13 de março de 2017

Capítulo vinte e cinco

O FURO PISCA ATRÁS DE MIM, e observo, maravilhada, minha casa nos últimos meses desaparecer com um simples gesto de Harrick. As montanhas continuam lá, assim como a clareira, mas qualquer sinal do acampamento some como as ondas varrendo a areia.
Sequer conseguimos ouvir as crianças que estavam ali instantes atrás, acenando em despedida, ecoando suas vozes pela noite. Farrah abafa todo o som e, junto com Harrick, lança uma cortina de proteção sobre os sanguenovos mais jovens. Ninguém jamais chegou perto de nos encontrar, mas a defesa extra me consola mais do que gostaria de admitir. A maior parte dos que estão conosco solta urros de vitória, como se o simples ato de disfarçar o Furo fosse motivo de comemoração. Para o meu desgosto, é Kilorn quem lidera o coro, assobiando com força. Mas não o recrimino, não agora que finalmente voltamos a conversar. Em vez disso, forço um sorriso, apertando dolorosamente os dentes. Isso segura as palavras que eu gostaria de dizer: “Poupem sua energia”.
Shade está tão calado quanto eu, e vem para o meu lado. Não está mais observando a clareira vazia e mantém os olhos voltados para a frente, para os bosques escuros e frios e para a missão diante de nós. O ferimento na perna está praticamente curado, e ele sai andando a passos rápidos. Eu o acompanho, ansiosa, seguida pelos outros. A caminhada até o jato não é longa.
Tento aproveitar cada segundo. O ar frio da noite penetra meu rosto exposto, mas felizmente o céu está limpo.
Nada de neve, nada de tempestades... ainda. Porque uma tempestade com certeza está se aproximando, seja pela minha mão ou não. E não faço ideia de quem vai sobreviver para ver o sol nascer.
Shade sussurra algo que não escuto e posiciona a mão no meu ombro. Dois dedos estão tortos, ainda se recuperando do dia que resgatamos Nanny em Cancorda. Um forçador conseguiu agarrar Shade e esmagou sua mão esquerda antes que ele conseguisse saltar. Farley o acudiu, claro, mas a lembrança ainda me faz tremer. Penso em Gisa, outra Barrow ferida que paga pelos meus atos.
— Vai valer a pena — ele diz, mais alto. — Estamos fazendo a coisa certa.
Sei disso. Por mais medo que sinta por mim e pelos meus, sei que Corros é a escolha certa. Mesmo sem Jon, acredito no nosso caminho. Como não acreditar? Não podemos deixar os sanguenovos serem vítimas dos murmúrios de Elara, morrerem ou se transformarem em marionetes que só sabem seguir as ordens dela. É o que precisamos fazer para impedir o estabelecimento de um mundo ainda mais horrível do que aquele em que vivemos agora.
Ainda assim, a confiança de Shade é como um cobertor quente e confortável.
— Obrigada — cochicho de volta, apoiando a mão sobre a dele.
Ele responde com um sorriso branco, que reflete a lua evanescente. No escuro, ele se parece muito com o nosso pai. Mais novo, sem a cadeira de rodas e sem os fardos de uma vida destruída. Mas eles compartilham a mesma inteligência, a mesma desconfiança que manteve ambos vivos nas trincheiras da guerra, e que agora mantém Shade vivo num campo de batalha bem diferente. Ele dá um tapinha na minha bochecha, um gesto familiar que faz eu me sentir uma criança, mas não ligo. É um lembrete do sangue que compartilhamos. Não por mutação, mas por nascimento. Algo mais profundo e mais forte do que qualquer poder.
Cal marcha à minha direita, e finjo não perceber o olhar dele. Sei que está pensando no irmão e nos próprios laços de sangue, agora rompidos. Atrás dele vem Kilorn, agarrado ao rifle, correndo os olhos pela floresta à caça de qualquer sombra. Apesar de todas as diferenças, os dois têm semelhanças impressionantes. Ambos são órfãos, foram abandonados, e não têm ninguém além de mim para servir de âncora.
O tempo passa rápido demais para o meu gosto. Em questão de instantes já estamos no Abutre voando pelos ares. Cada segundo passa mais depressa que o anterior, à medida que nos lançamos na direção do despenhadeiro escuro diante de nós. Vai valer a pena, digo a mim mesma, repetindo as palavras de Shade de novo e de novo. Preciso manter a calma, pelo bem do jato. Não posso aparentar medo, pelos outros.
Mas o meu coração dispara no peito, tão alto que receio que todos possam ouvir. Para segurar as batidas aceleradas, aperto o capacete no meu colo, frio e liso, abraçando-o. Olho para o metal polido e examino o meu reflexo. A garota que vejo é, ao mesmo tempo, familiar e estranha — Mare, Mareena, garota elétrica, rainha vermelha —, e ninguém ao mesmo tempo. Ela não parece ter medo. Parece feita de pedra, com traços sóbrios, cabelo em tranças coladas na cabeça e um emaranho de cicatrizes no pescoço. Não tem dezessete anos, não tem idade nenhuma. Não é prateada. Não é vermelha. Não é humana. Um símbolo da Guarda Escarlate, um rosto num cartaz de procurados, a perdição de um príncipe, uma ladra... uma assassina.
Uma boneca que assume qualquer forma, menos a própria.
Os trajes extras estocados no jato são pretos e prateados, e nos servem como uma espécie de uniforme improvisado e também como disfarce. No momento, meus companheiros estão ocupados fuçando os seus, fazendo os ajustes necessários para caberem neles.
