13 de março de 2017

Capítulo sete

KILORN RECLAMA DURANTE TODO O CAMINHO da enfermaria até o pátio. Ele até anda devagar, e eu sou obrigada a desacelerar para acompanhá-lo. Tento ignorá-lo, por Cal, pela causa, mas quando ouço a palavra “tolice” pela terceira vez, tenho que parar.
Ele tromba com as minhas costas.
— Sinto muito — ele diz, sem soar nem um pouco arrependido.
— Não, sou eu que sinto muito — rebato, virando para encará-lo. Um pouco da raiva que senti pelo coronel transborda pelas minhas bochechas, que ficam vermelhas e quentes. — Sinto muito por você não conseguir parar de ser um imbecil por dois minutos para enxergar exatamente o que está acontecendo aqui.
Fico à espera de que ele grite comigo, que responda minha farpa com outra, como de costume. Em vez disso, ele respira fundo e dá um passo para trás, se esforçando ao máximo para se acalmar.
— Você me acha tão burro assim? Por favor, Mare, me eduque. Me mostre a luz. O que você sabe que eu não sei?
As palavras imploram para sair da minha boca. Mas o pátio é aberto demais, cheio de soldados do coronel, rebeldes e refugiados trabalhando de um lado para o outro. E, apesar de não haver nenhum murmurador prateado para ler minha mente nem câmeras para registrar cada passo meu, não vou amolecer agora.
Kilorn segue meu olhar e nota a tropa de rebeldes correndo a alguns metros de nós.
— Você acha que estão espionando você? — ele provoca, a voz tão baixa que não chega nem a ser um sussurro. — Qual é, Mare? Estamos todos do mesmo lado aqui.
— Estamos? — pergunto, pausando para as palavras decantarem. — Ouviu do que o coronel me chamou? De coisa. De aberração.
Kilorn fica vermelho.
— Ele não quis dizer isso.
— Ah, e você conhece aquele homem tão bem assim, é?
Ainda bem que meu amigo não tem resposta para isso.
— Ele olha para mim como se eu fosse a inimiga, como se fosse algum tipo de bomba prestes a detonar.
— Ele... — Kilorn gagueja, sem ter certeza das palavras que está prestes a dizer. — Ele não está totalmente errado, está?
Dou as costas tão rápido que a bota deixa marcas no concreto. Poderia deixar uma marca parecida no rosto idiota de Kilorn.
— Ei, calma — ele me chama, se aproximando com passos ligeiros. Mas continuo andando, e ele, seguindo.
— Mare, pare. Não foi o que eu quis...
— Você é burro, Kilorn Warren — digo por cima do ombro. Avisto a segurança do Galpão 3, que desponta diante de mim. — Burro e cego e cruel.
— Bom, você também não é nada fácil! — ele troveja, finalmente se transformando no bocudo que sei que é.
Quando não respondo e me apresso para a porta do galpão, a mão dele se fecha no meu braço e me detém.
Tento me sacudir para escapar, mas Kilorn conhece todos os meus truques. Ele me puxa para longe da porta e me leva para a viela sombreada entre os Galpões 3 e 4.
— Me solte! — ordeno, indignada. Ouço um pouco de Mareena ressuscitar no tom frio e nobre da minha voz.
— Aí está — ele grunhe, apontando para o meu rosto. — Aí. Ela.
Eu lhe dou um empurrão poderoso que o desprende de mim.
Ele respira fundo, exasperado, e passa a mão pelo cabelo castanho, que fica arrepiado.
— Você passou por muita coisa, eu sei. Todo mundo sabe. O que você teve de fazer para sobreviver no meio deles, ao mesmo tempo que nos ajudava e descobria o que você é... Não sei como conseguiu sair viva, mas isso te mudou.
Que observador, Kilorn.
— Só porque Maven te traiu não quer dizer que você tem que parar de confiar em todo mundo. — Ele baixa os olhos e mexe nervosamente nas mãos. — Principalmente em mim. Não sou só alguém que você pode usar para se esconder. Sou seu amigo, e vou ajudar no que precisar, como eu puder. Por favor, confie em mim.
Bem que eu queria.
