3 de março de 2017

Capítulo vinte e dois

À NOITE, SONHO COM MEU IRMÃO SHADE vindo me visitar na escuridão. Ele tem cheiro de pólvora. Mas, quando pisco, minha mente grita aquilo que já sei: Shade está morto.
Quando a manhã chega, uma série de ruídos e batidas de porta me acorda e me faz sentar na cama. Espero encontrar sentinelas, Cal ou um Ptolemus assassino pronto para me partir ao meio pelo que fiz. Contudo, são apenas as criadas revirando meu armário. Parecem mais apressadas que o normal e juntam minhas roupas desleixadas.
— O que houve?
As garotas ficam imóveis. Fazem uma reverência com as mãos repletas de vestidos de linho e seda. Ao me aproximar, percebo um conjunto de malas de couro.
— Vamos a algum lugar? — pergunto.
— Ordens, minha senhora — uma delas responde. — Só sabemos o que nos disseram.
— Claro. Bom, vou me vestir então.
Procuro a roupa mais próxima, na esperança de ao menos uma vez escolher por mim mesma. Ainda assim, as criadas agem mais rápido.
Cinco minutos depois, já me pintaram e me vestiram com uma calça de couro estranha e uma camisa listrada. Realmente gosto mais dos trajes de treino do que das outras roupas, mas não me parece “adequado” usá-los fora das aulas.
— Lucas? — chamo no corredor vazio, com a vaga expectativa de o ver sair de um dos esconderijos.
Mas ele não se encontra em parte alguma, e vou para a aula de protocolo à espera de que cruze meu caminho. Quando isso não acontece, meu corpo treme de alto a baixo. Julian o fez esquecer a noite passada, mas talvez algo tenha vazado. Talvez ele esteja sendo interrogado ou castigado pela noite de que não se lembra e pelo que o forçamos a fazer.
Todavia, não passo muito tempo só. Maven surge com um sorriso de admiração nos lábios.
— É cedo, principalmente para quem foi dormir tão tarde.
— Não sei o que você quer dizer — replico inocente.
— Os prisioneiros fugiram. Todos os três desapareceram do nada.
Levo a mão ao peito para aparentar às câmeras que estou chocada.
— Por minhas cores! Um punhado de vermelhos escapou de nós? Parece impossível.
— De fato, parece — comenta, embora o sorriso e o olhar sombrio permaneçam. — Claro, isso desperta desconfiança: as faltas de energia, a falha no sistema de segurança, isso sem falar da tropa de sentinelas com parte da memória em branco.
O príncipe me dirige um olhar duro, e deixo que veja minha inquietação.
— Sua mãe... os interrogou?
— Sim.
— E ela ainda vai conversar — escolho as palavras cautelosamente — com mais alguém a respeito da fuga? Oficiais, guardas...?
Maven balança a cabeça e diz:
— Quem fez isso, fez muito bem. Ajudei-a com os interrogatórios e apontei qualquer pessoa suspeita.
Apontou. Apontou para longe de mim. Solto um curto suspiro de alívio e aperto seu braço em agradecimento.
— Além disso, talvez jamais encontremos o responsável. Muitas pessoas foram embora desde a noite passada. Acham que o Palacete não é mais seguro.
— Depois da noite de ontem, provavelmente estão certos.
Passo meu braço pelo seu e o puxo para mim antes de perguntar:
— O que sua mãe descobriu sobre a bomba?
A voz de Maven baixa a um sussurro.
— Não houve bomba.
O quê?
— Houve uma explosão, mas acidental. Um dos tiros perfurou um cano de gás no chão e quando o fogo de Cal acendeu... — Neste momento, ele para de falar e deixa suas mãos demonstrarem o resto. — Minha mãe teve a ideia de usar isso a, hum, nosso favor.
Não matamos sem propósito.
— Sua mãe está pintando a Guarda como um monstro.
Ele confirma com a cabeça, sério.
— Ninguém vai querer ficar ao lado deles. Nem mesmo os vermelhos.
Meu sangue ferve. Mais mentiras. Ela está vencendo sem disparar um tiro ou puxar uma espada. Só precisa de palavras. E agora vou me embrenhar ainda mais em seu mundo, em Archeon.
Não vou mais ver minha família. Gisa vai crescer e não vou reconhecê-la. Bree e Tramy vão se casar, ter filhos e me esquecer. Meu pai vai morrer aos poucos, sufocado por suas feridas e, quando partir, minha mãe vai junto.
Maven me deixa divagar. Seus olhos pensativos observam as emoções que se manifestam no meu rosto. Ele sempre me deixa com meus pensamentos. Às vezes, seu silêncio é melhor que as palavras de qualquer pessoa.
— Quanto tempo ainda temos aqui?
— Partimos à tarde. A maior parte da corte vai embora antes, mas temos que tomar o navio e manter alguma tradição no meio desta loucura toda.
