15 de março de 2017

Capítulo quinze

Cameron

EU NÃO SABIA O QUE PODERIA INSTIGAR o príncipe exilado a agir — até que o rei Maven deu início à sua maldita turnê de coroação. Claramente uma artimanha, parte de uma trama maior. E estava vindo na nossa direção. Todos suspeitavam de um ataque. Então tínhamos que atacar primeiro.
Cal estava certo sobre uma coisa. Tomar as muralhas de Corvium era o melhor plano.
Então ele o colocou em prática há dois dias.
Trabalhando em conjunto com o coronel e rebeldes que já estavam infiltrados na cidade-fortaleza, Cal liderou uma força de ataque da Guarda Escarlate e de soldados sanguenovos. A tempestade de neve foi sua camuflagem, e o fator surpresa os ajudou.
Cal foi esperto o suficiente para não pedir que eu me juntasse a eles. Fiquei esperando em Rocasta com Farley. Nós duas grudadas no rádio, ansiosas por notícias. Caí no sono, mas ela me chacoalhou antes do amanhecer, sorrindo. Tínhamos tomado as muralhas. Corvium fora pega de surpresa. A cidade fervilhava no caos.
Não podíamos mais ficar para trás. Nem mesmo eu. Pra falar a verdade, eu queria ir. Não para lutar, mas para ver como era a vitória. E, claro, dar mais um passo em direção ao Gargalo, ao meu irmão e a algum propósito.
Então aqui estou eu, encoberta pelas árvores com o resto da unidade de Farley, observando os muros pretos e a fumaça mais preta ainda. Corvium queima por dentro. Não consigo ver muita coisa, mas sei dos relatos. Centenas de soldados vermelhos, alguns incitados pela Guarda, se voltaram contra seus oficiais assim que Cal e o coronel atacaram. A cidade já era um barril de pólvora. O príncipe de fogo acendeu o pavio e deixou explodir. Um dia depois, o combate continua. Vamos tomando a cidade, rua a rua. Os tiroteios ocasionais quebram o silêncio, fazendo eu me contorcer. Desvio o olhar, tentando ver mais longe do que os olhos humanos podem alcançar. O céu já está escuro e nebuloso, com o sol encoberto. A noroeste, no Gargalo, as nuvens estão pretas, pesadas de cinzas e morte. Morrey está lá em algum lugar. Embora Maven tenha liberado os recrutas menores de idade, a unidade dele não saiu do lugar, de acordo com os últimos relatórios do serviço de informações. Está o mais distante possível, no fundo de uma trincheira. E a Guarda Escarlate no momento ocupa o lugar para onde sua unidade deveria retornar. Tento bloquear a imagem do meu irmão gêmeo encolhido no frio, o uniforme grande demais, os olhos escuros e fundos. Mas o pensamento está gravado no meu cérebro. Olho para o outro lado, de volta para Corvium, para a tarefa a cumprir. Preciso manter o foco. Quanto mais cedo tomarmos a cidade, mais cedo poderemos transportar os recrutas. E depois que salvá-lo?, me pergunto. Vou mandá-lo de volta para casa? Para outro inferno?
Não tenho respostas para a voz na minha cabeça. Mal posso suportar a ideia de mandar Morrey de volta para as fábricas da Cidade Nova, ainda que isso signifique reuni-lo com nossos pais. Eles são meu próximo objetivo, assim que recuperar meu irmão. Um sonho impossível por vez.
— Dois prateados acabaram de jogar um soldado vermelho de uma torre — Ada avisa, olhando por um binóculo. Ao lado dela, Farley permanece imóvel, os braços calmamente cruzados sobre o peito.
Ada continua varrendo tudo, lendo sinais. Na luz cinza, sua pele dourada assume uma cor pálida. Espero que não esteja ficando doente.
— Eles estão consolidando sua posição, recuando e reagrupando no setor central atrás do segundo muro. Calculo que são pelo menos cinquenta — ela sussurra.
Cinquenta. Tento engolir o medo. Digo a mim mesma que não há perigo. Há um exército entre nós e eles. E ninguém é idiota o suficiente para me obrigar a ir a qualquer lugar que eu não queira. Não agora, depois de meses de treinamento.
— Baixas?
— Uma centena de prateados morreu. A maioria dos feridos fugiu pela mata. Provavelmente para Rocasta. Havia menos de mil na cidade. Muitos tinham desertado com as Casas rebeldes antes do ataque de Cal.
— E o último relatório de Cal? — Farley pergunta a Ada. — Sobre os prateados desertores?
— Incluí nos meus cálculos. — Ela quase parece irritada. Quase. Ada é mais calma do que qualquer um de nós. — Setenta e oito estão sob a proteção dele.
Coloco as mãos na cintura.
— Existe uma diferença entre deserção e rendição. Eles não querem se juntar a nós; só não querem morrer. Sabem que Cal será misericordioso.
— Você prefere que ele os mate? Vire todos contra nós? — Farley responde irritada. Depois de um instante, ela faz um gesto de desdém. — Há mais de quinhentos deles ainda por aí, prontos para voltar e nos massacrar.
Ada ignora nossa falação e mantém a vigia. Antes de se juntar à Guarda Escarlate, ela era criada de um governador prateado. Está acostumada a coisas muito piores do que nós.
— Vejo Julian e Sara sobre o portão da reza — ela diz.
Sinto um alívio. Quando Cal fez contato pelo rádio, não mencionou nenhuma baixa em sua equipe, mas nunca se sabe. Estou feliz por Sara estar bem. Aperto os olhos na direção do ameaçador portão da reza, procurando pela entrada preta e dourada na extremidade leste das muralhas de Corvium. Em cima do parapeito, uma bandeira vermelha tremula, um vislumbre de cor contra o céu nublado. Ada traduz:
— Estão fazendo sinal para nós. Passagem segura.
Ela olha para Farley, esperando sua ordem. Com o coronel na cidade, Farley está no topo da hierarquia aqui, e sua palavra é lei. Embora não demonstre, percebo que está pesando as opções. Temos que atravessar terreno aberto para chegar até os portões. Pode muito bem ser uma armadilha.
— Você viu o coronel?
Boa. Ela não confia em um prateado. Não com nossas vidas em risco.
— Não — Ada murmura. Ela varre os muros mais uma vez, os olhos bem abertos analisando cada bloco de pedra. Assisto à sua movimentação enquanto Farley se mantém calma e séria. — Cal está com eles.
— Muito bem — Farley responde de repente, os olhos de um azul vívido e resoluto. — Vamos.
Vou atrás dela com má vontade. Por mais que odeie admitir, Cal não é do tipo que nos trairia. Não fatalmente, pelo menos. Ele não é como o irmão. Meus olhos encontram os de Ada por cima do ombro de Farley. A sanguenova inclina um pouco a cabeça conforme avançamos.
Enfio as mãos no bolso. Se estiver parecendo uma adolescente mal-humorada, não ligo. É o que sou: uma adolescente mal-humorada e assustada que pode matar com um olhar. O medo me devora. Da cidade e de mim mesma.
Só uso meu poder em treinamento há meses, desde que os malditos magnetrons derrubaram nosso jato do céu. Mas lembro da sensação de usar o silêncio como arma. No presídio de Corros, matei pessoas assim. Pessoas horríveis. Prateados que mantinham outros como eu presos para morrer lentamente. A memória ainda me enoja. Senti os corações parando. Senti suas mortes como se estivessem acontecendo comigo.
