15 de março de 2017

Capítulo sete

Cameron

O TAL “ALERTA DE RAIO” ecoa pelo andar principal de Irabelle, subindo e descendo pelas escadas dos andaimes, indo e voltando entre corredores. Mensageiros buscam aqueles de nós considerados importantes o suficiente para receber notícias sobre Mare.
Normalmente não sou prioridade. Ninguém me leva para conversar com o resto do clubinho dela. Os garotos me acham depois, no trabalho, e me entregam um papel detalhando os poucos fragmentos que os espiões da Guarda reuniram sobre o tempo precioso dela na cela. Coisas inúteis. O que comeu, o rodízio dos guardas, esse tipo de informação. Mas hoje a mensageira, uma menina pequena com cabelo preto liso e brilhante e a pele avermelhada, puxa meu braço.
— Alerta de raio, srta. Cole. Venha comigo — ela diz, com a voz firme e enjoativa.
Quero gritar que minha prioridade é fazer o aquecimento funcionar nos galpões, não descobrir quantas vezes Mare usou o banheiro hoje, mas o rosto doce dela detém esse impulso. Farley deve ter mandado a criança mais fofa dessa maldita base. Saco.
— Está bem, estou indo — bufo, jogando as ferramentas de volta na caixa. Quando ela pega minha mão, me lembro de Morrey. Ele é menor do que eu e, quando éramos pequenos, costumava segurar minha mão quando as máquinas barulhentas na linha de montagem o assustavam. Mas essa menina não demonstra nenhum sinal de medo.
Ela me puxa pelas passagens sinuosas, orgulhosa de si mesma por saber o caminho. Franzo a testa diante do retalho vermelho amarrado em volta do seu punho. Ela é jovem demais para ser jurada aos rebeldes, que dirá viver no quartel-general tático deles.
Mas eu mesma fui mandada para o trabalho quando tinha cinco anos, separando sucata das pilhas de lixo. Ela deve ter uns dez.
Abro a boca para perguntar o que a trouxe para cá, mas mudo de ideia. Seus pais, obviamente — seja pelas escolhas que fizeram ou por terem morrido. Não sei onde estão. Assim como não sei onde estão os meus.
Os fios das Passagens 4 e 5 e do Subterrâneo 7 precisam de isolamento. O Galpão A precisa de aquecimento. Repito a lista sempre crescente de tarefas para anestesiar a dor repentina. Meus pais vão se apagando dos meus pensamentos. Afugento papai dirigindo um caminhão de transporte, as mãos sempre firmes no volante. Mamãe na fábrica ao meu lado, mais rápida do que eu jamais seria. Ela estava doente quando partimos, com o cabelo mais fino e a pele escura começando a ficar cinza. Quase sufoco com a lembrança. Os dois estão fora do meu alcance. Mas Morrey não. Ele eu posso salvar.
Os fios das Passagens 4 e 5 e do Subterrâneo 7 precisam de isolamento. O Galpão A precisa de aquecimento. Morrey Cole precisa ser salvo.
Chegamos à passagem para a central de controle ao mesmo tempo que Kilorn. Seu mensageiro está atrás dele, correndo para acompanhar o ritmo do rapaz magricela. Kilorn devia estar lá fora no ar congelado do inverno que se aproxima. Suas bochechas estão vermelhas de frio. Enquanto caminha, tira a touca de lã, soltando os cachos castanhos e sem corte.
— Cam — ele me cumprimenta, parando onde nossos caminhos se cruzam. Kilorn vibra de medo, com os olhos de um verde vivo sob as luzes fluorescentes do corredor. — Alguma ideia?
Dou de ombros. Sei menos do que todo mundo quando o assunto é Mare. Não sei nem por que se dão ao trabalho de me manter informada. Talvez para que me sinta incluída. Todo mundo sabe que não quero estar aqui, mas não tenho para onde ir. Não tenho como voltar à Cidade Nova nem ao Gargalo. Não tenho saída.
— Nenhuma — respondo.
Kilorn olha para seu mensageiro atrás dele, abrindo um sorriso.
— Obrigado — diz, com uma dispensa gentil. O garoto entende a deixa e sai aliviado. Faço o mesmo com a minha, com um aceno de cabeça e um sorriso grato. Ela segue na outra direção, desaparecendo numa curva.
— Eles estão começando cedo — não consigo deixar de sussurrar.
— Não tão cedo quanto a gente — Kilorn responde.
Fecho a cara.
— Verdade.
No último mês, aprendi o bastante sobre Kilorn para saber que posso confiar nele tanto quanto todo mundo aqui. Nossas vidas são parecidas. Ele começou a trabalhar bem novo e, assim como eu, teve o luxo de um trabalho que o manteve longe do recrutamento. Até tudo mudar e acabarmos atraídos para a órbita da garota elétrica.
