15 de março de 2017

Capítulo seis

Mare

OS CARTÕES FORAM DATILOGRAFADOS com cuidado, resumindo o que preciso dizer. Não consigo nem olhar para eles e os deixo sobre a mesa de cabeceira.
Duvido muito que vou ter o luxo de criadas para me maquiar e me transformar no que quer que Maven pretenda apresentar à corte. Parece uma tarefa árdua abotoar e fechar o zíper do vestido escarlate por conta própria. Tem a gola alta, uma cauda e mangas longas para esconder não apenas a marca de Maven na minha clavícula como as algemas ainda presas aos meus punhos e tornozelos.
Não importa quantas vezes eu fuja dessas formalidades extravagantes, pareço condenada a representar um papel. O vestido vai ficar grande demais quando eu finalmente o vestir, largo nos braços e na cintura. Estou mais magra, ainda que me obrigue a comer. Com base no que consigo ver pelo reflexo na janela, meu cabelo e minha pele também sofreram sob o peso do silêncio. Meu rosto está amarelado e descarnado, com a aparência doente, enquanto meus olhos estão cercados de vermelho.
Meu cabelo castanho-escuro, as pontas ainda levemente cinzentas, está mais fino do que nunca e emaranhado na raiz. Faço uma trança apressada, mexendo nos fios cheios de nós.
Não há seda que mude minha aparência. Mas não tem importância. Não vou chegar a vestir a fantasia de Maven, se tudo correr como o planejado.
O próximo passo na minha preparação faz meu coração bater mais forte. Tento parecer calma, ao menos para as câmeras no quarto. Elas não podem saber o que estou prestes a fazer, ou não vai dar certo. E, mesmo se eu conseguir enganar os guardas, existe outro obstáculo bem grande.
Posso acabar morta.
Maven não instalou câmeras no banheiro. Não para proteger minha privacidade, mas para aplacar seu próprio ciúme. Conheço-o muito bem para saber que não permitiria que vissem meu corpo. O peso extra das Pedras Silenciosas incrustadas em toda parte é uma confirmação. Maven fez questão de que nenhum guarda tivesse motivo para me escoltar aqui dentro. Meu coração bate fraco no peito, mas me obrigo a continuar.
Preciso continuar.
O chuveiro chia e solta vapor, escaldante assim que o ligo no máximo. Se não fosse pela Pedra no banheiro, eu teria passado muitos dias aproveitando o único conforto do banho quente. Mas preciso agir rápido ou serei sufocada.
No Furo, tínhamos a sorte de nos banhar em rios frios, enquanto em Tuck os chuveiros eram cronometrados e mornos. Dou risada ao pensar no que se passava por banho em casa. Uma banheira enchida com água da torneira da cozinha, quente no verão, fria no inverno, e sabão roubado. Ainda não tenho inveja da minha mãe, que precisava ajudar meu pai a se lavar.
Com alguma sorte — muita —, voltarei a vê-los em breve.
Aponto a ducha para o piso do banheiro. A água tamborila nos ladrilhos brancos, ensopando-os. Respingos caem nos meus pés descalços e o calor estremece minha pele, suave e convidativo como um cobertor.
Enquanto a água passa por baixo da porta do banheiro, ajo rápido. Primeiro, deixo o longo caco de vidro na bancada, ao alcance do braço. Depois, vou atrás da minha verdadeira arma.
O Palácio de Whitefire é uma maravilha em todos os aspectos e meu banheiro não é exceção. É iluminado por um lustre simples, se é que isso é possível aqui: trabalhado em prata, com braços curvados de onde brotam dezenas de lâmpadas. Preciso subir na pia, desequilibrada, para alcançá-lo. Alguns puxões forçosos mas concentrados o trazem mais para baixo, deixando os fios aparentes. Ainda sobre a pia, eu agacho e apoio o lustre ainda aceso na pia, à espera.
As batidas começam alguns minutos depois. Quem quer que esteja vendo as gravações do quarto notou a água vazando. Dez segundos depois, ouço passos de duas pessoas entrando no quarto. De quais Arven não sei, mas não importa.
