15 de março de 2017

Capítulo treze

Mare

UMA SEMANA SE PASSA até que eu saia do quarto de novo. Embora sejam um presente de Maven, um lembrete da estranha obsessão que tem por mim, estou feliz com os livros de Julian. São minha única companhia. Um pedaço de um amigo neste lugar. Estou sempre com eles por perto, assim como o retalho de seda de Gisa.
As páginas passam com os dias. Volto no tempo com as histórias, viajando por palavras cada vez menos críveis. Trezentos anos de reis Calore, séculos de chefes militares prateados — esse é um mundo que eu reconheço. Mas quanto mais leio, mais obscuras as coisas ficam.

Registros do período chamado de Reforma são escassos, embora a maioria dos estudiosos concorde que teve início por volta do ano de 1500 da Era Antiga (EA) segundo o calendário moderno de Norta. A maior parte dos registros anteriores à Reforma —, imediatamente após, durante ou antes das Calamidades que se abateram sobre o continente — foram quase completamente destruídos, perdidos ou são impossíveis de ler. Os registros recuperados são estudados e mantidos nos Arquivos Reais em Delphie e em instalações similares em reinos vizinhos. As Calamidades vêm sendo estudadas detalhadamente, usando a investigação de campo juntamente com mitos pré-prateados para propor hipóteses. Na época, muitos acreditavam que uma combinação entre guerra, alteração geológica, mudança climática e outras catástrofes naturais resultou na quase extinção da raça humana.
Os primeiros registros traduzíveis descobertos datam de aproximadamente 950 EA, mas o ano exato é desconhecido. Há um relato incompleto da tentativa de julgamento de um suposto ladrão na Delphie reconstruída, chamado “O julgamento de Barr Rambler”. Ele foi acusado de roubar a carroça do vizinho e, durante o processo, teria rompido suas algemas “como se fossem galhos” e fugido, apesar de todos os guardas. Acredita-se que seja o primeiro registro da demonstração do poder de um prateado. Até hoje, a Casa Rhambos alega que sua linhagem de forçadores tem origem em Rambler. No entanto, essa alegação é refutada por outro documento, “O julgamento de Hillman, Tryent e Davids”, em que três homens de Delphie foram julgados pela morte de Barr Rambler, que segundo o registro não tinha filhos. Os três foram absolvidos e mais tarde aclamados pelos cidadãos por terem destruído “a abominação Rambler” (Registros de escritos de Delphie, v. 1).
O tratamento dispensado a Barr Rambler não foi um incidente isolado. Muitos escritos e documentos antigos detalham o medo e a perseguição a uma população crescente de humanos com poderes e sangue prateado. A maioria se uniu por proteção, formando comunidades fora das cidades dominadas pelos vermelhos. A Reforma teve fim com a ascensão das sociedades prateadas, algumas convivendo com cidades vermelhas, embora a maior parte delas tenha prevalecido no final.

Prateados perseguidos por vermelhos. A ideia me dá vontade de rir. É idiota. É impossível. Vivi todos os dias da minha vida sabendo que eles são deuses e nós somos insetos. Não consigo nem imaginar um mundo em que o contrário seja verdade.
Esses livros são de Julian. Ele viu mérito suficiente neles para estudá-los. Ainda assim, estou muito agitada para continuar, então passo a ler sobre os anos mais recentes. A Nova Era, os reis Calore. Nomes e lugares que conheço em uma civilização que entendo.
Um dia, recebo roupas mais simples. Confortáveis, feitas para serem úteis, não bonitas. É o primeiro indício de que algo está errado. Pareço quase um agente de segurança, com calças maleáveis, uma jaqueta preta levemente decorada com espirais de rubi e botas surpreendentemente confortáveis. De couro gasto, sem salto, com espaço suficiente para as algemas. As dos pulsos ficam escondidas como sempre, cobertas por luvas. De pele, por causa do frio. Meu coração pula. Nunca fiquei tão animada com luvas.
— Vou sair? — pergunto a Tigrina quase sem ar, esquecendo o quanto é boa em me ignorar. Ela não decepciona: continua olhando para a frente enquanto me leva da cela luxuosa.
Trevo é sempre mais fácil de decifrar. Seus lábios contorcidos e seus olhos verdes apertados são uma confirmação. Isso sem mencionar o fato de que elas também estão usando casacos grossos e luvas, mas de borracha, para se protegerem da eletricidade que não tenho mais.