Tanto poder me assusta. Faz com que eu me pergunte o que posso me tornar. Penso em Mare, em como ela ricocheteava entre a raiva violenta e a indiferença dormente. É esse o preço de ter poderes como os nossos? Temos que escolher entre nos tornar vazias ou monstros?
Partimos em silêncio, todos muito conscientes de nossa posição precária. Nos destacamos nitidamente na neve fresca, seguindo as pegadas uns dos outros. Os sanguenovos na unidade de Farley estão muito inquietos. Uma das recrutadas por Mare, Lory, nos lidera com a atenção de um cão de caça, a cabeça virando de um lado para o outro. Seus sentidos são incrivelmente aguçados; se houver algum ataque iminente, ela vai ver, ouvir ou sentir o cheiro do que está por vir. Depois do ataque ao presídio de Corros, depois que Mare foi capturada, ela começou a tingir o cabelo de vermelho-sangue.
Parece uma ferida contra a neve e o céu metálico. Fixo o olhar em seus ombros, pronta para correr se fizer qualquer movimentação inesperada.
Mesmo grávida, Farley convence no comando. Ela puxa o rifle das costas e o segura com as duas mãos. Mas não está tão alerta quanto os outros. Mais uma vez seus olhos entram e saem de foco. Sinto um pingo de tristeza por ela.
— Você veio aqui com Shade? — pergunto baixinho.
Ela vira a cabeça na minha direção.
— Por que diz isso?
— Para uma espiã, às vezes você revela demais.
Seus dedos batucam o cano da arma.
— Como eu disse, Shade foi nossa maior fonte de informação sobre Corvium. Comandei sua operação aqui. Só isso.
— Claro, Farley.
Continuamos em silêncio. Nossa expiração solta nuvens brancas no ar e o frio se instala, tomando primeiro os dedos dos pés. Na Cidade Nova havia inverno, mas nunca assim. Tem a ver com a poluição. E o calor das fábricas nos fazia suar mesmo no inverno mais profundo.
Farley nasceu em Lakeland. Está mais preparada para o frio. Ela não parece notar a neve ou o frio cortante. Mas sua cabeça obviamente ainda está em outro lugar. Com outra pessoa.
— Acho que foi bom eu não ter ido atrás do meu irmão — resmungo no silêncio. Tanto para mim quanto para ela. Uma distração. — Estou feliz por ele não estar aqui.
Ela olha para mim de soslaio, os olhos estreitos de desconfiança.
— Cameron Cole está admitindo que estava errada?
— Eu admito. Não sou Mare.
Outra pessoa poderia achar isso grosseiro. Mas Farley sorri.
— Shade também era teimoso. Deve ser de família.
Imagino que a menção a seu nome seria um grande peso, arrastando-a para baixo. Em vez disso, faz com que Farley siga em frente, um pé depois do outro. Uma palavra depois da outra.
— Eu o conheci a alguns quilômetros daqui. Devia recrutar assobiadores no mercado negro de Norta. Usar organizações já instaladas para auxiliar a Guarda Escarlate. O assobiador de Palafitas me falou sobre alguns soldados daqui que poderiam estar dispostos a cooperar.
— Shade era um deles.
Ela confirma com a cabeça, pensativa.
— Ele foi enviado para Corvium com as tropas de apoio. Um ajudante de oficial. Era uma boa posição para ele, ainda melhor para nós. Shade alimentava a Guarda Escarlate com informações através de mim. Até que ficou claro que ele não poderia mais ficar. Ia ser transferido para outra legião. Alguém sabia que ele tinha um poder e iam executá-lo por isso.
Nunca ouvi essa história. Acho que poucos ouviram. Farley não é exatamente um livro aberto. Por que está me contando isso agora, não sei dizer. Mas percebo que precisa desabafar. Deixo-a falar, dando o espaço de que precisa.
— Então quando a irmã dele… Nunca vi Shade tão aterrorizado. Assistimos à Prova Real juntos. Vimos quando ela caiu, vimos os raios. Ele achou que os prateados iam matar Mare. O resto da história você já sabe, imagino. — Ela morde o lábio, olhando para o rifle. — Foi ideia dele. Tínhamos que tirar Shade do Exército para protegê-lo. Então ele falsificou sua ordem de execução. Ele mesmo ajudou com a papelada. Então foi dado como morto. Os prateados não se importam o suficiente para comprovar a morte de vermelhos. A família dele, é claro, se importou. Isso o abalou por um tempo.
— Mas ainda assim ele foi em frente. — Tento ser compreensiva, mas não consigo imaginar como seria fazer minha família passar por algo parecido, nem por nada no mundo.
— Ele não tinha escolha. E… serviu de motivação. Mare se juntou a nós quando ficou sabendo da suposta morte. Um Barrow por outro.
— Então essa parte do discurso dela não era mentira? — Penso no que Mare foi obrigada a dizer, olhando para a câmera como se fosse um esquadrão de fuzilamento. Me perguntaram se eu queria vingança pela morte dele. — Não me admira que tenha problemas de confiança. Ninguém fala a verdade para ela.
— Vai ser um longo caminho de volta para Mare — Farley sussurra.
— Para todos.
— Agora ela está naquela turnê infernal com o rei. — Farley parece uma máquina, sua voz ganhando impulso e força a cada segundo que passa. O fantasma de Shade desaparece. — Isso vai tornar as coisas mais fáceis. Ainda terrivelmente difíceis, é claro, mas o nó está mais frouxo.
— Existe um plano em andamento? Ela está cada dia mais perto. Arborus, a Estrada de Ferro…
— Mare estava em Rocasta ontem.
O silêncio à nossa volta se altera. Se o resto da unidade não estava ouvindo antes, agora com certeza está. Olho para trás. Ada me encara. Seus olhos de âmbar se arregalam e quase consigo ver as engrenagens girando em sua mente perfeita.
Farley continua:
— O rei visitou os soldados feridos evacuados da primeira onda de ataques. Eu não soube disso até estarmos na metade do caminho para cá. Se soubesse, talvez… — Ela respira fundo. — Bom, agora é tarde demais.
— O rei viaja com praticamente um exército — digo a ela. — Mare é vigiada dia e noite. Você não poderia fazer nada só com a gente.
Ainda assim, seu rosto fica vermelho, e não por causa do frio. Seus dedos continuam batendo distraídos no cano da arma.
— Provavelmente não — Farley responde. — Provavelmente não — repete num tom mais suave, para convencer a si mesma.
Corvium lança uma sombra sobre nós, e a temperatura cai na escuridão. Puxo a gola mais para cima, tentando me enterrar em seu calor. A monstruosidade das muralhas pretas parece uivar para nós.
— Lá. O portão da reza. — Farley aponta para uma boca aberta com presas de ferro e dentes dourados. Blocos de Pedras Silenciosas formam o arco, mas não as sinto. Elas não têm impacto sobre mim. Para meu alívio, soldados vermelhos guardam o portão, marcados pelo uniforme cor de ferrugem e pelas botas gastas. Avançamos, saindo da estrada coberta de neve e entrando nas mandíbulas de Corvium. Farley olha para cima do portão quando passamos, e ouço-a sussurrar algo para si mesma.
— Quando você entra, reza pra sair. Quando sai, reza pra nunca mais voltar.
Apesar de ninguém estar ouvindo, rezo também.


