15 de março de 2017

Capítulo um

Mare

LEVANTO QUANDO ELE PERMITE.
Sinto um puxão na corrente presa à coleira no meu pescoço. As farpas cravam em mim, mas não o bastante para fazer sangrar — ainda não. Meus punhos já sangram. As feridas são consequência dos dias de cativeiro inconsciente usando as algemas ásperas e dilacerantes. As mangas outrora brancas agora estão manchadas de rubro e escarlate vivo, passando do sangue velho para o novo como prova do meu tormento. Para mostrar à corte de Maven o quanto já sofri.
Ele para diante de mim, com uma expressão indecifrável. As pontas da coroa de seu pai o fazem parecer mais alto, como se o ferro saísse de seu crânio. A coroa brilha, e cada ponta é uma chama ondulada de metal escuro ladeada por bronze e prata. Me concentro nesse objeto amargamente familiar para não encarar Maven. Ele me traz para perto, puxando outra corrente que não consigo ver, apenas sentir.
Uma mão branca cerca meu punho ferido, quase gentil. Involuntariamente, meus olhos se voltam para o rosto dele, sem conseguir desviar. O sorriso é tudo menos doce. Fino e afiado como uma navalha, me perfurando com cada um dos dentes. Os olhos são ainda piores. Os olhos dela, de Elara. Antes eu os achava frios, feitos de gelo vivo. Agora compreendi. As chamas mais quentes ardem azuis, e os olhos dele não são exceção.
A sombra da chama. Maven flameja, mas a escuridão o corrói pelas beiradas. Há manchas pretas e azuladas ao redor de seus olhos injetados de sangue prateado. Ele não anda dormindo bem. Está mais magro do que me lembrava, mais franzino, mais cruel. Seu cabelo negro chega à altura das orelhas, enrolando nas pontas. Suas bochechas continuam suaves. Às vezes esqueço como ele é jovem. Como nós dois somos. Sob a veste simples, a marca do M arde na minha clavícula.
Maven vira rápido, segurando firme a corrente, me obrigando a acompanhar. Uma lua orbitando um planeta.
— Testemunhem esta prisioneira, esta vitória — ele diz, endireitando os ombros diante do vasto público à nossa frente. Trezentos prateados, no mínimo, entre nobres e civis, guardas e oficiais. Noto os sentinelas na minha visão periférica; seus uniformes flamejantes são um lembrete constante e doloroso da minha jaula, que encolhe cada vez mais. Os guardas da Casa Arven também estão sempre por perto, com seus uniformes brancos ofuscantes e poderes silenciadores. Quase sufoco com a opressão de sua presença.
A voz do rei ecoa ao longo da opulenta Praça de César, reverberando por uma multidão que responde na mesma moeda. Deve haver microfones e alto-falantes em algum lugar para levar as palavras cortantes do rei para toda a cidade e o reino inteiro.
— Aqui está a líder da Guarda Escarlate, Mare Barrow. — Apesar da minha situação, quase dou risada. Líder. Apesar da morte de sua mãe, Maven continua mentindo. — Uma assassina, terrorista e grande inimiga do reino. Agora ela se ajoelha diante de nós, sangrando.
As correntes me puxam de novo, me fazendo cambalear para a frente. Estendo os braços para recuperar o equilíbrio. Mal reajo, mantendo o olhar baixo. Tanta ostentação. Meu corpo se enche de raiva e vergonha quando me dou conta do tamanho do mal que esse simples ato vai causar à Guarda Escarlate. Vermelhos em toda a Norta vão me ver como uma marionete de Maven e pensar que somos fracos, fracassados, indignos de sua atenção, esforço ou esperança. Nada poderia estar mais longe da verdade. Mas não há muito que eu possa fazer, não agora, não aqui, sujeita à misericórdia de Maven. Penso em Corvium, a cidade militar que vi em chamas no caminho para o Gargalo. Houve revoltas depois da minha mensagem pela televisão. Será que foi o primeiro suspiro da revolução? Ou o último? Não tenho como saber. E duvido que alguém vá me trazer um jornal.
Há muito tempo, Cal me alertou contra a ameaça de guerra civil, antes de seu pai morrer, antes de ele próprio ficar sem nada além de uma garota elétrica e tempestuosa. Revolta dos dois lados, ele disse. Mas aqui, acorrentada diante da corte de Maven e de seu reino prateado, não vejo nenhuma divisão. Embora eu tenha mostrado para eles, falado da prisão de Maven, de seus entes queridos levados embora, de sua confiança traída por um rei e sua mãe, ainda sou a inimiga. Isso me faz querer gritar, mas sei que é melhor não. A voz de Maven sempre sairá mais alta do que a minha.
