13 de março de 2017

Capítulo vinte e nove

O REFEITÓRIO ESTÁ LOTADO, mas não é hora de comer.
O coronel anunciou uma “operação de alta prioridade” há mais ou menos uma hora, e o salão está transbordando tanto de homens escolhidos a dedo como de voluntários.
Os soldados de Lakeland são quietos, bem treinados e resignados. Os rebeldes são bem mais barulhentos, embora Farley esteja longe disso. Ela recebeu a patente de capitã de volta, mas não parece perceber. Senta em silêncio, distraída, enrolando um cachecol vermelho nas mãos. Quando adentro o refeitório acompanhada por meus irmãos, o barulho se extingue, e todos os olhos se voltam para mim. Exceto os de Farley. Ela sequer levanta a cabeça. Lory e Darmian chegam a aplaudir à minha passagem, o que me faz corar. Ada se une a eles e, para minha alegria, Nanny levanta ao lado dela, assim como Cameron. Elas conseguiram. Solto um suspiro curto, tentando me sentir aliviada. Ainda assim, não há sinal de Nix, Gareth ou Ketha. Eles podem ter escolhido não participar. Devem estar de saco cheio de correr perigo a esta altura. É o que digo a mim mesma quando sento ao lado de Farley. Bree e Tramy tomam os assentos logo atrás de mim, como se fossem guarda-costas.
Não somos os últimos a chegar. Harrick entra — acabou de chegar do Furo — e me cumprimenta com a cabeça. Ele segura a porta aberta para Kilorn. Meu coração dispara quando Cal aparece em seguida, seguido por Julian e Sara. Ao verem três prateados, muitos levantam, a maioria soldados de Lakeland. É difícil distinguir seus gritos em meio ao ruído, mas o sentido é claro: não querem eles aqui.
Por menos de um segundo, Cal e eu cruzamos nossos olhares em meio à comoção. Ele é o primeiro a desviar, encontrando um assento no fundo do salão. Julian e Sara se mantêm perto, ignorando as ofensas.
Kilorn, por sua vez, avança até a parte da frente, arrastando uma cadeira até o meu lado. Ele me cumprimenta com a cabeça casualmente, como se estivéssemos em um almoço.
— E então? Do que se trata? — ele diz, mais alto que o barulho.
Olho perplexa para o meu amigo. A última vez que o vi, ele estava me tirando de cima de Farley e parecia enojado com a minha existência. Agora ele está praticamente sorrindo. Chega até a tirar uma maçã do bolso do casaco e me oferecer o primeiro pedaço.
Abalada, mas firme, aceito o presente.
— Você estava fora de si — ele sussurra no meu ouvido. Ele pega a maçã de volta e dá uma mordida. — Esqueça aquilo. Mas se sair dos trilhos daquele jeito de novo, teremos que acertar as contas à moda de Palafitas, certo?
Minhas cicatrizes doem quando sorrio.
— Certo — digo. E em seguida, falo mais baixo, para que apenas ele ouça: — Obrigada.
Por um segundo, ele fica imóvel, estranhamente pensativo. Então balança a mão, sorrindo.
— Não foi nada. Já vi você pior que aquilo.
É uma mentira para me consolar, mas não rebato.
— Agora, o que é esse lance de alta prioridade? — ele pergunta. — Ideia sua ou do coronel?
Aproveitando a deixa, o coronel entra no refeitório com as mãos estendidas para pedir silêncio.
— Minha — cochicho, conforme o burburinho diminui.
— Silêncio! — ele ordena, com uma voz que parece o estalo de um chicote.
Os soldados de Lakeland obedecem na hora e retomam seus assentos num movimento ensaiado. O olhar do coronel é o que basta para calar os descontentes. Em seguida, ele aponta para o fundo do refeitório, para Cal, Julian e Sara.
— Aqueles três são prateados sim, mas provaram ser nossos aliados. Têm a minha permissão para estar aqui. Vocês os tratarão como qualquer outro aliado, como qualquer irmão ou irmã de armas.
Isso faz todos se calarem. Por enquanto.
— Vocês estão aqui porque se ofereceram para uma operação sem saber o que é. Trata-se de um ato de verdadeira coragem, e eu os cumprimento por isso — ele continua, assumindo seu lugar na frente do salão. Fico com a impressão de que já fez isso antes. Aqui, o cabelo raspado e o olho vermelho lhe dão um ar de autoridade, assim como a voz imponente. — Como sabem, a redução na idade de recrutamento resultou na convocação de soldados mais jovens, a partir dos quinze anos. No momento, uma legião deles está a caminho da frente de guerra. São cinco mil soldados, todos com apenas dois meses de treinamento.