Cal se curva sobre uma mesa, os dedos pressionados contra a madeira plana. Sua armadura está empilhada em um canto, revelando os músculos do jovem sob as placas de couro preto. O suor faz o cabelo preto grudar na testa e forma linhas de esforço abaixo de seu pescoço. Não é o calor, embora seu poder aqueça o lugar mais que qualquer fogo. É medo. Vergonha. Me pergunto quantos prateados ele foi obrigado a matar. Não o suficiente, parte de mim sussurra. Ainda assim, sua aparência, os horrores do cerco escritos claramente em seu rosto, são motivo suficiente para até eu hesitar. Sei que não é fácil. Não pode ser.
Ele observa o nada, com olhos de bronze perfurantes. Nem se mexe quando eu entro atrás de Farley. Ela vai até o coronel e senta na frente dele, que está com uma mão na testa e a outra acariciando um mapa ou algum tipo de esquema. Provavelmente de Corvium, pela forma octogonal e pelos anéis que devem ser as muralhas.
Sinto Ada atrás de mim, hesitante em se juntar a nós. Tenho que lhe dar um empurrão. Ela é melhor nisso do que qualquer um de nós, seu cérebro extraordinário é um presente para a Guarda Escarlate. Mas é difícil romper o treinamento de uma criada.
— Vamos — sussurro, colocando a mão em seu pulso. Sua pele não é tão escura quanto a minha, mas nas sombras todos começamos a nos matizar.
Ela dá um aceno discreto para mim e abre um sorriso mais discreto ainda.
— Em qual anel eles estão?
— Na torre principal — o coronel responde. Ele aponta o lugar correspondente no mapa. — Bem fortificada, mesmo nos níveis subterrâneos. Aprendemos isso na prática.
Ada solta um suspiro.
— O centro foi construído para algo assim. Um posto final, bem armado e abastecido. Com vedação dupla. Recheado até a borda por cinquenta soldados prateados bem treinados. Por ser estreito, é como se houvesse cinco vezes essa quantidade lá dentro.
— Como aranhas em um buraco — murmuro.
O coronel desdenha.
— Talvez comecem a comer uns aos outros.
O nervosismo de Cal não passa despercebido.
— Não enquanto um inimigo comum bate à porta. Nada une tanto os prateados quanto alguém que odeiam. — Ele não tira os olhos da mesa, mantendo-os fixos na madeira. O significado é claro. — Principalmente agora que todos sabem que o rei está nas proximidades. — Seu rosto escurece, como uma nuvem de tempestade. — Eles podem esperar.
Com um grunhido baixo, Farley conclui a ideia por ele:
— E nós não podemos.
— Se exigido, as legiões do Gargalo podem marchar de volta para cá em um dia. Menos ainda se forem… motivadas. — Ada vacila na última palavra. Ela não precisa explicar. Já vejo meu irmão, tecnicamente livre pelas novas leis de Maven, sendo levado por oficiais prateados, obrigado a correr pela neve. Só para atacar seu próprio povo.
— Os vermelhos certamente se juntariam a nós — digo, pensando alto, ao menos para combater as imagens que estão na minha cabeça. — Que Maven mande seus exércitos. Isso só vai reforçar o nosso. Os soldados vão mudar de lado como os daqui fizeram.
— Talvez ela tenha razão… — o coronel começa a dizer, concordando comigo para variar. Mas Farley o corta.
— Talvez. A tropa em Corvium há meses vem sendo agitada, incitada, empurrada, forçada e aquecida para essa explosão. Não posso dizer o mesmo das legiões. Ou qual é a quantidade de prateados que ele vai convencer a servir.
Ada concorda com a cabeça.
— Maven tem sido cuidadoso com Corvium. Ele pinta tudo aqui como terrorismo, não rebelião. Anarquia. Obra de uma Guarda Escarlate sedenta por sangue, genocida. Os vermelhos das legiões, os vermelhos do reino, não fazem ideia do que está acontecendo.
Fervendo, Farley coloca a mão na barriga, protegendo-a.
— Já perdi muito por confiar num “talvez”.
— Todos perdemos — Cal responde, sua voz distante. Ele se afasta da mesa e vira de costas para todos. Chega até a janela com poucos passos largos e olha para a cidade ainda em chamas.
A fumaça flutua no vento gelado, um cuspe preto no céu. Isso me faz lembrar das fábricas. Estremeço. A tatuagem no meu pescoço coça, mas não levo meus dedos tortos a ela. Nem consigo contar quantas vezes foram quebrados. Sara pediu para consertá-los certa vez. Não deixei. Como a tatuagem, como a fumaça, eles me lembram de onde vim e do que ninguém mais deveria ter que suportar.
— Imagino que você não tenha alguma ideia… — Farley diz, enquanto tira o mapa das mãos do pai. Ela olha de soslaio para o príncipe exilado.
Cal dá de ombros.
— Muitas. Todas ruins. A não ser que…
— Não vou deixar que saiam daqui — o coronel interrompe. Ele parece irritado. Acho que já discutiram o assunto. — Maven está muito próximo. Eles vão correr para o lado dele e voltar para se vingar.
O bracelete no pulso de Cal se acende, lançando centelhas que viajam pelo seu braço em uma explosão rápida de chama vermelha.
— Maven virá de qualquer forma! Você ouviu os relatos. Ele já está em Rocasta, seguindo para oeste. Está marchando para cá em um desfile, acenando e sorrindo para esconder que vai tomar Corvium de volta. E vai conseguir se você lutar contra ele numa cidade despedaçada, com nossas costas voltadas para uma jaula de lobos! — Cal vira para encarar o coronel, os ombros ardendo em brasa. Normalmente ele consegue se controlar o suficiente para poupar suas roupas. Agora nem tanto. A fumaça o abraça, revelando buracos chamuscados na camisa. — Uma batalha em duas frentes é suicídio.
— E torná-los reféns? Vai me dizer que não tem ninguém de valor naquela torre? — o coronel rebate.
— Não para Maven. Ele já tem a única pessoa pela qual trocaria qualquer coisa.
— Não temos como fazê-los passar fome, não podemos libertá-los, não podemos usá-los numa negociação — Farley diz, enumerando nos dedos.
— E não podemos matá-los. — Coloco um dedo no lábio. Cal olha para mim, surpreso. Dou de ombros. — Se houvesse uma maneira, se fosse aceitável, o coronel já teria feito isso.
— Ada? — Farley a incita com gentileza. — Você vê algo que não estamos vendo?
Os olhos dela vão de um lado para o outro, analisando o esquema e suas memórias. Números, estratégias, tudo a seu dispor. Seu silêncio não traz nenhum alento.
— Precisamos daquele maldito vidente — resmungo. Não conheci Jon, que permitiu que Mare me encontrasse e me capturasse. Mas já o vi bastante nas transmissões de Maven. — Ele pode fazer o trabalho por nós.
— Se quisesse ajudar, Jon estaria aqui. Mas aquele fantasma execrável desapareceu — Cal pragueja. — Não teve nem a decência de levar Mare com ele quando fugiu.
— Não adianta insistir no que não temos como mudar. — Farley arrasta a bota no chão frio. — Então tudo o que nos resta é a força bruta? Derrubar a torre pedra por pedra? Pagar por cada centímetro com um litro de sangue?
Antes que Cal possa estourar de novo, a porta se abre. Julian e Sara entram apressados, os dois com os olhos arregalados e um tom prateado no rosto. O coronel levanta de um salto, surpreso e na defensiva. Ninguém aqui bobeia quando se trata dos prateados. O medo que sentimos deles está enraizado nos ossos, é transmitido pelo sangue.
— O que foi? — ele pergunta, com o olho vermelho brilhando. — Já acabou o interrogatório?
Julian se irrita com a palavra interrogatório e responde com sarcasmo:
— Minhas perguntas são piedosas em comparação com as que você faria.
— Pfff! — Farley desdenha. Ela olha para Cal e ele vira, com vergonha de seu olhar. — Não me venha falar da piedade dos prateados.
Não gosto de Julian e confio nele menos ainda, mas a expressão no rosto de Sara é chocante. Ela olha para mim, o rosto cinza cheio de compaixão e medo.
— O que foi? — pergunto a ela, embora saiba que só Julian pode responder. Mesmo em Corvium, ainda não encontrou um curandeiro disposto a devolver sua língua. Todos devem estar na torre principal, ou mortos.
— General Macanthos supervisiona o comando de treinamento — Julian responde. Como Sara, ele olha para mim hesitante. O sangue pulsa em meus ouvidos. O que quer que esteja prestes a dizer não vai me agradar. — Antes do cerco, parte de uma legião recuou para receber mais instruções. Não eram adequados para patrulhar as trincheiras. Mesmo sendo vermelhos.
Meu sangue zumbe nos ouvidos e quase não escuto Julian. Sinto Ada vir para perto, seu ombro encostando no meu. Ela sabe para onde isso está indo. Eu também.
— Conseguimos a lista de nomes. Algumas centenas de crianças da Legião Adaga, chamadas de volta para Corvium. Ainda não haviam sido liberadas, mesmo após o decreto de Maven. Recuperamos a maioria, mas alguns… — Julian se obriga a falar, mas tropeça nas palavras. — Foram mantidos como reféns. No centro, com o resto dos oficiais prateados.
Me apoio na parede fria do escritório, deixando que me estabilize. Meu poder suplica, tentando romper a pele, querendo se expandir e arrastar tudo ao meu redor.
Tenho que dizer as palavras eu mesma, porque parece que Julian não vai dizer.
— Meu irmão está entre eles.
O maldito prateado hesita, demorando a responder. Finalmente, ele fala:
— Achamos que sim.
O rugido do meu coração latejante ultrapassa a voz deles. Não ouço nada enquanto saio do escritório, escapando de suas mãos, correndo pela sede administrativa. Se alguém me segue, não sei. Não ligo.
A única coisa nos meus pensamentos é Morrey. Morrey e os cinquenta futuros cadáveres que estão no meu caminho.
Não sou Mare Barrow. Não vou entregar meu irmão para essa causa.
Meu silêncio me envolve, pesado como fumaça, macio como penas, pingando de cada poro como suor. Não é uma coisa física. Não vai abrir a torre principal para mim. Meu poder atinge carne e só carne. Estive praticando. Ele me assusta, mas preciso dele. Como um furacão, o silêncio gira em torno de mim, cercando o centro de uma tempestade crescente.
Não sei para onde estou indo, mas é fácil andar por Corvium. É tudo autoexplicativo. A cidade é ordenada, bem planejada, uma engrenagem gigante. Entendo isso. Meus pés batem nas calçadas, me impelindo através da ala externa. À minha esquerda, as altas muralhas de Corvium arranham o céu. À direita, quartéis, escritórios e instalações de treinamento se empilham contra o segundo anel de muros de granito. Tenho que encontrar o próximo portão, começar a entrar. Meu lenço rubro é camuflagem suficiente. Pareço uma integrante qualquer da Guarda Escarlate. Poderia mesmo ser. Os soldados vermelhos me deixam correr, muito distraídos, agitados ou ocupados para ligar para outro rebelde correndo entre eles. Eles subjugaram seus senhores. Sou invisível para eles.
Mas não para Sua Maldita Alteza Real Tiberias Calore.
Ele agarra meu braço, me obrigando a virar. Se não fosse meu silêncio pulsando à nossa volta, sei que ele estaria em chamas. O príncipe é esperto e usa o impulso para me jogar para trás — e se manter longe das minhas mãos mortíferas.
— Cameron! — ele grita, com a mão estendida. Seus dedos brilham, as chamas precisando de ar. Quando dá mais um passo para trás, plantando-se no meu caminho, as chamas ficam mais fortes, indo até os cotovelos. Ele está com a armadura de novo. Placas de couro e aço presas ao corpo. — Vai morrer se entrar na torre sozinha. Vão te partir ao meio.
— E você com isso? — respondo irritada. Travo os ossos, firmando as juntas, e empurro um pouco mais. O silêncio o alcança. Seu fogo oscila e sua garganta treme. Ele está sentindo. Estou machucando-o. Segure. Lembre-se da constante. Nem demais, nem de menos. Empurro um pouco mais e ele dá mais um passo para trás, na direção que preciso ir. O segundo portão chama minha atenção por cima de seu ombro.
— Estou aqui por um único motivo. — Eu não quero lutar com Cal. Só quero que ele saia da minha frente. — Não vou deixar sua gente matar meu irmão.
— Eu sei! — ele rosna com a voz gutural. Me pergunto se todos os seus semelhantes de fogo têm olhos como aqueles. Olhos que queimam e ardem. — Sei que você vai entrar. Eu também entraria se… Eu também entraria.
— Então me deixe ir.
Cal cerra a mandíbula, numa imagem de determinação. Uma montanha. Mesmo agora, em roupas queimadas, ferido, com o corpo em destroços e a mente em ruínas, ainda parece um rei. É o tipo de pessoa que jamais vai ajoelhar. Não está nele. Não foi feito para isso.
Mas já fui destroçada vezes demais para deixar que aconteça de novo.
— Cal, me deixe ir. Me deixe buscar meu irmão. — Parece que estou implorando. Dessa vez ele dá um passo à frente. As chamas em seus dedos ficam azuis, tão quentes que chamuscam o ar. Mas ainda oscilam diante do meu poder, lutando para respirar, para queimar. Eu poderia apagá-las se quisesse. Poderia tomar tudo o que ele é e parti-lo ao meio, matá-lo, sentir cada centímetro seu morrer. Parte de mim quer.
Uma parte boba, governada pelo ódio, pela raiva e pela vingança cega. Deixo que ela alimente meu poder, que me deixe mais forte, mas não deixo que me controle.
Exatamente como Sara ensinou. É uma linha tênue.
Seus olhos se estreitam, como se Cal soubesse o que estou pensando. Fico surpresa quando ele fala. Quase não escuto as palavras em meio ao som do meu coração latejante.
— Me deixe ajudar.


