13 de março de 2017

Capítulo treze

É FÁCIL CONVENCER NIX A FICAR PARA TRÁS. Apesar da invulnerabilidade, ele continua sendo só um caranguejeiro que nunca foi além dos pântanos de sua terra natal. Uma missão de resgate dentro de uma cidade murada não é lugar para ele, e o sanguenovo sabe disso.
Já Kilorn não cede com tanta facilidade. Ele concorda em permanecer no jato só depois que o convenço a ficar de olho em Nix.
Ele me abraça forte numa despedida temporária.
Espero ouvir um alerta sussurrado, um conselho talvez.
Mas o que recebo é encorajamento, o que é mais reconfortante que deveria.
— Você vai salvar os dois — ele cochicha. — Sei que vai.
Salvar. As palavras ecoam na minha cabeça e me seguem rampa abaixo até a floresta ensolarada. Eu vou, digo a mim mesma, repetindo até acreditar tanto quanto Kilorn. Eu vou, eu vou, eu vou.
A mata aqui é menos densa, o que nos obriga a ficar sempre atentos. À luz do dia, Cal não precisa se preocupar com as chamas, mantendo o fogo preparado; cada um de seus dedos arde como o pavio de uma vela.
Shade sequer toca o chão, saltando de árvore em árvore.
Ele vasculha a floresta com a precisão de um soldado, e seu olhar de falcão percorre todas as direções até ele se dar por satisfeito. Eu também fico alerta, na tentativa de sentir qualquer pico de eletricidade de um veículo ou de uma aeronave em voo baixo. Percebo uma vibração monótona a sudoeste, na direção de Harbor Bay, como esperado, assim como a oscilação que vem do tráfego na estrada do Porto. Estamos longe demais para ouvir os motores, mas a minha bússola interior me diz que estamos cada vez mais perto.
Eu os sinto antes de vê-los — uma pressão muito leve contra minha mente aberta. A minúscula bateria pulsa eletricidade, provavelmente alimentando um relógio ou um rádio.
— Leste — sussurro, apontando para a fonte de energia que se aproxima.
Farley vira na hora, sem se dar ao trabalho de agachar. Mas eu com certeza me abaixo, dobrando um joelho sobre a folhagem, deixando as primeiras cores do outono camuflarem minha camisa vermelho-escura e meu cabelo castanho. Cal está logo ao meu lado com suas chamas, controlando-as para não incendiar a floresta. Sua respiração é estável, treinada, e seus olhos de bronze percorrem a mata.
Aponto a direção da bateria. Uma única faísca corre pela minha mão e desaparece, atraída pela eletricidade que se aproxima.
— Farley, se abaixe — Cal rosna num tom de voz que quase se perde entre o farfalhar das folhas.
Em vez de obedecer, ela se apoia contra uma árvore e se camufla nas sombras do tronco. A luz do sol atravessa a copa e salpica sua pele. Imóvel, Farley parece fazer parte da floresta. Ela não fica em silêncio.
Seus lábios se separam e um assobio que parece o canto de um pássaro ecoa entre os galhos. É o mesmo que usou em Coraunt para se comunicar com Kilorn. Um sinal. A Guarda Escarlate.
— Farley — sibilo por entre os dentes cerrados. — O que está acontecendo?
Mas ela não presta atenção em mim. Apenas observa as árvores. Esperando. Ouvindo. Um instante depois, alguém gorjeia uma resposta similar, mas não exatamente igual. Quando Shade responde do alto da árvore sobre nós, acrescentando a própria melodia à estranha canção, um pouco do meu medo desaparece. Farley seria capaz de armar uma cilada para mim, mas Shade não. Espero.
— Capitã, pensei que estivesse presa naquela ilha desgraçada — diz uma voz rouca, filtrada por um espesso arvoredo de olmos. O sotaque é pesado e inconfundível: Harbor Bay.
Farley sorri e sai devagar de trás do tronco.
— Crance — ela diz, acenando para a silhueta que avança por entre os arbustos. — Onde está Melody? Era para ela vir me encontrar. Desde quando você virou o garoto de recados de Egan?
Quando ele emerge da folhagem, trato de observá-lo de cima a baixo, reparando nos detalhes que aprendi a analisar sozinha há muito tempo. Ele pende para um lado para compensar alguma coisa pesada que está carregando. Um rifle talvez, ou um bastão. É mesmo um garoto de recados. Parece um estivador ou arruaceiro, com braços musculosos e peito largo escondido sob uma camisa velha de algodão e um colete estofado. Sua roupa é cheia de retalhos, formando um xadrez variado de tecidos reaproveitados, todos em tonalidade vermelha.
