13 de março de 2017

Capítulo vinte e dois

ELA ESTÁ EMPUNHANDO A PISTOLA ERRADO, até eu sei disso. É grande demais para ela, com quase trinta centímetros de cano, feita de um metal preto e brilhante.
Seria mais adequada nas mãos de um soldado treinado do que nas de uma adolescente trêmula e franzina.
Soldada, percebo com fria nitidez. Prateada. É o mesmo tipo de arma com a qual o sentinela atirou em mim, muito tempo atrás, nas profundezas do calabouço do Palacete do Sol. A bala doeu como um golpe de marreta e penetrou direto na minha espinha. Eu teria morrido se não fosse Julian e o curandeiro de pele sob seu controle.
Apesar do meu poder, ergo os braços em rendição. Posso ser a garota elétrica, mas não sou à prova de balas. A garota toma o gesto como uma ameaça, em vez de uma entrega, e fica mais tensa, com o dedo perto demais do gatilho.
— Não se mexa — ela sibila, arriscando mais um passo na minha direção. Sua pele, da cor profunda do ébano, é a camuflagem perfeita para a floresta. Mas vejo o vermelho brotar sob sua pele, e vejo a trama de veias minúsculas no branco de cada olho. Solto um ruído de surpresa. Ela é vermelha. — Nem pense em se mexer.
— Não vou — digo, inclinando a cabeça. — Mas não posso falar por ele.
A jovem franze a testa, confusa. Não tem nem tempo de sentir medo. Shade aparece atrás dela, materializando-se do nada, agarrando-a com um movimento preciso aprendido no exército. Ela solta a pistola, que apanho antes de chegar ao chão. A jovem luta e xinga, mas, com os braços de Shade travando seu pescoço, fica difícil fazer algo além de cair de joelhos. Ele também se abaixa, sem perder o controle. O rosto dele traz um sorriso discreto — uma garota franzina não é páreo para ele.
Tenho uma sensação estranha ao segurar a pistola.
Não é a arma que costumo escolher. Na verdade, nunca atirei. Quase começo a rir pensando nisso. Cheguei tão longe sem jamais ter dado um tiro.
— Tire suas mãos prateadas de mim! — ela ruge, ainda lutando para se desvencilhar. Não é forte, mas é escorregadia, e tem músculos longos e esguios. Tentar prendê-la é como segurar uma serpente. — Não vou voltar! Não vou! Vocês vão ter que me matar!
As faíscas irradiam na minha mão vazia, enquanto a outra ainda segura a arma. Ao ver os raios, ela congela imediatamente. Só seus olhos se mexem, arregalados de pavor.
Ela põe a língua para fora para molhar os lábios secos e rachados.
— Sabia que conhecia você de algum lugar.
O calor de Cal é mais rápido que o corpo dele e me envolve, morno, segundos antes de ele surgir ao meu lado. As pontas dos seus dedos ardem azul de medo, mas as chamas cedem diante da garota.
— Tenho um presente para você — murmuro, entregando a pistola para ele. Ele a encara, impressionado, e pergunta exatamente o que me perguntei:
— Como você conseguiu isso? — Ele se abaixa para poder encarar a jovem nos olhos. Sua atitude fria e firme me faz voltar à última vez que o vi interrogar alguém. A lembrança dos gritos e do sangue congelado de Farley ainda dá um nó no meu estômago.
Como não obtém resposta, Cal tensiona os músculos e pergunta de novo:
— Esta arma. Como você conseguiu?
— Eu peguei! — ela vocifera, se contorcendo. Suas articulações estalam a cada movimento.
Sinto a dor dela e troco um olhar com meu irmão.
— Solta ela, Shade. Acho que podemos cuidar disso.
Ele faz que sim e abre os braços, feliz por se ver livre da adolescente e suas cotoveladas. Ela desaba para a frente, levando as mãos ao chão antes de dar de cara com a terra. Em seguida, recusa a ajuda de Cal para levantar.