Um murmúrio de raiva se levanta da multidão.
— Devemos agradecer a Mare Barrow e à equipe dela por nos trazerem essa informação — o coronel diz.
Não consigo deixar de sentir um desconforto. Minha equipe. Eles eram de Farley ou de Cal, mas não meus.
— A srta. Barrow também foi a primeira a se voluntariar para impedir essa tragédia antes que seja tarde demais.
O pescoço de Kilorn estala de tão rápido que se vira para mim. Ele arregala os olhos verdes, e não sei dizer se está irritado ou impressionado. Talvez um pouco dos dois.
— Eles foram apelidados de Legiãozinha — digo, me forçando a levantar para falar com o público de maneira adequada. As pessoas me encaram, com expectativa, e cada olho é como uma faca. As aulas de Lady Blonos vão se provar úteis agora. — De acordo com a nossa informação, as crianças serão enviadas direto para o Gargalo, além das trincheiras. O rei quer que elas morram para assustar e calar o nosso povo. E ele vai conseguir, se não fizermos alguma coisa. Proponho uma operação de duas frentes, uma liderada pelo coronel Farley e outra por mim. Vou me infiltrar na legião logo depois de Corvium, usando soldados que possam fingir ter quinze anos, a fim de separar os oficiais prateados das crianças. Então entraremos direto no Gargalo.
Faço o possível para não olhar para o fundo da sala, mas não consigo evitar Cal. Desta vez, sou eu quem precisa desviar o rosto.
— É suicídio! — alguém grita.
O coronel passa para o meu lado, balançando a cabeça.
— Minha própria unidade estará à espera no norte, nas trincheiras de Lakeland. Tenho contatos dentro do exército e posso ganhar tempo suficiente para a srta. Barrow passar. Assim que nos encontrarmos, vamos seguir para o lago Edris. Dois cargueiros de grãos devem ser o suficiente para atravessar todos. De lá, vamos entrar em um território disputado.
— Ridículo.
Não preciso levantar os olhos para saber que Cal está de pé, com as bochechas prata, os punhos cerrados, aborrecido com um plano tão idiota. Quase rio da cena.
— Em cem anos, nenhum exército de Norta cruzou o Gargalo. Nunca. E vocês acham que vão conseguir com um punhado de crianças?
Antes de continuar, ele se volta para mim, como que em súplica.
— Vocês teriam mais chance se voltassem para Corvium e se escondessem na floresta. Qualquer outra alternativa que não seja cruzar a droga de uma zona de conflito.
O coronel não se abala com nada disso.
— Quando foi a última vez que esteve nas trincheiras, alteza?
Cal não vacila.
— Seis meses atrás.
— Seis meses atrás, Lakeland tinha nove legiões no fronte, para se equiparar aos números de Norta. Hoje, eles têm duas. O Gargalo está aberto, e o seu irmão não percebe.
— Uma armadilha? Ou uma distração? — Cal pergunta em voz alta.
O coronel assente.
— Lakeland planeja atacar pelo lago Tarion, enquanto os exércitos de vocês estão ocupados defendendo um pedaço de nada que ninguém quer. A srta. Barrow podia atravessar com uma venda nos olhos e sair sem nenhum arranhão.
— E é exatamente isso que pretendo fazer. — Devagar, mas com firmeza, endureço o coração. Espero parecer corajosa, porque com certeza não me sinto assim. — Quem vem comigo?
Kilorn é o primeiro a levantar — e eu esperava por isso. Muitos outros o seguem: Cameron, Ada, Nanny, Darmian, e até Harrick. Mas não Farley. Ela permanece presa ao assento, deixando que seus tenentes levantem no seu lugar. O cachecol está muito apertado em volta do seu punho, o que deixa sua mão levemente azul.
Tento não olhar para ele. Definitivamente tento.
No fundo do salão, o príncipe exilado se põe de pé.
Ele me encara sem vacilar, como se pudesse me incendiar apenas com o olhar. Que desperdício. Já não há nada para queimar em mim.


