15 de março de 2017

Capítulo três

Mare

A MÚSICA DANÇA NO AR, cortada pelo cheiro doce e enjoativo de álcool que permeia cada centímetro da magnífica sala do trono. Saímos para uma plataforma elevada, um pouco acima do piso da câmara, possibilitando uma vista grandiosa da festa estridente antes de notarem nossa presença.
Passo os olhos de um lado para o outro, ansiosa, na defensiva, vasculhando todos os rostos e todas as sombras à procura de oportunidades ou perigo. Seda, pedras preciosas e lindas armaduras cintilam sob a luz de uma dezena de lustres, criando uma constelação humana que se move sobre o piso de mármore. Depois de um mês de cárcere, a visão é um ataque aos meus sentidos, mas absorvo tudo, sedenta. Tantas cores, tantas vozes, tantos nobres conhecidos. Ninguém me nota ainda. Seus olhos não me seguem. Estão concentrados uns nos outros, nas taças de vinho e nos licores multicoloridos, no ritmo agitado, na fumaça perfumada ondulando pelo ar. Deve ser uma comemoração extravagante, mas não faço ideia do motivo.
Naturalmente, meus pensamentos disparam. Terá sido uma vitória? Contra Cal, contra a Guarda Escarlate? Ou ainda estão celebrando minha captura?
Basta olhar para Evangeline para encontrar a resposta. Nunca a vi fazer essa careta, nem mesmo para mim. Seu olhar de desprezo felino se fecha, disforme, furioso, cheio de uma raiva que nem consigo imaginar. Seus olhos escurecem como dois buracos negros, absorvendo a visão de seu povo no ápice da felicidade.
Ou, me dou conta, no ápice da ignorância.
Com um comando, uma rajada de criados vermelhos sai da parede oposta e percorre a câmara em uma formação treinada. Eles carregam bandejas com cálices de cristal cheios de líquidos luminosos da cor do rubi, do ouro e do diamante. Quando terminam de atravessar a massa de gente, as bandejas estão vazias. Elas voltam a ser enchidas rapidamente, eles passam de novo pelos convidados e as bandejas se esvaziam. Não faço ideia de como alguns prateados ainda estão em pé. Eles continuam em sua folia, conversando ou dançando com copos na mão. Algumas baforadas de cachimbos ornamentados deixam nuvens de fumaça estranhamente coloridas no ar. Não têm o cheiro do tabaco que muitos anciãos em Palafitas sopravam com esmero. Invejo as faíscas em seus cachimbos, cada uma é uma pontada de luz.
Pior é ver os criados vermelhos. Eles me fazem sofrer. O que não daria para tomar seu lugar. Ser apenas uma criada em vez de prisioneira. Idiota, me repreendo. Eles também estão presos. Assim como todos seus semelhantes. Encurralados pelos prateados, mesmo que alguns tenham mais espaço para respirar.
Por causa dele.
Evangeline desce da plataforma e os Arven me obrigam a ir atrás. A escada nos leva direto para o tablado, alto o bastante para demonstrar sua importância máxima. E, claro, há uma dúzia de sentinelas parados ali, mascarados e armados, aterrorizantes em todos os aspectos.
Fico à espera dos tronos de que me lembro. Chamas de cristais de diamante no assento do rei, safira e ouro branco polido no da rainha. Em vez disso, Maven está sentado no mesmo trono de que o vi se levantar um mês atrás, quando me exibiu acorrentada diante do mundo.
Sem pedras ou metais preciosos. Apenas blocos de pedra cinza entrançados com algo brilhante, sem curvas e sem insígnia nenhuma. Parece frio ao toque e desconfortável, além de terrivelmente pesado. Deixa o rei pequeno, fazendo com que pareça mais jovem. Parecer poderoso torna alguém poderoso. Aprendi essa lição com Elara, mas Maven não. Ele parece o menino que é, nitidamente pálido contra o uniforme preto; suas únicas cores são o revestimento vermelho-sangue da capa, um tumulto prateado de medalhas e o azul arrepiante dos olhos.
