3 de março de 2017

Capítulo seis

NÃO ME ASSUSTO QUANDO ESCANCARAM AS PORTAS AO AMANHECER. Revistas são normais, embora geralmente só tenhamos duas por ano. Esta vai ser a terceira.
— Venha, Gi — balbucio ao ajudar minha irmã a sair da cama e descer a escada. Ela anda com dificuldade, apoiando-se no braço bom. Lá embaixo, minha mãe está à espera. Seus braços envolvem Gisa, mas os olhos focam em mim. Para minha surpresa, ela não parece brava ou decepcionada comigo. Pelo contrário, seu olhar é até suave.
Dois agentes esperam à porta, armas na cintura. Já vi os dois no entreposto do vilarejo, mas há uma terceira figura: uma jovem de vermelho com uma insígnia tricolor no peito. Uma criada real, uma vermelha que serve o rei. Percebo que esta não vai ser uma revista usual.
— Submetemo-nos à revista e à apreensão — meu pai resmunga. Ele é obrigado a dizer essas palavras sempre que isso acontece. Mas, em vez de dividir-se para revirar a casa, os agentes permanecem de guarda.
A jovem dá um passo à frente e, para meu horror, se dirige a mim:
— Mare Barrow, você foi intimada a ir a Summerton.
A mão boa de Gisa se fecha sobre a minha, como se pudesse me prender aqui.
— Como? — gaguejo a muito custo.
— Você foi intimada a ir a Summerton — ela repete, apontando para a porta. — Vamos escoltá-la. Por favor, venha.
Uma intimação. Para um vermelho. Nunca na vida ouvi falar disso. Então, por que eu? O que fiz para merecer isso?
Por outro lado, sou uma criminosa e provavelmente considerada terrorista por causa do meu envolvimento com Farley. Sinto todos os nervos do meu corpo pinicarem; cada um dos meus músculos está tenso e pronto. Preciso correr, apesar dos agentes bloquearem a porta. Vai ser um milagre se conseguir chegar até a janela.
— Acalme-se. Tudo já voltou ao normal — ela brinca, enganada quanto ao meu medo. — O Palacete e a feira já estão sob controle. Por favor, venha.
Para minha surpresa, ela até sorri, apesar de os agentes levarem a mão à arma. Isso gela meu sangue. Negar uma ordem da polícia, recusar uma intimação real significa pena de morte não apenas para mim.
— Tudo bem — digo baixinho enquanto solto a mão de Gisa. Ela tenta me agarrar de novo, mas mamãe a puxa para trás. — Vejo vocês mais tarde?
Minha pergunta paira no ar. Sinto a mão cálida de meu pai acariciar meu braço. É seu jeito de dizer adeus. Os olhos de minha mãe marejam de lágrimas não derramadas, ao passo que Gisa tenta não piscar a fim de se lembrar de cada segundo comigo. E nem tenho algo para lhe dar. Mas, antes que eu hesite ou solte o choro, um policial me toma pelo braço e me leva para fora.
As palavras forçam passagem por entre meus lábios, embora sejam pouco mais que um suspiro.
— Amo vocês.
E então a porta bate atrás de mim, acabando com meu lar e minha vida.
Eles me apressam pelo vilarejo ao longo da estrada que dá para a praça do mercado. Passamos na frente do casebre de Kilorn. Ele costumava estar acordado a essa hora, já na metade do caminho até o rio para começar o trabalho com o dia ainda fresco. Mas isso acabou. Imagino que ele durma até meio-dia na tentativa de aproveitar o pouco conforto que lhe resta antes do recrutamento. Parte de mim quer dar um grito de despedida, mas me seguro.
Ele vai aparecer em casa atrás de mim e Gisa contará tudo. Lembro que hoje Farley estará esperando por mim e pela fortuna que teria que pagar. Não consigo segurar um riso silencioso.
Ela vai ficar decepcionada.
