15 de março de 2017

Capítulo vinte e nove

Evangeline

AS PORTAS DA TORRE ADMINISTRATIVA de Corvium são de carvalho maciço, mas suas dobradiças e ornamentos são de ferro. Elas deslizam para abrir à nossa frente, curvando-se à Casa Samos. Entramos na câmara do conselho com graciosidade, diante dos olhos da nossa patética aliança remendada. Montfort e a Guarda Escarlate se sentam à esquerda, modestos em seus uniformes verdes; os prateados estão à direita, nas cores de suas respectivas Casas. Seus respectivos líderes, o primeiro-ministro Davidson e a rainha Anabel, nos observam entrar, em silêncio. Anabel agora usa sua coroa, apresentando-se como rainha, embora seu rei tenha morrido há muito tempo. É de ouro rosé surrado, cravejada de pequenas joias pretas. Simples. Mas se destaca mesmo assim. Ela tamborila os dedos mortais no tampo da mesa, exibindo sua aliança de casamento. Uma joia ardente, também feita de ouro rosé. Como Davidson, Anabel tem o olhar de um predador: nunca pisca, nunca se distrai. O príncipe Tiberias e Mare Barrow não estão aqui, ou sou eu que não os vejo. Me pergunto se eles vão se separar, sentando cada um de um lado.
As janelas da sala da torre têm vista para o campo aberto, onde o ar ainda arde com as cinzas e os terrenos a oeste estão afogados em lama, inundados e pantanosos devido à catástrofe sem precedentes. Mesmo dessa altura, tudo tem cheiro de sangue. Esfreguei as mãos pelo que pareceram horas, lavando cada centímetro, e ainda não consegui me livrar do cheiro. Ele se agarra como um fantasma, mais difícil de esquecer que o rosto das pessoas que matei na batalha. O gosto metálico infesta tudo.
Apesar da vista imponente, todos os olhares estão focados na pessoa mais imponente da nossa família. Meu pai não está com a túnica preta, apenas a armadura de cromo, cintilante como um espelho, moldada para se ajustar a ele. Um rei guerreiro em cada parte do seu ser. Minha mãe tampouco desaponta. Sua coroa de joias verdes combina com a jiboia esmeralda enrolada em seu pescoço como um xale. Ela desliza lentamente, suas escamas refletindo a luz do entardecer. Ptolemus tem um visual parecido com o de papai, apesar da armadura que recobre seu largo peitoral, sua cintura estreita e suas pernas esguias ser preta como petróleo. A minha é uma mistura das duas, com camadas de cromo e aço negro apertadas contra a pele. Não é a mesma que usei na batalha, mas é a de que preciso agora. Terrível, ameaçadora, demonstrando cada gota de orgulho e poder dos Samos.
Quatro cadeiras parecidas com tronos estão dispostas de costas para as janelas. Sentamos ao mesmo tempo, como uma frente unida. Não importa o quanto eu queria gritar.
Sinto como se traísse a mim mesma, deixando os dias e as semanas passarem sem me opor. Sem dar um pio sobre o quanto o plano do meu pai me apavora. Não quero ser rainha de Norta. Não quero pertencer a ninguém. Mas o que quero não importa. Nada vai ameaçar seus planos. Ninguém pode negar nada ao rei Volo. Nem sua filha, seu próprio sangue. Sua posse.
Uma dor familiar demais cresce no meu peito enquanto me ajeito no trono. Faço meu melhor para manter a compostura, ficando em silêncio e parecendo respeitosa. Leal ao meu sangue. É tudo o que sei.
Não falo com meu pai há semanas. Só consigo balançar a cabeça diante dos seus comandos. As palavras estão além da minha capacidade. Se abrir a boca, temo que meu temperamento me faça perder o controle. Foi ideia de Tolly. Dê um tempo, Eve. Dê um tempo. Mas para quê, eu não sei. Meu pai não muda de ideia. E a rainha Anabel está inflexível quanto a colocar seu neto de volta no trono. Meu irmão está tão desapontado quanto eu. Tudo o que fizemos — casá-lo com Elane, trair Maven, apoiar as ambições reais do nosso pai — foi para que pudéssemos ficar juntos. Não valeu de nada. Ele reinará em Rift, casado com a garota que eu amo, enquanto sou despachada como um caixote de munição, mais um presente para um rei.
