15 de março de 2017

Capítulo vinte e dois

Mare

TODA MANHÃ COMEÇA DA MESMA MANEIRA. Não consigo ficar no quarto, porque os pássaros sempre me acordam cedo. É bom que façam isso. Mais tarde fica quente demais para correr. A base de Piedmont funciona como uma boa pista e é bem protegida, com seus limites guardados por soldados tanto de Montfort como locais. Os últimos são todos vermelhos, é claro. Davidson sabe que Bracken, o príncipe fantoche, deve estar tramando alguma coisa, então não permite que prateados locais atravessem os portões. Na verdade, não tenho visto nenhum prateado, exceto os que já conheço.
Todos com habilidades são sanguenovos ou rubros, dependendo de com quem você fala. Se Davidson tem prateados ao seu lado, servindo em igualdade na sua República Livre, como ele a chama, não vi nenhum.
Amarro os cadarços com força. A névoa baixa serpenteia pela rua lá fora entre as fachadas de tijolos. Destranco a porta da frente, sorrio quando o ar frio toca minha pele. Sinto cheiro de chuva e trovões.
Como esperado, Cal está sentado no último degrau, com as pernas esticadas na calçada estreita. Meu coração ainda dispara ao vê-lo. Ele boceja alto para me receber, quase deslocando o queixo.
— Vamos lá — esbravejo. — Soldados estão acostumados a acordar bem mais cedo que isso.
— O que não quer dizer que eu não prefira dormir quando posso. — Cal levanta com uma má vontade exagerada, só faltando mostrar a língua.
— Sinta-se à vontade para voltar para aquele quartinho improvisado onde você insiste em ficar no quartel. Aliás, você teria um pouco mais de tempo para dormir se mudasse para a rua dos oficiais… ou se parasse de correr comigo. — Dou de ombros com um sorriso maroto.
Ele também sorri, então me puxa pela barra da camiseta.
— Não insulte meu quartinho — Cal resmunga, antes de me beijar nos lábios. Depois no queixo. Depois no pescoço. Cada toque faz explodir uma onda de fogo por baixo da minha pele.
Relutante, empurro seu rosto para longe.
— Tem uma grande chance de meu pai atirar em você pela janela se continuar com isso aqui.
— Certo, certo. — Ele se recupera rápido, empalidecendo. Se não o conhecesse, diria que está de fato com medo do meu pai. A ideia é cômica. Um príncipe prateado, um general que pode criar um inferno na terra com um estalar de dedos, com medo de um velho vermelho e manco. — Vamos alongar.
Fazemos os exercícios, Cal com mais dedicação do que eu. Ele zomba de mim de brincadeira, achando algo errado em cada movimento.
— Não jogue tanto o braço. Não fique balançando para a frente e para trás. Calma, devagar.
Mas estou ansiosa, sedenta pela corrida. Eventualmente ele cede. Com um aceno de cabeça, Cal nos deixa começar.
A princípio o ritmo é calmo. Meus passos são quase de dança, animada com o movimento. A sensação é de liberdade. Minha respiração fica firme e ritmada, e as batidas do meu coração aceleram. Da primeira vez que corremos aqui, tive que parar e chorar, feliz demais para conter as lágrimas. Cal mantém um ritmo bom, me impedindo de disparar até os pulmões explodirem. O primeiro quilômetro e meio vai bem, nos levando até a parede perimetral. Metade feita de pedra, metade de cerca metálica com o topo coberto de arame farpado, com alguns soldados patrulhando à distância.
Homens de Montfort. Eles acenam para nós, acostumados com nossa rotina depois de duas semanas. Outros soldados correm mais longe, fazendo sua rotina normal de exercícios, mas não nos juntamos a eles. Eles treinam em fileiras com sargentos gritando. Isso não funciona para mim. Cal já é exigente o bastante. Por sorte, Davidson não me pressionou com toda aquela história de escolher entre me realocar ou me juntar à luta. Na verdade, não o vi desde o interrogatório, mesmo com ele agora vivendo na base conosco.
Os próximos três quilômetros são mais difíceis. Cal aumenta o ritmo. Está mais quente hoje, e nuvens se formam sobre nós. Conforme a neblina desaparece, suo mais e meus lábios ficam salgados. Com as pernas pulsando, limpo o rosto com a manga. Cal também sente o calor. Ao meu lado, ele simplesmente tira a camisa e a prende na cintura. Meu primeiro instinto é alertá-lo contra o sol. O segundo é parar e observar o quanto os músculos do seu abdome são definidos. Volto a focar no caminho à frente, forçando mais um quilômetro e meio. Depois outro. Outro. A respiração dele ao meu lado de repente me desconcentra.