— Kilorn, cresça. — É o que sai da minha boca num tom tão afiado que faz meu amigo se contorcer. — Você devia ter me contado o que eles estavam tramando. Em vez disso, você me tornou sua cúmplice, me fez assistir enquanto eles o escoltavam sob a mira de armas, e agora quer que eu confie em você? Agora que está tão envolvido com essa gente que só está à espera de uma desculpa para me trancafiar? Quão burra você acha que eu sou?
Algo aparece no olhar dele, uma fraqueza escondida no personagem relaxado que ele se esforça tanto para sustentar. Este é o garoto que chorou debaixo da minha casa. O garoto que ele era antes, que resistia ao chamado de lutar e morrer. Tentei salvá-lo e acabei o aproximando ainda mais do perigo, da Guarda Escarlate e da condenação.
— Entendo — ele diz por fim. Dá uns poucos e rápidos passos para trás, até a viela se abrir entre nós. — Faz sentido — acrescenta, dando de ombros. — Por que você confiaria em mim? Sou apenas um pescador. Nada comparado a você, certo? Comparado a Shade. E a ele...
— Kilorn Warren — falo como quem dá bronca numa criança, como a mãe dele fazia antes de abandoná-lo. Ela esbravejava sempre que ele ralava o joelho ou falava fora de hora. Não lembro muito mais sobre ela, mas lembro da voz e dos olhares murchos e frustrados que reservava somente ao filho. — Você sabe que isso não é verdade.
As palavras saem duras, graves, num urro visceral.
Ele estufa o peito e cerra os punhos ao lado do corpo.
— Prove.
Não tenho resposta para isso. Não faço ideia do que ele quer de mim.
— Sinto muito. — É a minha resposta um pouco engasgada, mas sincera. — Desculpe por ser...
— Mare.
A mão quente no meu braço me impede de desmoronar. Ele surge diante mim, perto o suficiente para eu sentir seu cheiro. Felizmente, o cheiro de sangue foi embora, substituído pelo de sal. Ele esteve nadando.
— Não precisa se desculpar pelo que fizeram com você — ele balbucia. — Nunca faça isso.
— Eu n-não te acho burro.
— Talvez essa seja a coisa mais simpática que você já me disse — ele brinca, depois de um longo momento. Estampando um sorriso no rosto, encerra a conversa: — Parece que você tem um plano.
— Tenho. Você vai me ajudar?
Dando de ombros, ele abre bem os braços e os aponta para o resto da base.
— Não tem muita coisa para este pescador fazer aqui.
Eu o empurro de novo, arrancando-lhe um sorriso autêntico que não dura muito.
Junto com a chave, Farley me deu direções detalhadas para o Galpão 1. Como no continente, a Guarda Escarlate ainda prefere os túneis, e a prisão de Cal é, claro, subterrânea.
Tecnicamente, subaquática. A prisão perfeita para um ardente como Cal. Construída sob as docas, escondida pelo oceano, protegida pelas ondas e pelos uniformes azuis do coronel. Não é apenas uma prisão, mas também um arsenal. A entrada principal é um túnel que começa nos hangares da praia, mas Farley me garantiu que existe outro caminho. Talvez você se molhe, ela avisou com um sorriso irônico.
Embora a perspectiva de mergulhar no oceano me deixe desconfortável — ainda que tão perto da praia —, Kilorn fica irritantemente calmo. Na verdade, provavelmente está empolgado, feliz por seus longos anos no rio servirem para alguma coisa.
A proteção do oceano entorpece a Guarda, geralmente tão alerta. Mesmo o pessoal de Lakeland esmorece sob o peso do dia. Os soldados concentram-se mais no carregamento e na armazenagem das caixas do que na patrulha. Os poucos que permanecem em seus postos, com as armas nos ombros, andam em círculos pelo pátio, devagar, sem pressa, quase sempre parando para conversar.
Observo-os por um bom tempo, fingindo escutar minha mãe ou Gisa tagarelarem sobre o trabalho. Ambas separam cobertores e roupas em pilhas diferentes, descarregando uma série de caixas sem rótulo junto com outros refugiados. Bree e Tramy não estão; voltaram para a enfermaria para ficar com Shade. Meu pai está por perto e, apesar de não poder descarregar caixas, resmunga ordens mesmo assim. Jamais dobrou roupas na vida.