Quando era criança, costumava me sentar à varanda para assistir aos lindos navios flutuarem rio abaixo, rumo à capital. Shade ria da minha vontade de ver o rei, nem que de relance. Na época, não sabia que se tratava de uma demonstração de força, como as lutas nas arenas, para nos ensinar quão insignificantes somos na grande ordem do mundo. Agora tomarei parte nisso mais uma vez, só que do outro lado.
— Pelo menos você vai poder ver sua casa de novo, nem que seja por uns instantes — ele acrescenta, querendo ser gentil.
Claro, MavenO que eu mais quero é ver meu velho lar e minha família ficarem para trás. Mas é o preço que tenho que pagar. Libertar Kilorn e os outros significa perder meus últimos dias no vale. É uma troca que faço sem hesitar.
Somos interrompidos por um estrondo vindo de um corredor próximo que dá para o quarto de Cal. Maven reage primeiro e chega lá antes de mim, como se tentasse me proteger de algo.
— Pesadelos, meu irmão? — pergunta, preocupado com o que vê.
Em resposta, Cal sai do quarto com os punhos cerrados, talvez para manter as mãos sob controle. Já não está com o uniforme manchado de sangue, usa um outro, parecido com a armadura de Ptolemus, mas com um tom avermelhado.
Sinto vontade de dar um tapa na cara dele, de arranhá-lo e gritar por causa do que fez com Farley, Tristan, Kilorn e Walsh. A energia dança dentro de mim, suplicando para ser liberada.
Mas, afinal, o que podia esperar? Sei quem ele é e no que acredita: não vale a pena salvar vermelhos. Assim, falo com a maior educação possível:
— Vai partir com a sua legião?
A julgar pela raiva lívida em seus olhos, sei que não vai. Antes temia que ele partisse, mas agora desejo isso. Nem acredito que me preocupei em salvar Cal. Nem acredito que esse pensamento me passou pela cabeça.
Cal responde bufando:
— A Legião das Sombras não vai a lugar nenhum. Meu pai não permite. É perigoso demais e sou valioso demais.
— Você sabe que ele tem razão — comenta Maven ao pôr a mão no ombro do irmão para acalmá-lo.
Lembro de ver Cal fazer o mesmo com Maven, mas agora parece que a coroa trocou de cabeça.
— Você é o herdeiro — meu noivo acrescenta. — Ele não pode arriscar perder você também.
— Sou um soldado — rebate Cal, desvencilhando-se do toque do irmão. — Não posso ficar sentado enquanto os outros lutam por mim. Não vou fazer isso.
Ele soa como uma criança que chora por um brinquedo. Deve gostar de matar, o que me dá nojo. Permaneço calada e deixo Maven falar por mim. Ele sempre sabe o que dizer.
— Encontre outra causa. Construa outra moto, dobre o treinamento, faça exercícios com seus homens, prepare-se para quando o perigo passar. Cal, você pode fazer milhares de outras coisas, e nenhuma delas termina com você morrendo em alguma trincheira! — ele diz com os olhos fixos no irmão.
Depois de uma pausa, Maven abre um sorriso e tenta deixar o ambiente mais leve antes de concluir.
— Você não muda nunca, Cal. Não consegue ficar parado.
Depois de um instante de silêncio, Cal abre um sorriso tênue e declara:
— Nunca.
Seus olhos se voltam para mim, mas não vou ser pega por seu olhar de bronze, de novo não.
Olho para o lado, fingindo observar um quadro na parede.
— Bonita armadura — provoco. — Vai ficar bem na sua coleção.
Ele parece ofendido, confuso até, mas rapidamente se recupera. Seu sorriso desaparece e é substituído por uma cara fechada. Dá um tapa na própria armadura e o som lembra garras arranhando pedras.
— Foi presente de Ptolemus. Parece que eu e o irmão da minha noiva compartilhamos a mesma causa.
Minha noiva. Como se isso fosse me causar ciúmes ou algo assim.
Maven se concentra na armadura.
— O que você quer dizer?
— Ptolemus comanda a guarda da capital. Se eu e minha legião nos unirmos a ele, podemos fazer algo útil, mesmo na cidade.
Um medo gélido se apossa mais uma vez do meu coração e apaga qualquer esperança e felicidade que o sucesso da noite passada me proporcionou.
— O que exatamente? — pergunto.
— Sou um bom caçador. Ele é um bom matador.
Depois dessas palavras, Cal dá um passo para trás, caminhando para longe de nós. Posso vê-lo se esgueirar não só até o fim do corredor, mas por um caminho sombrio e sinuoso. Temo pelo garoto que me ensinou a dançar. Não, não posso ter medo por ele. Ou dele. E isto é pior que todos os meus horrores e pesadelos.
— Nós dois cortaremos a Guarda Escarlate pela raiz. Acabaremos com a rebelião de uma vez por todas.


