3 de março de 2017

Capítulo três

JÁ ESTÁ ACONTECENDO desde a maior parte dos últimos cem anos. Acho que nem dá para chamar de guerra, só que não existe uma palavra para essa forma superior de destruição. Na escola, disseram que começou por causa de terras. Lakeland é uma planície fértil rodeada de lagos imensos cheios de peixe. Bem diferente das montanhas de Norta, rochosas e cobertas de florestas. As fazendas mal conseguem alimentar metade de nós. Até os prateados sentiram o peso, e o rei declarou guerra, afundando todos num conflito que nenhum dos lados tinha chance real de vencer.
O rei de Lakeland, outro prateado, retribuiu na mesma moeda, totalmente apoiado por seus nobres. Queriam nossos rios para ter acesso a um mar que não passe metade do ano congelado, e os moinhos d’água que os rodeiam. Os moinhos são a força do país; fornecem eletricidade suficiente para que até os vermelhos possam receber um pouco. Ouvi rumores de cidades mais ao sul, perto da capital Archeon, onde vermelhos muito habilidosos constroem máquinas que estão além da minha compreensão. Para transporte na terra, na água e no céu, ou armas para semear a destruição onde os prateados quiserem. Nossa professora nos contava cheia de orgulho que Norta era a luz do mundo, uma nação grande por sua tecnologia e seu poder. Todo o resto, como Lakeland ou Piedmont, ao sul, vive nas trevas. Tínhamos sorte de ter nascido aqui. Sorte. Essa palavra me dá vontade de gritar.
Mas, apesar da nossa eletricidade, da comida de Lakeland, das nossas armas e dos números deles, nenhum dos lados tinha muita vantagem sobre o outro. Ambos contam com oficiais prateados e soldados vermelhos, valendo-se em combate de seus poderes, pistolas e do escudo de mil corpos vermelhos. Uma guerra que devia ter acabado há menos de um século ainda se arrasta. Sempre achei engraçado termos de lutar por comida e água. Mesmo os grandes e poderosos prateados precisam comer.
Mas agora não tem graça nenhuma, não quando Kilorn vai ser o próximo para quem direi adeus. Pergunto-me se ele vai me dar um brinco para que me lembre dele depois que o legionário o levar.
— Uma semana, Mare. Uma semana e já era. — Sua voz começa a falhar, embora ele tente disfarçar tossindo. — Não posso fazer isso. Eles... eles não vão me levar.
Mas posso ver a resistência deixar seus olhos.
— Deve ter alguma coisa que a gente possa fazer — solto.
— Não tem nada que ninguém possa fazer. Ninguém escapou do recrutamento e viveu para contar a história.
Ele não precisa me dizer isso. Todo ano alguém tenta fugir. E todo ano esse alguém é arrastado para o paço municipal e enforcado.
— Não. A gente vai descobrir um jeito.
Mesmo nessa situação, ele arranja forças para fazer graça:
— A gente?
Minhas bochechas ardem mais que qualquer fogueira.
— Estou destinada ao recrutamento tanto quanto você, mas eles não vão me pegar. Vamos fugir.
O Exército sempre foi meu destino, meu castigo. Eu sei disso. Mas não o dele. A guerra já arrancou coisas demais de Kilorn.
— Não há para onde ir — ele dispara. Pelo menos estamos discutindo a ideia. Pelo menos ele não desistiu. — Nunca sobreviveríamos ao inverno do norte; o leste é só mar; no oeste, há mais guerra; o sul é um inferno radiativo... e qualquer lugar no meio disso está lotado de prateados e agentes de segurança.
As palavras transbordam da minha boca como um rio:
— Igual ao vilarejo. Lotado de prateados e agentes de segurança. E a gente consegue roubar bem debaixo do nariz deles e escapar ainda com a cabeça sobre o pescoço.
Meu cérebro trabalha em seu esforço máximo para encontrar uma coisa, qualquer coisa, que possa ser útil. E então vem uma luz, clara como um relâmpago.
— O mercado negro, o mercado que nós ajudamos a manter, contrabandeia tudo. De grãos a lâmpadas. Quem disse que não pode contrabandear pessoas?
Sua boca abre, prestes a metralhar mil razões para não dar certo. Mas então ele sorri. E concorda com a cabeça.
Não gosto de me meter nos assuntos dos outros. Não tenho tempo para isso. E, contudo, aqui estou, me ouvindo dizer duas palavras fatais:
— Deixa comigo.