Como sempre, Kilorn briga com a gola, tentando alargar um pouco o tecido apertado. O zíper de Nix não fecha na barriga, parecendo prestes a rasgar a qualquer momento. Em contrapartida, Nanny está praticamente sumindo dentro do traje, mas nem se dá ao trabalho de arregaçar as mangas ou a barra da calça. Vai assumir uma forma diferente quando o jato pousar — uma forma que me dá um nó no estômago e faz meu coração disparar com incontáveis sentimentos.
Por sorte, o Abutre foi feito para transportar tropas e suprimentos, de modo que há lugar para nós onze e ainda sobra. Penso que o peso extra vai nos deixar mais lentos, mas, segundo o painel de controle, estamos voando à mesma velocidade de sempre. Talvez até um pouco mais rápido. Cal conduz a aeronave da melhor maneira possível, mantendo-nos longe da luz do luar e bem escondidos nas nuvens de outono que passam ao longo do litoral de Norta.
Sua atenção está toda fora da janela, e seus olhos se dividem entre as nuvens e o painel piscando diante dele.
Ainda não compreendo o que qualquer um desses botões faz, apesar das muitas semanas sentada ao seu lado na cabine. Era uma péssima aluna em Palafitas, e isso não mudou. Simplesmente não tenho uma cabeça como a dele. Sei apenas os atalhos e as trapaças, sei mentir e roubar, e sei ver o que as pessoas escondem. E, neste exato instante, Cal está escondendo alguma coisa. Teria medo dos segredos de qualquer outra pessoa, mas sei que os de Cal não podem me ferir. Está tentando esconder a própria fraqueza, o próprio medo. Foi criado para crer somente na força e no poder e em mais nada; vacilar era o pior dos erros. Eu lhe disse antes que também estava com medo, mas algumas palavras sussurradas não bastam para quebrar anos de crença.
Assim como eu, Cal veste uma máscara, e não me deixa sequer ver o que está por trás dela.
É melhor assim, meu lado prático pensa. O outro, o que se importa demais com o príncipe exilado, se preocupa terrivelmente. Sei dos riscos físicos da missão, já os riscos emocionais não me passaram pela cabeça até a tarde de hoje. No que Cal vai se transformar em Corros? Será que vai sair do mesmo jeito que entrou? Será que vai conseguir sair?
Farley verifica nosso estoque de armas pela décima vez. Shade tenta ajudar, mas ela o afasta com um tapa, sem muita força no golpe. Numa das vezes, capto uma troca de sorrisos entre os dois, e ela finalmente o deixa contar as balas de um pacote marcado com a palavra “Corvium”. Outra carga roubada. Coisa de Crance, provavelmente. Junto com os contatos de Farley, ele conseguiu contrabandear mais pistolas para nós. E mais facas e várias outras armas que jamais imaginei serem possíveis. Todos nós estaremos armados, com nossos poderes e o que mais escolhermos. Eu mesma não quero nada além da minha eletricidade, mas os outros, ansiosos, pedem adagas ou pistolas ou, no caso de Nix, a lança retrátil e brutal que ele tem preferido nas últimas semanas. Ele a abraça forte e corre os dedos despreocupado pelo metal afiado. Qualquer pessoa teria se cortado, mas a carne de Nix é mais resistente do que praticamente qualquer coisa. O outro sanguenovo invulnerável, Darmian, segue o conselho do amigo e pega uma machadinha, deixando-a em cima dos joelhos ossudos. O fio da lâmina brilha, como se implorasse para cortar ossos.
Observo Cameron pegar uma faca pequena, tremendo, tomando cuidado para mantê-la na bainha. A adolescente passou os últimos três dias aperfeiçoando seu poder, não a habilidade com lâminas, e a adaga é um último recurso, que espero que ela não tenha que usar.
Ela percebe o meu olhar com uma expressão dolorida.
Por um momento, temo que estoure contra mim ou pior, que veja através da minha máscara. Em vez disso, me cumprimenta acenando a cabeça de maneira sombria. Faço o mesmo, estendendo a mão invisível da amizade entre nós. Mas o olhar dela endurece e ela desvia o rosto rápido. A mensagem é clara: somos aliadas, mas não amigas.
— Não falta muito agora — Cal avisa, me cutucando para que eu olhe para a frente.
Cedo demais, minha mente grita, embora eu saiba que estamos no horário exato.
— Vai dar certo. — Minha voz vacila, e felizmente Cal é o único a ouvir. Ele não tenta combater a minha fraqueza, deixando-a morrer. — Vai dar certo — repito, mais fraco ainda.
— De quem é a vantagem? — ele pergunta.
As palavras me chocam, me perfuram, e depois me acalmam. O instrutor Arven perguntava a mesma coisa no treinamento quando colocava os alunos para lutar um contra o outro, em batalhas pelo sangue e por orgulho.
Ele fez a mesma pergunta no Ossário, antes que um forçador Rhambos o espetasse como um porco gordo e imundo. Eu odiava aquele homem, mas isso não significa que não aprendi nada com ele.
Temos o elemento surpresa, temos Cameron, temos Shade e Gareth e Nanny e cinco outros sanguenovos para os quais nenhum prateado está preparado. Temos Cal, um gênio militar.
E temos uma causa. Temos a aurora vermelha às nossas costas, começando a se levantar.
— Nós temos vantagem.
O sorriso de Cal é tão forçado quanto o meu, mas me anima mesmo assim.
— Essa é a minha garota.
Mais uma vez, as palavras dele libertam em mim sentimentos turvos e conflitantes.
Um estalo e o chiado do rádio apagam qualquer pensamento sobre Cal da minha cabeça. Volto o olhar para Nanny, que acena a cabeça. Diante dos meus olhos, ela se transforma num garoto com olhos azuis de gelo, cabelo preto e nenhuma alma. Maven. Suas roupas mudam com a aparência, e ela substitui o traje de voo por um uniforme de gala imaculado, com várias medalhas e uma capa vermelho-sangue. Uma coroa se aninha sobre seus cachos. Tenho que me segurar para não jogá-la do jato.