Estranho o colete estar tão surrado e as botas de couro parecerem novas e recém-engraxadas. São roubadas, provavelmente. Esse é dos meus.
Crance dá de ombros e repuxa os músculos do rosto escuro.
— Ela tem afazeres nas docas. E prefiro ser chamado de braço direito, se não se importa. — Ele sorri, e então se curva num movimento exagerado. — É claro que o chefe Egan lhe dá as boas-vindas, capitã.
— Não sou mais capitã — Farley murmura, franzindo a testa ao agarrar o antebraço de Crance numa espécie de cumprimento. — Com certeza você já soube.
Ele apenas balança a cabeça.
— Você vai ver que pouca gente aqui leva isso a sério. Os Marinheiros respondem a Egan, não ao seu coronel.
Marinheiros? Outra divisão da Guarda Escarlate, imagino.
— Por acaso os seus amigos vão continuar escondidos no mato? — ele acrescenta, esticando o olhar para mim. Seus olhos azuis são eletrizantes, ainda mais penetrantes por conta de sua pele escura. Mas não bastam para me distrair do assunto mais urgente: ainda sinto a bateria de um relógio pulsar, e Crance não tem relógio.
— E os seus amigos? — pergunto ao levantar do chão da floresta.
Cal se move comigo, e Crance o examina com olhos inquisidores. O príncipe faz o mesmo, de soldado para soldado. E então Crance sorri, mostrando dentes brilhantes.
— Então é por isso que o coronel está fazendo tanto escândalo — ele brinca, arriscando um passo à frente.
Nenhum de nós se abala, apesar do tamanho dele.
Somos mais perigosos.
Ele solta um assobio baixo e volta a olhar para mim.
— O príncipe exilado e a garota elétrica. E onde está o Coelho? Tenho certeza de que o ouvi.
Coelho?
Shade aparece atrás de Crance, com um braço na muleta e outro em volta do pescoço do homem. Mas ele está sorrindo. Gargalhando.
— Disse para você não me chamar assim — ele censura, sacudindo os ombros de Crance.
— Se a carapuça serviu... — Crance replica ao se desvencilhar do braço de Shade. Começa a pular, gesticulando e rindo, mas seu sorriso murcha um pouco diante da muleta e das bandagens. — Caiu da escada ou coisa assim? — pergunta em um tom leve, mas seus olhos escurecem.
Shade repele a preocupação do homem com um gesto e agarra seu ombro largo.
— É bom ver você, Crance. Acho que eu deveria apresentar minha irmã...
— Não preciso de apresentações — Crance diz, esticando a mão duas vezes maior que a minha. Eu a tomo de bom grado e o deixo apertar meu antebraço. — É bom conhecer você, Mare Barrow, mas preciso dizer que sua aparência é bem melhor nos cartazes de “Procura-se”. Não pensei que isso fosse possível.
Os outros acham graça, mas me assusto ao saber que meu rosto está estampado em todas as portas e janelas.
Deveríamos esperar por isso.
— Desculpe por decepcioná-lo — digo, com esforço, me desvencilhando da mão dele. Tanto cansaço e preocupação não foram bons para mim. Posso sentir a sujeira na minha pele, sem falar nos nós no meu cabelo. — Ando meio ocupada para me olhar no espelho.
Crance tira a provocação de letra e alarga ainda mais o sorriso.
— Você é mesmo cheia de energia — diz baixinho, e não deixo de notar seus olhos descendo até meus dedos.
Seguro a vontade de mostrar a quantidade exata de energia com a qual ele está lidando, e cravo as unhas nas palmas das mãos.
O toque da bateria continua, um lembrete firme da presença de alguém.
— E então, vai continuar fingindo que não estamos cercados? — insisto, apontando para as árvores que nos envolvem por todos os lados. — Ou será que vamos ter problema?
— Não, nenhum problema — ele diz, erguendo os braços numa rendição fingida. Em seguida, assobia de novo, dessa vez num tom mais alto e penetrante, como um falcão em caça.
Embora Crance faça o máximo para continuar sorrindo, para se mostrar relaxado, não deixo de notar desconfiança em seu olhar. Espero que ele vigie Cal, mas é em mim que ele não confia. Ou não compreende.
O ruído de folhas pisadas anuncia a aproximação dos amigos de Crance, também vestidos numa combinação de trapos e peças luxuosas roubadas. É uma espécie de uniforme, tão contrastante que todos ficam parecidos.
Duas mulheres e um homem usando um relógio velho.
Todos supostamente desarmados.
Cumprimentam Farley, sorriem para Shade, e não sabem o que fazer comigo e com Cal. Melhor assim, acho. Não preciso de mais amigos para perdê-los depois.
— Bom, Coelho, vamos ver se vocês conseguem acompanhar nosso passo — Crance provoca, e logo sai andando.