Os olhos dele encontram os meus uma ou duas vezes, e ele nota meus dedos inquietos e olhares penetrantes. Parece que ele sempre sabe o que vou fazer, e agora não é diferente. Até roda a cadeira para trás, o que me oferece uma vista melhor do pátio. Aceno a cabeça em um agradecimento silencioso.
Os guardas me fazem lembrar dos prateados de Palafitas, antes das Medidas, antes da Prova Real. Eram preguiçosos, contentes em meu vilarejo tranquilo, onde eram raras as insurreições. Como estavam errados.
Aqueles homens e mulheres não viam meus roubos, o mercado negro, Will Whistle e a infiltração lenta da Guarda Escarlate. E os soldados rebeldes daqui também são cegos, desta vez em meu benefício.
Eles não percebem que estou observando, não veem Kilorn se aproximar com uma travessa de ensopado de peixe. Minha família come, agradecida, sobretudo Gisa. Ela enrola o cabelo quando Kilorn não está vendo e o solta para que caia ondulado sobre o ombro, como uma cachoeira vermelho-rubi.
— Foi pescado há pouco tempo? — ela pergunta, apontando para a travessa.
Ele franze o nariz e faz uma careta ao olhar para as postas cinzentas de peixe.
— Não por mim, Gi. O velho Cully jamais venderia isso, a não ser para ratos, talvez.
Todos riem. Eu, só por hábito, me junto a eles meio segundo depois. Pela primeira vez, Gisa é menos comportada do que eu e ri abertamente, feliz. Eu costumava invejar seus modos ensaiados e perfeitos.
Agora, queria não ter praticado tanto, queria poder descartar minha polidez forçada tão fácil quanto ela.
Enquanto tentamos engolir o almoço, meu pai despeja o conteúdo da tigela quando pensa que não estou vendo.
Não é à toa que está cada vez mais magro. Antes que eu possa lhe dar uma bronca — ou, pior, que a minha mãe o faça —, ele passa a mão sobre um dos cobertores para sentir o tecido.
— Estes foram feitos em Piedmont. Algodão novo. Caro — murmura, quando me percebe ao seu lado.
Até na corte prateada o algodão de Piedmont era considerado um produto fino. Era uma alternativa comum à seda, reservada aos agentes de segurança mais graduados, aos sentinelas e aos uniformes dos oficiais militares. Lembro que Lucas vestiu esse tecido até sua morte. Só agora me dou conta de que nunca o vi sem uniforme. Não consigo nem imaginar como seria. Seu rosto já começou a se desfazer. Apenas alguns dias foram suficientes para eu começar a me esquecer dele, um homem que morreu por minha causa.
— Roubados? — pergunto em voz alta ao passar a mão por um cobertor, para me distrair.
Meu pai continua a investigar, alisando a lateral de uma das caixas. É robusta, feita de tábuas largas recém-pintadas de branco. A única marca distintiva é um triângulo verde-escuro menor que a minha mão estampado no canto. Não faço ideia do que significa.
— Ou doados — meu pai diz.
Ele não precisa falar para eu saber que estamos pensando a mesma coisa. Se há pessoas de Lakeland aqui conosco, nesta ilha, então é provável que a Guarda Escarlate tenha amigos em outros lugares, em nações e reinos diferentes. Parecemos fracos porque queremos.
Com uma destreza que eu não sabia que ele possuía, meu pai agarra minha mão rápido e em silêncio.
— Tenha cuidado, minha menina.
Mas, enquanto ele tem medo, eu tenho esperança. A Guarda Escarlate tem raízes mais profundas do que eu pensava, do que qualquer prateado é capaz de imaginar.
E o coronel é apenas uma das cabeças, assim como Farley. Um obstáculo, sem dúvida, mas que posso superar. Afinal, ele não é rei. Desses eu já tive a minha cota.
Como meu pai, despejo o ensopado numa rachadura no concreto.
— Terminei — digo, e Kilorn levanta num salto. Ele sabe que é a sua deixa.
Vamos visitar Shade, ou pelo menos é isso que dizemos em voz alta, para o bem dos que estão por perto. Os soldados não nos dão a menor atenção. Não temos problema para atravessar o pátio para longe das docas e da praia, seguindo a linha branca e larga.