Não há programação para o dia de hoje. Todos estão ocupados demais com a viagem para lecionar ou treinar. Fuga talvez seja uma expressão melhor, pois com certeza é o que parece do meu ponto de vista privilegiado na entrada. Eu costumava imaginar os prateados como deuses intocáveis que nunca se sentiam ameaçados ou amedrontados. Agora sei que é o contrário. Passaram tanto tempo no topo, protegidos e isolados, que se esqueceram de que podem cair. Sua força se converteu em fraqueza.
Uma vez temi estas muralhas, assustada com tamanha beleza. Mas agora vejo as rachaduras.
É como o dia da bomba na capital, quando percebi que os prateados não eram intocáveis. Daquela vez foi uma explosão; agora algumas balas quebraram as muralhas de diamante e revelaram o medo e a paranoia que escondiam. Prateados fugindo de vermelhos: leões fugindo de ratos. O rei e a rainha discordam, a corte tem suas próprias alianças e Cal, o príncipe perfeito, o bom soldado, é um inimigo terrível e torturador. Todo mundo pode trair todo mundo.
Cal e Maven cumprem seu dever de se despedir de todos, apesar do caos organizado. Os aviões não estão longe, e mesmo de dentro do Palacete é possível ouvir o ronco de seus motores. Gostaria de ver essas máquinas grandiosas de perto, mas isso significa encarar a multidão, e não tenho estômago para os olhares doloridos dos que perderam seus entes queridos. No fim das contas, doze morreram ontem à noite, mas me recuso a gravar seus nomes. Eles não podem pesar sobre mim, não quando mais preciso da minha cabeça.
Quando canso de observar, meus pés me levam para onde querem e me fazem circular por corredores já familiares. As câmaras se fecham à minha passagem, e assim ficarão até o retorno da corte no próximo verão. Sei que não voltarei. Os criados cobrem os móveis, as pinturas e as estátuas com lençóis brancos, até todo o Palacete parecer assombrado por fantasmas.
Em pouco tempo me vejo diante da porta da velha sala de aula de Julian. A visão me deixa chocada. As pilhas de livros, a escrivaninha e até os mapas não estão mais lá. O ambiente parece mais amplo, mas dá a sensação de ser menor. Antes continha mundos inteiros, mas agora abriga apenas pó e papéis amassados. Meus olhos se detêm na parede em que o mapa enorme costumava ficar. No começo, eu não era capaz de compreender, mas agora me lembro dele como um velho amigo: Norta, Lakeland, Piedmont, Prairie, Tiraxes, Montfort, Ciron e todas as terras disputadas no meio. Outros países, outros povos, todos divididos entre linhas de sangue como nós. Se mudarmos, eles mudarão também? Ou tentarão nos destruir?
— Espero que você se lembre das aulas — a voz de Julian me tira dos meus pensamentos de volta ao espaço vazio. Ele está atrás de mim, e segue meu olhar até a parede do mapa. — Perdão por não ter podido ensinar mais.
— Teremos muito tempo para as aulas em Archeon.
Ele abre um sorriso triste, tão cheio de dor que mal posso aguentar. De repente, sinto pela primeira vez que as câmeras nos observam.
— Julian?
— Os arquivistas de Delphie me ofereceram trabalho para restaurar alguns textos antigos.
A mentira é tão perceptível quanto o nariz em seu rosto.
— Parece que fizeram umas escavações em Wash — ele prossegue — e encontraram alguns abrigos de armazenamento. Montanhas de documentos, ao que parece.
Minha voz quase não sai.
— Você vai gostar de ter tantos textos assim.
Você sabia que ele teria de partir, censura minha consciência. Você o forçou a isso na noite passada ao botar a vida dele em risco por causa de Kilorn.
— Você vai visitar a capital quando puder?
— Sim, claro.
Outra mentira. Elara logo vai descobrir o papel dele nisso tudo, e então Julian será um fugitivo. Faz sentido sair na frente.
— Tenho um presente para você — ele anuncia.
Preferiria Julian a qualquer presente, mas tento parecer grata mesmo assim.
— Um bom conselho?
Ele balança a cabeça e sorri.
— Você verá quando chegar à capital — diz, para em seguida abrir os braços e me chamar. — Preciso partir e quero uma despedida apropriada.
Abraçar Julian é como abraçar meu pai ou meus irmãos que nunca mais verei. Não quero que ele vá, mas é muito perigoso que fique, e nós dois sabemos disso.
— Obrigado, Mare — ele sussurra em meu ouvido. — Você me lembra muito ela.
Nem preciso perguntar para saber que ele se refere a Coriane, a irmã que perdeu há tanto tempo.
— Sentirei saudades, menininha elétrica.
Agora o apelido não soa tão ruim.