Kilorn diria que está aqui por opção, mas sei que não é bem assim. Ele era o melhor amigo de Mare e entrou para a Guarda Escarlate atrás dela. Agora, a teimosia cega — sem falar de sua condição de fugitivo — o mantém aqui.
— Mas não fomos doutrinados — continuo, hesitando antes de dar os próximos passos. Os guardas da sala de controle esperam a alguns metros de distância. Estão de olho na gente, silenciosos. Não gosto dessa sensação.
Kilorn abre um sorriso estranho. Ele baixa os olhos para meu pescoço tatuado, onde tenho a marca permanente da minha profissão e do meu lugar. A tinta preta se destaca, mesmo contra minha pele escura.
— Fomos, sim — ele diz baixo. — Agora vamos.
Ele coloca o braço em volta dos meus ombros, me guiando adiante. Os guardas abrem caminho, deixando que passemos pela porta.
Desta vez, a sala de controle está mais cheia do que nunca. Todos os técnicos estão sentados com atenção redobrada, o foco nas várias telas na frente da sala. Elas exibem a mesma coisa: a coroa flamejante, o emblema de Norta, com suas chamas vermelhas, pretas e prateadas. Normalmente, o símbolo anuncia transmissões oficiais, então imagino que eu esteja prestes a ser sujeitada à mais nova mensagem do rei Maven. Não sou a única a pensar assim.
— Talvez ela apareça — Kilorn murmura, com a voz temperada em igual medida por saudade e medo. Na tela, a imagem salta um pouco. Paralisada, pausada. — O que estamos esperando?
— Não é o quê, é quem — respondo, lançando um olhar pela sala. Vejo que Cal já está aqui, sentado impassível no canto da sala, mantendo distância de todos. Ele sente que o observo, mas apenas me cumprimenta com a cabeça.
Para minha tristeza, Kilorn o chama com um gesto. Depois de um segundo de hesitação, Cal aceita, atravessando devagar a sala lotada. Por algum motivo, este alerta de raio chamou muita gente para a sala de controle, e todos parecem tão ansiosos quanto Kilorn. Não reconheço a maioria, mas alguns sanguenovos se juntaram ao grupo. Vejo Rash e Tahir em sua posição de sempre, sentados com seu equipamento de rádio. Nanny e Ada estão juntas e, assim como Cal, ocupam a parede dos fundos, discretas. Quando o príncipe exilado se aproxima, todos os oficiais vermelhos saem do caminho. Ele finge que não percebe.
Cal e Kilorn trocam sorrisos fracos. Sua antiga rivalidade ficou para trás, substituída por certo nervosismo.
— Queria que o coronel fosse mais rápido que uma maldita lesma — diz uma voz à minha direita.
Viro e encontro Farley ao nosso lado, fazendo o possível para não chamar atenção apesar da barriga. Está quase completamente escondida por um casaco largo, mas é difícil guardar segredos em lugares como este. Ela está com quase quatro meses e não liga que saibam. Agora mesmo, equilibra um prato de batata frita numa mão e tem um garfo na outra.
— Cameron, rapazes — Farley acrescenta, cumprimentando a gente com a cabeça.
Faço o mesmo, assim como Kilorn. Para Cal, ela bate uma continência irônica com o garfo e ele mal resmunga em resposta, com o maxilar tão tenso que acho que seus dentes vão quebrar.
— Pensei que o coronel dormisse aqui — respondo, fixando o olhar na tela.
— Típico. Na única hora em que a gente precisa dele.
Se fosse qualquer outro dia, eu acharia que sua ausência era uma manobra. Talvez para nos lembrar de quem está no comando. Como se pudéssemos esquecer. Mesmo com Cal, um príncipe e general prateado, e uma legião de sanguenovos com uma variedade assustadora de poderes, o coronel consegue dar as cartas. Porque aqui, na Guarda Escarlate, neste mundo, informação é mais importante que qualquer coisa, e ele é o único que sabe o bastante para controlar todos nós.
Isso eu respeito. As partes de uma máquina não precisam saber o que as outras estão fazendo. Mas não sou só uma engrenagem. Não mais.
O coronel entra, cercado pelos irmãos de Mare. Ainda nenhum sinal dos pais dela, que continuam alojados em algum lugar distante, com a irmã do cabelo vermelho-escuro. Acho que a vi uma vez, esperta e veloz, andando rápido pela confusão do corredor, mas nunca cheguei perto o bastante para perguntar. É claro que ouvi os boatos. Sussurros de outros técnicos e soldados. Um agente de segurança esmagou o pé da menina, obrigando Mare a suplicar no palacete de verão. Ou algo do tipo. Tenho a sensação de que perguntar a história real para Kilorn seria insensível da minha parte.