Os túmulos no cemitério de Tuck são novos, marcados pela terra recém-cavada e algumas coroas de mato. Rochas fazem as vezes de lápides, cada uma delas gravada cuidadosamente pelos entes queridos dos que se foram. Quando descemos o caixão de tábuas de Shade, com todos os Barrow de pé à beira do buraco, me dou conta de que temos sorte. Pelo menos temos um corpo para enterrar. Muitos não têm esse privilégio. Como Nix, Ketha e Gareth. De acordo com Ada, eles não conseguiram chegar nem ao Abutre nem ao jato de carga. Morreram em Corros ao lado de quarenta e dois prisioneiros, segundo seus cálculos impecáveis. Mas trezentos sobreviveram. Trezentos em troca de quarenta e cinco. Bela troca, digo a mim mesma. Saiu barato. As palavras me alfinetam, mesmo na minha cabeça.
Farley se abraça para se proteger do vento frio, mas se recusa a vestir o casaco. O coronel também está presente, mantendo uma distância respeitosa. Não está aqui por Shade, mas por sua filha em luto, embora não esboce qualquer movimento para confortá-la. Para a minha surpresa, Gisa fica ao lado dela, passando um braço pela cintura da capitã. Quando Farley permite isso, quase caio para trás, chocada. Não sabia que as duas sequer se conheciam, e aqui estão, parecendo tão íntimas. De algum modo, por baixo da minha tristeza, consigo sentir um pouco de inveja. Ninguém tenta me confortar, nem mesmo Kilorn. O enterro de Shade é demais para ele; ele senta numa elevação mais adiante, longe o suficiente para que ninguém o veja chorar.
Enterra a cabeça entre as pernas de vez em quando, incapaz de ver Bree e Tramy começando a jogar terra na cova.
Não dizemos nada. É difícil demais. O vento passa direto por mim, uivando, e desejo calor. Desejo um calor que possa me confortar. Mas Cal não está aqui. Meu irmão morreu, e o coração teimoso de Cal não o deixa vir aqui para assistir ao enterro.
Minha mãe joga a última pá de terra. Seus olhos estão secos, já sem lágrimas para oferecer. Ao menos temos isso em comum.
“Shade Barrow” é o que está escrito na lápide. As letras parecem arranhadas, entalhadas por algum animal selvagem, e não pelos meus pais. Parece errado enterrá-lo aqui. Ele deveria ficar em Palafitas, perto do rio e das florestas que tanto amava. Não aqui, numa ilha estéril, cercado de dunas e concreto, com nada além do céu vazio para lhe fazer companhia. Shade não merecia esse destino.
Jon sabia que isso ia acontecer. Jon deixou isso acontecer.
Um pensamento sombrio ocupa minha mente. Talvez seja mais uma troca, mais uma barganha. Talvez tenha sido o melhor destino possível para o meu irmão.
Meu irmão mais inteligente, mais carinhoso, que sempre me salvava, que sempre sabia o que dizer. Como este pode ser o melhor fim? Como pode ser justo?
Mas sei melhor do que a maioria que nada é justo neste mundo.
Minha visão fica turva. Continuo olhando a terra batida por sabe-se lá quanto tempo, até restarmos apenas Farley e eu no cemitério. Quando levanto a cabeça, ela me encara, e sua expressão é uma tempestade de raiva e dor. O vento bagunça seu cabelo, que cresceu bastante ao longo dos últimos meses, e agora está quase na altura do queixo. Ela o joga para trás com tanta violência que fico com medo de que os arranque.
— Não vou com você — ela se esforça para dizer.
Só posso assentir.
— Você já fez muito por nós, mais do que suficiente. Eu entendo.
— Não, não entende — ela desdenha. — Não poderia me importar menos com a minha própria segurança, não agora.
Seus olhos voltam a pousar sobre a cova. Uma lágrima solitária escapa, mas ela não percebe.
— A resposta para a minha pergunta... — ela murmura, não pensando mais em mim. Então balança a cabeça e se aproxima. — Não era uma pergunta, aliás. Eu já sabia, lá no fundo. Acho que Shade também sabia. Ele é, era, muito perceptivo. Diferente de você.
— Sinto muito por todos que você perdeu — digo, mais brusca do que gostaria. — Sinto...
Ela apenas faz um gesto com a mão, dispensando minhas desculpas. Nem quer saber como descobri.
— Shade, minha mãe, minha irmã. E meu pai. Ele pode estar vivo, mas eu o perdi também.
Lembro a preocupação que vi no rosto do coronel quando chegamos aqui. Ele temeu pela filha.
— Não teria tanta certeza assim. Nenhum pai de verdade pode estar completamente perdido para a filha que ama.
O vento sopra os cabelos pelo rosto dela, quase ocultando o brilho de choque nos seus olhos. Choque e esperança. Uma mão se espalma sobre seu estômago com uma delicadeza estranha. A outra toca meu ombro.
— Espero que você saia disso viva, garota elétrica. Você não é tão horrível assim.
Essa deve ser a coisa mais gentil que ela me disse até hoje.
Então ela me dá as costas e não olha para trás.
Quando saio, alguns minutos depois, também não olho.


