13 de março de 2017

Capítulo seis

A MAIOR PARTE DA REFEIÇÃO É INSOSSA: um mingau cinzento morno. Só o peixe é bom: bacalhau tirado direto do mar. Tem gosto de sal e oceano, como o ar da região.
Kilorn fica maravilhado, perguntando-se inutilmente que tipo de rede a Guarda usa. Nós estamos numa rede, seu idiota, quero gritar, mas o refeitório não é lugar para isso. Aqui também há pessoas de Lakeland, todos resignados em seus trajes azul-escuros.
Enquanto os rebeldes de uniforme vermelho comem com o resto dos refugiados, os de Lakeland jamais se sentam, permanecendo em ronda constante. Lembro dos agentes de segurança e sinto um calafrio familiar. Tuck não é tão diferente de Archeon. Facções diferentes rivalizam pelo controle, e estou bem no meio. E Kilorn, meu amigo, meu amigo mais antigo, talvez não acredite que isso é perigoso. Ou pior: talvez entenda, mas não se importe.
Meu silêncio continua. É quebrado apenas pelas mordidas no peixe. Eles me observam de perto, como foram instruídos. Minha mãe, meu pai, Kilorn, Gisa: todos fingem não me observar, mas eu percebo. Os garotos voltam ao leito de Shade. Como eu, acreditavam que ele estava morto, e agora querem recuperar o tempo perdido.
— E então, como vocês vieram parar aqui? — As palavras parecem grudadas na minha boca, mas forço a saída. É melhor eu fazer minhas perguntas antes que façam as deles.
— De barco — meu pai responde grosseiramente entre uma colherada e outra.
Ele ri um pouco da própria piada. Abro um pequeno sorriso para agradar.
Minha mãe o cutuca, estalando a língua de irritação.
— Você sabe o que ela quis dizer, Daniel.
— Não sou burro — ele resmunga, tornando a enfiar a colher na tigela. — Dois dias atrás, por volta da meia-noite, Shade surgiu na varanda. Quer dizer, surgiu mesmo, do nada. — Ele gesticula com as mãos, estalando os dedos. — Você sabe disso, não sabe?
— Sei.
— Ele quase nos matou do coração aparecendo assim do nada... e vivo.
— Imagino — balbucio, lembrando da minha própria reação ao ver Shade de novo.
Pensei em nós dois mortos, em algum lugar bem distante desta loucura. Mas, como eu, Shade apenas se tornou alguém — alguma coisa — diferente para sobreviver.
Meu pai continua, realmente agitado. Quando gesticula, a cadeira balança e faz as rodas rangerem.
— Bom, depois que a sua mãe parou de chorar em cima dele, Shade pôs mãos à obra. Começou a jogar coisas dentro de uma mala, coisas inúteis. A bandeira da varanda, as fotos, sua caixa de cartas... Não fazia sentido, mas é difícil perguntar alguma coisa para um filho que voltou dos mortos. Quando ele disse que precisávamos sair naquele instante, deu pra ver que não estava brincando. Então saímos.
— E o toque de recolher? Vocês poderiam ter sido mortos!
As Medidas ainda estavam nítidas na minha mente. Eram espinhos na minha pele. Como poderia esquecê-las quando eu mesma fui forçada a anunciá-las?
— Tínhamos Shade e seus... seus... — Meu pai sofre para encontrar a palavra certa, gesticulando.
Gisa revira os olhos, incomodada com os trejeitos do nosso pai.
— Ele chama de saltos, lembra?
— Isso — ele confirma. — Shade nos fez saltar para além das patrulhas, para dentro da floresta. De lá, fomos para o rio e para o barco. O transporte de cargas ainda é permitido à noite, você sabe, então acabamos confinados dentro de uma caixa de maçãs por sabe-se lá quanto tempo.
Minha mãe fica tensa só de lembrar.
— Maçãs podres — ela acrescenta.
Gisa ri um pouco. Meu pai quase ri também. Por um momento, o mingau cinza se transforma no guisado ruim da minha mãe, as paredes de concreto são de madeira mal cortada, e a cena vira um jantar no lar dos Barrow.
Estamos em casa de novo, e sou apenas Mare.