Não tenho forças para me maravilhar com o navio nem com os motores elétricos que o impulsionam. Bandeiras pretas, prateadas e vermelhas tremulam em cada mastro para indicar que aqui está o rei. Quando criança, costumava me perguntar por que o rei usava nossa cor, tão baixa para ele. Agora percebo que as bandeiras são vermelhas como seu fogo, como a destruição e o povo que controla.
— Os sentinelas da noite passada foram realocados — conta Maven enquanto caminhamos pelo deque.
Realocados é apenas uma palavra bonita para “castigados”. Lembro de Olho de Porco e do jeito que me encarou. Não sinto pena.
— Para onde foram?
— Para a frente de batalha, claro. Vão ser postos em algum grupo medíocre, para comandar soldados feridos, incapazes ou de mau temperamento. São geralmente os primeiros a ser enviados para as trincheiras durante um ataque.
Pelas sombras que surgem nos olhos de Maven, percebo que ele soube disso em primeira mão.
— São os primeiros a morrer?
Ele inclina a cabeça, sério.
— E Lucas? Não o vejo desde ontem...
— Está bem. Vai viajar com a Casa Samos, sua família. O atentado deixou todos abalados, mesmo as Grandes Casas.
Uma onda de alívio e tristeza passa por mim. Sinto falta de Lucas, mas é bom saber que está seguro e longe das garras de Elara.
Maven morde o lábio, cabisbaixo.
— Mas não por muito tempo. Logo aparecerão respostas.
— O que você quer dizer?
— Encontraram sangue nas celas. Sangue vermelho.
Meu ferimento à bala sumiu, mas não a lembrança da dor.
— E?
— Qualquer um dos seus amigos que tenha tido a infelicidade de se ferir não permanecerá muito tempo oculto se a base sanguínea funcionar.
— Base sanguínea?
— Um banco de dados de sangue. Qualquer vermelho a um raio de duzentos quilômetros da civilização tem seu sangue coletado ao nascer. Começou como um projeto para compreender qual é exatamente a diferença entre nós, mas acabou mais como um jeito de aprisionar seu povo. Nas cidades grandes, os vermelhos não usam cartões de identidade, mas cartões de sangue. São examinados em todos os portões, na entrada e na saída. Marcados como gado.
Logo me vêm à cabeça os velhos documentos que o rei atirou em mim aquele dia na sala do trono. Ali estava meu nome, minha fotografia e uma mancha de sangue.
Meu sangue. Eles têm meu sangue.
— E eles... eles podem descobrir de quem é o sangue? Simples assim?
— Leva um tempo, uma semana mais ou menos, mas é assim que funciona.
Seus olhos repousam sobre minhas mãos trêmulas. Ele as toma entre as suas a fim de que seu calor passe para meu corpo frio.
— Mare?
— Levei um tiro — sussurro. — O sentinela me deu um tiro. É o meu sangue que encontraram.
E então suas mãos se tornam tão frias quanto as minhas.
Apesar de todas as ideias sagazes, Maven não tem o que dizer desta vez. Apenas observa e respira com rapidez e medo. Reconheço a expressão em seu rosto. Sempre a uso quando sou obrigada a me despedir de alguém.
— Pena que não ficamos mais — lamento em voz baixa, olhando para o rio. — Queria morrer perto de casa.
Uma brisa joga uma mecha do meu cabelo sobre meu rosto, mas Maven a afasta e me puxa para si com uma ferocidade impressionante.
Ah.
Seu beijo não é nada parecido com o do irmão. Maven é mais desesperado, e fica tão surpreso com o ato quanto eu. Ele sabe que estou afundando rápido, como uma pedra atirada num rio. E quer afundar comigo.
— Vou dar um jeito nisso — murmura com os lábios nos meus. Nunca vi seus olhos tão luminosos e penetrantes. — Não vou deixar machucarem você. Dou minha palavra.
Parte de mim quer acreditar.
— Maven, você não pode dar um jeito em tudo.
— Você tem razão: eu não posso — ele replica, com um tom de voz diferente. — Mas posso convencer alguém com mais poder que eu.
— Quem?
Quando a temperatura aumenta à nossa volta, Maven recua com o rosto tenso e os dentes cerrados. A luz em seus olhos me dá a impressão de que vai atacar quem quer que nos tenha interrompido. Não viro para trás, principalmente porque mal sinto meus membros. Meu corpo formiga, embora meus lábios ainda latejem com a lembrança. Não sei o que isso significa. E não faço a menor ideia do que sinto.
— A rainha solicita sua presença no deque panorâmico — Cal diz, a voz áspera como uma lixa. Ele soa quase zangado, mas seus olhos de bronze parecem tristes, derrotados até. — Estamos passando por Palafitas, Mare.
Sim, as margens já são familiares. Conheço aquela árvore machucada, aquele banco de areia, o eco das serras e o barulho da queda das árvores. Este é meu lar. Apesar da dor, faço um esforço para me afastar do parapeito e encarar Cal, que parece travar uma conversa silenciosa com o irmão.
— Obrigada, Cal — murmuro, ainda tentando processar o beijo de Maven e, claro, meu futuro iminente.
Cal vai embora. Suas costas geralmente retas estão curvadas. Cada passo seu é um golpe de culpa em mim, me lembrando da nossa dança e do nosso beijo. Eu machuco todo mundo, especialmente a mim mesma.
Maven observa o irmão se afastar.
— Ele não gosta de perder — comenta.
Antes de prosseguir, baixa a voz e chega tão perto que posso ver os raios prateados em seus olhos.
— E eu também não. Não vou perder você, Mare. Não vou.
— Você nunca vai me perder.
Outra mentira, ambos sabemos.