Ar livre. Não tenho experimentado muito mais do que a brisa de uma janela aberta desde aquele dia nos degraus do palácio. Achava que Maven ia arrancar minha cabeça, então estava focada em outras coisas. Agora eu queria que lembrasse do ar gelado de novembro, do vento cortante trazendo o inverno. Na pressa, quase ultrapasso as Arven.
Elas me arrastam de volta para seu lado e me fazem andar no mesmo passo. É uma caminhada enlouquecedora por escadas e corredores que conheço como a palma da minha mão.
Sinto uma pressão familiar e olho por cima do ombro. Ovo e Trio se juntam a nós, formando a retaguarda. Eles andam no mesmo ritmo de Tigrina e Trevo conforme seguimos em direção ao salão de entrada e à Praça de César.
Tão rápido quanto chegou, minha animação vai embora.
O medo corrói minhas entranhas. Tentei manipular Maven para que ele cometesse erros custosos, ficasse em dúvida, queimasse as últimas pontes que ainda tinha. Mas talvez eu tenha falhado. Talvez bote fogo em mim.
Me concentro no som das minhas botas contra o mármore. Algo sólido para ancorar meu medo. Meus punhos estão cerrados dentro das luvas, implorando por um resgate.
Mas ele nunca vem.
O palácio parece estranhamente vazio, mais que o normal. Portas são fechadas rapidamente, enquanto criados passam agitados por cômodos que ainda não estão fechados, rápidos e quietos como ratos. Lançam lençóis brancos sobre móveis e obras e arte, cobrindo-os com estranhos sudários. Poucos guardas, menos nobres. Aqueles por quem passo são jovens e estão com os olhos arregalados. Reconheço suas Casas, suas cores, e vejo o medo em seus rostos. Todos estão vestidos como eu, para o frio, para o trabalho. Para mudar.
— Para onde estamos indo? — pergunto para ninguém, porque não vão me responder.
Trevo puxa meu rabo de cavalo, me obrigando a olhar para a frente. Não dói, mas o ato me choca. Ela nunca age assim comigo, não sem um bom motivo.
Considero as possibilidades. Será que é uma evacuação? Será que a Guarda Escarlate tentou atacar Archeon mais uma vez? Ou será que as Casas rebeldes voltaram para terminar o serviço? Não, não pode ser isso. Está tudo muito calmo. Não estamos correndo de nada.
Conforme saímos, respiro fundo, olhando em volta. O mármore sob meus pés, os lustres sobre minha cabeça, os espelhos altos e reluzentes, os quadros com moldura dourada dos ancestrais Calore cobrindo as paredes. Bandeiras vermelhas e pretas, prata, ouro e cristais. Sinto como se tudo fosse cair e me esmagar. O medo percorre minha espinha quando as portas à frente se abrem, o metal e o vidro apoiados em dobradiças gigantes. O primeiro sopro de vento frio me atinge em cheio, fazendo meus olhos lacrimejarem.
O sol do inverno brilha forte, me cegando por um instante. Pisco rápido, tentando fazer com que meus olhos se ajustem. Não posso perder um segundo. O mundo exterior entra em foco. A neve está grossa nos telhados do palácio e nas estruturas que circundam a Praça de César.
Soldados estão a postos nos dois lados da escadaria que leva ao palácio, imaculados em filas perfeitas. Os Arven me conduzem, passando por entre suas armas e seus uniformes e seus olhos que não piscam. Viro para olhar por cima do ombro conforme sigo, para o casco opulento e pálido do Palácio de Whitefire. Silhuetas rondam o telhado. Oficiais em uniformes pretos, soldados de cinza. Até daqui seus rifles são claramente visíveis contra o céu azul e gelado. E esses são apenas os guardas que posso enxergar. Deve haver mais deles patrulhando os muros, cuidando dos portões, escondidos, prontos para defender este lugar infeliz. Centenas, provavelmente, mantidos por sua lealdade e poder letal. Cruzamos a praça sozinhos, rumo a ninguém, a nada. O que está acontecendo?
Olho para os prédios pelos quais passamos. A Corte Real, uma construção circular com paredes lisas de mármore, colunas espiraladas e uma cúpula de cristal, está em desuso desde a coroação de Maven. É um símbolo de poder, um salão enorme, grande o suficiente para receber as Grandes Casas, além de membros importantes da sociedade prateada. Nunca entrei ali. Espero nunca entrar. O Tribunal de Justiça, onde a lei prateada é escrita e aplicada com eficiência brutal, é uma ramificação do prédio abobadado. Perto de seus arcos e estruturas de cristal, a Casa do Tesouro parece sem graça. Paredes lisas — mais mármore, e me pergunto quantas pedreiras este lugar esgotou —, sem janelas, como um bloco de pedra entre esculturas. A riqueza de Norta está aqui em algum lugar, mais protegida que o rei, trancada em cofres profundos cavados na rocha sob nossos pés.