O rei Maven da Casa Calore me olha nos olhos assim que percebe que estou aqui. O instante perdura, suspenso num fio do tempo. Um desfiladeiro de distrações se abre entre nós, repleto de tanto barulho e caos, mas é como se o salão estivesse vazio.
Eu me pergunto se Maven nota a diferença em mim. O resultado do enjoo, da dor, da tortura que é ficar numa prisão silenciosa. Provavelmente sim. Seu olhar desliza das minhas maçãs do rosto pronunciadas para minha coleira, descendo pela veste branca.
Não estou sangrando desta vez, mas queria estar. Para mostrar a todos o que sou, o que sempre fui. Vermelha. Ferida. Mas viva. Como fiz diante da corte, diante de Evangeline alguns minutos atrás, endireito a coluna e o encaro com toda a força e ameaça que tenho a oferecer. Observo-o e procuro fissuras que só eu consigo ver. Olheiras, mãos trêmulas, uma postura tão rígida que pode partir sua coluna ao meio.
Você é um assassino, Maven Calore. Um covarde, um fraco.
Funciona. Ele tira os olhos de mim e levanta rápido, com as mãos ainda agarradas ao trono. A fúria o atinge como o golpe de um martelo.
— Explique-se, guarda Arven! — ele explode com meu carcereiro mais próximo. Trio se sobressalta.
O acesso de raiva interrompe a música, a dança e a bebida imediatamente.
— S-senhor — Trio balbucia. Uma de suas mãos enluvadas agarra meu braço, irradiando silenciamento suficiente para fazer meu coração bater mais devagar. Tenta encontrar uma explicação que não coloque a culpa em si mesmo nem na futura rainha, mas falha.
A corrente treme na mão de Tigrina, mas ela continua segurando firme.
Apenas Evangeline não se deixa afetar pela fúria do rei. Ela esperava essa reação. Ele não ordenou que me trouxessem aqui. Não houve convocação alguma.
Maven não é bobo. Acena com a mão para Trio, pondo fim à sua gagueira com um só gesto.
— Sua tentativa pífia é resposta suficiente — ele diz. — O que você tem a dizer para se defender, Evangeline?
Na multidão, o pai dela se ergue, observando com olhos arregalados e severos. Alguém poderia dizer que está com medo, mas não acho que Volo Samos seja capaz de ter emoções. Ele simplesmente afaga a barba prateada, com uma expressão indecifrável. Ptolemus não tem o mesmo dom da dissimulação. Está parado na plataforma junto com os sentinelas, o único sem máscara e uniforme flamejante. Ainda que seu corpo esteja imóvel, seu olhar alterna entre o rei e a irmã, e ele cerra o punho devagar. Isso. Tema por ela como temi por meu irmão. Veja Evangeline sofrer como eu o vi morrer.
Afinal, o que mais Maven pode fazer agora? Evangeline desobedeceu suas ordens deliberadamente, ultrapassando as indulgências que o noivado deles permite. Se tem algo que sei, é que irritar o rei leva a punição. E fazer isso aqui, na frente de toda a corte… Ele pode muito bem executá-la agora mesmo.
Se Evangeline pensa que está correndo risco, não demonstra. Sua voz nunca falha ou vacila.
— Você ordenou que a terrorista fosse aprisionada e isolada como uma garrafa de vinho inútil. Depois de um mês de deliberação do conselho, não há consenso sobre o que fazer com ela. Seus crimes são tantos que merecem uma dezena de mortes, ou mil vidas na pior das cadeias. Ela matou ou mutilou centenas de nossos súditos desde que foi descoberta, incluindo seus pais, e ainda assim descansa em um quarto confortável, sendo alimentada, respirando, viva, sem a punição que ela merece.
Maven puxou à mãe, de modo que sua fachada para a corte é quase perfeita. As palavras de Evangeline não parecem incomodá-lo nem um pouco.