O deque panorâmico domina a parte dianteira do navio e é fechado com vidro de uma ponta a outra. Formas marrons surgem perto das margens do rio, e a velha montanha com sua arena aparece entre as árvores. Estamos longe demais da terra para ver qualquer pessoa direito, mas reconheço minha casa de imediato. A velha bandeira ainda está hasteada na varanda, ainda com as três estrelas bordadas. Uma delas agora é atravessada por uma listra negra, em memória a Shade. Ele foi executadoQuando isso acontece, a ordem é arrancar a estrela.
Mas a minha família não o fez. Preferiram um pequeno ato de rebelião.
Quero apontar minha casa para Maven, contar do vilarejo. Vi sua vida e agora quero lhe mostrar a minha. Mas o deque panorâmico está em silêncio. Todos apenas observamos o vilarejo à medida que nos aproximamos. O povo não se importa com vocês, tenho vontade de gritar. Só os idiotas vão parar para ver. Só os idiotas vão perder tempo com vocês.
O navio continua e começo a pensar que o vilarejo inteiro é composto por idiotas. Todos os seus dois mil habitantes se amontoam na margem do rio, alguns com água até os joelhos. Desta distância, todos parecem iguais. Cabelo desbotado e roupas gastas, pele manchada, cansados, famintos: tudo que eu costumava ser.
irritados. Mesmo do navio dá para notar sua raiva. Não comemoram nem gritam nossos nomes. Ninguém acena. Ninguém sequer sorri.
— O que é isso? — penso em voz alta, sem esperar resposta.
Mas a rainha responde com todo o prazer:
— É um desperdício desfilar rio abaixo sem que ninguém pare para ver. Parece que demos um jeito nisso.
Algo me diz que se trata de outro evento obrigatório, como as lutas e os pronunciamentos. Guardas arrancaram idosos doentes da cama e trabalhadores exaustos do chão e os forçaram a nos assistir.
Um chicote estala em algum lugar da margem, seguido por um grito de mulher.
— Em fila! — um grito ecoa entre a multidão.
Os rostos não viram para trás sequer por um segundo, de modo que não posso ver onde foi o problema. O que aconteceu para deixar as pessoas tão submissas? O que já foi feito?
Lágrimas brotam dos meus olhos diante da cena. Há mais estalos e alguns bebês choram, mas ninguém nas margens protesta. De repente, já estou na beirada do deque, desejando poder atravessar o vidro com cada centímetro do corpo.
— Vai a algum lugar, Mareena? — sibila Elara do seu assento ao lado do rei. Ela beberica calmamente um coquetel e me lança um olhar por cima do copo.
— Por que vocês estão fazendo isso?
Com um vestido esplendoroso e os braços cruzados, Evangeline me encara com desdém.
— Por que você se importa?
Mas suas palavras caem em ouvidos surdos.
— Eles sabem o que aconteceu no Palacete. Talvez até concordem. Então precisam saber que não estamos derrotados — explica Cal com os olhos na margem do rio. O covarde é incapaz de me encarar. — Sequer sangramos.
Outro estalar de chicote e contraio os músculos, como se o golpe fosse na minha pele.
— Vocês também mandaram que fossem espancados?
Cal não aceita o desafio e permanece com o rosto e a boca fechados. Quando outro habitante grita em protesto, seus olhos também fecham.
— Para trás, Lady Titanos.
A voz do rei troveja como uma tempestade longínqua, uma ordem definitiva. Quase consigo ver o orgulho em seu sorriso ao me observar retroceder até Maven.
— Este é um vilarejo vermelho — explica. — Você sabe disto melhor que nós. A população abriga, alimenta e protege esses terroristas. Se torna como eles. São como crianças que agiram mal. E precisam aprender.
Abro a boca para argumentar, mas a rainha mostra os dentes.
— Talvez você conheça alguns que precisem ser transformados em exemplos — ela sugere com calma enquanto aponta para a terra.
As palavras morrem em minha boca, desfeitas pelas ameaças.
— Não, majestade, não conheço.
— Então fique para trás e em silêncio — ela diz com um sorriso e acrescenta: — Pois chegará sua hora de falar.
É pra isso que precisam de mim: para um momento como esse, quando a balança pender contra eles. Mas não posso reclamar. Só posso obedecer e observar minha casa se perder de vista. Para sempre.