Não há tempo para chorar decentemente por Shade ou pelos outros. Pela segunda vez em vinte e quatro horas, devo embarcar no Abutre, esquecer meu coração e me preparar para lutar. Foi ideia de Cal esperar até a noite e deixar a ilha quando a nossa transmissão pirata estiver sendo exibida. Quando os cães de Maven vierem nos caçar, já estaremos no ar, a caminho da pista escondida perto de Corvium. O coronel vai seguir pelo norte, usando a proteção da noite para atravessar os lagos e dar a volta. Pela manhã, se o plano funcionar, estaremos no comando das nossas legiões, um de cada lado da fronteira. E então marcharemos.
Da última vez que deixei meus pais, não houve qualquer aviso. De algum modo, foi mais fácil. Me despedir deles é tão difícil que quase corro para a segurança familiar do Abutre. Mas me forço a abraçar ambos, tentando oferecer algum conforto, ainda que pequeno, ainda que falso.
— Vou cuidar dos dois — sussurro, aninhando a cabeça no ombro da minha mãe. Os dedos dela correm pelo meu cabelo e fazem tranças rapidamente. As pontas cinzentas já cresceram e estão quase na altura do meu ombro. — Bree e Tramy.
— E de você — ela sussurra de volta. — Cuide de você também, Mare. Por favor.
Faço que sim, ainda com a cabeça apoiada nela. Não quero me mexer.
A mão de meu pai vai até o meu punho e o puxa com carinho. Apesar da explosão de antes, é ele quem me lembra que preciso partir. Seu olhar passa por cima do meu ombro e se detém no Abutre atrás de nós. Os outros já embarcaram, deixando apenas os Barrow na pista. Imagino que queiram nos oferecer alguma privacidade, embora não faça diferença nenhuma. Passei os últimos meses vivendo num buraco e, antes disso, num palácio lotado de câmeras. Não me importo com o público.
— Para você — Gisa diz, estendendo a mão boa, de onde pende um retalho de seda preta. O tecido é frio e escorregadio. — De antes.
Flores vermelhas e douradas enfeitam o pano, bordadas com uma habilidade de mestre.
— Eu lembro — murmuro, correndo o dedo sobre a perfeição impossível. Ela bordou isto há muito tempo, uma noite antes de o agente quebrar sua mão. Está inacabado, assim como o antigo destino dela. Assim como Shade. Trêmula, amarro o tecido no punho. — Obrigada, Gisa. — Enfio a mão no bolso e digo: — Também tenho uma coisa para você, minha garota.
Uma bijuteria barata. O brinco solitário combina com o mar de inverno ao nosso redor.
Ela perde o fôlego ao segurá-lo. As lágrimas logo vêm, mas não posso vê-las. Dou as costas para todos e embarco no Abutre. A rampa se fecha assim que subo, e quando meu coração começa a desacelerar, já estamos voando alto sobre o mar.
Meus soldados são poucos, se comparados aos que vão acompanhar o coronel até Lakeland. Afinal, eu só podia recrutar pessoas que parecessem jovens o bastante para fazer parte de Legiãozinha, e que de preferência já tivessem servido e soubessem agir como soldados.
Dezoito rebeldes se encaixaram no perfil e se juntaram a nós. Kilorn está sentado com eles, fazendo o possível para enturmá-los com o nosso grupo unido. Ada não está conosco, nem Darmian e Harrick. Incapazes de passar por adolescentes, ficaram com o coronel, para ajudar a causa de algum outro jeito. Nanny não tem essa restrição, apesar da idade avançada. A aparência dela se transforma, experimentando diferentes versões de rostos jovens. Claro que Cameron se juntou a nós; a ideia foi dela desde o começo. Está pensando no irmão que perdeu para a legião. Sinto certa inveja. Ela ainda tem chance de salvá-lo.
Cal e meus irmãos serão os mais difíceis de disfarçar.
Bree tem um rosto jovem, mas é maior que qualquer garoto de quinze anos. Tramy é muito alto, e Cal é conhecido demais. Mas o valor deles não está na aparência, nem mesmo na força, mas no conhecimento das trincheiras. Sem eles, eu não teria ninguém para nos guiar pelo labirinto e entrar na terra arrasada que é o Gargalo. Só conheço o Gargalo por fotos, boletins de notícia e pesadelos. Depois que o meu poder foi descoberto, pensei que jamais iria até lá. Pensei que tivesse escapado do destino.
Como estava errada.
— Três horas até Corvium — Cal avisa, sem tirar os olhos do painel. O assento ao lado dele está ostensivamente vazio, reservado para mim. Mas não vou me juntar a ele, não depois de ele ter me deixado enfrentar o enterro de Shade sozinha.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora — os rebeldes gritam em uníssono, batendo a coronha dos rifles no chão. Isso nos pega de surpresa, embora Cal faça o máximo para não reagir. Ainda assim, vejo o desgosto se desenhar no canto da boca dele. Não faço parte da sua revolução, ele me disse uma vez.
Bom, você bem que parece fazer, alteza.
— Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora — digo, em voz baixa, mas firme.