Fico grata pela distração quando Mare Barrow decide agraciar o conselho com sua presença, com o príncipe Tiberias grudado em seus calcanhares. Esqueci que ele se transforma em um cachorrinho dramático quando ela está junto, com seus olhos arregalados implorando por atenção. Seus sentidos militares afiados se focam nela em vez de se dedicarem à missão diante de nós. Ambos ainda estão vibrando com a adrenalina do cerco, e não é de se admirar. Foi brutal. Barrow ainda tem sangue no uniforme.
Eles caminham pelo corredor central que divide o conselho. Se sentem o peso dos olhares, não demonstram. A maior parte das conversas se reduz a murmúrios ou para de vez para observar os dois, esperando para ver qual lado da sala vão escolher.
Mare é rápida, passando pela primeira fileira de uniformes verdes para se encostar na parede mais distante. Fora do centro das atenções.
O rei de Norta por direito não a segue. Em vez disso ele se aproxima da avó, para abraçá-la. Anabel é muito menor do que ele e parece reduzida a uma velhinha em sua presença. Mas os braços dela o envolvem com facilidade. Eles têm os mesmos olhos, flamejantes como bronze quente. Anabel sorri para ele.
Tiberias prolonga o abraço, apenas por um instante, agarrando-se ao que restou de sua família. O lugar ao lado da avó está vazio, mas ele não senta. Opta por se juntar a Mare na parede. Cruza os braços sobre o peitoral largo, fixando um olhar fervoroso no meu pai. Me pergunto se sabe o que ela planejou para nós dois.
Ninguém ocupa o lugar que Tiberias deixou para trás. Ninguém ousa tomar o assento do herdeiro legítimo de Norta. Meu amado noivo, ecoa na minha cabeça. As palavras me provocam mais que as cobras da minha mãe.
De repente, com um gesto, meu pai arrasta Salin Iral pela fivela do cinto, puxando-o do seu assento e pelo piso de carvalho. Ninguém protesta ou faz um som sequer.
— Vocês deveriam ser caçadores.
A voz do meu pai ressoa grave na garganta.
Lord Iral não se importou em se limpar depois da batalha, o que fica evidente pelo seu cabelo encharcado de suor. Ou talvez só esteja paralisado de medo. Não o culpo.
— Majestade…
— Você me garantiu que Maven não escaparia. Acredito que suas exatas palavras foram “nenhuma cobra pode escapar de um silfo”. — Meu pai não é condescendente com a falha de um nobre, uma vergonha para sua Casa e seu nome. Minha mãe assiste a ambos, olhando tanto com seus próprios olhos quanto pelos olhos da cobra verde. O réptil nota minha atenção e sibila a língua rosa bipartida na minha direção.
Outros assistem à humilhação de Salin. Os vermelhos parecem ainda mais sujos que ele, alguns ainda cobertos de lama e azuis por causa do frio. Pelo menos não estão bêbados. O general Laris balança na cadeira, dando goles frequentes em um frasco maior do que qualquer coisa que alguém deveria portar na companhia de pessoas civilizadas. Não que meu pai, minha mãe ou qualquer um vá se ressentir pela bebedeira. Laris e sua Casa fizeram um belo trabalho, trazendo os jatos para a batalha enquanto dissipavam a tempestade infernal que ameaçava soterrar Corvium sob a neve. Provaram seu valor.
Assim como os sanguenovos. Por mais tolo que o nome escolhido por eles soe, aguentaram o ataque por horas. Sem o sangue e o sacrifício deles, Corvium estaria de volta nas mãos de Maven. Mas ele falhou pela segunda vez. Foi derrotado duas vezes.
Na primeira pela plebe e agora pela mão de um exército decente e de um rei respeitável. Meu estômago revira. Apesar de termos vencido, a vitória tem gosto de derrota para mim.
Mare encara o embate, seu corpo inteiro tenso como um arame retorcido. Os olhos dela saltam de Salin para meu pai, antes de se perderem em Tolly. Estremeço de medo por meu irmão, apesar de Mare ter prometido não matá-lo. Na Praça de César, ela libertou uma fúria que nunca vi. E, no campo de batalha de Corvium, se defendeu sozinha, mesmo cercada por um exército de prateados. Seus raios são bem mais mortais do que eu lembrava. Se decidir matar Tolly agora, duvido que alguém possa detê-la. Poderiam puni-la depois, mas não impedi-la.
Tenho a sensação de que ela não vai ficar nada feliz com o plano de Anabel.