Aquilo que não conseguimos vender para os comerciantes habituais levamos para Will Whistle. Ele é velho e fraco demais para trabalhos braçais, mas sua mente é afiada como um prego. Ele vende de tudo no seu trailer mofado, desde café altamente proibido a esquisitices de Archeon. Eu tinha nove anos e um punhado de botões roubados quando tentei a sorte com ele pela primeira vez. Will me pagou com três moedinhas de cobre e não fez nenhuma pergunta. Agora sou sua melhor fornecedora e talvez o motivo de ele não ter ido à falência num lugarzinho como este. Algum dia, quem sabe, poderei até chamá-lo de amigo.
Levou anos para eu descobrir que Will fazia parte de um esquema muito maior. Alguns chamam de submundo, outros de mercado negro. Para mim, só importa o que eles podem fazer. Seus atravessadores, pessoas como Will, estão em toda parte. Até em Archeon, por incrível que pareça. Eles transportam bens ilegais pelo país inteiro. E agora aposto minhas fichas na ideia de que abram uma exceção e transportem pessoas.
— Absolutamente não.
Em oito anos, Will nunca me disse não. Agora, o velho tolo e enrugado praticamente bate a porta do trailer na minha cara. Fico feliz por Kilorn não ter ido junto. Assim não precisa me ver fracassar.
— Will, por favor. Sei que você pode...
Ele balança a cabeça e sua barba branca se agita.
— Mesmo se pudesse, eu sou um negociante. As pessoas com quem trabalho não são do tipo que gasta tempo e energia dando carona pra um desertor. Não é nosso negócio.
Sinto minha única esperança, a única esperança de Kilorn, escorregar por entre os dedos.
Will deve ter notado o desespero em meus olhos. Ele se desarma e encosta na porta do trailer. Deixa escapar um suspiro pesado e lança um olhar para trás, em direção à escuridão da van. Alguns instantes depois, entra no veículo e gesticula para que o acompanhe. Vou com a maior alegria.
— Obrigada, Will — balbucio. — Você não sabe o que isso significa para mim...
— Sente-se e fique quieta, menina — uma voz aguda diz.
Nas sombras do trailer, quase invisível à luz da solitária vela azul de Will, uma mulher levanta. Uma garota, eu diria, pois parece ser pouco mais velha que eu. Mas é muito mais alta. Tem um ar de guerreira experiente. A pistola na cintura, enfiada num cinturão vermelho estampado com sóis, certamente não é permitida. Ela é loira e bonita demais para ser de Palafitas; a julgar pelo suor em seu rosto, não está acostumada ao calor e à umidade. É uma estrangeira, uma forasteira e, por isso, uma fora da lei. Exatamente o tipo de pessoa que preciso.
