundezas, mas os braços não me soltam.
A correnteza me conduz escuridão abaixo.

21 comentários:

  1. Aninha das kebradas5 de março de 2017 10:08

    ...O.K...ACABOU????
    I-N-D-I-G-N-A-D-A

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  2. QUERO O PRÓXIMO LIVRO AGORA!
    CARAMBA, QUE REVIRAVOLTA.
    AMEI *-*
    ~POLLY~
    ACHO QUE SÃO A GUARDA ESCARLATE.

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    1. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 08:13

      — Era para você ser meu! — uma voz grita.
      Como vc disse...ERA.
      Tchal biitch

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  3. Nossa!!! Essa Mare é pancada hem!!! Muito bom!!!

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  4. "Gotas de chuva furam a cúpula sobre nós. A eletricidade chia ao toque da chuva"

    Água n conduz eletricidade?

    Letícia.

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    1. Pois é! Sempre me pergunto isso. Pq ela não eletrocuta os inimigos? É provável que acabasse machucando Cal também, se ela for imune a isso, mas pelo menos morreria levando todo mundo

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    2. Só a água salgada conduz eletricidade,os outros tipos não :-/

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  5. Acho que a água só conduz eletricidade se for salgada ou tiver algum mineral sei lá...Se for destilada não conduz mas a da chuva eu n sei dizer

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  6. Só tenho uma coisa á dizer: Ai MDS.

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  7. Sinceramente ela deveria ter aprendido sobre eletricidade... porque fala serio ela perde muitas chance de mostra seu verdadeiro poder :/

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  8. alguém me explica porque ela não eletrocutou o maeven e a mãe dele sendo que o escudo que usavam para se proteger era de energia e mare recuperou os seus poderes, sabem me explicar?

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  9. Partiu Próximo <3

    Ass: Apaixonada por livros

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  10. .......COMO ACABO.....NÃOO... EU QUERO O LIVRO ESPADA DE VIDRO

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  11. 😲😲😲🎊👏🎉👏🎊👏🎉👏

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  12. A cada capítulo sofro um mini ataque cardíaco.Alguém mais se identifica?

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  13. AAAAAH QUE FINAL ÉPICO! MDS QUANTAS REVIRAVOLTAS. 😱

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  14. GENTE, meu deus n sei o que esperar do próximo livro, só sei q vai ser FODA!!!!

    Ps:O Lucas morreu mesmo q triste...

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  15. O QUE FOI ISSSSSO ???
    S2 S2. S2

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  16. foi emocionante e tragico fiquei muito triste pelo lucas pq ele era inocente e ainda morreu com raiva da mare.
    ass:rosany

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Boa leitura :)