— Não toca em mim, chefe — dispara. Parece pronta para morder alguém, com os dentes brilhantes à mostra.
— Chefe? — o príncipe murmura consigo, tão confuso quanto a garota.
Ainda de pé atrás dela, Shade franze a testa ao se lembrar.
— Chefe. Grandes senhores prateados. É gíria da favela — ele explica, sanando nossa ignorância. — De que cidade você é? — ele pergunta à jovem, com um tom de voz bem mais gentil que o de Cal.
A delicadeza a pega desprevenida, e ela se vira para o meu irmão com olhos saltados de medo. Mas de vez em quando ainda se volta para mim, fascinada com os fios de energia entre os meus dedos.
— Cidade Nova — responde afinal. — Fui pega em Cidade Nova.
Agora é a minha vez de me aproximar. Quero analisá-la melhor. Ela parece o meu oposto: ela é alta e eu, baixa; tem cabelo preto e brilhante, preso em tranças, ao passo que o meu começa castanho e tem a ponta mais clara; é mais nova que eu, posso ver em seu rosto. Talvez tenha quinze ou dezesseis, mas seus olhos revelam um cansaço que vai além da sua idade. Seus dedos são longos e curvados, e provavelmente se quebraram em máquinas incontáveis vezes. Se é da favela de Cidade Nova, é uma técnica, fadada a trabalhar nas fábricas e linhas de montagens de uma cidade nascida na fumaça. Carrega uma tatuagem no pescoço. É um código. CN-MMPF-188907. Grande e geométrico, com cinco centímetros de altura, bem na garganta.
— Não é bonito, não é, garota elétrica? — ela provoca ao perceber o meu olhar. Suas palavras pingam desdém, como veneno saindo de presas. — Mas você não gosta de perder tempo com coisas feias.
A voz dela sai áspera, e fico tentada a mostrar que posso fazer algo muito mais feio. Em vez disso, me apego às aulas da corte e faço o mesmo que tantos já fizeram comigo: abro um sorriso e começo a rir baixinho na cara dela. Sou eu quem dá as cartas por aqui, e ela precisa saber disso. Seu rosto assume uma expressão amarga, incomodada pela minha reação.
— Você roubou de um prateado? — Cal insiste, apontando para a arma. A incredulidade dele é evidente. — Quem ajudou?
— Ninguém me ajudou. Você devia saber por experiência própria — ela rebate. — Tive que fazer tudo sozinha. A guarda Eagrie nem viu o que estava acontecendo.
— O quê?
Se não fossem minhas aulas com Lady Blonos, gritaria em choque na hora. Uma soldada da Casa Eagrie. A casa dos observadores. Eles podem ver o futuro imediato; são como versões menos poderosas de Jon. É quase impossível para um prateado atacá-los sem ser visto, muito menos uma garota vermelha. Impossível.
Ela apenas dá de ombros.
— Pensei que os prateados fossem durões, mas essa foi fácil. E brigar era melhor do que ficar esperando na cela, esperando seja lá o que planejaram.
Cela.
Quase caio para trás. O que acabo de compreender me deixa sem chão.
— Você escapou do presídio de Corros.
Os olhos dela saltam até os meus, e o seu lábio começa a tremer. É o único indício de que o medo ainda flui por trás da fachada de ira.
A mão de Cal toca meu cotovelo, me acalmando.
— Qual o seu nome? — ele pergunta, num tom de voz um pouco mais gentil.
Ele a trata como um animalzinho assustado, e isso a enfurece mais do que qualquer coisa.
Ela levanta rápido, com punhos tão cerrados que as veias saltam nos braços repletos de cicatrizes por anos de trabalho em fábrica. Ela aperta os olhos por um instante, e chego a pensar que vai sair correndo. Em vez disso, ela firma os pés na terra e ajeita a coluna com orgulho.
— Meu nome é Cameron Cole. E, se vocês não se importam, vou tomar meu rumo.