— Por aqui — Trevo resmunga, me empurrando em direção à Casa do Tesouro.
— Por quê? — pergunto, ficando mais uma vez sem resposta.
Meu coração acelera, martelando contra minhas costelas, e tento manter a respiração estável. Cada inspiração gelada parece o tique-taque de um relógio, uma contagem regressiva antes de eu ser engolida.
As portas são grossas, mais grossas que as do presídio de Corros. Elas se abrem como num bocejo, protegidas por guardas em fardas roxas. A Casa do Tesouro não tem um salão de entrada grandioso, ao contrário de todas as outras estruturas prateadas que já vi. É só um corredor branco comprido, descendo em uma espiral constante. Há guardas a cada dez metros, destacados contra as paredes de um branco puro. Onde os cofres podem estar e para onde estou indo não sei dizer.
Depois de exatos seiscentos passos, paramos diante de um guarda.
Sem dizer uma palavra, ele dá um passo à frente e outro para o lado, pressionando a parede atrás de si. O guarda a empurra e o mármore desliza, revelando a silhueta de uma porta. Ela abre facilmente ao seu toque, revelando um vão de um metro na pedra. O soldado não faz nenhum esforço. Forçador, percebo.
A pedra é grossa e pesada. Meu medo triplica e engulo em seco, sentindo as mãos começarem a suar dentro das luvas. Maven finalmente vai me colocar numa cela de verdade.
Tigrina e Trevo me empurram, tentando me pegar de surpresa, mas planto os pés no chão, travando cada articulação.
— Não! — grito, lançando o ombro na direção de uma delas. Tigrina solta um gemido, mas continua me empurrando enquanto Trevo me pega pela cintura e me levanta do chão.
— Vocês não podem me deixar aqui embaixo! — Não sei que jogada arriscar, que máscara colocar. Choro? Imploro? Ajo como a líder rebelde que acham que sou? Qual dessas opções vai me salvar? O medo domina meus sentidos. O ar me falta como se eu estivesse me afogando. — Por favor, não posso… não posso…
Dou um chute, tentando derrubar Trevo, mas ela é mais forte do que eu esperava. Ovo pega minhas pernas, ignorando meu calcanhar quando acerta seu queixo. Eles me carregam como se eu fosse um móvel, sem hesitar.
Consigo me virar e olhar para o guarda da Casa do Tesouro enquanto a porta desliza de volta para o lugar. Ele cantarola, indiferente. Mais um dia de trabalho. Eu me obrigo a olhar para a frente, para o destino que me espera nessas profundezas brancas.
O cofre está vazio; há uma passagem em espiral como o corredor, mas bem apertada. Não há nenhuma marca nas paredes. Nenhuma característica que as diferencie, nada de sulcos, nada de guardas. Só luzes no teto e concreto por toda parte.
— Por favor. — Minha voz ecoa no silêncio total a não ser pelo som do meu coração acelerado.
Olho para o teto, desejando que seja um sonho.
Quando me largam, o ar é arrancado dos meus pulmões. Ainda assim, fico em pé o mais rápido que posso. Ao levantar, com os punhos cerrados e mostrando os dentes, estou pronta para lutar e disposta a perder. Não vou ser abandonada aqui sem quebrar os dentes de alguém.
Os Arven dão um passo para trás, lado a lado, indiferentes. Desinteressados. Seu foco está além de mim.
Viro e de repente estou encarando não outra parede branca, mas uma plataforma sinuosa. Recém-construída, levando a outros corredores, cofres ou passagens secretas.
Dali, dá para ver linhas férreas.
Antes que meu cérebro tente ligar os pontos, antes mesmo que o mais breve sussurro de agitação se manifeste, Maven fala, despedaçando minhas esperanças.
— Não se precipite. — A voz dele ecoa à minha esquerda, distante na plataforma.
Ele fica ali, esperando, com sentinelas à sua volta, além de Evangeline e Ptolemus. Todos estão vestindo casacos como o meu, com muita pele para mantê-los aquecidos. Os dois filhos de Samos resplandecem vestidos de preto.
Maven dá um passo na minha direção, sorrindo com a confiança de um lobo.