Circundamos a pequena floresta que separa o quartel e a rua dos oficiais do campo de pouso, quando um trovão ruge em algum lugar. A alguns quilômetros dali, com certeza. Cal estende o braço na minha frente ao ouvir o barulho, me fazendo parar. Ele vira para me encarar, as duas mãos agarrando meus ombros conforme se curva para ficar da minha altura. Seus olhos cor de bronze perfuram os meus, procurando alguma coisa. O trovão soa de novo, mais próximo.
— Qual é o problema? — Cal pergunta, cheio de preocupação. Uma mão se perde no meu pescoço para aliviar as cicatrizes das queimaduras, vermelhas e quentes com o esforço. — Fique calma.
— Não sou eu. — Inclino a cabeça na direção das nuvens negras de chuva com um sorriso. — É apenas o tempo. Às vezes, quando fica muito quente e muito úmido, tempestades podem…
Ele ri.
— Certo, entendi. Obrigado.
— Você estragou uma corrida perfeita. — Estalo a língua fingindo frustração e seguro a mão dele. Seu sorriso malicioso é tão largo que enruga seus olhos. Conforme a tempestade se aproxima, sinto o coração elétrico pulsando. Meus batimentos se estabilizam para acompanhar seu ritmo, mas afasto o ronronar sedutor dos raios. Não posso me deixar levar com uma tempestade tão próxima.
Não tenho controle sobre a chuva, que cai como uma cortina, fazendo nós dois soltarmos um grito. As partes da minha roupa que não estavam cobertas de suor logo ficam ensopadas. O frio repentino é um choque para ambos, em especial para Cal. Sua pele nua solta vapor, envolvendo seu torso e seus braços em uma camada fina de névoa cinza. Pingos de chuva chiam quando encostam nele, fervendo instantaneamente.
Conforme Cal se acalma, isso para, mas ele ainda pulsa com o calor. Sem pensar, eu o abraço, tremendo.
— Deveríamos voltar — ele resmunga sobre minha cabeça. Sinto a voz de Cal reverberando no peito dele, minha mão espalmada sobre o coração acelerado. Os batimentos disparam sob meu toque, em contraste com sua expressão calma. Algo me impede de concordar. Sinto outro puxão, bem fundo. Em algum lugar que não posso definir.
— Deveríamos? — sussurro, esperando que a chuva engula minha voz.
Os braços dele me apertam mais. Cal ouviu perfeitamente.
As árvores são novas, as folhas e galhos não se espalham o suficiente para oferecer cobertura completa da chuva. Mas nos esconde da rua. Minha camiseta se vai primeiro, aterrissando na lama. Jogo a dele na sujeira também, para ficarmos quites. A chuva cai em gotas gordas, cada uma delas uma surpresa gelada ao escorrer pelo meu nariz, minha coluna ou meus braços em volta do seu pescoço. Mãos quentes batalham pelas minhas costas, num contraste delicioso com a água. Seus dedos andam pela minha coluna, pressionando cada vértebra. Faço o mesmo, contando suas costelas. Ele estremece conforme minhas unhas arranham a lateral do seu torso. Cal retribui com os dentes. Eles roçam a linha do meu queixo até acharem minha orelha. Fecho os olhos por um segundo, incapaz de fazer qualquer coisa além de sentir. Fogos de artifício, raios, uma explosão.
O trovão se aproxima. Como se fosse atraído por nós.
Passo os dedos pelo cabelo dele, usando-o para puxá-lo para perto de mim. Mais perto. Mais perto. Mais perto. Ele tem gosto de sal e fumaça. Mais perto. Parece que não consigo chegar perto o suficiente.
— Você já fez isso antes?
Eu deveria estar com medo, mas só o frio me faz tremer.
Cal inclina a cabeça para trás e eu quase solto um gemido em protesto.
— Não — ele sussurra, desviando o olhar. Dos seus cílios longos pingam gotas de chuva. Seu queixo se tensiona, como se estivesse envergonhado.
É típico de Cal sentir vergonha de algo assim. Ele gosta de saber o final do caminho, a resposta para a questão antes de ser perguntada. Quase dou risada.
Esse é um tipo de batalha diferente. Não há treino para ela. E, em vez de vestir uma armadura, jogamos o resto das nossas roupas longe.
Depois de seis meses sentada ao lado do irmão dele, emprestando todo o meu ser para uma causa maligna, não tenho medo de entregar meu corpo para quem amo. Mesmo na lama. Com lampejos sobre minha cabeça e raios em meus olhos. Cada nervo faísca vivo. Preciso de toda a concentração para impedir Cal de ser afetado do jeito errado.
O peito dele irradia sob minhas mãos, com um calor selvagem. Sua pele parece ainda mais pálida ao lado da minha. Usando os dentes, ele solta os braceletes e os joga no mato.
— Agradeço minhas cores pela chuva — ele murmura.
Sinto o oposto. Quero queimar.