Na praça, um veículo preto brilhante está à espera. Estacionado com quatro rodas, janelas de vidro: parece uma fera pronta para me devorar. Um oficial sentado diante dos controles liga o motor quando nos aproximamos. A cusparada de fumaça preta tinge o ar matinal. Sou forçada a entrar na parte de trás sem que me digam qualquer coisa. A jovem criada se ajeita ao meu lado pouco antes de o veículo acelerar pela estrada a uma velocidade inimaginável. Esta será minha primeira — e última — viagem num destes.
Quero falar, perguntar o que está acontecendo, como vão me punir pelos meus crimes, mas sei que minhas palavras não seriam ouvidas. Então apenas olho pela janela o vilarejo desaparecer à medida que entramos na floresta, avançando pela familiar estrada do norte. Não está tão cheia quanto ontem, e o trajeto está pontilhado de agentes. “O Palacete está sob controle”, tinha dito a criada. Acho que era a isso que ela se referia.
A muralha de diamante brilha adiante, refletindo o sol que se levanta nos bosques. Quero fechar os olhos, mas resisto. Sei que tenho que mantê-los abertos aqui.
O portão está cercado de uniformes pretos, agentes que verificam os viajantes que entram.
Quando o veículo encosta, a criada me tira de lá e me conduz até o portão sem pegar a fila. Ninguém protesta ou se dá ao trabalho de verificar sua identidade. Ela deve ser conhecida por aqui.
Assim que entramos, a criada me encara.
— Meu nome é Ann, a propósito, mas aqui quase sempre atendemos pelo sobrenome. Você pode me chamar de Walsh.
Walsh. O nome soa familiar. Combinado com o seu cabelo desbotado e com a pele bronzeada, só pode significar uma coisa.
— Você é de...?
— De Palafitas, como você. Conheci seu irmão Tramy e gostaria de não ter conhecido Bree, aquele safado.
Bree ficou famoso no vilarejo antes de partir. Uma vez me disse que não tinha tanto medo do recrutamento como os outros porque o grupo de garotas sedentas de sangue que ele ia deixar para trás era bem mais perigoso.
— Não conheço você, mas logo conhecerei muito bem.
Não consigo mais segurar:
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que sua jornada de trabalho aqui vai ser longa. Não sei quem contratou você ou o que disseram sobre o emprego, mas cedo ou tarde você sente o peso. Não é só trocar lençóis e fronhas e lavar pratos. Você precisa olhar sem ver, ouvir sem escutar. Somos objetos aqui, estátuas vivas feitas para servir. — Ela suspira baixo e abre uma porta pesada construída bem ao lado do portão. — Especialmente com esse negócio de Guarda Escarlate. Nunca é bom ser vermelho, mas agora é pior.
Ela cruza a porta e, aparentemente, também o muro. Leva um tempo para eu perceber que está descendo uma escada, e por isso sumiu em meio à semiescuridão.
— O emprego? — insisto. — Que emprego? O que é isso?
Ela se vira para mim com cara de tédio.
— Você foi intimada a assumir um posto de criada — diz, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Trabalhar. Um emprego. Quase desmaio só de pensar.
Cal. Ele disse que tinha um bom trabalho — e agora mexeu os pauzinhos para que eu também tivesse. Talvez até trabalhe com ele. Meu coração dispara diante da possibilidade, sabendo o que isso implica. Não vou morrer, não vou para a guerra. Vou trabalhar e viver. E, mais tarde, quando encontrar Cal, posso convencê-lo a fazer o mesmo por Kilorn.
— Continue andando. Não tenho tempo para levar você pela mão.
Sigo Walsh por um túnel incrivelmente escuro. Pequenas lâmpadas brilham na parede o suficiente para iluminar o encanamento e a fiação sobre nós. Há um zunido por causa da água corrente e da eletricidade.
— Onde vamos? — sussurro finalmente.
Quase ouço o desânimo de Walsh, que finalmente se volta para mim, confusa:
— Para o Palacete do Sol, claro.
Sinto meu coração parar por um segundo.
— Quê? Como? O palácio? O palácio de verdade?
Ela dá um tapinha na insígnia no uniforme. A coroa reluz sob a luz baixa.
— Você serve ao rei agora.