À luz do meio-dia, posso ver que o concreto se estende na direção de colinas suaves, como se fosse uma estrada para lugar nenhum. A linha continua em frente, mas outra, mais fina, parte dela em ângulo reto, conectando-a a outra estrutura, situada no fim dos galpões, que se eleva sobre tudo mais que há na ilha.
Parece uma versão ampliada dos hangares da praia, alta e larga o bastante para acomodar seis veículos empilhados.
Fico imaginando o que há lá dentro, consciente de que a Guarda tem uma cota de itens roubados. Mas as portas se fecham rapidamente, e alguns homens de Lakeland estão descansando na sombra, conversando, sempre com as armas à mão. Assim, minha curiosidade terá que esperar, talvez para sempre.
Kilorn e eu viramos à direita, rumo à passagem entre os Galpões 8 e 9. As janelas altas estão escurecidas e abandonadas — os prédios estão vazios. À espera de mais soldados, refugiados ou, pior, órfãos. Sinto um calafrio ao passar pela sombra entre os dois.
Não é difícil chegar à praia. Afinal, estamos numa ilha. E, apesar de a base principal ser bem desenvolvida, o resto de Tuck está vazio, coberto apenas por dunas, colinas, matagais e algumas áreas com árvores velhas.
Não há sequer trilhas pelo meio do mato, já que não há animais grandes o suficiente para abri-las.
Desaparecemos com facilidade e ziguezagueamos pelas plantas até chegarmos na praia. A doca nos espera a algumas centenas de metros, como um facão despontando da maré. Desta distância, os vigias de Lakeland são apenas borrões azul-escuros se movendo de um lado para o outro. A maior parte deles se concentra no navio cargueiro que se aproxima, vindo da outra ponta da doca. Meu queixo cai quando avisto uma embarcação tão grande obviamente controlada por vermelhos. Kilorn está mais focado.
— É a distração perfeita — ele diz e começa a tirar os sapatos.
Faço o mesmo e me livro das botas sem cadarço e das meias gastas. Mas, quando ele passa a camisa por cima da cabeça — e expõe os músculos esbeltos que já conheço, definidos por anos içando redes —, não sinto tanta vontade de imitá-lo. A ideia de correr por um abrigo secreto sem camisa não me atrai.
Ele põe a camisa dobrada sobre os sapatos, um pouco hesitante.
— Imagino que não seja uma missão de resgate.
E como poderia? Não há para onde ir.
— Só preciso vê-lo. Contar de Julian. Informá-lo do que está acontecendo.
Kilorn estremece, mas assente.
— Entrar e sair. Não deve ser tão difícil, já que não esperam que ninguém chegue pelo mar.
Ele se alonga, chacoalhando os pés e os dedos, se preparando para nadar. Ao mesmo tempo, repassa as instruções sussurradas por Farley. Há um poço na parte mais baixa do abrigo que dá para um laboratório de pesquisa. Antes era usado para o estudo da vida marinha, e agora serve de sala para o coronel, embora ele nunca vá lá durante o dia. Vai estar fechada por dentro; é fácil abrir e se orientar pelos corredores. A esta hora do dia, os alojamentos estarão vazios, e a entrada pela doca, lacrada. Pouquíssimos guardas ainda estarão lá. Kilorn e eu já enfrentamos coisa pior quando crianças, quando roubamos um conjunto de baterias de um entreposto da polícia para o meu pai.
— Tente não espirrar água — Kilorn acrescenta antes de entrar na água. Seus pelos se eriçam com o mar frio de outono, mas ele mal parece sentir. Eu com certeza sinto, e quando a água chega na minha cintura, começo a bater os dentes. Com um último olhar em direção ao cais, mergulho em uma onda, deixando o frio chegar até os ossos.
