3 de março de 2017

Capítulo vinte e cinco

O VEÍCULO ATRAVESSA A PONTE LEVANDO MAVEN e eu de volta ao palácio após nosso longo dia de apertos de mão e planos secretos. Durante o trajeto, desejo que a aurora comece esta noite em vez de amanhã de manhã. Percebo a agitação intensa ao redor ao cruzarmos a cidade. Tudo é eletricidade, dos veículos nas ruas às luzes envolvidas em aço e concreto. Isso me lembra aquele momento no Grande Jardim que parece ter acontecido há tanto tempo, quando ninfoides brincavam na fonte e verdes cultivavam suas flores. Naquele instante, achei o mundo deles bonito. Compreendo por que querem preservá-lo, manter o domínio sobre os outros, mas isso não significa que vou deixar.
Geralmente fazem uma festa para comemorar o retorno do rei à cidade, mas com os acontecimentos recentes, a Praça de César está mais tranquila do que deveria. Maven finge lamentar a ausência de espetáculo, pelo menos para preencher o silêncio.
— A sala de jantar para o banquete é duas vezes maior que a do Palacete do Sol — ele diz ao cruzarmos os portões grandiosos.
Vejo uma parte da legião de Cal se exercitando nos quartéis, mil soldados marchando em sincronia. Seus passos são como batidas de tambor.
— Costumávamos dançar até o amanhecer — continua Maven. — Pelo menos Cal costumava. As meninas não pediam muito para dançar comigo, a não ser que Cal as obrigasse.
— Eu pediria para dançar com você — comento baixo, com os olhos ainda nos quartéis.
Será que um dia serão nossos?
Maven não responde, apenas se ajeita no banco conforme o veículo encosta para descermos. Ele sempre vai escolher você.
— Não sinto nada por Cal — sussurro em seu ouvido enquanto saímos.
Ele sorri e aperta minha mão, e digo a mim mesma que não é mentira.
Quando as portas do palácio se abrem para nós, um grito arrepiante se espalha pelos corredores de mármore. Maven e eu trocamos olhares, assustados. Nossos guardas assumem suas posições e levam a mão à pistola, mas não conseguem me impedir de correr. Maven corre o mais rápido que pode, tentando acompanhar meu ritmo. O grito ressoa de novo, acompanhado de uma dúzia de pés em marcha e do familiar ruído de armaduras.
Acelero o passo e Maven vem logo atrás. Desembocamos numa câmara redonda, uma sala de reuniões de mármore polido e madeira escura. Já há uma multidão presente, e quase esbarro em Lord Samos, mas meus pés param bem a tempo. Maven bate nas minhas costas e nós dois quase vamos ao chão.
Samos se vira para nós com desprezo, olhos frios e duros.
— Senhorita, príncipe Maven — cumprimenta com a menor das reverências. — Vieram assistir ao espetáculo?
Espetáculo. Há outros prateados ao redor, assim como o rei e a rainha, todos com os olhos fixos na parte da frente do salão. Abro caminho entre eles sem saber o que vou encontrar do outro lado, mas tenho certeza de que não será nada bom. Maven me segue, sempre com a mão em meu braço. Quando chegamos na frente da multidão, estou feliz por ter seu toque cálido para me confortar e... segurar.
Nada menos que dezesseis soldados estão no centro da câmara, suas botas imundas sujam o enorme selo da coroa. A armadura de todos é idêntica, todas feitas de escamas de metal preto.
Há apenas uma exceção, com tons vermelhos: Cal.
Evangeline está ao lado dele, com os cabelos presos numa trança. Ela respira rápido para recuperar o fôlego, mas parece orgulhosa de si mesma. E se Evangeline está aqui, seu irmão não pode estar muito longe.
Ptolemus surge atrás da tropa, arrastando pelos cabelos um corpo que esperneia. Cal vira o rosto. Nossos olhos se encontram no momento em que reconheço a vítima. Vejo arrependimento em seu olhar, mas ele não faz nada para salvá-la.
Ptolemus atira Walsh no chão encerado, e o rosto da vermelha bate com tudo contra a pedra. Ela mal me olha antes de se voltar para o rei. Lembro da criada brincalhona e sorridente que me apresentou a este mundo. Essa pessoa não existe mais.
— Os ratos rastejam nos túneis antigos — vocifera Ptolemus, fazendo-a virar para cima com o pé. Ela sai de seu alcance se arrastando com uma velocidade surpreendente para uma pessoa tão machucada. — Encontramos esta aqui nos seguindo perto dos túneis nas margens do rio.
Seguindo? Como ela pode ser tão burra? Mas Walsh não é burra. Não, foi uma ordem, percebo com um horror crescente. Ela vigiava os túneis dos trens para garantir que o caminho da volta estaria limpo para nossa volta de Naercey. E, embora tenhamos voltado sãos e salvos, ela não teve a mesma sorte.
Maven aperta ainda mais meu ombro e me puxa para si até seu peito tocar minhas costas.
Ele sabe que quero correr até lá para ajudar, salvar Walsh. E sei que não posso fazer absolutamente nada.
— Fomos até onde os detectores de radiação permitiram — complementa Cal, se esforçando para ignorar Walsh cuspindo sangue. — O sistema de túneis é gigante, bem maior que pensávamos no começo. Deve ter dezenas de quilômetros, e a Guarda Escarlate o conhece melhor que nós.
Debaixo da barba, o rei Tiberias contorce os lábios. Ele aponta para Walsh, indicando para que a tragam mais perto. Cal a pega pelo braço e a arrasta até o rei. Mil tipos de tortura diferentes me vêm à cabeça, um pior que o outro. Fogo, metal, água, até minha própria eletricidade pode ser usada para fazê-la falar.
— Não cometerei o mesmo erro duas vezes! — brada o rei na cara da vermelha. — Elara, faça-a falar. Agora.
— Com prazer — concorda a rainha, arregaçando as mangas.
Isto é pior. Walsh vai falar, vai denunciar todos nós, vai ser nossa ruína. E depois vai ser morta lentamente. Nós todos vamos ser mortos lentamente.
Um Eagrie entre a multidão de soldados, um observador com o poder de ver o futuro imediato, vem à frente com um salto repentino.
— Detenham-na! Segurem seus braços! — grita.
Mas Walsh é mais rápida que sua visão.
— Por Tristan! — grita antes de enfiar a mão na boca. Ela morde alguma coisa, engole e cai.
— Um curandeiro! — pede Cal com a mão na garganta da rebelde na tentativa de impedi-la.
Mas a boca de Walsh já espuma e seus membros se contorcem: ela está entrando em colapso.
— Um curandeiro, agora! — repete Cal.
As convulsões ficam mais violentas. Ela se desvencilha de Cal com suas últimas forças.
Quando vai ao chão, seus olhos estão arregalados, encarando o nada. Está morta. Por Tristan.
Não posso nem lamentar sua morte.