Os outros assistem à mudança atentamente, impressionados com a imagem do falso rei, mas sinto apenas ódio e uma minúscula pontada de arrependimento. A bondade de Nanny vaza pelo disfarce e leva aos lábios de Maven os contornos de um sorriso suave que conheço bem demais. Por um único e doloroso momento, encaro o garoto que pensei que ele fosse, e não o monstro que ele se revelou.
— Ótimo — digo com esforço, com a voz carregada de emoção.
Apenas Kilorn parece notar, desviando os olhos de Nanny para pousá-los em mim. Aceno levemente a cabeça para ele, dando a entender que não precisa se preocupar. Temos coisas mais importantes em que pensar.
— Torre de Corros, aqui é a Nave Um — Cal diz no rádio.
Nos outros voos, ele fez o máximo para parecer entediado e desinteressado nos contatos obrigatórios com as diversas bases, mas agora fala de maneira burocrática. Afinal, estamos fingindo ser o jato do próprio rei, conhecido como Nave Um, uma aeronave acima de qualquer suspeita. E Cal sabe melhor do que ninguém como esse contato precisa ser.
— O trono se aproxima.
Nada de avisos complicados, nada de pedir permissão para aterrissagem. Nada além de uma autoridade severa, e qualquer operador do outro lado da transmissão teria vergonha de rejeitá-la. Como esperado, a voz responde, gaguejando:
— Re-recebido, Na-Nave Um — um homem diz. A voz grave e áspera não consegue esconder o desconforto. — Perdão, mas esperávamos sua majestade real só amanhã à tarde.
Amanhã. O quarto dia, quando Jon disse que morreríamos. Maven traria um exército consigo, de sentinelas a guerreiros mortíferos como Ptolemus e Evangeline. Não seríamos páreo para eles.
Faço um gesto para trás, chamando Nanny, mas ela já está ao meu lado. Sua proximidade na forma de Maven me faz arrepiar.
— O rei não segue qualquer agenda que não a própria — ela diz no rádio, com as bochechas prata. Seu tom de voz não é incisivo o bastante, mas a voz é inconfundível. — E não vou dar satisfações a um porteiro de luxo.
O estrondo do outro lado só pode significar que o operador caiu da cadeira.
— Sim... sim, claro, majestade.
Atrás de nós, alguém assoa o nariz na manga do traje. Provavelmente Kilorn.
Cal acena para Nanny antes de pegar o rádio novamente. Vejo nele a mesma dor que sinto bem lá no fundo.
— Aterrissamos em dez minutos. Prepare Corros para a chegada do rei.
— Cuidarei disso pessoalm...
Mas Cal desliga o rádio antes de o operador concluir, e se permite um único e aliviado sorriso. De novo, os outros comemoram, celebrando uma vitória inexistente.
Sim, o obstáculo foi contornado, mas muitos outros virão. E estão bem debaixo de nós, nos campos verdes e cinzentos ao redor da terra arrasada de Wash, escondendo a prisão que pode ser nosso fim.
Uma ponta de luz do sol sangra no horizonte, a leste, mas o céu ainda é de um azul profundo e evolvente quando o Abutre pousa na pista de Corros. Não é uma base militar lotada de esquadrilhas de jatos e hangares, mas ainda é uma instalação prateada, e um ar de perigo paira sobre tudo. Enfio o capacete de voo na cabeça, escondendo meu rosto. Cal e os outros fazem o mesmo.
Para alguém de fora, devemos parecer assustadores — vestidos de preto, mascarados, acompanhando o jovem e impiedoso rei até a prisão. Tomara que os guardas nem olhem para nós, mais preocupados com a presença do rei do que com seus acompanhantes.
Não aguento mais ficar sentada e levanto o mais rápido possível. O cinto de segurança balança com o movimento brusco e as fivelas se chocam. Faço o que preciso, o que queria não precisar fazer, e tomo Nanny pelo braço. Até o toque é parecido com o de Maven.
— Olhe através das pessoas — digo com a voz abafada pelo capacete. — Sorria sem bondade. Nada de conversa fiada, nada de conversa educada. Aja como se tivesse um milhão de segredos, e só você fosse importante o bastante para saber de todos.
Ela faz que sim e não dá muita importância. Afinal, Cal e eu ensinamos como ela devia se comportar para se passar por Maven. Isto é apenas um lembrete, uma última lida no livro antes da prova.
— Não sou idiota — ela responde friamente, e quase lhe dou um soco no queixo. Ela não é Maven, diz o aviso na minha cabeça, mais alto que um alarme.
— Acho que você pegou o jeito — Kilorn diz ao levantar. Ele agarra meu braço e me afasta um pouco. — Mare quase quis matar você.
— Todos prontos? — Farley grita da traseira do jato.
Suas mãos pairam ansiosas sobre a alavanca que baixa a rampa.
— Em posição! — Cal brada, soando como um perfeito sargento. Obedecemos e formamos filas ordenadas como ele nos ensinou, com Nanny na ponta. Cal assume a posição ao lado dela, no papel de guarda-costas.
— Vamos lá tomar algumas decisões ruins — Farley diz. Quase posso vê-la sorrindo ao puxar a alavanca.
Com um chiado, as engrenagens se movem, os fios pulsam e a traseira do avião abre para saudar a última manhã que alguns de nós verão.