Antes da Guarda Escarlate, eu achava que aliados deveriam estar exatamente na mesma página. Máquinas em uníssono, trabalhando para o mesmo resultado. Como eu era ingênua. Cal e eu aparentemente estamos do mesmo lado, mas não queremos a mesma coisa.
Ele é franco com seu plano, inteiramente detalhado. O suficiente para que eu perceba como pretende usar minha raiva, usar meu irmão, para atingir seus próprios fins.
Distraia os guardas, entre na torre principal, use seu silêncio como escudo e faça com que os prateados entreguem os reféns em troca da própria liberdade. Julian vai abrir os portões; eu mesmo farei a escolta. Sem derramar sangue. Chega de cerco. Corvium será toda nossa.
Um bom plano. Exceto pelo fato de que a tropa prateada estará livre para se reunir ao Exército de Maven.
Cresci em uma favela, mas não sou burra. E com certeza não sou uma garotinha deslumbrada que vai se render à mandíbula marcada e ao sorrisinho de Cal. Seu charme tem limites. Barrow pode ceder aos seus encantos, mas eu não.
Se ao menos o príncipe fosse um pouco mais ousado. Cal tem o coração mole demais. Ele não vai deixar os soldados prateados sujeitos à piedade inexistente do coronel, ainda que a única alternativa seja libertá-los apenas para adiar um novo conflito.
— De quanto tempo você precisa? — pergunto. Mentir na cara dele não é difícil. Não sabendo que Cal também está tentando me enganar.
Ele sorri. Acha que me convenceu. Perfeito.
— Algumas horas para organizar meu pessoal. Julian, Sara…
— Tudo bem. Me encontre nos quartéis externos quando estiver pronto. — Eu me afasto, fingindo um olhar pensativo à distância. O vento se levanta, balançando minhas tranças. Está mais quente, não por causa de Cal, mas do sol. A primavera logo chegará. — Preciso pensar um pouco.
O príncipe concorda com a cabeça. Apoia a mão firme no meu ombro, apertando-o. Em resposta, forço um sorriso que mais parece uma careta. Assim que viro, o sorriso se vai. Cal fica para trás, os olhos focados em mim até a curva do muro me tirar de seu campo de visão. Apesar do aumento de temperatura, um arrepio percorre minha espinha. Não posso deixar Cal fazer isso. Mas não vou deixar que Morrey passe mais um segundo naquela torre.
Mais à frente, Farley marcha na minha direção, tão depressa quanto seu corpo permite. Seu rosto escurece quando me vê. Suas sobrancelhas estão franzidas e sua cara inteira fica vermelha. Isso faz com que a cicatriz branca ao lado de sua boca se destaque mais do que o normal. É uma visão assustadora.
— Cole — ela diz irritada —, eu estava com medo de que você estivesse prestes a cometer uma grande burrada.
— Eu, não — respondo, quase sussurrando. Ela inclina a cabeça e faço sinal para que me siga.
Quando estamos em segurança dentro de um armazém, conto tudo o mais rápido que posso. Farley fica irritada, como se o plano de Cal fosse apenas uma chateação, e não extremamente perigoso para todos nós.
— Ele está colocando a cidade toda em risco — concluo, exasperada. — Se for em frente…
— Eu sei. Mas já disse antes: Montfort e o Comando querem Cal com a gente, custe o que custar. Ele é praticamente à prova de balas. Qualquer outra pessoa seria executada por insurreição. — Farley passa as mãos na cabeça, puxando mechas esparsas do cabelo loiro. — Não quero fazer isso, mas um soldado que não aceita ordens e age seguindo interesses próprios não é alguém que quero na minha retaguarda.
— O Comando… — Odeio essa palavra, e quem quer que ela represente. — Estou começando a achar que eles não se preocupam tanto assim com a gente.
Farley não discorda.
— É difícil… depositar toda a nossa fé neles. Mas o Comando vê o que não vemos, o que não conseguimos ver. E agora… — Ela respira fundo. Seus olhos focam no chão. — Fiquei sabendo que Montfort vai se envolver mais ainda.
— O que isso significa?
— Não tenho certeza.
Dou risada.
— Você não sabe de tudo? Estou chocada.
O olhar que ela lança para mim poderia rachar um osso.
— O sistema não é perfeito, mas ele nos protege. Se você vai ficar de mau humor, não vou ajudar.
— Ah, agora você tem ideias?
Ela abre um sorriso obscuro.
— Algumas.