Deixo o tempo passar, ouvindo e sorrindo. Minha mãe fica tagarelando, então não preciso falar, o que me permite comer em uma paz silenciosa. Ela até repele a curiosidade da multidão no refeitório, encarando qualquer um que me lance o olhar maldoso que conheço tão bem. Gisa também faz sua parte, distraindo Kilorn com as últimas notícias de Palafitas. Ele ouve, interessado, e ela morde o lábio, contente em ter a atenção dele. Acho que a quedinha que sentia pelo meu amigo ainda não acabou.
Isso deixa meu pai sozinho, sorvendo à vontade sua segunda porção de mingau. Ele me espia por cima da tigela, e vislumbro o homem que foi um dia. Alto, forte, um soldado orgulhoso, uma pessoa de quem mal me lembro, tão distante do que é agora. Mas, assim como eu, como Shade, como a Guarda, meu pai não é o coitado, o bobo que aparenta.
Apesar da cadeira, da perna que falta e dos ruídos mecânicos no peito, já viu mais batalhas e sobreviveu por mais tempo que muitas pessoas. Ele perdeu a perna e o pulmão apenas três meses antes de receber a baixa, depois de quase vinte anos de serviço militar. Quantos chegaram tão longe?
Parecemos fracos porque queremos. Talvez essas palavras não sejam de Shade afinal, mas do nosso pai.
Embora tenha acabado de descobrir minha própria força, ele esconde a dele desde que voltou para casa. Recordo a fala dele ontem, meio oculta pelos sonhos: “Sei como é matar uma pessoa”. Com certeza não duvido disso.
É estranho, mas a comida me faz lembrar de Maven — não o gosto em si, mas o ato de comer. Minha última refeição foi ao lado dele, no palácio. Bebemos em cálices de cristal e meu garfo tinha um cabo perolado. Estávamos rodeados de criados, mas sozinhos. Não podíamos conversar sobre a noite que se aproximava, mas eu não conseguia parar de lançar olhares para ele, torcendo para não perder o controle. Ele me deu tanta força naquele momento...
Acreditei que ele tinha me escolhido, escolhido a minha revolução. Acreditei que Maven era o meu salvador, minha bênção. Acreditei que ele podia nos ajudar. Os olhos dele eram tão azuis, cheios de um tipo diferente de fogo. Uma chama voraz, intensa e estranhamente fria, manchada de medo. Pensei que sentíamos medo juntos, pela nossa causa, um pelo outro.
Estava muito enganada.
Devagar, afasto o prato de peixe, que raspa o tampo da mesa. Chega.
O ruído, como um alarme, atrai o olhar de Kilorn, e ele vira a cabeça para me encarar.
— Terminou? — pergunta, vendo meu prato pela metade.
Em resposta, me levanto, e ele se põe de pé ao mesmo tempo, como um cachorro seguindo ordens.
Mas não ordens minhas.
— Podemos ir para a enfermaria? — peço.
O pedido foi feito com cuidado, para fazê-lo esquecer o que sou agora.
Ele faz quem sim, sorrindo.
— Shade está cada vez melhor. Bom, que tal um passeio, família Barrow? — acrescenta, lançando um olhar para o grupo, o mais próximo de uma família que ele já teve.
Arregalo os olhos. Tenho que falar com Shade para descobrir onde está Cal e quais os planos do coronel para ele. Por mais que tenha sentido saudade da minha família, eles só vão atrapalhar. Por sorte, meu pai compreende. Ele passa a mão rápido para baixo da mesa e interrompe minha mãe antes que ela consiga responder, se comunicando sem palavras. Ela se ajeita na cadeira, soltando um sorriso de desculpas que seus olhos não refletem.
— Vamos mais tarde, acho — ela diz, dando a entender bem mais do que isso. — Já é hora de trocar a bateria, não é?
— Saco — meu pai resmunga alto, soltando a colher dentro da tigela de gororoba.
Os olhos de Gisa saltam até os meus e leem minha necessidade. Tempo, espaço, uma chance de começar a entender esta bagunça.
— Tenho que preparar mais uns estandartes — suspira. — Vocês gastam tudo rápido demais.
Kilorn não se abala com as desculpas educadas e sorri, como sempre.
— À vontade. É por aqui, Mare.