Kilorn corta a água sem esforço, nadando como um sapo, quase sem fazer barulho. Tento imitar os movimentos dele, seguindo-o de perto à medida que nos afastamos da praia. Alguma coisa na água intensifica meu sentido elétrico e fica mais fácil sentir a tubulação que sai da costa. Eu seria capaz de traçar seu caminho com a mão se quisesse, apontando por onde a eletricidade passa desde as docas, por baixo da água, até o Galpão 1. Kilorn vira na direção dele, posicionando-nos primeiro numa diagonal que parte da costa e depois numa paralela. Ele avança com maestria, e os barcos atracados escondem nossa aproximação. De vez em quando, toca meu braço sob as ondas e se comunica pressionando-o de leve. Pare, siga, devagar, rápido... tudo sem desviar o foco da doca à nossa frente. Por sorte, o navio que vimos chegar está descarregando, o que distrai qualquer soldado que pudesse notar nossas cabeças agitando-se pela água. Mais caixas, todas brancas, marcadas com o triângulo verde. Mais roupas?
Não, descubro quando uma delas cai e quebra. Armas se espalham pela doca. Rifles, pistolas e munição reluzem à luz do sol; parecem recém-fabricadas. Provavelmente uma dúzia só naquela caixa. Outro presente para a Guarda Escarlate, outro acontecimento com raízes mais profundas que eu nem sabia que existiam.
A descoberta me faz nadar mais rápido e ultrapassar Kilorn, apesar da dor muscular. Fico abaixada sob o cais, finalmente protegida de quaisquer olhos, e meu amigo faz o mesmo.
— Está bem debaixo da gente — ele cochicha, e suas palavras ecoam de um jeito estranho, reverberando contra o cais de metal acima de nós e a água ao redor. — Posso sentir com o pé.
Quase começo a rir quando vejo Kilorn esticar as pernas e franzir a testa em concentração enquanto tenta alcançar o abrigo secreto do Galpão 1 com o dedão do pé.
— Qual é a graça? — resmunga.
— Você é tão útil — respondo com um sorriso malicioso. É boa a sensação de estarmos assim, compartilhando um mesmo objetivo secreto. Só que, desta vez, estamos invadindo um abrigo militar, não uma casa em Palafitas.
— Aqui — ele finalmente diz antes de sua cabeça desaparecer debaixo d’água. Ele sobe de novo, com os braços bem abertos para poder boiar. — A borda. Agora vem a parte difícil. Mergulhar por uma passagem escura, sufocante e cheia de água.
Kilorn logo vê o medo no meu rosto.
— Apenas segure a minha perna. É só o que precisa fazer.
Mal consigo acenar com a cabeça.
— Certo.
O poço fica na parte mais baixa do abrigo, a apenas oito metros de profundidade.
“Não é nada”, foi o que Farley disse. Bom, isto aqui com certeza parece alguma coisa, penso ao espiar a água escura sob mim.
— Kilorn, Maven vai ficar tão frustrado se o mar me matar antes dele — comento.
Qualquer outra pessoa consideraria a piada de mau gosto, mas Kilorn ri baixinho, e seus dentes brilham contra a água.
— Bom, por mais que eu goste de irritar o rei — ele suspira —, vamos evitar um afogamento, certo?
Ele pisca e mergulha de cabeça, e eu o agarro.
O sal arde nos olhos, mas a visão não é tão escura quanto eu imaginava. A luz do sol incide na água e quebra a sombra lançada pela doca. Kilorn avança rápido, se impulsionando para baixo pela lateral do galpão. A luz difusa pela água se espalha sobre as costas nuas dele e o deixa cheio de manchas, como uma criatura do mar. Me concentro sobretudo em bater as pernas quando posso, e em não ficar presa em nada.
Tem mais de oito metros, minha mente resmunga quando começo a sentir falta de ar.
Solto o ar lentamente, deixando as bolhas subirem pelo meu rosto até a superfície. A própria respiração de Kilorn passa por mim, e esta é a única evidência de cansaço dele. Quando encontra a borda inferior, sinto seus músculos tencionarem. Suas pernas começam a chutar e nos empurram para baixo do abrigo oculto. Começo a me perguntar vagamente se o poço tem uma porta e se ela está fechada. Que piada seria.
Antes de me dar conta do que está acontecendo, Kilorn se lança para cima, por dentro de alguma coisa, me içando junto. Um ar abafado — mas maravilhoso — atinge o meu rosto, e eu o inspiro profundamente, ávida por aquilo.
Já sentado na beira do poço, balançando as pernas na água, Kilorn sorri para mim.
— Você não duraria uma manhã se tivesse que desembaraçar redes — ele diz, balançando a cabeça. — Isso não foi nem um banho comparado ao que o velho Cully me obrigava a fazer.