Uma dúzia de soldados espera a uma distância considerável do Abutre, numa formação precisa e ensaiada. Ao verem a sanguenova disfarçada de rei, passam para uma posição tensa e perfeita de reverência. Uma mão no coração, um joelho no chão. O mundo parece mais escuro por trás da proteção do meu capacete, mas não esconde o cinza nublado dos uniformes militares nem a construção baixa e despretensiosa atrás dos soldados. Nada de portões de bronze ou de muros de diamante; não há nem janelas. Apenas um simples e único bloco de concreto se estende pelos campos abandonados desta terra desolada. Presídio de Corros. Me permito um último olhar para o jato e para a pista que se prolonga à distância, onde as sombras e a radiação dançam. Pelo canto do olho, vejo um par de jatos estacionados no escuro, com as barrigas de metal estufadas e redondas. Aviões-prisão, usados no transporte dos capturados. Se tudo sair de acordo com o plano, logo entrarão em ação.
Nos aproximamos de Corros em silêncio, tentando marchar em sincronia. Cal vai ao lado de Nanny, com um punho permanentemente cerrado, e seguimos atrás, com Cameron à minha esquerda e Shade à direita. Farley e Kilorn se mantêm no centro da formação, sem jamais soltarem as pistolas. O próprio ar parece eletrificado, pesado por causa do perigo.
Não é a morte que temo, não mais. Estive perto de morrer tantas vezes que já não tenho mais medo. Temo minha própria prisão, a ideia de ser capturada, forçada a usar algemas, transformada em uma marionete da rainha.
Isso não posso suportar. Prefiro mil vezes morrer a enfrentar um destino assim. E o mesmo vale para qualquer um de nós.
— Majestade — um dos soldados diz, ousando levantar os olhos para a pessoa que ele acredita ser o rei. O distintivo no peito, três espadas cruzadas em metal vermelho, o marcam como capitão. As barras nos ombros, vermelho-vivo e azul, só podem ser as cores da sua casa. Casa Iral. — Bem-vindo ao presídio de Corros.
Conforme foi instruída, Nanny olha através dele, acenando uma mão pálida para dispensá-lo. Isso deveria bastar para convencer qualquer um da suposta identidade dela.
Mas, à medida que os soldados levantam, os olhos do capitão saltam para nós e notam nossos uniformes e a falta de sentinelas acompanhando o soberano real. Ele se demora em Cal, com um olhar penetrante fixo em seu capacete. Não diz nada, porém, e seus soldados entram em formação ao nosso lado, seus passos ecoando com os nossos. Haven, Osanos, Provos, Macanthos, Eagrie.
Noto as cores familiares em alguns uniformes. A Casa Eagrie, dos observadores, é nosso primeiro alvo. Dou um puxão na manga do traje de Cameron e inclino a cabeça de leve na direção do jovem barbado com olhos penetrantes e faixas pretas e brancas no ombro.
Ela inclina a cabeça e cerra os punhos ao lado do corpo em silenciosa concentração. O ataque começou.
O capitão leva Nanny para o outro lado, passando na minha frente com tanta leveza que mal noto. Um silfo. Tem a mesma pele bronzeada, cabelo escuro e brilhante e traços angulosos que Sonya Iral e a avó, a astuta e perigosa Pantera. Só posso torcer para que o capitão não tenha tanto talento para intriga quanto ela. Do contrário, isto aqui vai ser bem mais difícil que o esperado.
— Suas especificações estão quase concluídas, majestade — ele diz, afiado. — Cada bloco está selado individualmente, como ordenado, e o próximo carregamento de Pedras Silenciosas chega amanhã com a nova unidade de guardas.
— Ótimo — Nanny responde, soando desinteressada.
Ela acelera o passo e o capitão a segue, mantendo o ritmo. Cal faz o mesmo, e os seguimos. Parece uma perseguição.
Enquanto a central de segurança de Harbor Bay era uma estrutura bonita, repleta de pedras trabalhadas e vidros reluzentes, Corros é tão cinza e melancólica quanto a própria desolação ao seu redor. Apenas a entrada, um único portão de ferro preto no mesmo nível da parede, quebra a monotonia do presídio. Não há dobradiça, tranca ou maçaneta — o portão parece um fosso, uma boca escancarada. Mas sinto a eletricidade vazar pelos cantos, oriunda do pequeno painel quadrado ao lado da porta. A trava. Como Cameron disse. A chave pende de uma corrente preta no pescoço do Iral, mas ele não a deixa folgada.
Também há câmeras ali, com seus olhos minúsculos e redondos apontados para o portão. Mas elas não me incomodam nem um pouco. Estou mais preocupada com o capitão silfo e os soldados, que nos cercam e nos fazem continuar marchando.
— Receio que não o conheço, piloto. Ou o restante de vocês, aliás — o capitão sonda, inclinando-se para ver além de Nanny e lançar um olhar agudo para Cal. — Poderiam se identificar?
Cerro os punhos para evitar que meus dedos tremam.
Cal não faz o mesmo e mal vira a cabeça, relutante para sequer reconhecer o capitão do presídio.
— Piloto está bom para mim, capitão Iral.
Iral bufa, como esperado.
— As instalações de Corros estão sob o meu comando e a minha proteção, piloto. Se acha que vou deixar você entrar sem...
— Sem o quê, capitão? — Cada palavra que sai da boca de Nanny é como uma faca me cortando profundamente. O capitão para na hora e fica com o rosto prateado, engolindo em seco a resposta desajuizada. — Pelo que sei, Corros pertence a Norta. E a quem Norta pertence?
— Estou apenas fazendo meu trabalho, majestade — ele argumenta, mas a batalha já está perdida. Ele leva a mão ao coração e faz uma nova reverência. — A rainha me encarregou da proteção deste presídio, e só quero obedecer às ordens dela, bem como às suas.
Nanny faz que sim.
