13 de março de 2017

Capítulo três

NOS ÚLTIMOS DIAS, acordei numa cela de prisão e depois num trem. Agora num barco subaquático. Onde vou acordar amanhã?
Estou começando a pensar que tudo isso foi um sonho, ou uma alucinação, ou alguma coisa pior. Mas dá para sentir cansaço num sonho? Porque com certeza estou cansada. Minha exaustão penetra cada osso, músculo e nervo. Meu coração é como uma ferida, ainda sangrando pela traição e pelo fracasso. Quando abro os olhos e encontro paredes cinza sufocantes, tudo o que quero esquecer ressurge em minha mente. É como se a rainha Elara estivesse dentro da minha cabeça de novo, me obrigando a reviver minhas piores lembranças. Por mais que eu tente, não consigo detê-las.
Minhas criadas silenciosas foram executadas, e não eram culpadas de nada além de pintar minha pele. Tristan foi golpeado como um porco. Walsh. Ela tinha a idade do meu irmão, vinha de Palafitas, minha amiga... uma de nós. E morreu cruelmente, pelas próprias mãos, para proteger a Guarda, nosso ideal, e a mim. Ainda mais gente morreu nos túneis da Praça de César, rebeldes assassinados pelos soldados de Cal, aniquilados pelo nosso plano imbecil. A lembrança do sangue vermelho queima, mas pensar no sangue prateado tem o mesmo efeito. Lucas, um amigo, um protetor, um prateado de bom coração, executado pelo que Julian e eu o forçamos a fazer. Lady Blonos, decapitada por me ensinar a sentar do jeito certo. Coronel Macanthos, Reynald Iral e Belicos Lerolan: sacrificados pela causa. Sinto nojo ao me lembrar dos gêmeos Lerolan, com quatro anos, mortos na explosão que se seguiu ao tiroteio. Maven me disse que foi um acidente — uma tubulação de gás perfurada —, mas agora sei a verdade. A maldade dele é intensa demais para que aquilo tenha sido uma coincidência. Sem dúvida ele não se importaria em jogar uns corpos a mais nas chamas se pudesse convencer o mundo de que a Guarda era formada por monstros. Ele também vai matar Julian e Sara. Já devem estar mortos até. Não consigo pensar em todos eles. É doloroso demais. Agora meus pensamentos se voltam para Maven, para seus olhos frios e azuis e para o momento em que descobri que seu sorriso charmoso escondia uma fera.
O estrado sob mim é duro, os cobertores são finos, e não há nenhum sinal de travesseiro, mas parte de mim quer deitar de novo. A enxaqueca retorna, latejando com o pulso elétrico desse barco milagroso. Trata-se de um lembrete constante: não há paz para mim aqui. Ainda não, não enquanto houver tanto a ser feito. A lista. Os nomes. Preciso encontrá-los. Preciso protegê-los de Maven e da mãe dele. Um calor se espalha pelo meu rosto e minha pele enrubesce com a lembrança do livrinho de segredos que Julian se esforçou tanto para escrever. Um registro daqueles que são como eu, que têm a estranha mutação que nos dá sangue vermelho e poderes prateados. Aquela lista é o legado de Julian. E o meu.
Jogo as pernas para o lado para sair do leito, quase batendo a cabeça na cama de cima, e me deparo com roupas perfeitamente dobradas no chão. Calças pretas compridas demais, uma camisa vermelho-escura com os cotovelos puídos e botas sem cadarços. Nada parecido com as roupas finas que encontrei na cela prateada, mas dão uma sensação boa ao tocar minha pele.