Ela aponta para um banco e, assim que me sento, ela faz o mesmo. Will vem logo atrás e desaba numa cadeira gasta. Seu olhar alterna entre mim e a garota.
— Mare Barrow, esta é Farley — sussurra ele, e a mulher fecha a cara.
Seus olhos cravam-se em meu rosto.
— Você quer transportar uma carga.
— Eu e um rapaz...
Ela ergue a mão grande e calejada para me interromper.
— Carga — ela repete, com o olhar repleto de significado.
Meu coração salta no peito. Essa tal de Farley pode ser do tipo que se dispõe a ajudar.
— Qual é o destino? — pergunta.
Racho a cabeça na tentativa de encontrar um lugar seguro. O velho mapa da escola paira ante meus olhos desenhando o litoral e os rios, indicando as cidades e vilas e tudo entre elas. De Harbor Bay até a fronteira com Lakeland no leste, da tundra do norte até os escombros radiativos das ruínas e Wash: todos terrenos perigosos para nós.
— Qualquer lugar a salvo dos prateados. É isso.
Farley pisca para mim sem mudar sua expressão.
— A segurança tem um preço, garota.
— Tudo tem um preço, garota — retruco no mesmo tom. — Ninguém sabe disso melhor que eu.
Um silêncio profundo preenche o trailer. Posso sentir a noite desvanecer levando preciosos minutos de Kilorn consigo. Farley percebe meu desconforto e minha impaciência, mas não tem pressa de falar. Depois do que me pareceu uma eternidade, sua boca finalmente se abre.
— A Guarda Escarlate aceita, Mare Barrow.
Preciso de todo o meu autocontrole para não pular de alegria. Mas algo me detém e não permite que um sorriso se desenhe em meu rosto.
— O pagamento é à vista, mil coroas — prossegue Farley.
Fico quase sem ar. Até Will parece surpreso; suas sobrancelhas felpudas desaparecem sob a franja.
— Mil?
Consigo desentalar. Ninguém negocia tanto dinheiro, não em Palafitas. Daria para alimentar minha família por um ano. Vários anos.
Mas Farley não terminou. Tenho a impressão de que gosta da situação.
— A quantia pode ser paga em cédulas, moedas tetrarcas ou bens. E são mil coroas para cada item, claro.
Duas mil coroas. Uma fortuna. Nossa liberdade custa uma fortuna.
— A carga vai ser transportada depois de amanhã. O pagamento é no ato.
Mal consigo respirar. Menos de dois dias para juntar mais dinheiro do que roubei na vida inteira. Sem chance.
Ela nem me dá tempo de reclamar.
— Aceita os termos?
— Preciso de mais tempo.
Ela nega com um aceno mínimo de cabeça. Inclina o corpo para a frente, e sinto o cheiro de pólvora.
— Aceita os termos?
É impossível. É burrice. É nossa melhor chance.
— Aceito.