Prepararam um uniforme para mim, mas quase não o noto. O cenário é maravilhoso demais para isso: tijolinhos de argila e um piso com mosaicos brilhantes num cômodo esquecido na casa do rei. Outros criados correm para lá e para cá num desfile de uniformes vermelhos. Presto atenção nos rostos, procurando por Cal para poder agradecer, mas ele não aparece.
Walsh permanece ao meu lado, sussurrando conselhos:
— Não diga nada. Não escute nada. Não fale com ninguém, pois ninguém vai falar com você.
Mal consigo guardar as palavras. Os últimos dois dias foram uma ruína para meu coração e minha alma. Parece que a vida simplesmente decidiu abrir as comportas para tentar me afogar num redemoinho de reviravoltas.
— Você chegou num dia cheio, talvez o pior que veremos.
— Vi os barcos e dirigíveis. Faz semanas que os prateados estão subindo o rio — comento.
— Não é normal, mesmo para esta época do ano.
Walsh me apressa e bota uma bandeja com taças brilhantes nas minhas mãos. Com certeza eu poderia comprar minha liberdade e a de Kilorn com elas, mas o Palacete tem um guarda em cada porta ou janela. Nunca conseguiria escapar de tantos agentes, nem com toda a minha habilidade.
— O que vai acontecer hoje? — pergunto, demonstrando minha ignorância. Uma mecha escura de cabelo cai sobre meus olhos. Nem tenho chance de soprá-la para cima: Walsh a bota de volta no lugar e prende com um grampo minúsculo, com movimentos rápidos e precisos. — Fiz uma pergunta idiota? — emendo.
— Não. Eu também não sabia disso antes de começarmos os preparativos. Afinal, há mais de vinte anos isso não acontece, desde a escolha da rainha Elara — ela começa, tão rápida que quase não distingo as palavras. — Hoje é a Prova Real. As filhas das Grandes Casas, das mais ilustres famílias prateadas, vieram se oferecer ao príncipe. Vai acontecer uma grande festa, mas agora elas estão no Jardim Espiral, preparando-se para se apresentar ao príncipe na esperança de serem escolhidas. Uma dessas meninas será a próxima rainha. Estão brigando com unhas e dentes pela chance.
Uma imagem de um bando de pavões me vem à mente.
— Mas como é? Elas dão uma voltinha, dizem umas palavras e piscam pra ele?
Walsh torce o nariz e balança a cabeça.
— Improvável... — responde. Em seguida, com brilho nos olhos, anuncia: — Você está escalada para hoje, então vai ter a chance de ver com os próprios olhos.
A porta agiganta-se adiante, feita de madeira esculpida e vidro trabalhado. Um criado a abre para dar passagem a uma fila de uniformes vermelhos. Então chega minha vez.
— Você não vem? — Até eu ouço o desespero na minha voz, quase implorando para Walsh vir comigo. Mas ela recua e me deixa só. Antes de atrasar a fila ou arruinar de outro jeito o grupo organizado de criados, forço-me a seguir em frente e sair ao sol naquilo que Walsh chamou de Jardim Espiral.
No começo, sinto que estou em outra arena como a do meu vilarejo. O terreno desce em círculos para formar um anfiteatro imenso, mas, em vez de bancos de pedra, cada curva está apinhada de mesas e cadeiras aveludadas. Plantas e fontes enfeitam os degraus, fazendo assim a divisão dos camarotes. Elas convergem até a parte inferior para fazer parte da decoração de um círculo de grama com algumas estátuas. Diante de mim, está uma área reservada, separada por sedas vermelhas e negras. Ali, há quatro assentos, todos feitos de ferro bruto e direcionados para o centro do complexo.
O que é este lugar?
O trabalho tem um ritmo frenético. Apenas sigo ordens de outros vermelhos. Sou auxiliar de cozinha, então minhas responsabilidades são limpar, ajudar os cozinheiros e, no momento, preparar a arena para o evento. Para quê a nobreza precisa de arena, não sei bem. No vilarejo ela apenas é usada para as Efemérides, para assistir às lutas de prateado contra prateado. O que acontece aqui? Isto é um palácio. Este chão nunca será manchado de sangue. Ainda assim, a pseudoarena me enche de maus presságios. Volto a sentir meu corpo pinicar, e a sensação se propaga como ondas sob minha pele. Quando eu terminar e voltar para a entrada de serviço, a Prova Real já estará prestes a começar.
Os criados saem cada vez mais da região dos assentos e passam para uma plataforma alta rodeada de cortinas. Sigo seus passos meio desajeitada e chego à fila tropeçando quando outra porta se abre, separando o camarote real e a entrada de serviço.
Começou.
Minha mente volta para o passado, para o Grande Jardim, para aquelas belas e cruéis criaturas que se dizem humanas. Todas vaidosas e vazias, com olhar duro e caráter ainda pior.