Por mais condescendente que pareça, eu o deixo me guiar pela confusão. Faço questão de tornar a caminhada um espetáculo, mancando, mantendo o olhar baixo. Luto contra o ímpeto de encarar todos que me observam: os rebeldes, o pessoal de Lakeland, os refugiados. O que aprendi na corte do rei morto continua sendo útil na base militar, onde mais uma vez preciso esconder quem sou.
Lá, fingia ser prateada, inabalável, destemida, um pilar de força e poder chamado Mareena. Mas essa garota estaria ao lado de Cal, confinada no Galpão 1. Então preciso voltar a ser vermelha, a ser uma garota chamada Mare Barrow de quem ninguém deveria ter medo ou suspeitar, que se apoia num garoto vermelho e não nela mesma.
O aviso de meu pai e de Shade nunca foi tão claro.
— A perna ainda está doendo?
Estou tão concentrada em fingir a lesão que mal ouço as palavras preocupadas de Kilorn.
— Não é nada — respondo afinal, apertando os lábios numa linha fina de dor forçada. — Já passei por coisa pior.
— Lembro de você pulando da varanda de Ernie Wick — ele recorda com os olhos brilhando.
Quebrei a perna naquele dia, e passei meses com um gesso que custou a nós dois metade das economias.
— Não foi culpa minha — digo.
— Acho que você quis fazer aquilo.
— Me desafiaram.
— Ora, mas quem teria feito uma coisa dessas?
Ele ri descaradamente enquanto abre caminho para nós por duas portas. Fica claro que o corredor após a segunda porta é um acréscimo recente. A tinta ainda parece fresca em alguns lugares e as luzes oscilam no teto. Fiação ruim, percebo de imediato, sentindo os pontos em que a eletricidade cai e se divide. Mas um cabo de força se mantém inteiro, fluindo pela passagem à esquerda. Para minha tristeza, Kilorn nos leva pela direita.
— O que tem pra lá? — pergunto, apontando para o caminho oposto.
— Não sei — ele não mente.
A enfermaria de Tuck não é tão tenebrosa quanto o posto médico do mersivo. As janelas altas e estreitas estão escancaradas, inundando o cômodo com ar fresco e luz do sol. Jalecos brancos vão e vêm por entre os pacientes, cujos curativos felizmente estão limpos de sangue vermelho. Conversas suaves, algumas tosses secas e alguns espirros preenchem o ambiente. Não há um único gemido de dor ou estalido de osso. Ninguém aqui está morrendo. Ou quem estava simplesmente já morreu.
Não é difícil encontrar Shade, que desta vez não está dormindo. Sua perna ainda está levantada, apoiada numa tipoia mais profissional, e o curativo em seu ombro é novo. Inclinado para a direita, ele encara o leito do lado com uma expressão resignada.
Ainda não consigo saber com quem está falando. Duas cortinas — uma de cada lado do leito — escondem o ocupante do resto da enfermaria. Ao nos aproximarmos, vejo que a boca de Shade se move rápido, sussurrando palavras que não consigo decifrar.
Ele interrompe a conversa ao me avistar, e tenho a sensação de ser traída.
— Você acabou de perder a chance de ver os brutamontes — ele anuncia, se ajeitando no leito para me dar espaço. Uma enfermeira se dispõe a ajudar, mas ele pede que ela se afaste, gesticulando com a mão inchada.
Os brutamontes. É o velho apelido que deu aos nossos irmãos. Shade não cresceu muito, então servia de saco de pancada para Bree com frequência. Tramy era mais bondoso, mas sempre seguia os passos violentos de Bree. Com o tempo, Shade se tornou mais esperto e ligeiro que os dois e conseguia escapar, e me ensinou a fazer o mesmo. Não duvido que ele tenha pedido para eles saírem de lá a fim de ter mais privacidade para falar comigo — e com quem quer que esteja do outro lado da cortina.
— Ótimo. Eles já estão me dando nos nervos — respondo com um sorriso bem-humorado.
Vendo de fora, a gente talvez pareça apenas dois irmãos alegres. Mas Shade é esperto, e seus olhos escurecem quando chego ao pé do leito. Ele nota meu passo manco forçado e faz um aceno milimétrico com a cabeça. Imito o gesto. Mensagem recebida, Shade, alta e clara.