As pessoas no centro de controle se viram para observar o coronel, ansiosas para que o que quer que viemos ver aqui comece. Então reagimos juntos, abafando exclamações de surpresa quando outro prateado entra na sala atrás dele.
Toda vez que o vejo, quero sentir raiva dele. Mare me obrigou a acompanhá-la, me obrigou a voltar à prisão, me obrigou a matar e obrigou outros a morrer para que esse homem que mais parece um graveto seco e insignificante pudesse viver. Mas não foi escolha dele. Era um prisioneiro como eu, condenado às celas de Corros e à morte lenta e esmagadora pelas Pedras Silenciosas. Não é sua culpa ser amado pela garota elétrica, e ele deve carregar a maldição desse amor.
Julian Jacos não se encolhe na parede dos fundos com os sanguenovos, tampouco vai para o lado do sobrinho Cal. Continua perto do coronel, deixando que o bando abra caminho para poder ver a transmissão do melhor ângulo. Eu me concentro em seus ombros enquanto ele se acomoda. Sua postura exala decadência prateada. As costas retas, perfeitas. Mesmo no uniforme gasto, desbotado pelo uso, com o cabelo grisalho e o olhar pálido e frio que todos adquirimos no subterrâneo, não há como negar o que ele é. Outros sentem o mesmo. Os soldados em volta tocam as armas no coldre, de olho no prateado. Os boatos são mais incisivos quando o assunto é ele. É tio de Cal, irmão da primeira rainha de Tiberias VI, antigo tutor de Mare. Entrou nas nossas fileiras como um fio de aço no meio da seda. Entranhado, mas perigoso e fácil de arrancar.
Dizem que consegue controlar as pessoas com a voz e o olhar. Como a primeira rainha podia. Como muitos ainda podem.
Mais uma pessoa em quem eu nunca, jamais, vou confiar. É uma lista longa.
— Vamos lá — o coronel vocifera, interrompendo o murmúrio baixo causado pela presença de Julian. As telas respondem na hora, agitando-se em movimento.
Ninguém fala e o rosto do rei Maven surge nas telas.
Ele aparece no alto de seu trono gigantesco, no centro da corte prateada, com os olhos arregalados e convidativos. Sei que é uma cobra, então consigo ignorar o disfarce bem escolhido. Mas imagino que a maioria do país não consiga ver através da máscara de um jovem destinado à grandeza, fazendo zelosamente tudo o que pode por um reino à beira do caos. Ele é bonito. Não largo como Cal, mas com uma forma elegante, uma escultura de feições expressivas e cabelo preto brilhante. Bonito, mas não atraente. Ouço alguém rabiscar anotações, talvez registrando tudo na tela.
Permitindo que o resto de nós veja sem restrições, concentrados apenas no horror que Maven está prestes a apresentar.
Ele se inclina para a frente, com a mão estendida, conforme levanta para chamar alguém.
— Venha para a frente, Mare.
As câmeras viram, girando suavemente para mostrá-la em pé diante do rei. Eu estava esperando ver trapos, mas em vez disso ela usa roupas elegantes com que eu nem poderia sonhar. Todo o seu corpo está coberto de pedras preciosas vermelho-sangue e seda bordada. Tudo cintila enquanto ela percorre o grandioso corredor, abrindo caminho pela multidão de prateados reunidos para vê-la. Nada de coleira. De novo, vejo através da máscara. De novo, torço para que todos no reino também vejam — mas como poderiam? Eles não a conhecem como eu. Não notam as olheiras sob seus olhos, que piscam a cada passo. Suas bochechas descarnadas. Os lábios tensos. Os dedos contraídos. O maxilar cerrado. Mas é só isso que vejo. Quem sabe o que Cal, Kilorn ou os irmãos dela conseguem ver na garota elétrica?
O vestido a cobre do pescoço até os punhos e os tornozelos. Provavelmente para esconder hematomas, cicatrizes e a marca do rei. Não é um vestido coisa nenhuma. É uma fantasia.
Não sou a única a prender a respiração com medo quando Mare se aproxima do rei. Ele pega sua mão e ela hesita para fechar os dedos. Apenas uma fração de segundo, mas o bastante para confirmar aquilo que já sei. Isso não é escolha dela. Ou, se é, a alternativa era muito, muito pior.