— Uma pílula de suicídio.
A voz de Cal soa doce, como se ele explicasse o ocorrido a uma criança. Imagino, porém, que sou mesmo uma criança no que diz respeito a guerras e mortes.
— Damos essas pílulas para nossos oficiais na frente de batalha e também para os espiões. Se forem capturados...
— Não vão falar — completo secamente.
Cuidado, aviso a mim mesma. Por mais que sua presença me provoque arrepios, preciso aguentar. Afinal, deixei que me encontrasse aqui na sacada. Preciso lhe dar esperanças. Preciso que pense ter uma chance comigo. É parte do plano de Maven, por mais que lhe doa dizer isso. Quanto a mim, é difícil me equilibrar na linha que separa a mentira da verdade, especialmente com Cal. Eu o odeio, mas algo em seu olhar e em sua voz me lembra de que meus sentimentos não são tão simples.
Ele mantém a distância de um braço entre nós.
— Foi uma morte melhor do que teria pelas nossas mãos.
— Ela seria congelada? Ou queimada, para variar?
— Não. Iria para o Ossário.
Antes de continuar, ele tira os olhos dos quartéis e os dirige para o outro lado do rio. Lá, aninhada entre os arranha-céus está uma arena oval com uma coroa sangrenta de estacas. O Ossário.
— Ela seria executada ao vivo para servir de aviso a todos os outros.
— Pensei que vocês não faziam mais isso. Faz mais de uma década que não vejo uma execução dessas.
De fato, mal me lembro das transmissões de quando era criança, anos atrás.
— Podemos abrir exceções. Os combates de arena não impediram a Guarda de crescer. Talvez outra coisa faça o serviço.
— Você a conhecia — sussurro com intuito de encontrar ao menos uma gota de arrependimento nele. — Você a mandou atrás de mim depois de nos conhecermos.
Ele cruza os braços como se o gesto fosse capaz de protegê-lo da lembrança.
— Sabia que ela era do mesmo vilarejo que você. Pensei que ajudaria na sua adaptação.
— Ainda não sei por que você se preocupou. Nem sabia que eu era diferente.
Um instante de silêncio se passa entre nós, rompido somente pelos gritos dos tenentes em treinamento lá embaixo, que continuam apesar do pôr do sol.
— Você era diferente para mim — ele diz finalmente.
— Imagino o que poderia ter existido entre nós se isto — falo, apontando para o palácio e a praça à nossa frente — não estivesse no meio.
Deixe-o ruminar a ideia.
Ele põe a mão no meu braço. Seus dedos esquentam minha pele através do vestido.
— Mas não pode ser, Cal. Nunca.
Finjo o máximo de desejo na voz, apoiada na lembrança da minha família, de Maven, Kilorn, e de todas as coisas que tentamos realizar. Talvez Cal confunda esses sentimentos.
Dar esperança quando não há nenhuma: é a coisa mais cruel que poderia fazer, mas faço pela causa, pelos meus amigos, pela minha vida.
— Mare — ele suspira, inclinando a cabeça em minha direção.
Viro o rosto para lhe dar tempo de pensar em minhas palavras e, se tudo der certo, ceder a elas.
— Queria que as coisas fossem diferentes — sussurra, mas consigo ouvir.
As palavras me levam de volta à minha casa e ao meu pai, quando ele disse o mesmo há tanto tempo. Me choco só de pensar que Cal e meu pai, um vermelho destroçado pela guerra, compartilham a mesma ideia. Não consigo conter o impulso de olhar para ele, para sua silhueta recortando o poente. Ele observa os exercícios militares abaixo antes de se voltar para mim de novo. Está dividido entre o dever e seus sentimentos pela menininha elétrica.
— Julian diz que você é como ela — ele diz pausadamente, pensativo. — Como ela costumava ser.
Coriane. Sua mãe. A menção à rainha morta, uma pessoa que jamais conheci, me deixa triste por algum motivo. Ela foi tirada tão cedo daqueles que amava, e deixou uma lacuna que querem me fazer preencher.