Qualquer prateada apaixonada por um rei se contentaria em ser sua consorte, unida a ele, ainda que não casada; mas não acredito que os vermelhos pensem dessa forma. Eles não fazem ideia de como o laço de uma Casa é importante ou o quanto herdeiros de sangue forte são essenciais. Acreditam que o amor tem importância quando votos de casamento são feitos. Suponho que isso seja uma pequena bênção na vida deles. Sem poder, sem força, não têm nada para proteger, nenhum legado para manter. Sua vida é irrelevante, mas pelo menos lhes pertence.
Como pensei que a minha me pertencia, por algumas semanas breves e tolas.
No campo de batalha, disse a Mare Barrow para não se acostumar com o meu resgate. É irônico. Agora eu espero que ela me salve da prisão dourada de uma rainha e da jaula matrimonial do rei. Espero que suas tempestades destruam a aliança antes mesmo que se concretize.
— … preparado para a fuga tanto quanto para o ataque. Lépidos estavam a postos, transportes, jatos. Não vimos nenhum sinal de Maven — Salin continua protestando, com as mãos erguidas. Meu pai o solta. Ele sempre dá às pessoas corda suficiente para se enforcarem. — O rei de Lakeland estava lá. Ele comandou as tropas pessoalmente.
Os olhos do meu pai brilham e escurecem, a única indicação de seu desconforto repentino.
— E?
— E agora está morto junto com o resto. — Salin levanta o olhar para seu rei de aço, como uma criança buscando aprovação. Ele treme até as pontas dos dedos. Penso em Iris, deixada para trás em Archeon, uma nova rainha em um trono envenenado. Agora sem pai, separada da única família que veio para o sul ao seu lado. Ela era formidável, para dizer o mínimo, mas isso vai enfraquecê-la imensamente. Se não fosse minha inimiga, teria pena dela.
Lentamente, meu pai levanta do trono. Parece pensativo.
— Quem matou o rei de Lakeland?
A corda se aperta.
Salin sorri.
— Eu.
A corda se fecha e meu pai também. Com o punho cerrado, em um piscar de olhos, ele gira os botões do casaco de Salin, enrolando-os como finas hastes de ferro. Cada uma delas se enrola no pescoço dele, puxando, forçando-o a ficar de pé. Elas continuam subindo, até que seus dedos mal toquem o chão, procurando apoio.
Nas mesas, o líder de Montfort se recosta na cadeira. A mulher ao lado dele, uma loira austera com cicatrizes no rosto, curva os lábios em escárnio. Lembro dela do ataque em Summerton. Foi quem quase tirou a vida do meu irmão. Cal a torturou pessoalmente e agora estão praticamente lado a lado. É do alto-escalão da Guarda Escarlate. Se não me engano, também é uma das pessoas mais próximas de Mare.
— Segui suas ordens… — Salin engasga. Ele agarra as amarras de metal em volta do pescoço, afundando em sua pele. Seu rosto fica cinza conforme o sangue se acumula.
— Minhas ordens eram para matar Maven Calore ou impedir que escapasse. Você não fez nada disso.
— Eu…
— Mas matou um rei de uma nação soberana. Um aliado de Norta que não tinha motivos para se envolver, além de defender a nova rainha. Mas agora? — Meu pai desenha, usando sua habilidade para arrastar Salin mais para perto. — Agora no mínimo você deu a eles um incentivo maravilhoso para afogar todos nós. A rainha regente de Lakeland não vai tolerar isso. — Ele estapeia Salin no rosto. Ouve-se o barulho ressoante de algo se quebrando. A intenção do golpe era envergonhá-lo, não machucar. Funcionou bem. — Retiro seus títulos e responsabilidades. A Casa Iral pode redistribuí-los como achar mais adequado. Agora tirem esse verme da minha frente.
A família de Salin é rápida ao arrastá-lo da câmara antes que possa cavar um buraco maior para si próprio. Quando as amarras de metal se soltam, tudo o que ele faz é tossir e chorar. Seus soluços ecoam pelo corredor, mas são logo cortados pelas portas que se fecham. Um homem patético. Contudo, estou contente por não ter matado Maven.
Se o pirralho morresse hoje, não haveria obstáculo entre Cal e o trono. Entre mim e Cal. Dessa forma, ainda há alguma esperança.
— Alguém tem alguma contribuição útil a fazer? — Meu pai senta e passa o dedo pelo dorso da cobra que repousa no colo da minha mãe. Seus olhos se fecham de prazer. É nojento.
Jerald Haven parece querer desaparecer na cadeira, e talvez desapareça de fato. Ele olha para as mãos entrelaçadas, torcendo para meu pai não humilhá-lo a seguir. Por sorte, é salvo pela comandante da Guarda Escarlate, de cara amarrada. Ela se levanta, fazendo a cadeira arranhar o chão.