Será que meus pais estão assistindo? Pensar nisso me cobre de tristeza. Mordo o lábio com força para controlar as lágrimas. Sei que tem câmeras por perto, focadas no meu rosto. Mesmo que não consiga mais senti-las, eu sei. Maven não perderia a oportunidade de imortalizar minha derrota.
Eles estão prestes a me ver morrer?
A coleira diz que não. Por que se dar ao trabalho desse espetáculo se vai simplesmente me matar? Outra pessoa poderia sentir alívio, mas minhas entranhas gelam de pavor. Ele não vai me matar. Não. Sinto isso em seu toque. Seus dedos longos e pálidos ainda apertam meu punho, enquanto sua outra mão segura a coleira. Mesmo agora, quando sou dolorosamente sua, Maven não vai me soltar. Eu preferia a morte a esta jaula, à obsessão perversa de um jovem rei insano.
Lembro de seus bilhetes, todos terminando da mesma maneira.
Até nosso próximo encontro.
Ele continua falando, mas o volume de sua voz diminui na minha cabeça, como um zumbido se dissipando. Meus sentidos ficam todos em alerta. Observo por cima do ombro. Meu olhar percorre o grupo de cortesãos atrás de nós. Todos usam o preto do luto, orgulhosos e vis. Lord Volo da Casa Samos e seu filho, Ptolemus, estão esplêndidos em sua armadura escura polida, com faixas prateadas escamadas do ombro ao quadril. Ao ver Ptolemus, minha visão fica escarlate de fúria. Luto contra o impulso de pular e arrancar a pele de seu rosto. Perfurar seu coração como ele fez com meu irmão Shade. O desejo transparece, e Ptolemus tem a audácia de abrir um sorriso sarcástico para mim. Se não fosse pela coleira e pelos silenciadores restringindo tudo o que sou, eu transformaria seus ossos em vidro fumegante.
Não sei por quê, mas sua irmã, há tantos meses minha inimiga, não me olha. Com um vestido de cristais pretos perfurantes, Evangeline é, como sempre, a maior estrela dessa constelação violenta. Imagino que vá se tornar rainha em breve, tendo suportado o noivado com Maven por tempo demais. Seus olhos escuros estão fixos nas costas do rei, mais precisamente em sua nuca. Uma brisa sopra, agitando seus cabelos prateados como uma cortina cintilante e jogando-os para trás dos ombros, mas ela nem pisca. Só depois de um longo momento parece notar que a encaro. E, mesmo assim, seus olhos mal encontram os meus. Estão vazios. Não sou mais digna de sua atenção.
— Mare Barrow é minha prisioneira e vai enfrentar o julgamento da Coroa e do conselho. Ela precisa pagar por inúmeros crimes.
De que maneira?, me pergunto.
A multidão brada em resposta, aplaudindo a sentença. Eles são prateados “comuns”, sem ascendência nobre. Por mais que sinta prazer nas palavras de Maven, a corte não reage. Na verdade, alguns parecem sombrios, bravos, carrancudos — principalmente os membros da Casa Merandus, com seus trajes de luto cortados pelo azul-escuro das cores da rainha morta. Enquanto Evangeline me ignora, eles se concentram no meu rosto com uma intensidade perturbadora. Olhares de um azul abrasador vindos de todas as direções. Fico à espera de ouvir seus murmúrios na minha cabeça, uma dúzia de vozes como vermes escavando uma maçã podre. Mas há apenas silêncio. Talvez os oficiais da Casa Arven ao meu redor não sejam apenas carcereiros, mas protetores também, suprimindo minha habilidade e a de todos os outros contra mim. Ordens de Maven, imagino. Ninguém pode me ferir aqui.
Além dele.
Tudo dói. Ficar de pé, me mexer, pensar. Por causa da queda do jato, do sonador, do peso esmagador dos guardas silenciadores. E essas são apenas as feridas físicas. Hematomas. Fraturas. Dores que vão cicatrizar com o tempo. O mesmo não pode ser dito do resto. Meu irmão está morto. Sou prisioneira. E não sei o que realmente aconteceu com meus amigos dias atrás quando fiz um pacto com o diabo. Cal, Kilorn, Cameron, meus irmãos Bree e Tramy. Quando os deixamos para trás na clareira, estavam feridos, imobilizados, vulneráveis. Maven pode ter mandado seus homens voltarem para terminar o que começou. Me sacrifiquei para salvar a vida deles e nem sei se deu certo.