Uma corrente de calor reverbera no ar. Kilorn faz o possível para se afastar de Cal sem chamar atenção, trombando em mim. Dou espaço como posso. Ninguém quer ficar perto demais do príncipe ardente se as coisas derem errado.
Maven não precisa dar o sinal. Mare conhece o rei e seus planos para entender o que quer. A câmera recua enquanto ela se desloca para a direita do trono. O que vejo agora é uma demonstração de força máxima. De um lado, Evangeline Samos, a noiva do rei, uma futura rainha em poder e aparência, e a garota elétrica do outro. Prateada e vermelha.
Outros nobres, os maiores das Grandes Casas, estão reunidos no tablado. Nomes e rostos que não conheço, mas tenho certeza que muitos aqui identificam. Generais, diplomatas, guerreiros, conselheiros. Todos dedicados à nossa aniquilação total.
O rei volta ao trono, devagar, com os olhos focados no fundo da câmera e em nós.
— Antes de tudo, antes de começar este discurso — Maven gesticula, confiante e quase encantador —, quero agradecer aos homens e mulheres combatentes, prateados e vermelhos, que protegem nossas fronteiras e estão agora mesmo nos defendendo de inimigos externos e internos. Eu saúdo os soldados de Corvium, os guerreiros leais que resistem aos ataques terroristas constantes e deploráveis da Guarda Escarlate. Estou com vocês.
— Mentiroso — alguém rosna na sala, mas logo ouve um psiu.
Na tela, Mare parece pensar o mesmo. Ela se esforça para não se contorcer nem deixar que seu rosto revele suas emoções. Funciona. Quase. Um rubor surge em seu pescoço, parcialmente escondido pela gola, que não é alta o bastante. Maven teria que colocar um saco na cara dela para esconder o que sente.
— Nos últimos dias, depois de muita deliberação com meu conselho e com as cortes de Norta, Mare Barrow de Palafitas foi sentenciada por seus crimes contra o reino. Ela foi acusada de homicídio e terrorismo, e acreditamos que fosse o pior dos ratos que corroem nossas raízes. — Maven ergue os olhos para ela, com o rosto imóvel e focado. Não quero saber quantas vezes praticou isso. — Sua punição foi a prisão vitalícia, após interrogatório de meus primos da Casa Merandus.
Seguindo a deixa do rei, um homem de azul-escuro dá um passo à frente. Ele fica a centímetros de Mare, perto o bastante para encostar a mão em qualquer parte de seu corpo. Ela fica paralisada, completamente imóvel para não tremer.
— Sou Samson da Casa Merandus e realizei o interrogatório de Mare Barrow.
À minha frente, Julian leva a mão à boca. O único indício de como está abalado.
— Como murmurador, minha habilidade me permite ultrapassar as mentiras usuais e as distorções do discurso que muitos prisioneiros utilizam. Então, quando Mare Barrow nos contou a verdade sobre a Guarda Escarlate e seus horrores, confesso que não acreditei nela. Que fique registrado que me enganei. O que vi em suas memórias foi doloroso e arrepiante.
Outra rodada de murmúrios percorre a sala, e outra rodada de psius. Mas a tensão ainda é grande, assim como a confusão. O coronel se empertiga, com os braços cruzados. Tenho certeza de que todos estão pensando sobre seus pecados e sobre o que esse panaca do Samson está dizendo. De um lado, Farley bate o garfo contra o lábio, com os olhos estreitos. Murmura um palavrão, mas não posso perguntar por quê.
Mare ergue o queixo, parecendo prestes a vomitar nas botas do rei. Aposto que é isso o que ela quer.
— Fui à Guarda Escarlate voluntariamente — ela diz. — Disseram que meu irmão tinha sido executado enquanto servia nas legiões por um crime que não cometeu. — A voz dela embarga com a menção de Shade. Ao meu lado, a respiração de Farley se acelera e ela afaga a barriga. — Me perguntaram se eu queria vingança pela morte dele. Eu quis. Por isso, jurei fidelidade à causa e fui posicionada como criada no Palacete do Sol.