— A Guarda Escarlate não é a única capaz de construir trens.


O subtrem da Guarda crepitava e centelhava e espalhava ferrugem por toda parte, uma lata-velha ameaçando quebrar. Mesmo assim, eu o prefiro a esse tubo metálico glamoroso.
— Seus amigos me deram a ideia, claro — Maven diz da poltrona acolchoada à minha frente. Fica ali sentado, orgulhoso de si mesmo. Não vejo nenhuma de suas feridas hoje. Estão cuidadosamente escondidas, deixadas de lado ou esquecidas por enquanto.
Luto contra o impulso de me aninhar na poltrona, mantendo os dois pés firmes no chão. Se alguma coisa der errado, tenho que estar pronta para correr. Como no palácio, reparo em cada centímetro do trem, procurando qualquer vantagem. Não encontro nenhuma. Não há janelas, e os sentinelas e guardas Arven estão a postos nas duas extremidades do longo compartimento. O trem é decorado como um salão, com obras de arte, cadeiras estofadas e sofás, e até lustres de cristal tilintando com o movimento.
Mas vejo falhas, como em tudo que é prateado. Sinto pelo cheiro que a tinta mal secou. O trem é novinho em folha, nem deve ter sido testado. Na outra ponta do vagão, os olhos de Evangeline correm de um lado para o outro, traindo sua tentativa de parecer calma. O trem chacoalha. Aposto que ela sente cada pedacinho dele se movimentando em alta velocidade. É difícil se acostumar com essa sensação. Eu mesma sempre sofri com a trepidação de máquinas como o subtrem ou o Abutre. Sentia o sangue elétrico, e acho que Evangeline sente as veias de metal.
Ptolemus está sentado ao seu lado, olhando para mim de maneira ameaçadora. Ele se mexe algumas vezes, tocando o ombro dela. A expressão dolorosa de Evangeline vai cedendo, acalmada pela presença do irmão. Acho que, se o trem explodir, eles são fortes o suficiente para sobreviver aos estilhaços.
— Eles conseguiram fugir tão rápido do Ossário, seguindo pelos trilhos antigos até Naercey antes mesmo que eu chegasse lá. Pensei que não seria tão ruim assim ter uma rota de fuga própria — Maven continua, batendo os dedos no joelho. — Nunca se sabe que novo plano meu irmão pode elaborar na tentativa de me derrubar. Preciso estar preparado.
— E do que você está fugindo agora? — resmungo, tentando manter a voz baixa.
Ele só dá de ombros e ri.
— Não fique tão triste, Mare. Estou fazendo um favor para nós dois. — Ele afunda no assento, sorrindo. Coloca os pés para cima, na poltrona ao meu lado. Enrugo o nariz e olho para o outro lado. — Ninguém aguenta por tanto tempo a prisão do Palácio de Whitefire.
Prisão. Engulo uma resposta, me obrigando a agradá-lo. Você não faz ideia de como é uma prisão de verdade, Maven.
Sem janelas ou qualquer tipo de indicação, não tenho como saber para onde estamos indo, nem sei até onde esta máquina infernal pode viajar. Parece tão rápida quanto o subtrem, talvez até mais. Duvido que estejamos rumando para o sul, para Naercey, uma cidade em ruínas agora, abandonada até mesmo pela Guarda Escarlate. Maven destruiu os túneis depois da infiltração em Archeon com estardalhaço.
Ele me deixa pensar, olhando para mim enquanto tento entender o cenário ao nosso redor. Sabe que não tenho peças suficientes para montar o quebra-cabeça. Mesmo assim, quer que eu tente e não oferece mais explicações.
Os minutos passam. Olho para Ptolemus. Meu ódio por ele só cresceu nos últimos meses. Ele matou meu irmão. Levou Shade deste mundo. Faria o mesmo com todo mundo que amo se tivesse a chance. Desta vez, está sem armadura. Parece menor, mais fraco, vulnerável. Fantasio como seria cortar sua garganta e manchar as paredes recém-pintadas com seu sangue prateado.
— Perdeu alguma coisa? — ele provoca, olhando para mim.
— Deixe que ela olhe — Evangeline diz. Ela se encosta na poltrona e joga a cabeça para trás, sem quebrar o contato visual. — Não pode fazer muito mais do que isso.
— É o que vamos ver — provoco de volta. No meu colo, meus dedos se contorcem.
Maven estala a língua e nos repreende.
— Senhoritas.