Maven me responderia se eu perguntasse. Posso ver isso em seu rosto. Seus olhos encontram os meus após cada frase torpe, pontuando cada mentira dita a seus súditos bajuladores. Para garantir que estou vendo, prestando atenção, olhando para ele. Como o garoto imaturo que Maven é.
Não vou implorar. Não aqui. Não desta forma. Sou orgulhosa demais para isso.
— Minha mãe e meu pai morreram combatendo esses animais — ele continua. — Deram a vida para manter este reino intacto, para manter vocês em segurança.
Mesmo derrotada, não consigo deixar de encarar Maven, retribuindo sua chama com um resmungo de descrença. Nós dois lembramos muito bem da morte do pai dele. De seu assassinato. A rainha Elara usou seu poder para entrar no cérebro de Cal, transformando o querido herdeiro do rei em uma arma mortal. Eu e Maven acompanhamos enquanto Cal era obrigado a assassinar o próprio pai, cortando a cabeça do rei e eliminando qualquer chance que tinha de se tornar o futuro governante.
Vi muitas cenas terríveis desde então, mas essa memória ainda me assombra.
Não lembro muito do que aconteceu com a rainha fora do presídio de Corros. O estado de seu corpo depois foi prova suficiente do que o raio é capaz de fazer com a carne humana. Sei que a matei, sem dúvida, remorso ou arrependimento, numa tempestade devastadora alimentada pela morte repentina de Shade. A última imagem clara que tenho da batalha é de meu irmão caindo, com o coração perfurado pela impiedosa agulha de aço de Ptolemus. Não sei como o irmão de Evangeline escapou da minha fúria cega, mas a rainha não teve a mesma sorte. Eu e o coronel fizemos questão de que o mundo soubesse o que tinha acontecido com ela e exibimos seu cadáver em uma transmissão televisiva.
Queria que Maven tivesse parte da habilidade dela, para poder vasculhar minha cabeça e saber exatamente que tipo de fim dei à sua mãe. Queria que sentisse a dor da perda de forma tão terrível quanto sinto.
Seus olhos estão voltados para mim quando termina seu discurso decorado, a mão estendida para exibir melhor a corrente que me prende a ele. Cada gesto faz parte de seu teatro ensaiado.
— Juro que farei o mesmo. Colocarei um ponto final na Guarda Escarlate e em monstros como Mare Barrow ou morrerei tentando.
Então morra, quero gritar.
O estrondo da multidão abafa meus pensamentos. Centenas aplaudem o rei e sua tirania. Chorei na caminhada pela ponte, diante de tantos que me culpavam pela morte de seus entes queridos. Ainda consigo sentir as lágrimas secando no rosto. Agora quero chorar de novo, mas de raiva, não de tristeza. Como podem acreditar nisso? Vão mesmo engolir essas mentiras?
Feito uma boneca, sou tirada de vista. Com a pouca força que me resta, viro o pescoço à procura de câmeras. Olhem para mim, imploro. Vejam como ele mente. Meu maxilar fica tenso e meus olhos se estreitam, refletindo o que torço para ser um retrato de resistência, revolta e fúria. Sou a garota elétrica. Sou a tempestade. Parece mentira. A garota elétrica está morta.
Mas é a última coisa que posso fazer pela causa e pelas pessoas que amo que ainda estão lá fora. Elas não vão me ver fraquejar neste último momento. Não, eu vou continuar de pé. E, embora não saiba como, tenho que continuar lutando, mesmo aqui, na barriga do monstro.
Outro puxão me obriga a virar de frente para a corte. Prateados frios me encaram de volta, as peles com leves tons de azul, preto, roxo e cinza, desprovidas de vida, com aço e diamante correndo nas veias em vez de sangue. Não focam em mim, mas no próprio Maven. Neles, encontro minha resposta. Neles, vejo a ânsia.
Por uma fração de segundo, sinto pena do rei menino, solitário no trono. Então, bem no fundo, sinto o sopro ousado da esperança.
Ah, Maven. Em que confusão você foi se meter.
Nem consigo imaginar quem vai atacar primeiro.
A Guarda Escarlate ou os nobres dispostos a cortar a garganta de Maven e tirar dele tudo pelo que sua mãe morreu.