— Então ordeno que abra o portão.
Ele baixa a cabeça e abre caminho. Um dos seus soldados, uma mulher mais velha, com uma trança prateada sóbria e o queixo quadrado, dá um passo à frente e põe a mão sobre o portão de ferro. Nem preciso ver as faixas pretas e prateadas no ombro dela para saber que é da Casa Samos. O ferro se move ao toque magnetron dela e se parte em pedaços afiados, retraindo-se com uma eficácia aguda. Uma rajada de ar frio nos atinge, fedendo vagamente a umidade e algo azedo.
Sangue. Mas a recepção depois do portão é inteiramente revestida de lajotas tão brancas que são capazes de cegar, e nenhuma tem um indício sequer de mancha.
Nanny é a primeira a entrar, e a seguimos.
Ao meu lado, Cameron treme, e eu a cutuco de leve.
Seguraria a mão dela se pudesse. Só posso imaginar quão terrível isso deve ser para ela — preferiria me rasgar ao meio a retornar a Archeon. E ela está voltando à própria prisão por mim.
A entrada é estranhamente vazia. Nenhuma foto de Maven, nenhum estandarte. Este lugar não precisa impressionar ninguém e, portanto, não requer decoração. Há apenas câmeras pulsantes. Os soldados do capitão Iral rapidamente reassumem seus postos, cada um ao lado de uma das quatro portas à nossa volta. O portão negro pelo qual entramos se fecha com um rangido ensurdecedor de metal raspando em metal. As portas à direita e à esquerda, pintadas de prata, reluzem à luz dura da prisão.
A porta da frente, pela qual vamos passar, tem cor de sangue, e me deixa enjoada. Mas Iral para de repente e gesticula para uma das portas prateadas.
— Suponho que o senhor queira ver a rainha, majestade?
Fico extremamente feliz por estarmos de capacete, pois do contrário o capitão veria o horror em cada um dos nossos rostos. Elara está aqui. Meu estômago gela com a perspectiva de ter que enfrentá-la, e quase vomito dentro do capacete. Até Nanny fica pálida, e sua voz entala apesar de todo o esforço. Sinto Kilorn às minhas costas, a centímetros de mim. Está calado, mas capto o que quer dizer: “Corram, corram, corram”. Só que correr é algo que não posso mais fazer.
— A rainha está aqui? — Cal dispara. Por um segundo, receio que tenha esquecido da situação. — Ainda? — acrescenta, tentando corrigir a mentira. Mas a desconfiança do capitão já foi deflagrada; posso vê-la como uma explosão nos seus olhos.
Até que Nanny, abençoada Nanny, força uma gargalhada fria e distante.
— Minha mãe sempre fez o que quis, você sabe — ela diz a Cal em censura. — Mas estou aqui para tratar de outros assuntos, capitão. Não será preciso incomodá-la.
O capitão abre um sorriso condescendente, que transforma seu rosto numa careta, torcendo seus traços finos e deixando-o muito feio.
— Muito bem, senhor.
Kilorn toca meu braço com urgência. Percebeu o que percebi: o capitão não acredita mais em nós. Viro para o lado e aperto o cotovelo de Cameron. É o segundo sinal.
Ainda estou com a mão nela quando os músculos da jovem começam a se contrair. Ela dá tudo o que tem para bloquear o poder do Eagrie, para impedi-lo de ver o que vai acontecer. O rosto dele se fecha em confusão, e ele sacode a cabeça, tentando se concentrar. Não sabe o que está acontecendo.
— E o que o senhor veio fazer aqui? — Iral pressiona, ainda com um sorriso demoníaco. Ele dá um passo lânguido em nossa direção. Será seu último passo. — Retirem os capacetes, por favor.
— Não — respondo.
Com uma respiração relaxada, controlo as câmeras apontadas para nós. Quando Iral abre a boca para gritar, expiro e as câmeras explodem, faiscando como fogos de artifício. As lâmpadas são as próximas. Começam a oscilar loucamente, nos mergulhando sucessivamente em escuridão completa e brilho ofuscante. Estamos preparados para isso. Os soldados de Corros não.
Uma chama corre sobre as lajotas, projetando uma luz estranha e oscilante contra o branco. O fogo bloqueia cada uma das portas e sobe até o teto, deixando os soldados apenas conosco na escuridão vacilante. O soldado Osanos, ninfoide, suga às pressas a umidade do ar, mas não é o suficiente para combater o fogo de Cal.
Um pétreo avança contra mim, transformando sua carne em rocha diante dos meus olhos, mas ele atinge a parede conhecida como Nix Marsten. Darmian se junta a ele, e os dois sanguenovos invulneráveis despedaçam o prateado. Os outros também se saem bem. Ketha arrasa o telec Provos, provocando uma explosão no coração dele que o arregaça de dentro para fora. A soldada Haven faz o máximo para combater a escuridão, usando sua habilidade para desfazer as sombras, juntando-as numa névoa negra que de repente irrompe em uma luz ofuscante. Os capacetes não ajudam a impedir o resplendor e preciso fechar os olhos. Quando os abro, Haven está no chão, com um corte profundo no pescoço. Ela tosse sangue prateado no piso, e meu irmão está sobre ela, com a faca na mão. Atrás dele, Eagrie cai de joelhos, com as mãos na cabeça, gritando.
— Não consigo ver! — ele chora, quase arrancando os próprios olhos. Sangue se mistura às suas lágrimas de dor. — Não vejo nada! O que está acontecendo? O que é isso? — berra para ninguém.
Cameron é a primeira a tirar o capacete. Nunca matou antes, nem na sua fuga. Vejo isso no seu rosto; vejo o horror se contorcendo dentro dela. Mas ela não o libera. Se é coragem ou maldade, não sei. Ela silencia o homem jogado no chão até ele parar de chorar, de arranhar, de respirar. Morre de olhos abertos, olhando para o nada, cego e surdo em seus últimos momentos. A sensação deve ser a mesma de ser enterrado vivo.