Os momentos seguintes passam num turbilhão enquanto caminho cambaleante pelas sombras de volta para casa. Meu cérebro está em chamas, tentando descobrir um jeito de botar as mãos em alguma coisa com o valor ao menos próximo do preço de Farley. Não será em Palafitas, isso é certo.
Kilorn ainda aguarda na escuridão, um menininho perdido. Penso que ele é isso mesmo.
— Más notícias? — pergunta, tentando manter a voz firme, mas ela vacila mesmo assim.
— Eles podem nos tirar daqui.
Por Kilorn, mantenho a calma durante a explicação. Duas mil coroas deve ser o preço do trono do rei, mas faço parecer que não é nada.
— Se alguém pode fazer isso, somos nós. Nós vamos conseguir.
— Mare...
Sua voz sai fria, mais fria que o inverno, mas seu olhar vazio é ainda pior.
— Acabou. Perdemos.
— Mas e se...
Ele põe as mãos nos meus ombros e me segura firme à distância de um braço. Não dói, mas fico chocada como se doesse.
— Não faça isso comigo, Mare. Não me faça acreditar que existe uma saída. Não me dê esperanças.
Ele tem razão. É cruel dar esperanças quando não há nenhuma. Geraria apenas frustração, ressentimento e raiva: tudo o que torna a vida ainda mais difícil do que já é.
— Só me deixa aceitar. Talvez... Talvez assim consiga pôr ordem na minha cabeça, treinar direito e ter uma chance no combate.
Minhas mãos vão ao encontro dos seus punhos e os agarram firme.
— Você fala como se já estivesse morto.
— Talvez esteja.
— Meus irmãos...
— Seu pai cuidou para que eles soubessem muito bem o que fazer antes de partir. E o fato de terem quase o tamanho desta casa ajuda.
Ele força um sorriso, na tentativa de me fazer rir. Não funciona.
— Sei nadar bem e sou um bom marinheiro — continua. — Vão precisar de mim nos lagos.
Somente quando ele me envolve em seus braços e me aperta forte percebo que estou tremendo.
— Kilorn... — balbucio contra seu peito. Mas as próximas palavras não vêm. Deveria ser eu. Mas minha vez chegará rápido. Só posso ter esperança de que ele sobreviverá pelo tempo suficiente para que eu o veja de novo, nos quartéis ou nas trincheiras. Talvez então encontre as palavras certas a dizer. Talvez então eu entenda o que sinto.
— Obrigado, Mare. Por tudo.
Ele se afasta, soltando-me rápido demais.
— Se você economizar, vai ter o suficiente para quando a legião vier atrás de você — ele conclui.
Por Kilorn, concordo com a cabeça. Mas não está nos meus planos deixá-lo lutar e morrer sozinho.
Volto ao beliche, apesar da certeza de que não vou dormir. Deve haver alguma coisa que possa fazer e vou descobrir mesmo que leve a noite inteira.
A tosse de Gisa durante o sono soa miúda e doce. Mesmo inconsciente, ela consegue ser uma dama. Não surpreende que se dê tão bem com os prateados. Ela é tudo o que eles gostam num vermelho: quieta, feliz e despretensiosa. É bom que seja ela a lidar com eles, ajudando os trouxas super-humanos a escolher seda e tecidos finos para roupas que usarão apenas uma vez. Gisa diz que é possível acostumar-se a isso, à quantia de dinheiro que gastam com coisas tão banais. E no Grande Jardim, a feira de Summerton, o dinheiro é multiplicado por dez. Junto com sua mestra, Gisa costura rendas, sedas, peles e até pedras preciosas para criar peças de arte para serem vestidas pela elite prateada que parece seguir a família real a toda parte. O desfile, como ela diz, é uma marcha interminável de pavões emperiquitados, um mais orgulhoso e ridículo que o outro. Todos prateados, todos bobos e todos obcecados por seu status.
Eu os odeio mais que o normal esta noite. As meias que usam provavelmente bastariam para salvar a mim, Kilorn e metade de Palafitas do recrutamento.
Pela segunda vez na noite, uma luz.
— Gisa. Acorda — chamo, sem cochichar. Ela dorme feito um defunto. — Gisa.
Minha irmã se vira e abafa uma reclamação no travesseiro.
— Às vezes quero matar você — resmunga.
— Que lindo. Agora acorda!
Seus olhos ainda estão fechados quando pulo em cima dela, como se fosse uma gata gigante. Tapo sua boca antes de ela conseguir gritar, chorar ou chamar a atenção da mamãe.
— Só me escuta. Não precisa falar, é só ouvir.
Ela bufa de novo na minha mão, mas assente.
— Kilorn...
Bastou mencionar o nome do garoto para seu rosto assumir um tom vermelho brilhante. Ela até deu uma risadinha, coisa que nunca faz. Mas não tenho tempo para namoricos de escola, não agora.
— Chega disso, Gisa — digo, depois tomo fôlego e continuo. — Kilorn vai para o Exército.
Então seu riso acaba. O Exército não é piada, não para nós.
— Descobri um jeito de tirá-lo daqui, de salvá-lo da guerra, mas preciso da sua ajuda.
Dói dizer isso, mas as palavras atravessam os meus lábios mesmo assim.
— Preciso de você, Gisa. Pode me ajudar?
Ela não hesita e sinto meu amor por minha irmã se multiplicar.
— Sim.