Ela é tão graciosa e elegante quanto qualquer dama da corte. Quando estico o corpo para ficar mais alta, não chego nem à altura do queixo dela. Mas a faísca de medo ainda brilha nos seus olhos. Ela sabe exatamente quem e o que eu sou.
— Cameron Cole — repito.
A lista de Julian inunda meu pensamento, junto com os nomes e as demais informações. E então recordo os registros de Harbor Bay, mais detalhados que as descobertas de Julian. Me sinto um pouco como Ada ao cuspir tudo o que me lembro, rápida e confiante:
— Nascida em 3 de janeiro de 305, em Cidade Nova. Ocupação: Aprendiz de mecânica, estagiária em Montagem e Manutenção, Setor de Pequenas Fábricas. Endereço: Unidade 48, Bloco 12, Setor Residencial, Cidade Nova. Tipo sanguíneo: não se aplica. Mutação genética: matriz desconhecida.
O queixo dela cai imediatamente, deixando escapar um pequeno suspiro de surpresa.
— Está certo? — pergunto afinal.
Ela mal consegue acenar. Seu sussurro é ainda mais fraco:
— Sim.
Shade começa a bufar baixo.
— Droga, Jon... — murmura, balançando a cabeça.
Eu concordo, assentindo para meu irmão. O que Jon nos mandou encontrar não era uma coisa afinal, mas uma pessoa.
— Você é uma sanguenova, Cameron. Assim como Shade e eu. Sangue vermelho, poderes prateados. Foi por isso que trancaram você em Corros, e é por isso que você conseguiu escapar. O poder que você tem, seja lá qual for, lhe permitiu escapar e nos encontrar aqui — explico, dando um passo à frente em seguida, querendo abraçar minha irmã sanguenova. Mas ela foge dos meus braços.
— Não escapei para encontrar vocês — dispara.
Abro o meu melhor sorriso, no intuito de fazê-la relaxar. Depois de tantos recrutas, as palavras saem com facilidade. Sei exatamente o que dizer, e sei exatamente como ela vai reagir. É sempre a mesma coisa.
— Você não precisa vir, claro, mas vai morrer sozinha. O rei Maven vai encontrar você de novo...
Outro passo para trás, o que me deixa chocada. Ela fecha a cara e balança a cabeça.
— O único lugar para onde vou é o Gargalo, e nem você nem a sua eletricidade vão me deter.
— O Gargalo?! — exclamo, perplexa.
Ao meu lado, Cal faz o melhor para ser educado. Só que esse melhor não é muito bom.
— É burrice — ele emenda. — O Gargalo tem mais prateados do que imagina, cada um deles com ordens para prender ou matar alguém como você na hora. Se tiver sorte, vai ser mandada de volta para a prisão.
A boca de Cameron se contorce.
— É no Gargalo que o meu irmão está e outros cinco mil como ele, marchando direto para a cova. Também estaria lá se não tivesse sido presa. Vocês podem não ver problema nenhum em abandonar a família, mas eu vejo.
A respiração dela se torna difícil e pesada. Quase enxergo as engrenagens da sua mente girando enquanto ela pondera as opções. Sua expressão é fácil de ler; cada emoção e cada pensamento se manifestam nas contrações do seu rosto. Permaneço imóvel quando ela foge em disparada, em direção às árvores. Não a seguimos, e sinto o olhar de Cal e Shade sobre mim, querendo saber o que faremos agora.
Disse a mim mesma que daria uma chance a todos.
Deixei Jon ir embora, mesmo que precisássemos dele.
Mas algo me diz que precisamos ainda mais de Cameron, e que não podemos confiar numa garota tão jovem para tomar uma decisão tão grande. Ela não sabe o quanto é importante, seja lá qual for seu poder. Deu um jeito de escapar de Corros, e vai acabar nos ajudando a entrar.
— Pegue ela — sussurro. Parece errado.
Shade confirma com a cabeça de maneira sombria, e some. Ouço o grito de Cameron dentro da floresta.