Me recuso a voltar para a rua dos oficiais coberta de lama. Graças à localização inconveniente do quartinho de Cal, não posso me lavar lá, a menos que queira dividir a ducha com uma dezena de soldados. Ele tira folhas do meu cabelo enquanto andamos em direção ao hospital da base, um prédio baixo coberto de hera.
— Você parece um arbusto — Cal diz com um sorriso.
— Isso é exatamente o que você deveria dizer agora.
Ele quase gargalha.
— Como você sabe?
— Eu…
Fujo da pergunta, passando pela entrada.
O hospital está quase deserto a essa hora, com uma equipe de poucos enfermeiros e médicos para supervisionar praticamente paciente nenhum. Os curandeiros os tornam quase irrelevantes, necessários apenas para doenças prolongadas ou ferimentos de complexidade extrema. Andamos pelos corredores de cimento sozinhos, sob as luzes fluorescentes e o silêncio tranquilo. Minhas bochechas ardem enquanto minha mente trava uma guerra interna. Os instintos me fazem querer jogar Cal no quarto mais próximo e trancar a porta atrás de nós. O bom senso me diz que não posso.
Pensei que seria diferente. Pensei que me sentiria diferente. O toque de Cal não apagou o de Maven. Minhas memórias ainda estão lá, ainda tão dolorosas quanto eram ontem. E, por mais que eu tente, não esqueci do desfiladeiro que só se aprofunda cada vez mais entre nós. Nenhum tipo de amor pode apagar os erros dele, assim como nenhum tipo de amor pode apagar os meus.
Uma enfermeira com um arsenal de cobertores sai do corredor à frente. Seus pés são um borrão sobre o piso de azulejos. Ela para ao nos ver, quase derrubando as roupas de cama.
— Ah! — ela diz. — Como você é rápida, srta. Barrow!
Fico corada com a mesma rapidez com que Cal transforma o riso em tosse.
— Desculpe?
Ela sorri.
— Acabamos de mandar uma mensagem para sua casa.
— Hã…?
— Venha, querida; vou levar você até ela. — A enfermeira dispara, apoiando os cobertores no quadril. Cal e eu trocamos olhares confusos. Ele dá de ombros e marcha atrás dela, estranhamente livre de preocupações. O estado de alerta do seu treinamento militar parece distante.
A mulher fala sem parar, muito animada conforme andamos no seu encalço. O sotaque dela é de Piedmont, fazendo as palavras parecerem mais lentas e doces.
— Não deve demorar muito. Ela está progredindo rápido. Militar até os ossos, suponho. Não quer perder tempo.
Nosso corredor termina em uma ala maior, bem mais movimentada que o restante do hospital. As janelas largas dão vista para outro jardim, agora escuro e encharcado da chuva. O povo de Piedmont com certeza tem uma queda por flores. Há portas por todos os lados, levando para quartos e leitos vazios. Uma delas está aberta e mais enfermeiras entram e saem. Um soldado armado da Guarda Escarlate está de vigia, mas não tão concentrado. Ainda está cedo, e ele pisca devagar, parecendo anestesiado pela eficiência silenciosa da ala.
Sara Skonos parece alerta o suficiente pelos dois. Antes que eu a chame, ela ergue a cabeça. Seus olhos são cinza como as nuvens tempestuosas do lado de fora.
— Bom dia — ela diz.
É a primeira vez que a ouço falar. Julian estava certo. Sara tem uma voz adorável. Não a conheço muito bem, mas nos abraçamos mesmo assim. As mãos dela esfregam meus braços descobertos, enviando estrelas cadentes de alívio para meus músculos exauridos. Quando ela me solta, tira outra folha do meu cabelo, depois, com uma expressão séria, limpa a sujeira atrás do meu ombro. Sara pisca quando nota a lama escorrendo de Cal. Em contraste com a atmosfera estéril do hospital, com suas superfícies lustrosas e luzes brilhantes, parecemos bem sujos.
Os lábios dela se contorcem em um leve sorriso.
— Espero que tenham aproveitado a corrida matinal.
Cal pigarreia e seu rosto fica prateado. Ele limpa a mão na calça, mas só espalha ainda mais a lama incriminadora.