Harrick não perdeu o tique nervoso.
Ele balança a cabeça para cima e para baixo enquanto Farley sussurra nosso plano, os lábios se movimentando rápido. Ela não vai entrar na torre com a gente, mas vai garantir que consigamos passar.
Harrick parece preocupado. Ele não é um guerreiro. Não estava em Corros nem participou do ataque a Corvium, embora suas ilusões pudessem ter sido de grande ajuda. Ele chegou com o restante de nós, seguindo a capitã grávida. Alguma coisa aconteceu com ele quando ainda tínhamos Mare, em um recrutamento de sanguenovos que deu errado. Desde então, tem ficado fora do combate. Tenho inveja dele. Não sabe o que é matar alguém.
— Quantos reféns? — Harrick pergunta, a voz trêmula como seus dedos. Um rubor surge em seu rosto, espalhando-se sob a pele clara do inverno.
— Pelo menos vinte — respondo o mais rápido possível. — Achamos que meu irmão é um deles.
— Com pelo menos cinquenta prateados de guarda — Farley completa. Ela não maquia o perigo. Não vai enganá-lo para que concorde.
— Oh — ele balbucia. — Minha nossa.
Farley acena com a cabeça.
— É você quem decide. Podemos encontrar outra maneira.
— Mas nenhuma com menos chance de derramamento de sangue.
— Isso. Suas ilusões… — pressiono, mas Harrick ergue a mão trêmula. Me pergunto se seu poder oscila como ele próprio.
O sanguenovo abre a boca, mas nenhuma palavra sai. Estou tensa, implorando com cada nervo do meu corpo. Ele precisa ver o quanto isso é importante. Precisa.
— Tudo bem.
Tenho que me segurar para não comemorar. É um passo importante, mas não uma vitória, e não posso perder isso de vista até que Morrey esteja em segurança.
— Obrigada. — Aperto suas mãos, que continuam tremendo nas minhas. — Muito obrigada.
Ele pisca rápido, os olhos castanhos encontrando os meus.
— Não me agradeça antes da hora.
— Bem colocado — Farley murmura. Ela tenta não parecer sombria, para nosso bem. Seu plano é precipitado, mas Cal está nos obrigando a agir. — Muito bem, agora me sigam — ela continua. — Isso vai ser rápido, silencioso e, com um pouco de sorte, efetivo.
Seguimos logo atrás. Farley contorna soldados da Guarda Escarlate e vermelhos que desertaram para o nosso lado. Muitos batem continência em respeito a ela. É uma figura muito conhecida na organização, e estamos confiando no respeito que incita.
Puxo minhas tranças conforme avançamos, apertando-as o máximo que posso. É uma dor boa. Me mantém atenta. E dá às minhas mãos algo para fazer. Do contrário, talvez tremessem tanto quanto as de Harrick.
Com Farley à frente, ninguém nos para nos portões. Marchamos até o centro de Corvium, onde a torre principal se eleva. Granito preto sobe até o céu, pontilhado de janelas e sacadas. Todas estão bem fechadas, e dúzias de soldados guardam a base, vigiando as duas entradas fortificadas da torre. Ordens do coronel, aposto. Dobrou a guarda assim que percebeu que eu ia querer entrar — e que Cal ia querer tirar os prateados de lá. A capitã não nos leva até a torre, mas para além dela, até uma das estruturas construídas junto ao muro central. Como o resto da cidade, é de ouro, ferro e pedras pretas, escura mesmo à luz do dia.
Meu coração bate forte, mais acelerado a cada passo em direção à escuridão de uma das muitas prisões de Corvium. Como planejado, Farley nos conduz por uma escada e descemos até o nível das celas. Minha pele se arrepia ao ver as grades, as paredes de pedra pálidas sob a luz fraca de pouquíssimas lâmpadas. Pelo menos as celas estão vazias. Os prateados desertores de Cal estão no portão da reza, confinados no espaço que fica em cima dos arcos de Pedra Silenciosa, onde seus poderes são inexistentes.
— Eu distraio os guardas do nível inferior enquanto Harrick garante que vocês atravessem — Farley diz em voz baixa, tentando não deixar que suas palavras ecoem. Ela me passa duas chaves. — A de ferro primeiro — diz, indicando a chave de metal preto e áspero do tamanho do meu punho, e em seguida a outra brilhante e delicada, com dentes afiados. — Depois a de prata.
Enfio as duas em bolsos separados, de fácil acesso.
— Entendi.
— Não consigo mascarar o som tão bem quanto a visão, então você precisa ser o mais silenciosa que puder — Harrick sussurra. Ele cutuca meu braço e sincroniza seus passos com os meus. — Fique perto. Preciso manter a menor ilusão possível pelo máximo de tempo.
Respondo com um aceno de cabeça. Harrick precisa poupar sua energia para os reféns.
As celas ficam cada vez mais profundas sob o solo de Corvium. A umidade e o frio tomam conta, e minha expiração começa a soltar nuvens brancas no ar. Quando a luz fica mais forte ao virarmos uma esquina, não sinto nenhum conforto. Farley só vem até aqui.
Ela faz um gesto silencioso, acenando para nós dois. Me aproximo de Harrick. É agora. Agitação e medo percorrem meu corpo. Estou a caminho, Morrey.
Meu irmão está tão perto, cercado de pessoas que podem matá-lo. Não tenho tempo para me preocupar com a minha própria vida.
Alguma coisa balança diante dos meus olhos, caindo como uma cortina. A ilusão. Harrick me segura contra seu peito conforme avançamos juntos, nossos passos sincronizados. Vemos tudo muito bem, mas quando Farley vira para trás para verificar, seus olhos ficam procurando loucamente, de um lado a outro. Ela não nos enxerga.
Tampouco os guardas rebeldes no outro corredor.
— Tudo bem aqui embaixo? — Farley pergunta alto, pisando nas pedras com muito mais força do que o necessário. Harrick e eu seguimos a uma distância segura e viramos no corredor onde há seis soldados bem armados com cachecóis vermelhos e equipamentos táticos. Eles cobrem toda a passagem, ombro a ombro, firmemente posicionados.
Ficam bem atentos ao notar a presença de Farley. Um deles, um homem musculoso com o pescoço mais largo que minha coxa, responde em nome dos demais.
— Sim, capitã. Nenhum sinal de movimentação. Se os prateados pretendem tentar escapar, não vai ser pelos túneis. Nem mesmo eles são tão tolos.
Farley cerra a mandíbula.
— Bom, mantenham os olhos… Ai!
Tremendo, ela se inclina para a frente, apoiando uma das mãos na parede escura. Então coloca a outra na barriga. Seu rosto se contorce de dor.
Os guardas a ajudam prontamente; três deles correm para o seu lado. Deixam um buraco na fileira muito maior do que o necessário. Harrick e eu avançamos rápido, deslizando pela parede oposta para chegar à porta fechada no final do corredor. Farley fica olhando para a porta enquanto se ajoelha, ainda fingindo uma cãibra ou coisa pior.
A ilusão à minha volta se agita um pouco, indicando a concentração de Harrick. Ele não está escondendo só nós dois agora, mas uma porta se abrindo atrás de meia dúzia de soldados designados para guardá-la.
Farley berra enquanto enfio a chave de ferro na fechadura, girando o mecanismo. Os grunhidos de desconforto e os gritos de dor vão se alternando em um ritmo constante para distrair os guardas de qualquer rangido da fechadura. Por sorte, a porta é bem azeitada. Quando abre, ninguém vê ou ouve.
Fecho-a devagar, evitando fazer barulho. A luz desaparece a cada centímetro, até que ficamos na escuridão quase completa. Nem mesmo a agitação de Farley e dos soldados atravessa, abafada pela porta.
— Vamos — digo a Harrick, segurando firme seu braço.
Um, dois, três, quatro… Conto os passos na escuridão, passando a mão na parede congelante.
Sinto uma descarga de adrenalina quando chegamos à segunda porta, diretamente abaixo da torre principal. Não tive tempo de memorizar a estrutura, mas sei o básico. O suficiente para pegar os reféns e levá-los direto para a segurança da ala central. Sem reféns, os prateados não terão com que negociar. Precisarão se render.