Precisei trocar de lugar com Farley, deixando-a com a minha cadeira na cabine para poder sentar de frente para Cameron e ficar de olho nela. Ela está bem amarrada, com as mãos presas por um cinto de segurança extra. Isso, somado à nossa altitude, deve bastar para que ela não fuja novamente. Mas não estou disposta a correr um risco tão grande. Pelo que sei, ela pode ser capaz de voar ou de sobreviver à queda de um jato.
Por mais que queira usar a viagem de volta ao Furo para recuperar um pouco do tão necessário sono, fico de olhos abertos, retribuindo os olhares fulminantes dela com todo o fogo que sou capaz de reunir. Ela escolheu errado, digo a mim mesma cada vez que a culpa aparece. Precisamos dela, ela é muito valiosa para deixá-la ir.
Nanny tagarela ao lado de Cameron, contando sobre o Furo, e narrando a história da sua vida inteira. Só espero o momento em que vai sacar as fotos desbotadas dos netos, mas a jovem aguenta firme quando todos nós cedemos. Nem a bondosa senhora consegue amolecer a garota amuada, que permanece calada, com os olhos no chão.
— Qual é o seu poder, querida? Supergrosseria? — Nanny finalmente provoca, cansada de ser ignorada.
Isso pelo menos faz Cameron tirar os olhos do chão e virar a cabeça. Ela abre a boca para devolver a provocação, mas em vez de ver uma idosa, depara com o próprio rosto.
— Para com essa fita! — ela reclama, soltando mais uma gíria da favela. Seus olhos se arregalam e suas mãos tentam se libertar. — Mais alguém está vendo isso?
Abro um sorriso maldoso que não faço questão de esconder. Deixo que Nanny assuste a garota até ela falar.
— Nanny consegue mudar de aparência — explico. — Gareth manipula a gravidade. — Ele acena da maca improvisada presa na parede do avião. — E você já conhece o resto de nós.
— Eu sou inútil — Farley solta do seu assento. Uma lâmina brilha nas suas mãos, mostrando como ela está errada.
Cameron torce o nariz, seguindo os lampejos da faca com os olhos.
— Igual a mim. — Não há uma gota de melancolia na voz dela, apenas a constatação de um fato.
— Não é verdade — digo, dando um tapinha no caderno de Julian ao meu lado. — Você escapou de um observador, caso tenha esquecido.
— Bom, isso é tudo que fiz e que vou fazer — ela diz. O cinto ao redor dos seus braços sacode, mas aguenta firme. — Você pegou uma ninguém, garota elétrica. Não vai querer perder tempo comigo.
Vindo de qualquer outra pessoa, a frase poderia soar triste, mas Cameron não é boba. Ela pensa que não percebo o que está fazendo. Mas não importa o que diga, não importa o quão inútil tente parecer, não vou acreditar. O nome dela está na lista, não há dúvida.
Talvez ela ainda não saiba o que é, mas com certeza vamos descobrir. Também não sou cega. Mesmo sustentando seu olhar desafiador e deixando-a pensar que está me enganando, tenho consciência do seu jogo.
Seus dedos ágeis, treinados no chão de uma fábrica, trabalham nos nós com uma eficácia lenta, mas certeira.
Se eu não ficar de olho, não vai demorar muito até ela se soltar das amarras.
— Você conhece Corros melhor do que qualquer um de nós — digo. Nanny volta à sua forma normal. — Isso basta pra mim.
— Tem algum leitor de mentes aqui? Porque é o único jeito de você me fazer vazar alguma informação.
Quase espero que ela cuspa no meu pé depois de dizer isso.
E, apesar de todo meu esforço, começo a perder a paciência.
— Ou você é inútil ou é resistente. Escolha uma opção — digo. Ela arqueia as sobrancelhas, surpresa com meu tom de voz. — Se vai mentir, minta direito.
O canto da boca dela se contorce, deixando entrever um sorriso malicioso.
— Esqueci que você sabe tudo de mentiras — diz.
Odeio crianças.
— Não banque a superior — ela insiste, atirando as palavras como se fossem adagas. Além da voz dela, o ruído do jato é a única coisa no ar. Os outros escutam tudo com atenção, principalmente Cal. Espero sentir a temperatura subir a qualquer momento.
— Você não é mais uma chefa — Cameron continua. — Por mais que fique tentando mandar na gente. Ir para a cama com um principezinho não te torna rainha do mundo.