Nem termino de passar a camisa pela cabeça quando a porta com grandes dobradiças de ferro do meu compartimento se escancara. Kilorn espera ansioso do outro lado, com um sorriso forçado e desanimado. Ele não deveria corar, já que me viu em várias etapas de troca de roupa ao longo de muitos verões, mas as bochechas dele ficam vermelhas mesmo assim.
— Não é normal você dormir tanto assim — ele diz, e percebo a preocupação em sua voz.
Dou de ombros e levanto sobre as pernas fracas.
— Acho que estava precisando.
Um zumbido estranho toma conta dos meus ouvidos. Agudo, mas não doloroso. Sacudo a cabeça como um cachorro molhado, tentando me livrar do ruído.
— Deve ser o grito do banshee — ele diz, indo até mim para segurar minha cabeça com as mãos cuidadosas cheias de calos. Me submeto ao exame dele, suspirando impaciente. Ele me vira para o lado e dá uma olhada nas orelhas que há pouco gotejavam sangue. — Você foi sortuda de não ter te acertado em cheio.
— Sou muitas coisas, mas acho que sortuda não é uma delas.
— Você está viva, Mare — ele diz, seco, se afastando. — É mais do que muitos podem dizer.
O olhar severo dele me faz voltar a Naercey, quando falei ao meu irmão que não confiava na palavra dele. No fundo, sei que ainda não confio.
— Desculpa — murmuro rápido.
Claro que sei que outros morreram, pela causa e por mim. Mas eu também morri. A Mare de Palafitas morreu no dia em que caiu no escudo elétrico. Mareena, a princesa prateada desaparecida, morreu no Ossário. E não sei quem é a pessoa que abriu os olhos no subtrem. Só sei o que ela foi e o que perdeu, e o peso disso é quase esmagador.
— Você vai me dizer para onde estamos indo ou é mais um segredo? — Tento evitar que minha voz saia amarga, mas falho miseravelmente.
Kilorn é educado o suficiente para ignorar meu tom, apenas se apoia na porta e responde:
— Deixamos Naercey faz cinco horas e estamos seguindo para o nordeste. Isso é tudo que sei, de verdade.
— E você não se incomoda nem um pouco com isso?
Ele apenas dá de ombros.
— O que faz você pensar que o alto escalão confia em mim? Ou em você, aliás? Você sabe melhor que ninguém como fomos tolos e o preço alto que pagamos por isso. — De novo, sinto a dor das lembranças. — Você mesma disse que não consegue nem confiar em Shade. Duvido que alguém comece a revelar segredos tão cedo.
O golpe não dói tanto quanto eu esperava.
— Como ele está?
Kilorn aponta para o corredor com a cabeça.
— Farley montou um posto médico bem decente para os feridos. Ele está melhor que os outros. Xingando muito, mas com certeza melhor. — Uma pausa. Seus olhos verdes se escurecem um pouco e ele desvia o olhar. — A perna dele...
Respiro fundo, assustada.
— Infeccionou?
Lá em Palafitas, uma infecção equivalia a um membro amputado. Não tínhamos muitos remédios. Quando o sangue de alguém ficava ruim, a única coisa a fazer era continuar fatiando a pessoa, na esperança de arrancar a febre e as veias enegrecidas.
Para o meu alívio, Kilorn balança a cabeça.
— Não, Farley deu uma boa dose de remédios para ele, e os prateados usam balas limpas. Até que é um grande gesto da parte deles.
Ele dá uma risada sombria e fica à espera de que eu ria junto. Em vez disso, estremeço. O ar é muito frio aqui em baixo.
— Mas ele com certeza vai mancar por um tempo — Kilorn completa.
— Você vai me levar até ele ou vou ter que encontrar o caminho sozinha?
Depois de outra risada sombria, ele estende o braço. Para minha surpresa, descubro que preciso me apoiar nele para andar. Naercey e o Ossário com certeza cobraram seu preço.