Em resposta, Shade salta para uma árvore próxima, balança a perna ruim no ar e abre um sorriso. Mas, quando seus olhos encontram os meus, algo muda. E então ele surge atrás de mim em uma fração de segundo, tão rápido que mal o vejo.
— Não confie em ninguém — ele sussurra.
Os túneis estão úmidos, as paredes curvas, recobertas de musgo e raízes emaranhadas, mas o chão está livre de pedras e destroços — por causa dos subtrens, suspeito, caso algum deles precise entrar em Harbor Bay. No entanto, não ouço nenhum chiado metálico, não sinto a bateria latejante de um trem gritando na nossa direção. Tudo o que sinto é a lanterna na mão de Crance, o relógio do outro homem, e o padrão contínuo do tráfego na estrada do Porto, dez metros acima das nossas cabeças. Veículos grandes são os piores; a fiação e os instrumentos gemem na parte de trás do meu crânio. Me encolho cada vez que um deles passa sobre nós, e logo perco a conta de quantos aceleram rumo a Naercey. Se estivessem em grupos, suspeitaria de um comboio real levando Maven em pessoa, mas as máquinas vêm e vão aparentemente sem ordem. É normal, digo a mim mesma, acalmando meus nervos para não acabar desligando a lanterna e mergulhando todos na escuridão.
Os seguidores de Crance cobrem a retaguarda, o que deveria me deixar alerta, mas não ligo. Minhas faíscas estão apenas a um segundo de distância, e tenho Cal ao meu lado caso alguém tome a decisão errada. Ele é mais intimidador que eu. Uma das mãos dele está acesa; as chamas dançam e projetam sombras voláteis nas paredes, que mudam de forma e tamanho, pintando os túneis em tons de vermelho e preto. Antes, as cores dele.
Mas ele as perdeu, como todo o resto.
Tudo menos eu.
Não adianta cochichar aqui embaixo. Qualquer som reverbera, então Cal mantém a boca fechada. Ainda assim, consigo ler sua expressão.
Ele está desconfortável, lutando contra todos os seus instintos de soldado, de príncipe, de prateado. Aqui está ele, seguindo o inimigo rumo ao desconhecido. E para quê? Para me ajudar? Para ferir Maven? Seus motivos não importam; um dia, não serão mais o bastante para ele continuar. Um dia, ele não estará mais ao meu lado, e preciso estar preparada. Preciso saber o que meu coração vai permitir — e quanta solidão sou capaz de suportar. Mas ainda não. Seu calor ainda está comigo, e não consigo deixar de mantê-lo por perto.
Os túneis não estão no nosso mapa — ou em qualquer mapa que eu já tenha visto —, mas a estrada do Porto está, e desconfio que passamos bem debaixo dela. A via conduz diretamente ao coração de Harbor, através do portão das lanças, contornando a própria enseada antes de partir para os pântanos do norte, Coraunt, e as longínquas fronteiras congeladas. Mais importante que a estrada do Porto é a central de segurança, ponto de administração da cidade inteira, onde poderemos encontrar os registros e, sobretudo, os endereços de Ada e Wolliver. O terceiro nome, uma jovem das favelas de Cidade Nova, deve estar lá também.
Cameron Cole, recordo, embora o resto das informações me escapem no momento. Não ouso sacar a lista de Julian para conferir enquanto estou cercada por tantos rostos desconhecidos. Quanto menos gente souber dos sanguenovos, melhor. Os nomes são sentenças de morte, e não esqueci o aviso de Shade.
Com um pouco de sorte, teremos tudo de que precisamos até o anoitecer, e retornaremos ao Abutre para o café da manhã com mais três sanguenovos. Kilorn vai resmungar, irritado conosco por demorarmos tanto, mas essa é a menor das minhas preocupações. Na verdade, não vejo a hora de retornar para seu rosto preocupado e suas reclamações petulantes. Apesar da Guarda e de seu ódio recém-descoberto, o garoto com quem cresci ainda reluz lá no fundo, e isso é tão reconfortante quanto o fogo de Cal ou o abraço do meu irmão.
Shade fala para preencher o silêncio, brincando com Crance e seus seguidores.
— Este homem é a razão de eu ter saído vivo do Gargalo — meu irmão explica, apontando a muleta para Crance. — Os carrascos não conseguiam me pegar, mas a fome quase me matou.
— Você roubou um pé de repolho. Eu só te deixei comer — Crance comenta, balançando a cabeça, mas suas bochechas vermelhas revelam seu orgulho.
Shade não o deixa escapar com tanta facilidade.