As luzes sobre a cabeça dela oscilam, único indício da minha raiva. Vejo Cal segurar o manche do jato com mais força. Assim como eu, está fazendo o máximo para se manter calmo. Mas essa vadia insiste em dificultar as coisas. Por que Jon não nos deu um mapa em vez disso?
— Cameron, você vai nos dizer como escapou daquela prisão. — Lady Blonos ficaria orgulhosa da minha compostura. — Vai nos dizer como ela é, onde ficam as celas, onde ficam os guardas, onde eles prendem os prateados, os sanguenovos, e qualquer outra informação que lembrar. Vai vazar até a última gota. Entendeu?
Ela joga uma das suas muitas tranças por cima do ombro. É a única coisa que pode mover sem forçar as amarras.
— E o que ganho com isso?
— Inocência — digo, suspirando. — Se continuar com essa besteira, vai deixar todos aqueles presos à própria sorte. — As palavras de Jon retornam, pairando na minha cabeça, num eco assustador de alerta. Repito-as: — Eles vão morrer, ou pior. Estou te salvando dessa culpa.
Uma culpa que conheço muito bem.
Sinto uma pressão sutil no ombro: Shade. Está me tocando de leve para que eu saiba que está comigo. É meu irmão de sangue e de armas, alguém com quem posso dividir a vitória e a culpa.
Mas em vez de concordar, como qualquer pessoa racional faria, Cameron parece ainda mais irritada. Seu rosto se torna mais sombrio, uma nuvem negra de emoções.
— Não acredito que você tem a cara de pau de falar isso. Você, que abandonou tantas pessoas depois de mandá-las para as trincheiras.
Cal não aguenta mais. Ele soca o braço da poltrona, e o golpe ecoa seco.
— A ordem não era dela.
— Mas a culpa era. Sua e do seu bando de esfarrapados vermelhos — ela continua, desviando o olhar de mim para Farley, cortando qualquer resposta que ela queira dar. — Vocês brincaram com as nossas famílias, com as nossas vidas, enquanto corriam para se esconder na floresta. E agora você está se achando a heroína, voando por aí e salvando quem considera especial, quem vale o tempo precioso da garota elétrica. Aposto que passa reto pelas favelas e vilarejos pobres. Aposto que nem vê o que fez com a gente. — O sangue dela sobe com a raiva, corando as bochechas com um vermelho escuro. — Sanguenovos, vermelhos, prateados... Tudo se repete — ela continua. — Uns são especiais, uns são melhores que os outros, e outros vão continuar sem nada.
Sinto enjoo, o prenúncio de uma onda de medo.
— O que você quer dizer?
— Divisão. Favorecer um mas não o outro. Você caça gente que nem você, para proteger, treinar e lutar sua guerra. Não porque eles querem, mas porque você precisa deles. E essas crianças indo para a guerra? Você nem liga para elas! Trocaria todas por outra tomadinha reclamona ambulante.
As luzes oscilam de novo, mais rápido agora. Sinto cada giro dos motores do avião, apesar da velocidade alucinante. A sensação é enlouquecedora.
— Estou tentando salvar as pessoas de Maven. Ele vai transformar os sanguenovos em armas, o que vai acabar em mais mortes, mais sangue...
— Você está fazendo o mesmo que eles fizeram — Cameron contra-ataca, com as mãos atadas e trêmulas de raiva apontando na direção de Cal. Conheço a sensação, e tento esconder os tremores de ódio dos meus próprios dedos.
— Mare... — O aviso de Cal cai em ouvidos surdos, afogados pela minha pulsação trovejante.
Cameron cospe ainda mais veneno. Parece gostar.
— Uma era atrás, os prateados eram novidade. Eram poucos, e foram caçados pelas pessoas que achavam que eles eram diferentes demais.
Contraio as mãos na beirada do assento, cravando os dedos em algo sólido.
Controle. Agora, o jato chia na minha orelha, um ruído capaz de romper meus tímpanos.
Nós sacudimos no ar, e Gareth geme, agarrando a perna.
— Cameron, pare! — Farley grita, as mãos voando para o cinto. As fivelas estalam numa sequência rápida. — Se você não calar a boca, vou aí calar!
Mas Cameron só tem olhos e fúria para mim.
— Veja aonde esse caminho nos levou — ela urra, inclinando-se o máximo que as amarras permitem.
Quando dou por mim, já estou de pé, tentando me equilibrar com as sacudidas do jato. Mal consigo ouvi-la em meio aos rangidos metálicos quicando no meu crânio.
As mãos dela já estão desatadas, desafivelando os cintos com uma precisão incrível. Ela levanta com um salto, e joga na minha cara:
— Daqui a cem anos, um rei sanguenovo vai sentar no trono que você construiu sobre as caveiras das crianças.
Sinto algo rasgando dentro de mim. É a barreira entre o humano e o animal, entre a razão e a loucura. De repente, me esqueço do jato, da altitude e de todos que dependem do meu controle cada vez mais fraco. Só consigo pensar em educar essa pirralha, em mostrar exatamente o que estamos tentando salvar. Quando meu punho colide com a mandíbula dela, espero ver faíscas se espalhando por sua pele, derrubando-a no chão.
Mas não há nada além da minha mão machucada.
Ela apenas observa, tão surpresa quanto eu. Ao nosso redor, as luzes oscilantes voltam ao normal e o jato se estabiliza.
O zunido na minha cabeça cessa abruptamente, como se um cobertor de silêncio tivesse caído sobre meus sentidos. Isso me atinge como um soco no estômago, me fazendo dobrar um joelho.
No segundo seguinte, Shade está me segurando pelo braço, com a força e a preocupação de um irmão.
— Você está bem? O que houve?
Da cabine, Cal olha para mim e para o painel de controle, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
— Estabilizado — ele sussurra, embora eu esteja longe de me sentir estabilizada. — Mare...
— Não fui eu — digo. Um fio gelado de suor começa a descer pela minha testa, e preciso lutar contra a vontade repentina de vomitar. Respiro rápido, como se o ar estivesse sendo arrancado dos meus pulmões. Algo me sufoca. — Foi ela.
Ela dá um passo para trás, chocada demais para mentir, boquiaberta de medo.
— Não fiz nada. Não fiz. Juro que não.
— Não era sua intenção, Cameron — digo, e isso é o que mais a surpreende. — Apenas se acalme, apenas... apenas pare...
Não consigo respirar. Não consigo mesmo respirar.
Seguro Shade com mais força, cravando as unhas nele.
Ondas de pânico latejam nos meus nervos, solitários sem a minha eletricidade.
Ele sustenta todo o meu peso no ombro ruim, ignorando a pontada de dor. Pelo menos Shade é inteligente o bastante para entender o que estou tentando dizer.
— Você está silenciando Mare, Cameron. Está desligando o poder dela, está desligando ela.
— Não posso... Como? — Seus olhos escuros estão cheios de pavor.
Minha visão fica manchada, mas vejo o vulto de Cal passar. Cameron se encolhe, como qualquer pessoa ajuizada faria, mas Cal sabe que atitude tomar. Treinou crianças — me treinou — em situações semelhantes de caos sobre-humano.
— Solte — ele diz com uma voz firme e forte. Sem mimos, mas também sem ódio. — Respire. Inspire pelo nariz, expire pela boca. Solte o que está segurando.
Por favor, solte. Por favor. Minha respiração está cada vez mais curta.
— Solte ela, Cameron.
É como se tivessem apoiado uma rocha em cima do meu peito. Estou sendo esmagada, literalmente sugada.
— Solte ela.
— Estou tentando!
— Calma.
— Estou tentando. — Desta vez, sua voz sai mais suave, mais controlada. — Estou tentando.
Cal acena com a cabeça, com movimentos suaves como ondas.
— Isso mesmo. Isso.
Arfo mais uma vez, mas agora o ar chega aos meus pulmões. Já consigo respirar. Meus sentidos estão dormentes, mas voltando, aumentando com cada batida fortificante do meu coração.
— Isso — Cal diz novamente, olhando por cima do ombro. Seus olhos finalmente encontram os meus, e é como se cortassem um fio de tensão entre nós. — Isso.
Não o encaro por muito tempo. Preciso ver Cameron, ver o medo dela. Ela aperta os olhos e franze a testa em concentração. Uma lágrima solitária escapa, escorrendo pela bochecha. Suas mãos massageiam a tatuagem no pescoço. Ela só tem quinze anos. Não merece isso. Não devia ter tanto medo de si mesma.
— Estou bem — falo com esforço, e os olhos dela se abrem na mesma hora.
Antes que ela feche de novo as portas do coração, capto um lampejo de alívio no seu rosto. Não dura muito.
— Isso não muda o que sinto, Barrow.
Se eu pudesse levantar, levantaria. Mas meus músculos ainda tremem de fraqueza.
— Quer fazer isso com mais alguém? Com o seu irmão, quando encontrá-lo?
Aí está. O acordo que precisamos fazer. Ela também sabe disso.
— Se você nos botar para dentro de Corros, vamos garantir que saiba usar seu poder. Vamos fazer de você a pessoa mais mortal do mundo.
Receio que vou me arrepender dessas palavras.