Tudo acaba em mais ou menos um minuto. Doze soldados prateados estão mortos — foram queimados, eletrocutados, baleados, torcidos. As mortes causadas por Ketha são as mais sujas. Uma parede inteira está pintada com a sua obra, e ela resfolega ruidosamente, tentando não olhar para o que fez. Seu poder explosivo é macabro, para dizer o mínimo.
Apenas Lory está ferida, pois enfrentou a magnetron junto com Gareth. Levou uma lasca de metal no braço, mas não é nada sério. Farley está ao lado dela, arrancando a lâmina e deixando-a retinir no chão. Lory não solta sequer um gemido de dor.
— Esquecemos os curativos — Farley murmura, pressionando a mão sobre o sangue.
— Você esqueceu os curativos — Ada responde, sacando um retalho de tecido branco. Ela o amarra com destreza ao redor do braço de Lory. Num instante, já está todo manchado.
Kilorn ri sozinho. É o único que parece curtir uma piada num momento assim.
Para o meu alívio, ele parece perfeitamente bem, concentrado em recarregar a arma. O cano fumega, e pelo menos dois corpos receberam suas balas. Qualquer um julgaria que nada daquilo o afetou, mas sei que não é bem assim. Apesar do riso, Kilorn não sente prazer em sujar as mãos de sangue.
E Cal também não. Ele se inclina sobre o cadáver do capitão Iral e retira com cuidado a chave preta do seu pescoço. Não vou matá-los, ele disse, antes de invadirmos a central de segurança de Harbor Bay. Cal quebrou sua promessa, e isso o feriu mais que qualquer batalha.
— Nanny... — ele murmura, incapaz de desviar os olhos de Iral. Com dedos trêmulos, ele fecha para sempre os olhos do capitão. Atrás dele, Nanny se concentra no rosto de Iral com um olhar fixo. Leva apenas um instante para os traços dela ficarem iguais aos dele, e solto um suspiro curto e aliviado. Até um Maven falso é demais para mim.
Um chiado soa do cinto de Iral. É o rádio, o centro de comando tentando contato.
— Capitão Iral! Capitão, o que está acontecendo aí? Perdemos contato visual.
— Apenas um defeito — Nanny responde com a voz de Iral. — Pode ou não se espalhar.
— Entendido, capitão.
Cameron desvia o olhar do Eagrie morto. Ela apoia a mão na porta vermelha.
— Por aqui — diz, quase inaudível em meio ao derramamento de sangue e aos gemidos dos moribundos.
Sinto o centro de comando do presídio como um nervo pulsante, controlando todas as câmeras do lugar.
Ele me atrai, me arrastando pelas curvas abruptas dos corredores de azulejo branco, iguais aos da entrada, mas não tão limpos. Ao olhar de perto, vejo sangue nos rejuntes, já marrom devido ao tempo. Alguém tentou limpar o que quer que tenha acontecido, mas não se esforçou o suficiente. Sangue vermelho é difícil de sair.
Percebo o dedo da rainha nisso, seja lá qual for o pesadelo que ela concebeu nas entranhas mais profundas de Corros. Ela está aqui em algum lugar, dando continuidade ao seu trabalho assustador. Pode até estar vindo atrás de nós agora, ciente de algum distúrbio. Espero que esteja. Espero que dobre a esquina agora mesmo, para que eu possa matá-la.
Mas, em vez de Elara, encontramos outra porta com um grande D gravado e nenhuma fechadura. Cameron corre até ela, com a faca na mão, e puxa o painel de acesso, que se solta num segundo. Ela enfia os dedos na fiação e avisa, esticando o pescoço na direção da porta:
— Temos que passar por aqui para chegar ao centro de comando. Há dois magnetrons do outro lado. Estejam preparados.
Cal pigarreia baixo e estende a chave para ela.
— Ah... — ela murmura, corando enquanto pega a chave. Com uma careta, a enfia no buraco correspondente do painel. — Digam quando.
— Gareth — Cal chama, mas o sanguenovo já deu um passo à frente e está se preparando diante da porta de metal. Nanny vai para o lado dele, ainda disfarçada de capitão Iral. Ambos sabem o que fazer.
Os outros não estão tão certos. Ketha parece a ponto de chorar, esfregando os próprios braços, nervosa, como se receasse ter perdido um membro do corpo. Farley estende a mão para ela, que repele com um tapa.
Meu coração desmancha quando percebo que não sei como confortar Ketha. Será que ela precisa de um abraço ou de um soco?
— Proteja a retaguarda — ordeno a ela, escolhendo o que espero ser um meio-termo feliz.
Ela estremece e me encara. Suas tranças estão desfeitas e ela passa a mão pelas madeixas escuras.
Devagar, faz que sim com a cabeça e dá meia-volta para vigiar o corredor vazio atrás de nós. Suas fungadas reverberam nos azulejos.
— Chega — ela balbucia. Mas permanece firme.
Darmian e Nix ficam ao lado dela, mais por solidariedade que por força. Pelo menos serão um belo escudo quando os guardas perceberem o que está acontecendo aqui em cima. O que deve acontecer logo.
Temos pressa. Cal sabe tanto quanto eu.
— Agora — ele diz, e cola o corpo na parede junto com o resto de nós.