“Vim ao palácio como espiã vermelha, mas nem mesmo eu sabia que era diferente. Durante a Prova Real, descobri que possuía uma habilidade elétrica desconhecida. Depois de uma reunião, os finados rei Tiberias e rainha Elara decidiram me hospedar, para estudar discretamente o que eu era e, com sorte, me ensinar. Eles me disfarçaram de prateada para me proteger. Sabiam que uma vermelha com poderes seria considerada uma aberração na melhor das hipóteses e uma abominação na pior, então esconderam minha identidade para me manter a salvo dos preconceitos de vermelhos e prateados. Minha condição sanguínea era conhecida por poucos, incluindo Maven e Ca… o príncipe Tiberias.
“Mas a Guarda Escarlate descobriu o que eu era. Ameaçou me expor publicamente para, ao mesmo tempo, arruinar a credibilidade do rei e me colocar em risco. Fui obrigada a trabalhar para eles como espiã, seguir suas ordens e facilitar sua infiltração na corte.”
A indignação na sala é mais barulhenta agora e não pode ser silenciada tão fácil.
— Quanta baboseira — Kilorn resmunga.
Na tela, Mare continua:
— Minha missão final era reunir aliados prateados para a Guarda Escarlate. Fui instruída a focar no príncipe Tiberias, um combatente inteligente e herdeiro do trono de Norta. Ele foi… — Mare hesita, os olhos focados na câmera, movendo-se de um lado para o outro, à procura. Pelo canto do olho, vejo Cal abaixar a cabeça. — Ele foi facilmente convencido por mim. Também auxiliei a Guarda Escarlate em seus planos para o Atentado Rubro, que deixou onze mortos, e o bombardeio da ponte de Archeon.
“Quando o príncipe Tiberias matou seu pai, o rei Maven agiu rápido, tomando a única decisão que considerou possível”, a voz dela vacila. Ao seu lado, Maven faz o possível para parecer triste com a menção do pai assassinado. “Ele estava de luto e fomos sentenciados à execução na arena. Fugimos graças à Guarda Escarlate. Eles nos levaram para uma fortaleza numa ilha perto da costa de Norta.
“Lá, fui mantida como prisioneira, assim como o príncipe Tiberias e, como vim a descobrir, o irmão que eu pensava ter perdido. Assim como eu, ele tinha uma habilidade; e, assim como eu, era temido pela Guarda Escarlate. Eles planejavam nos matar. Quando descobri que existiam outros como nós e que a Guarda Escarlate estava caçando os chamados sanguenovos para exterminá-los, consegui fugir com meu irmão e alguns outros. O príncipe Tiberias veio conosco. Agora sei que ele pretendia criar um exército para enfrentar o irmão. Depois de alguns meses, a Guarda Escarlate nos alcançou e matou os poucos vermelhos com habilidades que conseguimos encontrar. Meu irmão foi assassinado no caminho, mas eu fugi.”
Pela primeira vez, o calor na sala não vem de Cal. Todos fervem de fúria. Essa não é Mare. Essas não são palavras dela. Mas ainda assim sinto tanta raiva quanto os outros.
Como pode dizer tais coisas? Eu preferiria cuspir sangue a endossar as mentiras de Maven. Ao mesmo tempo, que escolha Mare tinha?
— Sem ter aonde ir, me entreguei ao rei Maven e à punição que considerasse justa. — A determinação dela vai se perdendo aos poucos, até lágrimas escorrerem de suas bochechas. Tenho vergonha de admitir que elas mais ajudam do que atrapalham seu discursinho. — Estou aqui agora como prisioneira voluntária. Sinto muito pelo que fiz, mas estou disposta a fazer o possível para deter a Guarda Escarlate e o futuro terrível que nos espreita. Essas pessoas não defendem ninguém além de si próprias e daqueles que podem controlar. Matam todos os outros, todos os que ficarem no caminho. Todos os que são diferentes.
As últimas palavras travam, recusando-se a sair. Maven continua imóvel no trono; apenas sua garganta se mexe um pouco. Ele emite um barulho que a câmera não consegue captar, exigindo que Mare termine da forma certa.
Mare Barrow ergue o queixo e olha fixamente para a frente. Seus olhos parecem pretos de fúria.
— Nós, os sanguenovos, não servimos para a aurora.
Gritos e protestos irrompem na sala, soltando indecências contra Maven, o murmurador Merandus e até a garota elétrica.
— … esse rei é um demônio cruel…
— … preferia me matar a dizer…
— … não passa de uma marionete…
— … traidora, pura e simplesmente…
— … não é a primeira vez que ela entra na dança deles…
Kilorn é o primeiro a estourar, com os dois punhos cerrados.
— Vocês acham mesmo que ela queria fazer isso? — diz, com a voz alta o suficiente para ser ouvida, mas não severa. Seu rosto fica vermelho de frustração. Cal apoia a mão em seu ombro, ficando ao seu lado. Isso deixa muitos em silêncio, em particular os oficiais mais jovens. Parecem constrangidos, arrependidos até, envergonhados por levar bronca de um menino de dezoito anos.