— Barrow! — grita a voz de um homem, acompanhada pela primeira batida na porta do banheiro.
Como não respondo, eles não perdem tempo, tampouco eu.
Ovo arromba a porta e entra, com o rosto branco quase camuflado pelas paredes ladrilhadas. Trevo não o segue, mantendo um pé dentro do banheiro e o outro no quarto. Não importa. Ambos tocam a poça de água fumegante.
— Barrow…? — Ovo diz, boquiaberto ao me ver.
Não é preciso muito para deixar o lustre cair, mas a ação parece pesada mesmo assim.
Ele se quebra no piso molhado. Quando a eletricidade atinge a água, uma onda pulsa pelo cômodo, apagando não apenas as outras luzes do banheiro, mas também as do quarto. Talvez de toda a ala.
Os dois Arven se contorcem conforme as faíscas dançam por seu corpo. Eles caem rápido, com os músculos em convulsão.
Salto sobre a água e seus corpos, quase perdendo o ar quando o peso das Pedras Silenciosas do banheiro fica para trás. As algemas ainda pesam nos meus braços e pernas, e logo começo a revistar os Arven, com cuidado para evitar a água. Reviro seus bolsos o mais rápido que posso, em busca da chave que assombra meus dias.
Tremendo, sinto uma curva de metal sob a gola de Ovo, junto ao seu esterno. Com as mãos vacilantes, puxo-a e solto cada uma das algemas. Conforme vão caindo, o silêncio vai embora. Respiro fundo tentando forçar os raios para dentro de mim. Estão voltando. Têm que estar.
Mas ainda me sinto anestesiada.
O corpo de Ovo está à minha mercê, quente e vivo nas minhas mãos. Eu poderia cortar a garganta dele e de Trevo, talhar suas jugulares com qualquer um dos pedaços afiados de vidro que escondi bem. Deveria, digo a mim mesma. Mas já perdi tempo demais. Então deixo os dois vivos.
Como era de esperar, os Arven são treinados o bastante em suas funções para terem trancado a porta do quarto atrás deles. Não importa. Um grampo serve como chave.
Abro em um segundo.
Faz alguns dias desde que saí da prisão pela última vez. Daquela vez, eu estava encoleirada por Evangeline e envolta por guardas. Agora, o corredor está vazio. Há lâmpadas queimadas no teto, ofensivas de tão vazias. Meu sentido elétrico está fraco, mal passando de uma faísca na escuridão. Ele precisa voltar. O plano não vai dar certo se não voltar. Contenho uma onda de pânico. E se tiver sumido de vez? E se Maven tirou minha eletricidade para sempre?
Corro o mais rápido que posso, apegando-me ao que conheço de Whitefire.
Evangeline me levou para a esquerda, rumo aos salões de festa, aos corredores majestosos e à sala do trono. Esses lugares vão estar repletos de guardas e oficiais, sem falar da nobreza de Norta, perigosa por si só. Então viro à direita.
É claro que as câmeras me seguem. Vejo-as em cada canto. Não sei se também estão queimadas ou se virei entretenimento para alguns oficiais. Talvez estejam apostando até onde vou chegar. A tentativa condenada ao fracasso de uma menina condenada.
Pego uma escada de serviço e quase derrubo um criado na pressa.
Meu coração salta ao vê-lo. Um menino, talvez da minha idade, com o rosto já corado enquanto segura uma bandeja de chá. Corado da cor vermelha.
— É um truque! — grito para ele. — O que vão me obrigar a fazer é um truque!
No alto da escada e ao pé dela, portas se abrem. Estou encurralada de novo. Um péssimo hábito que criei.
— Mare… — o menino diz, meu nome trêmulo em seus lábios. Ele tem medo de mim.
— Encontre um jeito. Diga à Guarda Escarlate. Diga a quem conseguir. É só mais uma mentira!
Alguém me pega pela cintura, me puxando para trás, para cima e para longe.
Mantenho o foco no criado. Os agentes uniformizados que sobem a escada o empurram de lado, pressionando-o contra a parede sem nem pensar. A bandeja cai no chão com um estrondo, derramando o chá.
— É tudo mentira! — consigo dizer antes de uma mão cobrir minha boca.