Por mais que odeie admitir, não posso culpar Cal por se sentir preso entre dois mundos.
Afinal, também estou.
Estava ansiosa antes do Baile de Despedida, com praticamente todos os meus nervos temendo a noite por vir. Agora, porém, espero ansiosa pelo amanhecer. Se sairmos vencedores, o sol vai se pôr num mundo novo. O rei abrirá mão da coroa e passará seu poder para mim, Maven, e Farley. A mudança virá sem derramamento de sangue, uma transição pacífica de um governo para outro. Se falharmos, o Ossário me espera. Mas não vamos falhar. Cal não vai me deixar morrer, nem Maven. São meus escudos.
Ao deitar na cama, encaro o mapa de Julian. Um troço antigo, quase inútil, mas reconfortante mesmo assim. É uma prova de que o mundo pode mudar.
Com esse pensamento na cabeça, caio num sono leve e inquieto. Meu irmão visita meus sonhos. Ele surge perto da janela, observando a cidade com uma tristeza estranha antes de olhar para mim e dizer:
— Há outros. Você precisa encontrá-los.
— Eu vou — balbucio em resposta, com a voz pesada de sono.
Logo são quatro da manhã e já não tenho mais tempo de sonhar.
As câmeras caem como árvores diante do machado: esses pequenos olhos se fecham um por um ao longo do meu trajeto até o quarto de Maven. Cada sombra me faz tremer com a expectativa de dar de cara com um sentinela no corredor, mas ninguém aparece. Eles protegem Cal e o rei, não servem a mim ou ao segundo príncipe. Não somos importantes. Mas seremos.
Maven abre a porta um segundo após eu tocar na maçaneta. Seu rosto brilha pálido na escuridão. Há círculos escuros ao redor dos seus olhos, como se ele não tivesse dormido nada. Contudo, está atento como sempre. Espero que me tome pelo braço, que me envolva em seu calor, mas apenas frio emana dele. Está com medo, percebo.
Passamos uns poucos e agonizantes minutos do lado de fora, caminhando sob as sombras atrás do Comando de Guerra para aguardar em nossos postos entre o edifício e o muro do lado de fora. Nosso lugar é perfeito, com vista para a ponte e para a Praça de César. A massa do Comando de Guerra nos esconde das patrulhas. Nem preciso de relógio para saber que chegamos na hora certa.
A noite se desfaz sobre nós e dá lugar a um céu azul-escuro. A aurora está chegando.
A esta hora, a cidade está mais quieta que o habitual. Mesmo os guardas de patrulha estão sonolentos e se movem devagar. Meu corpo transborda de entusiasmo, minhas pernas tremem.
Maven, porém, é capaz de se manter impassível e mal pisca. Ele olha além do muro de diamante, sempre observando a ponte. Sua concentração começa a ruir.
— Estão atrasados — ele comenta baixo, sem se mover.
— Não estou.
Se não fosse impossível, pensaria que Farley é uma sombria, capaz de ficar visível e invisível quando quer. Ela parece surgir do nada na semiescuridão ao sair da tubulação de drenagem.
Ofereço a mão, mas ela levanta sozinha.
— Onde estão os outros? — pergunto.
— À espera — ela diz, apontando para o subsolo.
Se eu forçar a vista, consigo ver: se apertam no encanamento, aguardando para vir à superfície. Quero descer pelo túnel e me juntar a eles, ficar ao lado de Kilorn e do meu povo, mas meu lugar é aqui, com Maven.
— Estão armados? — pergunta Maven, quase sem mexer os lábios. — Prontos para lutar?
Farley assente.
— Sempre. Mas não vou chamá-los para fora até ter certeza de que a praça é nossa. Não confio muito no charme de Lady Barrow.
Nem eu, mas não posso dizer isso em voz alta. Ele sempre vai escolher você. Nunca quis que algo fosse verdade e mentira ao mesmo tempo.