— Quietos, todos vocês! — o coronel urra, calando o restante. Ele vira para nos olhar feio com seus olhos diferentes. — O diabo ainda está falando.
— Coronel… — Cal resmunga. Seu tom é uma ameaça clara como o dia.
Em resposta, ele aponta para a tela. Na direção de Maven, não de Mare.
— … oferecemos refúgio a todos que fogem do terror da Guarda Escarlate. E aos sanguenovos entre vocês, escondendo-se do que parece ser puro e simples genocídio, minhas portas estão abertas. Instruí os palácios reais de Archeon, Harbor Bay, Delphie e Summerton, bem como as fortalezas militares de Norta, a protegê-los do massacre. Vocês terão comida, abrigo e, se desejarem, treinamento. É minha obrigação proteger meus súditos e vou usar todos os recursos que tenho a oferecer. Mare Barrow não é a primeira a se juntar a nós e não será a última. — Ele tem a audácia arrogante de pousar a mão no braço dela.
Então foi assim que esse moleque virou rei. Ele não é apenas cruel e desalmado, mas simplesmente genial. Se não fosse a raiva fervilhando em mim, ficaria impressionada. Sua manobra vai causar problemas para a Guarda, claro, mas os sanguenovos que ainda estão à solta me preocupam mais. Fomos recrutados por Mare e sua revolução diante das poucas opções. Agora, parece que temos ainda menos. A Guarda ou o rei.
Ambos nos veem como armas. Ambos vão fazer com que sejamos mortos. Mas apenas um lado vai nos manter acorrentados.
Olho por cima do ombro, à procura de Ada. Os olhos dela estão fixos na tela, memorizando facilmente todos os tiques e inflexões para que sejam analisados mais tarde. Assim como eu, ela franze a testa, pensando na preocupação mais grave que nenhum membro da Guarda Escarlate tem ainda. O que vai acontecer com pessoas como nós?
— À Guarda Escarlate, digo apenas isto — Maven acrescenta, levantando-se do trono. — Sua aurora é pura escuridão e jamais vai conquistar este país. Lutaremos até o fim. Força e poder.
No tablado e em todo o restante da sala do trono, o canto ecoa de todas as bocas. Incluindo a de Mare.
— Força e poder.
A imagem se mantém por um segundo, ficando gravada em todas as memórias. Vermelho e prateado, a garota elétrica e o rei Maven, unidos contra o grande mal em que nos transformaram. Sei que não é escolha de Mare, mas é culpa dela. Não percebeu que ele a usaria se não a matasse.
Cal disse antes que Mare nunca tinha pensado que o rei faria aquilo com ela, referindo-se ao interrogatório. Os dois são uns fracotes quando o assunto é Maven, e essa fraqueza continua a nos atrapalhar.
No Furo, Mare dava o melhor de si para me treinar. Pratico aqui quando posso, junto com outros sanguenovos que estão descobrindo seus próprios limites. Cal e Julian tentam ajudar, mas eu e muitos outros odiamos a tutela deles. Além disso, encontrei outra pessoa para me acompanhar.
Sei que a força, se não o controle, do meu poder cresceu. Sinto-o agora, formigando sob a pele, um vazio abençoado para acalmar o caos à minha volta. O poder insiste e cerro o punho contra ele, mantendo o silêncio abafado. Não posso voltar minha raiva contra as pessoas nesta sala. Elas não são o inimigo.
Quando as telas ficam pretas, sinalizando o fim do discurso, uma dezena de vozes soa ao mesmo tempo. A mão de Cal bate contra a mesa diante dele. O príncipe exilado se vira, murmurando consigo mesmo.
— Já vi o bastante — é o que acho que diz antes de abrir caminho para fora da sala.
Idiota. Cal conhece o próprio irmão. Consegue dissecar as palavras de Maven melhor do que todos nós.
O coronel também sabe disso.
— Traga-o de volta — ele murmura, inclinando-se para falar com Julian. O prateado faz que sim, saindo discretamente para buscar o sobrinho. Muitos param de falar para vê-lo.
— Capitã Farley, qual é sua opinião? — o coronel pergunta, com a voz cortante chamando a atenção de volta para o lugar certo. Ele cruza os braços e se vira para a filha.
Farley retoma a concentração, aparentemente inabalada pelo discurso. Ela engole um pedaço de batata.