Antes mesmo de eu insinuar uma pergunta sobre Cal, outra voz me interrompe.
Cerro os dentes ao ouvi-la, me esforçando para manter a calma.
— O que está achando de Tuck, garota elétrica? — Farley pergunta do leito isolado ao lado de Shade. Ela joga as pernas para fora e me encara, segurando o lençol com os punhos cerrados. A dor atravessa seu lindo rosto arruinado pela cicatriz. É uma pergunta fácil de driblar.
— Ainda estou decidindo.
— E o coronel? O que acha dele? — ela continua, baixando a voz. Seus olhos estão alertas, indecifráveis.
Não há como saber o que ela quer ouvir. Então, em vez de responder, dou de ombros e me ocupo com a arrumação dos cobertores de Shade.
Os lábios dela se contorcem para formar algo semelhante a um sorriso.
— Ele costuma causar uma tremenda primeira impressão. Precisa provar que está no comando cada vez que respira, especialmente perto de gente como vocês dois.
Contorno o leito de Shade rapidamente, postando-me entre Farley e meu irmão. No meu desespero, esqueço de mancar.
— É por isso que ele levou Cal? — disparo rápida e afiada. — Não dá para deixar um guerreiro como ele à solta por aí arruinando a reputação do coronel?
Ela baixa os olhos, envergonhada.
— Não é por isso que ele levou o príncipe.
O medo brota no meu coração.
— Então por quê? O que ele fez?
Ela não tem chance de me contar.
Um silêncio estranho recai sobre a enfermaria, sobre as enfermeiras, sobre meu coração e sobre as palavras de Farley. Não conseguimos ver a porta atrás das cortinas dela, mas escuto botas marchando rápido.
Ninguém fala, embora alguns soldados batam continência nos leitos à medida que o ruído das botas se aproxima. Couro preto coberto de areia molhada, cada vez mais perto. Até Farley se arrepia ao vê-las se aproximando, e crava as unhas no colchão.
Kilorn chega mais perto, me escondendo um pouco com seu tamanho, enquanto Shade faz o máximo para conseguir sentar.
Mesmo que o pavilhão médico esteja lotado de vermelhos feridos e supostos aliados, uma pequena parte de mim pede o poder do raio. A eletricidade se acende no meu sangue bem ao meu alcance, caso eu precise.
O coronel contorna a cortina com o olho vermelho fixo e fulminante. Para minha surpresa, seu olhar pousa em Farley, me poupando por enquanto. Os acompanhantes — de Lakeland, pelo uniforme — parecem versões pálidas e sombrias do meu irmão Bree. São um conjunto de músculos, altos como árvores, e obedientes. Ladeiam o coronel em movimentos treinados, assumindo posições ao pé dos leitos de Farley e Shade. O coronel fica parado entre eles, encurralando Kilorn e eu. Provando que está no controle.
— Escondida, capitã? — o coronel pergunta, batucando a cortina do leito de Farley.
Ela bufa ao som da patente e da insinuação. Quando ele estala a língua, desdenhando, dá para ver o corpo dela estremecer.
— Você sabe que o fato de ter público não vai te proteger — o coronel prossegue.
— Tentei fazer tudo o que você pediu, o difícil e o impossível — ela contra-ataca. Suas mãos tremem, agarradas aos cobertores. Tremem de raiva, não de medo. — Você me deixou cem soldados para derrubar Norta, um país inteiro. O que esperava, coronel?
— Esperava que você voltasse com mais do que vinte e seis deles. — A réplica cai pesada sobre Farley. — Esperava que você fosse mais inteligente que um principezinho de dezessete anos. Esperava que você protegesse seus soldados, não que os atirasse num covil de lobos prateados. Esperava muito mais de você, Diana, mais do que você me deu.
Diana. O nome é o golpe de misericórdia. Seu nome verdadeiro.
Os tremores de raiva de Farley se transformam em vergonha e a reduzem a uma casca vazia. Ela encara os pés, cravando os olhos no chão. Conheço bem a expressão no rosto dela, a expressão de uma alma arrasada. Uma palavra, um movimento, e tudo desaba. Na verdade, ela já está começando a se desfazer, arruinada pelo coronel, pelas palavras dele e pelo próprio nome.