Estampa um sorriso que seria capaz de iluminar os túneis, mas não há luz em seus olhos.
— Um contrabandista com um coração de ouro.
Presto atenção na conversa dos dois com a testa franzida e os ouvidos atentos, acompanhando como se fosse um jogo. Um elogia o outro, evocando a jornada de volta do Gargalo, enganando a segurança e as legiões ao mesmo tempo. Mas, embora talvez tenham sido amigos durante aquelas semanas, o laço parece não existir mais. Agora, são dois homens trocando lembranças e sorrisos forçados, um tentando descobrir o que o outro quer. Eu faço o mesmo para tirar minhas próprias conclusões.
Crance é um ladrão por excelência, uma profissão que conheço muito bem. A melhor coisa sobre ladrões é que você pode confiar neles... para fazer o pior. Se invertêssemos os papéis, se eu ainda fosse a velha Mare de Palafitas escoltando fugitivos para dentro do meu vilarejo, seria capaz de entregá-los por um punhado de tetrarcas? Por algumas semanas de comida ou cotas extras de eletricidade? Lembro muito bem dos invernos difíceis, dos dias frios intermináveis e famintos. Das doenças bobas para as quais não tínhamos remédio. Da ânsia amarga do simples querer, de pegar uma coisa bonita ou útil porque sim. Já fiz coisas terríveis nesses momentos, roubando de gente tão desesperada quanto eu. Para sobreviver. Para nos manter vivos. Era a justificativa que eu usava em Palafitas quando tomava moedas de famílias com crianças morrendo de fome.
Não duvido que Crance me entregaria para o chefe Egan se pudesse, ou me venderia para Maven por um preço exorbitante, porque é o que eu faria se estivesse em seu lugar. Mas, para a nossa sorte, Crance está longe de ser páreo para nós. E ele sabe disso, então precisa sustentar o sorriso. Por enquanto.
O túnel se curva para baixo e os trilhos do subtrem acabam do nada quando o espaço fica estreito demais.
Quanto mais descemos, mais frio fica, e o ar se torna mais denso. Tento não pensar no peso da terra acima de nós. As paredes estão rachadas e decrépitas; provavelmente desabariam se não fossem as escoras recém-colocadas. Caibros de madeira se erguem na escuridão, sustentando o teto do túnel e evitando que sejamos soterrados vivos.
— Onde vamos sair? — Cal pergunta em voz alta para quem quiser responder.
Cada palavra sai envenenada de desgosto. Túneis profundos o deixam à flor da pele, como eu.
— Lado oeste de Ocean Hill — Farley responde, se referindo à residência real em Harbor Bay. Mas Crance a corta, balançando a cabeça.
— O túnel foi fechado — ele reclama. — Estão construindo uma coisa nova. Ordens do rei. Três dias no trono e o desgraçado já está me dando nos nervos.
Por estar tão perto de Cal, consigo ouvir seus dentes rangerem. Uma rajada de ódio reluz no seu fogo e projeta uma onda de calor pelo túnel; os outros fingem ignorar.
Ordens do rei. Mesmo sem saber, Maven atrapalha nosso avanço.
Cal olha para os próprios pés, resignado.
— Maven sempre odiou Ocean Hill. — Suas palavras ecoam de um jeito estranho e nos cercam de lembranças. — Pequena demais para ele. Velha demais.
As sombras oscilam e distorcem nossas silhuetas.
Vejo Maven em cada forma retorcida, em cada contorno escuro. Ele me disse uma vez que era a sombra da chama. Agora tenho medo de que tenha virado a sombra da minha mente; pior que um caçador, pior que um fantasma. Pelo menos não estou sozinha com as assombrações. Cal também as sente.
— O mercado de peixes, então — Farley vocifera, trazendo-me de volta à missão. — Vamos ter que dar a volta. E vamos precisar de uma distração fora da central de segurança, se vocês puderem.
Volto a olhar para o mapa com a cabeça fervendo. Ao que parece, a central de segurança está diretamente ligada ao velho palácio de Cal, ou pelo menos faz parte do mesmo complexo. E o mercado de peixes fica a uma boa distância de ambos, presumo.
Vamos penar simplesmente para chegar onde precisamos, quanto mais para entrar. A julgar pela careta no rosto de Cal, ele não está nada ansioso para a empreitada.
— Egan vai cuidar disso com prazer — Crance diz, assentindo ao pedido de Farley. — Vai ajudar em tudo o que puder. Não que vocês precisem muito, com o Coelho.
Shade abre um sorriso bondoso, ainda incomodado com o apelido.
— Quão bem você conhece os vermelhos de Harbor? Acha que pode reconhecer alguns nomes?