— Nossos espiões indicam que Maven Calore agora conta com observadores para mantê-lo seguro. Eles podem ver o futuro imediato…
Minha mãe estala a língua.
— Sabemos o que é um observador, vermelha.
— Que bom pra você — a comandante retruca sem hesitar.
Se não fosse pelo meu pai e por nossa posição vulnerável, imagino que minha mãe lançaria a cobra esmeralda para cima da garganta da vermelha. Mas ela apenas morde o lábio.
— Controle seu povo, primeiro-ministro, ou eu o farei.
— Sou uma general do Comando da Guarda Escarlate, prateada — a mulher cospe de volta. Vejo de relance Mare rindo atrás dela. — Se quer nossa ajuda, demonstrará algum respeito.
— É claro — minha mãe concede com graciosidade. Suas joias reluzem conforme ela abaixa a cabeça. — O respeito surge quando há motivo para isso.
A comandante ainda olha ameaçadora, sua raiva fervendo. Ela encara a coroa da minha mãe com nojo.
Penso rápido e bato as mãos. É uma convocação. Em silêncio, uma criada vermelha da Casa Samos galopa para a câmara com uma taça de vinho na mão. Ela conhece suas ordens e dispara até o meu lado, me oferecendo a bebida. Com movimentos lentos e exagerados, pego a taça. Em nenhum momento perco contato visual com a comandante vermelha enquanto bebo. Meus dedos tamborilam o vidro dilapidado para ocultar meu nervosismo. Na pior das hipóteses, deixarei meu pai furioso. Na melhor…
Estilhaço a taça de vidro no chão. Até eu estremeço com o som e a implicação disso. Meu pai tenta não reagir, mas seus lábios se apertam. Você deveria me conhecer melhor do que isso. Não vou desistir sem lutar.
Sem hesitar, a criada ajoelha e limpa tudo, recolhendo os estilhaços de vidro com as mãos. Sem hesitar, a destemida comandante vermelha levanta, fazendo com que todos se agitem. Prateados ficam de pé, assim como vermelhos e a própria Mare, que se direciona até a amiga.
A comandante vermelha é bem maior, mas Barrow a detém mesmo assim.
— Como podemos aceitar isso? — a mulher grita comigo, apontando na direção da criada no chão. O cheiro de sangue no ar se intensifica dez vezes quando ela corta a mão. — Como?
Todos na sala parecem se perguntar a mesma coisa. Gritos se elevam entre os membros mais voláteis de cada lado. Somos Casas prateadas de sangue nobre e antigo, aliados com rebeldes, criminosos, criados e ladrões. Com habilidades ou não, nossos estilos de vida seguem em direção oposta. Nossas metas não são as mesmas. A câmara do conselho vira um barril de pólvora. Se tiver sorte, vai explodir. Estilhaçando qualquer ameaça de casamento. Destruindo a jaula em que querem me prender.
Sobre o ombro de Mare, a comandante me olha com sarcasmo, seus olhos parecendo duas adagas azuis. Se esta sala e minha própria roupa não estivessem repletas de metal, estaria preocupada. Eu a encaro de volta, aparentando ser exatamente a princesa prateada que ela foi criada para odiar. Aos meus pés, a criada termina o trabalho e desaparece, as mãos perfuradas por cacos de vidro. Faço uma anotação mental para lembrar de mandar Wren curá-la mais tarde.
— Péssima jogada — minha mãe sussurra na minha orelha. Ela dá tapinhas no meu braço e a cobra desliza por sua mão, enrolando-se em minha pele. Seu corpo é pegajoso e frio.
Ranjo os dentes, reagindo à sensação.
— Como podemos aceitar isso?
A voz do príncipe corta o caos. Paralisa muitos, inclusive a comandante vermelha furiosa. Mare a retira dali audaciosamente, levando-a de volta para a cadeira com certa dificuldade. O resto se vira para o príncipe exilado, observando-o enquanto se endireita. O passar dos meses fez bem a Tiberias Calore. A guerra combina com ele. Parece vibrante e vivo, mesmo após escapar por pouco da morte na muralha. De seu assento, sua avó se permite um pequeno sorriso. Sinto meu coração afundar no peito.
Não gosto do caminho que isso está tomando. Minhas mãos agarram os braços do trono, as unhas cravadas na madeira em vez de na carne.