— Kilorn pediu que eu entregasse isso — ela acrescenta estendendo a mão com uma pequena pedra verde, da cor dos olhos dele. Um brinco. — Ele disse que você entenderia o significado.
Fico sem palavras, tomada por muitas emoções. Pego o brinco da mão dela e o ergo até os outros. Bree, Tramy, Shade: conheço cada pedra e seu significado. Kilorn é um guerreiro agoraE quer que me recorde dele como era. Rindo, me provocando, fungando como um cãozinho perdido. Nunca vou me esquecer disso.
A ponta de metal pica e arranca sangue. Quando tiro a mão da orelha, posso ver a mancha rubra em meus dedos. É isto que sou.
Olho de novo para o túnel na esperança de ver seus olhos verdes, mas a escuridão parece engolir o buraco e ocultar Kilorn e os outros.
— Vocês estão prontos para isso? — Farley arfa olhando para nós dois.
Maven responde por mim com a voz firme:
— Estamos.
Mas Farley não fica satisfeita.
— Mare?
— Estou pronta.
A revolucionária inspira tranquila antes de bater o pé contra a tubulação. Uma, duas, três vezes. Juntos, nós nos voltamos para a ponte, à espera de que o mundo mude.
Não há trânsito a esta hora, nem mesmo um ruído de veículo. As lojas estão fechadas, as praças estão vazias. Com sorte, apenas concreto e metal serão perdidos esta noite. A última seção da ponte que conecta o oeste de Archeon ao resto da cidade parece calma.
E então ela explode em nuvens brilhantes de laranja e vermelho, um sol para romper as trevas prateadas. O calor sobe, mas não por causa das bombas: é Maven. A explosão acende algo nele e liberta seu fogo.
O estrondo faz o chão tremer e quase me leva ao chão. O rio se agita com os destroços da ponte. A estrutura geme e se contorce como uma fera moribunda e despenca em farelos ao se soltar das outras seções. As pilastras de concreto e os fios de aço se partem e batem contra a água ou contra a margem. Uma nuvem de pó e fumaça bloqueia a visão do resto de Archeon.
Antes mesmo de a ponte atingir a água, os alarmes soam por toda a Praça de César. Acima de nós, as patrulhas correm pela muralha, ansiosas para examinar a destruição. Eles gritam uns com os outros, sem saber o que fazer. A maioria só consegue olhar. Nos quartéis, as luzes acendem e todos os soldados se põem em movimento, todos os cinco mil saltam da cama. Os soldados de CalA legião de Cal. E, com sorte, a nossa.
Não consigo tirar os olhos do fogo e da fumaça, mas Maven faz isso por mim.
— Ali está ele — diz por entre os dentes, apontando algumas formas escuras que correm do palácio.
Ele tem seus próprios guardas, mas Cal ultrapassa todos saindo do quartel como um raio. Ainda está de pijama, mas nunca pareceu tão assustador. À medida que os soldados e os oficiais chegam, ele grita ordens, conseguindo se fazer ouvir em meio à multidão crescente.
— Artilharia nos portões! Ninfoides do outro lado! Não queremos que o fogo se espalhe!
Seus homens obedecem com rapidez e voam a cada palavra. As legiões obedecem a seus generais.
Atrás de nós, Farley pressiona as costas contra o muro, mais perto da tubulação. Ela está preparada para dar meia-volta e fugir ao primeiro sinal de problema, desaparecer para lutar outro dia. Isso não vai acontecer. Vai dar tudo certo.
Maven dá o primeiro passo. Quer chamar a atenção do irmão, mas eu o detenho.
— Sou eu quem deve fazer isso — sussurro, sentindo uma calma estranha se apoderar de mim. Ele sempre vai escolher você.
Cruzo a fronteira sem volta ao pisar na praça e ficar à vista da legião, das patrulhas e de Cal. Os holofotes ganham vida no topo da muralha, alguns direcionados à ponte; outros focam nas pessoas. Um está apontado para mim, e preciso levantar as mãos para proteger os olhos.