— Sem a punição que ela merece — ele repete. Maven olha para o salão, com o queixo erguido. — Então você a trouxe aqui. Minhas festas são tão ruins assim?
Uma série de risos, alguns sinceros e outros forçados, reverbera pela multidão inebriada. Alguns, no entanto, estão sóbrios o bastante para compreender a dimensão do que está acontecendo. Do que Evangeline fez.
Ela abre um sorriso cortês que parece tão doloroso que imagino que o canto de seus lábios vá começar a sangrar.
— Sei que você ainda está de luto pela sua mãe, majestade — Evangeline diz, sem nenhuma sombra de afeto. — Todos estamos. Mas seu pai não agiria dessa forma. Acabou o tempo das lágrimas.
Estas últimas palavras não são dela, mas de Tiberias VI. O pai de Maven, o fantasma que o assombra. A máscara do jovem rei ameaça cair por um instante, e seus olhos brilham com um misto de pavor e fúria. Lembro dessas palavras tão bem quanto ele. Foram ditas diante de uma multidão como esta, depois que a Guarda Escarlate executou alguns alvos políticos. Alvos apontados por Maven, sugeridos pela mãe. Fizemos o trabalho sujo deles, enquanto aumentavam a contagem de corpos por conta própria com um ataque atroz. Os dois me usaram, se aproveitaram da Guarda para eliminar alguns inimigos e demonizar outros com um golpe só. Destruíram mais, mataram mais do que nenhum de nós pretendia matar.
Ainda consigo sentir o cheiro de sangue e fumaça. Ainda consigo ouvir uma mãe chorando sobre os filhos mortos. Ainda lembro das palavras que culparam a Guarda por tudo.
— Força, poder, morte — Maven murmura, entredentes. As palavras me assustaram antes e me aterrorizam agora. — O que você sugere, milady? Decapitação? Fuzilamento? Ou devemos desmembrar a prisioneira?
Meu coração bate forte no peito. Maven permitiria uma coisa dessas? Não sei. Não tenho ideia do que faria. Preciso lembrar que nem o conheço direito. O garoto que pensei que fosse era uma ilusão. E os bilhetes, deixados de maneira cruel, mas cheios de súplicas para que eu voltasse? O mês de cativeiro gentil e silencioso? Talvez isso tudo também fosse falso, mais um truque para me iludir. Outro tipo de tortura.
— Devemos fazer como a lei ordena. Como seu pai teria feito.
A maneira como ela diz “pai”, usando a palavra de forma tão brutal quanto uma faca, é confirmação suficiente. Como muitos no salão, ela sabe que Tiberias VI não morreu como se acredita.
Mesmo assim, Maven se segura firme no trono, com os dedos brancos sobre as pedras cinza. Sentindo todos os olhos sobre si, ele se volta para a corte antes de olhar com desprezo para Evangeline.
— Você não só não faz parte do conselho como não conheceu meu pai bem o bastante para dizer o que faria. Sou um rei como ele era e entendo o que precisa ser feito pela vitória. Nossas leis são sagradas, mas estamos travando duas guerras no momento.
Duas guerras.
A adrenalina percorre meu corpo tão rápido que penso que minha eletricidade voltou. Não, não é ela. É a esperança. Mordo o lábio para não sorrir. Depois de semanas, a Guarda Escarlate sobrevive e se fortalece. Maven admite abertamente que estão lutando contra ela. É impossível escondê-la ou ignorá-la agora.
Apesar da necessidade de saber mais, continuo de boca fechada.
O rei lança um olhar ardente para Evangeline.
— Nenhum prisioneiro inimigo, muito menos uma prisioneira tão valiosa quanto Mare Barrow, deve ser desperdiçado com uma execução comum.