Ainda bem que sou baixinha, do contrário não caberia no uniforme extra de Gisa. Ele é grosso e escuro, nada apropriado para o sol de verão, com botões e zíperes que parecem ferver no calor. A mochila que levo nas costas vai sacolejando quase ao ponto de me derrubar com o peso dos tecidos e dos materiais de costura. Gisa caminha com sua mochila e seu uniforme sufocante, mas não parecem incomodá-la nem um pouco. Está acostumada com trabalho e vida duros.
Velejamos a maior parte do trajeto rio acima espremidas entre sacas de trigo na barca de um fazendeiro bondoso com quem Gisa fez amizade uns anos atrás. As pessoas aqui confiam nela de uma maneira que jamais confiariam em mim. O fazendeiro nos deixa a um quilômetro e meio de nosso destino, onde encontramos um cortejo de mercadores que se dirigem a Summerton. Nos misturamos a eles rumo ao que Gisa chama de Portal do Jardim, embora não exista jardim nenhum ali. Na verdade, trata-se de um portão de vidro cintilante que nos cega antes de termos oportunidade de entrar. O resto do muro parece feito do mesmo material, mas duvido que um rei prateado seja burro o bastante para se esconder atrás de muralhas de vidro.
— Não é vidro — Gisa conta. — Ou pelo menos não totalmente. Os prateados descobriram um jeito de aquecer diamantes e misturar com outros materiais. É totalmente impenetrável. Nem uma bomba consegue atravessar.
Paredes de diamante.
— Parece necessário.
— Fique de cabeça baixa. Deixa que eu falo — ela cochicha.
Sigo atrás dela, com os olhos cravados nas ruas, que passam de asfalto escuro e rachado para pavimentos de pedras brancas. São tão lisas que quase escorrego, mas Gisa me segura pelo braço e me mantém de pé. Kilorn não teria problema em andar sobre isto, não com seus passos de marujo. Por outro lado, ele nem viria até aqui. Já desistiu. Mas eu não.
À medida que nos aproximamos dos portões, estreito os olhos para ver a parte de dentro, além do reflexo do sol. Embora Summerton funcione apenas como uma residência de verão e seja abandonada antes do primeiro floco de neve cair, é a maior cidade que já vi. Ruas agitadas, lojas, bares, restaurantes, casas e pátios: tudo voltado para uma monstruosidade ofuscante feita de cristais de diamante e mármore. E agora sei de onde veio o nome. O Palacete do Sol brilha como uma estrela com seus trinta metros de altura, como uma massa sinuosa de pontes e espirais. Algumas partes parecem escurecidas segundo a vontade dos ocupantes, que desejam privacidade. Não se pode admitir que os camponeses fiquem observando o rei e sua corte. É sublime, intimidador, magnífico — e é apenas a casa de verão.
— Nomes — uma voz rouca urra.
Gisa para no ato.
— Gisa Barrow. Esta é minha irmã Mare Barrow. Ela está me ajudando a trazer alguns itens para minha mestra.
Gisa não vacila um instante sequer e mantém a voz no mesmo tom, quase aborrecido. O agente acena com a cabeça para mim. Ponho a mochila na frente do corpo e abro para ele.
Gisa entrega nossos cartões de identidade, ambos já rasgados, sujos, se desfazendo, mas são o suficiente.
O homem que nos revista deve conhecer minha irmã, pois mal passa os olhos na identidade dela. A minha, porém, ele esmiúça, olhando para mim e para a foto por um minuto inteiro. Pergunto-me se ele é um murmurador e pode ler minha mente. Nesse caso, meu passeiozinho chegaria ao fim bem rápido. Talvez eu também, com uma corda no pescoço.
— Punho — ele bufa, já enfadado conosco.
Hesito por um instante, mas Gisa estica a mão direita sem pestanejar. Imito seu gesto e mostro o braço para o policial. Ele tasca uma fita vermelha nos punhos. As voltas ficam cada vez mais apertadas, parecendo algemas: é impossível tirar isso do braço sozinha.
— Adiante — o policial diz, indicando a direção com um gesto preguiçoso. Duas jovens garotas não representam ameaça aos seus olhos.
Gisa acena em agradecimento, mas eu não. Esse homem não merece um pingo do meu reconhecimento. Os portões se abrem aos rangidos diante de nós. Avançamos. Enquanto adentramos esse mundo diferente, as batidas do meu coração ressoam em meus ouvidos e abafam os sons do Grande Jardim.