Quanto mais perto chegamos da capital, maiores são os vilarejos. Logo a paisagem de árvores e plantações dá lugar a cidades propriamente ditas. Elas se concentram ao redor de usinas enormes, com casas de tijolo e dormitórios para abrigar os operários vermelhos. Como nos vilarejos, a população sai às ruas para nos ver passar. Soldados berram, chicotes estalam, e nunca me acostumo. Meu corpo sempre estremece.
Em seguida as cidades são substituídas por propriedades gigantes e mansões, como o Palacete. Feitas de pedra, vidro e mármore recurvado, uma é mais luxuosa que a outra. Os quintais descem até o rio, com jardins decorados por verdes e belas fontes. As casas em si parecem obra dos deuses, cada uma com um tipo de beleza diferente. Mas as janelas estão escuras, as portas fechadas. Enquanto os vilarejos e as cidades estão abarrotados de gente, estes lugares parecem desprovidos de vida. Apenas as bandeiras hasteadas no alto permitem saber que alguém de fato mora ali. Azul para a Casa Osanos, prateado para Samos, marrom para Rhambos, e assim por diante. Agora sei as cores e posso atribuir rostos a cada uma das moradias silenciosas. Cheguei até a matar os proprietários de algumas.
— Beira Rio — explica Maven. — Casas de campo para quando os lordes desejam escapar da cidade.
Meu olhar se detém sobre a mansão dos Iral, uma maravilha em colunas de mármore preto. Panteras de pedra sobre duas patas guardam a varanda. Até as estátuas me fazem tremer ao me lembrar de Ara Iral e suas perguntas insistentes.
— Não há ninguém nas casas.
— Passam a maior parte do ano vazias. Ninguém se arriscaria a deixar a cidade agora com essa história da Guarda.
Ele abre um sorriso pequeno e amargo antes de continuar.
— Preferem se esconder atrás dos muros de diamante e deixar meu irmão lutar em seu lugar.
— Se ninguém precisasse lutar...
Maven balança a cabeça.
— Não adianta sonhar.
Observamos calados Beira Rio ficar para trás. Outra floresta se ergue nas margens. As árvores são estranhas: altíssimas, com casca negra e folhas vermelhas e escuras. Um silêncio mortal, que nenhuma floresta deveria ter, predomina. Não há canto de pássaros, e o céu escurece adiante, mas não por causa do pôr do sol. Nuvens negras se amontoam sobre as árvores e pairam como um cobertor grosso.
— O que é isso?
Até minha voz sai abafada e fico subitamente feliz pela proteção de vidro ao redor do deque. Para minha surpresa, os outros saíram e nos deixaram sozinhos para observar a triste paisagem.
Maven corre os olhos pela floresta com o rosto contorcido de desgosto.
— Árvores de barreira. Evitam que a poluição suba o rio. Os verdes da família Welle as criaram anos atrás.
Pequenas ondas de espuma marrom resvalam no navio e deixam uma película de lodo preto no casco brilhante. O mundo assume cores estranhas, como se eu o observasse através de um vidro sujo. As nuvens baixas não são nuvens de verdade, e sim a fumaça que jorra de mil chaminés e tapa o céu. Longe estão as árvores e a grama: esta é a terra das cinzas e da decadência.
— A Cidade Cinzenta — murmura Maven.
As fábricas cobrem até onde a vista alcança. São sujas, enormes e vibram de eletricidade. Aquilo me atinge como um soco, quase me derruba. Meu coração tenta acompanhar o pulso extraordinário. Meu sangue acelera nas veias. Preciso sentar.
Pensei que meu mundo era errado, que minha vida era injusta. Mas nunca pude sequer sonhar com um lugar como a Cidade Cinzenta.
As usinas de força brilham na escuridão, bombeando eletricidade azul e verde no emaranhado doentio de fios pelo ar. Veículos lotados de carga rodam sobre as pontes e levam bens de uma fábrica a outra, fluindo como sangue negro e letárgico em veias cinzentas. O pior de tudo são as casinhas ao redor de cada fábrica, formando um quadrado perfeito. Uma se ergue sobre a outra, com vielas entre si. Favelas.