Cal não faz questão de esconder a careta, e desvia o olhar fulminante para a janela. A expressão o torna parecido com o pai, e penso no que ele poderia ter sido.
Um príncipe guerreiro e pensativo, casado com a víbora Evangeline. Maven disse que Cal não sobreviveria à noite da coroação, mas não acredito nisso. O metal é forjado no fogo, não o contrário. Ele teria sobrevivido e governado. Para fazer o quê, não sei. Antes, pensava que conhecia o coração de Cal, mas agora me dou conta de que isso é impossível. Nenhum coração pode ser verdadeiramente conhecido, nem mesmo o meu próprio.
O tempo passa num silêncio sufocante. Dentro do jato, estamos todos parados, mas, em terra, as coisas estão em movimento. Minha mensagem retumba nas telas do reino inteiro.
Queria estar em Archeon, no meio do setor comercial, observando o mundo mudar. Será que os prateados vão reagir como espero? Será que vão ver a traição de Maven como realmente é? Ou vão virar o rosto?
— Fogo em Corvium.
Cal se apoia contra o para-brisa da cabine, boquiaberto.
— No centro da cidade e nas favelas de Cidade Rio — ele informa e passa a mão no cabelo. — Revoltas.
Meu coração salta e então afunda. A guerra começou.
E não fazemos ideia de qual será o seu custo.
O resto do jato irrompe em comemoração, batendo palmas e trocando apertos de mão demais para o meu gosto. Quase tropeço ao levantar do assento; meus pés se enroscam um no outro. Nunca tropeço. Mas mal consigo chegar inteira à parte de trás do avião. Sinto tontura, enjoo, estou prestes a jogar o jantar que nem comi na parede.
Minha mão encontra o metal e a frieza do material me acalma. Funciona um pouco, mas minha cabeça está girando. Você quis isso. Você esperou por isso. Você fez isso acontecer. Esta é a barganha. Esta é a troca.
O controle que trabalhei tanto para manter começa a se desestabilizar. Sinto cada pulso do jato, cada volta do motor, latejando na minha cabeça como um mapa roxo e branco, intenso demais para suportar.
— Mare? — Kilorn levanta do assento e dá um passo na minha direção, com o braço estendido. Parece Shade em seu último momento.
— Estou bem — minto.
É como tocar um sino. Cal se vira no assento e vem até mim num instante. Ele cruza o jato com passos firmes e resolutos, as botas batendo contra o assoalho de metal. Os outros o deixam passar; amedrontados demais para parar o príncipe de fogo. Não tenho esse medo e dou as costas a ele. Ele me vira de frente, sem se preocupar em ser gentil.
— Se acalme — dispara. Ele não tem tempo para ataques de birra. Sou tomada pelo ímpeto de empurrá-lo, mas compreendo o que quer fazer. Faço que sim, tentando concordar, tentando fazer o que ele diz. Isso o tranquiliza um pouco. — Mare, calma — ele diz de novo, dessa vez apenas para mim, com a suavidade de que me lembro. Se não fosse o pulso do jato, poderíamos estar de volta ao Furo, no nosso quarto, nos nossos cobertores, envoltos nos nossos sonhos. — Mare.
O alarme soa segundos antes de a cauda do avião explodir.
A força me joga para trás com tanta violência que vejo estrelas. Sinto gosto de sangue e um calor abrasador. Se não fosse por Cal, o fogo me incineraria. Mas não, as chamas lambem seus braços e voltam, como o toque inofensivo de uma mãe. Elas recuam com a mesma facilidade com que crescem, sendo forçadas pelo poder de Cal, contidas em brasas. Mas até ele é incapaz de reconstruir a traseira de um jato... Ou de evitar que ele caia do céu. O ruído ameaça partir meu crânio, rugindo como um trem, gritando como mil banshees. Me agarro ao que está ao meu alcance, metal ou carne.
Quando minha vista clareia, vejo o céu negro e os olhos de bronze. Nos abraçamos como duas crianças presas numa estrela cadente. À nossa volta, o Abutre se desmancha aos poucos, peça por peça, num chiado de gelar o sangue. A cada segundo que passa, mais e mais do jato desaparece, até restarem apenas as finas barras de metal da estrutura. Faz um frio congelante, é difícil respirar e impossível mover qualquer coisa por vontade própria. Agarro a barra sob mim, segurando-a com toda força que me resta. Com os olhos cerrados, vejo o chão escuro lá em baixo cada vez mais próximo. É assustador. Um vulto passa em disparada. Tem coração elétrico e asas reluzentes.
Dragões.
Meu coração despenca com os restos do Abutre. Sou incapaz até de reunir forças para gritar. Mas os outros certamente estão gritando. Escuto todos berrando, implorando, suplicando misericórdia para a gravidade. A estrutura treme de cima a baixo, acompanhada por um som familiar. Metal se encaixando. Sendo moldado. Com um suspiro, percebo o que está acontecendo conosco.
O jato já não é mais um jato. É uma jaula, uma armadilha de aço.
Um túmulo.
Se conseguisse falar, diria a Cal que sinto muito, que o amo, que preciso dele.