Mersivo. É assim que Kilorn chama o estranho barco subaquático. Como esse barco consegue navegar embaixo do oceano está muito além da nossa compreensão, embora eu tenha certeza de que Cal saberá dizer. Ele é o próximo da minha lista. Vou atrás dele depois de confirmar que meu irmão ainda está respirando. Lembro que Cal mal estava consciente quando escapamos, assim como eu. Mas não acho que Farley iria deixá-lo no posto médico, não com rebeldes feridos por toda parte. Há ressentimento demais, e ninguém quer um inferno dentro de um tubo de metal selado.
O grito do banshee ainda ressoa nos meus ouvidos, como um gemido abafado que tento ignorar. A cada passo encontro novas dores e machucados. Kilorn percebe cada estremecimento meu, diminui o ritmo e permite que eu solte o peso no seu braço. Ele ignora as próprias feridas, os cortes profundos escondidos sob gazes novas.
Ele sempre teve mãos judiadas, arranhadas e cortadas por anzóis e cordas, mas eram feridas familiares. Significavam que ele estava seguro, empregado, livre do recrutamento. Se não fosse pela morte do mestre pescador, as pequenas cicatrizes seriam seu único fardo.
Antes, esse pensamento me deixaria triste. Agora, só sinto raiva.
O corredor principal do mersivo é longo mas estreito, dividido por várias portas de metal com dobradiças grossas e válvulas pressurizadas — para isolar o que for necessário e evitar que toda a embarcação inunde e afunde. Mas as portas não me oferecem qualquer conforto. Não consigo parar de pensar em morrer no fundo do oceano, lacrada num caixão encharcado. Até Kilorn, um garoto criado na água, parece desconfortável. As luzes fracas presas ao teto incidem de um jeito estranho, recortando sombras em seu rosto que o fazem parecer velho e cansado.
Os outros rebeldes não estão tão afetados. Vão de um lado para o outro, decididos. Os cachecóis vermelhos abaixados deixam ver rostos com uma determinação séria. Carregam mapas, bandejas com suplementos médicos, gazes, comida e até mesmo rifles esporádicos, sempre apressados, tagarelando entre si. Mas eles param ao me ver, colando as costas na parede para deixar o maior espaço possível para mim no corredor estreito. Os mais corajosos me encaram nos olhos e me assistem passar mancando, mas a maioria olha para os próprios pés.
Alguns até parecem com medo.
De mim.
Quero agradecer, expressar de alguma maneira minha dívida profunda com cada homem e mulher a bordo deste estranho navio. Um “Obrigada pelos seus serviços” quase escorrega para fora da minha boca, mas forço a mandíbula para segurar. Obrigada pelos seus serviços. É o que estampam nos avisos, nas cartas enviadas aos vermelhos para contar que seus filhos morreram em uma guerra inútil. Quantos pais não vi chorar diante dessas palavras? Quantos mais não as receberão, quando as Medidas enviarem crianças ainda mais novas para as trincheiras?
Mais nenhum, digo a mim mesma. Farley vai pensar num plano, e vamos descobrir uma maneira de encontrar os sanguenovos, os outros como eu. Vamos fazer alguma coisa. Temos que fazer alguma coisa.
Os rebeldes murmuram entre si enquanto passo. Mesmo os incapazes de me encarar trocam sussurros sem a preocupação de disfarçar as palavras. Imagino que pensem que o que dizem são elogios.
— A garota elétrica — ecoa entre eles, ricocheteando pelas paredes de metal. As palavras me cercam como os murmúrios malditos de Elara, infestando meu cérebro. Menininha elétrica. Era assim que ela me chamava, que eles me chamam.
Não, não é.
Apesar da dor, endireito a coluna para ficar o mais alta possível.
Não sou mais uma menininha.