Passando a mão pela porta, tento encontrar a fechadura. É pequena e sofro um pouco para enfiar a chave direito.
— Consegui — sussurro. Um aviso para Harrick e para mim mesma.
Enquanto avanço com cuidado para dentro da torre, percebo que talvez essa seja a última coisa que eu faça. Mesmo com meu poder e o de Harrick, não somos páreo para cinquenta prateados. Vamos morrer se der errado. E os reféns, já sujeitos a vários horrores, provavelmente vão morrer também.
Não vou permitir que isso aconteça. Não posso permitir.
A câmara adjacente é tão escura quanto o túnel, só que mais quente. A torre é cuidadosamente selada contra os elementos, exatamente como Farley disse. Harrick segue atrás de mim, e fechamos a porta juntos. Sua mão encosta de relance na minha. Não está tremendo agora. Ótimo.
Devia haver escadas… Sim. Bato os dedos do pé em um degrau. Sem soltar o braço de Harrick, nos conduzo pelas escadas, em direção a uma luz fraca mas crescente. Dois lances acima, exatamente como os dois lances que descemos para chegar às celas.
Murmúrios reverberam das paredes, altos o suficiente para ouvir, mas abafados demais para decifrar. Vozes atormentadas, discussões sussurradas. Pisco rápido quando a escuridão se esvai e chegamos ao andar principal da torre. Uma luz quente nos envolve, iluminando a escada em espiral que sobe até a câmara central. A espinha da torre. Ao longo de sua extensão, portas levam a vários andares, todas elas fechadas.
Meu coração bate em um ritmo trovejante, tão alto que acho que os prateados podem ouvir.
Dois deles patrulham as escadas, tensos e prontos para um ataque. Mas não somos soldados e não somos a Guarda Escarlate. Suas silhuetas ondulam ligeiramente, como a superfície inquieta de um lago. As ilusões de Harrick estão de volta, protegendo-nos de olhos inimigos.
Avançamos como se fôssemos um só, seguindo as vozes. Mal consigo respirar conforme subimos os degraus em direção à câmara central três andares acima. Nos esquemas de Farley, ela se espalha por toda a extensão da torre, ocupando um andar inteiro. Os reféns estarão lá, assim como a maioria dos prateados à espera do resgate de Maven ou da piedade de Cal.
Os patrulheiros prateados são musculosos. Forçadores. Os dois têm o rosto cinza como pedra e braços do tamanho de troncos. Eles não podem me partir ao meio, não se eu usar meu silêncio. Mas meu poder não funciona contra armas, e os dois têm muitas.
Pistolas duplas e rifles pendurados nos ombros. A torre está bem abastecida contra um cerco, e acho que isso significa que eles têm munição mais que suficiente para aguentar.
Um forçador desce as escadas quando nos aproximamos, a passos pesados. Agradeço a quem quer que seja o idiota que o colocou de vigia. Seu poder é força bruta, nada sensitivo. Mas certamente nos notaria se colidíssemos.
Passamos por ele com cuidado, as costas grudadas na parede. Ele segue o caminho sem demonstrar nem uma ponta de desconfiança, com a cabeça em outro lugar.
Do outro forçador é mais difícil desviar. Ele está encostado numa porta, as pernas longas esticadas à frente. Quase bloqueiam completamente a passagem, obrigando Harrick e eu a subir bem pelo canto. Agradeço pela minha altura. Ela me permite passar por cima dele sem nenhum incidente. Harrick não é tão gracioso. Seu tique volta dez vezes pior enquanto percorre os degraus, tentando não fazer barulho.
Apertando os dentes, deixo o silêncio se acumular sob minha pele. Me pergunto se conseguiria matar os dois antes que soassem o alarme. O pensamento me deixa enjoada.
Então Harrick tropeça, dando uma guinada para a frente. Não faz muito barulho, mas é suficiente para agitar o prateado. Ele olha de um lado a outro. Eu congelo, agarrando o braço esticado de Harrick. O terror sobe à minha garganta, implorando para gritar.
Quando ele vira de costas, olhando para o companheiro, cutuco Harrick.
— Lykos, você ouviu alguma coisa? — o forçador grita.
— Nadinha — o outro responde.
Cada palavra encobre nossos passos firmes, permitindo que avancemos até o topo das escadas e a porta entreaberta. Solto o suspiro de alívio mais silencioso que se pode imaginar. Minhas mãos também estão tremendo.
Dentro do cômodo, vozes baixas.
— Temos que nos render — alguém diz.
Palavras de oposição soam em resposta, encobrindo nossa entrada. Deslizamos como ratos até uma sala cheia de gatos famintos. Oficiais prateados se agrupam pelas paredes, a maioria deles feridos. O cheiro de sangue é avassalador. Gemidos de dor atravessam as várias discussões que se arrastam pela câmara. Gritam uns com os outros, os rostos brancos de medo, tristeza e agonia. Muitos parecem estar morrendo.
Engasgo com a visão e o fedor de homens e mulheres com ferimentos em diferentes estados. Não há curandeiros aqui, percebo. As feridas prateadas não vão sumir com o aceno de uma mão.
Não sou feita de gelo ou pedra. Aqueles com ferimentos mais graves estão alinhados na parede, a alguns metros dos meus pés. A mais próxima de mim é uma mulher, o rosto cheio de cortes. Sangue prateado se acumula sob suas mãos enquanto ela tenta em vão manter as entranhas dentro do corpo. Sua boca abre e fecha, como um peixe moribundo tentando respirar. Sua dor é muito profunda para divagações ou gritos. Um pensamento estranho me ocorre: Eu poderia acabar com seu sofrimento se quisesse. Poderia estender a mão e ajudá-la a partir em paz com meu silêncio.
Só de pensar nisso me sinto sufocar e tenho que desviar o olhar.
— Rendição não é uma opção. A Guarda Escarlate nos mataria, ou pior…
Pior? — cospe um dos oficiais deitados no chão, com o corpo ferido e remendado. — Olhe em volta, Chyron!
Dou uma olhada, ousando ter alguma esperança. Se eles continuarem gritando uns com os outros, isso vai ser muito mais fácil. Na outra extremidade da câmara, eu os vejo. A carne rosa e marrom, o sangue vermelho. Não menos que vinte adolescentes de quinze anos estão amontoados. Só o medo me mantém no lugar, separada de tudo o que anseio por uma série de máquinas mortíferas cheias de raiva.
Morrey. A segundos de distância. A centímetros.
Atravessamos a câmara com tanto cuidado quanto subimos as escadas, e duas vezes mais devagar. Os prateados em melhores condições perambulam, atendendo os mais feridos ou tentando se acalmar. Nunca vi prateados assim. Desprevenidos, tão de perto. Tão humanos. Uma oficial mais velha com muitas medalhas segura a mão de um jovem de uns dezoito anos. Seu rosto está branco como um osso, sem sangue, e ele pisca calmamente para o teto, esperando morrer. O corpo ao lado dele já se foi. Contenho um suspiro, me obrigando a manter a respiração silenciosa e uniforme. Mesmo com tantas distrações, não posso correr nenhum risco.
— Diga a minha mãe que a amo — um dos moribundos sussurra.
Outro quase cadáver grita chamando um homem que não está ali.
A morte desce como uma nuvem, lançando sua sombra sobre mim também. Eu poderia morrer aqui, como o restante deles. Se Harrick se cansar, se eu pisar onde não devia. Tento ignorar tudo menos meus pés e o objetivo à minha frente. Mas quanto mais avanço na câmara mais difícil fica. O chão oscila diante dos meus olhos, e não é por causa da ilusão de Harrick. Eu estou… chorando? Por eles?
Com raiva, limpo as lágrimas antes que caiam e deixem marcas no chão. Por mais que eu saiba que odeio essas pessoas, não consigo odiá-las agora. Toda a raiva que senti há uma hora se foi, substituída por uma estranha piedade.