Tento soltar faíscas, buscando a eletricidade que mal consigo sentir. Nada acontece, então mordo com força suficiente para sentir o gosto de sangue.
Ele tira a mão, xingando, enquanto outra agente surge à minha frente, agarrando minhas pernas com destreza. Cuspo sangue na cara dela.
Quando me dá um tapa gracioso na cara, eu a reconheço.
— É bom ver você, Sonya — sibilo. Tento dar um chute na barriga dela, mas a mulher desvia com cara de tédio.
Por favor, imploro mentalmente, como se a eletricidade pudesse me ouvir. Nada responde e contenho um soluço. Estou fraca demais. Faz muito tempo.
Sonya é uma silfa, veloz e ágil demais para ser incomodada pela resistência de uma menina fraca. Olho para seu uniforme. Preto decorado com prata, com o azul e o vermelho da Casa Iral nos ombros. A julgar pelas medalhas em seu peito e pelos botões na gola, ela é uma agente de segurança de alta patente agora.
— Parabéns pela promoção — resmungo frustrada, tentando agir com violência, porque é tudo o que posso fazer. — Acabou o treinamento tão cedo?
Ela aperta meus pés com mais força; suas mãos são como pinças.
— É uma pena você nunca ter terminado as aulas de protocolo. — Ainda prendendo minhas pernas, ela esfrega o rosto no ombro, tentando limpar o sangue prateado da bochecha. — Precisa aprender boas maneiras.
Faz só alguns meses desde que a vi. Ao lado de sua avó Ara e de Evangeline, vestidas de preto, de luto pelo rei. Ela estava entre os muitos que me viram no Ossário, que queriam presenciar minha morte. Sua Casa é famosa pela habilidade não apenas corporal, mas mental. São todos espiões, treinados para descobrir segredos. Duvido que tenha acreditado em Maven quando ele disse que eu não passava de uma farsa, uma criação da Guarda Escarlate enviada para me infiltrar no palácio. E duvido que vá acreditar no que está prestes a acontecer.
— Eu vi sua avó — digo a ela. Uma carta ousada de se jogar.
Sua compostura impecável não se altera, mas sinto suas mãos em minhas pernas enfraquecerem, ainda que muito pouco. Então ela abaixa o queixo. Continue, está tentando dizer.
— No presídio de Corros. Faminta, enfraquecida pela Pedra Silenciosa. — Como estou agora. — Ajudei a libertá-la.
Outra pessoa poderia me acusar de mentirosa. Mas Sonya continua em silêncio, os olhos voltados para longe de mim. Para qualquer outra pessoa, pareceria desinteressada.
— Não sei quanto tempo ela passou lá, mas resistiu mais do que todos os outros. — Lembro dela agora, revirando minhas memórias. Uma mulher mais velha com a força feroz de seu codinome, Pantera. Chegou a salvar minha vida, pegando um objeto afiado em pleno ar antes que pudesse atingir minha cabeça. — Mas Ptolemus acabou a pegando. Logo antes de matar meu irmão.
Ela volta os olhos para o chão, com a sobrancelha levemente arqueada. Todo o seu corpo fica tenso. Por um segundo, penso que vai chorar, mas as lágrimas iminentes não chegam a cair.
— Como? — mal a ouço dizer.
— No pescoço. Foi rápido.
Seu próximo tapa é bem mirado, mas sem tanta força. Um espetáculo, como tudo mais neste lugar infernal.
— Guarde suas mentiras imundas para você, Barrow — ela sibila, pondo fim à nossa conversa.
Acabo largada no chão do quarto, com as duas bochechas ardendo e o peso dos quatro guardas Arven tomando conta de mim. Ovo e Trevo parecem um pouco desgrenhados, mas os curandeiros já cuidaram de seus ferimentos. Pena que não os matei.
Chocados em me ver? — digo, rindo da piada horrível.
Em resposta, Tigrina me obriga a colocar o vestido escarlate, me fazendo tirar a roupa na frente de todos. Ela prolonga a humilhação. O vestido faz a marca arder ao tocá-la. M de Maven, M de monstro, M de morte.
Ainda consigo sentir o gosto do sangue do agente de segurança quando Tigrina joga os cartões do discurso em mim.