— Eu a convenci, coronel.
Parte de mim deseja que minha voz saia trêmula, para que esse homem ache que tenho medo dele. Mas já encarei coisa muito pior do que um soldado mal-humorado com o olho ensanguentado. Muito, mas muito pior.
Gentilmente, empurro Kilorn para o lado e dou um passo à frente.
— Dei minha palavra sobre Maven e o plano dele. Se não fosse por mim, seus homens e mulheres estariam vivos. O sangue deles está nas minhas mãos.
Para minha surpresa, o coronel apenas ri da minha declaração.
— Nem tudo gira ao seu redor, srta. Barrow. O sol não se põe ou se levanta ao seu comando.
Não foi isso o que eu quis dizer. Essa resposta soa idiota, mesmo dentro da minha cabeça.
— Os erros são dela e de mais ninguém — ele continua, voltando a encarar Farley. — Você está destituída do seu comando, Diana. Algum questionamento quanto a isso?
Por um breve e intenso momento, Farley dá a entender que sim. Mas em seguida baixa a cabeça e se fecha.
— Não, senhor.
— Essa é a sua melhor decisão em semanas — ele emenda, se virando para ir embora.
Mas Farley ainda não terminou. Ela levanta o olhar mais uma vez.
— E a minha missão?
— Missão? Que missão? — O coronel parece mais intrigado do que irritado, e seu olho bom salta da órbita. — Não fui informado de novas ordens.
Farley olha para mim e sinto uma simpatia estranha por ela. Mesmo derrotada, ela ainda luta.
— A srta. Barrow tinha uma pista interessante, que pretendo seguir. Creio que o Comando vai concordar.
Quase sorrio para Farley, encorajada por sua declaração diante de um oponente como esse.
— Que pista é essa? — o coronel quer saber, voltando-se para mim. Ficamos tão próximos que consigo ver os diversos redemoinhos de sangue se movendo devagar no olho dele, como nuvens ao vento.
— Recebi uma lista de nomes. De vermelhos como meu irmão e eu, nascidos com a mutação responsável pelos nossos... poderes. — Preciso convencê-lo. Preciso. — Eles podem ser encontrados, protegidos e treinados. São vermelhos como nós, mas fortes como os prateados, capazes de lutar contra eles em campo aberto. Talvez até poderosos o bastante para ganhar a guerra. — Minha respiração sai trêmula e ruidosa, e meu peito se agita quando penso em Maven. — O rei sabe da lista, e com certeza vai matar todos se não os encontrarmos primeiro. Ele não vai deixar uma arma tão poderosa passar — finalizo.
O coronel se cala por um instante; só sua mandíbula se move enquanto ele pensa. Ele chega até a correr os dedos pela correntinha escondida debaixo da gola. Consigo entrever os elos de ouro entre os dedos dele, um prêmio tão caro que nenhum soldado poderia ter.
Gostaria de saber de quem a roubou.
— E quem te deu esses nomes? — ele pergunta num tom difícil de interpretar. Para um bruto, ele tem uma capacidade surpreendente de esconder o que pensa.
— Julian Jacos — respondo. Meus olhos se enchem de lágrimas ao dizer o nome, mas não as deixo cair.
— Prateado — o coronel desdenha.
— Simpatizante — rebato, bufando. — Foi preso por resgatar a capitã Farley, Kilorn Warren e Anna Walsh. Ele ajudou a Guarda Escarlate, ficou do nosso lado. E provavelmente está morto por isso.
O coronel inclina o corpo para trás, apoiado nos calcanhares, ainda com um ar de desprezo.
— Ah, o seu Julian ainda está vivo.
— Vivo? — balbucio, chocada. — Mas Maven disse que o mataria...
— Estranho, não é? O rei Maven deixar um traidor desses respirando? — ele diz, achando graça na minha surpresa. — A meu ver, o tal Julian nunca esteve do seu lado. Ele lhe deu a lista para que você a passasse para nós, assim a Guarda ficaria procurando por uma coisa que não existe e cairia em outra armadilha.