Estes prateados — das Grandes Casas, segundo Walsh — não serão diferentes. Podem até ser piores.
Eles adentram em blocos, uma multidão de cores que se espalha pelo Jardim Espiral com fria elegância. É fácil notar as famílias — ou Casas — diferentes: todos usam a mesma cor.
Lilás, verde, preto, amarelo, um arco-íris de tons rumo ao camarote de cada família. Logo perco a conta. Quantas Casas existem afinal? Mais e mais deles juntam-se à multidão. Uns param para conversar, outros trocam abraços sem vida. Percebo que para eles é só uma festa. A maioria provavelmente tem pouca esperança de emplacar uma rainha, de modo que isso é apenas uma diversão.
Mas alguns não parecem estar aqui para celebrar. Uma família de cabelo prateado, vestida com seda preta, senta-se em silêncio à direita do camarote do rei. O patriarca da Casa tem barba pontuda e olhos pretos. Um pouco mais adiante, membros de uma Casa cujas cores são azul-marinho e branco conversam. Para minha surpresa, reconheço um deles. Samson Merandus, o murmurador que vi na arena há poucos dias. Diferente dos outros, ele tem os olhos fixos no chão, sua atenção está em outro lugar. Faço uma anotação mental de não cruzar com ele e seus poderes mortais.
É estranho, porém, que não haja nenhuma garota com idade para casar com o príncipe. Talvez estejam todas se preparando em algum outro lugar, ansiosas, à espera da oportunidade de ganhar uma coroa.
De vez em quando alguém pressiona um botão quadrado de metal na mesa que acende uma luz, solicitando um criado. Quem estiver mais perto da porta atende, enquanto os demais dão um passo à frente e esperam sua vez de servir. E, claro, assim que chego perto da porta o patriarca de olhos pretos aperta o botão.
Agradeço aos céus por meus pés não falharem. Passo praticamente aos pulos por toda a multidão, dançando entre corpos em movimento com o coração disparado. Em vez de roubar dessa gente, tenho que servi-la. Não sei se a Mare Barrow da semana passada riria ou choraria de sua nova tarefa. Mas ela foi burra, e agora eu pago por isso.
— Senhor? — digo, olhando para o patriarca. Me xingo mentalmente. “Não diga nada” é a primeira regra e eu já a quebrei.
Mas ele não parece perceber. Simplesmente ergue o copo vazio de água com um ar de tédio no rosto.
— Estão brincando conosco, Ptolemus — resmunga para o jovem musculoso ao seu lado.
Suponho que seja ele o infeliz que se chama Ptolemus.
— É uma demonstração de poder, pai — responde o jovem, esvaziando o próprio copo. Ele o estende para mim, e o pego sem hesitar. — Fazem-nos esperar porque podem.
Eles são a família real, que ainda não apareceu. Mas ouvir prateados falar deles assim, com tanto desdém, é desconcertante. Nós, vermelhos, insultamos o rei e a nobreza sempre que possível, mas é um pré-requisito nosso. Essas pessoas nunca sofreram um dia na vida. Que problemas podem ter entre si?
Quero ficar para escutar, mas até eu sei que é contra as regras. Dou meia-volta e subo um lance de escada para sair do camarote deles. Há um bebedouro escondido atrás de algumas flores coloridas, de modo que não preciso dar toda a volta na pseudoarena para reabastecer os copos. De repente, um som metálico e agudo reverbera, parecido com o sinal tocado no começo das Efemérides da Primeira Sexta. Ressoa mais algumas vezes, e começa a formar uma melodia heroica, provavelmente para anunciar a entrada do rei. Por toda parte as Grandes Casas põem-se de pé, de boa ou má vontade. Reparo que Ptolemus murmura algo para o pai de novo.
Minha posição é privilegiada: atrás das flores, no mesmo patamar do camarote do rei, mas um pouco atrás. Mare Barrow a poucos metros do rei. O que minha família pensaria? O que Kilorn pensaria? Este homem nos manda para a morte, e eu me tornei de bom grado sua criada. Me dá nojo.
O rei entra bruscamente, de peito aberto e ombros retos. Mesmo de costas parece muito mais gordo do que nas moedas e vídeos, mas também mais alto. Seu uniforme é vermelho e preto, estilo militar, mas duvido que tenha passado ao menos um dia nas trincheiras onde os vermelhos morrem. Seu peito reluz com medalhas e insígnias, um memorial de coisas que jamais fez. Ele até carrega uma espada dourada, apesar dos muitos guardas ao seu redor. A coroa na cabeça é familiar, feita de ouro vermelho retorcido e ferro preto. Cada uma das pontas enrola-se em línguas de fogo ardentes que parecem chamuscar seu cabelo grisalho.