— Cal! — grito acima do som ensurdecedor de cinco mil soldados.
Ele consegue me ouvir de algum jeito, e sua cabeça gira em minha direção. Nossos olhares se encontram entre a massa de soldados que assumem os postos em seus regimentos bem treinados.
Quando ele vem em minha direção, abrindo espaço por entre o mar de pessoas, acho que vou desmaiar. De repente, só escuto os batimentos do meu coração, que sufocam o som dos alarmes e dos gritos. Tenho medo. Muito medo. É apenas Cal, digo a mim mesma. O garoto que adora música e motos. Não o soldado, não o general, não o príncipe. O garoto. Ele sempre vai escolher você.
— Volte para dentro agora!
Cal se agiganta diante de mim, usando sua voz severa, real, capaz de fazer uma montanha se curvar.
— Mare, não é seguro...!
Com uma força que não sabia que tinha, agarro o colarinho de sua camisa. O gesto o detém.
— E se este for o preço? — começo, olhando para a ponte destroçada, agora oculta sob fumaça e cinzas. — Nada além de umas toneladas de concreto. E se eu dissesse que, aqui e agora, você pode corrigir tudo? Que você pode nos salvar?
Pelo brilho em seus olhos, noto que consegui sua atenção.
— Não — ele protesta, agarrando minha mão.
Seus olhos estão cheios de medo, mais medo do que jamais imaginei.
— Você disse uma vez que acreditava em nós. Acreditava em igualdade. Você pode torná-la real com uma palavra. Não haverá guerra. Ninguém vai morrer.
Minhas palavras o deixam paralisado, sem sequer respirar. Não sou capaz de dizer o que se passa em sua cabeça. Mas tenho que insistir. Preciso fazer com que entenda.
— Você detém o poder neste instante. O exército é seu, este lugar todo é seu. Você pode tomá-lo e... libertá-lo. Marche palácio adentro, ponha seu pai de joelhos e faça o que você sabe que é certo. Por favor, Cal!
Posso sentir em minhas mãos. Sua respiração falha e nada nunca me pareceu tão real ou importante quanto este momento. Sei no que ele pensa: seu reino, seu dever, seu pai. E eu, a garota elétrica, que lhe pede para jogar tudo isso fora. Algo bem dentro de mim diz que Cal o fará.
Trêmula, beijo seus lábios. Ele vai me escolher. Sua pele está fria como um cadáver.
— Me escolha — suspiro contra seu peito. — Escolha um novo mundo. Crie um novo mundo. Os soldados vão obedecer às suas ordens. Seu pai vai obedecer às suas ordens.
Meu coração se aperta. Cada um dos meus músculos endurece à espera da resposta. Minha força faz o refletor piscar em compasso com meu coração.
— O sangue no calabouço era meu. Eu ajudei a Guarda a fugir. Logo todos saberão, e vou morrer. Não deixe isso acontecer. Me salve.
As palavras o comovem e ele aperta ainda mais meu pulso.
— Sempre foi você.
Ele sempre vai escolher você.
— Dê boas-vindas à nova aurora, Cal. Comigo. Com a gente.
Seus olhos agora encaram Maven, que caminha até nós. Os irmãos se entreolham e conversam de maneira que não compreendo. Ele vai nos escolher.
— Sempre foi você — ele diz, com a voz irada e arrasada. Suas palavras carregam a dor de mil mortes, mil traições.
Todo mundo pode trair todo mundo.
— A fuga, os tiros, os blecautes. Tudo começou com você.
Tento explicar, tento me desvencilhar, mas ele não pretende me deixar escapar.
— Quantas pessoas matou com sua aurora? Quantas crianças, quantos inocentes?
Suas mãos esquentam a ponto de queimar.
— Quantas pessoas vocês traíram? — pergunta.