Todo mundo pode trair todo mundo. Mas me recuso a acreditar que Julian seja capaz disso. Eu o conheço bem o suficiente para saber onde ele pôs a lealdade: em mim, em Sara e em qualquer um que se oponha à rainha que matou a irmã dele.
— E mesmo assim, se a lista for verdadeira e os nomes realmente levarem a outras... — Ele procura a palavra sem se preocupar em ser educado. — ... coisas como você, e daí? Vamos nos esgueirar entre os piores agentes do reino, mais rápidos e preparados do que nós, para encontrá-las? Tentamos um êxodo em massa com as que conseguirmos salvar? Fundamos uma Escola Barrow para Aberrações e passamos anos treinando-os para lutar? Ignoramos todo o resto, os soldados, as crianças, as execuções, por causa deles?
O coronel balança a cabeça, fazendo os músculos grossos do seu pescoço saltarem.
— Esta guerra vai ter acabado e nossos corpos estarão frios antes de avançarmos um milímetro sequer nessa sua missão. — Ele vira para Farley, nervoso. — O resto do Comando vai dizer a mesma coisa, Diana, então a não ser que você queira bancar a idiota de novo, sugiro que fique quieta.
Cada um dos argumentos dele é como um golpe de martelo que me esmaga. Ele está certo sobre algumas coisas. Maven vai enviar quem tem de melhor para caçar e matar as pessoas da lista. Vai tentar manter tudo em segredo, o que deixará as coisas um pouco mais lentas.
Certamente vamos encontrar uma armadilha. Mas, se existir ao menos uma chance de encontrar outro soldado como eu, como Shade, será que o risco não vale a pena?
Abro a boca exatamente para lhe dizer isso, mas ele ergue a mão.
— Não quero ouvir mais nada sobre isso, srta. Barrow. E, antes que você faça algum comentário insolente e me desafie a detê-la, lembre-se do seu juramento. Você prometeu ser leal à Guarda Escarlate, e não aos seus motivos egoístas. — Ele aponta para os soldados feridos que lotam a enfermaria, todos machucados por lutar por mim. — E se o rosto deles não basta para manter você na linha, lembre-se do seu amigo e da situação dele aqui.
Cal.
— Você não ousaria machucá-lo.
O olho vermelho dele escurece, revirando-se de raiva.
— Para proteger os meus soldados, pode apostar que sim. — O canto dos seus olhos se erguem, revelando um sorriso malicioso. — Igual a você. Não se engane, srta. Barrow. Você feriu pessoas para alcançar os próprios objetivos. Sobretudo o príncipe.
Por um instante, é como se meus olhos estivessem nublados de sangue. Só enxergo vermelho, um ódio lívido. As faíscas correm para a ponta dos meus dedos, dançando embaixo da pele, mas cerro os punhos e as contenho. Quando minha vista clareia, as luzes oscilando no teto são o único indício da minha fúria, e o coronel já não está mais presente. Nos deixou a sós e em ebulição.
— Calma, garota elétrica — Farley murmura, sua voz mais suave do que jamais ouvi. — Nem tudo está tão ruim.
— Não? — vocifero entre os dentes.
Minha única vontade é explodir, deixar meu verdadeiro eu sair e mostrar a essa gente fraca exatamente com quem estão lidando. Mas com isso eu só conseguiria uma cela, no melhor dos casos, ou um tiro, no pior. E teria que morrer com a consciência de que o coronel está certo. Já causei muitos danos, e sempre às pessoas mais próximas.
Porque achei que tinha razão, digo a mim mesma. Porque achei que era o melhor a fazer.
Em vez de me consolar, Farley endireita a coluna, senta apoiada na cabeceira da cama e me assiste fumegar. O ar de criança envergonhada desaparece com uma facilidade chocante. Outra máscara. A mão dela sobe até o pescoço e puxa uma corrente de ouro igual à do coronel. Não tenho tempo para especular sobre essa ligação. Porque algo pende do colar. Uma chave de ferro pontuda. Não preciso perguntar onde está a fechadura correspondente. Galpão 1.
Como se não fosse nada, Farley joga a chave para mim com um sorriso preguiçoso na cara.
— Logo você vai perceber que sou ótima para dar ordens, mas péssima para segui-las.