A chave gira. Sinto a eletricidade jorrar da tranca e inundar o mecanismo da porta, que se escancara, rangendo e se retraindo para a parede, revelando o cavernoso bloco de celas. Em contraste marcante com os corredores de azulejo branco, as celas são cinzentas, frias e sujas. Há uma goteira pingando em algum lugar e o ar tem uma umidade insalubre. Quatro andares de celas descem pela escuridão, um sobre o outro, sem qualquer patamar ou escadaria para ligá-los. Quatro câmeras, uma em cada canto do teto, supervisionam tudo. Eu as desligo com facilidade. A única luz vem de uma lâmpada amarela e oscilante, embora a pequena claraboia esteja azul, indício de que o sol começou a nascer. Logo abaixo da claraboia, numa única passarela feita de metal brilhante e prateado, estão dois magnetrons de uniforme cinza. Ambos se voltam ao som da nossa aproximação.
— O que vocês...? — o primeiro começa, dando um único passo na nossa direção. Reconheço as cores da Casa Samos no seu uniforme. Ele congela ao ver Nanny atrás de Gareth. — Capitão Iral.
Com um simples gesto, o magnetron Samos ergue algumas chapas de metal do chão e constrói uma nova passarela diante dos nossos olhos. O trecho nos conecta até ele, permitindo que Gareth e Nanny continuem avançando.
— Sangue fresco? — O outro oficial ri, encarando Gareth com um sorriso matreiro. — De que legião você saiu?
Nanny interrompe antes que Gareth possa responder.
— Abra as celas. É hora da caminhada.
Para nossa infelicidade, os agentes trocam olhares, confusos.
— Mas ontem mesmo eles caminharam, não deveria haver outra até...
— Ordens são ordens, e tenho as minhas — Nanny responde. Ela ergue a chave de Iral, balançando-a de maneira ameaçadora. — Abra as celas.
— Então é verdade? O rei voltou de novo? — Samos pergunta, balançando a cabeça. — Não é à toa que todo mundo está surtando no comando. As coisas têm que parecer bem para a coroa, acho, especialmente com a mãe dele metida aqui dentro.
— A rainha é estranha — o outro comenta, coçando o queixo. — Não sei o que ela faz no Poço. E não quero saber.
— As celas — Nanny repete com uma voz dura.
— Sim, senhor — o primeiro magnetron resmunga.
Ele cutuca o outro e ambos se viram ao mesmo tempo para as dezenas de celas que vão do chão até o teto.
Muitas estão vazias, mas algumas abrigam sombras lânguidas sob o peso das Pedras Silenciosas. Prisioneiros sanguenovos, prestes a serem libertados.
Mais passarelas retinem enquanto se ajustam; o som se parece com o de um martelo batendo contra alumínio.
Elas passam na frente das celas, formando uma espécie de pista pelo perímetro do bloco, enquanto outras chapas se agitam e se dobram para formar degraus que ligam os andares. Por um segundo, sou tomada por fascínio. Vi magnetrons apenas em batalha, usando seus poderes para matar e destruir. Nunca para criar. Não é difícil imaginá-los projetando jatos e veículos de luxo, retorcendo o metal em arcos suaves e belos com a espessura de uma navalha. Ou desenvolvendo os vestidos de metal que Evangeline gostava tanto. Preciso reconhecer que eles eram magníficos, embora a garota que os vestisse fosse um monstro. Mas, quando as barras de cada cela se abrem de uma vez, fazendo os prisioneiros se moverem, esqueço todo o meu fascínio e admiração.
Esses magnetrons são carcereiros, matadores. Estão forçando gente inocente a sofrer e a morrer atrás das grades por um motivo qualquer inventado por Maven. Estão seguindo ordens, escolheram segui-las.
— Vamos, saiam.
— De pé! Hora dos cachorros passearem.
Os agentes magnetrons movem-se numa sequência rápida e passam trotando pelo primeiro conjunto de celas. Eles arrancam dos leitos os sanguenovos que não conseguem caminhar rápido o bastante e os empurram para fora. Uma garotinha cai perigosamente perto da beirada e quase despenca para o fundo do poço. Ela se parece tanto com Gisa que dou um passo à frente, e Kilorn precisa me segurar.
— Ainda não — ele rosna no meu ouvido.
Ainda não. Cerro os punhos, morrendo de vontade de ir para cima dos dois agentes à medida que eles se aproximam da porta. Ainda não nos viram, mas com certeza verão.
Cal é o primeiro a tirar o capacete. Samos para imediatamente, como se tivesse levado um tiro. Chega a piscar algumas vezes, sem acreditar no que vê. Antes que possa reagir, seus pés deixam o chão e ele é jogado para o teto. O mesmo acontece com o outro ao perder o tênue vínculo que tinha com a gravidade. Gareth os faz quicar contra o teto de concreto até ouvirmos os estalos horríveis de seus ossos.
Adentramos o bloco de celas, nos movendo o mais rápido possível, como se fôssemos um ser só. Chego até a garota caída e a ponho de pé. Ela arqueja, seu corpo treme, mas a pressão da Pedra Silenciosa diminuiu, então aos poucos a cor retorna às suas bochechas pálidas e grudentas.
Então tiro minha máscara.
— Garota elétrica — ela balbucia ao tocar o meu rosto. Isso me parte o coração. Metade de mim quer pegá-la no colo e sair correndo, libertando-a de tudo isso.
Mas a nossa tarefa está longe de acabar, e não posso parar. Mesmo pela garotinha. Então a deixo no chão sobre suas pernas trêmulas e desvencilho devagar a minha mão da dela.
— Sigam a gente! Lutem o melhor que puderem! — grito para o bloco. Faço questão de me inclinar sobre a beirada da passarela para que todos possam me ver e ouvir. Lá embaixo, os poucos prisioneiros ainda vivos já começaram a subir os degraus metálicos. — Vamos sair desta prisão esta noite, juntos e vivos!
A esta altura, eu deveria ter aprendido a não mentir.
Mas é de uma mentira que eles precisam para seguir em frente, e se essa mentira salvar ao menos um deles, já terá valido o custo para a minha alma.