— Você é que a está desperdiçando! — Evangeline rebate tão rápido que parece que ensaiou a discussão. Ela dá mais um passo à frente, diminuindo a distância até Maven. Tudo parece um espetáculo, uma peça, algo representado sobre o tablado para a corte testemunhar. Mas quem ganha com isso? — Ela está juntando pó, sem fazer nada, sem nos oferecer nada, enquanto Corvium queima!
Outra informação valiosa para guardar. Mais, Evangeline. Fale mais.
Vi com meus próprios olhos a cidade-fortaleza, o coração do Exército de Norta, irromper em revoltas há um mês. E elas continuam. A menção a Corvium deixa a multidão sóbria. Maven percebe e se esforça para manter a calma.
— Faltam dias para a decisão do conselho, milady — ele diz, entredentes.
— Perdoe minha ousadia, majestade. Sei que deseja honrar o conselho da melhor maneira que pode, mesmo as partes mais fracas. Mesmo os covardes que não conseguem fazer o que deve ser feito. — Ela dá mais um passo e sua voz se atenua, quase um ronronado. — Mas você é o rei. A decisão é sua.
Um golpe de mestre, percebo. Evangeline também é manipuladora. Em poucas palavras, obriga-o a fazer o que ela quer para não parecer fraco. Contra a vontade, inspiro afobada. Será que ele vai ceder? Ou vai se recusar, botando lenha na fogueira da insurreição que já queima nas Grandes Casas?
Maven não é tolo. Ele entende o que Evangeline está fazendo e se obriga a manter o foco nela. Os dois se encaram, comunicando-se com sorrisos forçados e olhares afiados.
— A Prova Real definitivamente revelou a filha mais talentosa — ele diz, pegando a mão de Evangeline. Ambos parecem repugnados pelo ato. A cabeça de Maven se volta para a multidão, mais precisamente para um homem magro de azul-escuro. — Primo! Sua solicitação de interrogatório está concedida.
Samson Merandus ergue a cabeça, o olhar atento. Ele faz uma reverência, escondendo o enorme sorriso. Seu traje azul infla, escuro como fumaça.
— Obrigado, majestade.
— Não.
A palavra escapa de mim.
— Não, Maven!
Samson se move rápido, subindo para a plataforma com uma fúria controlada. Ele percorre a distância entre nós com poucos passos decididos, até seus olhos serem a única coisa no mundo. Olhos azuis, olhos de Elara, olhos de Maven.
— Maven! — grito de novo, implorando ainda que não vá adiantar nada. Suplicando, ainda que fira meu orgulho pensar que estou pedindo algo para ele. Mas o que posso fazer? Samson é um murmurador. Ele vai me destruir de dentro para fora, vasculhar tudo o que sou, tudo o que sei. Quantas pessoas vão morrer por causa do que vi? — Maven, por favor! Não deixe que ele faça isso!
Não tenho forças para me libertar da corrente nas mãos de Tigrina, nem mesmo para me debater quando Trio me pega pelos ombros. Os dois me seguram com facilidade.
Meus olhos alternam entre Samson e Maven. Ele mantém uma mão no trono e a outra segura a de Evangeline. Sinto sua falta, diziam seus bilhetes. Ele é indecifrável, mas pelo menos olha para mim.
Isso é bom. Se ele não vai me salvar desse pesadelo, quero que veja o que vai acontecer.
— Maven — sussurro uma última vez, tentando soar como mim mesma. Não como a garota elétrica, não como Mareena, a princesa perdida, mas como Mare. A garota que ele viu atrás das grades de uma cela e prometeu salvar. Mas ela não basta. O rei abaixa os olhos. Vira para o outro lado.
Estou sozinha.
Samson me pega pela garganta, pressionando a coleira, me obrigando a encarar seus olhos vis e familiares. Azuis como gelo e igualmente implacáveis.
— Você errou ao matar Elara — ele diz, sem se incomodar em medir as palavras. — Ela era uma cirurgiã com a mente das vítimas.
Ele se aproxima, sedento, um homem faminto prestes a devorar a refeição.
— Eu sou um carniceiro.