— Sim — ele responde.
— Cada um daqueles quartos é equipado com um banheiro com chuveiro. Posso providenciar uma troca de roupa. — Sara aponta com seu queixo. — Se quiserem.
O príncipe tenta esconder o rosto, que só fica mais e mais prateado. Ele escapa furtivamente, deixando um rastro de pegadas molhadas pelo caminho.
Eu fico, deixando que vá na frente. Mesmo agora que pode falar novamente, com sua língua provavelmente recriada por outro curandeiro, Sara é do tipo quieta. Há meios mais profundos de se comunicar.
Ela toca meu braço de novo, me empurrando gentilmente pela porta aberta. Com Cal fora de vista, posso pensar com mais clareza. Os pontos se ligam, um a um. Algo se aperta no meu peito, uma mistura de tristeza e alegria em partes iguais. Queria que Shade estivesse aqui.
Farley está sentada na cama, com o rosto vermelho e inchado, um brilho de suor na testa. Os trovões do lado de fora se foram, dissolvidos no derramamento infinito de chuva nas janelas. Ela dá uma gargalhada ao me ver e então estremece com a contração repentina. Sara corre para seu lado, colocando as mãos tranquilizadoras nas bochechas de Farley. Outra enfermeira está escorada na parede, esperando o momento em que será útil.
— Você correu até aqui ou rastejou pelo esgoto? — Farley pergunta, apesar de toda a preocupação de Sara.
Chego mais perto, com cuidado para não sujar nada.
— Fui pega pela tempestade.
— Certo. — Ela não parece convencida. — Aquele lá fora era Cal?
Meu rubor de repente se iguala ao dela.
— Sim.
— Certo — ela diz de novo, extraindo a palavra da garganta.
Os olhos dela grudam em mim, como se pudesse ler os acontecimentos da última hora na minha pele. Luto contra o desejo de verificar se tenho alguma marca suspeita.
Então ela estende o braço, acenando para a enfermeira. A mulher se inclina e Farley sussurra na orelha dela. As palavras são rápidas e baixas demais para que eu possa entender. A enfermeira assente, correndo para procurar seja lá o que for que Farley pediu. Ela me dá um sorriso largo quando sai.
— Pode se aproximar. Não vou explodir. — Ela vira para Sara. — Ainda.
A curandeira oferece um sorriso reconfortante bem ensaiado.
— Não vai demorar muito agora.
Incerta, dou alguns passos para a frente, até poder alcançar a mão de Farley se quiser. Algumas máquinas piscam em volta da cama, pulsando vagarosamente em silêncio. Elas me atraem com seu ritmo compassado, hipnóticas. A dor por Shade se intensifica. Teremos um pedaço dele em breve, mas meu irmão nunca vai voltar. Nem mesmo por meio de um bebê com seus olhos, seu sobrenome e seu sorriso. Um bebê que ele nunca vai poder amar.
— Pensei em Madeline.
A voz dela me arranca de meus pensamentos.
— O quê?
Farley agarra o lençol branco.
— Era o nome da minha irmã.
— Ah.
Ano passado, achei uma foto da família dela no escritório do coronel. Foi tirada anos antes, mas Farley e seu pai eram inconfundíveis. Ao lado deles, estavam a mãe e a irmã igualmente loiras. Todos tinham uma aparência similar. Ombros largos, atléticos, olhos azuis e frios como aço. A irmã de Farley era a mais nova, ainda em fase de crescimento.
— Ou Clara. Como minha mãe.
Se ela quer continuar falando, estou aqui para ouvir. Mas não vou me intrometer.
Fico quieta, esperando, deixando-a conduzir a conversa.
— Elas morreram alguns anos atrás. Lá em Lakeland. A Guarda Escarlate não era tão cuidadosa na época. Um dos nossos agentes foi pego e sabia demais. — A dor se espalha pelo seu rosto, tanto por causa das memórias quanto pelo seu estado atual. — Nosso vilarejo era pequeno, desprezado e insignificante. O lugar perfeito para algo como a Guarda se desenvolver. Até que um homem soprasse seu nome sob tortura. O rei de Lakeland nos puniu pessoalmente.