Antes que Evangeline possa responder, algo chama sua atenção e ela desvia o olhar para as paredes, para o chão e para o teto. Ptolemus faz o mesmo. Eles estão sentindo alguma coisa que não sinto. Então o trem começa a desacelerar, os mecanismos e engrenagens gritando contra os trilhos de ferro.
— Estamos quase chegando — Maven diz, levantando devagar e estendendo a mão para mim.
Por um instante, fico pensando em arrancar seus dedos com os dentes. Em vez disso, seguro a mão dele, ignorando o arrepio que percorre minha pele. Quando levanto, o dedão dele encosta na algema embaixo da minha luva. Um lembrete de seu controle sobre mim. Não consigo suportar e me afasto, cruzando os braços sobre o peito para criar uma barreira entre nós. Alguma coisa escurece em seus olhos brilhantes, e Maven também levanta um escudo entre nós.
O trem para tão suavemente que quase nem sinto. Mas os Arven sentem e vêm até mim, me cercando com uma familiaridade exaustiva. Pelo menos não estou acorrentada ou usando uma coleira.
Sentinelas cercam o jovem rei como os Arven fazem comigo; os uniformes flamejantes e as máscaras pretas agourentos como sempre. Eles deixam que Maven dite o passo, e o rei atravessa o vagão. Evangeline e Ptolemus vão atrás, obrigando-nos a assumir a retaguarda da estranha procissão. Atravessamos a porta e entramos em um vestíbulo que conecta um compartimento ao próximo. Mais uma porta, mais um vagão com móveis luxuosos, desta vez uma sala de jantar. Também sem janelas. Não tenho ideia de onde podemos estar.
No próximo vestíbulo, uma porta se abre, não à frente, mas à direita. Os sentinelas passam primeiro, desaparecendo, então Maven, depois o resto. Saímos para outra plataforma, fortemente iluminada. É limpa ao extremo — outra construção nova, sem dúvida —, mas o ar parece abafado. Apesar da aparência impecável da plataforma vazia, tem uma goteira em algum lugar, ecoando ao nosso redor. Olho para a esquerda e para a direita ao longo dos trilhos. Eles somem na escuridão dos dois lados. Este não é o fim da linha. Estremeço ao pensar em quanto Maven progrediu em apenas alguns meses.
Subimos um lance de escadas. Me preparo para uma subida longa, lembrando o quanto a entrada do cofre era profunda. Então fico surpresa quando os degraus se nivelam rapidamente diante de outra porta. Esta é de aço reforçado, um anúncio sinistro do que pode estar do outro lado. Um sentinela agarra a trava e abre a porta com um grunhido. O barulho de um mecanismo enorme responde. Evangeline e Ptolemus não levantam um dedo para ajudar. Eles também observam com um fascínio mal disfarçado. Acho que não sabem muito mais do que eu. Estranho, para uma Casa tão próxima ao rei.
A luz do dia invade o lugar quando a porta se abre, revelando o cinza e o azul adiante. Os galhos de árvores mortas se erguem contra um céu claro de inverno.
Quando saímos do subterrâneo, respiro fundo. Sinto pinho e o frescor penetrante do ar gelado. Estamos em uma clareira cercada por carvalhos nus. A terra sob meus pés está congelada, compacta sob alguns centímetros de neve. Meus dedos já estão frios.
Firmo os calcanhares, ganhando mais um segundo na floresta aberta. Os Arven me empurram, fazendo-me derrapar. Não estou lutando contra eles, estou retardando-os metodicamente, enquanto jogo a cabeça para a frente e para trás. Tento me orientar. A julgar pelo sol, que agora começa sua descida para o ocidente, o norte está à minha frente.
Quatro veículos militares, com um brilho forçado, esperam à nossa frente. Os motores zumbem, esperando, enquanto o calor lança jatos de vapor no ar. É fácil perceber qual deles pertence a Maven. A coroa flamejante, vermelha, preta e prata, está estampada na lateral do maior deles. Fica a mais de meio metro do chão, com pneus enormes e estrutura reforçada. À prova de balas, à prova de fogo, à prova da morte. Tudo para proteger o jovem rei.
Ele entra sem hesitar, arrastando a capa no caminho. Para meu alívio, os Arven não me obrigam a segui-lo, e sou empurrada para dentro de outro veículo. O meu não tem identificação. Tentando um último vislumbre do céu aberto, vejo Evangeline e Ptolemus entrando em seu próprio veículo. Preto e prata, com o corpo de metal coberto de pontas de ferro. Provavelmente decorado pela própria Evangeline.