Quando o sonador me destroçou, agonizei por três longos dias. Uma tempestade de ondas de rádio tinha voltado minha eletricidade contra mim, ressoando na minha pele, chacoalhando entre meus nervos como raios num pote. Deixou cicatrizes. Linhas irregulares de carne branca descendo pelo meu pescoço e minha coluna, marcas feias com as quais ainda não me acostumei. Elas doem e repuxam, tornando movimentos simples bastante complicados. Mesmo meus sorrisos não são os mesmos, parecendo menores depois do que aquilo fez comigo.
Agora, eu imploraria pelo sonador se pudesse.
O estalo agudo do sonador me despedaçando seria o paraíso, uma bênção, uma misericórdia. Eu preferiria estar com ossos quebrados, músculos rompidos, dentes e unhas despedaçados. Preferiria estar completamente destruída a sofrer mais um segundo com os murmúrios de Samson.
Consigo senti-lo. Sua mente. Preenchendo cada canto de mim como uma perversão, uma podridão, um câncer. Ele raspa minha cabeça de forma incisiva. Todas as partes de mim que ainda não foram pegas por seu veneno se contorcem de dor. Samson está gostando. Esta é sua vingança, afinal. Pelo que fiz com Elara, seu sangue e sua rainha.
Ela foi a primeira lembrança que ele arrancou de dentro de mim. Minha falta de remorso o enfureceu e me arrependo disso agora. Queria ter fingido alguma piedade, mas a imagem da morte dela era assustadora demais para sentir algo além de choque.
Eu lembro agora. Ele me obriga a lembrar.
Num instante de dor cega, sugada pelas minhas memórias, eu me vejo de volta ao momento em que a matei. Meu poder atrai o raio do céu em linhas irregulares roxas e brancas. Uma delas a atinge na cabeça, entrando por seus olhos, passando pela boca, descendo pelo pescoço e pelos braços, indo da cabeça aos pés e dos pés à cabeça. O suor na sua pele evapora, sua carne carboniza até soltar fumaça, os botões da roupa ficam vermelhos de tão quentes. Ela se move aos trancos, puxando a própria pele, tentando se livrar da minha fúria elétrica. As pontas dos dedos desaparecem, expondo os ossos, enquanto os músculos de seu belo rosto ficam frouxos, se desfazendo pela tração incessante das correntes disparadas. O cabelo branco arde preto e fumegante, desintegrando-se. O cheiro. O som. Ela grita até suas cordas vocais se romperem.
Samson faz questão de que a cena passe devagar, manipulando a memória esquecida com seu poder até que cada segundo se grave na minha consciência. É mesmo um carniceiro.
Sua fúria me faz girar sem ter onde me segurar, presa numa tempestade que não consigo controlar. Tudo o que posso fazer é torcer para que Samson não encontre o que procura. Tento manter o nome de Shade longe dos meus pensamentos. Mas as muralhas que ergo são finas como papel. Ele as rasga com prazer. Sinto cada uma delas sendo despedaçada, cada parte minha mutilada. Samson sabe o que estou tentando esconder dele, que momento jamais quero reviver. Vasculha meus pensamentos, mais rápido que meu cérebro, vencendo cada tentativa frágil de detê-lo. Tento gritar ou implorar, mas nada sai da minha boca ou da minha mente. Ele me tem na palma da mão.
— Fácil demais. — Sua voz ecoa dentro de mim, ao meu redor.
Assim como o fim de Elara, a morte de Shade é capturada com detalhes perfeitos e dolorosos. Preciso reviver cada segundo terrível em meu próprio corpo, sem conseguir fazer nada além de assistir, aprisionada dentro de mim. O cheiro forte de radiação no ar. O presídio de Corros, na ponta de Wash, perto do deserto nuclear na fronteira sul. A névoa fria contra o amanhecer cinzento. Por um momento, tudo fica parado, suspenso, em equilíbrio. Olho para fora, imóvel, paralisada no meio do passo. A prisão se abre atrás de mim, ainda estremecendo pela rebelião que começamos. Prisioneiros jorram dos portões. Seguindo-nos rumo à liberdade, ou algo parecido. Cal já foi embora, seu vulto familiar a centenas de metros de distância. Fiz Shade saltar com ele primeiro, para proteger um dos nossos únicos pilotos, nossa única chance de escapar. Kilorn ainda está comigo, também paralisado, com o rifle aninhado no ombro. Ele mira atrás de nós, na rainha Elara, em seus guardas e em Ptolemus Samos. Uma bala explode, nascendo de faíscas e pólvora. Ela também paira no ar, esperando que Samson solte minha mente. No alto, o céu gira, denso de eletricidade. Meu próprio poder. A sensação me faria chorar se eu fosse capaz.
A memória começa a se mexer, devagar no começo.