Uma lembrança dele passa pela minha cabeça. Um homem pequeno, calmo e perturbador como a superfície da água parada. Orrec Cygnet.
— Meu pai e eu estávamos longe quando ele ergueu as ondas do Hud, drenando água da baía para inundar nosso vilarejo e nos arrancar da face do seu reino.
— Elas se afogaram — murmuro.
A voz dela nunca vacila.
— Vermelhos de todo o país foram inflamados pelo Afogamento de Northland. Meu pai contou nossa história acima e abaixo da região dos lagos, em incontáveis vilarejos e cidades. A Guarda Escarlate floresceu. — A expressão neutra de Farley obscurece. — “Pelo menos elas não morreram em vão”, ele costumava dizer. “Não se pode ter tudo no mundo.”
— É melhor viver com um propósito — concordo. É uma lição que aprendi da forma mais difícil.
— Exato… — Ela se dispersa, então pega minha mão sem vacilar. — Como você está se adaptando?
— Lentamente.
— Isso não é ruim.
— Minha família fica em casa a maior parte do tempo. Julian me visita quando não está enfiado no laboratório da base. Kilorn está sempre por perto também. Enfermeiros vêm cuidar do meu pai e ajudar na adaptação com a perna. Ele está progredindo bem, aliás — acrescento, olhando de novo para Sara, quieta no seu canto. Ela sorri de volta. — Ele é bom em esconder o que sente, mas sei que está feliz. Tão feliz quanto possível.
— Não perguntei de sua família. Perguntei de você. — Farley pressiona o lado interno do meu pulso. Involuntariamente, me contraio, lembrando do peso das algemas. — Pela primeira vez, estou lhe dando permissão para lamentar sobre si mesma, garota elétrica.
Suspiro.
— Eu… não posso ficar sozinha num quarto com a porta fechada. Não posso… — Lentamente, puxo minha mão. — Não gosto de nada nos meus pulsos. Remete às algemas que Maven usava para me manter prisioneira. E não consigo enxergar nada como é. Procuro por traições em todos os lugares, em todo mundo.
Os olhos dela escurecem.
— Não é um instinto necessariamente ruim.
— Eu sei — resmungo.
— E Cal?
— O que tem ele?
— A última vez que vi vocês dois juntos antes de… daquilo tudo, vocês estavam perto de se destruir. — A poucos metros do corpo de Shade. — Presumo que tudo foi esclarecido.
Lembro do momento. Não falamos sobre isso. Meu alívio — nosso alívio — com minha fuga pôs o resto no passado, esquecido. Mas, quando Farley fala, sinto a velha ferida reabrindo. Tento racionalizar.
— Ele ainda está aqui. Ajudou a Guarda no ataque em Archeon; liderou a tomada de Corvium. Só queria que escolhesse um lado, e está claro que fez isso.
Palavras são sussurradas na minha orelha, remexendo no fundo de uma memória. Me escolhaEscolha um novo mundo.
— Ele me escolheu.
— Demorou um bom tempo.
Tenho que concordar. Mas, pelo menos, não há como tirá-lo desse caminho agora. Cal está com a Guarda Escarlate. Maven garantiu que o país soubesse disso.
— Tenho que me lavar. Se meus irmãos me virem assim…
— Vá. — Farley se mexe sobre o travesseiro, tentando achar uma posição mais confortável. — É possível que você tenha uma sobrinha ou um sobrinho quando voltar.
De novo, o sentimento é agridoce. Forço um sorriso por ela.
— Fico imaginando se o bebê vai ser… parecido com Shade. — O que eu quero dizer é óbvio. Não estou falando de aparência, mas de poder. A criança será um sanguenovo como ele era e eu sou? Será que é assim que funciona?
Farley apenas dá de ombros.
— Bem, ele ainda não se teletransportou de dentro de mim. Então, quem sabe?
Na porta, a enfermeira volta, segurando um copinho. Me afasto para dar passagem, mas ela se aproxima de mim, não de Farley.
— A general me pediu para lhe dar isso — ela diz. Há uma pílula solitária no copinho. Branca, sem identificação.
— A escolha é sua. — Farley fala da cama. Seus olhos estão sérios enquanto as mãos se encaixam na barriga. — Achei que você deveria ter ao menos isso.
Não hesito. A pílula desce devagar.