31 comentários:

  1. Desculpa aí, mas mare mereceu ouvir parte dessas coisas que Cameron disse. Ela precisa descer um pouco desse pedestal que ela própria se coloca, mesmo que não mostre isso a todos. Nimguem pode discordar dela que já fica com raivinha e "querendo mostrar quem é", seje Menas fofa.

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    1. concordo, Mare está se achando demais, e realmente mereceu o que Cameron fez com ela, ela está querendo ser alguém da qual jamais foi, só porque agora se tornou a "garota elétrica", esqueceu quem ela era de verdade, até com o pobre Kilorn ela se tornou indiferente...

      ~Amy~

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    2. Concordo. Garota prepotente. O que me mantém lendo são Kilorn, Shad, Farley e Cal. E descobrir o futuro de Maven, aquele cretino desalmado!

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  2. kkkkkkkkk bem menos né, ela só ta fazendo burrice e tratando os outros como se fossem menor que ela, ainda não entendo por que ela é tão especial, gostei dessa garota, ela tem senso moral, e o poder dela é f***

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  3. Nossa essa menina e poderosa. 😰

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  4. Nossa, essa menina e poderosa.����

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    1. Aaaaaaah dorei !!! Melhor parte ever, finalmente uma pessoa diminuiu a Mare ao nada que ela é ! Nunca tive TANTA antipatia por uma protagonista antes, só continuo lendo por causa do Cal, e infelizmente é a Mare q narra e eu sou obrigada a ficar lendo os pensamentos de bosta dela. Prepotente, egocêntrica, egoísta, estúpida. Finalmente alguém falou umas ótimas de umas verdades na cara dela, tirou toda a força dela com a qual ela se acha a melhor pessoa do mundo a mais poderosa de todas e fez ela ser bem menas.

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  5. Amei essa Cameron, Mare realmente mereceu isso, ela ta se achando a princesa e que todo mundo tem medo dela por ela ser a "garota elétrica", mas ela trata os sem poderes como se fossem inúteis e fica querendo tudo do jeito dela, e quando não acontece do jeito que ela quer ela fica com raiva, se achando a fortona a princesa poderosa, ela diz que da uma escolha, mas ela só fala, porque quando recusam pra ela,meu amigo sai de baixo, que ela vira o cão!!

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  6. E quando falam as verdades a ela, Mare fica aí com esse mimi,de explodir tudo, aprenda a se controlar querida, a realidade é bem diferente, não é só pq vc acha que vc está certa que vc realmente está!

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  7. Mas adorei Cameron, vai miga, tu sabe joga as verdades na cara dos outros!!

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  8. Me julguem. ... mas teria jogado essa garota pela janela se pudesse! Ela disse coisas que a Mare precisava ouvir sim, mas já tava me dando nos nervos a burrice dela. Gostei do as socão que ela levou!

    Flavia

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    1. Eu estou contigo. A Mare só tá fazendo o melhor que pode e essa pirralha acha que tem algum direito de falar mal dela. Fiquei revoltado

      ~Erik

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    2. O errado está certo e o certo errado, os dois lados da histórias jogam as verdades na cara, porque a Mare tá irritando bastante se tornando alguém que não é. Mas ela também está fazendo o que pode para salvar os vermelhos e sanguenovos.
      A razão está dividida. ~polly~

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    3. Acho o mesmo . Essa garota tava acabando com a minha paciência. Até que uma ou outra coisa era verdade , mas já tava demais . Devia ter levado outro.