A corte prateada foi convocada à sala do trono em força total. As Grandes Casas se reúnem em sua desordem usual. Cada cor é como um ataque, fogos de artifício de pedras preciosas e brocados. Entro no caos, acrescentando vermelho-sangue à coleção.
As portas da sala do trono se fecham atrás de mim, me aprisionando com os piores deles. As Casas abrem caminho para eu passar, formando um longo corredor da entrada até o trono. Eles murmuram enquanto caminho, notando cada imperfeição. Entendo pedaços do que falam. É claro que todos sabem da minha pequena aventura matinal. Os guardas Arven, dois na frente, dois atrás, são uma confirmação suficiente de que continuo prisioneira.
Então a mais nova mentira de Maven não é para eles. Tento descobrir suas motivações, os meandros de suas manipulações labirínticas. Ele deve ter avaliado os custos e decidido que valia a pena contar um segredo tão delicioso para seus nobres mais próximos. Eles não vão se importar com as mentiras se não forem direcionadas a eles.
Como da outra vez, o jovem rei está sentado no trono de blocos de pedra cinza, com as duas mãos segurando firme os apoios de braço. Sentinelas o protegem, ladeando a parede atrás dele, enquanto Evangeline está à sua esquerda, de pé e orgulhosa. Ela cintila, como uma estrela letal, com uma capa e um vestido de intrincadas escamas de prata. Seu irmão, Ptolemus, combina com ela, usando uma nova armadura prateada. Ele se mantém perto da irmã e do rei, como se fosse um guardião. Outro rosto amargamente conhecido está à direita de Maven. Ele não usa armadura. Não precisa de uma. Sua mente basta como arma e escudo.
Samson Merandus sorri para mim, uma visão em tons de azul-escuro e renda branca, cores que odeio mais que todas. Mais até do que prateado. Eu sou um carniceiro, ele me avisou antes do interrogatório. Não estava mentindo. Nunca vou me recuperar completamente depois que me destrinchou: feito um porco num gancho, esvaziado de sangue.
Maven avalia minha aparência e parece satisfeito. A curandeira Skonos tentou fazer algo com meu cabelo, puxando-o para trás num rabo de cavalo enquanto maquiava um pouco meu rosto cansado. Ela não ficou muito tempo, infelizmente. Seu toque era frio e relaxante enquanto dava um jeito em todos os hematomas que ganhei na fuga fracassada.
Não sinto medo enquanto me aproximo, caminhando diante dos olhos de dezenas de prateados. Há coisas muito piores a temer. Como as câmeras no alto. Ainda não estão apontadas para mim, mas em breve estarão. Mal consigo tolerar essa ideia.
Maven nos detém com um gesto, erguendo a palma da mão. Os Arven sabem o que isso significa e se afastam, deixando que eu caminhe os últimos metros sozinha. É então que as câmeras ligam. Para mostrar que estou andando sozinha, sem proteção, sem coleira, uma vermelha livre ao lado dos prateados. A imagem vai ser transmitida em toda parte, a todos que amo e a todos que gostaria de proteger. Esse simples ato pode bastar para condenar dezenas de sanguenovos e infligir um forte golpe contra a Guarda Escarlate.
— Venha para a frente, Mare.
É a voz de Maven. Não de Maven, mas de Maven. O garoto que pensei conhecer. Doce, gentil. Ele mantém essa voz guardada, pronta para ser sacada e empunhada como uma espada. Trespassa meu coração, como bem sabe. Sem querer, sinto saudade de alguém que não existe.
Meus passos ecoam no mármore. Nas aulas de protocolo, a finada Lady Blonos tentou me ensinar a me portar diante da corte. Segundo ela, o semblante ideal era frio, sem emoção ou sentimento. Não sou assim e resisto ao impulso de usar essa máscara.
Em vez dela, tento moldar minha expressão de modo que satisfaça Maven e, de alguma forma, mostre ao país que isso não é escolha minha. Caminho em uma linha dura.
Ainda sorrindo, Samson dá um passo para o lado, deixando um espaço perto do trono. Estremeço, mas faço o que devo. Fico ao lado direito de Maven.
Que imagem deve ser essa. Evangeline de prata, eu de vermelho, e o rei de preto entre nós.

20 comentários:

  1. Mare teve seu momento Nazaré Tedesco pra... Nada!

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  2. Tao bosta essa piada q eu quase morri d rir da cara dela mds q bosta kkkkk

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  3. Tanto esforço pra nada...

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  4. Achei q ela ia conseguir :p Mare ta no fundo do poço ( Mas o bom de chegar no fundo do poço, é q só temos uma direção á ir: pra cima!). Vamos ver o q vai dar.

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  5. Só eu que estou quase morrendo aqui??

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  6. Não sei mais o que pensar desse livro. Altas emoções

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  7. Chocados em me ver... kkkk
    A piada é tão ruim que é boa.
    Anda Mare, se vingue desse rei imprestável lindo!
    ~polly~

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  8. Estou sentindo falta do Cal.. Espero que a Mare fuja logo.

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  9. É tão chato ela ficar se prendendo a essa versão inexistente do Maven. É gostar de sofrer só pode.

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  10. Queria que o Maven desse um beijão nela,mesmo ele sendo um FDP.

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Boa leitura :)