Meus joelhos se dobram e não consigo ficar em pé, mas Cal não me solta. Vagamente, ouço a voz de Maven gritar de algum lugar. É o príncipe que vem em socorro de sua princesa. Mas não sou uma princesa. Não sou a garota que é salva. À medida que o fogo cresce em Cal, ardendo por trás de seus olhos, a eletricidade percorre meu corpo, alimentada pela raiva. Ela estoura entre nós e me projeta para longe dele. Minha cabeça chia, obscurecida pela dor, pela raiva e pela eletricidade.
Atrás de mim, Maven grita. Viro a tempo de vê-lo gritar para Farley e fazer gestos dramáticos.
— Corra! Corra!
Cal levanta mais rápido do que eu, gritando alguma coisa para os soldados. Seus olhos apontam na direção do chamado de Maven e ligam os pontos que só um general vê.
— A tubulação! — ruge, ainda com os olhos em mim. — Eles estão na tubulação!
A sombra de Farley desaparece, tentando escapar dos tiros. Os soldados correm pela praça e arrancam grades e canos, deixando a tubulação exposta. Eles entram pelos túneis como uma enchente infernal. Sinto vontade de tapar os ouvidos, de bloquear os gritos, os tiros e o sangue.
Kilorn. Seu nome surge vagamente em meus pensamentos, nada além de um suspiro. Não posso pensar muito nele agora. Cal ainda está sobre mim. Seu corpo todo treme, mas não me assusta. Não acho que nada pode me assustar agora. O pior já aconteceu. Perdemos.
— Quantos? — grito em resposta, reunindo forças para encará-lo. — Quantos morreram de fome? Quantos foram assassinados? Quantas crianças foram levadas para a morte? Quantos, meu príncipe?
Pensei que o odiava antes de hoje. Estava erradaSobre mim, sobre Cal, sobre tudo. A dor faz minha cabeça girar, mas dou um jeito de ficar de pé. Ele nunca vai me escolher.
— Meu irmão, o pai de Kilorn, Tristan, Walsh!
É como se centenas de nomes explodissem em minha cabeça, receitando todos os que perdi. Não significam nada para Cal, mas tudo para mim. E sei que ainda há milhares, milhões. Um milhão de crimes esquecidos.
Cal não responde. Espero encontrar a ira que sinto refletida em seus olhos. Em vez disso, não vejo nada além de tristeza. Ele sussurra de novo e as palavras me fazem cair para não levantar mais.
— Queria que as coisas fossem diferentes.
Espero as faíscas, espero os raios, mas eles não vêm. Quando sinto as mãos frias em meu pescoço e algemas em meus pulsos, sei o motivo. O instrutor Arven, o silenciador, aquele capaz de nos tornar humanos, está atrás de mim, sugando toda a minha força até eu voltar a ser apenas uma garotinha chorona. Levou tudo, todo o poder que pensei ter. Perdi. Não há ninguém para me segurar quando meus joelhos vacilam desta vez. Ouço vagamente o grito de Maven, que também é lançado ao chão.
— Irmão! — ele berra, na tentativa de fazer Cal compreender o que está fazendo. — Eles vão matar Mare! Vão me matar!
Mas Cal não escuta. Fala com um dos seus capitães, e não tento ouvir as palavras. Não poderia, mesmo se quisesse.
O chão parece tremer sob mim a cada disparo no subsolo. Quanto sangue não vai manchar os túneis esta noite?
Minha cabeça está pesada demais, meu corpo está fraco demais, e me deixo tombar contra o piso. O frio no meu rosto me acalma. Maven se arrasta e põe a cabeça ao lado da minha.
Lembro de um momento como este. O grito de Gisa e seus ossos esmagados aparecem distantes, como um fantasma.
— Leve-os para dentro, para o rei. Ele julgará os dois.
Não reconheço mais a voz de Cal. Eu o tornei um monstro. Forcei sua mão, eu o fiz escolher. Fui ansiosa, burra. Criei esperanças.
Sou uma idiota.
O sol começa a nascer por trás da cabeça de Cal, envolvendo-o com a aurora. Ele chega brilhante demais, intenso demais e cedo demais. Tenho que fechar os olhos.