Algum tempo depois, tenho uma sobrinha. Minha mãe se recusa a deixar qualquer outra pessoa segurar Clara. Ela alega que vê Shade na recém-nascida, mesmo que isso seja praticamente impossível. A garotinha se parece mais com um tomate vermelho e enrugado do que com qualquer irmão meu.
Do lado de fora da ala, os demais Barrow comemoram. Cal se foi, voltou para sua rotina de treinos. Ele não queria se intrometer em um momento tão íntimo. Quis me dar espaço.
Kilorn senta comigo, espremido em uma cadeira pequena encostada nas janelas. A chuva diminui a cada segundo.
— O clima está bom para pescar — ele diz olhando para o céu cinzento.
— Ah, não comece a resmungar sobre o tempo também.
— Como você está irritadinha.
— E você está com os dias contados, Warren.
Ele ri da piada.
— Acho que a essa altura todos estamos.
Vindo de qualquer outra pessoa isso soaria como um mau presságio, mas conheço Kilorn muito bem. Cutuco o ombro dele.
— E aí, como vão os treinos?
— Bem. Montfort tem dezenas de soldados sanguenovos, todos prontos. Alguns têm habilidades semelhantes: Darmian, Harrick, Farrah e alguns outros. Estão evoluindo exponencialmente com ajuda dos mentores. Eu treino com Ada, e com as crianças quando Cal não vai. Elas precisam de um rosto familiar.
— Sem tempo para pescar, então?
Ele ri, curvando-se para apoiar os cotovelos nos joelhos.
— Pois é. Engraçado… eu costumava odiar acordar cedo para trabalhar no rio. Detestava as queimaduras de sol, as cordas machucando, os anzóis fincados nos dedos, as tripas de peixe nas roupas. — Ele rói as unhas. — Agora sinto falta disso.
Sinto falta daquele garoto também.
— Era muito difícil ser sua amiga com aquele cheiro.
— Provavelmente foi por isso que ficamos tão grudados. Ninguém mais aguentava meu fedor ou seu comportamento.
Sorrio e jogo a cabeça para trás, escorando o crânio na janela de vidro. Gotas de chuva escorrem, gordas e firmes. Eu as conto na cabeça. É mais fácil do que pensar em qualquer outra coisa à minha volta ou à minha frente.
Quarenta e umaquarenta e duas
— Não sabia que você conseguia ficar parada tanto tempo.
Kilorn me observa, pensativo. Ele é um ladrão também, com os instintos de um. Mentir para ele não levaria a lugar nenhum, apenas o afastaria mais. E isso não é algo que eu conseguiria suportar agora.
— Não sei o que fazer — sussurro. — Mesmo em Whitefire, quando era prisioneira, tentava escapar, tramar, espionar, sobreviver. Mas agora… não sei. Não sei se consigo continuar.
— Você não é obrigada. Ninguém a culparia caso se afastasse disso tudo e nunca mais voltasse.
Continuo encarando as gotas de chuva. Sinto enjoo no fundo do estômago.
— Eu sei. — A culpa me corrói. — Mas mesmo se pudesse desaparecer nesse instante, levando todas as pessoas com quem me importo, não o faria.
Tem muita raiva dentro de mim. Muito ódio.
Kilorn assente, compreendendo.
— Mas você não quer lutar.
— Não quero me tornar… — minha voz desaparece.
Não quero me tornar um monstro. Um casco vazio, rodeado de fantasmasComo Maven.
— Você não vai se tornar nada. Não vou deixar. E nem preciso dizer que Gisa também não.
Apesar de tudo o que estou sentindo, engulo uma risada.
— Certo.
— Você não está sozinha. Durante todo o tempo trabalhando com os sanguenovos, descobri que esse é o maior medo deles. — Kilorn inclina a cabeça para trás, encostando na janela. — Vocês deveriam conversar.
— É mesmo — murmuro, e estou sendo sincera. Certo alívio floresce no meu peito. Aquelas palavras me confortam mais do que qualquer coisa.
— E no fim das contas você precisa descobrir o que quer — ele diz, de forma gentil.
Vejo a água da banheira fervendo lentamente, formando bolhas brancas e gordas. Um garoto pálido me olhando com o pescoço exposto. Na vida real, só fiquei ali parada. Era fraca, tola e medrosa. No devaneio, coloco as mãos em volta do seu pescoço e aperto. O garoto estremece na água escaldante, mergulhando para nunca voltar à superfície. Para nunca mais me assombrar de novo.
— Quero matar Maven.
Kilorn estreita os olhos e um músculo da bochecha se contrai.
— Então você tem que treinar para vencer.
Assinto lentamente.
No canto da ala, quase inteiramente oculto pelas sombras, o coronel se mantém vigilante. Ele olha para os pés, sem se mexer. Não entra para ver a filha e o novo neto.
Tampouco vai embora.