Partimos assim que Ovo fecha a porta atrás de si, me trancando com eles quatro. Há um soldado no volante e um sentinela no assento ao seu lado. Me preparo para mais uma viagem, amontoada com os Arven.
Pelo menos o veículo tem janelas. Fico olhando sem querer piscar enquanto avançamos por uma floresta dolorosamente familiar. Quando chegamos ao rio e à estrada pavimentada que corre junto a ele, uma saudade arde em meu peito.
É o Capital. Meu rio. Estamos seguindo para o norte, pela Estrada Real. Eles poderiam me jogar do veículo agora mesmo, me deixar no chão sem nada, e eu encontraria o caminho de casa. Lágrimas surgem em meus olhos ao pensar nisso. O que eu faria, comigo mesma ou com qualquer outra pessoa, por uma chance de voltar para casa?
Mas não há ninguém lá. Ninguém que importe. Eles se foram, estão protegidos, longe daqui. Meu lar não é mais o lugar de onde viemos. Meu lar está seguro com eles.
Espero.
Levo um susto quando outros veículos se juntam ao comboio. Militares, o corpo marcado pela espada preta do Exército. Conto quase uma dúzia, além de outros à distância, atrás de nós. Muitos têm soldados prateados pendurados para fora ou em assentos especiais no teto. Todos em alerta, prontos para agir. Os Arven não parecem surpresos com as novas companhias. Sabiam que viriam.
A Estrada Real passa por cidades na margem do rio. Cidades vermelhas. Ainda estamos muito ao sul para passar por Palafitas, mas isso não diminui minha animação. Enxergo fábricas de tijolos na beira do rio. Vamos em direção a elas, entrando nos arredores de um vilarejo operário. Apesar de querer ver mais, espero que a gente não pare. Espero que Maven passe direto por este lugar.
Meu desejo é atendido em grande parte. O comboio desacelera, mas não para, passando pelo centro da cidade de forma ameaçadora. A multidão ocupa as ruas, acenando para nós. Pessoas dão vivas ao rei, gritando seu nome, esforçando-se para ver e ser vistas. Comerciantes e operários vermelhos, velhos e jovens, empurram-se para ver melhor. Espero encontrar agentes de segurança forçando uma recepção tão calorosa. Me encolho no banco, porque não quero ser vista. Eles já são obrigados a me ver sentada ao lado de Maven. Não quero colocar mais lenha nessa fogueira manipuladora. Para meu alívio, ninguém me coloca em exibição. Fico sentada olhando para as mãos no colo, esperando que a cidade passe o mais rápido possível. No palácio, com o que vi de Maven, sabendo o que sei sobre ele, é fácil esquecer que tem quase todo o país no bolso. Seus grandes esforços para virar a opinião pública contra a Guarda Escarlate e seus outros inimigos parecem estar funcionando. Essas pessoas acreditam no que ele diz, ou talvez não tenham a oportunidade de lutar. Não sei o que é pior.
Quando a cidade some atrás de nós, os gritos ainda ecoam na minha cabeça. Tudo isso para Maven, para o próximo passo de qualquer que seja o plano que ele colocou em ação.
Devemos estar além da Cidade Nova, isso é claro. Não há poluição à vista.
Tampouco há propriedades. Lembro de passar por Beira Rio na minha primeira viagem ao sul, quando eu estava fingindo ser Mareena. Descemos o rio do Palacete do Sol até Archeon, passando por vilas, cidades e pela margem luxuosa onde ficam as mansões de muitas das Grandes Casas. Tento lembrar dos mapas que Julian me mostrava. Não consigo e fico com dor de cabeça.
O sol desce mais quando o comboio faz uma curva depois da terceira cidade agitada, seguindo em direção a uma estrada secundária. Em direção ao oeste. Tento engolir a tristeza que surge dentro de mim. O norte me chama, mas não posso segui-lo. Os lugares que conheço ficam cada vez mais distantes.
Tento manter a bússola na cabeça. Para oeste fica a Estrada de Ferro. O caminho para Westlakes, Lakeland, o Gargalo. O oeste é guerra e ruína.
Ovo e Trio não permitem que eu me mexa muito, então tenho que esticar o pescoço para ver. Mordo o lábio quando passamos por um conjunto de portões, tentando enxergar uma placa ou símbolo. Não há nada, só barras de ferro forjado sob trepadeiras verdejantes de heras floridas. Fora de época.