Sob um céu tão cheio de fumaça, duvido que os trabalhadores consigam ver a luz do dia. Caminham da fábrica para casa e enchem as ruas durante as mudanças de turno. Não há soldados, não há estalar de chicote, não há olhares perdidos. Ninguém os força a nos ver passar. O rei não precisa se exibir aqui. Eles já nascem acabados.
— Esses são os técnicos — falo em voz baixa e rouca ao me lembrar dos nomes que os prateados atiram em nossa cara despreocupadamente. — Fazem as luzes, as câmeras, os monitores...
— As armas, as balas, as bombas, os navios, os veículos... — acrescenta Maven. — Cuidam da energia elétrica, da água potável. Fazem tudo para nós.
E não ganham nada em troca além de fumaça.
— Por que não saem daqui?
O príncipe apenas dá de ombros e responde:
— É a única vida que conhecem. A maioria dos técnicos nunca sairá da própria viela. Nem participam do recrutamento.
Nem participam do recrutamento. A vida deles é tão péssima que a guerra seria uma alternativa melhor, mas nem isso lhes permitem.
Como todas as paisagens vistas do rio, as fábricas desaparecem, mas sua imagem permanece em mim. Não posso me esquecer disto. Não posso me esquecer deles.
As estrelas nos aguardam depois de outra floresta de árvores de barreira. Sob elas está Archeon. No começo não vejo a capital. Penso que suas luzes ardentes são estrelas. À medida que nos aproximamos, meu queixo cai.
Uma ponte de três andares atravessa o largo rio e liga as duas cidades das margens. Ela se estende por milhares de metros e explode em luzes, eletricidade e vida. Há lojas e praças de comércio, tudo construído na própria ponte, apenas trinta metros acima do rio. Consigo até imaginar os prateados lá em cima, bebendo, comendo e olhando com desprezo o mundo abaixo. Os veículos correm pelo andar mais baixo da ponte, seus faróis vermelhos e brancos rasgam a noite feito cometas.
Ambos os acessos à ponte têm portões, e os distritos da cidade nos dois lados são murados. Na margem leste, grandes torres de metal se erguem do chão como lanças que furam o céu, todas coroadas com aves de rapina gigantes e reluzentes. Mais veículos e pessoas povoam as ruas pavimentadas que sobem as inclinadas margens do rio e ligam os prédios à ponte e aos portões exteriores.
As muralhas são de diamante, como no Palacete, mas intercaladas por torres de metal iluminado e outras estruturas. Há patrulhas por elas, mas o uniforme dos guardas não é flamejante como o dos sentinelas nem preto e fosco como o dos agentes de segurança. São soldados, e não do tipo que dança com moças. Isto é uma fortaleza.
Archeon foi feita para a guerra, não a paz.
Na margem oeste, reconheço a Corte Real e a Casa do Tesouro das imagens do atentado. Ambos são construídos de mármore branco e brilhante. Estão completamente restaurados, embora tenham sido atacados há pouco mais de um mês. Parece que foi há uma vida atrás. Os edifícios se situam um de cada lado do Palácio de Whitefire, uma construção que até eu reconheço no primeiro olhar. Minha antiga professora costumava dizer que ele foi escavado na pedra da própria montanha, que é parte viva da rocha branca. Chamas feitas de ouro e pérola reluzem do alto da muralha que o cerca.
Tento absorver toda a visão. Corro os olhos de um lado da ponte para o outro, mas minha mente é incapaz de abarcar este lugar. Sobre nós, aviões se movem devagar pelo céu noturno, enquanto jatos voam ainda mais alto, velozes como estrelas cadentes. Pensei que o Palacete do Sol fosse uma maravilha. Aparentemente nunca soube o significado da palavra.
Mas não consigo achar nada aqui bonito, não quando as fábricas fumegantes e escuras estão apenas a alguns quilômetros atrás de nós. O contraste entre a cidade prateada e a favela vermelha me faz cerrar os dentes. Este é o mundo que estou tentando derrubar, o mundo que está tentando me matar e matar tudo o que amo. Agora percebo realmente contra o que estou lutando e como é difícil, como é impossível vencer. Nunca me senti menor do que agora, sob o vulto crescente da ponte grandiosa. Ela parece pronta para me engolir inteira.
Mas preciso tentar. Pela Cidade Cinzenta, por aqueles que nunca viram o sol.