Ptolemus forja uma longa agulha reluzente além das muitas armas que já tem nas mãos. A ponta perfeita cintila com sangue vermelho e prateado, cada gota uma pedra preciosa trinando no ar. Apesar de seu poder, Ara Iral não é rápida o bastante para desviar de sua trajetória letal. A agulha corta seu pescoço num lento segundo. Ela cai a poucos metros de mim, devagar, como se feita de água. Ptolemus pretende me matar no mesmo movimento, usando o impulso do golpe para enfiar a agulha no meu coração.
Mas encontra meu irmão no caminho.
Shade salta de volta, para me teletransportar para um lugar seguro. Seu corpo se materializa do nada: primeiro peito e cabeça, depois braços e pernas surgem feito tinta. As mãos estendidas, os olhos focados, a atenção em mim. Ele não vê a agulha. Não sabe que está prestes a morrer.
Ptolemus não tinha intenção de matá-lo, mas não vê mal nenhum nisso. Outro inimigo morto não faz diferença para ele. É apenas mais um obstáculo em sua guerra, mais um corpo sem nome e sem rosto. Quantas vezes eu já teria feito o mesmo?
Ele nem devia saber quem Shade é.
Era.
Sei o que vem em seguida, mas por mais que me esforce Samson não me deixa fechar os olhos. A agulha perfura meu irmão com graciosidade, atravessando músculo e órgão, sangue e coração.
Algo dentro de mim irrompe e o céu reage. Quando meu irmão cai, minha fúria se ergue. Mas não sinto essa libertação agridoce. O raio não atinge a terra, matando Elara e dissipando seus guardas como deveria acontecer. Samson não me permite essa pequena misericórdia. Em vez disso, volta a cena. Repete. Meu irmão morre de novo.
E de novo.
E de novo.
A cada vez, ele me obriga a ver um detalhe diferente. Um erro. Um passo em falso. Uma escolha que eu poderia ter feito para salvá-lo. Pequenas decisões. Pise aqui, vire ali, corra um pouco mais rápido. É o pior tipo de tortura.
Veja o que você fez. Veja o que você fez. Veja o que você fez.
Sua voz reverbera à minha volta.
Outras memórias atravessam a morte de Shade, visões se misturando umas às outras. Cada uma representa um tipo diferente de medo ou fraqueza. Surge o pequeno cadáver que encontrei em Templyn, de um bebê vermelho assassinado pelos caçadores de sanguenovos sob o comando de Maven. Em outro instante, o punho de Farley acerta minha cara. A angústia a consome e ela grita coisas horríveis, me culpando pela morte de Shade. Lágrimas fumegantes escorrem pelo rosto de Cal, que tem uma espada trêmula na mão, a lâmina encostada no pescoço do pai. O túmulo humilde de Shade em Tuck, sozinho sob o céu do outono. Os oficiais prateados que eletrocutei em Corros, em Harbor Bay, homens e mulheres que estavam apenas seguindo ordens. Eles não tinham escolha. Nenhuma escolha.
Lembro de todas essas mortes. Todo esse sofrimento. A cara da minha irmã quando um agente quebrou sua mão. A expressão de Kilorn quando descobriu que seria recrutado. Meus irmãos sendo levados para a guerra. Meu pai retornando do front pela metade em corpo e alma, exilando-se numa cadeira de rodas improvisada — e numa vida à parte de nós. O olhar triste da minha mãe quando disse que tinha orgulho de mim. Uma mentira. Uma mentira agora. E, finalmente, a dor aflita, a verdade vazia que me perseguiu em todos os momentos da minha antiga vida: eu estava condenada.
Ainda estou.
Samson perpassa tudo com desenvoltura. Me arrasta por memórias inúteis, trazidas à tona apenas para me sujeitar a mais dor. Sombras saltam pelos pensamentos. Imagens que se movem por trás de cada momento doloroso. Ele as percorre, rápido demais para que eu as entenda de verdade. Mas noto o suficiente. O rosto do coronel, seu olho escarlate, seus lábios formando palavras que não consigo ouvir. Mas Samson com certeza consegue. É isso que ele procura. Informações. Segredos que possa usar para aniquilar a revolução. Eu me sinto como um ovo com a casca rachada, vazando lentamente. Ele tira o que quer de mim. Nem tenho a capacidade de sentir vergonha de tudo que ele descobre.
Noites passadas com Cal. Obrigar Cameron a se juntar à causa. Momentos escondidos relendo os bilhetes doentios de Maven. Lembranças de quem pensava que o príncipe esquecido era. Minha covardia. Meus pesadelos. Meus erros. Cada passo egoísta que dei e me trouxe até aqui.
Veja o que você fez. Veja o que você fez. Veja o que você fez.
Maven vai saber de tudo isso em breve.
Era isso que ele queria.
As palavras, rabiscadas em letra cursiva, ardem em meus pensamentos.
Sinto sua falta.
Até nosso próximo encontro.