Preciso morder o lábio para não ralhar com o meu irmão. A última coisa que quero é contar a Crance quem estamos procurando, principalmente porque ele vai começar a questionar nossos motivos. Mas Shade me encara com as sobrancelhas arqueadas, me intimando a dizer os nomes em voz alta. Perto do meu irmão, Crance faz o melhor para manter uma expressão neutra, mas seus olhos brilham. Ele está ávido para ouvir o que tenho a dizer.
— Ada Wallace. — O nome sai num sussurro, como se eu temesse que as paredes do túnel pudessem roubar meu segredo. — Wolliver Galt.
Galt. O sobrenome faz o rosto de Crance cintilar, e ele não tem escolha a não ser admitir que o conhece.
— Sei quem é Galt. Família antiga, vivem na estrada Charside. Cervejeiros — ele diz, franzindo a testa para lembrar de mais informações. — Melhor cerveja de Harbor. Bons amigos para se ter.
Meu coração bate mais rápido, extasiado com a possibilidade de uma sorte tão grande. Mas a sensação logo é manchada pela consciência de que agora Crance e, portanto, o misterioso Egan sabem quem estamos procurando.
— Não posso dizer que conheço a Wallace — ele continua. — O sobrenome é bem comum, mas ninguém me vem à mente.
Para a minha tristeza, não consigo dizer se ele está mentindo ou não. Assim, tenho que insistir, preciso fazê-lo falar mais. Talvez Crance revele alguma informação ou me dê um motivo para convencê-lo a revelar.
— Vocês se denominam Marinheiros? — pergunto, tomando cuidado para manter um tom neutro.
Ele vira o rosto para mim, abre um sorriso, e então levanta a manga da camisa para revelar uma tatuagem no antebraço: uma âncora azul e preta, envolta por uma corda vermelha.
— Os melhores contrabandistas de Beacon — ele diz, orgulhoso. — Conseguimos o que você quiser.
— E você serve à Guarda?
Essa pergunta desfaz seu sorriso, e ele abaixa a manga. Crance confirma vagamente, sem muita convicção.
— Imagino que Egan seja um dos capitães — comento, apertando o passo até quase pisar nos calcanhares de Crance. Ele enrijece os ombros com a minha proximidade, e não deixo de notar os cabelos arrepiados na sua nuca. — E isso faz de você o quê? O tenente dele?
— Não ligamos para títulos — ele responde, desviando das minhas perguntas. Mas estou apenas começando. Os outros observam o meu comportamento, confusos. Kilorn entenderia.
Melhor ainda: entraria no jogo.
— Desculpe, Crance. — Minhas palavras saem com uma doçura enjoativa. Soo como uma dama da corte, não como uma ladra, e isso lhe dá úlceras. — Só estou curiosa a respeito dos nossos irmãos e irmãs em Harbor. Me conte, o que convenceu você a se unir à Guarda?
Um silêncio desconfortável. Olho para trás e os amigos de Crance estão tão quietos quanto ele, com olhos escuros por causa da pouca luz do túnel.
— Foi Farley? Você foi recrutado? — insisto, à espera de alguma fissura. Ele não responde, e um tremor de medo atravessa meu corpo. O que ele não está contando para a gente? — Ou você foi atrás da Guarda, como eu? Claro, eu tinha um ótimo motivo. Pensei que Shade estava morto, sabia? Queria vingança. Me juntei a eles porque queria matar as pessoas que mataram meu irmão.
Nada. Crance aperta o passo. Resvalei em alguma coisa.
— Quem os prateados tiraram de você?
Espero uma bronca de Shade por causa das perguntas, mas ele fica quieto. Não desvia a atenção do rosto de Crance, tentando descobrir o que o contrabandista está escondendo. Porque com certeza ele está escondendo algo. Até Farley fica tensa, embora tenha sido tão amistosa instantes atrás. Ela também notou alguma coisa que não tinha percebido antes. Sua mão vai até o casaco, fechando-se em torno do que só pode ser uma faca escondida. E Cal não baixa a guarda em nenhum momento. Seu fogo arde, uma ameaça flamejante penetrando a escuridão. De novo, penso no túnel.
Começa a parecer uma tumba.
— Onde está Melody? — Farley murmura, erguendo a mão lentamente para deter a marcha de Crance. Todos paramos também, e penso ouvir nossos corações pulsando contra as paredes do túnel. — Egan jamais mandaria você. Não sozinho.
Aos poucos, viro o corpo para ficar de costas para a parede e de frente para Crance e seus comparsas. Cal imita meu movimento. Um punhado de fogo salta da mão dele e paira na palma. Minhas faíscas dançam, entrando e saindo da minha pele, brancas e roxas. A sensação é boa; elas são como fiozinhos de pura força. Sobre nós, o tráfego aumentou, e suspeito que estamos perto dos portões da cidade. Não é o melhor lugar para uma batalha.