— Cada pessoa nesta sala sabe que chegamos a um ponto de virada. — Seus olhos vagueiam para achar Mare. Ele extrai suas forças dela. Se eu fosse sentimental, ficaria tocada. Penso em Elane, deixada para trás em segurança na mansão Ridge. Ptolemus necessita de um herdeiro e nenhum de nós a quer na batalha. Mesmo assim, gostaria que estivesse sentada ao meu lado, em vez de ter que passar por isso sozinha.
Cal foi treinado e não tem dificuldade com discursos. Ainda assim, ele não é tão talentoso quanto o irmão e tropeça várias vezes enquanto perambula pela sala.
Infelizmente, ninguém parece se importar.
— Os vermelhos têm vivido basicamente como escravos, presos a essa sina. Seja em uma favela, em um dos nossos palácios ou em um vilarejo sobre um rio lamacento. — As bochechas de Mare ficam coradas. — Eu pensava como me ensinaram. Achava que nossos costumes são imutáveis. Que os vermelhos são inferiores. Que uma mudança quanto a seu lugar na sociedade nunca aconteceria, não sem derramamento de sangue. Não sem grande sacrifício. Antes, achava que se tratava de um preço alto demais para pagar. Mas estava errado.
Cal olha para mim. Estremeço.
— Aqueles entre vocês que discordam, que acreditam que são melhores, que são deuses, estão errados. E não é porque pessoas como a garota elétrica existem. Não é porque de repente nos encontramos numa posição em que precisamos de aliados para derrotar meu irmão. É porque sempre estivemos errados.
“Nasci um príncipe. Tive mais privilégios do que quase qualquer um aqui. Fui criado com serviçais que atendiam a qualquer aceno ou chamado e fui ensinado que o sangue deles, por causa de sua cor, indicava que eram menos importantes do que eu. Vermelhos são ignorantes; vermelhos são ratos; vermelhos são incapazes de controlar a própria vida; vermelhos foram feitos para servir. Essas são as palavras que todos nós ouvimos. E são mentiras. Mentiras convenientes, para tornar nossa vida mais fácil ou apagar nossa vergonha, enquanto tornam a existência deles insuportável.”
Ele para próximo à avó.
— Isso já não pode ser tolerado. Simplesmente não pode. A diferença não é um divisor.
Pobre e ingênuo Calore. Sua avó balança a cabeça em aprovação, mas lembro do que disse na minha própria casa. Quer o neto no trono e quer o velho mundo.
— Primeiro-ministro — Tiberias diz, gesticulando para o líder de Montfort.
Após limpar a garganta, o homem se levanta. Mais alto que a maioria, mas muito magro. Tem a aparência e a expressão vazia de um peixe pálido.
— Rei Volo, agradecemos por sua ajuda na defesa de Corvium. E aqui e agora, diante dos olhos de nossas lideranças, gostaria de saber sua opinião em relação ao que o príncipe Tiberias acabou de dizer.
— Se você tem uma pergunta, primeiro-ministro, faça — meu pai troveja.
O homem mantém a expressão impassível, indecifrável. Tenho a impressão de que esconde tantos segredos e ambições quanto o resto de nós. Gostaria de poder escrutiná-lo.
— Vermelho ou prateado, majestade. Que cor se levanta nessa rebelião?
Um músculo se repuxa em sua bochecha pálida conforme meu pai expira. Ele passa a mão pela barba pontiaguda.
— Ambas, primeiro-ministro. Essa é uma guerra para todos nós. Nisso você tem minha palavra, juro pela cabeça dos meus filhos.
Muito obrigada, pai. A comandante vermelha vai cobrar essa promessa com um sorriso se lhe for dada a oportunidade.
— O príncipe Tiberias fala a verdade — meu pai continua, mentindo descaradamente. — O mundo mudou. E temos que mudar com ele. Inimigos comuns se tornam estranhos aliados, mas aliados mesmo assim.
Como Salin, sinto o laço se fechando. Está em volta do meu pescoço, ameaçando me jogar para o abismo. É essa a sensação que terei pelo resto da vida? Quero ser forte. Foi para isso que treinei e sofri. Era o que achava que queria. Mas a liberdade é tão doce. Uma gota dela e não consigo ficar sem. Sinto muito, Elane. Muito mesmo.
— Você tem outras perguntas sobre o que foi acordado, primeiro-ministro? — Meu pai prossegue. — Ou podemos continuar planejando a derrota do tirano?
— Que acordo seria esse? — A voz de Mare soa diferente, e não é de admirar. Eu a ouvi pela última vez quando ela era prisioneira, sufocada quase ao ponto de não a reconhecer. Sua fagulha voltou com força. Ela olha para meu pai e o primeiro-ministro, buscando respostas.