16 comentários:

  1. Ai meu core </3 Coitada de Mare

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  2. chorei coitada queria matar o mavem e o primo da elara

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  3. Pronto, agora só falta todos serem condenados igual ela.
    Quase chorei pensando na morte do Shade :'(
    To aqui pensando: como Mare pegou a cabeça da Elara pelos cabelos e tudo se ela estava queimada e parcialmente "desintegrada"? tanta coisa pra pensar e fico falando dessa piranha kkk ~polly~

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    1. Acho que Maré pegou E laranja pelo pescoço, se me lembro bem, mas não tenho certeza...

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  4. Filho da pu... muito sofrimento...😥

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  5. Um grande FUDEU encerra esse capítulo. Krlh, porra, ela t informações demais, isso pode dar um golpe enorme na guarda!vou chorar. N quero nem pensar em Shade...😢😭🔪

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    1. Eu acho que o pessoal da guarda já se preparou. Ela não sabia de tanto que pudesse os incriminar futuramente. Ela não sabia o q eles iriam fazer. E ela nunca soube de fato o q é o comando, quem são, o q fazem ... Ela tem algumas informações úteis sim, mas não acho q vá fazer muita diferença. Acho q a partir do momento q ela foi capturada, o pessoal da Guarda já deve ter saído de Tuck, eles não iam ficar lá sabendo q, com certeza, algum murmurador ia olhar na mente dela e descobrir o esconderijo. É o q eu acho né, vamos verrrrrr
      Ass: Déborah Alana.

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  6. Eu queria matar a vadia da Evangeline pessoalmente. Fico pensando em como seria estrangula-la

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  7. Deve ser a coisa mais horrível alguém ler tua mente. Saber todos os teus medos, vergonhas, arrependimentos... Vixi, horrível.
    Ass: Déborah Alana.

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  8. Talvez não tenha lascado taaanto assim. O mundo inteiro sabe desses murmuradores e o que eles são capazes de fazer. Passou um mês desde a prisão da Mare, muita coisa pode ter mudado. Tá, algumas informações não podem ser mudadas, mas muitos planos ou rotas de fugas, sim. Então, só lascou um pouquinho com a Guarda Escarlate. O que eles ferraram de verdade foi a cabeça da pobre da Mare.

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  9. Agora é a "pobre da Mare"?

    Cadê a turma que ficava falando de que ela é presunçosa e blablablabla???

    Antes era o Cal isso, o Cal aquilo... E agora é coitada da Mare.

    Todo mundo pode trair todo mundo, e vocês não são diferentes.

    Escolham um lado, porra.

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    1. Eu ainda não lamento tanto por Mare. Sinceramente, ela precisava disso pra sentir o chão de novo. Estava saindo do controle e sendo impulsiva demais, achando que tudo sempre sairia perfeito.
      Espero que consigam resgatá-la e que ela fique bem. Mas se as mortes que acompanhamos até agora foram necessárias, voltar a personagem pra o chão também é.

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  10. Eu ainda não superei a morte de Shade e já vem tudo isso😢😢😢😭😓😫😭😭😭

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  11. Cara... Toda vez que alguém fala de Shade eu me derreto em lágrimas😭😭
    Não supereu ainda
    #lutoshade

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  12. Primeiramente não vou começar com "coitada da Mare" que nem todos estão fazendo.Ela quis se render. Tá ela fez isso pra libertar os outros.
    Só que do jeito que Maven é (um lindo e maravilhoso traidor) ele deu um jeito de "cegar" a Mare até tira a visão dela dos amigos, e depois ele deve ter matado todos.

    Sinceramente, se eu fosse a Mare ia dar um jeito de bater a cabeça bem forte em algum lugar pra esquecer pelo menos alguma coisa.

    Tá. Tem um tempão que ela foi levada. Nesse tempo já deu pra guarda esvaziar Tuck, mas slá ela tem algumas informações bem úteis.

    ~Jak~

    P.S: Só eu que chorei quando ela descreveu a morte de Shade?

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Boa leitura :)