34 comentários:

  1. mds n acredito q ela foi tão cínica

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    1. Ah, pq o o Cal não foi nem jm pouco cínico né? Mandar o irmão e ela pra morte, lamentar o povo dele q morreu, o sangue derramado e mesmo assim matar mais pessoas. Se isso não é ser sem coração eu sinceramente não sei o q é

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    2. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 08:10

      Cal, não faz isso com a Mare!
      Eu apostei todas (mentira, só foi metade) as minhas castas em vc!

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  2. Nunca imaginei que Cal poderia se tornar esse monstro...
    #Decepcionada/Iludida/Arrasada
    ~polly~
    Karina, adorei esse livro! Espero que não demore muito tempo para postar os outros.

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    1. Que bom que gostou :)
      Postei o extra hoje!

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  3. Não sei o que disse
    Só sentir T_T

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  4. GENTE, tô mais chocada que ovo!!! NOOOOOOOOOOOO!!!

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  5. meu deus to vomitando unicórnios góticos
    eu tava shippando tanto o cal com a mare T_T
    duda

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  6. O Cal de todos os livros que li, foi o personagem que mais me decepcionou até agora.

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  7. sim Mare, você é uma idiota

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  8. Odeio o Cal... Amo o Maven <3

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  9. Nao é a Mare idiota, e sim o Cal!!!Seu traidor!!!

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  10. Tô sem palavras

    Ass: Apaixonada por livros

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  11. Burra!!! Forçar um príncipe que cresceu e foi ensinado a achar os são vermelhos inferiores. E tbm acha que o país entraria em colapso se tentasse mudar as coisas.
    Ele não sabe tudo o que acontece. Seu pai menti pra ele.
    E ela ainda o força a uma decisão rápida no meio de uma explosão....
    Burra, burra....

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  12. Que raiva da Mare, queria usar o Cal. Apenas usá-lo pela causa da guarda. Ele tinha sentimentos por ela, poxa vida, talvez em outra situação ele tivesse escolhido ela, mas ela forçar essa situação assim, com um ataque ... Ela nem alimentou o relacionamento pouco a pouco, foi assim bem direta. Credo, burra mesmo. Que raiva. Desse plano idiota do Maven, da Mare por ter querido usar o Cal e do Cal por ser tão soldado, tão metódico.
    Ass: Déborah Alana.

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  13. To tipo AAAAAAAAAAAAAAH MARE SUA TOLINHA! CAL SEU ARROMBADO! MAVEN... SEI LÁ O Q DIZER O TU!

    VEY, ME ENCHI DE ESPERANÇA ACHANDO Q ESSA PORR* IA DAR CERTO... ERREIIII!