Mas o vento e a queda roubam meu fôlego. Não tenho mais palavras. Seu toque é dolorosamente familiar; ele envolve uma mão no meu pescoço, implorando para que eu olhe para ele. Assim como eu, também não consegue falar. Mas ouço seu pedido de desculpas mesmo assim, e ele compreende o meu. Não vemos nada além de um ao outro. Não vemos as luzes de Corvium no horizonte, o chão vindo ao nosso encontro, ou o destino que estamos prestes a encontrar.
Não há nada além dos olhos dele. Mesmo no escuro, estão brilhando.
O vento é forte demais, como se fosse rasgar meu cabelo e minha pele. A trança da minha mãe se desfaz, e fico sem o último vestígio que tinha dela. Imagino quem vai lhe contar como morri, se é que alguém vai ficar sabendo do nosso fim. Que morte Maven sonhou! Isso deve ser ideia dele: nos matar juntos, e nos dar tempo para entender o que vai acontecer.
Quando a jaula para de repente, eu grito.
Sinto o mato duro sob meus braços moles, como se beijassem a ponta dos meus dedos. Como?, me pergunto, recuando. É difícil encontrar equilíbrio, então caio. A jaula sacode com meu movimento, como um balanço preso numa árvore.
— Não se mexa — Cal grunhe, posicionando uma mão sobre minha nuca. A outra se agarra numa barra de metal, que brilha vermelha em sua mão.
Sigo seu olhar pela clareira na floresta até as pessoas que formam um amplo círculo à nossa volta. O cabelo prateado é difícil de confundir. Magnetrons da Casa Samos.
Esticam os braços em movimentos sincronizados, e as grades da jaula baixam devagar. O último centímetro nos faz gemer.
— Larguem.
A voz soa como um relâmpago. Solto a mão de Cal, levanto com um pulo e corro para a ponta da jaula. Antes de conseguir chegar à lateral, as barras desabam e o meu embalo me leva longe demais. Tropeço e caio de joelhos de encontro à grama congelada. Alguém chuta o meu rosto e me lança com tudo para a lama. Disparo uma rajada de faíscas na sua direção, mas o agressor é rápido. Em vez dele, acerto uma árvore que se parte e vem abaixo com um estalo.
O joelho do forçador atinge as minhas costas com tanta força que perco o fôlego. Dedos com uma textura estranha, envoltos em plástico, talvez luvas, se fecham ao redor da minha garganta. Arranho e faísco para me soltar, mas nada parece funcionar. Ele me levanta sem dificuldade e me força a esticar os pés até o chão para evitar uma asfixia. O pânico atravessa meu corpo como uma lâmina, e meus olhos arregalam à procura de alguma saída. Mas vejo apenas meus amigos, ainda confinados à jaula, forçando suas barras em vão.
O metal volta a chiar, se contorcendo e se curvando, cada barra se tornando uma prisão. Com o olho inchado, observo as serpentes metálicas se travando ao redor de Cal, Kilorn e dos outros, atando seus punhos, tornozelos e pescoço. Mesmo Bree, grande como um urso, não consegue se defender das barras que o cercam.
Cameron luta o melhor que pode, silenciando um magnetron após o outro. Mas são muitos. Quando um cai, outro assume seu lugar. Apenas Cal pode resistir de verdade, derretendo cada barra que se aproxima. Mas ele acabou de despencar do céu. Está desorientado, para dizer o mínimo, e com o supercílio aberto e sangrando.
Uma barra o acerta na nuca e o derruba. Suas pálpebras chegam a ameaçar se abrir, e desejo que ele acorde. Mas ele continua desmaiado, e as trepadeiras metálicas se enrolam, apertando-o mais a cada segundo. A da garganta é a pior; entra fundo na pele, o suficiente para sufocá-lo.
— Pare! — digo finalmente. Forço meus músculos exauridos, tentando me desvencilhar do forçador à moda antiga. Nada mais inútil. — Pare!
— Você não está em posição de negociar, Mare.
Maven é discreto e se mantém na escuridão, nas sombras. Observo a silhueta surgir, com a coroa pontiaguda na cabeça. Quando ele surge sob a luz das estrelas, sinto uma leve pontada de satisfação. Seu rosto não combina com suas palavras confiantes. Há círculos roxos sob os olhos, e uma camada de suor se espalha pela testa. A morte da mãe teve seu preço.
As mãos na minha garganta afrouxam um pouco, o que me permite falar. Mas ainda estou pendurada, e preciso continuar me apoiando com os dedos do pé no mato frio e no barro congelado.
Nada de acordos. Nada de trocas.
— Ele é seu irmão — digo, sem me dar ao trabalho de pensar que Maven não se importa nem um pouco.
— E? — ele pergunta, arqueando a sobrancelha escura.
No chão, Kilorn se agita contra o metal que o mantém preso. Em resposta, apertam-no com mais força, e ele bufa. Ao lado dele, as pálpebras de Cal voltam a tremer.
Está acordando, e quando isso acontecer, Maven com certeza o matará. Não tenho nenhum tempo a perder. Eu daria qualquer coisa para manter esses dois vivos, qualquer coisa.