Os reféns agora estão próximos o bastante para que eu encoste neles, e uma silhueta me é tão familiar quanto meu próprio rosto. Cabelo preto crespo, pele escura, membros desajeitados, mãos grandes com dedos tortos. O sorriso mais largo e brilhante que já vi, apesar de estar muito distante neste momento. Se eu pudesse, agarraria Morrey e nunca mais soltaria. Em vez disso, me arrasto atrás dele. Devagar e com precisão, me abaixo até ficar bem no seu ouvido. Tenho uma esperança impossível de que não se assuste.
— Morrey, é a Cameron.
Seu corpo se agita, mas ele não faz nenhum barulho.
— Estou com um sanguenovo, que pode nos deixar invisíveis. Vou tirar você daqui, mas precisa fazer exatamente o que eu falar.
Ele vira a cabeça, só um pouco, os olhos arregalados de medo. Tem os olhos da nossa mãe, pretos e com cílios pesados. Resisto ao desejo de abraçá-lo. Devagar, meu irmão balança a cabeça de um lado para o outro.
— Sim. Eu consigo fazer isso. — Respiro fundo. — Repita para os outros o que acabei de dizer. Seja discreto e não deixe que os prateados vejam. Vamos, Morrey.
Depois de um longo momento, ele aperta os dentes e concorda.
Não demora muito até que todos saibam da nossa presença. Ninguém questiona. Eles não têm esse luxo, não aqui, na barriga da fera.
— O que vocês estão prestes a ver não é real.
Faço um gesto para Harrick, e ele devolve o sinal. Está pronto. Devagar, ajoelhamos, agachando para nos misturar a eles. Quando a ilusão que ele está mantendo sobre nós se dissipar, os prateados não vão perceber de cara. Estão distraídos. Assim espero.
Minha mensagem viaja rápido. Os reféns estão tensos. Embora tenham a mesma idade que eu, parecem mais velhos, gastos pelos meses que passaram treinando para a guerra e depois em uma trincheira. Até Morrey, embora pareça mais bem alimentado do que jamais foi na nossa casa. Ainda invisível a seus olhos, estendo a mão e pego a dele. Seus dedos se fecham nos meus, segurando firme. A ilusão que nos mantém invisíveis é suspensa. Dois corpos se juntam ao círculo de reféns. Os outros piscam para nós, se esforçando para não demonstrar surpresa.
— Aqui vamos nós — Harrick sussurra.
Atrás de nós, os prateados continuam brigando entre mortos e moribundos, sem desperdiçar um só pensamento com os reféns.
Harrick estreita os olhos, se concentrando na parede curvada à nossa direita. Sua respiração é pesada, o ar sibila ao entrar por suas narinas e sair pela boca. Está reunindo forças. Eu me preparo para o estouro, embora saiba que não é real.
De repente a parede explode em uma florescência de fogo e pedras, expondo a torre para o céu. Os prateados tremem, se afastando do que pensam ser um ataque. Jatos passam, atravessando as nuvens falsas. Pisco, sem acreditar nos meus olhos. Não deveria acreditar nos meus olhos. Isso não é real. Mas parece surpreendente e impossivelmente real.
Não que eu tenha tempo para ficar boquiaberta.
Harrick e eu levantamos em um pulo, reunindo os outros. Atravessamos o fogo, as chamas próximas o suficiente para nos queimar. Hesito mesmo sabendo que não é real.
O fogo é distração suficiente, alarmando os prateados para que possamos atravessar a porta e chegar às escadas.
Sigo em frente, liderando o grupo, enquanto Harrick protege a retaguarda. Ele agita os braços como um bailarino, tecendo ilusões. Fogo, fumaça, mais uma rodada de mísseis. As imagens impedem que os prateados nos sigam, com medo. O silêncio explode de mim, em uma esfera de poder mortal para derrubar os dois vigias prateados. Morrey pisa no meu calcanhar, quase me fazendo tropeçar, mas agarra meu braço, impedindo que eu caia por cima do corrimão.
— Pare! — O primeiro forçador aponta a arma para mim, a cabeça baixa como um touro. Jogo o silêncio para dentro de seu corpo, forçando meu poder garganta abaixo. Ele vacila, sentindo o peso da minha habilidade. Sinto também, a morte atravessando sua pele. Tenho que matá-lo. E rápido. A força da minha urgência faz sangue escorrer de sua boca e de seus olhos enquanto pedaços de seu corpo morrem, um órgão após o outro. Sufoco a vida que há nele mais rápido do que jamais matei alguém.
O outro forçador morre ainda mais depressa. Quando o acerto com outro soco exaustivo de silêncio, ele tropeça e cai de cabeça. Seu crânio se parte contra o chão de pedra, derramando sangue e massa cinzenta. Um soluço me asfixia, mas não tenho tempo de questionar o nojo repentino de mim mesma. É por Morrey. Por Morrey.
Meu irmão parece tão agoniado quanto eu, os olhos grudados no forçador morto sangrando no chão. Digo a mim mesma que só está em choque, e não com medo de mim.
— Vamos! — grito, com a voz sufocada pela vergonha. Felizmente, ele faz o que digo, correndo para o andar mais baixo com os outros.
Embora a entrada principal esteja bloqueada, os reféns trabalham rápido, tirando as fortificações prateadas até que as portas duplas estejam à mostra, uma única fechadura entre nós e a liberdade.
Pulo o crânio esmagado do forçador, jogando a pequena chave prateada. Morrey a pega. Seu recrutamento e minha prisão não apagaram nosso laço. A luz do sol entra quando Morrey abre as portas e sai para o ar fresco, os outros reféns correndo atrás dele.
Harrick desce as escadas atrás de mim voando, o fogo falso logo atrás dele. Faz sinal para que eu siga em frente, aponta para onde devo ir, mas fico parada. Não vou deixar este lugar sem ele.
Saímos cambaleando juntos, agarrados um ao outro, e damos de cara com uma praça cheia de guardas perplexos e armados até os dentes. Eles nos deixam passar por ordem de Farley. Ela grita de algum lugar, mandando que se concentrem na entrada da torre, caso os prateados tentem partir para uma investida.
Não ouço suas palavras, só continuo andando até ter meu irmão em meus braços. Seu coração bate acelerado. Ele está vivo.
Ao contrário dos forçadores.
Ainda consigo sentir o que fiz com eles.
O que fiz com cada uma das pessoas que já matei.
As lembranças me deixam tonta de vergonha. Tudo por Morrey, tudo para sobreviver. Nada além disso.
Não preciso ser uma assassina além de todo o resto.
Ele se agarra a mim, os olhos se revirando de pavor.
— A Guarda Escarlate — Morrey sussurra, me abraçando apertado. — Cam, temos que correr.
— Você está seguro, está com a gente agora. Eles não vão nos machucar, Morrey!
Mas em vez de se acalmar, seu medo triplica. Ele me agarra ainda mais forte enquanto sua cabeça vai de um lado para o outro, tentando contar os soldados de Farley.
— Eles sabem o que você é? Cam, eles sabem?
A vergonha vira confusão. Me afasto um pouco dele, para ver melhor seu rosto.
Morrey respira com força.
— O que eu sou?
— Eles vão te matar por isso. A Guarda Escarlate vai te matar pelo que você é.
Cada palavra me acerta como um martelo. Então percebo que meu irmão não é o único ainda com medo. O resto de sua unidade, os outros adolescentes, se aglomera por segurança, cada um deles se afastando dos soldados da Guarda. Farley encontra meu olhar há alguns metros de distância, tão confusa quanto eu.
Então olho para ela do ponto de vista do meu irmão. Olho para todos os soldados, considerando o que ele foi ensinado a ver.
Terroristas. Assassinos. O motivo pelo qual foram recrutados.
Tento envolver Morrey em um abraço, tento sussurrar uma explicação.
Ele fica gelado em meus braços.
— Você está com eles — meu irmão diz, olhando para mim com tanta raiva e acusação que meus joelhos vacilam. — Você é da Guarda Escarlate.
Minha alma se enche de pavor.
Maven levou o irmão de Mare.
Terá levado o meu também?