Os sussurros nos perseguem ao longo de todo o caminho até o posto médico, onde uma dupla de rebeldes guarda a porta. Eles também estão vigiando a escada, uma estrutura pesada de metal que vai até o teto. A única saída e a única entrada dessa embarcação lerda. Um dos guardas tem cabelo vermelho-escuro igual a Tristan, apesar de estar longe de ser alto como ele. O outro parece uma montanha, com pele morena, olhos penetrantes, peito largo e mãos enormes como as de um forçador. Ambos inclinam a cabeça ao me ver, mas, para meu alívio, não me dedicam muito mais do que um olhar. Em vez disso, voltam suas atenções para Kilorn, sorrindo para ele com a malandragem de amigos de escola.
— De volta tão cedo, Warren? — o ruivo caçoa, agitando as sobrancelhas de maneira sugestiva. — O turno da Lena já acabou.
Lena? Meu braço sente a tensão repentina de Kilorn, embora ele não fale nada que denuncie vergonha. Em vez disso, ele ri com a mesma malandragem. Mas eu o conheço melhor do que todos, o bastante para enxergar o esforço por trás daquele sorriso. Só de pensar que ele passou o tempo paquerando enquanto eu estava inconsciente e Shade estava ferido e sangrando na cama...
— O rapaz já está ocupado demais sem correr atrás de enfermeiras bonitinhas — o grandão diz. Sua voz grave ecoa pelo corredor, provavelmente percorrendo todo o caminho até o dormitório de Lena. — Farley ainda está fazendo a ronda, se é ela que você procura — acrescenta, pressionando o polegar contra a porta.
— E o meu irmão? — pergunto afinal, dispensando o apoio de Kilorn. Meus joelhos quase cedem, mas fico firme. — Shade Barrow?
Os sorrisos se desfazem e o rosto deles enrijece numa expressão mais formal. É quase como voltar ao tribunal prateado. O grandão agarra a porta e logo gira a enorme tranca circular para não ter que olhar para mim.
— Ele está se recuperando bem, senhorita, erm, lady — ele diz.
O título me dá um nó no estômago. Achava que eu já tinha superado essas coisas.
— Por favor, me chame de Mare.
— Claro — ele responde sem qualquer sinal de determinação.
Apesar de ambos sermos da Guarda Escarlate, soldados unidos por uma causa, não somos iguais. Esse homem — assim como muitos outros — jamais me chamará pelo primeiro nome, não importa o quanto eu queira.
Após acenar de leve com a cabeça, ele abre a porta, revelando um compartimento largo, mas baixo, repleto de beliches. Ali costumava ser um dormitório, mas agora as camas estão cheias de pacientes, e o único corredor se agita com homens e mulheres de jaleco branco. Muitos vestem roupas manchadas de sangue vermelho, concentrados demais em colocar uma perna no lugar ou ministrar medicamentos para me notar mancando por ali.
A mão de Kilorn paira ao lado da minha cintura, pronta para me segurar caso eu volte a precisar dele, mas desta vez me apoio nos beliches. Já que todos vão me encarar, pelo menos posso tentar andar sozinha.
Shade está reclinado num único e fino travesseiro, basicamente apoiado contra a parede curva de metal. É impossível que esteja confortável, mas seus olhos estão fechados e seu peito sobe e desce no ritmo tranquilo do sono. A julgar pela perna suspensa no estrado da cama de cima por uma tipoia improvisada e pelo ombro enfaixado, com certeza já o medicaram algumas vezes. Vê-lo tão abatido é um choque difícil de suportar — apesar de ainda ontem eu ter pensado que ele estava morto.
— Melhor deixá-lo dormir — murmuro para ninguém sem esperar resposta.
— Sim, por favor, me deixem — Shade diz sem abrir os olhos, mas seu lábio forma um sorriso familiar e travesso. Apesar do seu estado desanimador e de suas feridas, não consigo conter o riso.
O truque é familiar: Shade costumava fingir que estava dormindo na escola ou quando nossos pais conversavam baixinho. Dou risada ao lembrar quantos segredinhos ele não captou desse jeito. Posso ter nascido ladra, mas Shade nasceu espião. Não é surpresa que tenha ido parar na Guarda Escarlate.
— Escutando a conversa das enfermeiras? — Meu joelho estala quando sento na beira do colchão, com cuidado para não fazer meu irmão balançar. — Já descobriu quantos metros de gaze elas afanaram? — pergunto depois de uma pausa.