A propriedade é palaciana, ao final de uma estrada ladeada por cercas vivas imaculadas. Chegamos a uma grande praça de pedra. Nosso comboio passa em frente à propriedade, parando com os veículos dispostos em um arco. Não há multidões aqui, mas guardas já esperam do lado de fora. Os Arven são rápidos e sou empurrada para fora do veículo.
Olho para cima, para os tijolos vermelhos charmosos e soleiras brancas, as fileiras de janelas polidas com floreiras cheias, as colunas caneladas, as sacadas floridas e a maior árvore que já vi irrompendo do meio da mansão. Seus galhos se arqueiam sobre o teto pontudo, crescendo em conjunto com a estrutura. Não há um galho ou folha fora de lugar: é perfeitamente esculpida como uma obra de arte. Magnólia, acho, a julgar pelas flores brancas e o perfume. Por um instante, esqueço que é inverno.
— Bem-vindo, majestade.
Não reconheço a voz.
Uma garota da minha idade, alta, magra, pálida como a neve que deveria estar aqui, desce de um dos muitos veículos que se juntaram ao nosso comboio. Sua atenção está em Maven, que agora sai do próprio carro. Ela passa por mim para fazer uma reverência diante dele. Eu a reconheço.
Heron Welle. Ela competiu na Prova Real há muito tempo, fazendo crescer árvores majestosas da terra enquanto sua Casa torcia. Como muitas, esperava ser escolhida para casar com Cal. Agora, está a comando de Maven, e seus olhos abatidos esperam sua ordem. Ela aperta mais o casaco verde e dourado, uma defesa contra o frio e contra o olhar do rei.
A Casa dela era uma das únicas que eu conhecia antes de ser obrigada a entrar no mundo dos prateados. Seu pai governa a região onde nasci. Eu ficava olhando seu navio passar no rio e acenava para suas bandeiras verdes com outras crianças tolas.
Maven não se apressa, vestindo as luvas desnecessárias para a caminhada curta entre o veículo e a mansão. Conforme ele anda, a coroa simples sobre seus cachos pretos capta a luz do sol, brilhando vermelha e dourada.
— Lugar encantador, Heron — ele diz, só por dizer. Soa sinistro vindo de Maven.
Uma ameaça.
— Obrigada, majestade. Tudo está em ordem para sua chegada.
Quando sou levada mais para perto, Heron dispensa um único olhar para mim, reconhecendo minha existência. A garota tem feições que lembram um pássaro, mas nela ficam elegantes, refinadas e muito bonitas. Achava que seus olhos eram verdes, como tudo o que envolve sua família e seu poder. Mas eles são de um azul profundo e vibrante, destacados pela pele de porcelana e pelo cabelo castanho-avermelhado.
O resto dos veículos libera seus passageiros. Mais cores, mais Casas, mais guardas e soldados. Vejo Samson entre eles, parecendo bobo vestindo couro e pele tingida de azul. A cor e o frio o deixam mais pálido do que nunca, um pingente de gelo loiro com sede de sangue. Os outros mantêm distância enquanto ele vai até Maven. Conto algumas dúzias de cortesãos de relance. O suficiente para me fazer duvidar que a mansão do governador Welle pode acomodar a todos.
Maven cumprimenta Samson com um aceno de cabeça antes de partir em ritmo acelerado, trotando em direção às escadas ornamentadas que levam até a casa. Heron segue logo atrás, assim como os sentinelas em seu bando habitual. Todos o seguem, levados por uma corrente invisível.
Um homem que só pode ser o governador sai apressado pelas portas de carvalho e ouro, curvando-se enquanto caminha. Ele parece sem graça em comparação à casa, nada de mais, com um queixo fraco, cabelo loiro-escuro e um corpo nem gordo nem magro. As roupas compensam. E muito. Está usando botas, calça de couro e um casaco trabalhado em brocado, com esmeraldas brilhantes na gola e na bainha. Não são nada comparadas ao medalhão antigo que traz no pescoço. Ele bate contra o peito do homem conforme anda, com um emblema da árvore que guarda sua casa.
— Majestade, nem sei dizer o quanto estamos felizes por recebê-lo — ele diz, curvando-se uma última vez. Maven fecha os lábios em um sorriso discreto, entretido com a exibição. — É uma honra ser o primeiro destino de sua turnê de coroação.
O desgosto contorce meu estômago. Sou pega de surpresa pela minha imagem andando pelo país, alguns passos atrás de Maven, sempre ao seu dispor. Na tela, diante de câmeras, já é degradante, mas pessoalmente? Diante de multidões de pessoas como aquelas na cidade? Talvez eu não sobreviva. De alguma forma acho que preferia a prisão de Whitefire.