— A resposta natural seria fazer uma transmissão nossa. Negar as acusações de Maven, mostrando ao país aqueles que salvamos.
Usar a gente como propaganda. Fazer exatamente o que Maven está fazendo com Mare. Sinto um frio na barriga com a ideia de ser levada para a frente das câmeras, forçada a entoar elogios a pessoas que mal consigo tolerar e em que não confio plenamente.
O coronel faz que sim.
— Concordo…
— Mas não acho que seja o caminho certo — ela conclui.
O coronel ergue a sobrancelha sobre o olho ruim.
Farley toma isso como um convite para continuar.
— Vão ser apenas palavras. Nada de útil no fim das contas, considerando o que está acontecendo. — Ela tamborila os dedos nos lábios e quase consigo ver as engrenagens rodando na sua cabeça. — Acho que deixamos Maven continuar falando, enquanto continuamos fazendo. Nossa infiltração em Corvium já está dando problemas para o rei. Viu como ele deu destaque à cidade? Ao exército dele ali? Está tentando levantar o moral. Por que o faria se não precisasse?
No fundo da sala, Julian retorna, com a mão no ombro de Cal. Eles têm a mesma altura, embora Cal pareça uns vinte quilos mais forte que o tio. O presídio de Corros custou caro para Julian, como para todos nós.
— Temos muitas informações sobre Corvium — Farley acrescenta. — E a importância da cidade para o Exército de Norta, sem mencionar o moral dos prateados, a torna o lugar perfeito.
— Para quê? — eu me ouço perguntar, surpreendendo todos na sala, inclusive eu mesma.
Farley é boa o bastante para se dirigir diretamente a mim.
— O primeiro ataque. A declaração de guerra oficial da Guarda Escarlate contra o rei de Norta.
Um ganido estrangulado sai de Cal, não o tipo que se esperaria de um príncipe ou soldado. Seu rosto fica pálido, os olhos arregalados com o que só pode ser medo.
— Corvium é uma fortaleza. Uma cidade construída com o único objetivo de sobreviver a uma guerra. Tem mil oficiais prateados lá dentro, soldados treinados para…
— Organizar. Combater homens de Lakeland. Ficar atrás de uma trincheira e marcar lugares no mapa — Farley retruca. — Diga se estou errada, Cal. Diga que os prateados estão preparados para uma luta dentro das próprias muralhas.
O olhar que ele lança poderia trespassar qualquer pessoa, mas Farley se mantém firme. Ou fortalece sua oposição.
— É suicídio, para vocês e para todos no seu caminho — ele diz. Farley dá risada diante da evasiva descarada, incitando-o a continuar. Cal se controla bem, como um príncipe ardente relutando a queimar. — Não vou fazer parte disso — ele diz. — Boa sorte atacando Corvium sem nenhuma informação minha.
As emoções de Farley não precisam ser controladas por causa de um poder prateado. A sala não vai queimar com ela, por mais que seu rosto fique vermelho.
— Graças a Shade Barrow, já tenho tudo de que preciso!
Esse nome costuma trazer as pessoas de volta à razão. Lembrar de Shade é lembrar de como ele morreu e o que isso fez com as pessoas que amava. No caso de Mare, sua morte a tornou fria e vazia, uma pessoa sempre disposta a se entregar para impedir que seus amigos e familiares tivessem o mesmo destino. No caso de Farley, deixou-a sozinha em suas empreitadas, focada apenas na Guarda Escarlate. Não fazia muito tempo que eu conhecia as duas quando ele morreu, mas, mesmo assim, lamento por quem eram. A perda transformou as duas, e não para melhor.
Farley se obriga a vencer a dor que a memória de Shade lhe traz, ao menos para esfregar a questão no nariz de Cal.
— Antes de fraudarmos a execução dele, Shade era nosso principal agente em Corvium. Ele usava sua habilidade para nos fornecer o máximo de informações possível. Não pense por um segundo que você é o único que dá as cartas aqui. Não pense por um segundo que é o único ás que temos na manga — Farley fala com firmeza. Então se volta para o coronel. — Aconselho um ataque, usando os sanguenovos, soldados vermelhos e os infiltrados na cidade.
Usando os sanguenovos. Essas palavras ardem, ofendem e queimam, deixando um gosto amargo na minha boca.
Acho que é minha vez de sair da sala batendo a porta.
Cal me observa ir, com a boca fechada numa linha firme e sombria.
Você não é o único que consegue ser dramático, penso enquanto o deixo para trás.