Mas, em vez de rir da piada, Shade abre os olhos. Ele gesticula para que Kilorn e eu nos aproximemos.
— As enfermeiras sabem mais do que vocês pensam — ele diz, observando o outro extremo do compartimento.
Ao me virar, encontro Farley trabalhando num dos leitos ocupados. A paciente está apagada, provavelmente sedada. Farley monitora seu pulso de perto. A luz dá destaque à sua cicatriz, que lhe retorce um dos cantos da boca numa careta antes de descer cortante pela lateral do pescoço até o começo do peito. Parte dela se abriu e recebeu pontos apressados. Agora, o vermelho só está presente na mancha de sangue em seu jaleco branco de enfermeira e nos borrões mal lavados que sobem até os cotovelos. Um enfermeiro está ao lado dela, mas o jaleco dele está limpo, e ele cochicha depressa em sua orelha. Farley assente de tempos em tempos, embora seu rosto se contraia numa expressão de ódio.
— O que você ouviu? — Kilorn pergunta, posicionando-se de tal maneira que seu corpo cobre o de Shade por completo. Qualquer um que o vir vai pensar que ele está ajeitando os curativos do companheiro.
— Estamos seguindo para outra base, distante da costa desta vez. Fora do território de Norta.
Me esforço para lembrar do velho mapa de Julian, mas não consigo pensar em muito mais do que o litoral.
— Uma ilha? — pergunto.
— Chama-se Tuck — Shade confirma. — Não deve ser grande coisa, porque os prateados sequer têm um entreposto lá. Praticamente a esqueceram.
Começo a me lamentar por dentro. A perspectiva de me isolar numa ilha sem possibilidade de fugir me assusta ainda mais do que o mersivo.
— Mas eles sabem que existe. É o que basta — comento.
— Farley parecia confiante a respeito da base lá.
— Pelo que me lembro, ela também achava Naercey segura — Kilorn desdenha.
— Não foi por culpa dela que perdemos Naercey — digo. Foi minha.
— Maven enganou todo mundo, Mare — Kilorn rebate, tocando meu ombro de leve. — Ele enganou a mim, a você e a Farley. Todos nós acreditamos nele.
Com a mãe para orientá-lo, ler nossas mentes e moldar Maven segundo as nossas esperanças, não surpreende termos sido enganados. E agora ele é o rei. Agora ele vai enganar — e controlar — todo o nosso mundo. Que mundo teremos, com um monstro no trono e sua mãe segurando a coleira?
Mas abro espaço por entre esses pensamentos. Eles podem esperar.
— Farley falou mais alguma coisa? E a lista? Ainda está com ela, não está?
Shade lança um olhar por cima do meu ombro e toma cuidado para manter a voz baixa.
— Sim, mas ela está mais preocupada com os outros que vamos encontrar em Tuck, inclusive nossos pais.
Uma onda de calor se espalha pelo meu corpo, um impulso revigorante de felicidade. O rosto de Shade se ilumina diante do meu discreto, mas autêntico, sorriso.
— Gisa também — ele complementa, segurando minha mão. — E os animais que chamamos de irmãos.
Um nó de tensão se desfaz no meu peito, mas logo é substituído por outro.
Aperto a mão dele e arqueio uma sobrancelha, confusa.
— Outros? Quem? Como pode ser?
Depois do massacre debaixo da Praça de César e da retirada de Naercey, pensei que não havia mais ninguém.
Mas Kilorn e Shade não compartilham da minha dúvida; em vez disso, preferem trocar olhares furtivos. Estou por fora mais uma vez, e não gosto nem um pouco disso. Mas agora, são meu irmão e meu melhor amigo que guardam segredos, não uma rainha má e um príncipe calculista.
Por algum motivo, isso dói mais. De cara fechada, encaro ambos até que percebam que estou à espera de respostas.
Kilorn cerra os dentes e tem o bom senso de parecer arrependido. Ele aponta para Shade. Passando a responsabilidade.
— Você sabe mais do que eu.
— A Guarda gosta de agir na surdina, o que é muito bom — Shade começa, se ajeitando no leito e ficando um pouco mais ereto. Ele geme com o movimento e leva a mão ao ombro ferido, mas dispensa a minha ajuda antes mesmo de eu oferecê-la. — Queremos parecer pequenos, acabados, desorganizados...