Maven aperta a mão do governador. Seu sorriso se transforma em algo que poderia passar por sincero. Ele é bom nisso, admito.
— É claro, Cyrus, eu não poderia imaginar um lugar melhor para começar. Heron fala tão bem de você — ele acrescenta, chamando-a para seu lado.
Ela vai rápido, olhando para o pai. Eles trocam um olhar de alívio. Como tudo o que Maven faz, a presença dela é calculada e um alerta.
— Vamos? — O jovem rei faz um gesto em direção à mansão. Ele parte, obrigando o restante de nós a acompanhá-lo. O governador se apressa para andar ao lado de Maven, tentando fazer parecer que ainda detém algum controle aqui.
Do lado de dentro, montes de criados vermelhos se alinham contra a parede em seus melhores uniformes, com os sapatos polidos e os olhos no chão. Nenhum deles olha para mim, e tento não chamar atenção, observando a mansão do governador. Esperava maestria verde, e não fico decepcionada. Flores de todo tipo dominam o vestíbulo, florescendo em vasos de cristal, pintadas nas paredes, moldadas no teto, trabalhadas nos lustres ou em mosaicos de pedra no chão. O cheiro deveria ser forte demais, mas é inebriante e acalma a cada inspiração. Respiro fundo, me permitindo esse pequeno prazer.
Mais pessoas da Casa Welle esperam para cumprimentar o rei, se empurrando para fazer uma reverência ou elogiar Maven em tudo, das leis aos sapatos. Enquanto ele recebe os cumprimentos, Evangeline se junta a nós, tendo deixado suas peles com algum pobre criado.
Fico tensa quando ela para ao meu lado. Todo aquele verde se reflete em sua roupa, dando a ela um tom doentio. De repente, percebo que seu pai não está aqui. Ele costuma ficar entre Evangeline e Maven em eventos como esse, entrando em ação rápido quando a filha ameaça perder o controle. Mas não está aqui agora.
Evangeline não diz nada, satisfeita em ficar olhando para as costas de Maven. Eu a observo. Ela cerra o punho quando o governador se inclina para sussurrar algo no ouvido do rei. Então ele acena para um dos prateados que está esperando, uma mulher alta e magra com cabelo preto, maçãs do rosto salientes e pele ocre. Se faz parte da Casa Welle, não parece. Não há nada verde nela. Suas roupas são azuis-acinzentadas.
Ela acena com a cabeça, rígida, mantendo os olhos no rosto de Maven. A aparência dele muda e seu sorriso se alarga por um instante. O rei sussurra algo em resposta, balançando a cabeça animado. Entendo uma única palavra.
— Agora — ele diz. O governador e a mulher obedecem.
Eles andam juntos, e os sentinelas seguem. Olho para os Arven, me perguntando se devemos ir também, mas eles não se mexem.
Evangeline tampouco. E, por algum motivo, seus ombros e seu corpo relaxam. Algum peso foi tirado de suas costas.
— Pare de olhar para mim — ela explode, tirando-me dos meus devaneios.
Abaixo a cabeça, deixando-a ter essa pequena e insignificante vitória. E continuo me perguntando: O que ela sabe? O que ela vê que eu não vejo?
Quando os Arven me levam para qualquer que seja minha cela esta noite, sinto um aperto no coração. Deixei os livros de Julian em Whitefire. Não terei nada para me consolar esta noite.

7 comentários:

  1. A Mare já disse que ela é mulher, mas toda vez que ela fala Trevo eu imagino um homem, tenho que ficar toda hora tentando imaginar a Trevo e não o Trevo só que não consigo então desisto e vou continuar pensando em um homem

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    1. Né, eu também. No português Trevo não é uma palavra feminina, não deu muito certo... Eu só percebo que é mulher quando fala "ela", penso nela como mulher por cinco minutos e logo volta a ser um homem na minha cabeça

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  2. Eu Também, me confundir muito com essas 4 pessoas da casa de Havens.

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  3. para mim trio e mulher ja trevo homem

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  4. Pra mim todos eram homens, menos tigrina. to me acostumando com trevo.
    algum plano está em ação, hum...
    ~polly~

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  5. Acho q os Welle sabem q a Evangeline está tramando alguma coisa, daí ela achou que eles fossem denunciá-la, por isso ficou nervosa. Mas como não falaram nada ela aliviou. Louca pra saber ....
    Ass: Déborah A.

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Boa leitura :)