22 comentários:

  1. A mare ta começando a parece com a Katines

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    1. Ne! So lembro de jogos vorazes
      (Mais ou menos)

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    2. Shade = Finnick
      Cam = Johanna

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  2. Por que tem que ter narrativa dessa garota?
    Ela está se esquecendo que pegaram a Mare
    quando Ela estava indo salvar o irmão dessa
    Ingrata chata que está estragando o livro

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    1. Concordo, até parece que os leitores se importam com o que essa ridícula pensa

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  3. Até agora eles não conseguiram nada. Eles mataram a rainha mas o Maven é pior

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  4. Vlh essa guria é chata demais, tô perdendo a paciência com ela.

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  5. Porque Cameron ? Porque não colocaram Cal para narrar?

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    1. Pensando a mesma coisa aqui.

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    2. Né isso! Essa menina é uma sem noção irritante, que acha que o mundo é um conto de fadas!

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  6. Acho que Cameron gosta do Cal por isso odeia tanto Mare

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  7. Não gosto nada da Cameron, além de chata é ingrata e preferia mil vezes o ponto de vista da Evangeline do que o dela.

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  8. Que garota chata essa Cameron. Tudo o que ela faz é se lamentar da vida. Preferiria um POV do Maven.

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  9. jente será só eu que não suporta essa Caneron? eita garotinha chata
    Ass: Mary Bonetti

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  10. Quantos comentários ruins sobre a Cam...Sou do contra, amo ela! 💗

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  11. Essa camerom é um saco,que menina chatinha

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  12. ela tem um irmao na guerra sem pais pega leve po

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    1. Mais um motivo para ela lutar pela guarda, e pela libertação dos vermelhos! É CLARO que os sangue-novos são armas, o que ela queria? Que mais vermelhos sem poder morressem, enquanto existe um ND de vermelhos mais poderosos que os prateados por aí?!

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  13. Cameron sendo Cameron...Podia ver o outro lado das coisas né? Só fica olhando o lado ruim e sendo ingrata e reclamona o tempo todo. Nem a Katniss chega a ser assim, acho, porque as vezes imagino elas juntas.
    Doidera. ~polly~

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  14. Espero encontrar uma narrativa do Cal em algum dos próximos capítulos... Quero que a Mare fuja logo!

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  15. Estou amando!!!as preferia q o Cal contasse ao invés da Camerom...

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  16. Cameron disse que a Mare era uma hipocrita egoista, mas quem ta sendo hipocrita eh ela qdo diz que tudo o que a Mare tah passando eh culpa dela mesma.
    A Mare foi a unica que se moveu pra ajudar a legiao de crianças, e qdo o aviao deles foi derrubado ela se entregou para que todos os outros vivessem, incluindo a propria Cameron. Ela que eh hipocrita e ingrata. Fica revoltada com a Mare e com todos no mundo pq nao consegue encarar a propria covardia de desistir de salvar o irmao.

    ~Pri

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Boa leitura :)