Muito apropriado, pois o rei é um ardente, como seu pai, o pai de seu pai e todos os antepassados. Destrutivos, poderosos, controladores do calor e do fogo. Antigamente, nossos reis costumavam queimar os opositores com apenas um toque. Este rei talvez não queime mais vermelhos, mas ainda nos mata com guerras e ruínas. Conheço seu nome desde a infância na sala de aula, quando ainda tinha ânsia pelo conhecimento, como se fosse me levar a algum lugar. Tiberias Calore VI, rei de Norta, Chama do Norte. A afetação das afetações. Eu cuspiria em seu nome se pudesse.
A rainha vem atrás, cumprimentando a multidão com a cabeça. Se as roupas do rei são escuras e sóbrias, o vestido azul-marinho e branco dela é leve e claro. Ela dirige uma reverência apenas para a Casa de Samson, e só então percebo que vestem as mesmas cores.
Deve ser sua família, a julgar pelas semelhanças: o mesmo cabelo loiro-acinzentado e o mesmo sorriso anguloso que lhe confere a aparência de um felino selvagem e predador.
Por mais intimidadora que a família real seja, não é nada quando comparada à sua guarda.
Ainda que eu seja uma vermelha nascida na lama, sei quem são. Todos sabem reconhecer um sentinela porque ninguém quer encontrar um deles. Eles cercam o rei em todas as gravações, em todos os discursos ou decretos. Como sempre, seus uniformes parecem em chamas, com uma cor que faísca entre o vermelho e o laranja. Os olhos brilham por trás das medonhas máscaras negras. Cada um deles porta um rifle preto ponteado com uma baioneta de prata reluzente capaz de atravessar ossos. Seu poder é ainda mais assustador que sua aparência.
Guerreiros de elite oriundos de diferentes Casas dos prateados, treinados desde a infância, juraram proteger o rei e sua família pela vida inteira. Sua presença basta para me fazer tremer, mas as Grandes Casas não demonstram medo algum.
Das profundezas dos camarotes, começa a gritaria:
— Morte à Guarda Escarlate! — berra alguém, logo seguido por outros.
Um calafrio desce pela minha espinha quando lembro dos acontecimentos de ontem, agora tão distantes. Com que rapidez aquela multidão é capaz de se transformar em...
O rei fica confuso; o barulho o deixa pálido. Não está acostumado a protestos assim e parece resmungar contra os gritos.
— Já estamos cuidando da Guarda Escarlate e de todos os nossos inimigos! — troveja Tiberias, e sua voz ecoa em meio à multidão. Seu brado silencia a todos como um estalar de chicote. — Mas não é disso que viemos tratar aqui. Hoje honramos a tradição, e nenhum diabo vermelho impedirá isso. Vamos realizar o rito da Prova Real para descobrir a filha mais talentosa que se casará com o filho mais nobre. Assim, encontramos força para unir as Grandes Casas e aumentamos nosso poder para garantir o domínio prateado até o fim dos dias, derrotando nossos inimigos dentro e fora das fronteiras.
— Força! — grita agora a multidão. É assustador. — Poder!
— É novamente tempo de defender esses ideais, e ambos os meus filhos honram nosso soleníssimo costume.
Ao gesto do rei, duas figuras dão um passo à frente, uma de cada lado dele. Não consigo ver seu rosto, mas ambos têm a estatura e o cabelo preto do pai. Eles também vestem uniformes militares.
— Príncipe Maven, das Casas Calore e Merandos, filho da minha consorte real, a rainha Elara — anuncia o rei.
O segundo príncipe, mais pálido e magro que o outro, ergue a mão num cumprimento severo. Vira para a esquerda e para a direita, de modo que consigo ver seu rosto de relance.
Embora tenha uma aparência nobre e séria, não deve ter mais de dezessete anos. Tem rosto anguloso, olhos azuis e um sorriso tão frio que seria capaz de congelar fogo. Dá a impressão de desprezar todos ali, como eu.
— E o príncipe herdeiro das Casas Calore e Jacos, filho da minha falecida esposa, a rainha Coriane, herdeiro do trono de Norta e da coroa ardente, Tiberias VII.
Estou tão ocupada rindo internamente de como o nome é ridículo que nem percebo o jovem a acenar e sorrir. Por fim levanto os olhos, apenas para poder contar melhor depois como fiquei tão perto do futuro rei. Só que meus olhos acabam vendo mais do que esperava.
Os cálices de vidro caem das minhas mãos e aterrissam a salvo no bebedouro.
Conheço aquele sorriso e aquele olhar. Queimaram nos meus há apenas uma noite. Ele me arranjou o emprego, ele me salvou do recrutamento. Ele era um de nós. Como pode ser?
Então ele se vira, acenando para todo lado. Não há engano.
O príncipe herdeiro é Cal.