— Você sabe mesmo me magoar — respondo, seca, me puxando para cima e para dentro da sala do coronel.
O compartimento é frio, iluminado por lâmpadas baixas e obsessivamente organizado. Equipamentos velhos estão posicionados com cuidado contra a parede direita, acumulando pó, enquanto uma escrivaninha ocupa a parede à esquerda. Pilhas de arquivos e papéis lotam o tampo da escrivaninha em fileiras ordenadas. A princípio, não vejo a cama, mas há um leito estreito que se estende a partir da escrivaninha. O coronel não deve dormir muito.
Kilorn sempre foi escravo da própria curiosidade, e agora não é diferente.
Pingando, ele caminha até a escrivaninha, pronto para explorar.
— Não toque em nada — alerto por entre os dentes enquanto torço as mangas da camisa e a barra da calça. — Deixe uma gota só cair nesses papéis e ele vai saber que alguém esteve aqui.
Ele concorda e se afasta.
— Você precisa ver isso — ele diz num tom afiado.
Vou até ele num instante, temendo o pior.
— O quê?
Com cuidado, ele aponta para a única decoração nas paredes: uma fotografia desbotada pelo tempo e pela umidade, mas com rostos ainda visíveis. Quatro figuras, todas loiras, posam com expressões sérias mas simpáticas. O coronel é uma delas, quase irreconhecível sem o olho vermelho, com o braço em volta de uma mulher alta, de ossos pronunciados, e com a mão no ombro de uma garotinha. Tanto a mulher quanto a garota vestem roupas sujas de pó. Parecem fazendeiros, mas as correntes de ouro no pescoço dizem outra coisa. Em silêncio, retiro a correntinha do meu bolso e comparo o metal tão refinado com o da foto. Com exceção da chave pendurada, são idênticos.
Com delicadeza, Kilorn tira a chave da minha mão e começa a pensar o que aquilo pode significar.
A quarta figura explica tudo: uma adolescente com uma trança longa e dourada, ombro a ombro com o coronel, sorri satisfeita. Parece tão jovem, tão diferente sem o cabelo curto e as cicatrizes. Farley.
— Ela é filha dele — Kilorn diz em voz alta, chocado demais para falar mais.
Resisto ao impulso de tocar a fotografia para ter certeza de que é real. A forma como ele a tratou na enfermaria... não pode ser verdade. Mas ele a chamou de Diana. Conhecia seu nome verdadeiro. E eles tinham as correntes: ela a da irmã, ele a da esposa.
— Vamos — murmuro, afastando Kilorn da foto com um puxão. — Não é hora de se preocupar com isso.
— Por que ela não contou? — Percebo na voz dele um pouco da traição que sinto há dias.
— Não sei.
Sem soltá-lo, vou até a porta. Escadas à esquerda, direita lá embaixo, esquerda de novo.
A porta, com suas dobradiças lubrificadas, se abre, revelando um corredor vazio bem parecido com os do mersivo: espaçoso, limpo, com paredes de metal e tubulação no teto. A eletricidade lateja acima de mim, pulsando por uma rede que vem da praia para alimentar as luzes e o maquinário.
Como Farley disse, não há ninguém aqui embaixo. Ninguém para nos deter. Suponho que, sendo filha do coronel, ela saiba tudo por experiência própria.
Silenciosos como gatos, seguimos as instruções dela, conscientes de cada passo. Lembro das celas subterrâneas no Palacete do Sol, onde Julian e eu incapacitamos um esquadrão de sentinelas com máscaras negras para libertar Kilorn, Farley e a infeliz Walsh. Isso tudo parece tão distante agora, mas foi apenas há alguns dias. Uma semana.
Apenas uma semana.
Tremo só de me perguntar onde estarei daqui a mais sete dias.
Por fim, chegamos a um corredor menor, sem saída, com três portas à esquerda e três à direita, cada uma com uma janela de observação. O vidro de todas está escuro, exceto o da última. Uma luz seca e oscilante é projetada através da janela. Um punho colide contra o vidro e eu me protejo, imaginando que Cal o estilhaçaria com a mão.