Assim que subimos os degraus de Whitefire, o rei entrega minha coleira para um guarda da Casa Arven, se afastando em direção ao largo salão de entrada do palácio.
Estranho. Maven estava obcecado por me ter de volta, por me colocar em sua jaula, mas agora deixa minhas correntes de lado sem nem olhar. Covarde, digo a mim mesma. Ele não é capaz de me encarar sem o espetáculo.
— Você honrou sua promessa? — pergunto, sem ar. Minha voz soa rouca pelos dias sem uso. — É um homem de palavra?
Ele não responde.
O resto da corte surge atrás de nós. Suas linhas e fileiras são baseadas nos meandros complexos de status e hierarquia. Só eu estou deslocada, a primeira a seguir o rei, andando alguns passos atrás dele, onde estaria a rainha. Eu não poderia estar mais longe desse título.
Olho para o maior dos meus carcereiros na esperança de ver algo além de lealdade cega. Ele usa um uniforme branco grosso, à prova de balas, fechado até a garganta. As luvas são cintilantes, não de seda, mas de borracha. Estremeço. Apesar de seu poder silenciador, os Arven não vão correr nenhum risco comigo. Mesmo se eu conseguisse soltar uma faísca apesar de seu massacre contínuo, as luvas protegeriam suas mãos para que me mantivessem encoleirada, acorrentada, enjaulada. O grande Arven não olha para mim; seus olhos estão focados mais à frente enquanto morde o lábio, concentrado. O outro parece exatamente igual, andando do meu outro lado numa sincronia perfeita com seu irmão ou primo. As cabeças raspadas brilham e me lembro de Lucas Samos. Meu guarda gentil, meu amigo, que foi executado porque eu existia e o usei. Tive sorte na época, quando Cal deixou um prateado bondoso para me vigiar.
Então me dou conta de que tenho sorte agora. É mais fácil matar guardas indiferentes. Eles precisam morrer. De alguma forma. Para que eu possa fugir, para que recupere meu poder, eles são os primeiros obstáculos. O resto é fácil de adivinhar. Os sentinelas de Maven, os outros guardas e oficiais posicionados por todo o palácio e, claro, o próprio rei. Só vou sair daqui por cima do seu cadáver — ou do meu.
Fico pensando em matá-lo. Enrolar minha corrente em volta do seu pescoço e apertar até tirar a vida de seu corpo. Isso me ajuda a ignorar o fato de que cada passo que dou me leva mais para dentro do palácio, sobre o mármore branco, passando as altíssimas paredes douradas, sob uma dezena de lustres com luzes de cristal esculpidas em forma de chamas. Tudo tão bonito e frio como me lembro. Uma prisão com cadeados de ouro e barras de diamante. Ao menos não vou ter que enfrentar o obstáculo mais violento e perigoso de todos. A rainha está morta. Mesmo assim, sinto um calafrio ao lembrar dela. Elara Merandus. Seu fantasma me assombra. Certa vez ela despedaçou minhas memórias. Agora se transformou numa delas.
Uma figura de armadura atravessa meu olhar fixo, passando pelos guardas para se colocar entre mim e o rei. Ele acompanha nosso passo como um guardião obstinado, embora não use o uniforme ou a máscara dos sentinelas. Vai ver sabe que estou pensando em estrangular Maven. Mordo o lábio, me preparando para a dor aguda do ataque de um murmurador.
Mas não, ele não é da Casa Merandus. Sua armadura é de obsidiana escura, seu cabelo é prateado e sua pele é branca como a lua. Quando volta os olhos para mim por cima do ombro, noto que são vazios e pretos.
Ptolemus.
Avanço com os dentes, sem saber o que estou fazendo, sem me importar. Só quero deixar minha marca. Me pergunto se o gosto do sangue prateado é diferente do vermelho.
Mas não descubro.
A coleira me puxa para trás, com tanta violência que minha coluna faz um arco e caio no chão. Com um pouco mais de força, eu teria quebrado o pescoço. A pancada do crânio no mármore me deixa tonta, mas não o suficiente para me manter no chão. Tento levantar, estreitando os olhos em direção às pernas da armadura de Ptolemus, que agora vira para me encarar. Mais uma vez, ataco e, mais uma vez, a coleira me puxa para trás.
— Basta — Maven sibila.
Ele para sobre mim, detendo-se para observar minhas tentativas fracas de me vingar de Ptolemus. O resto da procissão também para; prateados se aglomeram para assistir à rata vermelha se debatendo em vão.
A coleira parece ficar mais apertada e engulo em seco, levando a mão à garganta. Maven mantém os olhos no metal.
— Evangeline, eu disse basta.
Apesar da dor, viro para vê-la atrás de mim, com um punho cerrado ao lado do corpo. Assim como Maven, ela fita a minha coleira, que agora pulsa. Deve bater no ritmo do coração dela.
— Deixe que eu a solte — ela diz. Acho que ouvi mal. — Deixe que eu a solte aqui e agora. Dispense os guardas e vou matar essa garota, com seus poderes e tudo.
Rosno de volta, como o monstro que pensam que sou.
— Tente — digo a ela, desejando com todo o coração que Maven concorde. Apesar dos machucados, dos dias de silêncio e dos anos de inferioridade em relação à magnetron, quero ver o que ela tem a oferecer. Já a derrotei uma vez. Posso fazer isso de novo. No mínimo, é uma chance. Melhor do que eu esperava.