      Apaixonada por livros

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  9. Amei essa garota! Já tava passada de ouvir umas verdades, né, Mare? Kkkk

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  10. Tava ficando chato quase pato de ler vou continuar pela Cameron Mare pensa q e melhor e so faz burrice

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  11. Ja gosto da Cameron, falou altas verdades pra Mare. E com aquele "-Para com essa fita!" me lembrou uma Paulista kkkkk

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  12. Gente!!! coitada dá Mare ela é a personagem principal, é acho que essa tal de Cameron tem razão mais a Mare tá ajudando e muitos não tão percebendo,se não fosse a Mare ninguém se levantar contra a monarquia, o que seria desse reino, as coisas não saem perfeita e as vezes para melhorar precisa de alguns sofrer 😢

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    1. Eu gosto da Mare! não acho que ela esta se achando não, a Cameron disse as "verdades" vistas do ponto de vista dela, a Mare Não pode ajudar a todos, nem na vida real podemos, quem dira num livro, ela faz oq pode, mas ninguem ve as atitudes certas, positivas, etc. só apontam os erros

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  13. Cameron!
    Palmas pra você
    👏👏👏😏😋😚
    A Mare PRECISAVA de alguém pra dar um STOP nesse egocentrismo dela.

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  14. Espero que no final do livro a.Mare leve um banque daqueles e perceba que não é essas coisas todas. Ela mal tem treinamento e praticamente todos que ela recrutou tem poderes mais fortes e interessantes. Baixa a bola migs,não sei se vou suportar esse seu ar de superioridade em mais um livro

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  15. Cameron ja te flor kkkkk
    Alem de ter um poder f*** jogo as verdade na cara da mare

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  16. "A voz dela sai áspera, e fico tentada a mostrar que posso fazer algo muito mais feio. Em vez disso, me apego às aulas da corte e faço o mesmo que tantos já fizeram comigo: abro um sorriso e começo a rir baixinho na cara dela. Sou eu quem dá as cartas por aqui, e ela precisa saber disso. " Quando fizeram isso com ela no primeiro livro ela não gostou né?! Mare, vamos mudar esse pensamento baby.

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  17. NAO CONSIGO ACHAR MOTIVOS PRA NAO GOSTAR DA CAMERON. Mas sei que do jeito que a Autora é Mare vai ser novamente a forçada, a principal e ngm mais vai ter coragem de falar as verdades que ela precisa.

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  18. Mare pode estar sim me irritando os poucos... mas essa novata ai me irritou de uma vez!

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  19. o que foi isso? A mare estava completamente ridícula nesse capitulo. A Cameron estava totalmente certa em todas a coisas que jogou na cara dela. E eu ja nao gostava da Mare dps desse capitulo entao. Desde quando se educa batendo? E esses xingamentos? chamam a menina de "vadia". o que foi isso??

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  20. Muitas pessoas estão falando mal da Mare. o que a Cameron falou dela não é certo pois a Mare não tem como ajudar a todo mundo.não gostei da Cameron.

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  21. Topppp demais!! Super a favor da Mare, ela está se descobrindo e não ha como ser eficaz ainda, a Cameron está na verdade dela ainda... De verdade, é só uma história hahaha

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  22. Cameron miga obrigaado POR falar essa coisas Mara a menininha eletrica voce arrasou e seu poder e demais. Mare voce mereceu.
    Asa:rosany

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  23. Kkkk a melhor parte foi "Dormir com um principizinho não te torna a rainha do mundo" kkkk soltei um gritão aqui. TOMA MARE!!! Verdades merecidas! To sentindo uma pitada de inveja do lado da Mare. Cameron é mais poderosa que ela. Mas mesmo assim não fui muito com a cara dela não. Mare esta irritante demais mas vamos ver aonde tudo isso vai dar. Alguem percebeu o spoilerzinho do 4° livro. "Você vai ser a tempestade". War Storm esta vindo por ai!!!!

    ~Nathy~

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  24. Nossa quero morrer amigada dessa Cameron, mdsss
    Essa Mare tá se achando d+ só pq consegue criar eletricidade.
    Aquele garoto de 7/8 anos que mata uma pessoa só com um misero toque é mto mais letal que ela, e ele fica se achando?

    N sei pq mais eu n consigo ter raiva desse Maven e eu odeio essa Mare pela mor.
    Só to lendo por causa do Shade e da Farley e tbm pq eu amo livros com superpoderes

    ~Jak~

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Boa leitura :)