Mas a janela aguenta firme, fazendo cada bum dos murros dele ecoarem abafados, exibindo somente manchas de sangue prata.
Certamente ele me ouviu, e está pensando que sou um deles.
Quando apareço diante da janela, ele congela, contendo o punho sangrento prestes a golpear. A pulseira faiscante desliza por seu punho grosso, ainda girando por conta do movimento. É um consolo, pelo menos.
Não sabiam o suficiente para tirar sua maior arma. Mas, se é assim, por que ele continua preso? Não poderia derreter a janela e pronto?
Por um único e arrebatador momento, nossos olhos se encontram através do vidro, e penso que a intensidade do olhar vai acabar estilhaçando-o. Gotas grossas de sangue prateado escorrem do lugar em que ele acertou o soco, misturando-se com manchas já secas. Faz tempo que ele está fazendo isso, batendo até sangrar na tentativa de fugir — ou de aliviar um pouco a raiva.
— Está trancada — ele diz, com a voz abafada pelo vidro.
— Não me diga — respondo, sorrindo.
Ao meu lado, Kilorn mostra a chave.
Cal se impressiona, notando Kilorn pela primeira vez.
Ele sorri agradecido, mas Kilorn não retribui; sequer o encara nos olhos.
De algum lugar do corredor, ouço gritos. Passos.
Fazem um eco estranho no abrigo, e se aproximam a cada batida do meu coração.
Estão atrás de nós.
— Sabem que estamos aqui — Kilorn diz, bufando ao olhar para trás.
Rapidamente, ele enfia a chave na fechadura e a gira, mas a maçaneta nem se move. Me jogo de ombro contra a porta e encontro apenas o ferro frio e indiferente.
Kilorn força a chave de novo. Desta vez, estou perto o bastante para ouvir o mecanismo estalar. A porta se abre no mesmo instante em que o primeiro soldado dobra a esquina, mas só consigo pensar em Cal.
Parece que príncipes me deixam cega.
A cortina invisível cai no momento em que Kilorn me empurra para dentro da cela. É uma sensação familiar, mas não consigo lembrar de onde a conheço. Já senti isso, sei que senti, mas onde? Não tenho tempo para especular. Cal passa para o meu lado com um salto, um grito sufocado sai de seus lábios, braços estendidos. Não para mim, nem para a janela. Para a porta, que fecha com estrondo.
O ruído da fechadura ecoa na minha cabeça, de novo e de novo e de novo.
— O quê? — pergunto para o ar pesado e abafado.
Mas a única resposta de que preciso é o rosto de Kilorn, me encarando do outro lado do vidro. A chave pende do seu punho cerrado, e sua expressão é um misto de careta e choro.
Sinto muito, ele mexe os lábios sem pronunciar nada, e o primeiro soldado de Lakeland aparece à janela.
Outros surgem em seguida, ao lado do coronel. O sorriso satisfeito dele combina com o da filha na foto, e começo a compreender o que acabou de acontecer. O coronel tem até a audácia de rir.
Cal se joga contra a porta em vão, metendo o ombro no ferro sólido. A dor o faz xingar Kilorn, este lugar, ele próprio, me xingar. Mal o ouço sobre a voz de Julian na minha cabeça.
Todo mundo pode trair todo mundo.
Sem pensar, recorro aos meus raios. Minhas faíscas vão nos libertar e transformar o riso do coronel em gritos.
Mas eles não vêm. Nada. Absolutamente nada.
Como nas celas, como na arena.
— Pedras Silenciosas — Cal diz, apoiando todo o peso contra a porta. Ele aponta com o punho ensanguentado para os cantos da cela. — Eles têm Pedras Silenciosas.
Para te deixar fraca. Para te transformar em um deles.
Agora é a minha vez de esmurrar a janela, mirando os socos na cabeça de Kilorn. Mas acerto vidro, não carne, e ouço apenas o estalar dos meus próprios ossos, não o da cabeça imbecil dele. Apesar da parede entre nós, ele se encolhe.
Kilorn mal consegue me encarar, mas se arrepia quando o coronel põe a mão no ombro dele para sussurrar em seu ouvido. Ele só pode assistir enquanto grito, um urro indecifrável de frustração, e meu sangue se une ao de Cal atrás do vidro.
O vermelho escorre sobre o prateado, e ambos se misturam numa cor mais escura.