Meu pai fica quase contente ao se explicar, e eu prendo a respiração. Me salve, Mare Barrow. Liberte a tempestade que eu sei que possui. Enfeitice o príncipe como sempre faz.
— O reino de Rift continuará soberano depois que Maven for removido. Os reis do aço reinarão por gerações. Com concessões aos meus cidadãos vermelhos, é claro. Não tenho intenção alguma de criar um país de escravos como Norta. — Mare parece muito longe de se convencer, mas segura a língua. — E é claro que Norta precisará do seu próprio rei.
Seus olhos arregalam. O horror sangra dela, que vira a cabeça para Cal, procurando respostas. Ele parece tão surpreso quanto ela está furiosa. A garota elétrica é mais fácil de ler do que um livro para crianças.
Anabel levanta da cadeira e fica orgulhosamente de pé. Seu rosto está radiante quando vira para Cal, colocando a mão na bochecha dele. O príncipe está muito chocado para reagir ao toque.
— Meu neto é o legítimo rei de Norta e o trono pertence a ele.
— Primeiro-ministro… — Mare sussurra, agora olhando para o líder de Montfort. Ela está quase implorando. Um toque de tristeza desponta na máscara dele.
— Montfort declara seu apoio ao reinado de Ca… — Ele para. Olha para todos os lados, menos para Mare Barrow. — Do rei Tiberias.
Uma corrente de calor se agita no ar. O príncipe está furioso, quase violento. E o pior ainda está por vir, para todos nós. Se eu tiver sorte, ele vai queimar a torre toda.
— Consolidaremos a aliança entre Rift e o rei de Norta da forma tradicional — minha mãe diz, torcendo a faca. Ela saboreia isso. Preciso de todas as forças para conter as lágrimas dentro de mim, onde ninguém mais pode vê-las.
O significado das palavras dela é compreendido por todos. Cal solta um som estrangulado, um grasnado bem inapropriado para um príncipe e mais ainda para um rei.
— Mesmo depois de tudo isso, a Prova Real ainda selecionou a futura rainha. — Minha mãe passa a mão pela minha, seus dedos apontando para onde meu anel de noivado estará.
De repente, a grande câmara parece sufocante e o cheiro de sangue sobrepuja meus sentidos. É a única coisa em que consigo pensar e me apoio nisso para me distrair, deixando o gosto penetrante do ferro me dominar. Minha mandíbula trava, os dentes se apertando com força contra todas as coisas que quero dizer. As palavras se agitam na minha garganta, querendo se libertar. Não quero mais isso. Me deixe ir embora. Cada palavra é uma traição contra a minha Casa, minha família, meu sangue. Meus dentes rangem. Meu coração está trancado numa jaula.
Me sinto aprisionada dentro de mim mesma.
Faça-o escolher, Mare. Faça com que me rejeite.
A respiração dela é pesada, seu peito sobe e desce muito rápido. Como eu, Mare quer gritar. Espero que veja o quanto desejo recusar esse destino.
— Ninguém pensou em me consultar? — o príncipe sibila, empurrando a avó para longe. Seus olhos queimam. Ele aperfeiçoou a arte de encarar uma dezena de pessoas de uma única vez. — Pretendiam me transformar em rei… sem meu consentimento?
Anabel não tem medo algum das chamas e agarra seu rosto mais uma vez.
— Não estamos te transformando em nada. Estamos simplesmente te ajudando a ser quem você é. Seu pai morreu pela coroa e você quer jogá-la fora? Quer abandonar seu país? Por quem? Pelo quê?
Cal não responde. Diga não. Diga não. Diga não.
Mas eu já o vejo sendo tragado. Atraído. O poder seduz e cega a todos. Cal não é imune a isso. No mínimo, é particularmente vulnerável. Por toda a sua vida viu um trono, preparando-se para o dia em que seria dele. Sei por experiência própria que esse não é um hábito fácil de romper. Também sei por experiência própria que poucas coisas são mais doces que uma coroa. Penso em Elane de novo. Será que Cal pensa em Mare?
— Preciso de ar — ele sussurra.
É claro que Mare o segue, as faíscas se agitando em seu rastro.
Por instinto, quase peço outra taça de vinho, mas me contenho. Mare não estará aqui para conter a comandante se ela estourar de novo, e mais álcool só vai me deixar mais enjoada do que já estou.
— Vida longa a Tiberias VII — Anabel diz.
A câmara ecoa o sentimento. Minha boca se mexe formando as palavras. Me sinto envenenada.