Porque é isso que está prestes a acontecer.
— Onde está Melody? — Farley repete. Sua lâmina canta, cortando o ar, refletindo o fogo de Cal e reluzindo afiada, jogando uma luz abrasadora nos olhos do contrabandista. — Crance?
Apesar da luz ofuscante, ele arregala os olhos, cheios de um arrependimento verdadeiro. É o bastante para calafrios começarem a descer pelas minhas costas.
— Você sabe o que somos, o que Egan é. Somos bandidos, Farley — ele se explica. — Acreditamos no dinheiro... e na sobrevivência.
Conheço essa vida bem demais. Mas saí desse caminho. Não sou mais um rato. Sou a garota elétrica, e já perdi as contas de todos os ideais que carrego — liberdade, vingança, determinação... tudo que alimenta as faíscas dentro de mim e me faz seguir em frente.
Os comparsas de Crance se movem tão devagar quanto eu, sacando as armas dos coldres escondidos.
Três pistolas, todas em mãos capazes e nervosas.
Imagino que Crance também tenha uma, mas ainda não a revelou. Está ocupado demais tentando se explicar, tentando nos fazer entender exatamente o que está prestes a acontecer. E com certeza eu entendo. A traição não é estranha para mim, mas ainda faz meu estômago se contorcer e meu corpo congelar de medo. Faço o máximo para ignorar a sensação, para me concentrar.
— Pegaram Melody — ele balbucia. — Mandaram o indicador dela para Egan hoje de manhã. Está acontecendo na cidade inteira, todas as gangues perderam alguém ou algo precioso. Os Marinheiros, os Piratas... Levaram até o filhinho de Ricket, e faz anos que ele saiu do jogo. E a recompensa... — ele faz uma pausa para soltar um assobio sombrio — não é de se jogar fora.
— Recompensa pelo quê? — solto, sem tirar os olhos da Marinheira perto de mim. Ela também me encara.
A voz de Crance é grave e dolorida.
— Por você, garota elétrica. Não é só a polícia e as forças armadas que estão atrás de você. Nós também. Toda a rede de contrabando, todo o bando de ladrões daqui até Delphie. Você está sendo caçada, Barrow, dia e noite, por prateados e vermelhos. Sinto muito, mas é assim que as coisas são.
Ele não está se desculpando para mim, mas para Farley e meu irmão. Amigos que acaba de trair. Meus amigos, em grave perigo por minha causa.
— Que tipo de armadilha você preparou? — Shade berra, fazendo o máximo para soar ameaçador apesar da muleta debaixo do braço. — No que você nos meteu?
— Em nada que vá te agradar, Coelho.
Com a estranha luz do fogo de Cal, das minhas faíscas e da lanterna de Crance, quase não reparo na variação nos olhos dele, que saltam para a esquerda e pousam sobre o pilar bem do meu lado. O teto acima de nós está rachado e cedendo, e um pouco de pó cai pelas fendas no concreto.
— Seu filho da puta! — Shade rosna alto demais e com gestos exagerados.
Parece capaz de atacar a qualquer momento. É a distração perfeita. Aqui vamos nós.
Os três Marinheiros erguem as armas e miram no meu irmão — ou, melhor dizendo, miram na coisa mais rápida que existe no mundo. Ele ergue o punho, os três puxam o gatilho... e as balas pairam o ar. Mergulho no chão, ensurdecida pelos disparos tão próximos da minha cabeça, mas mantenho todo o foco onde é necessário: no pilar. Uma rajada elétrica despedaça a madeira, incinerando-a de um lado a outro. Os pedaços ainda não atingiram o chão quando solto o segundo raio no teto rachado.
Cal pula de lado na direção de Crance e Farley, desviando dos blocos de concreto. Se eu tivesse tempo, ficaria com medo de acabar soterrada com os Marinheiros, mas então a mão familiar de Shade agarra meu punho. Fecho os olhos, lutando contra a sensação de esmagamento, antes de cair uns metros mais à frente no túnel. Ultrapassamos Crance e Farley, que está ajudando Cal a levantar. O túnel atrás deles está desmoronado, entre pó e concreto e três corpos esmagados.
Crance lança um último olhar para seus Marinheiros caídos. Em seguida, saca a pistola escondida. Por um breve e angustiante segundo, acho que vai atirar em mim.
Mas, em vez disso, ele ergue os olhos eletrizantes e encara o túnel que treme à nossa volta. Seus lábios se movem para formar uma única palavra:
— Corram.