Os olhos de Maven passam da coleira para sua noiva, e seu rosto se fecha, tenso e ardente. Vejo muito da antiga rainha nele.
— Você está questionando as ordens do rei, Lady Evangeline?
Os dentes dela brilham entre os lábios pintados de roxo. A máscara de boas maneiras da corte ameaça cair, mas antes que possa dizer algo realmente condenatório, seu pai se move um pouco, enlaçando o braço no dela. A mensagem é clara: Obedeça.
— Não — ela resmunga, querendo dizer sim, então curva o pescoço e inclina a cabeça. — Majestade.
A coleira afrouxa, voltando ao tamanho normal em volta do meu pescoço. Talvez até mais frouxa do que antes. É uma pequena bênção que Evangeline não seja tão meticulosa quanto tenta parecer.
— Mare Barrow é uma prisioneira da Coroa e a Coroa vai fazer com ela o que achar necessário — Maven diz, não apenas à sua noiva impulsiva. O rei passa os olhos pelo restante da corte, deixando suas intenções claras. — A morte é um destino bom demais para ela.
Um rumor baixo reverbera entre os nobres. Alguns parecem se opor, mas muitos concordam. Que estranho. Pensei que todos quisessem me executar da pior maneira possível e me pendurar para alimentar os abutres, exaurindo todo o terreno que a Guarda Escarlate ganhou. Mas imagino que queiram algo pior para mim.
Pior que a morte.
Foi o que Jon me disse antes. Quando viu o que o futuro me guardava, aonde meu caminho me levaria. Ele sabia que isso estava por vir. E então contou ao rei. Comprou um lugar ao lado dele às custas da vida do meu irmão e da minha liberdade.
Eu o encontro na multidão, longe dos outros. Seus olhos estão vermelhos e pálidos, e seu cabelo prematuramente grisalho está preso num rabo de cavalo bem-feito. Outro sanguenovo de estimação de Maven Calore, ainda que sua coleira não seja visível. Jon ajudou Maven a nos impedir de salvar uma legião de crianças antes mesmo que tentássemos. Contou a Maven sobre nossos caminhos e nosso futuro. Me entregou como um presente para o rei menino. Traiu todos nós.
Jon agora me encara. Não espero um pedido de desculpas pelo que fez e não recebo um.
— E o interrogatório? — diz uma voz que não reconheço à minha esquerda.
Reconheço o rosto.
Samson Merandus. Um lutador de arena, um murmurador feroz, primo da rainha morta. Ele abre caminho até mim e não consigo conter um calafrio. Em outra vida, eu o vi fazer um oponente se apunhalar até a morte na arena. Kilorn estava sentado ao meu lado, vendo, torcendo, aproveitando o que não sabia serem suas últimas horas de liberdade. Então seu mestre morreu e todo o nosso mundo veio abaixo. Nossos caminhos mudaram. Agora estou caída sobre o mármore impecável, com frio e sangrando. Sou menos que um cachorro aos pés de um rei.
— Ela é boa demais para um interrogatório, majestade? — Samson continua, estendendo a mão fria na minha direção. Ele segura meu queixo, me obrigando a erguer os olhos. Luto contra o impulso de mordê-lo. Não preciso dar outra desculpa para Evangeline me sufocar. — Pense no que ela já viu. No que sabe. É a líder deles e a chave para desvendar essa espécie maldita.
Ele está errado, mas mesmo assim o sangue lateja em meu peito. Sei o bastante para causar muito estrago. Tuck passa diante de meus olhos, assim como o coronel e os gêmeos de Montfort. A infiltração das legiões. As cidades. Os assobiadores por todo o país, levando refugiados à segurança. Segredos preciosos guardados com cuidado e prestes a serem revelados. Quantas pessoas meu conhecimento vai colocar em risco? Quantas vão morrer depois que me interrogarem?
E essas são apenas informações militares. Piores ainda são as partes sombrias da minha mente. Os cantos onde escondo meus piores demônios. Maven está entre eles. O príncipe de que eu me lembrava, o qual amava e desejava que fosse real. E Cal. O que fiz para continuar com ele, o que ignorei e as mentiras que conto a mim mesma quanto à sua lealdade. Minha vergonha e meus erros me consomem, me corroem por dentro. Não posso permitir que Samson — ou Maven — veja essas coisas.
Por favor, quero implorar. Meus lábios não se movem. Por mais que odeie Maven, por mais que queira vê-lo sofrer, sei que ele é minha melhor chance. Mas ser misericordioso diante de seus mais fortes aliados e piores inimigos só vai enfraquecer um rei já vacilante. Então continuo em silêncio, tentando ignorar a mão de Samson no meu queixo e me concentrar no rosto de Maven.
Seus olhos encontram os meus por um instante ao mesmo tempo muito longo e muito breve.
— Vocês já sabem suas ordens — ele diz bruscamente, apontando para os guardas.
O aperto deles é firme mas não agressivo enquanto me levantam, usando mãos e correntes para me levar para longe do bando. Deixo todos para trás. Evangeline, Ptolemus, Samson e Maven.
O rei dá meia-volta, seguindo na direção oposta, rumo a seu último recurso para se aquecer.
Um trono de chamas congeladas.