23 comentários:

  1. Coitadinho do cal!!!
    😢😢😢😢

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    1. Coitadinha da Mare:'(

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    2. Coitadinha da Elane

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    3. Coitadinho de nós que sofreremos com s consequências de tudo isso...
      ~polly~

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    4. Coitadinho do Cal, da Mare, da Evangeline e da Elane, pois são eles quem mais iram sofrer com essa história de casamento arranjado. Odeio os pais da Evangeline e não gosto muito dessa avó do Cal. Mas o que mais me deixa triste é que vamos ter que esperar não sei quanto tempo pra ver o desenrolar dessa história (espero que o Cal vire rei, se case com a Mare e que os dois façam com que acabe essa diferença entre prateados e vermelhos)

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  2. Merda, merda, merda...
    Pobre Cal

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  3. Mas que coisa. Arrg
    Tadinho do Cal

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  4. Aaaaaaaaaaa Anabel é uma vaca.. q nojooo.. lá se vai meu shipp por água abaixo.

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  5. Meu, não dá pra ser feliz né?
    Isso é tão Game of Thrones, quando a gente pensa que vai pra frente, a carroça enguiça de vez...

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    1. Verdade,a hora que você pensa "não, agora vai"não vai em lugar nenhum

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  6. ele vai ser rei, deveria ter o poder de fazer o que quiser, se tiver que enfrentar outra guerra que seja,uma a mais pra conta. Isso é frustante.

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  7. Quero o Cal como rei e Mare como rainha. Se essa saga acabar diferente disso, vou ficar muito p. .... da vida! !

    Flavia

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  8. Só o Cal pra mudar o rumo desse conchavo da vó escolhendo a Mare

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  9. Como Cal é frouxo!
    Fala logo que quer a coroa e a Mare!

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  10. Merda. Como que o livro acaba com uma bomba dessas??😦 COMO que vamos te que espera até ano que vem para saber o que vai acontecer?😡

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  11. Coitadinho da gente que vai ter que esperar até ano que vem para saber o que vai acontecer

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  12. Hm nunca confie na promessa de um Calore...

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  13. KARINA VOCÊ TEM QUE POSTAR A CONTINUAÇÃO ASSIM QUE FOR LANÇADA.OKAY?

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Boa leitura :)