22 comentários:

  1. "— Nós dois cortaremos a Guarda Escarlate pela raiz. Acabaremos com a rebelião de uma vez por todas."
    E AI SE VAI MINHA ESPERANÇA DE QUE CAL ERA DO BEM...

    " Abraçar Julian é como abraçar meu pai ou meus irmãos que nunca mais verei. Não quero que ele vá, mas é muito perigoso que fique, e nós dois sabemos disso.
    — Obrigado, Mare — ele sussurra em meu ouvido. — Você me lembra muito ela.
    Nem preciso perguntar para saber que ele se refere a Coriane, a irmã que perdeu há tanto tempo.
    — Sentirei saudades, menininha elétrica."
    QUASE CHOREI :(
    ~POLLY~

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    1. Também, foi muito triste, ele era um dos únicos que ela confiava.

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  2. Espero que ela fique com o Maven.
    Nunca gostei muito do Cal mesmo!!
    Que triste essa despedida ;-;
    Bateu mo bad pelo pessoal que mora na cidade cinzenta ;u;

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  3. Eu shippo ela e o Maven, mas eles tb me passam uma sensação de parabatai, mas eu shippo mais como casal
    (Agr q tu vju como o Cal é, vamo parar o triângulo, né Mare? Pf?)

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  4. Aaaah cara :/ Não dá... Eu não confio no Maven .-. Agora que o Julian saiu menos ainda :| Quero saber o que deu errado entre eles :|
    O Cal é um tonto, mas prefiro ele. Ou, a irmã dela que me desculpe, o Ki alguma coisa xD

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    1. Concordo com a Sakuragome-san, continuo não crendo em Marven!!!

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    2. Acredito que Marven e a rainha estão planejando isso tudo, Marven deve estar querendo o lugar do Cal.

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    3. Gosto do Maven, mas Shippo ela mil vezes mais com o Cal , eu acho que ele é do bem só acho que essas são decisões difíceis para ele, pq tudo o que der errado por escolha dele quem vai sentir o peso disso é ele.
      #TeamCal

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  5. Por mais que o Maven pareça apaixonado eu ainda não confio nele!

    Flavia

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  6. Eu acho que Cal é do bem!

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  7. Não consigo confiar no Maven

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  8. Espero não ser o único, mas não shippo ela nem com o cal nem com o maven. Talvez o Lucas... Mas imagino ela como a personagem principal do "trono do sol" A Ana. Independente, forte e livre de qualquer homem, focada apenas nos seus objetivos e princípios

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  9. Como disse antes acho ela e o Maven uns fofos mas sou mil vezes o Cal.
    Tbm vou sentir falta do Julian , tds vamos
    # teamcal

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  10. Vou sentir falta do Julian.
    Apesar de gostar do Maven sou mais ela e o Cal
    #teamCal

    Ass: Apaixonada por livros

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  11. Muita coisa ainda vai rolar!!!
    Pelo visto teremos muitas reviravoltas....

    #teamCal

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  12. Não confio no Maven, não gosto do Cal. Shippo ela só um tiquinho de nada com o Lucas. No fundo não shippo ela com ninguém.

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  13. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  14. Eu não confio muito no MAVEN mas... por outro lado, ele é BEM melhor q CAL, aquele canalha! Esta sendo consumido pela breve ilusão de q os vermelhos são os defeitos do mundo. MEU AMORRRR ACORDAAAAAA OS PRATEADOS SÃO UNS FDP, POUCOS ESCAPAM DESSE TÍTULO!!!

    Velho, estou simplesmente PUTA com essa situação dos vermelhos! Esses prateados q se acham vão se foder tudinho e nem sabem ainda HAHHAHAHAHAHAAAAAAA

    VERMELHOS COMO A AURORA, NÓS LEVANTAREMOS!

    Aaaah Julian, pq c foi embora cara...
    Lucas, eu te amavaaaaa, pq tu se foi?? (Exagerosimpqposso)

    -Victória

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  15. Gente é muito chato agora eu tô confusa antes odiava o Maven Pq achava ele fingido mas agora tô tipo:
    Mare beija logo ele de novo!!!

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  16. Vamos nos levantar, vermelhos como aurora !
    O teclado já salvou essa frase kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Boa leitura :)