43 comentários:

  1. Que remédio é esse que mandaram pra mare ?

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    1. Pílula do dia seguinte. Pra ela não engravidar, como aconteceu com Farley

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  2. Depois do beijo na chuva a moda é a transa na chuva
    E pelo visto saber das intimidades alheias não é privilégio dos feéricos
    Babyzinho♥

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    1. Feéricos 😍 Rhysand ❤ tem todo o mwu amor
      lila aqui 🌸

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  3. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    ESPEREI O TEMPO TODO POR ISSO 😍😍😍😍😍😍😍

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  4. Vc le trono de vidro ????

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    1. ss melhor saga da vidaaaaa
      #AELINFODASTICA

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  5. Nossa.. foi meio vago não??...comparado cm Rowan e Aelin.KKKKKkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Ai ai...mas q seja...amei msm assim ❤❤ parece q o Cal deixou de ser mimizento...ADOREI ❤

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  6. sabe, achei essa parte do livro meio confusa,a autora ora da completamente a entender que a mare gosta mesmo do maven,depois ela simplesmente quer matar ele.acho que a autora simplesmente entrou no senso comum,a garota que não era ninguém e provou do poder se tornando outra pessoa mas depois de toda a evolução da mare como mareena ela simplesmente desvolui ela denovo,acho tão frustante,o que ia impressionar seria a mare gostar do poder,lutar por ele,querer o que os sanguenovos ofereceram a ela,a chance dos iguais a ela governarem,ela não é vermelha,nem prateada,ela é os dois,queria que ela ficasse do lado deles,o mavem luta pelos prateados, a guarda pelos vermelhos mas quem luta pelos sanguenovos?

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  7. Socorrooooo que meu surto correu solto aqui!!!
    Até que enfim !!! 🙏😍
    Agora sim esses dois ta shippavel ❤️

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    1. A deles foi normal, Carla.
      E tive que apagar seu comentário por causa dos spoilers de outras sagas :x

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  10. gente fui entender que tinha rolado so na parte da pilula kkkkkk foi muito vago aff

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  11. Eitaaa Mare, Capitulo quente. ( Sera q tem uma possibilidade dela e kilorn ficarem juntos? Reflitão.)