    DEU MERDAAAAAA

    -Victoria

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  14. EU SABIA QUE ESSE CAL NÃO ERA TÃO LEGAL ASSIM,ELE PODE ATE SER MAS SÓ TA SE MOSTRANDO UM CORVARDE ATE AGORA, ELE PODE ATER SER IGUAL AO PAI ,AINDA TORÇO POR MAVEN E MAREN ,ELE ATE AGORA NÃO FALHO COM ELA

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  15. Gente, que burrice! O Cal não vai trair o povo dele, né
    CAL IMPONDO RESPEITO!!

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  16. Não sei porque, mais amei esse capítulo, estava torcendo para ele falar não, pois ela simplesmente brincou com os sentimentos dele, e ainda disse pra ela mesma que não o amava. Vai lá com o idiota do Maven, ele sim é idiota não Cal.

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  17. Gente, sério. Essa garota é burra ou o que? Ela não consegue ver que o Marven está manipulando ela? Ela estava quase conseguindo. Aí vem o idiota e aparece. Sério? O que vcs queriam que o Cal pensasse? "Ah nossa como ela gosta de mim! Mas está do lado do meu irmão. Que ridículo.

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  18. gente , eu to chorando muito , serio , muito mesmo , eu não consigo expressar com palavras oque eu to sentindo , so sei que ta doendo , os outros acham que eu sou boba por chorar por um livro , mas e mais que isso , e um refugio da vida real , dos problemas e sei que muita gente também sente isso !!!!!

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  19. Bem feito pra Mare. Ela foi precipitada,arrogante e vaca com o Cal . Esse Maven tá tão sedento pelo poder que chega a ficar cego😡
    Não se ganha uma guerra de um dia para o outro. Pra isso existe as estratégias e estudos e isso requer PACIÊNCIA

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  20. Difícil saber algo só com o ponto de vista da mare.
    Para mim cal foi o único a não trair...

    Q'ZA

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  21. O que foi que aconteceu??? Não tem como entender.Como???

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  22. Sigo odiando Maven e amando Cal, ele tem carater e luta pelo que acredita, não tenta ser perfeito.

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  23. No momento estou odiando o Cal. Repensando sobre TeamMaCal! :(

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  24. Mano Mare foi uma tola e cínica é claro q cal ia fazer isso. Como assim quantas crianças se machucaram? Isso não foi o vazamento de gás ? Será q foi cal mesmo q fez tudo esplodir?
    Maven vê eles se beijando e não espressa nenhuma reação.
    Não consigo confiar no Maven por mas q eu tente.
    Onde estava ele na hora da esplozão? Ele não ajudou a mare se levantar e sim cal.são tantas dúvidas.
    Ass: Milly*-*

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  25. Acorda pra vida Cal!
    Quer resultados diferentes?Para de fazer tudo igual!Você tem o poder para isso só não o usa porque não quer,por achar que não vale a pena.Sim porque não seria fácil mas é possível e isso basta!Cal nesse capítulo eu te achei parecido com seu pai, por favor não me decepcione mais.Eu tenho um crush no seu irmão mas,não desgosto de você.Talvez após a Revolução Vermelha você possa se livrar da Evangeline e escolher sua princesa,baseando-se em sentimentos ao invés de força e poder,e essa princesa seria Mare,sim a Mare!O que você sente por ela é recíproco ela só está confusa,seja paciente e supere o episódio em que ela forçou isso,eu sei,eu sei ela queria te usar masfoi por uma causa nobre,acredite.A minha Rainha Vermelha é preciosa.Se cuida Cal.

    Branquinha.

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  26. Acredito que o Maven seja um aliado da causa Vermelha e não um infiltrado na Guarda visando ser rei e manipulando a Mare como alguns leitores suspeitam.Ele está fazendo o que o senso torto de justiça do Cal não permite:lutar por igualdade!Somente isso.Se surgir a possibilidade de se tornar rei será consequência.Enfim,tô pirando nesse livro,acreditando nas boas intenções do Maven,decepcionada com o Cal,partiu próximo capítulo!

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  27. Só eu que tava msm torcendo para o Cal não escolher ela? Por favor ne!? Seria ridículo se ele fizesse isso. Ele é um futuro Rei, comanda a porra toda. Não pode tomar as decisões com base em pressa e paixão por uma garota aleatória. O futuro de muitos esta na nas mãos dele.

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Boa leitura :)