Com uma última explosão de raiva, medo e desespero, libero meu poder. Matei Elara Merandus. Deveria ser capaz de matar o filho dela e seus soldados.
Mas o forçador veio preparado para mim. As luvas dele se mantêm firmes e protegem a pele dele da minha eletricidade. Gemo sob as mãos, tentando invocar o céu.
Mas a minha visão se turva e uma pulsação lenta soa nos meus ouvidos. Ele vai me estrangular antes de as nuvens se juntarem. E os outros vão morrer comigo.
Farei qualquer coisa para mantê-lo vivo. Para mantê-lo comigo. Para não ficar sozinha.
Meus raios nunca pareceram tão fracos e inúteis. As faíscas somem devagar, como as batidas de um coração moribundo.
— Tenho algo para oferecer em troca — murmuro, ríspida.
— Ah, é? — Maven dá mais um passo. A presença dele faz minha pele arrepiar. — Diga.
De novo, minha garganta parece mais livre. Mas o forçador pressiona o polegar contra a minha veia, numa ameaça bem clara.
— Vou lutar contra você até o fim — digo. — Todos nós vamos, e todos nós morreremos esta noite. Podemos até levar você conosco, como fizemos com a sua mãe.
Maven pisca, o único sinal de sua dor.
— Você será castigada por isso, grave as minhas palavras.
O polegar no meu pescoço também reage, pressionando com mais força, provavelmente deixando um hematoma espetacular. Mas não é esse o castigo de que Maven fala. O que ele nos reserva é muito, muito pior.
A barra ao redor dos punhos de Cal brilha com o calor dele. Seus olhos semicerrados refletem a luz das estrelas enquanto me observam; ele segura a respiração.
Queria poder dizer a ele para ficar quieto, para me deixar fazer o que é necessário. Para me deixar salvá-lo, como ele já me salvou tantas vezes.
Ao lado dele, Kilorn está imóvel. Ele me conhece melhor do que ninguém e compreende minha expressão imediatamente. Devagar, cerra os dentes e começa a balançar a cabeça.
— Deixe eles irem. Deixe eles viverem — murmuro.
As mãos do forçador parecem correntes, e imagino todo o meu corpo coberto por correntes, cada milímetro, torcidas como serpentes de metal.
— Mare, não sei se você entende a definição da palavra troca — Maven desdenha. — Você precisa me dar alguma coisa.
Não vou voltar para ele por ninguém, disse a Cal uma vez, depois de sobreviver ao sonador, e ele entendeu tudo.
Renda-se, dizia o bilhete de Maven, suplicando para que eu voltasse.
— Não vamos lutar. Eu não vou lutar — digo.
Quando o forçador me solta, de repente fico sem chão.
Baixo a cabeça, incapaz de olhar para cima. A sensação é que estou curvada diante dele. Este é o meu acordo.
— Deixe o resto ir e serei sua prisioneira. Vou me render.
Vou voltar.
Fixo os olhos nas minhas mãos sobre o mato. O frio da neve é familiar. É como meu coração e o buraco que cresce nele. A mão de Maven surge sob meu queixo, quente, ardendo com um calor doentio. Arriscar me tocar é uma mensagem bem clara: ele não teme a garota elétrica, ou pelo menos quer passar essa impressão. Ele me força a encará-lo, e não vejo nada do garoto que foi um dia. Há apenas escuridão.
— Mare, não! Não seja idiota! — Mal ouço a súplica de Kilorn. O ruído na minha cabeça é tão alto, tão doloroso. Não é a vibração da eletricidade, mas outra coisa dentro de mim. Meus próprios nervos gritam em protesto. Mas, ao mesmo tempo, sinto uma espécie de alívio. Muitos sacrifícios foram feitos por minha causa, por causa das minhas escolhas. É justo que seja minha vez de me sacrificar, de aceitar o castigo que o destino me reservou.
Maven me encara bem, à procura de uma mentira que não existe. E faço o mesmo. Apesar da pose, ele tem medo do que fiz, das palavras da garota elétrica e do efeito que elas têm. Ele veio aqui para me matar, para me jogar no chão. Agora encontrou um prêmio melhor, que lhe dei de bom grado. Ele é um traidor por natureza, mas vai manter a palavra neste caso. Vejo isso em seus olhos, vi em seus bilhetes. Ele me quer, e fará qualquer coisa para me ter em sua coleira de novo.
Kilorn se agita contra as barras de ferro, mas de nada adianta.
— Cal, faça alguma coisa! — ele berra, batendo no corpo ao seu lado. Os metais retinem uns contra os outros num eco vazio. — Não deixe!
Não consigo olhar para ele. Quero que se lembre de mim de um jeito diferente. De pé, no controle. Não assim.
— Temos um acordo? — Me reduzi a uma pedinte, suplicando para que Maven me ponha de volta em sua gaiola dourada. — Você é um homem de palavra?
Crescendo sobre mim, na minha frente, Maven sorri quando cito suas palavras. Seus dentes brilham.
Os outros estão gritando agora. Balançando-se.
Presos. Não ouço nada. Minha mente se fechou a tudo exceto a troca que estou disposta a fazer. Imagino que Jon previu isso.
As mãos de Maven passam do meu queixo para a minha garganta. Ele aperta mais forte. Não como o forçador, mas de uma maneira bem mais dolorosa.
— Temos um acordo.