15 comentários:

  1. GENTE ESSE NEGOCIO DE NINGUEM CONFIA EM NINGUEM TA FICANDO CHATO....Pô UM MOMENTO DE PAZ SERIA LEGAL

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  2. É mesmo, a trairagem tá grande ae, estou sem saber em quem confiar.

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  3. Esses xingamentos aí....e eu achando que o livro era inocente!!

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  4. " — Em nada que vá te agradar, Coelho.
    Com a estranha luz do fogo de Cal, das minhas faíscas e da lanterna de Crance, quase não reparo na variação nos olhos dele, que saltam para a esquerda e pousam sobre o pilar bem do meu lado. O teto acima de nós está rachado e cedendo, e um pouco de pó cai pelas fendas no concreto.
    — Seu filho da puta! — Shade rosna alto demais e com gestos exagerados."
    RI KKKKK não achei que teria palavrões aqui.
    ~polly~

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  5. Eu to começando a cansar disso de nunca existir confiança e lealdade da parte de ninguém. Isso (depois de triangulo amoroso) é o que mais me irrita em livros

    ~Bella~

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  6. Shade e Mare confiam um no outro

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  7. Pra falar a verdade depois de tudo que Mare passou ela meio que não consegui confiar em ninguém, eu acho.

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  8. SHADE SE CONTROLA MEU
    JÁ CHEGA NO BONDE XINGANDO TODO MUNDO

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  9. Afz
    Desse jeito da pra confiar em ninguém velho, que saco
    Shade e mare deviam confiar um no outro

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  10. Essa personalidade de Mare é perfeita, ela sacou as coisas. Graças a ela os outros perceberam.

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  11. Depois de tudo que Mare passou a traição deles foi meio que esperada, fala serio gente Farlen desconfiou logo no começo, Mare nos túneis... Sério essa traição foi mais que esperada.

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  12. Essa Mare tá parecendo o Super-Choque de tantos raios!

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Boa leitura :)