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  12. Acho q a autora deixou vago pq a série ñ é muito voltada para romance, fala mais sobre política e guerra. O foco dela é falar sobre a revolução de uma população escravizada em busca de liberdade.
    É parecido com jogos vorazes, o romance é só pra deixar a história mais interessante

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  13. NÃO VOU MENTIR, ESPEREI UM POUCO MAIS DO PRIMEIRO MOMENTO DELES, E O QUE É ISSO DE ELA FAZER AMOR COM O CARA E DEPOIS PENSAR NO IRMAO DELE, PÔ!!!!

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  14. nao e so os feericos que percebem kkk
    prefiro a aelin e o rowan <3 ou a feyre e o rhys, o deles foi a sla

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  15. Kkkkk super shippo Cal e Mare

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  16. ela tomou a pílula pra não engravidar </3

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  17. nao esperava antes mas foi vago

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  18. — Vamos lá — esbravejo. — Soldados estão acostumados a acordar bem mais cedo que isso.
    — O que não quer dizer que eu não prefira dormir quando posso. — Cal levanta com uma má vontade exagerada, só faltando mostrar a língua.

    — Não insulte meu quartinho — Cal resmunga, antes de me beijar nos lábios. Depois no queixo. Depois no pescoço. Cada toque faz explodir uma onda de fogo por baixo da minha pele.
    Relutante, empurro seu rosto para longe.
    — Tem uma grande chance de meu pai atirar em você pela janela se continuar com isso aqui. KKKKKKKKKKKKKKKKKK
    ~polly~

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  19. Concordo que tudo fica muito vago no relacionamento dela com o Cal. Sinto isso desde o primeiro livro, no primeiro beijo deles. Tudo muito rápido, a autora não costuma desenvolver o ambiente romântico para sentirmos as emoções junto com a Mare... e fica vago, faltando algo.

    Geralmente nos triângulos amorosos sempre existe uma preferência, o autor deixa pistas sobre quem deve ser o verdadeiro escolhido no fim. Mas nesta saga está quase impossível de discernir isso, e nisso a autora é muito boa. Já é o terceiro livro da série e ainda temos dúvidas sobre quem shipar com a Mare. Pensei que fosse o Maven, porque a autora descreve a química entre eles com mais detalhes. A Mare obviamente ama os dois, e pensou que ao escolher ficar com o Cal isso ajudaria a apagar os sentimentos dela por Maven, mas não é tão fácil.

    Apesar do lance dela com o Maven ser mais intenso, como esperar que ele se redima? Como esperar a salvação de um rei como ele, que apesar dos momentos fofos também é assassino de bebês? Por isso a escolha final é Cal, porém como esquecer Maven? (Este é o X da questão pra Mare, seu maior dilema). O que fazer com ele: amá-lo ou destruí-lo? Apesar da resposta parecer fácil, tenho pena da Mare. O coração dela só vai se quebrar com tudo isso... Esperamos que o Cal possa ajudar a concertá-lo no fim de tudo.

    ~Pri

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  20. Foi beeem vago, mesmo não sendo o foco da saga o romance :\ mas morri de rir com Cal e Mare envergonhados depois hahahaha
    Amo o propósito do blog, parabéns :D

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  21. Mas gente, todo mundo percebeu que eles transaram? Coitados kkkkk

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  22. Melhoor capituloooo
    Meu OTP mare e cal vivissimo <3 <3

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  23. GENTE RI ATÉ MINHA BARRIGA DOER NESSE CAPÍTULO KKKK
    #melhorcapitulo
    (UM dos melhores) ~polly~

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  24. Que capítulo mara!!! ❤❤❤❤ Cal e Mare ❤ #TeamCal

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  25. Creio que a autora não seja muito Boa em descrever cenas quentes. Até em A Seleção(um livro mais voltado pro romance) as cenas eram bem quentes...

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  26. Poxa q saco. Só depois me toquei q era uma pílula do dia seguinte, tava ate esperançosa dela engravidar do cal kkkkk

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  27. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  28. Capítulo perfeito!Gostei da forma como a autora descreveu a primeira vez deles.Não achei vago.

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  29. Os instintos me fazem querer jogar Cal no quarto mais próximo e trancar a porta atrás de nós. O bom senso me diz que não posso.
    Eita bom senso ....

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Boa leitura :)