19 comentários:

  1. Kilorn é um traidor!!

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  2. Cada vez odeio mais esse lugar.
    Todos são traidores

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  3. Fdm -_-

    Não importa o por que disso >_< Minha torcida é para que ela fique com o Cal ><"

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  4. "Todo mundo pode trair todo mundo"

    Essa e umas das coisas mais importantes q já vi em um livro, porque de certa forma e verdade ;-; já aprendi isso antes de ler.

    Letícia.

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    1. Mesmo aqueles q consideramos família
      Sei como é...


      uma outra Letícia

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    2. Aprendi isso lendo As Crônicas De Gelo E Fogo.

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  5. Persenti q iria acontecer isso eles tem medo dela,eles so podem confiar um no outro ou em ninguém 😢

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  6. Nunca mais confio em ninguem. Eu tal como ela ja fui traida por quem eu pensava que podia confiar.


    TODO OMUNDO PODE TRAIR TODO O MUNDO

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  7. Se fosse traidor nao pediria desculpa alem do mais eles sao amigos

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  8. Nunca devo esquecer essa frase.
    Todo mundo pode trair todo mundo.
    Justamente Kilorn? Seu traidor!
    Cara, não dá pra confiar em mais ninguém!
    ~polly~

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  9. Como assim????Kilorn qual é o teu problema veiiii???/

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  10. Coitada da Mare. .. todos que ela confia a traem! Não esperava isso de Kilorn, por tudo que ela já fez por ele! !

    Flavia

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  11. Todo mundo pode trair todo mundo

    K ódio !

    Apaixonada por livros

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  12. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAQRAIVA!JESUS,EUJPASSEITANTARAIVAHOJE E AGORA... ISSO?!

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  13. Agora eu tenho que comentar! Quero matar Kilorn! Não acredito que ele fez isso!!

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  14. Pq sempre relaciono a Farley coma Shakira? :/ hausuhuhas

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  15. Que merda hein?😑
    Bom...Não querendo defender o Kilorn,mas...ele também não pode confiar nela.

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Boa leitura :)