8 comentários:

  1. Vai ter coisa nessa prisão!

    ResponderExcluir
  2. Tá muito fácil até agora...

    Flavia

    ResponderExcluir
  3. — O rei não segue qualquer agenda que não a própria — ela diz no rádio, com as bochechas prata. Seu tom de voz não é incisivo o bastante, mas a voz é inconfundível. — E não vou dar satisfações a um porteiro de luxo.
    O estrondo do outro lado só pode significar que o operador caiu da cadeira.
    — Sim... sim, claro, majestade."
    não sei por que, mas ri rios aqui.
    E está fácil demais essa missão, com certeza vai dar m**da já já ~polly~

    ResponderExcluir
  4. A Nanny é tipo a versão velha da mística dos x-men.
    Só que bem mais legal kkk ~polly~

    ResponderExcluir
  5. Vai a m**** ! Ainda mais com a Elara aí. Tá tudo fácil de mais.

    Apaixonada por livros

    ResponderExcluir
  6. Que tenso!!!
    Vai Mare... Salva eles...

    ResponderExcluir
  7. Vai dá merda, e muita gente vai morrer com certeza.com tanto q não seja o cal,shade ou o amigo dela o resto a gente dá um jeito.

    ResponderExcluir
  8. Com medo do que vai acontecer,SHADE,Cal,Kliorn não podem morrer

    ass:J Carstairs

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)