19 comentários:

  1. Não só muito de xingar mas pqp q merda foi essa q acabei de ler?

    Letícia.

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    1. Parece que ela tá tentando mudar

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    2. Uma coisa ha se saber ,bandidos sempre traem

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  2. Maven me atrai de um jeito sombrio 😶

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    1. Você não é a unica Carla Oliveira.

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  3. QUANDO VOCÊ PENSA QUE VAI DAR CERTO.....BUMMMM, DEU MERDA!

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  4. QUÊ!! O_o to sentindo q isso n vai dar certo.

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  5. Ñ acredito que fiquei acordada até essa hora pra esse final!

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  6. TENSO!
    #PartiuLivro3
    Por favor, não machuquem meus queridos Cal e Kilorn (e Bree e Tramy) ~polly~

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  7. Puts!!! Tadinho das pais dela. Ela havia prometido q cuidaria dos irmãos e tah fazendo isso, mas esqueceu de se proteger.

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  8. Assim gente... fp acompanhando ps comentarios desde o inicio sempre amei o marven eu casava ele nesse livro... ele é dms o problema na historia é as vissagem da mare que np fundo tbm quer ele...

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  9. Gente só eu que acho que a Farley esta gravida???

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  10. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa que ódio!

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  11. Esse livro está acabando comigo!Não sei o que vou fazer quando terminar de ler essa série.

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Boa leitura :)