Trata-se de um mercado diferente de tudo o que já vi, repleto de flores, árvores e fontes. Os vermelhos são poucos e rápidos: prestam serviços e vendem suas mercadorias, todos marcados por suas fitas vermelhas. Mesmo sem a fita, é fácil identificar os prateados. Eles transbordam de joias e metais preciosos, valendo uma fortuna. Um só gesto rápido e posso voltar para casa com tudo que algum dia precisarei. Todos os prateados são altos, lindos e frios. Caminham com uma elegância sem pressa que nenhum vermelho jamais poderia ter.
Simplesmente não possuímos tempo para andar desse jeito.
Conduzida por Gisa, passo por uma padaria com bolos polvilhados de ouro, por uma quitanda repleta de frutas com cores vibrantes que nunca tinha visto e mesmo por uma exposição de animais cheia de feras além do meu conhecimento. Uma garotinha — prateada, a julgar pelas roupas — serve pedacinhos de maçã a uma criatura manchada, parecida com um cavalo e de pescoço incrivelmente comprido. Umas ruas mais para a frente, uma joalheria cintila em todas as cores do arco-íris. Presto atenção no lugar, mas é difícil andar de cabeça erguida aqui. O ar parece pulsar, vívido.
Logo quando pensava que não haveria nada mais fantástico que este lugar, observo os prateados mais de perto e lembro-me exatamente de quem são. A garotinha é telec e faz a maçã levitar a três metros do chão para alimentar a criatura de pescoço comprido. Um florista corre a mão sobre um vaso de flores brancas que disparam a crescer, chegando a enrolar-se nos cotovelos de seu dono. Ele é verde, capaz de manipular as plantas e o solo. Sentados à beira da fonte, um par de ninfoides produz esferas flutuantes de água para divertir a garotada sem muita animação. Um deles tem cabelo alaranjado e ódio nos olhos, mesmo quando as crianças se reúnem ao seu redor. Por toda a praça, cada um dos tipos de prateado segue sua vida extraordinária. Há muitos, todos grandiosos, magníficos e poderosos. E tão distantes do mundo que conheço.
— É assim que a outra metade vive — murmura Gisa. — Já é o bastante para deixar qualquer um enojado.
Sinto-me invadida pela culpa. Sempre tive inveja de Gisa, do seu talento e de todos os privilégios que ele garante, mas nunca pensei nos custos. Ela não frequentou a escola e tem poucos amigos em Palafitas. Se as coisas fossem diferentes, ela teria muitos. Sorriria. Em vez disso, a menina de catorze anos arma-se de fio e agulha e parte para a batalha com o futuro da família nas costas, afundada até o pescoço num mundo que odeia.
— Obrigada, Gi — cochicho em sua orelha. Ela sabe que o agradecimento não é só por hoje.
— A loja de Salla é ali, no toldo azul.
Ela aponta para uma loja minúscula no fim de uma travessa, apertada entre dois cafés.
— Se precisar de mim, estarei lá.
— Não vou precisar — respondo rápido. — Mesmo que tudo dê errado, não vou envolver você.
— Ótimo.
Ela então agarra minha mão e a aperta por um segundo.
— Cuidado — avisa. — Isto aqui está lotado hoje, mais do que o normal.
— Mais lugares para se esconder — digo, com um sorrisinho no rosto.
Mas sua voz é séria.
— Mais agentes também.
Continuamos a caminhada. Cada passo nos aproxima do momento em que ela me deixará sozinha neste lugar estranho. Sinto uma pontada de pânico quando Gisa tira a mochila das minhas costas com gentileza. Chegamos à loja.
Para me acalmar, murmuro para mim mesma:
— Não falar com ninguém, não encarar ninguém. Não parar. Saio por onde entrei, o Portal do Jardim. O policial remove minha fita e eu continuo a andar.
Gisa confirma minhas palavras assentindo. Seus olhos estão arregalados, temerosos e talvez mesmo esperançosos:
— São dezesseis quilômetros daqui até nossa casa — concluo.
— Dezesseis quilômetros até nossa casa — ela repete.
Desejando com todas as forças poder acompanhá-la, observo Gisa desaparecer sob o toldo azul. Ela me trouxe até aqui. Agora é minha vez de agir.

6 comentários:

  1. O nome do titulo da spoiller q autora legal

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    1. Bem isso kkk
      ~polly

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    2. N da spoiler... To meio na dúvida pq se eu te falar aí sim vai ser o spoiler

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  2. Amando, sério.

    Estava pensando em comprar os livros,mas por enquanto vou ler por aqui mesmo.

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  3. Nossa , tô amando !

    Ass: Apaixonada por livros

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Boa leitura :)