Não posso deixar de torcer o nariz e observar bem os curativos dele.
— Bom, estão fazendo um excelente trabalho.
— Não seja cruel, Mare — Shade dispara, com um tom bem parecido com o da nossa mãe. — Estou tentando dizer que as coisas não estão tão ruins quanto parecem. Naercey não era nossa única fortaleza, e Farley não é a única líder. Na verdade, ela sequer faz parte do verdadeiro Comando. É apenas uma capitã. Há outros como ela... e muitos acima dela.
A julgar pela maneira como ela dá ordens aos soldados, eu pensava que Farley era uma imperatriz. Arrisco outro olhar para ela e a encontro refazendo um curativo ao mesmo tempo que repreende a enfermeira que tratou da ferida antes. Mas a convicção do meu irmão não pode ser ignorada. Ele conhece a Guarda Escarlate muito melhor do que eu, e tento acreditar que o que diz sobre ela é verdade. Há mais coisas nessa organização do que vejo aqui. É animador — e assustador.
— Os prateados pensam que estão dois passos à nossa frente, mas nem sabem onde estamos — Shade continua com a voz cheia de fervor. — Parecemos fracos porque queremos.
Volto a encará-lo no mesmo instante.
— Parecem fracos porque são fracos. Maven os enganou, encurralou, dizimou e os expulsou da própria casa. Ou você vai tentar me convencer de que tudo era parte de mais um plano?
— Mare... — Kilorn balbucia, encostando o ombro no meu num gesto de consolo. Mas eu o afasto. Ele também precisa ouvir isso.
— Não me importa quantos túneis secretos e barcos e bases vocês têm. Não vão vencer Maven, não desse jeito.
Lágrimas que eu não sabia que ainda tinha me ardem nos olhos, fervilham à lembrança de Maven. É difícil esquecer como ele era. Não. Como fingia ser. O garoto gentil, esquecido. A sombra do fogo.
— E o que você sugere então, garota elétrica?
A voz de Farley ecoa dentro de mim como minhas próprias faíscas, deixando todos os meus nervos à flor da pele. Por um breve e árido segundo, fixo o olhar nas mãos, enroladas nos lençóis de Shade. Talvez ela vá embora se eu não virar para trás.
Talvez me deixe em paz.
Não seja tão idiota, Mare Barrow.
— Combater fogo com fogo — digo ao levantar. Antes eu me intimidava com a altura dela. Agora olhar para cima me parece natural e familiar.
— Isso é algum tipo de piada prateada? — ela provoca, cruzando os braços.
— Tenho cara de quem está fazendo piada?
Ela não responde, o que é suficiente. No silêncio dela, me dou conta de que o resto do compartimento se calou. Mesmo os feridos abafam a dor para assistir à garota elétrica desafiar a capitã.
— Vocês prosperam parecendo fracos e atacando forte, certo? Bom, eles fazem o possível para parecerem fortes, invencíveis. Mas, na arena, eu provei que não são. — De novo, mais alto, para todos ouvirem. Apelo para a voz firme que Lady Blonos avivou em mim. — Eles não são invencíveis.
Farley não é burra e não tem dificuldade para acompanhar minha linha de raciocínio.
— Você é mais forte do que eles — diz. Em seguida, seus olhos se desviam para Shade, estirado no leito. — E não é a única.
Confirmo suas palavras com um aceno firme da cabeça, contente por ela já saber o que quero.
— Centenas de nomes, centenas de vermelhos com poderes. Mais fortes, mais rápidos, melhores do que eles, com o sangue tão vermelho quanto a aurora. — Meu fôlego vacila, como se soubesse que está na fronteira do futuro. — Maven vai tentar matá-los, mas se chegarmos primeiro, eles podem se tornar...
— O maior exército que o mundo já viu — completa Farley; seus olhos cintilam só de imaginar. — Um exército apenas com sanguenovos.
Quando ela sorri, o corte força os pontos, ameaçando abrir de novo. O sorriso dela se alarga. Ela não se importa com a dor.
Mas eu com certeza me importo. Acho que sempre vou me importar.