24 comentários:

  1. Muito obrigado mesmo Karina quase q eu quebro o pescoço dando piruetas de felicidade por causa do livro vc é muito Diva

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    1. Né!to no capitulo 1 e ja to amando♡♡♡
      Muito obrigada karina

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  2. Aiiiii mdsss���������� n acredito q estou lendo esse livro �������� obg Karina ����

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  3. Senhor eu sofri tanto em Espada de Vidro mas sinto q meu sofrimento em Espada de Vidro n vai ser nada comparado a esse.

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    1. AHHHHHHHHHHHHHHHHHH KARINA EU QUASE INFARTEI DE FELICIDADE!!!!!! OBRIGADA!!!!! MDS ;U;

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    2. AHHHHHHHHHHHHHHHHHH KARINA EU QUASE INFARTEI DE FELICIDADE!!!!!! OBRIGADA!!!!! MDS ;U;

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    3. Concordo muito obg Karina tava quase infartando pra lê esse livro. MUITOOOOOOO OBRIGADA MESMO!

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  4. Ai mds eu achei que nunca iria ler esse livro. Morta estou ! 💕💕❤

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  5. Amo a escrita da Victória, a narrativa é bonita sem ser muito poética.
    Maven continua o mesmo cretino de sempre hahahaha. Tomara que a Mare arranje um jeito de escapar dai <3

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  6. Maven e Mare tem bem mais química que Mare e Cal.
    Sei lá, sou a única doida que tem atração pelo Maven? u.u

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    1. Alguém que me entende finalmente. Eu detesto o Cal e prefiro ele morto, pena que eu já imagino que a história não cai acabar assim

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    2. Somos 3!
      Menos a parte de Cal morto ;-;
      Maven <3 tenho atração por certos vilões
      ~polly~

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  7. E quando a espada que é Maré estilhacar ela vai se levantar vermelha como a aurora e sair da fênix do seu vidro e enfim mandar um Foda-se pro Maven e ir pro meu Cal lindo e maravilhoso

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  8. Olha até que situação ela chegou de até fazer pacto com o diabo essa Maré é demais

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  9. Aaaaaaaaaaaaah to tendo um treco de felicidade :D
    altas emoções já no primeiro capítulo
    :O

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  10. Aaaaaaaaaaaah tendo um treco de felicidade esperei muito por esse livro :) :D
    altas emoções já no primeiro capítulo

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  11. Tomara q a Mare escape >.<

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  12. o livro nem começou e já tô sofrendo

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  13. Vdd. Muito sofrimento!!!
    Aguenta firme Mare...

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  14. Do jeito que a Victoria é, em poucos capítulos o livro vai dar uma cambalhota e vai acontecer alguma coisa que vai deixar td mundo de queixo caído kkkkk

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Boa leitura :)