20 comentários:

  1. cara a mare ta se achando de mais pro meu gosto.

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    1. Tambem acho. Ela não é mais forte do que alguém que passou a vida inteira treinando co poderes... De nada adianta força sem experiencia

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  2. CONCORDO, A POBE FOI A MAIS BURRA DE TODOS, E TA SE ACHANDO A PODEROSONA...KKKKKK ESPERO QUE ELA SEJA ISSO TUDO MESMOS -_-

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  3. Nossa, acho q me identifiquei com alguma deusa romana...

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  4. Também gosto muito da Diana. Já a Mare me dá tanta raiva que tenho que dar uma pausa no livro de vez em quando e dar uma voltinha.

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    1. to contigo. A Diana e o Shade são os melhores persoangens até agr. Já a Mare... um saco.

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  5. Farley e Mare....sera que???kkkkkk

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    1. miga....não pira!!!!!!

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  6. Mare está abusando demais...Mas concordo com ela. E Farley <3

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  7. Gente se toquem. Ela É a dona da poha toda. Só de ela se controlar e saber que não pode fazer tá ótimo

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    1. Mas não significa que tenha que ficar se achando tanto. Comecei o livro com tantas expectativas, porém a autora ta me decepcionando com esse modo de agir da Mare... realmente quero que ela quebre a cara mais para a frente e veja que não é isso tudo, aliás autores deveriam dar um fim no protagonismo.

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    2. Ahh... pode ter certeza que ela quebra a cara sim!
      E quebra bem feio mesmo!

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  8. Só um detalhe, esse coronel, o titulo coronel é da Guarda escarlate ou ele é coronel de Lakalande?
    Pois se for coronel de Lakalande (o que acho mais provavel, pois usam o azul do pais e tem todos os agentes, se ele não fosse da elite de lá, e apenas um oficial da Guarda que veio de Lakalande usaria o vermelho), reparem que a Mare diz que ele tem sangue Vermelho no olho, ou seja Lakalande teria um patente militar vermelho (levando em conta que eles tem o mesmo tipo de sociedade de Norta).
    Enfim não entendi isso...

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    1. Da Guarda Escarlate. Lá cada integrante tem uma patente.. Como um exército, mesmo

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  9. Ainda desconfio mt desse coronel. Desconfio do comando, afinal eles são de lakalande(inimigos de norta). Se eles n qrem criar um exercito de sanguesnovos de norta, pode ser q seja por medo de depois de derrubar o rei esse exercito se volte contra lakalande.
    Acho q o objetivo do comando é acabar com norta.

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  10. Vamo abaixa um pouco a bola ai mare

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  11. "Minha única vontade é explodir, deixar meu verdadeiro eu sair e mostrar a ESSA GENTE FRANCA exatamente com quem estão lidando."
    Gente a Mare tá se achando muito, ela ñ é td isso ñ, vai quebrar muito a cara ainda

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    1. Pois eu n acho! Ela é sim muito poderosa mas nós só vemos oque a autora do livro deixa a gente ver sobre ela,n sabemos do que ela é capaz,se ela diz que quer mostrar seu verdadeiro ser,quer dizer que ela esconde algo muito maior do que a gente pensa,agr pensem só: ela é elétricidade viva! Pensem só oque esse poder significa! Ela poderia matar ou desligar tudo num piscar de olhos,ela n está se "achando" ela está dizendo a verdade ela é mais poderosa do que qualquer um aí!

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Boa leitura :)