33 comentários:

  1. Eu adoraria ter esse poder da Ada na hora de fazer as provas do Enem e etc.

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    1. Kkkkkkk ne pode crê nem iria precisar estudar tanto

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  2. A cada palavra essa garota tem que citar a Mare :O

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  3. Eles esquecem que o Cal perdeu a mãe ainda
    pequeno. Foi obrigado a matar o pai e ainda " perdeu" o irmão que amava. E para completar perdeu a Mare a dor deles não é maior que a dele.

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  4. Será que só eu que fico irritada quando a Cameron tem que falar da Mare como se fosse melhor?

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    1. Concordo com vc!!
      Ela fala como se a Mare fosse um monstro...
      Mas ela faria td pelo irmão passaria por cima de tudo e de todos por ele..
      Ela n eh melhor que a Mare

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  5. Mds será q a autora vai juntar camaron e call n né por favor c issu acontecer eu vou chorar

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    1. Percebi isso tb! Se isso acontecer, acho que morro! Essa garota é uma nojenta!

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  6. Simplesmente não consigo ler os capitulos da Cameron. Pulei quase tudo u.ú

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  7. A Cameron tá é certa. O Cal pode até ter perdido os pais, mas nunca viveu como um vermelho. Sempre submisso aos prateados. Ele não passa de um garotinho mimado, que só pensa nos prateados. Vocês acham que ele está com a Guarda Escarlate porque sente pena dos vermelhos? Só está com eles por causa da Mare.
    Pronto, Falei!

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    1. Até que em fim alguém aqui foi realista.Sinceramente a Cameron esta certa, e ela e diferente da Mare ela consegue controlar os seus poderes , Não faz que nem.ela que qualquer bobeira quer soltar os raios

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    2. Disser que a Cam tá certa é muita ingenuidade, o Cal pode até não saber a dor de um vermelho, maw tem a dor de quem um dia teve tudo e tudo perdeu a Cam é só uma adolescente rebelde que tá cometendo os mesmo erros da Mere e começando a sentir a dor da perda.

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  8. Só pode ser inveja! Pelo amor de Zeus! O fixação com a Mare!

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  9. vey alguém tem matar essa menina pq cara ela sempre fala coisas ruins da Mare e acha q a dor dela é maior do q a das outras pessoas affs

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  10. eu odeio essa Cameron falando que saco

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  11. Que personagem chata Jesus amado ... Pulei quase tudo u.u

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  12. Acho que a Guarda e o Cal usaram a Cameron para resgatar os reféns. Acho que foi tudo armação. E acho que foi pouco pra essa garota. Podia ter ficado com pelo menos uma cicatriz na cara!

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  13. Não gosto desses capítulos da Cameron , ela fala como se tudo fosse culpa da Mare.

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  14. ainda não consigo suportar essa Cameron ela é muito chata... eles precisam entender o Cal ele foi oq mais sofreu no livro perdeu tudo...
    Ass: Mary bonetti

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  15. Eu achei que era a única que não suportava a Cameron, eita menina chata! Toda vez que há um capítulo com a narração dela eu tenho vontade de socar a cara dessa menina cheia de ego.

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  16. Não consigo gostar da Cameron

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  17. talvez mas creio que ela tem utilidade como disse o vidente jon

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  18. Toda vez que chega nos capítulos da Cam eu tenho que me esforçar muito para ler. Já estou cansada dela! Na boa, muito chata. 🙄 Que horas ela cresce e vê que o mundo não gira entorno do seu próprio umbigo? 🤔

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  19. Essa Cameron deve ser muito importante pra ter tanto espaço no livro. Aff

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  20. Essa Cameron é bem afim do Cal, aff menina chata. Se acha. Babaca.

    Eu amo o Cal mas acho q ele tá armando algo, todo mundo pode trair todo mundo.
    Ass: Déborah A.

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  21. A Cam na vdd admira a Mare, mas ela é uma adolescente rebelde,não entende ainda seus propios sentimentos. Acho que a autora tem planos pra ela...ela não escolheria entre tantos personagens a Cam,só pra mostrar o jeitinho arrogante e egoísta dela.
    Mare JÁ TÁ mudando...ela vai mudar tbm 😊

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  22. PACIÊNCIA MEU POVO!!! O ARCO ÍRIS É GRANDE,MAS NO FINAL TEM UM POTE DE OURO 😉

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  23. Gente eh errado o fato de eu odiar a Cameron?

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  24. Tenho vontade de pular essas narrações dela. Se ela não falasse sempre da Mare até que eu entenderia.
    Será que ela esquece que o Cal foi obrigado a matar o pai?
    Perdeu todos que amam e é obrigado a viver com pessoas que o odeiam.
    É errado o que os prateados fizeram aos vermelhos mas nem todos tem culpa né.
    É como culpar alguém que tem melhores condições do que outros.
    Só essas partes que estragam o livro

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  25. Não sou Mare Barrow. Não vou entregar meu irmão para essa causa.

    Alguém me explica?

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    1. Shade estava lutando com eles, e o que aconteceu? Na verdade todos os irmãos dela lutam, né? E o que pode acontecer com quem vai para a batalha? Cameron quer proteger o irmão

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  26. Aff que menina chata do krl está obsessão que ela tem pela Mare está me irritando profundamente. Acha que é a única que sofreu na vida, mas não! Ela não passou nem por 1/3 do sofriemnto que muitos tiveram. Na visão dela tudo que acontece de ruim é culpa da Mare ou do Cal. Eu preferiria mil vezs a narravtiva ser devidida entre Mare ou Cal ou Farley ou até mesmo pelo Kilor. Esperando ansiosa pelo dia que está pirralha levar uma surra bem dada para aprender alguns lições da vida.

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Boa leitura :)