20 comentários:

  1. Vihis, eu achava Faley como sendo lider de tudo, mas me enganei, boaaa!

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    1. Leia Coroa cruel: Cicatrizes de Aço! Conta sobre tudo da Guarda e da Farley!

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  2. QUE VENHA UM NOVO EXERCITTTOOOOO. E NÓS NASCEREMOS VERMELHOS COMO A AURORA UHUUUUU

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  3. Assim e que e miuda!!
    Nos vamos nos erger vermelhos como a aurora!!

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  4. Vermelhos como a aurora! *-* <3

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  5. Vermelhos como a Aurora !

    Apaixonada por livros

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  6. "NOS ÚLTIMOS DIAS, acordei numa cela de prisão e depois num trem. Agora num barco subaquático. Onde vou acordar amanhã?"

    Não é óbvio?! Na casa dos 7 anões!!!

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    1. Kkkkk ou talvez seja no mundo secreto (e assustador) de Coraline...

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    2. kkkkk q maldade vcs...

      Ps: Correção o mundo secreto ( e horripilante ) de Coraline.Aquele treco me mata de medo

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  7. lendo pela segunda vez otimo livro
    VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA.

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  8. Ai meu core��
    Desse jeito nao aguento,segura essa Mare!
    E VAMOS NOS LEVANTAR, VERMELHOS COMO A AURORA

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  9. Talvez em Nárnia, hogguarts, a terra do nunca

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  10. "Todo mundo trai todo mundo"
    "Nunca deixe que cheguem ao seu coração,esse foi seu erro"
    Slá,não confio em mais ninguém além de Cal,Mare,Shade,Kilorn...
    Eu AMAVA Mare & Cal,e o infeliz do Maven,me fez odiar o Cal e shippa ele e a Mare.
    P dps acabar cm tudo!!
    #TEODEIOOO
    To me levantando aos poucos,e recriando meu gosto pelo pobrezinho do Cal,q apesar d tudo,protege a Mare SEMPRE
    Então.....
    "VAMOS NOS LEVANTAR,VERMELHOS COMO A AURORA"

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  11. Agora a Revolução Vermelha sai!

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  12. PERA sera q o Julian ta na ilha?

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  13. Sou só eu que desconfio dos chefes da Guarda vermelha....sei lá, mas se a rainha e Maven estavam manipulando antes é pq estão no meio...

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  14. Caçadora de Sombras27 de setembro de 2017 22:12

    Quando vc pensa que descobriu a trama mas na verdade tem uma outra trama dentro mzs ❤ pq eu n voltei a ler antes?

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  15. Mesmo os feridos abafam a dor para assistir à garota elétrica desafiar a capitã.

    😂😂nessa eu ri!

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  16. uma vez falei pra nao seguir o seu coracao voce deveria ter me escutado...
    todo mundo trai todo mundo...
    eles n sao invenciveis vamos criar um exercito de vermelhos um exercito de sangesnovos... VAMOS NOS LEVANTAR VERMELHOS MAIS DO QUE A AURORA

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  17. VAMOS NOS LEVANTAR VERMELHOS COMO AURORA.
    Isso sim é um grito s guerra ❤

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Boa leitura :)