25 comentários:

  1. Uhuuu ja to shippando esses 2

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    1. somos dois então!!!

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    2. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 07:59

      Q-que, que o que?!
      Cal!
      Meu, to shipan um casal que n passa de um clichê.
      O rico e a pobretona.
      Poxa editora seguinte, vamos inovar!

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  2. Cal? Como assim? Tô sentindo futuros desentendimentos e romances...
    ~polly~

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  3. eu estou num mantra agora, torcendo pra não ter triângulo, a maioria das pessoas não trabalham isso bem

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    1. Mih Também estou torcendo por isso!

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    2. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 08:00

      Quem acha que nos livros, em todos, devia tá escrito bem grande:
      CONTEM TRIANGULO AMOROSO.

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  4. Nossa mentira ,conhecidência ou fato dela quase ter roubado o Herdeiro do trono e em seguida se tornar criada do castelo.rsrsrs aí já vou criar shippo!!!😍

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  5. Shippei também, lembrei da A SELEÇÂO.

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    1. Tbm lembrei de A SELEÇÃO, e tô amando muito 😍

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  6. NESSE CAPITULO QUE VIM NOTAR, QUANDO FALARAM EM REI QUE LIGUEI AO NOME DO LIVRO.

    ASS; ABELINHAATAREFADA

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  7. JÁ SHIPPEI!
    Tomara que não seja MESMO um triângulo amoroso porque as pessoas que eu torço para ficarem juntas na maioria das vezes acabam não ficando!
    X Maysa
    ***

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  8. Shippei <3 .
    Ps : esse livro tá me parecendoa mistura de Jogos Vorazes e Seleção

    Ass: Apaixonada por livros

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  9. Seria um quadrado amoroso, ela dois príncipes e o amigo de infância... muita água vai rolaaaae

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  10. Carambaaaaaa!!!!! É a seleção e Jogos vorazes caracaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
    MUITO TOP

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  11. OMGGGGG HAHAHAHA tava meio desconfiada que era ele shipeiii ja

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  12. Imaginei. Huuu tô gostando do desenrolar da trama ☺

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Boa leitura :)